quarta-feira, 24 de abril de 2019

AIS condecorada na ONU

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O Papa pediu esta quinta-feira o fim da cultura da vingança, recordando que quem não perdoa fecha a porta ao perdão de Deus.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre vai ser condecorada pela Missão Permanente da Santa Sé junto da ONU. Um prémio merecido pelo trabalho que fazem pelos cristãos perseguidos.

Temos ouvido dizer que morreu um português nos ataques no Sri Lanka. Digo eu que não foi um, foram dezenas.

Se é da zona do Porto, não perca esta formação interessantíssima que se realiza a partir do dia 12 de junho, sobre as diferenças entre a forma como a religião influencia a política na Europa e nos EUA. Ver a imagem para mais detalhes.

Alguma vez lhe tinha ocorrido que a Arca de Noé podia ser uma prefiguração de Cristo? Ou que Isaac a carregar a lenha pelo monte acima, para o seu próprio sacrifício, simbolizava Jesus a carregar a Cruz? Esta é a beleza do sentido figurativo das Escrituras, tema para o artigo desta semana do The Catholic Thing em português, a ler.

Não, não foi um. Foram dezenas

São José Vaz, apóstolo do Sri Lanka
Mais uma vez, o Domingo de Páscoa tornou-se uma sangrenta Sexta-feira Santa para muitos cristãos. Desta vez foi no Sri Lanka, nos últimos anos tem sido noutros lugares, incluindo o Paquistão, o Egipto e a Nigéria. Já se percebeu que isto não vai acabar tão cedo. Para o ano será noutro lugar qualquer.

Admito que me irrita um bocado quando os cristãos começam a lamentar-se de que a imprensa não liga nada a estas tragédias. Irrita-me sobretudo quando se entra no jogo de comparar a atenção dada à perseguição aos cristãos e a que se dá a perseguições a muçulmanos, como aconteceu recentemente em Christchurch. Isto não é um concurso e não é verdade que a imprensa não liga à perseguição aos cristãos. Pode acontecer que as pessoas não estejam é atentas aos canais, rádios ou jornais certos. Mas isso é outra conversa.

Nesta tragédia do Sri Lanka, como é aliás normal, as atenções da imprensa portuguesa concentraram-se muito no português que morreu num dos hotéis atacados. A história do Rui Lucas é terrivelmente triste. Morto em lua-de-mel num atentado terrorista num destino paradisíaco. Nenhuma mulher merece voltar viúva da lua-de-mel.

Não tenho uma crítica a fazer ao facto de a imprensa ter focado o casal Lucas. Mas a verdade é que o Rui não foi o único português a morrer naqueles atentados. Atrevo-me a dizer que, a seguir a cingaleses, a maioria dos mortos eram portugueses.

Se houvesse – se há não encontrei – uma lista completa com o nome de todas as vítimas deste atentado, estou certo que encontraríamos dezenas, se não centenas de apelidos portugueses.

É que muitos, se não mesmo a maioria, dos católicos naquele país são descendentes de portugueses e, tal como a maioria dos luso-descendentes cristãos no sudeste asiático, orgulham-se dessa sua identidade. Mesmo que não se orgulhassem, mesmo que não ligassem nada, nós não podemos ignorar esse facto.

Só se cairmos no erro de pensar que só é português quem tem cartão de cidadão da República Portuguesa – que ideia tão pobre! – é que podemos descartar a nossa ligação a esta gente. Agora, na sua hora de perseguição e tragédia, tínhamos a obrigação de a recordar e de fazer mais por eles nos diferentes planos em que agimos, seja através da caridade, seja da oração, seja na diplomacia internacional.

Que São José Vaz, o apóstolo do Sri Lanka, guarde estes nossos irmãos na fé e na portugalidade.

