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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Para estar atento em 2020 – Trump e Ginsburg

Donald Trump tem sido uma das figuras dos últimos quatro anos e vai continuar a sê-lo pelo menos até novembro de 2020. O mais provável mesmo é continuar a sê-lo até 2024, para horror de quase todo o resto do mundo bem-pensante.

Naturalmente não tenho uma bola de cristal, mas há grandes possibilidades de Trump vencer a reeleição em novembro deste ano. Pessoalmente, preferia outro republicano, mas pessoas bem-informadas com quem tenho falado garantem-me que nenhum republicano tem possibilidade de o retirar da corrida.

Não devemos subestimar o apelo de Trump para uma grande parte do eleitorado americano e por mais que tentemos dizer que se trata simplesmente de um misto explosivo de racismo e estupidez, isso é demasiado simplista. A subida da direita populista é preocupante, sim, mas é uma reação natural a décadas de deriva populista de esquerda que nos brindaram com marcos de progresso humanitário como casas de banho mistas e homens a competir na categoria feminina em desportos vários.

Enquanto arranca os cabelos, a esquerda que considera que toda a gente que fica aquém do Bloco é fascista deve pensar no papel que desempenhou em promover a extrema direita. Se Passos Coelho é fascista, se Assunção Cristas é fascista e agora chamam a André Ventura fascista, então que se lixe, fascistas por fascistas voto naqueles que de facto dão voz às minhas preocupações, pensa o eleitor do Chega. Se acontece aqui, não haveria de acontecer em Itália, Espanha e nos Estados Unidos?

Para quem não se identifica com a esquerda progressista (vulgos fascistas, na terminologia do admirável mundo novo), mas também não está disposto a colocar os populistas no pedestal, a vitória de Trump tem coisas desagradáveis, mas tem uma que vale ouro, a possibilidade de reformular o Supremo Tribunal.

Desde que foi eleito, Trump nomeou dois juízes para o Supremo Tribunal americano. Um foi para substituir o porta-estandarte dos conservadores no tribunal, Antonin Scalia, que morreu inesperadamente. Entrou outro conservador, ficou ela por ela (ou ele por ele). O segundo foi para substituir Anthony Kennedy, que era um conservador moderado, que votava frequentemente com a ala liberal, incluindo em assuntos-chave. Foi o seu voto que permitiu legalizar o casamento homossexual no país inteiro, por exemplo.

Com Ruth Bader Ginsburg, porta-estandarte dos progressistas e uma das responsáveis pela liberalização do aborto nos EUA, a caminho dos 87 anos e a combater cancro do pulmão e do pâncreas e outro juiz liberal, Stephen Brayer, a caminho dos 82, é muito provável que o próximo Presidente tenha de fazer pelo menos uma, talvez duas nomeações para o Supremo. Goste-se ou não do modelo, a nomeação de dois conservadores para substituir dois liberais seria sem sombra de dúvida a maior vitória para os conservadores nos Estados Unidos, provavelmente mais importante que quaisquer danos reais que Trump pudesse impor ao país durante o resto do seu mandato.

Ruth Bader Ginsburg
Mais, as duas nomeações anteriores comprovam que Trump não tem medo de nomear conservadores reais e que, caso tenha o apoio do Congresso, não terá de fazer cedências e nomear alguém que seja conservador para algumas coisas e liberal para o que interessa.

A importância religiosa disto é evidente, uma vez que a liberdade religiosa está sob ataque como nunca esteve nos Estados Unidos (ver exemplospráticos aqui) e a esmagadora maioria desses casos só se decidem no Supremo.

Claro que nem tudo são rosas. Ter de aguentar mais quatro anos de figuras absurdas como Trump fez no anúncio da morte do líder do Estado Islâmico é penoso, como é penoso ter como figura de referência para um movimento que se quer de valores um homem que tão claramente não os parece ter. Para mim, o discurso desumanizante sobre os migrantes é também uma coisa gravíssima e lamentável. Contudo, os efeitos práticos de uma ou duas vitórias destas no Supremo não podem ser subestimados, como não pode ser subestimada a deriva progressista que acompanhará a eleição de qualquer candidato democrata.

Por isso é natural que a direita e os conservadores americanos, incluindo os que pessoalmente não gostam de Trump, estejam dispostos a aguentar com mais quatro anos deste por vezes triste espetáculo.

De uma coisa podem ter a certeza absoluta. Se Trump vencer em 2020 vamos ver uma campanha concertada entre fazedores de opinião e imprensa progressista para mudar o sistema do Tribunal, onde as nomeações são vitalícias e que em muitos casos funciona como um órgão legislativo. Esses apelos virão de precisamente as mesmas pessoas que aplaudiram de pé o Roe v. Wade, que legalizou o aborto e o Obergefell v. Hodges que legalizou o casamento gay, mas o que é a coerência para os arautos da nova humanidade?

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Consciência vence na Polónia, FNO no Porto

Temos mais um caso de choque entre “direitos homossexuais” e liberdade de consciência. Agora é na Polónia, onde o Tribunal Constitucional deu razão ao dono de uma gráfica que se recusou a imprimir um cartaz de um evento LGBT.

Na Alemanha já vamos em dezenas de igrejas atacadas nos últimos meses. Parece que a moda pegou.



O Comité Olímpico Internacional, que outrora se preocupava com o doping, diz que os homens podem competir contra as mulheres, desde que tomem doses massivas de químicos para alterar o seu corpo e os seus níveis hormonais. Confuso? Eu também.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Transgénero: Quando a verdade se torna punível por lei

Matthew Hanley
E se eu lhe dissesse que não existem bases científicas para definir o género com base em genética, anatomia ou órgãos genitais? Ficaria convencido, ou achava-me louco?

Porém, essa é a opinião expressa na revista “Nature”, encarada há muito tempo como uma publicação científica fiável. Agora, baniram a classificação de macho e fêmea, descrevendo-a como “uma ideia terrível que deve ser eliminada” uma vez que ameaça “desfazer décadas de progresso” da ideia de que o sexo e o género são apenas “construções sociais”. Poder-se-ia pensar que a “Nature” estaria preocupada em criar problemas de credibilidade, mas não têm de se preocupar, pois as mentiras colossais estão na ordem do dia. 

No que diz respeito à “discrepância entre o género e o sexo que consta da certidão de nascimento”, a “Nature” elogia a Academia Americana de Pediatria por aconselhar os médicos a “tratar as pessoas de acordo com o seu género escolhido, independentemente da aparência ou da genética”. Temos aqui os pediatras apostados na apologia do transgénero: sem dúvida uma marca de uma cultura que fez as suas pazes com o desprezo pelas crianças, pela ciência e pela natureza humana.

