sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Samaan’s misfortune

Fr. Saaman Shehata
A run of misfortune yesterday left one man dead in Egypt.

The bad luck began with the fact that Samaan Shehata was from Beni Suef, a poor region in Egypt. Because of that poverty, he had offered to go to Cairo to gather humanitarian aid which had been made available to his community.

The next stroke of bad luck was the fact that a crazy man – at least the police considered him crazy even though he was not diagnosed by a professional – saw him walking down the street and decided to give chase. Unfortunately the mad man had a knife, with which he stabbed him several times.

There were plenty of people on the street, but as luck would have it, nobody came to his aid.

But apparently Samaan did not die straight away. But he was terribly unfortunate in that it took over na hour for the ambulance to arrive and, when it did, he was unlucky in that the first responders decided not to attend to his wounds.

The police arrived later and partly due to misfortune, partly because they already knew the killer was a mad man – even though he had not been diagnosed by a professional – they didn’t set up a crime scene or investigate further.

In the midst of all this misfortune, there is one coincidence. All this happened on the same day that Aid to the Church in Need presented a report in Lisbon, where I live and work, which concluded that Christian persecution has reached levels never before seen in history. That means that we are worse off now than we were when the Romans had Christians devoured by wild animals in the arena.

What does this have to do with Samaan Shehata? It so happens that Samaan is a Coptic Christian priest. As a Coptic priest he would have been easily identifiable by his long black cassock and traditional hat. He would have been easy to spot by somebody – crazy or not – who would want to kill him. And as luck would have it there is no shortage of men in Egypt – crazy or not – who want to kill Christians.

On second thought, maybe none of this had anything to do with misfortune at all. Because this story is becoming all to common, it’s happened too many times before, to be put down to bad luck. Misfortune had nothing to do with the fact that bombs were placed in Egyptian churches in April this year, killing almost 50 people. Misfortune did not kill the pilgrims whose buses were pulled over, massacred by automatic gunfire by the side of the road.

Father Saaman’s parishioners have been left without a pastor. His wife – Coptic priests are traditionally married – is now a widow and his children orphans. But that isn’t bad luck either. It’s just one of the risks that comes with being a Christian in the Middle East.

Filipe d'Avillez 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Do Ódio

James V. Schall S.J.
Tanto o Antigo como o Novo Testamento contêm passagens em que somos advertidos a odiar algo, como o mal, mas não o nosso irmão. Estamos familiarizados, talvez demasiado, com a expressão “odiar o pecado mas amar o pecador”. Este aforismo corre o risco de nos deixar com a impressão de que o nosso pecado é algo que flutua por aí, totalmente independente de nós, que nos mantemos puros como a neve virgem. Mas não existe pecado sem pecador. Mais, há pecadores que fazemos bem em evitar ou, pelo menos, tratar de forma cautelosa.

Quando Aristóteles trata a ira, que em si é uma coisa boa, fala do controlo, ou descontrolo de uma reacção apaixonada a algo que é perigoso ou errado. Normalmente exageramos. Mas não nos irarmos com coisas más é um vício. Algumas coisas devem despertar em nós a ira.

O ódio é uma resposta emocional ao nosso reconhecimento de que há algo de específico errado com o mundo. Diz-me o que odeias e dir-te-ei quem és. E se me dizes que nada odeias porque não há nada de errado no mundo, então fico com uma imagem ainda mais clara do que és – incuravelmente ingénuo.

Dito isto, estou interessado neste fenómeno relativamente novo a que se chama “discurso de ódio”. Poucas coisas são potencialmente mais perniciosas, sobretudo quando os governos e as instituições começam a defini-lo ou a fazer cumprir a sua proibição. O “discurso de ódio” e a liberdade de expressão estão claramente em conflito um com o outro. As pessoas que em tempos estavam interessadas em explorar as fronteiras da liberdade de expressão – ao ponto de se poder dizer praticamente qualquer coisa com impunidade – são as mesmas que agora, que controlam a cultura, querem suprimir qualquer expressão que não seja do seu agrado.

Mas afinal de contas de onde veio esta questão do “discurso de ódio”? A sua origem está no esforço, agora em larga medida bem-sucedido, de derrubar a estrutura moral da sociedade. De forma geral, esta transformação foi levada a cabo através do uso perspicaz da conversa de “direitos”. Aquilo a que antes se chamava, por razões racionais, uma desordem ou um vício começou por ser tolerado, depois finalmente um “direito”. Mal se torna um “direito” qualquer pessoa que lhe chama pecado ou mal torna-se automaticamente um caluniador e violador da dignidade e do orgulho humanos.

A linguagem tem um propósito. Serve para definir, e depois nomear, aquilo que designa realmente. Se começarmos a usar a mesma palavra para duas realidades diferentes, temos de passar a deduzir pelo contexto a realidade a que nos referimos. Se casamento passa a designar tanto a relação entre macho/fêmea e macho/macho, a realidade a que a palavra se refere não muda. Uma coisa não é a outra.

É aqui que entra em cena o “discurso de ódio”. Uma vez que a lei afirma agora que ambos os arranjos maritais são “iguais”, deixamos de ter a liberdade de afirmar que não o são. As pessoas sentem-se magoadas se lhes disserem que aquilo que fazem é, ou não é, um casamento. A afirmação de que não é ganha estatuto de desordem cívica que deve, em nome da prevenção da perturbação, ser proibida. Podemos dar por nós ostracizados ou até detidos por afirmar aquilo que é verdade e argumentar nesse sentido. A liberdade de expressão, que tinha como objectivo afirmar a verdade das coisas, já não é permitida. A verdade é uma ameaça à sociedade.

Uma nova revolução cultural
Quando se universaliza esta situação percebemos que temos de providenciar espaços onde as pessoas estão protegidas de ouvir sequer algo que questione a rectidão das suas escolhas ou da lei civil que agora reivindica jurisdição sobre todo o nosso discurso. Um dos aspectos mais odiosos das sociedades totalitárias era a montagem de postos de escuta, ou o hábito de levar as crianças a revelar o que os seus pais diziam em privado. Este mesmo fenómeno já está entre nós. Agora está disfarçada de forma de proteger as vítimas do ódio daqueles que se recusam a aceitar o novo regime de “direitos” que insiste que a sua lei é a única e mais alta lei da nação.

Ao discutir o direito, são Tomás de Aquino perguntava se devemos ter uma lei que proíba todos os vícios. Inicialmente parecia uma boa ideia, mas na verdade é uma ideia terrível. Aquino compreendia que dar tal poder ao Estado implicaria um conhecimento divino e acabaria com a liberdade de errar que nos permite estabelecer o nosso próprio destino.