Em Sentido Figurativo

James Matthew Wilson
As grandes revoluções sobre o conhecimento religioso e teológico dos últimos dois séculos começaram com a questão de como ler as Escrituras. A nova ciência da geologia parecia pôr em causa uma leitura literal do Genesis, que indicava que a Terra tinha cerca de seis mil anos. Depois chegaram os esforços histórico-críticos da Alta Crítica Alemã e os livros da Bíblia foram feitos em pedaços – milhares de pedaços, fragmentos da autoria de várias mãos, juntados ao longo dos séculos, de forma a que a Sagrada Escritura parecia mais uma manta de retalhos e menos uma soma das suas partes.

Como é que se determina um significado quando cada livro é uma mescla de intenções prévias, frequentemente em conflito? Como é que se pode confiar naquilo que nos chegou, quando os dados históricos contidos nos livros não parecem ser fiáveis no que diz respeito à identificação de lugares e datas?

Para leitores dos séculos XVIII e XIX esta última pergunta era tudo menos tonta. Exames de teologia desse tempo – que eu já vi – incluem questões como “Em que data foi o dilúvio de Noé?”

Mas aqueles de entre nós que já leram o poema de T.S. Eliot “The Waste Land”, a questão parece estranha, no mínimo. O poema é composto por 432 linhas, das quais pelo menos 100 são citações parciais ou totais de uma variedade de fontes. Mas isso não nos impede de encontrar um significado coerente no poema. Pelo contrário, este ganha profundidade e significado por causa da inclusão deliberada de outras vozes. Se Eliot o fez, Deus também pode.

As interpretações judaicas e, mais tarde, cristãs, das escrituras têm sido tradicionalmente “figurativas” ou espirituais. O que isto quer dizer é que sim, cada obra tem um sentido literal, se não num evento histórico, pelo menos a intenção do autor. Mas cada obra tem também um significado espiritual, um significado figurativo que talvez nem fosse pensado pelo autor, mas que pode ser discernido nas suas palavras e que geralmente é muito mais importante.

Só assim é que a Escritura se torna profética e reveladora, ensinando-nos algo a que não teríamos conseguido chegar sozinhos, chamando-nos repentinamente à conversão. Só assim é que podemos ler o Antigo Testamento como apontando para Cristo como o seu próprio cumprimento. E, em sentido contrário, só assim é que podemos ver Cristo como a lente através da qual interpretar as palavras do Antigo Testamento e a obra da natureza.

Dificilmente podemos compreender qualquer um dos Testamentos sem o sentido espiritual, pois até uma leitura diagonal de qualquer passagem revela uma economia da linguagem que só é possível devido à densidade do significado: se não está disposto a desempacotar cada frase como se fosse uma mala de viagem, então não está pronto para ler.

Dois dos maiores teólogos do Século XX passaram as suas carreiras a tentar ajudar a Igreja a recuperar esta forma de ler as Escrituras – e, também, de ler o mundo. Os quatro volumes de Exegese Medieval, de Henri de Lubac, dedicam-se a descrever a interpretação figurativa como tem sido praticada ao longo da história. Pode parecer um bocado estranho ler aquilo a que se pode chamar uma defesa histórico-crítica da interpretação figurativa: O que de Lubac fez foi, na maior parte, elaborar uma teoria breve mas elegante e depois multiplicar citações dos Padres da Igreja até se tornar claro que na verdade a teoria era deles.

Hans Urs von Balthasar foi um bocado mais ambicioso que de Lubac. Também ele era capaz de multiplicar citações, mas também avançou sozinho e interpretou as Escrituras – e o resto da história – em termos espirituais. De Lubac queria restaurar a autoridade interpretativa dos Padres da Igreja; von Balthasar escrevia como se fosse um deles.

Mas isso não tem impedido a Igreja de se preocupar com o facto de muitos acreditarem que a única forma “científica” de ler as Escrituras é o método histórico-crítico e que, para o homem moderno, a interpretação figurativa parece arbitrária e pateta.

Eu passei grande parte das últimas duas décadas a ler e a escrever sobre exegese figurativa, e a praticá-la. Mas qualquer pensamento sobre teoria evapora-se quando penso em apenas dois momentos destes últimos anos.