Entretanto a Associação Americana de Psicologia (APA) emitiu orientações avisando para o perigo de abraçar o conceito de “masculinidade tradicional”. Mas se nos fiarmos na APA, então porque é que as autoridades médicas haviam de encorajar uma mulher a tornar-se homem? Ao que parece a abordagem reinante é de levar as mulheres com perturbações a sujeitar-se a cirurgia de mudança de sexo – um acto de mutilação – para adquirir uma aparência externa pouco convincente, mas também de as encorajar, daí em diante, a desdenhar todos os traços prejudiciais associados com a masculinidade.

Há outra contradição que é frequentemente ignorada: se a transição de um sexo para outro é algo que devemos abraçar com tanto entusiasmo, como um bem a facilitar devido à nossa apreciação iluminada da “fluidez” de género, porque é que existem obstáculos a abordagens legítimas para ajudar pessoas a deixar a homossexualidade?

Embora o fenómeno seja ainda raro, tem havido um crescimento no número de casos de identificação transgénero em anos recentes – às vezes em grupo e aparentemente do nada. Tornar-se transgénero já não convida ao gozo mas até, nalguns casos, é uma forma de aumentar a popularidade entre os pares. Dizê-lo em nada menoriza o verdadeiro sofrimento que alguns adolescentes sentem, de forma aguda, mas que tendem a ultrapassar com o passar do tempo.

O senso comum sugere que o pico de casos de transgénero se deve ao Zeitgeist, contra a qual a classe médica, de forma particular, deve estar atenta. Em vez disso tornou-se cúmplice da sua emergência.

Dizemos a nós mesmos que vivemos num país livre. Ninguém está a “forçar” ninguém a promover a falsidade de que um homem se pode tornar uma mulher, ou vice-versa. Mas só porque não vivemos na China Maoísta, não significa que uma forma da sua Revolução Cultural não tenha vindo aqui parar.

Que o diga Anastasia Lin, que saiu da China aos 13 anos e agora vive no Canadá. Escrevendo recentemente no Wall Street Journal, ela aponta o dedo ao objetivo final das turbas politicamente corretas: “O objectivo não é persuadir ou debater; é humilhar o alvo e intimidar todos os outros. O objectivo final é destruir todo o pensamento independente.”

Esperemos apenas que todo o extremismo que vai explodindo ao nosso redor possa ajudar mais pessoas a compreender que o alvo neste caso, tal como com a revolução sexual em termos mais gerais, é o próprio Cristianismo, bem como a sua ordem social e moral. Isto significa, por definição, que é o homem em si que se encontra na mira, algo que muitos dos que adoptaram a pseudorreligião pós-cristã do “humanitarismo” parecem ignorar.

Lin explica que a geração dos seus pais na China “aprendeu a não dar nas vistas e a ter cuidado com o que diziam, mesmo aos amigos mais próximos, com medo de serem acusados de crime de pensamento”, lamentando assim aquilo que começa a acontecer por aqui também. Demasiados de nós, num sem número de profissões, sabem como essas palavras são verdadeiras.

A coação, em qualquer das suas formas, torna-se obrigatória sempre que se tenta impor uma mentira às massas. Os exemplos multiplicam-se diante de nós. Um professor na Arizona State University argumenta, no “American Journal of Bioethics”, que os pais não devem poder impeder os seus filhos de adquirir tratamentos para bloquear a puberdade.

Segundo o pensamento invertido tão típico do nosso tempo, é a negação destes “tratamentos” que constitui abuso infantil, e não o encorajamento das ilusões e a promoção de medidas agressivas que na maior parte das vezes são prejudiciais e, em sentido real, experimentais, uma vez que simplesmente não existe qualquer prova que justifique o seu uso.

Por agora, essa proposta não passa disso mesmo na América. Mas o Supremo Tribunal de British Columbia, no Canadá, decretou no mês passado que o pai de uma menina de 14 anos não pode impedir a sua tentativa quixotesca de se transformar num rapaz. Ela tem um direito antinatural a bloqueadores de puberdade. Mais, o pai foi avisado para ter cuidado com a língua: chamar menina à sua filha, ou usar pronomes femininos em referência a ela seria considerado “violência familiar”, pois a verdade é agora uma ofensa punível por lei.

E, como consequência lógica disso mesmo, desde então ele já foi declarado “culpado” desse “crime”.

À luz desta mostra de poder ameaçadora, não adianta nada apelar à razão. No final de contas estamos perante uma guerra de vontades. Mas uma tomada de posição contra a irracionalidade dos tiranos do género pode funcionar. Veja-se o que aconteceu com os muçulmanos no Reino Unido, que conseguiram retirar um currículo pró-LGBT das escolas dos seus filhos.

O facto de a turba LGBT ter conseguido derrubar todos os outros, mas ter recuado neste contexto, revela que a sua principal motivação é o desmantelar da sensibilidade cristã mais do que qualquer crença inflexível na ideologia do género. Veja-se bem quem venceu esta guerra de vontades.


Se ao menos a fé e a arte da persuasão estivessem mais na moda, talvez mais pessoas vissem que o abandono do Cristianismo e da natureza inata não beneficiam o homem. Pelo contrário, tendem para a ruína, como muitos descobrem depois de se deixarem levar pela maré do transgénero. 

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 2 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Congo, Venezuela e lixo jornalístico

Em relação à polémica do momento, digo apenas o seguinte. Uma reportagem que desmascara uma rede secreta de católicos que procuram curar pessoas da sua homossexualidade, é uma grande reportagem. Se souberem de uma reportagem dessas avisem-me. Ontem passou uma coisa que dizia ser isso, mas que afinal não passou de lixo jornalístico. Os visados da encenação, e bem, estão a pensar processar judicialmente os responsáveis.


O Papa vai receber novamente os bispos do Chile, para falar sobre medidas contra os abusos sexuais.

Atenção a todos os que se interessam pelos temas, a Capela do Rato vai acolher um debate sobre apoio espiritual em cuidados paliativos. Hoje visitou freiras de clausura.


Numa altura em que o Vaticano se prepara para ter uma equipa desportiva, pela primeira vez, o IronPriest Ismael Teixeira diz que o desporto também é um meio de salvação.

