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Wednesday, 1 September 2021

O essencial da entrevista do Papa à Cadena COPE

A “silly season” costuma terminar com o final de Agosto, e parece que assim foi. O espanhola Cadena COPE divulgou esta quarta-feira uma longa entrevista ao Papa Francisco, cheia de coisas interessantes, como o facto de assumir que tem medo dos “demónios bem-educados”.

O Papa começa por falar da luta contra a corrupção e de como foi necessário, para tal, reformar o sistema judicial. Expressa ainda o desejo, sem se comprometer, de que o cardeal Becciu, actualmente ser julgado, seja inocente.

Francisco não foge a temas como os abusos sexuais na Igreja, mas pergunta por que razão os estados não fazem mais para combater a pornografia infantil dentro das suas fronteiras, afirmando que não acredita que seja por falta de conhecimento.

O diálogo com a China também foi falado, com Francisco a defender que este deve continuar, mas a aceitar que existam dúvidas e críticas legítimas ao que foi alcançado até agora.

E por fim o Papa deixa um recado aos próprios espanhóis, apelando a que se reconciliem com a história do século passado, dizendo ainda que a Europa tem de escolher entre aperfeiçoar-se ou desintegrar-se.

Noutras latitudes, os EUA deduziram acusação contra um padre americano em Timor-Leste por abusos sexuais. Richard Daschbach já está a ser julgado em Timor e foi laicizado pela Igreja. Mas conta naquele país com importantes aliados.

E o tema do artigo do The Catholic Thing em português é, hoje, a aparente derrota dos EUA e aliados no Afeganistão. A ex-militar Michele Maria McAloon explica qual deve ser a atitude cristã peranteesta realidade.

Wednesday, 9 June 2021

Em Cada Homem um Monge

Brad Miner

O jovem cura do “Diário de um Pároco de Aldeia”, de Georges Bernanos (1937) rumina sobre monges (cartuxos e trapistas):

Que milagre permite a estes semi-lunáticos, estes prisioneiros dos seus próprios sonhos, estes sonâmbulos, entrar aparentemente mais fundo, cada dia, na dor de outros? Um estranho tipo de sonho, um opiáceo pouco comum que, longe de o fazer voltar-se sobre si mesmo e isolar-se dos seus contemporâneos, une o indivíduo com a humanidade num espírito de caridade universal!

O claustro sempre nos separou de tais homens (e mulheres), mas houve uma altura em que a sua presença foi, todavia, poderosa.

Escrevendo sobre o monasticismo medieval, o historiador Friedrich Heer insiste que a busca do monge pela perfeição foi influente a todos os níveis na sociedade. “Há algo de grande importância política e social… Todas as esperanças, orações e exigências que o cristão medieval colocava nos monges e nos mosteiros estavam centrados numa expetativa: que alcançassem a total santidade de uma vida cristã perfeita”.

Claro que a perfeição não é dada a qualquer homem. Mas é possível aspirar à perfeição, isto é, aos padrões mais altos possíveis em todos os aspetos da vida.

O ponto alto do monasticismo chegou à volta do ano 1100, altura em que a grande abadia beneditina de Cluny, em França (e que já contava duzentos anos) mais parecia a sede de uma corporação verdadeiramente multinacional de fé, educação, diplomacia e empreendedorismo, com um milhar de ramos localizados por toda a Europa. O abade de Cluny, democraticamente eleito, era provavelmente o homem mais poderoso da Europa depois do Papa, que era por sua vez a única pessoa no mundo a quem o abade devia obediência. Muitos papas desta era foram antigos monges de Cluny.

Cluny era um mosteiro beneditino, mas deu lugar à ordem cisterciense, que por sua vez deu lugar aos trapistas. Tradicionalmente os beneditinos usavam hábitos pretos, os cistercienses brancos e os trapistas usavam um capuz preto por cima de um hábito branco.

As abadias cistercienses são conhecidas como “viveiros de santidade” por tantos dos seus membros terem sido canonizados. Cada nova ordem representou um impulso para reformar o monasticismo, a Igreja ou a própria fé, e por de trás de cada uma destas sacudidelas estava a imperativo para se viver mais fielmente a Regra, o guia espiritual e organizacional criado por São Bento de Núrsia no Século Sexto.

São Bento pode bem ser o homem mais subestimado da história do Ocidente. Claro que é o Santo Padroeiro da Europa, mas espanta-me quantas pessoas não sabem nada sobre ele (ou não sabiam, até terem lido “A Opção Beneditina” de Rod Dreher). Não foi o primeiro monge, mas foi certamente o maior, o que explica porque é que Joseph Ratzinger escolheu esse nome quando foi eleito Papa.

Os primeiros monges eram anacoretas (grego para “aquele que se retira”), homens que partiam sozinhos para o deserto no Século IV. Raramente interagiam com outros que não fossem também ermitas, a quem talvez se juntassem para a missa dominical. Alguns eram itinerantes e mendicantes.

Pouco depois disso surgiram uma série de casas cenobíticas. A palavra deriva do latim para “vida comum”. Um convertido egípcio, São Pacómio, fundou o primeiro mosteiro em 312 e, quando morreu, em 348, já havia três mil monges, em nove mosteiros, na maioria no Egito e no que hoje chamamos o Médio Oriente. A regra que ele escreveu para governar a vida da comunidade acabou por ser a fonte principal para os estatutos de São Bento. A regra de Pacómio foi traduzida para o latim por São Jerónimo, que foi também responsável pela Bíblia em Latim, a Vulgata. Santo Agostinho utilizou a regra para organizar a sua comunidade no Norte de África.


Mas foi a regra expansiva e compassiva de Bento que tocou mais profundamente a alma, e que desde então a tem mantido a vibrar.

Bento foi anacoreta durante alguns anos antes de se juntar a uma comunidade, onde adaptou várias das constituições monásticas mais populares à sua Regra. Os primeiros monges que estavam sob as suas ordens ficaram irrequietos e até o tentaram envenenar, segundo a lenda. Mas quando Bento benzeu o vinho que lhe ofereceram o copo estilhaçou. Entristecido e enojado, partiu para as montanhas.

Foi no mosteiro que construiu no Monte Cassino, perto do Rio Rapido, no centro de Itália, a cerca de 130 quilómetros de Roma, que promulgou a sua famosa Regra. Poucos homens antes, ou desde ele possuíram um sentido tão claro das forças e das fraquezas do coração humano. A Regra de São Bento equilibra a autocracia (a autoridade do abade) com a democracia (a voz individual dos monges). Unifica o trabalho manual e o ensino superior.