Houve um verão em que decidi ler “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. Esta é frequentemente considerada a obra prima do Santo, e a julgar pela espessura do livro, certamente será. Mas para a maioria dos leitores o seu interesse é menor quando comparado com as “Confissões” que – para mim – é certamente o livro mais perfeito da nossa tradição fora das Escrituras.

Admiro muita coisa em “A Cidade de Deus” e muita coisa mudou-me, mas sobretudo num sentido académico. Impressiona-me a forma como Santo Agostinho desenvolveu ou refutou alguns aspetos do pensamento clássico, enquanto nos mostrava a verdade sobre as coisas.

Mas já numa parte adiantada do livro, durante uma passagem longa que levaria a maioria dos leitores a abandonar o barco, Agostinho descreve a Arca de Noé. Descreve, pacientemente, as dimensões da Arca e a posição da sua porta lateral. E depois mostra-nos como é proporcional, em grande escala, ao próprio Corpo de Cristo, de cujo lado jorraria água e sangue, da porta aberta pela lança.

Cristo é a nossa Arca, carregando-nos através de mares tempestuosos e de um mundo inundado de pecado. Ao ler isto senti não uma aprovação pensativa, mas alegria. Não foi motivo de reflexão, mas de conversão. “Sim”, pensei eu, “esse é o meu Senhor e o meu Cristo!”

Também há uns anos estava a ler uma Bíblia ilustrada aos meus filhos, uma adaptação maravilhosa. Chegámos à história de Abraão e de Isaac. Abraão recebe de Deus uma ordem para sacrificar o seu filho. É Isaac quem carrega monte acima a lenha que, sem o saber, servirá para a sua própria imolação. No final um anjo intervém para impedir Abraão de levar a cabo este grande teste da sua fidelidade, e o texto explica:

“Isaac a carregar a lenha monte acima é uma imagem de Jesus, que carregou a Sua cruz até ao topo do monte do Calvário, para se oferecer pelos pecados do mundo. Embora Deus tenha salvo o filho de Abraão, por amor a nós não salvou o seu próprio filho da morte”.

Sim, sim, sim! Isaac prefigura Cristo; o filho a carregar a lenha é uma profecia do Filho que carrega a Cruz. Senti-me atraído para mais próximo de Deus e a entrar no seu mistério ali mesmo, com os meus filhos sentados ao meu colo.

Uns meses mais tarde, estava a recomendar esse livro a outro homem com filhos pequenos e mencionei esta interpretação figurativa. A sua resposta foi imediata: “Como é que alguém pode duvidar que Jesus é o Senhor?”

E é assim que funciona a exegese figurativa; não nos transporta até um momento histórico particular. Permite a Deus chegar até nós e agarrar-nos pelas golas, e abanar-nos até à fé.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Notre Dame e Sri Lanka. Uma Sexta-feira Santa que não acaba

Peço desculpa pelo meu silêncio dos últimos tempos, entre folgas, férias e horários complicados, a coisa tem sido mais difícil. E deve continuar durante as próximas semanas, mas farei os possíveis.

Para além da Páscoa, o dia mais importante do calendário cristão, dois grandes eventos marcaram as últimas semanas.

O terrível massacre no Sri Lanka, em que foram atingidos hotéis para estrangeiros e igrejas cristãs, voltou a transformar a Páscoa numa longa Sexta-feira Santa. Os ataques foram reivindicados pelo Estado Islâmico – o que não quer dizer grande coisa – mas tudo indica que são da autoria de extremistas islâmicos, de facto. Felizmente há muitos muçulmanos que condenam estes actos.

Anda tudo a dizer que morreu um português, e oficialmente será verdade, mas se formos a ver os apelidos dos que morreram nas Igrejas encontraremos certamente muito mais apelidos familiares. Ser português não é apenas uma questão de BI.

O outro evento triste foi, claro, o incêndio na Catedral de Notre Dame, que pôs o mundo a chorar, e a cantar.

Mais algumas coisas que poderão ter passado despercebidas…
Continuam as conferências “E Deus nisso tudo?”, o último contou com Rui Vieira Nery e o fadista Peu Madureira.