Certamente já viu por aí missionários mórmons. Andam aos pares, sempre de gravata preta, calças pretas e camisa branca e uma placa com Elder, seguido do nome. São muitas vezes alvo de gozo e humilhação, mas no artigo desta semana do The Catholic Thing, Casey Chalk sugere que os católicos mudem de atitude perante estes nossos irmãos

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Velas em Roma pela paz na Síria

O Papa acendeu ontem uma vela pela paz na Síria. Faz parte de uma campanha internacional lançada pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

Soube-se também por estes dias que o Papa deu uma longa entrevista a um padre espanhol, que será publicada em breve, em que diz que os padres homossexuais que não vivem de forma celibatária devem abandonar o sacerdócio.

Conheça aqui a exposição “Capela Mundi”, sobre os 100 anos da Capelinha das Aparições.

Esta segunda-feira assinala-se o Dia Internacional dos Deficientes e Isabel do Vale, do Serviço Pastoral às Pessoas com Deficiência lamenta que ainda haja igrejas onde as pessoas com dificuldades de locomoção não conseguem entrar.


E termino com o convite, como tenho feito nos últimos anos, de se deslocarem, se possível, ao Chiado onde encontram no número 10 da rua Anchieta um espaço onde estão à venda artigos religiosos feitos pelos cristãos da Terra Santa, trazidos mais uma vez pelo Nicolas Ghobar (ver foto). Este ano o Nicolas esteve em directo na Renascença para falar sobre a sua experiência de cristão na terra onde Jesus nasceu.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Quando o Clero faz Coisas Más

Filip Mazurczak
Claramente o ano de 2018 não tem sido bom para a Igreja Católica. Com o caso do cardeal McCarrick, o relatório na Pensilvânia e escândalos em curso na Austrália, Chile, Alemanha e noutros lugares, controvérsias sobre homossexualidade e o Sínodo da Juventude, a cobertura na imprensa sobre a Igreja Católica tem focado sobretudo o abuso sexual por padres e o seu encobrimento por bispos.

Em vez de nos desencorajar na nossa fé, porém, estas revelações de maus condutos de homens e de mulheres na Igreja devem ser uma oportunidade para a nossa conversão pessoal, e um apelo ao testemunho cristão.

Quando lemos sobre os crimes cometidos contra jovens pelos padres, devemos manter as coisas em perspectiva. No seu estudo “Padres e Pedófilos”, o historiador e especialista em justiça criminal Philip Jenkins (um anglicano que abandonou a Igreja Católica há décadas e que, por isso, não pode ser acusado de preconceito a favor do Catolicismo), estimou que entre 1,5 e 3,5% de todos os padres nos Estados Unidos possam ter abusado sexualmente de menores.

Não faço ideia quais os dados correspondentes para clero de outras denominações, padres, treinadores, médicos ou outros que trabalham com jovens. Mas calculo que esses e outros grupos não se importariam de ter um número assim tão baixo.

Ao longo do ano passado aprendemos uma coisa que para muitos já era evidente, que Hollywood está repleta de predadores. As altas figuras de “Tinseltown” gostam de pensar que são muito superiores a nós, mas responderam aos crimes sexuais de Harvey Weinstein – olhando para o outro lado diante dos encobrimentos – de forma pouco diferente de alguns dos piores bispos em relação aos abusos sexuais praticados por padres.

Quando falamos destes escândalos com os nossos amigos não católicos, devemos informá-los destes factos, recordando-nos que uma das bem-aventuranças de Jesus é instruir os ignorantes. Ao mesmo tempo, porém, é compreensível que o mundo espere mais da Igreja Católica, que afirma ter sido fundada por Jesus Cristo. Ainda que todas as conferências episcopais do mundo adoptem procedimentos que evitem que cada homem com tendências malévolas tenha acesso ao seminário, e ainda que as autoridades civis e eclesiásticas respondam de forma imediata e severa às acusações de abuso – e espero que assim seja – continuará a haver maldade entre o clero.

A razão simples para isto está na nossa própria natureza. Por causa do pecado original, todos somos capazes de fazer mal ao nosso próximo. Os padres são homens e ao longo da história não há falta de casos escandalosos entre eles. Depois das Cruzadas, os Cavaleiros Teutónicos, uma ordem militar, utilizaram a espada para converter ao Cristianismo as últimas tribos pagãs dos Bálticos.

Durante a II Guerra Mundial um padre eslovaco, o demoníaco Monsenhor Jozef Tiso, chefiou um dos piores estados fantoche dos nazis. Apesar de frequentemente utilizarmos os termos “santo” e “pecador” como opostos, os santos também pecam. O que faz deles santos é o facto de terem consciência da sua natureza decaída e se confessarem muito mais frequentemente que a maioria de nós (São João Paulo II, por exemplo, confessava-se todas as semanas), e se esforçam por ser melhores.

Monsenhor Jozef Tiso
Devemos rezar pela conversão dos padres que espalham o escândalo, recordando-nos que mesmo os casos aparentemente mais graves são capazes de dar a volta às suas vidas e dar testemunho. Há um exemplo muito bonito no romance “O Poder e a Glória” de Graham Greene, sobre um padre que não tem levado a sério os seus votos de celibato e que tem um problema de álcool, mas que acaba por escolher o martírio no México da década de 1920.

Acima de tudo, quando ouvimos histórias de padres que dão mau nome à Igreja, devemos ser nós próprios a dar testemunho cristão a nível local, nas nossas famílias e no nosso trabalho, nas nossas universidades, entre amigos e onde quer que seja possível.

Quando a maior parte das pessoas ouve falar na Igreja pensam vem-lhes à cabeça imagens de bispos com mitras, a Basílica de São Pedro, ou possivelmente o pároco local. Mas os leigos também são Igreja. Para além dos generais em Roma e dos Coronéis que lideram as nossas dioceses, a Igreja é composta por mais de mil milhões de soldados rasos de Deus. Por isso, quando ouvimos dizer que há pessoas que estão a abandonar a fé por causa dos pecados dos membros da Igreja, em vez de nos limitarmos a criticar “os padres” ou “os bispos”, devemos perguntar se as nossas acções não feriram também os nossos vizinhos. Seremos nós bons mensageiros do ensinamento de Cristo nas nossas vidas diárias?

Se o mal feito por pessoas que afirmam ser católicas pode afastar as pessoas, então segue-se logicamente que o testemunho de católicos santos os pode atrair. O jornalista britânico Malcolm Muggeridge foi criado numa família ateia. Em 1969 viajou a Calcutá para fazer um documentário e escrever um livro sobre Madre Teresa e o seu trabalho entre os mais pobres. Muggeridge ficou de tal forma impressionado pelo seu testemunho que quando regressou a Inglaterra se converteu ao Cristianismo e, eventualmente, ao Catolicismo.

