quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Colher o que Semeámos

Anne Hendershott
Estudos recentes revelam que os níveis de esperma de homens no ocidente desceram 60% desde 1971, evocando a grande distopia de P.D. James “Os Filhos dos Homens”, com a sua visão de uma sociedade que já não se consegue reproduzir. Baseado no Reino Unido, em 2021, esta ficção assustadora descreve uma mundo de infertilidade em massa entre os homens, um mundo em que não nascem crianças há 25 anos. No livro, o último bebé que nasceu é agora um adulto e a população está a envelhecer. Tal como na realidade actual, os cientistas no livro de James ainda não conseguiram descobrir uma cura, ou sequer uma causa, para a infertilidade.

No artigo em que publicam as suas descobertas, na revista Human Reproduction Update, os investigadores – de Israel, Estados Unidos, Dinamarca, Brasil e Espanha – concluem que o total de contagem de esperma caiu 59.3% entre 1971 e 2011 na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia.

Alguns cientistas afirmam que a “vida moderna” causou sérios danos à saúde dos homens. Pesticidas, poluição, dieta, stresse, tabaco e obesidade… todos têm sido associados ao problema, com algum grau de plausibilidade. Mas há menos homens a fumar do que nunca e os controlos de poluição e de pesticidas que os governos têm implementado ao longo dos últimos 40 anos diminuíram vários destes riscos.

Durante a Revolução Industrial, no século XIX, os homens incorriam em riscos de saúde muito maiores ao trabalhar em fábricas numa altura em que não havia sequer regulamentos sobre a qualidade do ar. Havia menos problemas de fertilidade nessa altura, as famílias eram numerosas e ninguém se preocupava com a contagem de esperma.

A obesidade pode ser um factor, mas os investigadores ainda não conseguiram estabelecer uma ligação. Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Loma Linda fez um estudo ao longo de quatro anos com uma população de Adventistas do Sétimo Dia, que são rigorosamente vegetarianos. Os resultados revelaram que os vegetarianos têm uma média de contagem e de mobilidade de esperma significativamente mais baixas que carnívoros, mas o veganismo é um estilo de vida minoritário ainda, especialmente entre homens, e por isso não pode ser a principal causa do fenómeno.

As causas para este declínio de fertilidade continuam por apurar. Mas para se compreender as consequências de uma sociedade estéril, a história de P.D. James descreve um mundo sombrio em que emerge um Governo totalitário para manter a ordem – e fornecer “conforto” aos residentes. É um mundo em que os animais de estimação se substituem às crianças e a religião parece ter perdido o seu sentido. Porém, na tentativa fraca de manter os rituais cristãos as igrejas anglicanas levam a cabo cerimónias de baptismo elaboradas para os gatinhos de estimação da população, repletas de vestidos brancos e boinas.

Na sociedade estéril de P.D. James, o sexo entre os jovens tornou-se “o menos importante dos prazeres sensoriais do homem”. E embora os homens e as mulheres ainda se casem, é frequentemente com pessoas do mesmo sexo. O desejo sexual diminuiu a par da fertilidade masculina, não obstante os esforços do Governo para estimular o desejo através de lojas de pornografia patrocinadas pelo Estado.

De certa forma o romance de James descreve uma sociedade que conseguiu precisamente aquilo que queria: prazer sexual sem risco de gravidez. Mas a ironia é que não havendo possibilidade de procriação, o sexo perde o seu sentido. É um facto que enfrentamos cada vez mais hoje enquanto debatemos se o Estado deve obrigar todos os contribuintes, incluindo aqueles que têm objecções religiosas, a pagar pelos “direitos reprodutivos” de todas as mulheres, numa altura em que há cada vez mais preocupações com a infertilidade masculina.

Há muito que os antropólogos e os sociólogos sabem que a questão da fertilidade humana numa dada população tem de ser vista de uma perspectiva cultural. A cultura é a forma de vida, ou a concepção de vida que caracteriza cada sociedade humana. Inclui os valores partilhados, normas e comportamentos de uma dada sociedade.

Para compreender as taxas de fertilidade e a diminuição da população, devem-se identificar e modificar as influências culturais. A cultura é importante para se compreender as taxas de fertilidade e para modificar a actividade sexual, criando uma relação entre o sexo e a reprodução e o sistema de valores de uma cultura. Quando, numa determinada sociedade, a chegada de uma criança é desvalorizada, o acto sexual que produz a criança também se desvaloriza. Note-se que os níveis de fertilidade masculina estão em queda no Ocidente e não em África, onde as crianças continuam a ser altamente valorizadas e acolhidas em amor.

Esta perspectiva sociológica ou cultural estava claramente expressada na Humanae Vitae: Sobre a Regulação da Natalidade, emitida pelo Papa Paulo VI no dia 25 de Julho de 1968, onde se lê:

“O problema da natalidade, como de resto qualquer outro problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais  sejam elas de ordem biológica, psicológica, demográfica ou sociológica – à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna.”