São Tomás sabia que alguns vícios tinham de ser reprimidos, caso contrário estaríamos num estado de guerra constante. Mas dar poder ao Estado para nos livrar de todos os vícios equivaleria a dar-lhe poder absoluto, algo que demasiados políticos anseiam. Os cidadãos perderiam então esse espaço de liberdade e de inteligência em que podem tomar as suas próprias decisões. As “leis de ódio” radicam, em última análise, do esforço do Estado moderno para alterar a natureza humana.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 9 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Justiça restaurativa, sangue e sofrimento

Está em discussão em Cascais a Justiça Restaurativa. Seria capaz de perdoar ao seu agressor? Concorda que os reclusos estrangeiros em Portugal sejam apoiados? Estas e outras questões debatidas num assunto fundamental.

O Papa Francisco dedica o mês de Outubro à oração pelos direitos dos trabalhadores e esta quarta-feira renovou o apelo de Fátima de se rezar pela Igreja.

Igreja essa que nas Filipinas continua a fazer frente ao carniceiro Rodrigo Duterte. Agora os bispos oferecem guarida e ajuda a quem quiser testemunhar contra a “guerra à droga”.


Sabia que um em cada cinco países do mundo tem religião oficial? E que a maioria desses países são muçulmanos? Mas o cristianismo é das religiões que mais tem tratamento preferencial.

Esta quarta-feira publicamos um artigo do The Catholic Thing sobre o sentido do sofrimento. É algo que toca a todos durante as nossas vidas. Como entender e tirar graça da dor? O médico Philip Hawley deixa a sua opinião.

Aceitar o Dom do Sofrimento

Philip Hawley Jr.
De vez em quando Deus coloca na nossa vida alguém tão rico em graça que esta parece submergir-nos completamente. A Emma foi uma dessas pessoas para mim.

A sua morte, depois de uma batalha de cinco anos contra o cancro, não foi referida na imprensa local. A Emma era uma imigrante pobre que esfregava o chão da minha casa quando não estava a mudar as fraldas aos meus filhos. A sua humildade era tão misteriosamente profunda que podia desaparecer de vista mesmo quando era a única outra pessoa na sala.

E contudo – ou, aliás, devido a estas qualidades – estou certo de que um coro de anjos fez tremer as portas do céu durante os seus últimos momentos na terra, porque, na morte como na vida, ela esvaziou-se em Deus numa viagem indescritivelmente bela de sofrimento e graça.

A Emma sofreu emocional e espiritualmente nos últimos meses e a minha experiência enquanto médico de pouco serviu para aliviar as suas aflições. Todos já passámos pela angústia de ver alguém de quem gostamos em sofrimento. Há uma aversão profunda ao sofrimento na natureza humana, bem como compaixão para com aqueles que sofrem.

Estes aspectos da nossa natureza são ainda mais aparentes nestes tempos em que o desenvolvimento da medicina eliminou grande parte do sofrimento físico que, para os nossos antepassados, era simplesmente parte da vida e da morte. Não obstante serem bons em si, estes avanços levam-nos a ver o sofrimento como uma anomalia, algo a ser eliminado, até na hora da morte.

O sofrimento é um denominador comum em todas as razões dadas por doentes com pensamentos suicidas. O apoio ao suicídio medicamente assistido radica, no fim de contas, na crença de que a eliminação do sofrimento – físico, psicológico, espiritual ou existencial – é um bem moral mais importante do que sustentar a vida.

Alguns destes argumentos são espúrios, como a afirmação de que a dor severa é comum no final da vida. Na verdade os cuidados paliativos tornaram-na bastante rara. Mas a mera negação destes medos, que são compreensíveis, nada faz para ajudar aqueles que contemplam o suicídio, só faz com que se sintam mais isolados.

Uma sondagem da Pew Research de 2014 revelou que 71% dos americanos consideram-se cristãos. É um número quase idêntico ao dos americanos que apoiam o suicídio assistido. Isto sugere que a maioria dos cristãos apoia o suicídio assistido. Então pergunto aos meus correligionários, sobretudo aos católicos: O que é que Jesus Cristo nos tem a dizer sobre o sofrimento em fim de vida? Afinal de contas, o seu exemplo devia ser da maior importância para os seus seguidores.

A nossa fé cristã assenta, em última análise, na Paixão de Cristo. Se Cristo significa alguma coisa, é em primeiro lugar o Deus-homem que sofreu para nos redimir do pecado. A Paixão não é apenas o que Cristo fez, mas quem Ele é.

Os defensores do suicídio assistido costumam argumentar que uma morte arrastada é indigna. Mas antes de aceitar esta afirmação, pensem por momentos nos detalhes da Paixão de Cristo. Se uma morte sofrida é indigna, então a de Cristo foi a mais indigna de todas. Porque é que Cristo, ou o Pai, não puseram fim rapidamente à indignidade? Tendo em conta que a prolongada morte de Cristo causou sofrimento aos que o observavam aos pés da Cruz, talvez ele tivesse o dever de morrer rapidamente.

São João Paulo II: Um exemplo de dignidade no sofrimento
Mas o sofrimento de Cristo continuou até à morte, o que aponta para outra verdade. Ao contrário dos conceitos triviais de dignidade a que nos costumamos agarrar, a verdadeira dignidade humana deriva directamente da fonte: Imago Dei. O sofrimento não é uma afronta à nossa dignidade. Quando oferecida da forma como Deus nos pede, é uma afirmação da nossa dignidade. Nos seus últimos anos, o Papa São João Paulo II viveu esta verdade de forma a que todos a pudessem ver.

A morte é uma coisa confusa e por vezes fisicamente revoltante. Desconfio que a morte de Cristo na cruz tenha sido bastante mais hedionda do que a Bíblia diz. Mas apesar disso a sua mãe permaneceu aos pés da cruz do seu filho e viu-o a morrer de uma forma indescritivelmente horrível. Apesar da agonia física e espiritual, tanto a mãe como o Filho aceitaram as suas cruzes. Ao fazê-lo, Cristo parece estar a dizer algo para todos aqueles que sofrem junto de um doente moribundo.

Para lá da Paixão de Cristo, a história da Igreja antiga é também, na sua dimensão humana, uma história de sofrimento. Todos os apóstolos à excepção de João foram martirizados e são incontáveis os que morreram pela fé nos primeiros tempos da Igreja.