A maior parte de nós não somos capazes da caridade heroica de Madre Teresa, mas podemo-nos esforçar mais para viver melhor os Evangelhos no nosso dia-a-dia. Devemos examinar os nossos próprios pecados, confessar-nos e pensar no que fazer para sermos melhores católicos.

Quando ouvirmos falar de bispos ou cardeais que fazem coisas terríveis, esse pode ser o sinal para nos oferecermos para trabalhar num banco alimentar, ou num centro para deficientes. Se temos família ou amigos que lutam contra diversos problemas, mas com quem não falamos há algum tempo, então este é o momento para ligar. Se estamos de relações cortadas com alguém que nos é próximo, devemo-nos reconciliar. Mesmo as coisas mais pequenas, feitas com o espírito certo, são caridade católica em ação.

Para além de rezar, a maioria dos católicos leigos pouco pode fazer no sentido de influenciar a conduta da hierarquia e do clero (à excepção, porventura, daqueles que conhecemos pessoalmente). Mas nós somos parte da Igreja tal como eles e podemos, sem dúvida, afectar a percepção que algumas pessoas têm do catolicismo e talvez até, pelos desígnios insondáveis de Deus, contribuir para algumas conversões.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Outubro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Abuso de Autoridade: A Crise Mais Profunda

Pe. Timothy Vaverek
São incontáveis as vozes que se erguem entre bispos, padres e leigos, pedindo uma investigação credível sobre o escândalo de abusos sexuais e encobrimentos espoletados pelo caso McCarrick, bem como a crise de moral sexual, sobretudo relacionada com actividade homossexual entre o clero. São assuntos que merecem uma análise pormenorizada, sobretudo à luz do Novo Paradigma moral promovida por altos clérigos, que abre as portas à contracepção, actividade homossexual e extraconjugal e recasamento.

As incríveis alegações do arcebispo Viganó, porém, apontam-nos para uma crise muito mais profunda do que pecados sexuais e falsa teologia: o abuso da autoridade pastoral, tanto por parte dos clérigos abusadores como dos bispos que não protegem o seu rebanho.

Dizer que o abuso por parte de clero tem a ver mais com autoridade do que com luxúria não exclui o papel desempenhado pela sexualidade, mas liga essa gratificação ao exercício de poder. Para o clero a autoridade está enraizada no seu ofício sacramental de pastores do rebanho de Jesus. Padres predadores e os bispos que não defenderam as vítimas são, por isso, culpados não só de falhar no seu ministério, mas de abuso de uma relação espiritual. São pais e irmãos, imagens de Cristo, que violaram a confiança que o povo de Deus, procurando apoio e protecção, depositou neles.

É importante saber se os abusadores e os padres agiram de forma pecaminosa, isto é, com inteira liberdade e conhecimento. Mas o mais importante é que as suas acções provocaram feridas graves nos membros do Corpo de Cristo. A justiça e a caridade exigem que esses danos sejam investigados e remediados, na medida do possível, e não apenas perdoados. Isto pode implicar a remoção do ministério por parte dos culpados.

Em muitos casos os abusos por parte de padres e as falhas episcopais não foram casos isolados, que se podem ultrapassar dizendo “todos pecamos e cometemos erros”. Estamos, antes, a falar de padrões de comportamento destrutivo que se tinham tornado segunda natureza para os abusadores ou para o bispo. Chamamos a isso vícios. São disposições profundamente enraizadas para contínuo mau comportamento que indicam um estado de corrupção ou disfunção.

Os abusadores repetentes ou não querem, ou não podem, alterar o comportamento de forma a abdicar do poder que usam para se gratificarem a si mesmos. Assim, até que as suas disposições corruptas mudem, não tomarão medidas para restaurar a justiça e a caridade. Poderão até vociferar actos de contrição e de emenda de vida, mas só o fazem para recuperar o seu estatuto.

É por isso que o papel do bispo é tão importante. Cabe-lhe a ele encontrar uma forma efectiva de providenciar um final justo e caritativo para a vítima e, neste contexto, também para o abusador. Foi aqui que demasiados bispos revelaram a sua própria corrupção ou disfunção, agravando as feridas já abertas pelo mau uso da sua autoridade episcopal.

Alguns dos bispos que falharam repetidamente afirmam que, há décadas, tratavam o abuso apenas como um pecado. Mas isso não é verdade. Se o tivessem tratado como um pecado teriam exigido que o culpado reconhecesse o seu erro e fizesse restituição à vítima (financeiramente e de outras formas), bem como penitência, e que emendasse a vida. Teriam então percebido que a repetição não é era um “lapso”, mas sinal de um hábito vicioso, compulsivo ou desejado. Tanto num caso como no outro, a preocupação pelo bem-estar dos fiéis e do padre teria impedido novas nomeações.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo
Outros bispos dizem que, mais recentemente, tratavam os abusos como se fossem uma doença. Não é provável. Os planos de tratamento tendem a exigir supervisão e cuidados continuados. Em casos de abusos repetidos, frequentemente os bispos não garantiram que esses passos fossem seguidos de forma rigorosa.

Um número bem maior de bispos falhou ao não cultivar um ambiente em que o clero ou os leigos os pudessem procurar para partilhar preocupações. É verdade que isto mudou depois de 2002, de forma que as alegações de abusos sobre menores foram recebidos. Mas salvo raras excepções, como na diocese de Tyler, não existem políticas em curso que obriguem a relatar outras violações da fé e da moral cristã por parte de clero, tal como falsos ensinamentos, relações sexuais com homens ou mulheres, abusos financeiros na paróquia ou em relação a paroquianos individuais, vício de álcool ou pornografia, etc..

Deve-se reconhecer, portanto, que os bispos diocesanos ou do Vaticano que repetidamente falharam para com as vítimas das diversas formas de abusos por parte do clero, revelaram níveis de corrupção ou disfunção que, em si, constituem abuso de poder. Estes falhanços são muito mais que meros erros. É um comportamento que se tornou segunda natureza para estes bispos e para o exercício administrativo do seu cargo.

Durante as décadas desta crise de abusos, nem os bispos nem a Santa Sé têm prestado contas de forma transparente sobre bispos corruptos ou disfuncionais. Alguns dizem que falta autoridade aos bispos neste campo, mas nada os impede de apresentar orientações a Roma. Também esta passividade representa um abuso de poder que nega ao povo de Deus a justiça e a caridade. Cria uma situação tal que torna difícil até a uma investigação do Vaticano ser considerada credível.