Talvez seja chegada a hora de considerar a sociologia em torno da cultura de “direitos reprodutivos” que criámos – a cultura de contracepção que o Ocidente abraçou. Temos de nos questionar sobre o eventual custo psíquico de uma cultura em que a contracepção e o aborto são de tal forma importantes que o ObamaCare procurou obrigar todos os empregadores – incluindo instituições religiosas – a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluíam cobertura para medicamentos contraceptivos e abortivos abortivos para todos.

É importante realçar que estes declínios de fertilidade começaram a registar-se em 1971 com o surgimento da pílula contraceptiva e liberalização do aborto a pedido através de Roe v. Wade. Será que, tal como na distopia de James, há um preço psíquico a pagar quando começamos a partir do princípio que podemos controlar todos os aspectos das nossas vidas? Será possível que tenhamos sobrecontrolado a nossa própria fertilidade?


Anne Hendershott é professora de Sociologia e directora do Centro Veritas para Ética na Vida Pública, da Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio. É autora do livro The Politics of Deviance (Encounter Books).

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 10 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Argueiros, Traves e Vista Desimpedida

Anthony Esolen
“Se vires um argueiro no olho do teu irmão, ignora-o, porque o mais natural é teres um argueiro no teu olho também, ou alguma coisa pior”, disse Jesus, nunca. Um argueiro no olho dói. Esta parábola é um aviso contra o orgulho espiritual; acharmo-nos melhor que os nossos irmãos só porque calhou não sermos afligidos por esse argueiro em particular. É por isso que na parábola que verdadeiramente contou chama hipócrita ao homem orgulhoso. Mas reparem que ele acrescenta: “Primeiro tira a trave do teu próprio olho, só assim, verás com nitidez para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

Jesus não é fã de argueiros. Quer-nos livres deles. Ordena-nos a fazer um sério exame de consciência, uma limpeza espiritual; devemos ser misericordiosos com os pecadores, mas intolerantes com o pecado, a começar com o nosso próprio. Estamos zangados com o nosso irmão? Olhámos com desejo para aquela mulher? Procurámos o lugar de honra na mesa? Rezamos de forma a dar nas vistas? Alimentamos desejos de vingança contra aqueles que nos magoaram?

Hipocrisia, orgulho, ira, cobiça, vaidade, desejo de vingança – estes são pecados ou disposições pecaminosas que devemos odiar como odiamos as doenças do corpo, porque, tal como o cancro, fazem mal à constituição moral de que Deus nos dotou. Pensem nos pecados sérios como corpos estranhos que se alojam nos ossos, no sangue, no cérebro e no coração. Jesus quer-nos livres deles.

Podemos fazer uma distinção claríssima entre o realismo da Igreja e aquilo a que chamarei o “irrealismo” dos nossos tempos, uma incapacidade de compreender a realidade do pecado. Quando eu digo que a calúnia é um pecado isso significa mais do que apenas a constatação do facto de que a calúnia fere a reputação da vítima, ou que Deus a condenou, ou que, como dizem os sofistas, a “sociedade” a vê com maus olhos. Significa que Deus a condena da mesma forma como um médico odeia cancro.

Platão entendia isto – como é que os cristãos não o percebem? A calúnia devora verdadeiramente as entranhas do caluniador. O pecador é a primeira e mais miserável vítima do pecado. Não seguimos as leis morais como se fossem um conjunto de restrições culturais arbitrárias. Deus criou-nos de forma que florescemos quando obedecemos à lei moral e decaímos, adoecemos e morremos quando a ignoramos ou violamos.

Tudo isto é independente de opiniões. É a lei que está inscrita nos nossos corações; a lei com a qual os nossos corações funcionam, e neste sentido todas as pessoas são iguais. Não há dois ou três tipos de coração diferentes que bombeiam o sangue pelos nossos corpos; só um. Não há dois ou três testemunhos da lei moral diferentes inscritas no nosso coração, apenas um. O coração físico é feito para sangue, não para água ou cola. O coração moral é formado por aquilo que é verdadeiramente bom, não para a hipocrisia, orgulho, ira, luxúria, cobiça, vaidade ou vingança.

Claro que, se viver cercado de pessoas que enchem o coração moral de cola e chamam-lhe um tipo de sangue diferentes, e seguir os seus exemplos, poderá não ser culpado de uma violação consciente e intencional da lei de Deus. A sua culpa é mitigada pela sua insensatez. Mas a cola não deixa de ser cola. Chame-lhe o que quiser; o pecado não se verga às alcunhas. Pode chamar ao melanoma na bochecha do seu irmão um sinal, mas os seus perigosos tentáculos não deixarão de fazer o seu trabalho.

E porque é que lhe chamaria um sinal? Talvez não creia verdadeiramente naquilo que a Igreja ensina. Segue-o na sua própria vida, mas não lhe dá verdadeiro crédito. É um resíduo de um hábito cultural; como um judeu que segue as leis kosher, mas que não insiste que os filhos o façam, porque já não vê qualquer ligação entre essas leis e a aliança entre Deus e Israel. Não tem valor real.