Por fim, o artigo da semana passada do The Catholic Thing volta ao tema dos abusos sexuais e questiona se a abordagem do Papa Francisco ao problema é o ideal. O tempo dirá, conclui Stephen White. Leia, que vale a pena.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Tempo Dirá

Stephen P. White
Na semana passada soube-se que o Papa Francisco está a trabalhar num documento que regularizará os procedimentos para lidar com alegações de abusos sexuais ou de negligência em lidar com casos de abusos, relacionados com bispos. Não é claro se, ou como, o novo documento altera o motu próprio que o Papa emitiu em Junho de 2016, que se chama “Come una madre amorevole” (Como uma mãe amorosa)

Esse documento sublinhava e clarificava as “razões graves” pelas quais um bispo poderia ser removido do seu ministério eclesiástico, sobretudo no que diz respeito a negligência em lidar com o abuso de menores. Estipula que um bispo pode ser removido por negligência, “mesmo sem falha moral grave da sua parte”. O documento pede ainda a formação de um “colégio de juristas” – uma assembleia de canonistas – para assistir o Santo Padre em determinar se, e como, se devem afirmar as conclusões do Tribunal Apostólico que julga o caso canónico.

Tomemos por exemplo o caso do Arcebispo Anthony Apuron, do Guam. Apuron foi condenado num tribunal canónico por “delitos contra o Sexto Mandamento com menores”. O seu recurso falhou e o Tribunal Apostólico da Congregação para a Doutrina da Fé, com a aprovação e a autoridade do Santo Padre, emitiu uma sentença final, que foi anunciada a semana passada: Apuron foi removido do ministério de Arcebispo, proibido de usar as insígnias do seu cargo de bispo e proibido ainda de viver na Arquidiocese de Agaña. Interessantemente – e ao contrário do que se passou no caso recente de Theodore McCarrick – Apuron não foi removido do estado clerical.

Não foi imediatamente claro porque é que a um bispo condenado de abusar de menores (Apuron) foi permitido continuar no estado clerical enquanto outro (Theodore McCarrick) foi laicizado. Nalguns pontos os casos eram semelhantes – ambos envolviam o abuso sexual de menores – mas McCarrick foi condenado também pelo crime de solicitação no confessionário, uma ofensa grave só por si. Crimes diferentes, sentenças diferentes.

Mas as diferenças não se explicam apenas por alguma espécie de orientações pontifícias. O Papa Francisco tem resistido a mecanismos universais para lidar com os problemas dos bispos, uma abordagem que, pelo menos em teoria, permite que as soluções sejam pensadas à medida da ofensa particular, mas também para o enquadramento social, cultural e política de cada caso. O Colégio de Juristas previsto em “Come una madre amorevole” ajuda-o neste sentido, e pode escolher diferentes juristas para cada caso.

De facto, o Papa Francisco descreveu o processo, e como o acha útil, numa conferência de imprensa no Verão passado, quando regressava de Dublin – uma conferência de imprensa recordada mais pela sua resposta memorável a questões sobre a carta de Viganò, então recém-publicada. O Papa Francisco usou como exemplo o caso de Apuron, que na altura estava na fase de recurso:

O caso mais recente é o de Guam, do Arcebispo de Guam, que recorreu. E eu decidi – porque é um caso muito difícil – usar o privilégio que tenho de ser eu mesmo a ouvir o recurso, em vez de o enviar para o concelho de recurso, que trabalha com todos os padres. Eu é que assumi o recurso. E formei uma comissão de canonistas que me estão a ajudar e eles disseram-me que quando eu regressar, no máximo dentro de um mês, farão uma recomendação para que eu possa emitir um juízo. É um caso complicado, por um lado, mas não por causa das provas, que são claras. Não posso fazer um pré-julgamento, devo esperar o relatório, depois julgo. Mas digo que as provas são claras porque são as provas que conduziram à condenação no primeiro julgamento.