No escândalo McCarrick, os bispos de Newark e de Metuchen conheciam as alegações e esconderam as indemnizações que já tinham sido pagas. Mas o Cardeal Wuerl insiste que ninguém o tinha avisado – o que, a ser verdade, significa que o Vaticano também se manteve no silêncio. Se assim for, o seu encobrimento impediu que se procurassem e ajudassem outros seminaristas e padres abusados pelo agora ex-cardeal. Também permitiu que McCarrick continuasse a confraternizar com seminaristas, já depois de reformado. Por isso, e de forma indirecta, a versão do cardeal Wuerl dá a entender um abuso de poder por parte dos bispos americanos e em Roma tão preocupante como as acusações feitas por Viganò.

Os abusadores como McCarrick e a crise de moral sexual associada ao Novo Paradigma, bem como os bispos que permitiram estes e outros ultrajes contra o povo de Deus, devem ser investigados de forma credível. As alegações feitas por Wuerl e por Viganò exigem que examinemos os núncios e a cúria, mas devemos ir mais longe. Para confrontar o abuso de autoridade pastoral, devemos estabelecer formas eficientes de denunciar, investigar e corrigir violações da fé e da moral por parte de funcionários da Igreja, desde voluntários a bispos. A justiça e a caridade exigem que assim seja. E Jesus também o exige, ele que é simultaneamente a maior vítima e o último juiz de todos estes abusos.


O padre Timothy V. Vaverek, STD, é sacerdote na Diocese de Austin desde 1985 e actualmente tem a seu cargo as paróquias de Gatesville e Hamilton. Os seus estudos doutorais foram na área de Dogmática, com enfoque em Eclesiologia, Ministério Apostólico, Newman e Ecumenismo.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Para o “bem da Igreja”

Brad Miner
Cá para mim as revelações sobre McCarrick vão acabar por ser uma coisa positiva. Como assim? Bom, uma parte da novela dos abusos sexuais dos padres é o encobrimento. Isso já sabemos, e que o encobrimento aumenta sempre o crime.

Quando um bom padre descobre os pecados homossexuais de um mau padre (de um bispo, então, nem se fale), e se esse bom padre vai falar com o seu pastor, ou com um bispo (de um arcebispo, então, nem se fale), o mais provável é ouvir uma versão deste discurso:

Obrigado. Temos de fazer algo sobre isto, e assim faremos! Mas, para o bem da Igreja, não deve dizer nada disto a ninguém. Os media aproveitariam uma história destas para desacreditar o próprio Catolicismo. Teve muita coragem em vir ter comigo, mas eu não quero que arrisque a sua carreira, tornando-se o foco de uma investigação sensacionalista.

Para uma Igreja que valoriza a hierarquia e a disciplina, trata-se de um obstáculo difícil de ultrapassar. Mas a minha previsão é que agora muitos dos padres que sabem de escândalos de padres ou de bispos homossexuais – e, em alguns casos, heterossexuais – vão finalmente começar a revelá-los.

Espero que o façam. Todos. Porque este pinga-pinga de escândalo está a prejudicar verdadeiramente a Igreja. Se for preciso rebentar uma barragem, que seja, para que a inundação possa limpar o pântano.

Deixem correr a torrente: de resignações e de laicizações – talvez centenas. Será desestabilizador e, como conservador, tremo diante da possibilidade. Mas o miasma actual é intolerável. O esterco de suspeição paira sobre cada bispo, ou mesmo cada padre.

Também é preciso reconhecer que a prática de abusos sexuais por padres é apenas parte do problema. O relatório de 2004 da John Jay College of Criminal Justice, feito a pedido da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, contem muitos dados importantes sobre a crise. Mas a sua perspectiva está limitada ao abuso de crianças, abaixo dos 18 anos. Não se investigou nada sobre as desventuras sexuais de padres com homens, de 18 anos ou mais.

Esses dados provavelmente revelariam um escândalo muito, muito maior – que rebentaria com a conclusão principal dos investigadores da John Jay, bem como da equipa da Spotlight no Boston Globe e pessoas como o padre James Martin, S.J., de que os escândalos “não têm nada a ver com homossexualidade”. Isso simplesmente não pode ser verdade.

Agora vou-vos contar uma história a que já aludi no The Catholic Thing. Mas primeiro vou repetir o que já disse a amigos próximos, alguns dos quais colaboram com este site. Se eu soubesse em 1973, quando estava prestes a entrar para a Igreja, o que agora sabemos sobre a extensão da homossexualidade predatória entre o clero e a quantidade de encontros homossexuais pecaminosos entre padres, rapazes, adolescentes e homens, não me teria tornado católico. Graças a Deus não sabia porque, apesar destes escândalos, não consigo imaginar outro lar espiritual.

Então. . .

Pouco depois de ter feito a minha profissão de fé, saí tarde do trabalho e faltei à missa das 17h na Igreja que costumava frequentar. O sacerdote, que estava ainda a despedir-se das pessoas, disse-me que havia outra às 18h, a poucos quilómetros dali, por isso fui para lá.

No fim dessa missa um padre aproximou-se no parque de estacionamento e disse-me que nunca me tinha visto na missa ali. Eu expliquei e ele disse:

“Quero perguntar-te uma coisa, mas não quero abalar a tua fé.”

“Porque é que haveria de fazer isso?”

“É uma coisa privada.”

Continuei sem perceber.

Resumindo muito, ele disse que queria ter relações sexuais comigo.

“Você fez um voto de castidade,” respondi.

“Não, não. Você é novo na Igreja. O meu voto é de celibato – não casar – e não de castidade, entende?”

Dirigi-me ao meu carro.

Alguns meses mais tarde, no Ohio, onde cresci, voltei a ir a uma missa de fim de tarde e quando fui receber comunhão o padre sussurrou: “Vá ver-me na sacristia, ok?”

Até tenho vergonha de o admitir, mas na altura não desconfiei de nada. Este tipo foi mais subtil. Perguntou se daí a uns dias eu iria com ele a um jogo de basquete do liceu, onde tinha de fazer a oração inicial.

No final da primeira parte ele agradeceu-me: “Obrigado pela companhia, devo-te um copo”. Guiámos até um bar de que nunca tinha ouvido falar, na baixa de Columbus. Quando saímos do carro ele abriu a mala, tirou o cabeção e vestiu um casaco igualzinho ao meu.

Senti um nó no estômago e confirmei que sim, era um bar gay.

“O que é que bebes?”, perguntou.

“Uma cerveja qualquer”, disse eu, e ele foi buscar.

O bar ficava a sete quilómetros da minha casa. Saí rapidamente, corri durante alguns quarteirões, e depois fui a pé o resto do caminho até casa.