Tem sido dito que os monges beneditinos salvaram o conhecimento e a literatura da Europa durante a instabilidade da chamada Idade das Trevas. E na medida em que isso é verdade, o crédito deve ser atribuído ao seu fundador. Mas há mais.

O monasticismo foi uma das forças culturais dominantes na Europa durante o milénio que correu do ano 500 até 1500 e a Regra Beneditina foi uma das obras não-bíblicas mais lida e estudada durante esse período. Ainda por cima, foi durante esta era que se formaram os primeiros estados-nação e se fundaram as primeiras universidades e guildas. Cada inovação, à sua maneira, devia muito às lições aprendidas da governação, educação e organização desenvolvidas nas casas beneditinas: de tal forma que podemos mesmo pensar se Bento não deveria ser padroeiro da própria modernidade. Isto é, das partes boas.

E não é de espantar que Alasdair MacIntyre, um dos maiores filósofos católicos ainda vivos, tenha terminado a sua grande obra After Virtue com as palavras: “Aguardamos a vinda não de um Godot, mas de um novo – sem dúvida muito diferente – São Bento.”


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Junho de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Wednesday, 18 November 2020

Cristãos iraquianos voltam para casa, bispos de Leiria também

O Papa disse esta manhã que “a oração acalma os inquietos”. Será verdade? Alguma vez viram um trapista inquieto? Então pronto.

Boas notícias do Médio Oriente. Três anos depois de o Estado Islâmico ter sido expulso de Mossul, mais um grupo de cristãos regressa a casa. Ainda assim, há muito a fazer e por isso a fundação AIS apela à generosidade de todos.

Boas notícias também em Leiria, onde D. António Marto teve alta hospitalar e vai poder ir recuperar para casa.

Os bispos católicos da Europa querem que a União Europeia encontre soluções solidárias e conjuntas para a crise provocada pela pandemia.

Faz sentido uma universidade ser cristã? A identidade religiosa não será um obstáculo à busca pelo conhecimento e pela verdade? Randall Smith discorre sobre isto no artigo desta semana do The Catholic Thing, recordando que foi precisamente no seio do Cristianismo que o conceito da universidade nasceu.

Wednesday, 22 May 2019

Europa sem passado é Europa sem futuro

A Associação dos Juristas Católicos encoraja os eleitores a votar no domingo, mas deixa também recados aos partidos e críticas a uma Europa que, caso se esqueça de onde vem, não saberá para onde vai.


A reitora da Universidade Católica Portuguesa foi homenageada nos Estados Unidos e pede mais mulheres em posições de liderança.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é muito belo, e fala de grande beleza. Randall Smith reflecte sobre como ter visto uma mulher a embalar o seu bebé na missa despertou nele pensamentos sobreos mistérios do amor divino e da encarnação. Leiam, mesmo!

Wednesday, 7 June 2017

A Outra Europa

A semana passada, enquanto o líder do mundo livre estava ocupado a destruir o sistema americano de alianças cuidadosamente construído ou a abalar a estrutura política nacional e estrangeira para poder lidar com os desafios ambientais, dependendo dos órgãos de comunicação que vêem, aconteceu algo igualmente importante – e mais fundamental – na Hungria, que passou quase despercebido.

Fui convidado para falar no 11º Congresso Mundial para as Famílias, que decorreu em Budapeste. Mas é difícil exprimir o quão inspirador e esperançoso – e inesperado – foi o evento.

Estamos tão afundados nas nossas obsessões políticas que quase nunca ouvimos falar disso, mas há milhares de activistas e organizações de defesa da família e do casamento a trabalhar à volta do mundo. A maioria esteve presente em Budapeste a semana passada. E mais importante que tudo, fora da Europa Ocidental, da América do Norte e de países culturalmente parecidos como a Austrália e a Nova Zelândia, os países não estão de todo a seguir as modas absurdas e suicidas sobre casamento e filhos que acreditamos, falsamente, terem dominado o mundo.

A Hungria é um exemplo na própria Europa. O primeiro-ministro, o ex-dissidente soviético Viktor Orban, conseguiu inverter a tendência desastrosa de casamento e nascimentos que a Hungria, à imagem da Europa ocidental, revelava há anos. É o resultado tanto de compromissos sociais como de políticas específicas.

A Constituição da Hungria de 2011, a primeira adoptada desde que recuperou a liberdade depois da queda da União Soviética, diz o seguinte:

Artigo L (1) A Hungria protegerá a instituição do casamento enquanto união entre um homem e uma mulher, estabelecida voluntariamente, e a família como base da sobrevivência da nação. Os laços familiares basear-se-ão no casamento e/ou na relação entre progenitores e filhos. (2) A Hungria encorajará o compromisso de ter filhos.

Pode parecer um gesto vazio de sentido, tendo em conta a cultura dominante entre as elites internacionais, mas há dez anos a Hungria tinha um índice de casamento de 3,6 por mil, o mesmo que países do Sul da Europa como Itália, Espanha e Portugal. Agora está perto dos 4.75 e continua a subir.

De igual forma o índice de fertilidade na Hungria passou do mesmo que a Europa Ocidental para cerca de 1,45 – e parece estar a subir em direcção aos mágicos 2,1 necessários para garantir a estabilidade demográfica. Estas mudanças levam tempo e o Governo da Hungria reconhece que não haverá estabilidade demográfica até cerca de 2030. Entretanto foram inseridas no sistema húngaro uma série de vantagens para as famílias por forma a encorajar não só o casamento e a procriação, mas famílias com três filhos ou mais.

A recuperação de atitudes saudáveis a respeito do casamento e da família não é uma impossibilidade quando a sociedade reconhece que ambos são importantes para o bem-estar humano e para a estabilidade social, e desde que os governos nacionais não empreendam uma cruzada para os destruir.

Na verdade, a resistência da Hungria aos esforços da União Europeia para expandir o “casamento” gay tem citado a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais: “O direito de contrair casamento e o direito de constituir família são garantidos pelas legislações nacionais que regem o respectivo exercício.” As relações jurídicas são sempre complexas, claro, mas a Carta Europeia, como a Constituição americana, não dá ao Governo central qualquer jurisdição sobre o casamento e a família.