Zanchetta
Há vantagens e desvantagens evidentes para este tipo de processo. Por um lado, pode ser adaptado às necessidades de cada caso, como já vimos. Mas há também uma grande desvantagem. Ao assumir a responsabilidade pessoal por juntar uma equipa de juristas em cuja opinião dependerá para um caso em particular, o Papa Francisco torna-se pessoalmente responsável pelo desenrolar dos casos – e por como os fiéis percepcionam a forma como se lida com cada caso.

A imparcialidade da lei não é igual ao abraço de uma mãe amorosa, e esse é um ponto que o Papa quer sublinhar. Mas não é por acaso que normalmente não deixamos as mães presidir sobre os julgamentos dos seus filhos. Posto de forma mais clara: uma das razões pelas quais a Igreja se encontra nesta crise é certamente porque muitos bispos revelaram demasiada preocupação paternal com os seus padres criminosos, e não foram suficientemente neutros em relação aos crimes terríveis em questão. Isto não foi sempre – ou até frequentemente – por malícia ou más intenções. É fácil entender como poderá ter sido precisamente o contrário.

Não é necessário pôr em questão o juízo do Papa (este, ou qualquer outro) para compreender os perigos inerentes a um processo judicial tão personalizado.

Nem se trata de uma preocupação abstrata. O Papa já cometeu um erro terrível, pelo qual pediu desculpa, ao defender o bispo Juan Barros, no Chile, mesmo ao ponto de denunciar os seus acusadores.

E depois temos o caso do bispo Gustavo Zanchetta, uma das primeiras nomeações episcopais do Papa Francisco. Zanchetta foi removido da sua diocese na Argentina depois de uma série de queixas – incluindo sobre pornografia homossexual encontrada no seu telefone – e trazido para Roma por Francisco. O Papa poderá entender isto como uma forma de trazer um filho errante para perto dele, para poder estar sobre a supervisão de um pai que o ama.

Outros, digamos assim, poderão entender de outra forma.

O Papa Francisco faz bem em estar de pé atrás em relação a “remédios” legalistas e burocráticos para aquilo que é fundamentalmente uma crise moral e espiritual. Mas dado tudo o que sabemos sobre como se tem lidado com os ilícitos dos padres nas últimas décadas, há razões para questionar se esta abordagem pastoral altamente personalizada e ad hoc do Papa Francisco para com bispos errantes é o modelo mais prudente para a Igreja hoje. O tempo dirá.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 11 de Abril de 2019)

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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Os Guardas de Auschwitz

Randall Smith
Quando visitamos Cracóvia e Auschwitz em dias seguidos, sentimos uma espécie de chicotada psicológica. Experimentamos de perto um dos mais belos feitos culturais da humanidade e a cena de um dos seus maiores crimes.

Em Cracóvia vemos a glória de que são capazes a natureza e o génio do homem. Em Auschwitz vemos o horror de que essa natureza e esse génio o tornam capazes. Ambas são lições importantes e é um grave erro afirmar um sem o outro.

Sobre Auschwitz tenho muito pouco a dizer – e nada em particular sobre os presos, sobre cujo sofrimento não tenho nem a sabedoria nem os dons para escrever. Os horrores desta magnitude requerem um certo silêncio da parte daqueles que observam a partir de uma distância segura. Só quem lá esteve é que pode falar com autoridade. Eu não tenho essa presunção.

Mas espero que me sejam permitidas duas observações, não sobre o sofrimento dos prisioneiros, mas sobre os guardas. Aliás, uma das coisas que falta no que é de resto uma apresentação excelente sobre Auschwitz é qualquer informação sobre os guardas. Esta falha está a ser corrigida, dizem-me, para uma exposição futura.

Por agora existe um livro interessante recomendado pelo nosso guia – A Vida Privada dos SS de Auschwitz – que inclui relatos escritos por criados polacos que trabalharam nas casas de família dos guardas nazis.

Antes da guerra havia uma pequena vila rural no local onde se ergueu o campo. Foi limpo dos seus cidadãos polacos e rebatizado “Auschwitz” pelos alemães. As casas foram atribuídas aos oficiais alemães que depois de saírem dos seus empregos – que envolviam a sistemática desumanização e extermínio de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes – iam para casa à noite para passar tempo em família com as mulheres e os filhos.