Depois visitei um seminário, pois estava a considerar uma vocação ao sacerdócio. Já tinha visitado outro seminário e dois mosteiros. O director de vocações levou-me a jantar fora, e aconteceu outra vez. Não vou repetir o que lhe disse a ele na altura.

Nesta altura eu era católico há menos de seis meses. A vantagem foi que mantive-me longe de padres durante os 15 anos seguintes, basicamente até conhecer os padres Neuhaus, Rutler e Schall.

Claro que estas histórias não provam nada. E no que diz respeito ao caso McCarrick, eu não irei ao ponto de dizer, como tenho ouvido, que “toda a gente sabia”. Muitas sabiam, mas a maioria não fazia a menor ideia. A não ser que fizesse parte do círculo dos rumores, não teria ouvido falar do assunto.

Mas eu não sou o único adulto que sofreu estas abordagens de padres. E nem devo ser o único a quem isso aconteceu três vezes.

Para o bem da Igreja – vamos drenar o pântano.


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 30 de Julho de 2018 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Tocando lira enquanto a América – e Roma – ardem?

O conhecido filósofo político Leo Strauss terá dito certa vez que os teoristas políticos modernos são piores que o imperador Nero, de Roma. Porque ao contrário deste, eles não sabem que estão a tocar lira, nem que Roma está a arder.

Há poucas semanas, em Junho, os bispos americanos tiveram a sua reunião anual em Fort Lauderdale e, segundo os relatos, passaram grande parte do tempo a discutir política contemporânea e as alterações a fazer ao guia para as eleições do Outono.

Entretanto em Roma, na semana passada, o padre Antonio Spadaro, S.J., editor da revista semi-oficial do Vaticano, La Civiltá Cattolica, publicou em conjunto com Marcelo Figueroa, o presbiteriano escolhido pessoalmente pelo Papa Francisco para ser editor da edição argentina do L’Osservatore Romano, um longo ensaio que ataca um fenómeno religioso americano: “O Evangelho da Prosperidade: Perigoso e Diferente”.

Ao contrário do seu anterior esforço conjunto, que argumentava que a colaboração entre evangélicos e católicos conservadores era uma forma de “ecumenismo de ódio”, este artigo atraiu pouca atenção. O que não é surpreendente.

Embora os promotores do Evangelho da Prosperidade tenham ligações ao Presidente Trump – que parece ser o verdadeiro alvo deste ensaio – poucos dos que conhecem a religião nos Estados Unidos diriam que este fenómeno é de alguma forma importante. Na verdade, a maioria dos religiosos, tanto à Esquerda como à Direita, encaram-nos como uma excêntrica seita cristã.

Entretanto, em simultâneo em vários países, está a emergir uma nova ameaça à Igreja, uma crise de confiança na liderança católica e na Igreja em si, que poderá fazer com que estas outras preocupações, que são todas bastante periféricas à vida e missão da Igreja, pareçam mera música.

Na América são muitos os que se têm sentido chocados com revelações de que o Cardeal Theodore McCarrick, um dos prelados mais importantes da Igreja Católica americana ao longo das últimas décadas e a face pública da Igreja depois da revelação, em 2002, da crise de abusos sexuais por parte de padres, era ele próprio um abusador.

Inicialmente surgiram histórias da sua relação com homens adultos, dois dos quais receberam indemnizações das dioceses de Metuchen e de Newark, onde McCarrick tinha servido enquanto bispo e arcebispo. Essas histórias confirmavam o que se dizia em rumores há muitos anos, que o “Tio Ted” tinha o hábito de pressionar jovens seminaristas e outros para encontros sexuais.

Mas agora surgiu um homem com histórias de abusos praticados por McCarrick quando aquele tinha apenas 11 anos. E, tendo em conta o que já sabemos, não há dúvidas que mais escândalos estão para vir.

Tudo isto tem levado a mais revelações por parte de pessoas que foram abusadas por padres e bispos, alguns de forma chocante, bem como o facto doentio de praticamente ninguém em posição de autoridade ter agido, sobretudo quando havia bispos envolvidos. Se aguentar os detalhes, alguns dos quais são blasfemos e verdadeiramente diabólicos, poderá ficar com uma ideia da natureza do problema aqui, aqui, aqui e, sobretudo, aqui.

Perante isto, não admira que estejamos a assistir a uma onda de revolta na América, mesmo entre católicos fiéis. A julgar pelas muitas pessoas com quem estou em contacto regularmente e que conhecem bem esta matéria, poderemos estar à beira de mais uma profunda interrogação na Igreja, desta feita não devido a queixas sobre padres, mas sim sobre bispos que deveriam ter feito algo sobre outros bispos e pessoas em posição de autoridade.

Já vimos como este assunto azedou a viagem do Papa ao Chile no início deste ano. Dois cardeais chilenos, incluindo um dos que pertence ao grupo de nove conselheiros do Papa Francisco, estão implicados em encobrimento e possivelmente no envio de desinformação ao Papa Francisco. Ainda ontem as autoridades chilenas anunciaram que estão a investigar 158 membros da Igreja que são suspeitos de ter abusado, ou de ter encoberto abusos.

Outro dos principais conselheiros do Papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, das Honduras, foi acusado de corrupção financeira. Mas potencialmente mais sério é o caso do seu subordinado, o bispo Juan José Pineda Fasquelle, que gere a arquidiocese durante as longas ausências de Maradiaga, que teve de resignar depois de várias revelações de abuso sexual de seminaristas, numa situação em tudo semelhante à de McCarrick.

Mas o que é pouco usual no caso de McCarrick é que se trata de um cardeal em exercício que agora foi julgado pelas autoridades competentes por ter cometido ofensas ao longo de muitos anos, mas que continua a ser cardeal. O Papa Francisco tem de fazer algo sobre isto, bem como sobre aqueles que permitiram que a situação se mantivesse.

Porque apesar de o negarem, muitos bispos americanos receberam queixas sobre McCarrick e nada fizeram para o impedir. Mesmo Roma teve de ser informada sobre as indemnizações devido a abusos cometidos mais cedo e sabemos que uma delegação de leigos esteve em Roma para tentar impedir a nomeação de McCarrick para Washington, precisamente por causa das suas inclinações sexuais.

Mesmo o “The Washington Post”, que anteriormente não tinha mostrado qualquer interesse nos boatos sobre McCarrick, observou: “Muitos comentadores na Igreja acham que este é um momento crucial para o pontificado de Francisco, devido à estatura de McCarrick e o facto de estarem a rebentar escândalos de abusos sexuais no Chile e nas Honduras.”