E não é só a Hungria. A Eslováquia emendou a sua constituição em 2014 e definiu o casamento da mesma forma que a Hungria. E isso foi sob um Governo socialista. Na Polónia o artigo 18º da Constituição diz: “O casamento, sendo uma união entre um homem e uma mulher, bem como a família, maternidade e paternidade, serão colocadas sob a protecção da República da Polónia”. A Roménia está a seguir o mesmo caminho.

Claro, estas não são as grandes potências da Europa. A Alemanha, França e Reino Unido – e sobretudo a distante América – são quem define, em larga medida, a agenda da comunidade internacional. Pelo menos é isso que os radicais querem que se pense sobre os poderes das Nações Unidas e outras organizações como a Organização Mundial de Saúde.

Mas vejam isto:




As áreas azuis escuras são os lugares onde o “casamento” gay é legal. Mas os países encarnados são aqueles onde é ilegal – sendo o casamento definido como sendo entre um homem e uma mulher. As áreas azuis estão no meio, tanto geográfica como juridicamente: permitem algumas formas de união “não-tradicional”, mas não as equacionam ao casamento.

De certa forma até na Europa existe divisão entre estados azuis e encarnados. Apesar de todas as acusações de que o casamento, a família, a moral sexual etc. têm sido feitos reféns por “progressistas”, isto é, radicais que não sabem bem com o que é que se meteram, mesmo na Europa decadente e em colapso demográfico existe resistência significativa.

Não deve ser por acaso que é precisamente nas periferias europeias, as partes que até há pouco estavam sob domínio comunista, que a resistência é mais forte. Elas ainda se lembram dos antigos totalitarismos e não se deixam intimidar pelos novos.

Mais, têm a vantagem de poder ver – tanto na América como na Europa ocidental – onde é que a nova ética totalitária conduz: A uma perda de fibra social e uma perda, literal, daquilo que forma uma sociedade – pais com filhos.

Claro que, por terem enfrentado esta crise de frente e por se terem recusado a aceitar refugiados muçulmanos para colmatar as falhas demográficas, têm sido acusados de esmagar os direitos dos homossexuais e de estarem a encorajar uma nova forma de nacionalismo perigoso, com tons fascistas.

Viktor Orban é pai de cinco filhos. Muitos dos seus ministros e secretários de Estado são pessoas novas com famílias grandes. E no resto da Europa central e sudeste as principais figuras políticas têm filhos, ao contrário dos líderes da União Europeia, da Alemanha, de França, Itália e Reino Unido.

Os opinadores progressistas pensam que estão “do lado certo da história”. Mas é difícil dizer o que será precisamente o futuro progressista, uma vez que não parece preocupar-se com o futuro literal de crianças e sociedades suficientemente férteis para se reproduzirem.

Do nosso ponto de vista essa forma de encarar o mundo é que passou à história, no sentido de que já pertence ao passado e não tem futuro a longo prazo. Outros modelos, mais esperançosos mas que dão menos nas vistas, estão a surgir numa variedade de lugares inesperados.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 1 de Junho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 January 2017

Islamismo e o Ocidente, o Grande Desafio para 2017

Alguns jornais europeus noticiaram – muito discretamente – que de acordo com polícia na região alemã de Vestefália/Renânia do Norte, entre 2011 e 2016 houve 3.500 casos de vandalismo/profanação de igrejas cristãs. Corresponde a cerca de dois por dia, só numa região da Alemanha, todos os dias, ao longo de cinco anos.

O mais provável é que nunca tenha ouvido falar disto. A maioria dos europeus também não, porque… Bom, porque não. Mesmo estes números vagos são difíceis de conseguir. Em vários países a polícia não quer assustar o público, dando a ideia de que não consegue fornecer segurança básica – lembram-se dos casos de assédio sexual a mulheres na passagem de ano o ano passado? E, claro, há ainda o factor do politicamente correcto.

As autoridades alemãs dizem que os ataques em Vestefália são em larga medida da responsabilidade de salafitas jihadistas, que roubam dinheiro das caixas de esmolas para ajudar a financiar as suas actividades. Os salafitas tendem a proibir o uso da razão (kalam) em assuntos de religião e entre eles há opiniões divergentes em relação à jihad violenta. Há cerca de 7.500 salafitas na Alemanha, 17.000 em França, milhões no Egipto e na Índia e grupos mais pequenos na Suécia e na China. Há-de haver um número significativo, mas desconhecido, nos Estados Unidos.

Se quer saber qual será um dos factores decisivos em 2017, pode bem ser como o Ocidente lida, ou deixa de lidar, com desafios como aqueles que são apresentados por movimentos como o salafita, ao estilo do massacre no mercado de Natal em Berlim, inspirado pelo Estado Islâmico.

A China e a Rússia exigirão políticas externas duras e criativas do ponto de vista da economia. A política interna americana vai ser uma batalha campal. Mas o islamismo envolve desafios fundamentais ao nível do pensamento e das crenças.

De facto, mais do que uma ameaça externa, o islamismo envolve uma crise no próprio Ocidente. A chanceler alemã Angela Merkel disse que o problema na Europa não é um excesso de muçulmanos, mas uma escassez de Cristianismo. É uma forma já tardia de justificar a entrada de mais de um milhão de muçulmanos, sem qualquer examinação, na Alemanha e, por consequência, para toda a Europa e até mais além, devido aos acordos Schengen.

Mas Merkel não deixa de tocar uma verdade, embora talvez não aquela que pretendia. Não é só o Leste que está em tumulto, o Ocidente também está, como se torna evidente pelos primeiros sinais de desintegração da União Europeia e a revolta populista que levou à eleição de Donald Trump.  

A velha ordem liberal, baseada no pluralismo e na tolerância, foi boa enquanto durou, enquanto o Ocidente gozava da protecção providenciada pela tradição judaico-cristã. Quando se acredita, como se lê no Génesis, que os seres humanos são feitos à imagem de Deus, é fácil compreender porque é que devemos respeitar-nos uns aos outros, na medida em que todos temos livre arbítrio e uso da razão.

Mas quando, como acontece com as elites ocidentais, se deixa de acreditar que a dignidade humana é transversal, é difícil explicar porque é que o outro merece respeito enquanto ainda está no ventre, ou quando discorda de nós no que diz respeito à política ou à fé.