Não quero dar a entender que compreendo uma morte sofrida, ou como Deus retira graça do mal físico. Estas e muitas outras coisas permanecem misteriosas para mim, mas há uma verdade que me parece clara: Cristo não aceita apenas o sofrimento para si. Ele pede-nos que sofra com ele e esse pedido está no coração da nossa fé cristã.

A Emma nunca deixou de sorrir, mesmo por entre o seu sofrimento imenso. É algo que não me imagino capaz de fazer. Ela aceitou o convite de Cristo e, nessa sua entrega, eu fui abençoado com a visão do Cristo sofredor e com a luz de uma graça inexplicável. Ela demonstrou como se pode optar por sofrer simplesmente porque é isso que Cristo nos pede.

Nas suas palavras e acções Jesus nunca sugere que a nossa vida – um dom de Deus – é nossa para destruir. Através da sua Palavra revelada, aliás, é precisamente o contrário que se torna evidente, como poucas verdades o são.

O suicídio não é uma libertação compassiva do sofrimento. A morte não é o fim. Eu não pretendo saber como é que Deus pesará a decisão de quem quer que seja debaixo de um sofrimento tão intenso, mas o que nos está a pedir quando chegar a hora da nossa morte parece-nos evidente.

Deus quer-nos com ele no Céu e o sofrimento em fim-de-vida é um apelo dramático e último para entregarmos a Ele a nossa vontade. Para aqueles, como eu, que são pecadores, esse é o maior dom que Ele nos podia oferecer. Não estou a dizer que vai ser fácil, mas temos o exemplo de Emma e de outros como ela para seguir.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Philip Hawley, Jr, MD, é médico num hospício e antigo professor assistente de Pediatria Clínica na University of Southern California Keck School of Medicine.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Actualidade Religiosa: Plano Marshall para cristãos iraquianos? Wahou!

Terminaram esta sexta-feira as Jornadas da Comunicação Social. Os presentes ouviram falar de muitos instrumentos e formas de marcar presença nas redes sociais, agora é passar da teoria à prática.

Ontem, no primeiro dia das jornadas, D. João Lavrador disse que a Igreja tem de estar em tudo o que possa ser meio de comunicação e José Manuel Fernandes explicou que os jornalistas e profissionais de comunicação têm de estar onde as pessoas estão, e as pessoas estão online.

Por falar em igreja e comunicação, o Vaticano quer combater o fenómeno do “fake news”.

Foi ontem revelado um “Plano Marshall” para ajudar os cristãos iraquianos a voltar às suas terras.

No próximo fim-de-semana decorre o segundo “Fórum Wahou!”, sobre a Teologia do Corpo. Se estiverem interessados, ou souberem de quem possa estar, vejam e divulguem, porque promete ser muito interessante.


E por fim, um desafio. Quem quiser rezar pelas crianças não nascidas, e por todos os casais que vivem com esperança os desafios à sua fertilidade, juntem-se à Esperança de Ana, amanhã, Sábado, às 21h00 na Capela da Ordem Hospitaleira São João de Deus, na rua São Tomás de Aquino, nº20, Lisboa.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Não há paz sem perdão, mas há perdão sem cristãos?

Pe. Firas Mutfi
O perdão é crucial para se alcançar a paz no Médio Oriente, e os cristãos são cruciais para haver cultura de perdão. Quem o diz é o padre Firas Mutfi, que esteve em Portugal a convite da Ajuda à Igreja que Sofre.

Morreu o padre mais velho de Portugal, que conheceu o Papa em Maio. O padre Joaquim Pereira da Cunha tinha 105 anos.

Portugal despediu-se ontem de D. Manuel Martins, o bispo que “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça”.

O artigo do The Catholic Thing desta semana vem mesmo a propósito. O médico e eticista Matthew Hanley fala de ideologia de género e equipara os procedimentos de “transição de género” ao abuso.

Ideologia de Género como Abuso

A chegada do frio outonal traz consigo o começo da época de futebol americano, que é bem-vinda, ainda que ser adepto de alguns clubes (tal como os meus San Francisco 49ers) requeira novamente um acto de fé sobrenatural este ano. Mas para Bennet Omalu, o “médico das contusões” – nome ganho pelo seu papel na revelação do fenómeno neste desporto – esta é uma época melancólica. O médico examinador-chefe do condado de San Joaquin, especulou recentemente que deixar os jovens jogar futebol americano levará eventualmente a um processo, porque o futebol é, nas suas palavras, a “definição de abuso infantil”.

Com tantos abusos reais para nos preocupar, uma afirmação destas pode parecer exagerada, ainda que possamos desconfiar da sabedoria de deixar crianças muito pequenas andar a bater com as cabeças umas nas outras. Mas esta cruzada contra o futebol americano está a ser levada bastante a sério. Quase tão a sério como a cruzada a favor da normalização da “fluidez de género”.

Recentemente veio-me parar às mãos a edição da Stanford Medicine News do Verão de 2017. A manchete era: “Jovens e Transgénero: Cuidando de Crianças na Transição” e elogiava uma endocrinologista pediátrica pelos seus esforços para “ajudar” estas crianças, utilizando medicamentos para bloquear a puberdade e outros “tratamentos” semelhantes. “Ao tratar os adolescentes transgénero com hormonas”, afirma a médica “estamos a afirmar quem eles são”. Ou seja, a cirurgia é apenas outra forma de afirmar que os seus corpos estão errados ao desenvolver-se correctamente.

Não pretendo implicar unicamente com a Stanford. A submissão à agenda transgénero tornou-se uma epidemia. A mais recente edição da “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” substituiu o antigo diagnóstico de “desordem de identidade de género” por “disforia” de género. E assim – voilá – deixa de haver uma “desordem” para tratar psiquiatricamente e o caminho certo torna-se necessariamente a mutilação através de hormonas ou de cirurgia.

A Associação Psiquiátrica Americana, deixando de lado o seu juízo, afirma simplesmente que a transição de género não envolve qualquer ilusão ou incapacidade psicológica – sendo que ilusão, neste caso, é definida como “uma crença falsa, ou juízo errado, mantido com convicção apesar de provas incontestáveis de sentido contrário”.

Para chegar a uma conclusão dessas é necessário negar a realidade objectiva ou, então, declarar que ela é subordinada à forma como os pacientes querem definir a “sua” realidade. Elas são quem afirmam ser, se o dizem. Mas se formos por esse caminho então ninguém pode ser classificado como sofrendo de ilusões e invalida-se por inteiro o próprio conceito de uma desordem psiquiátrica. Estarão os psiquiatras americanos a tentar acabar com a sua própria profissão?