O nosso amigo Phil Lawler escreveu um ensaio de leitura obrigatória, que foi publicado ontem no site da First Things. Saber como é que McCarrick conseguiu abusar de crianças e adultos durante tanto tempo, diz ele, é uma questão importante para a protecção de futuras vítimas, mas: “é menos importante do que saber como é que a sua ascensão pela hierarquia eclesial continuou, apesar de já existirem rumores sobre as suas actividades homossexuais. Porque é que McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington e feito cardeal? Porque é que o deixaram promover os seus protegidos, que depois desempenharam missões diplomáticas para o Vaticano? Como é que pôde influenciar a nomeação de bispos e até de um Papa, depois das suas aventuras na casa da praia se terem tornado conhecimento comum?

Descobrir a resposta a estas perguntas exige um autoexame muito doloroso, tanto nos Estados Unidos como em Roma. Mas a alternativa é continuar como se nada fosse, e isso está a tornar-se impossível.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 25 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Preconceito Anticristão Despercebido

Hoje em dia quando pensamos em cristãos perseguidos a maior parte de nós pensa em locais como a China, o Médio Oriente, ou estados pária como a Coreia do Norte, Venezuela ou Cuba. São casos apontados ocasionalmente, mas que recebem pouca publicidade nos media seculares. Normalmente são os meios de comunicação religiosos, católicos e protestantes, que se ocupam de nos manter informados sobre as dificuldades dos nossos correligionários no mundo moderno.

Mas existe toda uma outra dimensão de ameaças aos cristãos que passa praticamente despercebida. Sabemos que existe pressão sobre organizações religiosas e igrejas na América – bem como crentes isolados como floristas ou pasteleiros – para se acomodarem às tentativas do Estado ou das agências federais para impor uma nova ética sexual, ou para aplicar as leis que regulam o “discurso de ódio” ou o preconceito contra crentes.

Até agora o Supremo Tribunal tem sido bastante bom a proteger a liberdade religiosa. E se o Presidente Trump – como é provável – conseguir nomear para o tribunal mais um juiz (ou dois?) que seja sensível à importância das defesas constitucionais da liberdade religiosa, poderemos ter protecção a longo prazo do constante ruído anticristão nas universidades, nos media e em Hollywood.

Há anos que tenho conhecimento da existência de problemas semelhantes na Europa, onde normalmente não existem as mesmas protecções ou recursos jurídicos que nós temos ao abrigo da Primeira Emenda. Mas não tinha noção da verdadeira extensão dos problemas que lá existem – e penso que poucos terão – embora agora tenhamos um excelente instrumento com o qual os podemos medir.

O Observatório de Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa publicou um relatório de 74 páginas, relativo a 2018, que nos abre verdadeiramente os olhos (podem lê-lo online, aqui). Não se trata simplesmente de uma compilação de queixas ou de reacções exageradas aos choques típicos de sociedades pluralistas. Fornece um retrato de um problema extensivo que deve interessar a toda a gente que se importa com a liberdade, incluindo a liberdade religiosa.

Uma das coisas mais marcantes do relatório é o cuidado com que foi elaborado, a começar pelos termos que o definem: “O termo ‘intolerância’ refere-se à dimensão social ou cultural e, no pior caso, inclui crimes de ódio contra cristãos; o termo ‘discriminação’ refere-se à dimensão legal e inclui interferências com a liberdade de expressão, religião, consciência, livre associação e reunião, direitos paternais, liberdade contratual, remoção de símbolos cristãos pelo Governo, leis que afectam os cristãos de forma negativa e acesso desigual à justiça”.

Ao ler este parágrafo ficamos espantados por saber que estas coisas estão a acontecer na Europa, hoje. O observatório cita o Papa Francisco que diz que existem dois tipos de perseguição anticristã. A primeira é aberta, como se vê em locais como o Paquistão, e é clara, explícita e inegável. A segunda é “perseguição bem-educada (…) disfarçada de cultura, de modernidade ou de progresso”.

O relatório também divide a perseguição na Europa em duas categorias com nomes mais coloquiais: “Apertar” e “esmagar”. Os apertos estão a transformar-se num fenómeno internacional, como se vê por estas discrições, que têm paralelos na América: “Em França, um farmacêutico foi sancionado por se recusar a vender um DIU, um aparelho abortivo. Parteiras suecas que se recusam a participar em abortos perderam os recursos por despedimento injustificado e tiveram de pagar custas de tribunal. Um lar católico na Bélgica foi multado por impedir que os médicos administrassem uma injecção letal e outro na Suíça foi ordenado a permitir o suicídio assistido nas suas instalações, sob pena de perder os apoios estaduais”.

Isto já é mau em si. Mas os casos de esmagamento são ainda mais preocupantes. Muitos envolvem ataques por parte de muçulmanos a membros do clero ou a pessoas que ostentam cruzes ou outros artefactos religiosos. Se apenas ouve as notícias dos media generalistas, dificilmente saberia que estas coisas acontecem, a não ser que surja um caso impossível de ignorar, como o assassinato, em 2016, do padre Jacques Hamel, em França, às mãos de dois extremistas muçulmanos.

Mas não são apenas os muçulmanos. A maior parte do relatório do Observatório descreve mais de 500 casos de intolerância e discriminação, acompanhados de links que lhe permitem ver o que se passou em maior detalhe.

Um dos sinais da seriedade de tudo isto é que o Observatório não se contenta meramente em relatar estes abusos, mas faz sugestões concretas sobre o que poderá ajudar a contrariar aquilo que parece ser uma moda em crescimento. Duas dessas sugestões chamaram-me a atenção e são cruciais para sociedades onde se tornam cada vez mais aceitáveis atitudes anticristãs: “Os líderes de opinião devem ter noção da sua responsabilidade em formar um discurso público tolerante, e devem evitar estereotipar negativamente os cristãos ou o cristianismo. Os artistas devem respeitar os locais e os símbolos religiosos, tendo em conta que o objecto da sua arte poderá ser muito sagrado para os fiéis”.

Isto já seria muito bom, claro, embora os nossos intelectuais antirreligiosos não devam levar tais conselhos muito a peito. No fim das contas, porém, são as autoridades públicas, a todos os níveis, que devem ser confrontadas com as provas dos seus próprios preconceitos e erros. E devem ser obrigados a não os esquecer.

No caso americano da Masterpiece Cakeshop o nosso Supremo Tribunal notou, correctamente, a hostilidade aberta revelada pelo comissários dos direitos civis do Colorado para com o pasteleiro que se recusou a criar um bolo especial para um casamento gay. Desde então algumas pessoas comentaram que a decisão do tribunal não representou propriamente uma vitória, porque deu a entender que o tribunal só agirá quando existirem provas de preconceito anticristão aberto.