Os nossos partidos políticos foram-se alinhando em posições radicalmente opostas, com os republicanos a promover a fé, família e nação e os democratas a raça, género e classe. Claro que isto é uma simplificação, mas traduz em linhas gerais o destino do país sob um partido ou outro. Com o Presidente Trump, as irmãzinhas dos pobres não têm nada a temer mas a Planned Parenthood sim. Se Hillary tivesse ganho, seria ao contrário.

Existe uma divisão semelhante no que diz respeito à defesa do Ocidente. Trump defende medidas mais severas, os democratas acreditam que podemos continuar a tratar os muçulmanos como apenas mais um grupo religioso numa América religiosamente pluralista.

Há aqui questões delicadas, e outras não tão delicadas. A administração Democrata que atropelou os cristãos e outros que resistiram a nova moral do Estado moderno, mas que desdramatizou a ameaça islamita, não foi capaz de fazer esta distinção.

Salafitas na Alemanha
É evidente que podemos coexistir com muçulmanos que queiram coexistir connosco. Mas a presença de jihadistas – que essencialmente compõem uma força armada amorfa na nossa sociedade – há-de conduzir-nos cada vez mais na direcção de testes religiosos para entrar no país, ou até mais longe.

O filósofo político Pierre Manent argumenta que a França está perante esta crise porque as suas elites ainda acreditam, em larga medida, que de acordo com as regras iluministas da revolução francesa, este problema não deve sequer existir. Pensam que se todos forem acolhidos pelo Estado secular, verão que só têm a ganhar em assimilar-se e dar-se com a sociedade. Logo, os conflitos que possam existir só podem ter a ver com dinheiro e exclusão social. Como se não houvesse quaisquer outras visões da política, sociedade ou religião.

Isso tem sido dado como falso repetidamente. No dia 11 de Setembro em Nova Iorque e em Washington, e noutras ocasiões em Madrid, Copenhaga, Boston, Paris, Bruxelas, Saint-Étienne-du-Rouvray, Nice, San Bernardino, Columbus, Orlando, Cairo e há dias em Istambul.

Os nossos líderes seculares e – infelizmente – religiosos, têm feito verdadeiras manobras de contorcionismo para negar que haja qualquer factor “autenticamente” religioso nestes ataques. Até o Vaticano, que pensar-se-ia poder apreciar o papel central da religião na vida humana, se juntou ao coro, afirmando que os verdadeiros motivos são dinheiro, poder, petróleo, o negócio das armas – tudo menos religião.

Tudo isto faz lembrar o debate sobre a União Soviética durante a Guerra Fria, quando uma fatia significativa da opinião pública do Ocidente quis desdramatizar as diferenças em relação a um sistema agressivamente ateu e armado com milhares de armas nucleares, principalmente, deve-se dizer, por medo das consequências de enfrentar a verdade.

Actualmente o Ocidente está quase tão dividido como o Oriente em termos de religião e aquilo que a fé significa para as pessoas. Não vamos ultrapassar esta brecha em 2017 – pelo contrário, é natural que se torne ainda maior, à medida que a já forte resistência ao Presidente Trump ganha força. Mas uma sociedade sã encararia 3.500 ataques a Igrejas cristas – e sabe-se lá quantas mais noutros locais – como um sinal de alarme.

Nada disto corresponde a uma “guerra contra o Islão” – isso é um falso problema – mas sim a uma batalha perpétua contra todos aqueles, incluindo os da nossa própria cultura, que ameaçam as fundações da dignidade e liberdade humanas.

Feliz Ano Novo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 6 May 2016

#ultimodianochiado

A última missa celebrada na capela
da Renascença na Rua Ivens, nº 14
Alepo, na Síria, é o “novo Sarajevo” e precisa das suas orações.

O Papa Francisco enviou novamente uma mensagem de apoio à Caminhada pela Vida que, recordo, realiza-se no sábado dia 14, em Lisboa.

Já este domingo há a festa da família do Patriarcado de Lisboa, na Casa do Gaiato, em Loures.

Esta sexta-feira começou com o Papa a receber o prémio Carlos Magno e a confessar que tem um sonho para a Europa.

Já há peregrinos a caminho de Fátima. Como sempre, apelos ao bom senso não só dos peregrinos mas também dos automobilistas, para evitar mais situações de atropelamentos, como houve hoje.


Este é o último mail que vos envio a partir do Chiado. A partir de segunda-feira a Renascença de Lisboa estará na Quinta do Bom Pastor. Com a confusão que isso pode acarretar, não garanto que haja mail, mas tentarei.

Wednesday, 21 January 2015

Só o Charlie Hebdo não Chega

Jason Scott Jones e John Zmirak
O atentado contra o Charlie Hebdo foi um ataque à Cristandade. Paradoxalmente, jornais que publicam caricaturas imaturas a gozar com a religião também fazem parte do Corpo de Cristo – ainda que sejam o intestino delgado, talvez. Numa sociedade formada por uma noção profundamente cristã da dignidade humana, há espaço para maus cristãos e até para não-cristãos, da mesma maneira que existem celas para carmelitas místicas. A visão mais alargada de uma sociedade verdadeiramente cristã, no sentido terreno, não se encontra nos tratados monásticos mas sim nos Contos de Cantuária.

Qualquer tentativa de “purificar” as sociedades cristãs da dissensão e do pecado à força, acaba sempre em catástrofe: com “hereges” agrilhoados, judeus identificados e pilhas de obras de arte em cima de fogueiras. Estas tentativas de truncar o Corpo de Cristo dos seus membros “impuros” deixaram sementes de vingança que deram brotaram em 1798 em França e em Espanha na década de 1930. No Concílio Vaticano II a Igreja renunciou totalmente a quaisquer aspirações de dominar as almas dos homens através da espada do Estado – reconhecendo que a perseguição religiosa é intrinsecamente má, tal como o adultério e o aborto.

Por isso é doentio ver alguns comentadores a arranjar desculpas para a matança de jornalistas, sugerindo que as vítimas “estavam a pedi-las” por terem enfurecido as sensibilidades dos muçulmanos. Como disse Ross Douthat, qualquer religião que ameaça matar os seus críticos precisa de, e merece, ser gozado desta forma – é um método de autodefesa por parte dos não-crentes.