A adesão de tantos profissionais altamente treinados e inteligentes a uma mentira tão óbvia é uma visão verdadeiramente triste. Algumas podem acreditar nos dogmas “oficiais” de género, por mais irracionais que sejam, mas acho que a maioria não acredita. Pelo menos não verdadeiramente. Mas há que salvar a face e preservar o emprego, por isso alinham.

A forma como se conseguiu este conformismo ao melhor estilo soviético sem um politburo é um fenómeno verdadeiramente impressionante. É o último elogio ao pós-modernismo. Não que o Congresso estadual da Califórnia (para citar apenas um exemplo) não esteja a tentar alcançar o estatuto de politburo; eles querem multar ou enviar para a cadeia pessoas em situações de prestação de cuidados de saúde que não se referem aos pacientes utilizando o pronome escolhido, ou seja, o errado.

O triunfo da desonestidade intelectual já é mau por si, mas forçar os outros a concordar com algo que sabem ser uma mentira é um dos maiores sinais de totalitarismo. Pior, “ajudar as crianças a transitar”, ao contrário de encorajá-las a jogar futebol americano ou qualquer outro desporto, é verdadeiramente uma forma de abuso infantil.

É isso que diz a Drª Michelle Cretella, presidente da Ordem Americana de Pediatras, que tem coragem de falar sem papas na língua. Mas muitos dos seus colegas não têm essa coragem. Aliás, o número de “profissionais” dispostos a dar ares de legitimidade médica à ideia de “transitar” de género supera até os que se querem submeter a essa absoluta impossibilidade. Com tantos autoproclamados defensores da “ciência” neste mundo, não deveria ser necessário dizer que os “sentimentos” não podem negar o veredicto contido nos cromossomas masculinos ou femininos presentes em cada célula do corpo.

Alguns dirão que afirmar a realidade é uma atitude “julgadora”. Mas a tentativa de obrigar à aceitação das teorias de transgenerismo viola o próprio credo do não-julgar. Por isso, já que se estão a fazer julgamentos, a maioria das pessoas concordaria que os profissionais que contribuem, de forma abusiva, para estas “transições” são muito mais culpados do que os adolescentes desorientados que precisam de compaixão e orientação firme. Os resultados para os que se submetem a operações de mudança de sexo não são bons. Os dados revelam-no. Profissionais de saúde que fingem – juntamente com escolas, media, corporações e outros – que a anormalidade é normal são, por definição, abusadores.

E nem falemos do preocupante paralelo entre a mutilação de anatomia saudável envolvida numa “transição” e a prática, justamente condenada, de mutilação genital feminina.

A “transição” é apresentada como um triunfo da ciência e do progresso, mas com a compreensão de que alguns tipos de transição não deviam ser permitidos de todo. Refiro-me, claro está, à perspectiva de alguém que queira mudar a sua orientação sexual de homo para hétero.

Que isto seja prescrito e literalmente criminalizado nalguns contextos denuncia a farsa. Quando a escolha pessoal é tão claramente rejeitada, não obstante toda a retórica tradicional em sentido contrário, isso é um sinal claro de que tudo isto tem a ver com o avançar de uma conclusão já determinada e nada a ver com a vitória da liberdade de escolha em si.

O fim para o qual caminhamos não é outra coisa que a obliteração da ordem e da ética que derivam da tradição judaico-cristã. Tem tudo a ver com o poder para se mudar as regras, trocar o que é bom por aquilo que é mau. É o jogo da desintegração total.

O abuso não é um subproduto ocasional e acidental de uma revolução maior, na qual a fluidez de género é apenas a mais recente rajada. É mesmo o cerne da questão.

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 20 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Eu, compositor? Devo ter cara de Arvo...

Nas Filipinas as ameaças à Igreja vêm tanto do Estado Islâmico como do palácio presidencial… Conheça um dos bispos que procura enfrentar o carniceiro Duterte.

E agora conheça o padre “que ama toda a gente”. Esteve 46 anos no Congo a trabalhar pelos mais pobres dos pobres. Não quer sair de lá.

O Papa Francisco lança amanhã uma campanha mundial a favor dos migrantes e refugiados, em Portugal será a Cáritas a encabeçar a campanha.

Fátima recebe a partir desta terça-feira um encontro de santuários marianos europeus.

Foi hoje anunciado o “Nobel” da teologia. Este ano vai para o compositor Arvo Pärt, da Estónia, um artista cujo trabalho vale bem a pena conhecer.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O "bispo vermelho" e o "Papa herege"

Morreu D. Manuel Martins, o “bispo vermelho”, voz constante na defesa dos pobres e na denúncia da fome e das injustiças. Não faltam as homenagens e recordações. Podem encontrar tudo aqui.

Conheça aqui a história do bispo da Papua Nova Guiné que pensava que ia ser repreendido quando lhe disseram que ia ser elevado ao cardinalato.

Um grupo de dezenas de teólogos entregou ao Papa uma “correcção fraterna” em que lhe acusam de divulgar heresias. João Paulo II chegou a ser acusado de 101 heresias, por isso Francisco parece estar em boa companhia. No mesmo dia em que foi acusado, o Papa disse que “Deus não exclui ninguém”.

Na sexta-feira passada foi lançado o novo livro do padre Tolentino Mendonça. Saiba como correu.

D. Jorge Ortiga critica as propostas de lei de “autodeterminação de género” e diz que está na altura de ripostar. Se ainda não conhece a proposta de lei do BE, leia aqui a minha análise.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Mea Culpa Papal e Livro Tolentino

O Papa Francisco admitiu hoje ter errado ao reabilitar um padre pedófilo que depois reincidiu. Foi numa audiência aos membros da Comissão Pontifícia de Protecção de Menores em que Francisco disse que a Igreja acordou demasiado tarde para este problema.


Se é coleccionador de moedas, ou devoto de Fátima… Esta notícia é para si!

Decorreu nos últimos dias em Fátima as jornadas da Pastoral Social. A Renascença esteve presente e traz-nos três reportagens. Uma sobre o medo que os jovens têm do compromisso, outra sobre a “viagem a dois” da Maria e do Duarte Barral e uma terceira sobre fragilidades, a conciliação com o trabalho e a alegria de viver em família.

Fica um convite para amanhã virem à Renascença para o lançamento do livro do padre Tolentino Mendonça. Basta enviar um email para a editora (quetzal@quetzaleditores.pt) a indicar o nome, contacto telefónico e número de cartão de cidadão para reservar lugar.