Lendo os relatos das “Vidas Privadas” compreendemos que longe de serem os psicopatas que tantas vezes imaginamos, na realidade a maioria destes homens iam para casa e faziam o mesmo que a maior parte dos homens de família. Conversavam com as mulheres, brincavam com os filhos, passeavam o cão e ocupavam-se a fazer compras, a tratar das contas e a lidar com a ama e com a cozinheira.

Não pude deixar de perguntar o que se poderia passar pela cabeça e pela alma de alguém que ia à missa ou à igreja todos os domingos, lia fielmente a Bíblia e depois saía de casa na manhã seguinte para fazer as coisas que os guardas faziam em Auschwitz. O potencial humano para cegueira moral é de cortar a respiração e devia servir de aviso constante.

Auschwitz mostra que podemos confundir o pior mal com o bem de “cumprir o nosso dever”. Quando deixamos de ver a realidade como Deus a vê e passamos a olhar apenas pela lente burocrática ou ideológica, ela fica completamente deturpada. Deixamos de ver o que está mesmo à nossa frente – uma pessoa, feita à imagem de Deus – e passamos a ver apenas o que achamos que essa pessoa representa.

Aprendi duas lições em Auschwitz das quais até então não me tinha apercebido.

Primeiro, tornou-se claro que à medida que se tornava claro aos alemães que estavam a perder a guerra, as matanças nos campos não abrandaram, aceleraram. Mais e mais recursos foram desviados do esforço de guerra para matar o maior número de judeus possível – como se a única consideração fosse: “Será que conseguimos acabar o trabalho antes de sermos obrigados a render-nos?”

Segundo, quando os russos estavam a avançar sobre o campo os alemães rebentaram com os crematórios e queimaram dois armazéns que continham montanhas de sapatos, óculos, malas, artigos de cozinha e mantas de oração que tinham retirado aos judeus quando saíam dos comboios.

Poucas coisas nos fazem compreender a dimensão da chacina em Auschwitz-Birkenau do que a visão daquela montanha de sapatos e de malas – as malas todas marcadas com o nome e data de nascimento do dono, como se fossem fazer uma viagem ou para um campo de férias (tinha-lhes sido dito que iam ser relocalizados). Alguns dos sapatos eram apenas de bebé.

Por vezes, quando os meus alunos tentam defender o seu relativismo moral, dizem coisas como “os nazis deviam ter as suas razões” (e tinham. Más.) Ou perguntam, “Mas e se aquilo lhes parecia estar certo?” (Bom, então estavam errados, certo?)

Mas eis a questão sobre o facto de os alemães terem queimado aqueles armazéns ou dinamitado os crematórios. Significa que os próprios alemães sabiam muito bem que aquilo que estavam a fazer estava errado. Se estivessem orgulhosos das suas acções, esperaríamos que cantassem os seus feitos ao mundo – como que dizendo, na face de qualquer oposição: “Vocês eram contra isto. Eram demasiado tímidos para fazer o que precisava de ser feito. Mas nós não”.

Mas pelo contrário, tentaram escondê-lo. É por isso que as matanças ocorreram em locais vazios na Polónia e não nas principais cidades da Alemanha. É por isso que os esconderam por detrás de eufemismos verbais.

Os oficiais alemães viviam com as suas famílias como se estivesse tudo bem: Era apenas mais um dia no escritório. Mas no fundo, no fundo, sabiam.

Devemos procurar compreender que tipo de distorção do coração e da alma do homem pode tornar possível uma psicose destas.

Cuidado com as pessoas que dizem “estamos empenhados numa tarefa nobre” mas depois escondem o que estão a fazer do escrutínio, ou por detrás de eufemismos verbais. O que será que estão a esconder, talvez de si mesmos?