Mesmo os crentes precisam de algum espaço para poderem brincar com as exigências infinitas da religião, por forma a sublinhar o valor da vida terrena perante aqueles que procuram forçar um sentido puramente espiritual em cada centímetro quadrado da existência. Este dever solene de resistência explica o surgimento de fenómenos loucos como o carnaval, as canções profanas escritas pelos monges e as piadas anticlericais entre os devotos.

A fé cristã não defende que num mundo perfeito seríamos todos monges e freiras – como se o casamento, o trabalho e a política fossem um triste compromisso com o pecado. Muitos clérigos ensinaram este género de coisas e foram por isso justamente gozados pelos leigos. John Henry Newman compreendia isto. Quando o Bispo Ullathorne lhe perguntou se a Igreja precisava dos leigos, respondeu que sem eles a Igreja pareceria ridícula.

O Cristianismo aguenta e assimila a humilhação. O próprio Deus veio à Terra para ser abusado, espancado e cuspido. Na nossa piedade representamos esse mesmo Deus feito homem em pequenas imagens de plástico e também nas mais sublimes obras de arte. Os muçulmanos, por outro lado, centram-se em alguém que admitem ter sido apenas um homem – e depois endeusam-no, elevando cada uma das suas acções terrenas, (desde a guerra à poligamia) ao modelo da perfeição moral e afirmando que Ele é demasiado sagrado para ser representado. Era assim que os judeus, que o Islão imitou e depois vilipendiou, tratavam o Senhor, de quem nunca produziam imagens e cujo nome não se atreviam a pronunciar.

Mas apesar de todo o seu temor de Deus, os judeus também têm como modelo Abraão, que discutiu e regateou com Deus, e Jacob, que lutava contra anjos. Os pensadores judeus sempre tiveram a audácia de confrontar Deus com questões difíceis sobre a sua justiça e o sofrimento humano – e quando não encontravam respostas que os satisfizessem, encolhiam os ombros e recorriam ao sarcasmo. De certa forma, o Islão é o Judaísmo, mas sem sentido de humor.

Joana d'Arc
Por isso a Igreja e Ocidente precisam, de alguma maneira, do Charlie Hebdo. Se a França tiver de colocar esquadrões da Legião Estrangeira à frente do edifício para defender a redacção, então vale bem o preço, tendo em conta a alternativa de entregar as liberdades ocidentais aos vândalos barbudos das banlieues.

Mas só o Charlie Hebdo não chega. França precisa de Villon, Rabelais, Moliere, talvez até de Voltaire. Mas não foram estes homens quem construiu o país, nem foram os satíricos e os cínicos que o salvaram, vezes sem conta. O espaço de liberdade onde malandros deste género podem dedicar-se ao que fazem foi povoado, ordenado e embelezado por uma outra estirpe de gente: Carlos Martelo, Luís IX e Joana d’Arc; pelos camponeses da Vendeia, pelos peregrinos de Lourdes e pelos soldados de infantaria em Verdum; e ainda por patriotas desavergonhados como Charles de Gaulle.

Em 1940 os cínicos generais de direita decidiram deixar de defender a corrupta Terceira República, acolhendo a vitória alemã como uma “surpresa divina” e instalando o seu próprio compincha, o Marechal Pétain, como “salvador” da nação. Rejeitada há anos nas urnas, a extrema-direita francesa aproveitou a vitória dos alemães para colocar os Voltaires do seu país no devido lugar. E quem é que se revoltou contra eles? Não foram os Sartres da vida – que continuaram alegremente a encenar teatros para entreter os alemães em Paris. Não foram os quadros comunistas, cujos mestres em Moscovo eram ainda aliados de Hitler. Foi Charles de Gaulle, o patriota chauvinista e sem sentido de humor, que foi para o exílio para dar continuidade à luta “sem esperança”.

Hoje, com uma ideologia igualmente má a ameaçar a França e o Ocidente, não serão os cínicos corajosos a salvar a situação. Serão homens e mulheres, enfurecidos com este ataque à sua nação. Os bem-falantes, multiculturalistas desinteressados que consideram o entusiasmo ordinário estarão, na sua maioria, contra eles. Os de Gaulles, estamos em crer, afastarão os Sartres e salvarão a França e o Ocidente.

Os europeus que o fizerem serão aqueles que odeiam a tirania e os seus valores estrangeiros, tais como a “submissão” irracional a um Deus caprichoso do deserto. Mas mais do que ódio, serão movidos por amor: Amor pelos seus conterrâneos franceses, alemães, suíços e ingleses e os seus modos de vida ancestrais. Este tipo de amor, que exige o sacrifício, surge nos espíritos grandes e vivaços. Só as almas com longo historial de coragem, fortaleza, temperança e prudência podem esperar ter fé ou amor.

Rezamos para que a ética cristã impeça estes patriotas de cometer qualquer acto mesquinho e que o seu combate pelo ocidente respeite os mais elevados valores – no centro dos quais se encontra a pessoa, imagem brilhante de Deus.


O livro “The Race to Save Our Century”, de Jason Scott Jones e John Zmirak pode ser adquirido na loja online do The Catholic Thing na Amazon.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Thursday, 17 October 2013

“Problema do Cristianismo europeu é ter perdido a transcendência”

Transcrição integral da entrevista com Helena Vilaça sobre o colóquio “Da Evangelização de África à África Evangelizadora – Mediações Evangelizadoras em África e a Partir de África”. Notícia aqui.

Qual o objectivo do colóquio?
É reflectir sobre as diferentes modalidades da evangelização em África, desde os seus frágeis inícios até ao forte incremento verificado a partir do século XIX e deste até à actualidade pós-colonial, e globalizada, e tentar perceber a respectiva interacção com outros domínios da realidade africana.

Nós sabemos que desde os primeiros contactos que a presença europeia em África se fez acompanhar por campanhas missionárias assegurada num primeiro momento pelas ordens e congregações religiosas católicas, e essa acção missionária vai lentamente obtendo resultados que se traduzem de uma forma mais estável e institucionalizada nas dioceses que vão sendo criadas e instaladas. Isso é um indicador importante.

Este congresso tem um registo que é bastante histórico, até porque o que se tenciona é evidenciar o conjunto de produções e de pesquisas realizadas a partir dos arquivos missionários e será também um ponto de partida para ir à descoberta de arquivos que não foram ainda explorados e estabelecer, por exemplo, um protocolo entre as congregações religiosas e a academia, e a universidade. E quando digo a universidade não estou a pensar unicamente nos investigadores portugueses, o Brasil está a manifestar um grande interesse por este congresso e por toda a documentação que existe nesta área das missões.