Já tentou ir ao registo civil pedir para mudarem a data do seu assento de nascimento? Não seria possível pois não, porque isso implicaria o Estado compactuar com uma mentira. Mas se a vontade do Bloco de Esquerda for para a frente é isso mesmo que o Estado vai fazer… não com a data, mas com o sexo. É mentira à mesma… Isto e mais na minha análise ao diploma do BE.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Resignação em Viseu, sismo no México e fantasias no Bloco

Rezar pelo México, com o Papa
Certamente já sabem que há diplomas no Parlamento sobre mudança de sexo. Sabe quais as implicações do que lá está escrito? Estive a ler o projecto do Bloco de Esquerda. Há coisas hilariantes, há coisas assustadoras. Há que saber o que nos querem impor.

O Papa aceitou o pedido de resignação do bispo de Viseu, por motivos de saúde.

O Parlamento aprovou por unanimidade um voto de pesar pela morte de D. António Francisco dos Santos



O diploma do BE sobre mudança de sexo à lupa

Ainda nem o cadáver da discussão da eutanásia arrefeceu e já a esquerda progressista está em campo para nos impor outro ponto da sua agenda. Desta vez é a chamada “autodeterminação de género”. O nome diz muito. Faz tanto sentido como “autodeterminação de idade”, mas é o ponto a que chegámos.

Há três diplomas que, ao que parece, serão agora concentrados num só para depois ser votado. Não analisei os três, mas acabo de ler o do Bloco de Esquerda, que imagino ser o mais radical e quero agora comentar alguns dos pontos que me chamaram mais atenção.

Esclareço que não tenho formação em direito, mas tenho acompanhado estes debates noutros países há longos anos e é nessa qualidade que escrevo.

Artigo 2.º Entende-se por identidade de género a vivência interna e individual do género, tal como cada pessoa o sente, a qual pode ou não corresponder ao género atribuído à nascença

Duas coisas aqui a sublinhar. Primeiro o fantástico “tal como cada pessoa o sente” que diz tudo sobre o admirável homem novo que os progressistas querem criar. Nós somos o que sentimos. Que se lixe a ciência, que se lixe a biologia. Se eu me sinto cavalo, cavalo sou. Se me sinto preto, sou preto – estão-se a rir? Façam pesquisa por Rachel Dolezal. Se sinto que tenho 2,10 de altura, que seja!

Em segundo lugar, talvez seja o termo técnico usado, mas o meu “género” não me foi atribuído à nascença… Já era meu antes de nascer. O meu número de BI foi-me atribuído, o meu número de Segurança Social também, tal como o número de sócio do Benfica. Mas o meu sexo foi determinado por aquela coisa maçadora que são os genes e a biologia. É algo que é meu mas que – cruel tirania – não depende da minha vontade.

Artigo 3.º 1- Todas as pessoas têm direito: (…)  c) A serem tratadas de acordo com a sua identidade e/ou expressão de género

É nestes pequenos detalhes que se encontram os maiores perigos. Pergunto: A serem tratadas por quem? Pelo Estado? Por toda a gente? O Bloco de Esquerda quer obrigar-me a tratar o meu amigo Zé por “ela” apesar de ele ser, biologicamente, um homem? Não basta alimentarem na mente do Zé a fantasia de que com um processo burocrático e uma mutilação médica ele pode “mudar de sexo”, querem-me obrigar a alinhar na brincadeira? Obrigado. Dispenso.

Artigo 4.º - 1 C Pode requerer a alteração do registo civil a pessoa que (…) c) Não se mostre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica.

Esta é excelente por duas razões. Primeiro, porque um homem sentir que é mulher quando a biologia indica o contrário deve ser dos casos mais claros de anomalia psíquica que existe. Tem um nome: Disforia de género. Não fui eu que inventei.

A segunda razão está no ponto 3 deste mesmo artigo: Para aceder ao disposto no número 1, nenhuma pessoa poderá ser obrigada a submeter-se a qualquer tratamento farmacológico, procedimento médico ou exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género.

Portanto reparem… Qualquer pessoa pode pedir alteração de sexo, desde que não se mostre inabilitada por anomalia psíquica, mas ao mesmo tempo é proibido submeter os requerentes a qualquer exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género… Preciso mesmo de escrever mais alguma coisa sobre isto?

Artigo 5.º - Menores de dezasseis anos

Muito se tem falado sobre a situação de os menores de 16 anos poderem intentar judicialmente para ultrapassar a oposição dos pais. Mas o que mais me espanta neste artigo é que fala apenas de “menores de 16 anos”, não temos um limite inferior. Aplica-se a crianças com 5 ou 6 anos? Não há mesmo limite? Vale tudo?

Artigo 6.º - 2 - O requerimento é apresentado na Conservatória do Registo Civil e, nos casos previstos na alínea b), do n.º 1, do artigo 4.º, nos consulados respectivos, podendo, desde logo, ser solicitada a realização de novo assento (…) 5 - No novo assento de nascimento não poderá ser feita qualquer menção à alteração do registo

Ora aí está. Este ponto resume toda a mentalidade dos defensores destas medidas. A consagração desavergonhada da mentira! O que é um assento de nascimento? Um assento de nascimento diz, entre outras coisas, que nasceu um indivíduo de sexo masculino ou feminino. Mas o projecto do Bloco prevê a elaboração de um novo assento. Ou seja, não basta que a pessoa queira passar a ser conhecida como sendo do sexo oposto, não. É preciso falsear a história. Porque é disso que se trata. É um facto que naquele dia, naquele hospital, nasceu um indivíduo de um determinado sexo. Se hospital tivesse escrito na altura que tinha nascido um indivíduo do sexo oposto, isso seria mentira.

Mesmo que acreditássemos que uma cirurgia, tratamento hormonal, maquilhagem, um vestido e um processo burocrático pudessem transformar um homem numa mulher, isso não faria com que essa pessoa tivesse nascido mulher. Se tivesse nascido mulher, aliás, não seria preciso a cirurgia, as hormonas e o vestido. Mudar o assento de nascimento é, pura e simplesmente, uma mentira.

Artigo 9.º - 2 - As instituições públicas e privadas a quem estas notificações sejam apresentadas têm a obrigação de, a pedido do/a requerente e sem custos adicionais, emitir novos documentos e diplomas com o novo nome e sexo.