A nossa primeira obrigação enquanto seres humanos livres é ver a realidade de forma clara, dizer a verdade de forma simples e agir de acordo com a verdade plena da dignidade humana. A cegueira moral dos guardas de Auschwitz deve mostrar-nos do que somos capazes quando fazemos o contrário.  


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de Abril de 2019)

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Quem quer os seus jihadistas de volta?

O que fazer com jihadistas portugueses – caso ainda haja algum vivo – ou seus familiares que estiveram com o Estado Islâmico? Saiba aqui o que pensam os especialistas.


Da Nigéria continuam a chegar-nos notícias de violência interétnica e inter-religiosa, que opõe agricultores cristãos a pastores muçulmanos.

Já ouviu falar dos cursos Alpha? Vale a pena… Está aqui.

No artigo desta semana do The Catholic Thing, o padre Paul Scalia pergunta com qual dos filhos da parábola do Filho Pródigo é que nos identificamos, e como a Quaresma é precisamente a altura certa para restaurarmos uma verdadeira relação filial com Deus. Não deixem de ler.

Que Tipo de Filho?

Pe. Paul Scalia
A Quaresma é sobre o tipo de filho que escolhemos ser. Tem a ver, em primeiro lugar, com a filiação de Cristo, e depois com o facto de nós sermos filhos de Deus através dele, com Ele e nele. A Quaresma alcança o seu propósito e significado final na Vigília Pascal, quando os catecúmenos são baptizados e os fiéis renovam as suas promessas baptismais, isto é, quando nos tornamos, ou renovamos a nossa relação de, filhos de Deus.

As leituras reflectem esta realidade. O primeiro Domingo de Quaresma coloca-nos diante das tentações que queriam afastar o Filho do Pai. Ele tinha acabado de escutar a voz do Pai no Rio Jordão: “Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus toda a minha complacência”. Agora é o demónio que põe à prova as palavras do Pai, propondo outro tipo de relação filial – não proposto e desejado pelo Pai, mas baseado antes nas suas próprias sugestões: Se és de facto o filho de Deus…

É confiando no Pai, recebendo o que Ele dá e rejeitando qualquer relação filial contrafeita, que Nosso Senhor triunfa. E como que a confirmar esta vitória, o segundo Domingo da Quaresma dá-nos a voz do Pai no Monte Tabor: “Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência; escutai-o”. A Quaresma toda tem a ver, portanto, com a rejeição da falsa filiação, afastando o que não é de Cristo e preparando-nos para renascer, ou vermos renovada a nossa relação filial com Deus.

É neste contexto de filiação – tanto real como falsa – que devemos escutar a parábola do Filho Pródigo, de domingo passado. Na verdade, claro, é sobre dois filhos. Embora sejam muito diferentes, têm algo em comum: cada um escolhe o seu próprio tipo de filiação, independentemente do pai. Ou melhor, cada um nos revela formas diferentes de sermos apanhados nas ciladas do demónio e na filiação criada à nossa medida.

A rebelião do filho mais novo é mais infame. Ele “consumiu os bens [do pai] com mulheres de má vida”, nas palavras do irmão. Esta vida dissoluta poderá parecer-nos o pecado mais grave. Mas na verdade é apenas o fruto terrível, e não a raiz, da sua rebelião.

Na raiz do pecado do filho pródigo está a vontade de querer uma relação filial à sua medida. “Pai, dá-me a parte da herança que me toca”. Esta exigência dura revela o seu desejo de querer ter todos os benefícios da filiação – a sua herança – mas sem o pai. Note-se que não lhe basta estar longe do pai, quer que o pai deixe de existir. Quando diz: “Pai, dá-me a parte da herança que me toca” o que está a dizer de facto é: “Eu quero aquilo a que tenho direito quando morreres”… “Eu só posso viver a filiação que desejo quando tu partires”… “Gostaria que morresses”. 

O filho mais novo é Adão, tentando alcançar o fruto, procurando obter à sua maneira aquilo que o Pai lhe quer dar livremente – e acabando em grande desapontamento. Esta é a doença do homem caído. Queremos as coisas de Deus, mas sem Deus. Queremos a bondade da criação, sem o Criador, a dignidade que Ele nos deu, sem qualquer responsabilidade para com Ele, e a vida eterna que Ele promete, sem o seu caminho.