Mas também, ao mesmo tempo, queremos perceber as transformações mais recentes que se estão a operar em África. Ao entrar no século XX apenas 10% de África era cristã, hoje podemos dizer que cerca de metade de África é cristã. Esse sucesso de expansão, curiosamente, resultou de muitos africanos convertidos se terem transformado em missionários.

O cristianismo é uma religião muito plástica, no sentido em que se adapta às culturas, o que não significa abdicar da ortodoxia do ponto de vista doutrinário, às vezes sim, mas grande parte das vezes não, mas do ponto de vista cultural e formal o Cristianismo é profundamente plástico e curiosamente um dos factores que contribuiu para isto foi a primeira guerra mundial e o retorno de muitos missionários à Europa durante esse período. Isso fez com que o Cristianismo africano crescesse e mais recentemente a forte expansão pentecostal e neopentecostal que se foi sentindo desde finais do século XX. Já desde o século XIX que a par das missões católicas, as mais antigas, houve trabalho missionário protestante.

Outro aspecto contemporâneo é que a missão europeia em África hoje encontrou novas estratégias, que reflectem o que a Europa e o Ocidente são. Estão menos centradas na evangelização do ponto de vista de anunciar a mensagem e mais em obras sociais enquadrando isso em ONGs. Muitos dos leigos que vão para África fazem um trabalho social, menos preocupados com a missionação. O que é interessante é que o que está a vir de África para cá é um espírito profundamente evangelizador. Muitos cristãos que vêm para a Europa, sejam católicos ou evangélicos, sentem que têm a obrigação de actuar num meio que está descristianizado.

Isto pode sentir-se no mundo católico, por exemplo nos movimentos carismáticos, mas também na presença de padres que têm vindo para cá e o seu trabalho em paróquias normais. Ao mesmo tempo temos as igrejas africanas, de língua portuguesa ou de língua inglesa, a Nigéria tem uma grande igreja evangélica, pentecostal, em Londres. Eles sentem a necessidade de contribuir para esta Europa que está secularizada.
Arcebispo John Sentamu, à esquerda,
número 2 da Igreja Anglicana

O Papa Francisco falou no perigo de se confundir a Igreja com uma ONG, precisamente. Essa nova dimensão da missão cristã ocidental enfraquece a mensagem?
Sem dúvida. No fundo esse tipo de estratégia reflecte aquilo que as próprias igrejas fizeram na Europa. Grande parte das igrejas na Europa, incluindo a católica, abdicaram de uma certa intervenção na esfera pública, no sentido de anunciar a mensagem claramente, cingindo-se ao trabalho social, que é fundamental, sem dúvida, mas em muitos sítios o discurso foi muito imanente. Um dos problemas do Cristianismo europeu é ter perdido a transcendência, ou ter abdicado de anunciar uma mensagem que tem a ver com a transcendência.

Sabe-se que na Igreja Católica há muitos padres e missionários que estão agora a vir para a Europa, invertendo a lógica missionária. Aplica-se o mesmo noutras confissões cristãs?
Sim, isso começa a notar-se. Entra-se em igrejas protestantes, e falo de protestantes históricos, ligados à reforma, ou a Igreja anglicana, e nota-se que se estão a tornar pluriétnicas e isso tem contribuído em muito para a vitalidade de algumas igrejas que até estavam bastante amorfas, e por outro lado até temos as igrejas evangélicas, dentro do protestantismo evangélico, as chamadas igrejas livres, que crescem por todos os lados, e que têm uma componente étnica, mas também de missionação dos portugueses, que é um trabalho que não é feito pelos portugueses, porque os europeus cristãos conformaram-se com a ideia de que a religião tinha de ficar apenas na esfera privada, e esse discurso continua, mesmo que Bento XVI tenha chamado a atenção para a nova evangelização.

Qual é a estratégia da nova evangelização? Vê-se pouco, em termos práticos. A Igreja em Portugal tem feito um trabalho com algum sucesso junto das elites culturais, por exemplo a questão do Pátio dos Gentios, mas ainda não percebi, tanto quanto tenho pesquisado, qual é a agenda de uma evangelização para as pessoas comuns.

Monday, 17 December 2012

Tristeza no novo continente e liberdade religiosa no velho

Vigília de oração pelas vítimas de Newtown
A tragédia de Newtown dominou o fim-de-semana. Os bispos americanos asseguram os familiares das vítimas que estão a rezar por eles e o Papa revelou-se profundamente triste pelo episódio.

O Papa recebeu hoje o Presidente da Autoridade Palestiniana, que lá esteve no contexto da viagem que está a fazer pela Europa para agradecer o reconhecimento pela ONU enquanto Estado observador.

Este fim-de-semana foi de bênção das grávidas em vários pontos do país. Em Lisboa D. Nuno Brás falou da vida de fé como único caminho para a felicidade.

E D. Jorge Ortiga, que hoje publicou a sua mensagem de Natal, disse também que o Estado e a sociedade têm de dar as mãos para resolver os problemas das pessoas.

Estamos a entrar na recta final do ranking das 10 notícias mais importantes de 2012 em termos de religião! Se bem se recordam o número 5 foi a liberdade religiosa nos EUA, no número 4 temos a liberdade religiosa na Europa. Dois continentes que enfrentam o mesmo desafio por razões completamente diferentes.

4 – Liberdade Religiosa na Europa


Uma semana mais tarde um tribunal em Colónia proibiu a circuncisão de crianças por razões religiosas, o que passados seis meses ficou novamente resolvido por forma legislativa.

Há coisa de semanas o debate sobre a matança ritual, que afecta judeus e muçulmanos, voltou a estar na ordem do dia, mas desta vez na Polónia.


À primeira vista são várias notícias diferentes, mas todas têm em comum as novas ameaças à liberdade religiosa na Europa.

Se não se tiver em conta o caso britânico, então até seria possível fingir que isto não é mais do que um continente historicamente cristão a adaptar-se a novas religiões, como o Islão, que vão chegando juntamente com as suas tradições.  No caso da matança ritual o que choca os opositores é o facto de os animais não serem atordoados quando são abatidos.