Que o BE queira envolver o Estado nesta fantasia, compreendemos. Mas não basta. As instituições privadas também têm de ser cooptadas. E de que documentos e diplomas estamos a falar? O Zé pode ir à sua paróquia pedir que lhe emitam uma certidão de baptismo a dizer que afinal quem foi baptizado ali, naquele dia, foi a Carolina? E se a instituição privada, ou o funcionário público já agora, recusar alinhar numa mentira? Qual é a pena?

Artigo 11.º - 4 - Ninguém pode ser discriminado, penalizado ou ver rejeitado o acesso a qualquer bem ou serviço em razão da identidade e/ou expressão de género 5 - Serão adotadas as medidas necessárias que permitam, em qualquer situação que implique o alojamento ou a utilização de instalações públicas destinadas a um determinado género, o acesso ao equipamento que corresponda ao género autodeterminado da pessoa.

Novamente o mesmo problema. De que é que estamos a falar? Se eu aparecer no ginásio com uma peruca a dizer que me chamo Tina são obrigados a deixar-me usar o balneário feminino? Mas evitemos a ridicularização… Se eu acreditar verdadeiramente que sou uma mulher, apesar de biologicamente ser um homem e o ginásio me deixar usar o balneário feminino, isso é tudo muito bonito, porque está a respeitar a minha dignidade, segundo o Bloco – este artigo chama-se mesmo “Tratamento digno” – mas… E o direito à privacidade das mulheres que de facto são mulheres e que estão no balneário ao mesmo tempo? Não conta?

Estou a ser rebuscado? Nos outros países onde este comboio já partiu a discussão é precisamente sobre casas de banho e balneários, incluindo em escolas. As escolas que forneceram casas de banho “neutras” para crianças “transgénero” são processadas. Não basta. É preciso deixar o Carlinhos usar a casa de banho das meninas e, no centro comercial, deixar o Zé usar a casa de banho das mulheres independentemente de lá estar a sua filha de seis anos.

Artigo 12.º - 2 - O Serviço Nacional de Saúde garante o acesso a intervenções cirúrgicas e/ou a tratamentos farmacológicos destinados a fazer corresponder o corpo com a identidade de género com o qual a pessoa se identifica, garantindo sempre o consentimento informado.

Portanto não basta usar dinheiro público para pagar abortos, agora os nossos hospitais servirão para financiar operações para mutilar corpos saudáveis e administrar fármacos para impedir o desenvolvimento natural dos sistemas reprodutores de pessoas saudáveis, entre outros.

Artigo 13.º Medidas contra o Generismo e a Transofobia

Todo este artigo é uma maravilha. Campanhas de sensibilização para funcionários públicos e para o público em geral para “desconstruir preconceitos” tão nocivos como a noção de que um homem é um homem e uma mulher é uma mulher. Vá lá que não falam em campos de reeducação…

É isto que nós temos amigos. Vai passar? Não sei. Mas ao menos não se deixem apanhar na curva. Muito mais há para escrever sobre este assunto, mas terá de ficar para artigos futuros.

Deus Estava lá, os Socorristas Também

Randall Smith
Há uma piada antiga que começa com uma cheia. A água tinha passado o primeiro andar da casa de um homem quando passou um barco. “Entra”, disseram. “Não”, respondeu o homem. “Deus vai salvar-me”. A água já tinha subido até ao segundo andar quando passou outro barco que o instou a entrar. “Não”, disse o homem, “Deus vai salvar-me”. A água subiu mais até que o homem estava no telhado e passou um helicóptero que baixou uma escada. Mas o homem recusou, dizendo que Deus o salvaria. O homem morreu afogado e quando chegou a Céu questionou Deus: “Porque é que não me salvaste?” Ao que Deus respondeu: “Enviei-te dois barcos e um helicóptero. Que mais é que querias?”

Conto esta piada aos meus alunos quando falamos sobre a noção metafísica da criação, de São Tomás de Aquino. Para São Tomás, a criação é a dádiva completa e contínua de “ser” a tudo o que existe. Se Deus deixasse de “criar” uma coisa, deixaria completamente de existir. E porém, as coisas existem. A obra de Deus enquanto criador e a existência de uma coisa não são mutuamente exclusivas; pelo contrário, esta depende daquela. É o mesmo com a acção de Deus no mundo: Deus pode, e costuma, trabalhar em e através de causas naturais. A causalidade natural no universo e a causalidade divina não são mutuamente exclusivas. A primeira depende da segunda, mas ambas operam às suas maneiras, tal como quando corto lenha com um machado, eu corto a lenha e o machado corta a lenha – eu, como causa primária e o machado como causa secundária. Não é “uma coisa ou outra”, é “uma coisa e a outra”.

Quase todos os cristãos compreendem esta verdade fundamental, e é por isso que saíram à rua para salvar pessoas em Houston na semana passada e para ajudar as pessoas a limpar os estragos do furacão Harvey. Não se limitaram a dizer: “Deus tomará conta disto, por isso não preciso de me preocupar”. Disseram “Deus tomará conta disto em e através de mim. Eu devo ser um instrumento da vontade de Deus. Sou chamado para ser as mãos e os pés de Cristo, agora”.

Se viu a cobertura mediática, foi esta a mensagem repetida várias vezes. Poderíamos responder à acusação de Marx de que “a religião é o ópio do povo” com base na experiência de Houston da semana passada – e de tantas outras situações na história – que, longe de ser um opiáceo, a religião parece ser um fortíssimo estimulante, sobretudo em tempos de crise. As massas estão agarradas ao ópio, sim, e em grande número, mas não tem nada a ver com o Cristianismo.

Alguns anti-teístas, porém, insistem em imaginar que todos os cristãos são como o homem ignorante da piada e não como os homens e as mulheres que saíram à rua em massa para ajudar os outros, inspirados pela sua fé em Deus. Um cartoon publicado recentemente no “Politico” mostra um texano provinciano com uma t-shirt com a bandeira confederada (naturalmente) a ser salvo por um helicóptero e a gritar: “Anjos, enviados por Deus!”. Ao que o socorrista sério responde, enquanto veste um colete à mulher que foi deixada para trás: “Er… Por acaso, Guarda Costeira… Enviada pelo Governo”.