O Ocidente pós-cristão quer o património intelectual, moral e espiritual da Cristandade – mas sem Cristo. No final nós, tal como o filho pródigo, percebemos que não podemos ter um sem o outro. Sem o Pai, os seus dons rapidamente nos traem. E nós, tal como o filho pródigo, encontramo-nos no meio dos porcos.

E depois temos o filho mais velho. Também ele vive uma relação filial à sua maneira. Só não é tão evidente. O filho mais novo estabelece a sua própria rota, em claro contraste com o pai. O mais velho estabelece os termos para a sua relação (ou falta dela) com o pai, mas de forma menos clara. Também ele quer as coisas do pai sem o pai. Em vez de ser dissoluto e irresponsável, porém, os seus termos são mercantilistas e (espera ele) lucrativos.

“Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua”. Esta não é a voz de um filho, mas de um empregado ou de um escravo. Trai a visão distorcida do filho mais velho da relação filial e uma fraca compreensão do seu pai. Ele encara o seu trabalho, não em união com o pai ou para bem da família, mas apenas como obrigação. O filho mais velho está sozinho em casa: todo este tempo na casa do pai, mas não da casa do pai.

Se o filho pródigo representa aqueles que se afastam, ou que se revoltam mesmo contra a Igreja (a casa do Pai) o mais velho representa aqueles que, enquanto na Igreja e talvez até a trabalhar para a Igreja, são animados apenas por um sentido de dever.

Ao contrário da vida dissoluta do filho pródigo, este vício ameaça aqueles que levam a sua fé a sério e, também ao contrário do pródigo, não querem abandonar a casa do Pai. Arriscam estar na casa do Pai, mas sem o sentido de serem seus filhos. O perigo, para eles, está em substituir o Pai pelas coisas do Pai – colocando a piedade acima da santidade e satisfazerem-se com a observação externa acima da obediência filial.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Embora partam da boca do mais novo, ambos os filhos o poderiam ter dito. A ambos falta uma relação genuína com o pai. Cada um deles, à sua maneira, distorceu-a, criando uma relação filial à sua medida.

É normal tentarmos reconhecer em nós mesmos um ou outro dos dois filhos. Mas a realidade é que nos assemelhamos a ambos, até certo ponto. Por isso, agora que nos encontramos a meio da Quaresma, fazemos bem em perguntar não se, mas como é que agimos como cada um. Quando e como é que prefiro as bênçãos de Deus ao próprio Deus? E, igualmente, quando e como é que reduzo a minha relação com o pai a um mero quid pro quo?

Temos de renunciar a estas falsas relações filiais para sermos renovados como filhos de Deus, na filiação autêntica de Cristo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Março de 2019 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 2 de abril de 2019

Dois Franciscos e uma exortação

Beata Chiara Badano, um exemplo de santidade
Saiu hoje a exortação apostólica do Papa sobre os jovens. O Papa diz que quer uma Igreja capaz de chorar com os jovens e em que os jovens sejam capazes de ajudar a Igreja a ser mais santa.

Conheça aqui as três verdades que o Papa quer revelar aos jovens – e que no meu entender são o coração deste documento – e aqui pode ver os jovens que o Papa apresenta como exemplos de santidade.

Francisco quer ainda os jovens comprometidos com a pastoral juvenil e pede que estes “não se deixem enganar”. Por fim, pode ler aqui dez citações da exortação.

Tudo isto dias depois de Francisco ter voltado de Marrocos. Aura Miguel acompanhou a viagem e escreveu esta crónica sobre “os dois Franciscos”, que devem ler. No voo de volta para Roma, o Papa voltou a criticar amentalidade dos muros.

Durante o fim-de-semana houve ainda a ordenação episcopal de D. Américo Aguiar e, no final da semana passada, Francisco esclareceu a “grande polémica” de não ter deixado algumas pessoas beijar-lhe o anel…

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