Mas não é nada disso. Os judeus vivem na Europa há milhares de anos e sempre usaram os mesmos rituais para matar animais e garantir que a carne é ritualmente pura, acontece que esses rituais são praticamente idênticos aos islâmicos. Ou seja, isto não é nada de novo. O que é novo é a ideia de que um grupo religioso, respeitável e bem implementado na sociedade, possa ser agora impedido de levar a cabo uma prática que lhe é essencial.

Com a carne, ainda vá que não vá, há comunidades judaicas e muçulmanas que não têm dimensão suficiente para garantir toda a logística necessária para montar os processos de matança que respeitem as regras kosher e halal. Podem passar muito bem sem comer carne, se assim entenderem. Mas o que dizer sobre a circuncisão?

Sejamos claros. A história da proibição, e mais tarde legalização, da circuncisão religiosa na Alemanha (por mais que tenha sido só num Estado e a verdade é que rapidamente o fenómeno se espalhou), é uma das mais importantes notícias deste ano. A circuncisão é, para os judeus e muçulmanos, o cumprimento de um mandato divino, a correspondência do povo à aliança estabelecida por Deus. Uma comunidade judaica que não pode circuncidar os seus filhos está efectivamente a ser impedida de ser judaica.

Chegámos mesmo ao tempo em que um tribunal se julga no direito de proibir algo deste género? Pelos vistos sim. Pode-se argumentar que é indiferente porque mais tarde o Parlamento legalizou a circuncisão, mas apesar de resolver o problema a solução não deixa de ser preocupante também. Efectivamente, a circuncisão é hoje legal na Alemanha por decreto, não porque é um direito inalienável dos pais, mas sim porque os políticos se deram ao luxo de o permitir. Da mesma forma poderão retirar esse direito quando quiserem. Isto é, simplesmente, inacreditável.

Inacreditável e só possível porque chegámos a um ponto em que somos governados por classes políticas para quem a sensibilidade religiosa é inexistente. O exemplo máximo disso foi a provedora das crianças na Noruega que sugeriu, qual iluminada, que os judeus e muçulmanos passassem a circuncidar os seus filhos “simbolicamente”. Simbolicamente? Que mais senhora provedora? Porque é que não pedimos aos carnívoros para passarem a comer carne apenas de forma simbólica? Baptismo simbólico para os cristãos? Afinal de contas, a água fria pode fazer mal aos pequenos.

No meio disto continua no Reino Unido a saga de duas pessoas que foram despedidas por que se recusaram a retirar crucifixos e outras duas porque disseram que eram contra o “casamento” homossexual. O caso está perante o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem porque os tribunais britânicos não reconheceram nestes despedimentos nada de anormal.

Shirley Chaplin, uma das queixosas
Uma sociedade em que eu, de um dia para o outro, tenho de deixar de usar o meu crucifixo ao pescoço, ou no qual eu perco o meu emprego porque digo que defendo que o conceito de casamento não deve ser mudado, é uma sociedade em que a liberdade religiosa está severamente ferida.

E é porque acredito que isto é uma clara tendência e não apenas um apanhado de factos isolados, que não tenho dúvidas em considerar que as notícias sobre liberdade religiosa na Europa são, no seu conjunto, uma das histórias mais importantes dos nossos tempos, às quais não se está a dar o devido valor.

Monday, 1 October 2012

Templos queimados e saltos de avião

Paolo Gabrielle em tribunal no Vaticano
Antes de mais nada, esta iniciativa precisa de voluntários…

Começou no Sábado o julgamento do ex-mordomo do Papa acusado de roubar documentos secretos. Tudo deve ficar concluído esta semana. Não podemos mandar para lá alguns dos casos que entopem o nosso sistema judicial?

Foi mais um fim-de-semana de violência inter-religiosa. No Quénia um atentado conseguiu matar mais uma criança cristã… no Bangladesh foram os budistas que sofreram na pele por causa de uma foto publicada no Facebook. Dezenas de templos e casas foram destruídos.

Este ano o Festroia entregou novamente um prémio da Signis, para o filme que melhor se enquadra com os valores da Igreja. Conheça aqui o premiado.

Os presidentes das Conferências Episcopais dizem que o conceito de homem está em crise na Europa e que o euro foi criado precipitadamente. Para todos os que já me conheciam em 2001… I told you so!

Tendo em conta que os anglicanos têm dificuldades em pôr-se de acordo sobre o que quer que seja, não é muito surpreendente que a escolha de um novo arcebispo de Cantuária esteja a ser mais difícil do que era suposto. Em todo o caso, conheça aqui os possíveis candidatos.

Friday, 11 May 2012

Tradicionalistas divididos, hotéis de Fátima cheios


Nossa Senhora da Cruz do Sul

É já amanhã que se realiza a jornada “Juntos pela Europa”, que reúne 150 cidades europeias. Saiba tudo aqui…

Se pensa ir a Fátima esta semana… esqueça os hotéis, que estão esgotados. Por outro lado, o santuário anuncia que dispõe agora de serviços médicos mais rápidos e eficazes.

Os quatro bispos tradicionalistas da Sociedade de São Pio X estão divididos internamente. O superior-geral Bernard Fellay está apostado em chegar a acordo com Roma, mas arrisca-se a vir sem os seus três colegas.

Depois de Reino Unido e EUA, a Austrália vai ter um ordinariato pessoal para ex-anglicanos já em Junho. Chama-se Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora da Cruz do Sul

Ontem o D. Pio Alves de Sousa, presidente da Comissão Episcopal para as Comunicações Sociais, falou de um défice de silêncio, de repouso e de pensamento nos media… e com esta me calo!

Tuesday, 28 February 2012

Fim de feriado adiado, exposição sobre cristãos perseguidos

Ao que parece este ano ainda vamos poder gozar o feriado do Corpo de Deus. As negociações com o Vaticano não deverão estar concluídas a tempo de o suprimir…

Os bispos portugueses estão preocupados com a unidade da Europa. E vão publicar um documento sobre o assunto.

A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre vai inaugurar amanhã, com um colóquio, uma exposição sobre os cristãos perseguidos no mundo. Fica patente durante a Quaresma.

A “polémica” das declarações de D. Manuel Monteiro de Castro internacionalizou-se. As deturpações publicadas cá foram traduzidas e aparecem no jornal católico The Tablet. Escrevi uma carta à directora da publicação, que pode ser lida aqui.