Percebe a ideia. O burgesso tonto pensa que foi salvo por Deus, mas o guarda costeiro sério sabe melhor. É um caso clássico de uma coisa ou outra. Mas o cartoonista não conhece, evidentemente, muitos dos socorristas desta zona. Por razões que ele próprio conhece, gosta de pensar que partilham a mesma atitude que ele em relação à religião. Mas para a maioria não é assim. Os cristãos que acreditam na sacramentalidade de toda a criação não têm o menor problema em aceitar que Deus pode trabalhar em, e através de, causas naturais. Claro que não existem “provas” da existência de tal Deus que pudessem convencer um ateu, mas essa não é a questão. Ninguém está a tentar usar estes socorristas de Houston como arma de arremesso contra os ateus. É o ateu quem está a insistir que se há uma causa natural como um guarda costeiro envolvido no resgate, então Deus não pode estar presente.

Afinal quem é que está a revelar sinais de intolerância e mente fechada?

Mas o cartoon tem ainda outro claro exemplo da mentalidade de “uma coisa ou a outra”. Reparem que o guarda costeiro faz questão de dizer que vem “do Governo”, enquanto o campónio texano tem um cartaz na sua casa a proclamar “secessão” e uma bandeira que diz “Não me pises”. Este detalhe é peculiar, uma vez que a primeira vez que essa bandeira foi hasteada foi num barco de tropas colonialistas em1776 e continua a ser hasteada em navios da marinha em tempos de guerra.

A implicação do artista é clara: “Como é que pensas que te safarias, Sr. Campónio Texano, se o Governo não estivesse lá para te salvar?”

Só que na realidade não foi isso que aconteceu, pois não? O que salvou milhares de texanos de um destino parecido com o de Nova Orleãs no tempo da Katrina, foi precisamente o facto de ninguém ter esperado pela ajuda do Governo federal. Vizinhos entraram em acção para ajudar vizinhos: o “exército Cajun” veio da Luisiana e de outras partes do Texas e, sim, a cidade, o concelho, o Estado e o Governo federal desempenharam, cada um, o seu papel – em larga medida sem rancor, apontar de dedos ou procura de louros.

Não foi um caso de “uma coisa ou outra”, foi um caso de “uma coisa e outra”. Os católicos chamam a isto “subsidiariedade”. A fé cristã não levou as pessoas a esperar pela ajuda de Deus e bem sabemos que os resultados de depositar uma fé secular no Governo nem sempre são eficazes.

Há forças em acção na América hoje que beneficiam de, e por isso preferem, a mentalidade de “uma coisa ou outra”. Não será chegada a altura de falarmos dos benefícios do “uma coisa e outra”? Não é Deus ou causas naturais, são ambos, cada um à sua maneira. Não é o Governo federal ou os cidadãos privados, igrejas e governos locais, são todos, cada um a desempenhar o seu papel, trabalhando juntos para ajudar pessoas reais com necessidades reais.

A atitude “uma coisa ou outra” é o que costuma resultar quando a ideologia começa a ser mais importante do que as pessoas. Mas a mentalidade “uma coisa e outra” é necessária quando no coração das nossas crenças – sejam elas seculares ou religiosas – está o serviço às necessidades reais dos outros. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 14 de Setembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Papa vai ter Portugal Católico nas mãos

O Papa Francisco vai receber amanhã um exemplar da obra “Portugal Católico”. Trata-se de um projecto ambicioso, com o qual tive o privilégio de colaborar, com contribuições de quase 200 autores que pretende ser um raio-X do catolicismo em Portugal. (Ver imagem).

Começou esta terça-feira o Encontro Nacional da Pastoral Social que irá debruçar-se sobre o Amoris Laetitia.

Ontem celebrou-se a missa de sétimo dia em memória de D. António Francisco dos Santos. Um homem bom com uma força radicada na “pobreza e oração”, segundo D. António Taipa.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

E você, já rezou pelos políticos hoje?

Como tinha avisado, estive fora na semana passada e por isso não pude partilhar nenhuma das muitas notícias que foram publicadas por causa da morte inesperada de D. António Francisco, do Porto. Aqui podem recuperar algumas das mais importantes notícias e homenagens a um homem que era unanimemente considerado um cristão exemplar com um grande coração.

Esta segunda-feira o Papa alertou para a necessidade de se rezar pelos políticos, acrescentando que quem não o faz deve admiti-lo no confessionário. Ontem Francisco falou da necessidade de se perdoar e na incoerência de quem se recusa a fazê-lo.

Entretanto foi libertado o padre indiano que tinha sido raptado no Iémen há um ano e meio e um funcionário da nunciatura do Vaticano, em Washington, está a ser investigado por suspeita de pornografia infantil.

Durante a semana também publiquei um artigo novo do The Catholic Thing. David Warren recorda o autor Hillaire Belloc que previu, num livro escrito em 1938, que o Islão iria recuperar a sua força e continuar a ameaçar o Ocidente. Não perca!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Regresso às Aulas

David Warren
É preciso descrever o choque que senti ao ver que o livro “As Grandes Heresias”, de Hillaire Belloc, tinha sido reeditado. Há anos que procurava um exemplar em papel deste livro em todos os lugares do costume, como alfarrabistas e feiras de antiguidades. Reparei que, apesar de ainda constar do catálogo, tinha sido retirado fisicamente de pelo menos uma biblioteca e despachado de várias outras.

Não que isso me surpreendesse. Quanto mais importante é um livro para a nossa civilização, mais rapidamente desaparece das prateleiras. Recentemente, por exemplo, descobri que toda a secção de clássicos romanos e gregos foi eliminada da Biblioteca de Referência Central de Toronto, por falta de “interesse público”. E depois que as secções de clássicos de muitas bibliotecas universitárias tinha encolhido ao ponto de, agora, eu ter mais textos no meu pequeno apartamento.

Não é nada que nos preocupe porque sabemos que “tudo” foi preservado no éter electrónico e pode ser baixado por qualquer pesquisador insistente, normalmente de borla. Mas pouca gente se preocupa com os clássicos, menos ainda com os padres da Igreja e os acervos digitais são, pela sua própria natureza, precários. Mais fundamentalmente, como os “estudos” continuam a demonstrar, a retenção por parte de utilizadores de material lido em ecrãs de computador é praticamente zero.

Enfim, como dizem... E não me espanta que tenhamos multidões ignorantes a atacar as relíquias do passado, como as estátuas públicas. Torna-se muito mais fácil alimentar estas turbas porque, na ausência de materiais que não lêem nem respeitam, acreditarão em tudo o que se lhes contarem sobre o passado.