É bom que tenhamos isso em conta, uma vez que vão surgir outros casos parecidos. Mas os nossos amigos europeus fizeram bem em denunciar governos, a todos os níveis, por permitir discriminação subtil e – como temos visto nos Estados Unidos – o abuso de leis contra a discriminação para discriminar os cristãos.

Não vai ser uma batalha fácil. Mas quanto mais nós fizermos em termos de registar e denunciar o tipo de abusos identificados pelo Observatório, mais difícil será para os preconceituosos anticristãos.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Consciência Existe?

David Carlin
Há poucos dias o Supremo Tribunal dos Estados Unidos chegou a uma decisão no caso de um pasteleiro do Colorado que se recusou, por objecção de consciência, a fazer um bolo para o casamento homossexual de dois homens. Infelizmente, o tribunal não decidiu sobre o facto de o pasteleiro, ou qualquer outra pessoa numa posição parecida, ter direito, ao abrigo da Primeira Emenda, de seguir a sua consciência num caso como este.

O tribunal limitou-se a declarar que o tribunal dos direitos civis do Colorado, que tinha decidido punir o pasteleiro, tinha revelado um preconceito antirreligioso indevido ao chegar à sua decisão. Podemos esperar, por isso, que esta questão apareça novamente diante do Tribunal num futuro não muito distante, a saber, se a cláusula de “livre exercício” da Primeira Emenda protege lojistas que se recusem a fornecer bens ou serviços porque estão honestamente convencidos de que seria pecaminoso, ou imoral, fazê-lo.

No mundo anglófono a questão dos direitos de consciência religiosa data de há muitos séculos, remontando talvez aos Lollardos (seguidores do padre revoltoso John Wycliffe) no Século XIV. Foi formulado de forma clara no Século XVII quando, entre outros, Roger Williams e o seu amigo John Milton argumentaram que os indivíduos, desde que em tudo o resto sejam cumpridores da lei, têm direito a obedecer às suas consciências, ainda que essas consciências estejam erradas. Na geração depois da independência essa visão tornar-se-ia quase universal nos recém-fundados Estados Unidos.

Na América existe uma longa tradição de permitir que os fiéis de confissões religiosas pacifistas (como os quakers, por exemplo) obedeçam às suas consciências quando estas lhes pedem que evitem o serviço militar. Durante a guerra do Vietname o estatuto de objector de consciência era frequentemente atribuído mesmo a pessoas que não pertenciam a uma religião pacifista – como por exemplo católicos ou secularistas rigorosos – desde que apresentassem argumentos convincentes de que tinham uma convicção sincera de que seria para elas imoral participar nesta guerra em particular.

De tal forma acreditamos na importância da consciência, ainda que esta esteja errada, que temos estado dispostos a tolerar objectores de consciência, mesmo quando está em causa o destino da nação.

Mas essa atitude de tolerância parece ter mudado. Muitos americanos acreditam hoje que a lei deve obrigar pessoas como o pasteleiro do Colorado a violar as suas consciências. E não é por o destino da nação estar em perigo. Nem é porque de outra forma este casal homossexual teria de passar sem bolo de casamento, uma vez que podiam facilmente ter obtido o que queriam noutra pastelaria ou podiam até ter comprado um bolo não personalizado nesta pastelaria em particular.

Fico pasmado com esta falta de noção sobre a importância da consciência. Estas pessoas não compreendem que o direito a obedecer à consciência é um direito humano fundamental? Talvez o mais fundamental de todos? Estas são geralmente as mesmas pessoas que pensam que o aborto e as relações homossexuais são direitos humanos fundamentais. Mas não pensam que exista um direito fundamental a obedecer sinceramente à consciência? Incrível. Em que mundo estamos a viver?

Mais me espanta que esta gente não compreenda que a consciência é um importante bem social. Todos ficamos mais bem servidos quando os nossos amigos, vizinhos e concidadãos prestam atenção à voz das suas consciências. Claro que existem consciências demasiado rigorosas, e isso não é algo a encorajar, mas o mal social causado por uma consciência demasiado rigorosa não é nada comparado com o mal provocado por consciências demasiado lassas. Uma sociedade desencorajar a liberdade de consciência é uma loucura. Mas há dezenas de milhões de americanos dispostos a fazer precisamente isso para tornar o mundo mais seguro para bolos personalizados para casamentos homossexuais.

Jack Phillips, detentor de consciência
Porque é que alguém chegaria ao ponto de desvalorizar a consciência?

Vejamos, o que é a consciência? No sentido tradicional do termo (uma tradição que remonta alguns séculos na língua inglesa) é vista como uma faculdade de conhecimento moral. Não conseguimos conhecer o bem e o mal da mesma maneira que conhecemos coisas do mundo material, isto é, através dos nossos sentidos (vista, audição, toque, etc.). Mas não se preocupem, para além destas faculdades sensoriais, temos a faculdade de conhecimento moral. Normalmente chamamos a isto consciência (embora também tenha sido conhecido como sentido moral).

Muitos secularistas humanistas (ou pós-cristãos, como também podem ser chamados), não acreditam que exista um sentido não-sensorial que nos forneça conhecimento moral. Todo o conhecimento, alegam, vem dos sentidos. As convicções que não vêm dos sentidos não são, por isso, conhecimento, mas sim sentimentos, preconceitos ou caprichos. Quando as pessoas dizem, “a minha consciência dita que devo fazer isto, ou aquilo”, o que estão mesmo a dizer – deste ponto de vista – é “os meus sentimentos, preconceitos ou caprichos ditam que devo fazer isto, ou aquilo”.

Mas se a consciência não passa disto, então não há grandes razões para que seja reverenciada. Se é possível alcançar algum bem social obrigando as pessoas a ignorar as suas consciências, então que se obrigue.

A maior parte dos que acreditam apaixonadamente no casamento entre pessoas do mesmo sexo serão provavelmente humanistas seculares ou pós-cristãos, que por sua vez tenderão a acreditar que não existe nada que se pareça com uma faculdade especial de conhecimento moral, isto é, qualquer consciência que mereça respeito e protecção legal. Quem é que pode ficar surpreendido, então, com o facto de os grandes defensores do casamento homossexual não se sentirem incomodados com a ideia de impor castigos legais a pasteleiros que, por razões de consciência, recusem fazer bolos para estes casamentos?

Trata-se de um ponto de vista comum, mas é um ponto de vista comum que ameaça directamente o núcleo moral de cada um de nós.


David Carlin é professor de Sociologia e de Filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 15 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

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