Hoje foi lançado o programa português para o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e Solidariedade entre Gerações. Amanhã sai um livro alusivo ao assunto. “Entre Gerações” dá conta de sete projectos que unem as gerações e é lançado na Gulbenkian amanhã às 18h, apresentado por Mário Crespo. Laurinda Alves, co-autora, pede-me para dizer que todos são bem-vindos no lançamento. (Clicar na imagem para ampliar)

Friday, 11 November 2011

São Martinho, D. Carlos e o Duque de Oldemburgo

Antes de mais, bom dia de São Martinho, infelizmente sem o Verão correspondente.

Foi hoje anunciado oficialmente que D. Carlos Azevedo, actualmente bispo-auxiliar de Lisboa, irá para o Vaticano trabalhar com a Comissão Pontifícia da Cultura. É mais um português com um cargo importante na cúria Romana e desejamos ao Sr. D. Carlos as melhores felicitações.

Esta notícia, há algum tempo esperada, parece confirmar isto, que escrevi aquando da nomeação de D. Nuno Brás para bispo-auxiliar de Lisboa no início de Outubro.

Ainda no Vaticano terminou hoje o congresso de três dias sobre células estaminais adultas. Segundo uma especialista, tratou-se de um evento revolucionário.

Esteve recentemente em Portugal o Duque Paul de Oldemburgo, que é director de um lobby católico junto das instituições europeias em Bruxelas. Fiz-lhe uma entrevista que me pareceu muito interessante. Podem ler areportagem aqui e, se quiserem, a transcrição completa da entrevista (em inglês), está aqui.

Finalmente, a Igreja Copta Ortodoxa do Egipto está a apelar aos cristãos para que votem em massa nas eleições do dia 28 de Novembro, nem que seja em candidatos islâmicos moderados.

O Duque que defende a cristandade em Bruxelas

Interview with His Highness Duke Paul-Wladimir of Oldenburg, president of the Pro-Europa Christiana Federation – Full Transcript

Could you tell us a little bit about the organization you are in charge of, and what work you do?
The Pro-Europa Christiana Federation was set up in 2002 and it consists of 10 different European Associations, we work in 10 different countries, and with the Lisbon Treaty we decided to go to Brussels to have a bureau there and to close to the institutions, close to the parliament, work with those in the parliament who share our Christian Catholic values, and see the necessity of working in the society so that the Christian roots and culture of Europe will be preserved.
We see today that there are a huge amount of laws and directives coming out of the institutions which are against this, which is why we are there. In fact we are a Catholic lobby.

Specifically Catholic? Not ecumenical?
We are based on the teachings of the church but we are open to any other group who joins us, for example in the anti-abortion campaigns we work well with the Evangelicals, they are very combative and we like that, we have no problems working with them.
What we try to do is work in coalitions in Brussels. In Washington this is absolutely normal, to have coalitions of different kinds of groups which identify one enemy to fight. In America it is very clear, its socialism. Our enemy is a current in the institutions which wants to influence policy in an anti-Christian way, that is what we are trying to combat.

What measures in particular are you referring to?
When you look at family policy, for example. When you look at the treaties, Maastricht and now Lisbon treaty, family policy is still a national issue. So countries can decide on these questions independently of Brussels.
But through the back door, by directives that at first sight have nothing to do with family policy they try to influence this. For example homosexual marriage is recognized in Spain but not in Poland. They try to, through the back door, set up directives in the field of labour, for example, and say that one has to recognize the statute of that family, which is not a family, because it is recognized in Spain and so it has to be recognized in Poland. That is the way the go around the independence of the states in these issues.

Is there an organization behind these efforts, or is it a social trend?
You can see that the European institutions are biased on this point. They make development aid to African countries dependant on social policies. If they have a policy against homosexual marriage they want to cut the aid. This is the commission and 80% of the parliament think like that, so that’s one thing.
On the other hand you have the societies and the societies don’t get it any more that they have to defend these principles that Pope Benedict called the non-negotiable values. The right to life from conception to natural end, marriage is between one man and one woman and the right of parents to educate their children according to their faith. Constantly these basic principles are affected and hurt by these policies. The problem is that our societies forget about these principles, which means that the policies can go on without any resistance.

Are there any Portuguese associations involved?
Yes. Our Portuguese association is called Acção Família.
We set up a network of information so that then we can report back to the countries so that they can make campaigns to mobilize people to wake up and see that there is a danger coming from Europe that is atheistic, laicist and that wants to get rid of all Christian policies. Its shocking to hear it like this, but if you see Brussels its exactly like that.

Two recent victories recently from the European Court of Human Rights. Forbidding patents for techniques that destroy embryos and the case of crucifixes in classrooms in Italy. Is this a reversal of the trend?
We’ve been discussing this for a while now. For me it is even miraculous that these decisions came around. The decision on the embryos was fought by Greenpeace, which in most cases is not on our side. But the reaction of the Commission was helplessness. The commissioner was asked about this by the parliament and just answered that he didn’t know what to say.
But I don’t trust these developments. We have to be very vigilant and continue to unveil these currents in the parliament which take us in the wrong direction. It’s true that these were victories, but I’m not that optimistic.

Do you think that Christianity in Europe could become a small creative group, like Pope Benedict has said might be the case, or might Christianity flourish like before?
The trend looks very pessimistic, in the masses, what we see is a revival, especially amongst the youth, so there is hope. I see a generation growing, around 20, 25, and they start to see that something is very deeply wrong. It’s a very small group, we have them in pro-life movement in Brussels, they organized the right to life march for the second time this year.
There is a counter current coming up. But on the other hand you get the impression that society polarizes and that the majority goes in the wrong direction. Just yesterday we had a conference on Christianophobia in Brussels and Alexander del Valle, a prominent speaker from France pointed out that we have a serious problem. Christianofobia is coming from different currents, one is certainly Islam but the other is from our politicians, and they are not defeated yet, and Islam is rising.
We need an entire removal of these modern ideas of hedonism, modernism. We need a deep change of soul within the society and I don’t know how that could happen in a few years. Our Lady of Fatima said that there would be a great chastisement if the World does not convert, and the world has not converted until now. I fear that something like that might have to happen for people to wake up.

Could this financial crisis be that situation?
I’m not a prophet, but there are signs that this crisis is so substantial that there might be something… it’s a start, people are seeing that this affects them entirely. Especially in Portugal you see how you are sinking, there are signs that something might be coming up. What it is, I don’t know, that is for Our Lady to decide.

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