Voltando a Belloc, ele não era grego nem romano, mas a sua obra enquanto historiador é assinalável. Era um historiador popular, e não académico, mas não deixava de ter uma educação formidável e abrangente, não só por leitura mas também por ser viajado e abria caminhos por cada lado para que se voltava. E, como Belloc sabia perfeitamente, o leitor inteligente não se tem de restringir a Belloc. Somos livres de o contradizer mas, claro, isso requer paciência e esforço.

Sei bem qual foi o dia em que comecei a procurar um exemplar de “As Grandes Heresias”, porque foi no dia 12 de Setembro de 2001. Poderia ter sido na véspera, não fosse eu, então, um praticante de jornalismo diário e, por isso, tenha sido distraído dos interesses bibliográficos por “notícias de última hora”.

Parece que entre os meus compatriotas – pelo menos os que trabalhavam para os media – pensava-se que eu sabia alguma coisa sobre o Islão. Eu não me considerava um especialista, mas tendo em conta as circunstâncias, qualquer coisa servia e por isso, de repente, dei por mim com a liberdade de preencher as colunas que quisesse no jornal.

As pessoas queriam saber o que era esta coisa do “Islão” e o que é que se tinha passado enquanto dormiam. Fiz os possíveis para os informar – ter os factos correctos e essas coisas – e os editores que anteriormente me tinham desclassificado por ser “algum tipo de conservador”, até me estavam a agradecer.

Esta situação simpática manteve-se durante umas semanas, até que se descobriu que algumas das coisas que eu tinha escrito não eram, por assim dizer, “politicamente correctas”. A invasão americana do Afeganistão foi bem aceite, inicialmente, mas quando chegou ao Natal desse ano os “progressistas” tinham recuperado a sua garra e os apologistas liberais do Islão estavam em crescendo.

Hillaire Belloc
Desencorajaram-me especialmente de escrever sobre os 14 séculos de história por detrás deste incidente particular, que de tantas formas fazia lembrar o século VII. Mesmo a minha explicação inicial do significado da data 11 de Setembro – 1683 – se tinha perdido debaixo do burburinho dos “peritos” alternativos, que nunca tinham ouvido falar de tais coisas.
 
A vitória do exército cristão sob o comando do Rei João III Sobieski, da Polónia, que derrotou os otomanos às portas de Viena, tinha sido das datas mais famosas da história. Caso essa batalha tivesse sido vencida pelo “infiel turco”, como era conhecido em tempos na Europa, este ficaria em posição de se lançar Danúbio acima e atingir o coração da Europa Ocidental. Foram parados em Lepanto, tal como os antecessores tinham sido parados por Carlos Martel no meio de França. Grandes batalhas como estas mudam o rumo da história.

Para a Al Qaeda, abertamente dedicada à restauração de um califado mundial, este revés decisivo em Viena era a fonte de grande angústia. Ainda por cima não tinha sido a primeira tentativa. Há mais de um século que a cidade era um alvo, como antes tinha sido Constantinopla (hoje Istambul), com ataques anuais até à eventual queda em 1453.

Este longo “choque de civilizações” era de conhecimento geral, tanto no oriente islâmico como no ocidente cristão até há pouco tempo. Escrevendo em 1938, Belloc apanhou os seus leitores de surpresa ao sugerir que o choque não tinha chegado ao fim. Ele previa, corajosamente, que o Islão ia recuperar e que os ataques recomeçariam.

Para um leitor há 80 anos o Islão tinha sido inteiramente derrotado, às mãos da organização e da tecnologia ocidental. Mas foi precisamente porque o analisou enquanto fé – aliás, considerando-o uma heresia cristã – que Belloc pôde apreciar as suas forças. Mais, foi através da análise das outras grandes heresias que tinham dividido e viciado a Cristandade (ariana, albigense, protestante e modernista) que pôde antecipar o revivalismo islâmico.

A sua análise, não obstante ser extremamente “politicamente incorrecta”, é muito mais subtil que a caricatura habitual; cada uma das cinco grandes heresias que Belloc analisa era única à sua maneira, e a sua análise das suas interacções é de um extraordinário nível intelectual. Não podemos deixar que a sua prosa arrebatadora e acessível nos distraia da precisão do seu raciocínio.

Na verdade o livro é de tal forma pertinente que fiquei chocado de o ver novamente em circulação. O meu primeiro pensamento foi: “Como é que isto foi permitido?”. Porque o livro não envelheceu. Quem envelheceu fomos nós.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 1 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Sobrevivendo em Rio de Mouro

Survivors
O Papa encontra-se esta sexta-feira com soldados, polícias e guerrilheiros feridos na guerra civil da Colômbia, mantendo o enfoque na reconciliação, que tem sido o mote para a sua viagem.

Ontem encontrou-se com os bispos da Venezuela, que renovam as críticas ao regime.

Conheça aqui a história da escola católica que sobreviveu à I República e continua de portas abertas, em Rio de Mouro.

Hoje chamo atenção para mais um artigo do The Catholic Thing que foi publicado durante as férias. Robert Royal, editor do site, escreve sobre o fenómeno cada vez mais frequente que se traduz numa revolta adolescente dos ocidentais contra a sua própria cultura.

Não perca também o artigo desta semana, sobre a necessidade de agir agora para salvar o Cristianismo no Iraque

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nem mais cem anos de solidão!

Um Papa rejuvenescido na Colômbia
Hoje foi o primeiro dia “em cheio” do Papa na Colômbia.

Francisco encontrou-se com as autoridades e com o Presidente da Colômbia, citando Gabriel García Marquez num discurso muito bonito.

Depois visitou a Catedral e dirigiu-se aos jovens, mostrando-se muito bem-disposto e em boa forma. Seguiu-se um longo discurso aos bispos. Esta noite há ainda um encontro com os representantes da CELAM e missa às 22h, hora portuguesa, que podem acompanhar em directo no liveblog da Renascença.

Realizam-se em Lisboa, precisamente na sede da Renascença, as jornadas da Comunicação Social. Os interessados podem inscrever-se através do link neste artigo.

Aos interessados, Bragança vai promover um ciclo de música sacra.

Aproveito para divulgar mais dois dos artigos do The Catholic Thing que publiquei durante o passado mês. Anthony Esolen escreve sobre aquela bela frase que Jesus nunca disse: “Se vires um argueiro no olho do teu irmão, ignora-o, porque o mais natural é teres um argueiro no teu olho também, ou alguma coisa pior”.

E Randall Smith tem um belo texto sobre o cuidado que temos de ter quando debatemos temas sensíveis e a firmeza que temos de ter perante exigências das autoridades que chocam com as nossas crenças. Leiam, vale bem a pena. 

Partilhar