E portanto você diz que a fornicação é errada, porque Deus a condenou, mas não acredita verdadeiramente que a fornicação é errada, e que por isso a condenação de Deus é um pouco como um alarme, uma barreira de segurança. Diz a si mesmo que Deus ignorará esse mal, tal como você ignora, porque assim é tudo mais fácil.

Você não é um hipócrita moralista. É um hipócrita não-moralista, que se congratula por ter uma mente muito aberta que, na realidade, não passa de indiferença e cobardia.

Ou então chama-lhe um sinal porque é isso que toda a gente lhe chama e de alguma forma tem esperança que Deus alinhe. Diz que toda a gente é pecadora, por isso pouco interessa qual é o pecado que desfigura o seu irmão. No fim Deus apagará tudo.

Mas essa atitude não é reconciliável com as palavras e o exemplo de Jesus, e faz com que a Cruz não tenha qualquer sentido. Para quê morrer por um povo paralisado pelo pecado quando seria muito mais fácil encolher os ombros perante a paralisia e com um toque de uma varinha mágica na ressurreição dos mortos: Já está! Toda a gente é santa.

Nesse esquema não há lugar para o amor. Se vê um cancro não diz: “Bem, toda a gente vai morrer de alguma coisa eventualmente, qual é o problema?” Se vir um homem deitado numa vala, espancado quase até à morte, não olha para ele e diz “bem, se não fosse isto era outra coisa qualquer” e segue o seu caminho.

Interessa que o homem se tenha lançado para a vala? Interessa que o seu irmão esteja a preparar uma corda para se enforcar? A vontade altera a realidade do mal? Se duas pessoas concordam em jogar à roleta russa, isso faz com que o jogo seja menos mortal? O consentimento mútuo no mal tanto pode agravar a culpa como mitigá-la. Num duelo, ambos consentem.

Caros leitores, chegou a hora de voltar à realidade.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Poluição da Nossa Vida Comum

Matthew Hanley
Há um aluno da Universidade de Arizona que acha que é um hipopótamo. Ora aí está uma frase que nunca imaginei escrever. Define-se como um “tranimal”.

Normalmente qualquer leigo o poderia diagnosticar – mesmo sem lhe pôr os olhos em cima e sem qualquer medo de negligência – como non compôs mentis. Mas já fomos todos avisados, à medida que estes desvarios aumentam em número, que qualquer forma de “autoidentificação” deve ser validada.

Basta perguntar ao professor canadiano que tem sido perseguido incansavelmente por se recusar a alinhar com a ditadura dos pronomes. Os seus superiores insistem que ele use invenções gnósticas como Ze, Hir, Xe, Verself, etc., em vez dos pronomes ingleses comuns (he, she, hers, etc.), sempre que alguém considera que os reflexos gramaticais da realidade biológica sejam demasiado restritivos.

Tendo em conta que os advogados têm achado por bem forçar as massas a aceitar estas ilusões (e bem antes disto já eramos lamentavelmente litigiosos), temo pelo futuro da Universidade de Arizona. Há claramente um processo no horizonte – se não contra a universidade, então contra quem alimenta o hipopótamo. Eu já tive a sorte de ver hipopótamos em liberdade e sei que todas as reservas naturais insistem que é proibido e punível por lei alimentar animais selvagens. Como é que vai ser quando a exaltação da autonomia no ramo da sexualidade – que chegou ao ponto de redefinir a realidade biológica – entrar em conflito com o respeito pelo ambiente? Nem deve ser uma questão. A vida selvagem fica em segundo lugar, a autonomia em primeiro.

Por falar em vida selvagem, vejamos outro exemplo deste conflito. Até envolve outro “tranimal” – na medida em que se pode referir ao fenómeno dos peixes “inter-sexo” com este termo. Estamos a falar de peixes machos que estão a desenvolver ovos nos testículos. Como é que isto acontece? Demasiado estrogénio na água; as ETAR simplesmente não conseguem lidar com a quantidade de hormonas estrogénicas que os seres humanos consomem, eliminam e enviam de volta para a natureza.

Há décadas de provas – que constam até de publicações “mainstream” como a “Nature” – de que o princípio activo da pílula (EE2), juntamente com outros estrogénios, “causa danos em larga escala no ambiente aquático, perturbando os sistemas endócrinos da vida selvagem”.

No início de Julho o professor Charles Tyler da Universidade de Exeter, juntou os seus dados dramáticos ao monte crescente de provas numa palestra a um simpósio internacional patrocinado pela Sociedade Pesqueira das Ilhas Britânicas.

A apresentação chamava-se “A feminização da natureza – uma história não-natural” e era bastante técnica, mas uma das conclusões principais foi de que testes feitos em cinquenta locais diferentes revelaram que um em cada cinco peixes machos de água doce no Reino Unido tinha características femininas. Isto, juntamente com outros impactos adversos, diminui a capacidade desses peixes de se reproduzirem. Por outras palavras, o ecossistema está a levar por tabela.

Há muitos outros contaminantes implicados, como os derivados de cosméticos, plásticos e detergentes mas, tal como a pílula, estes também têm propriedades estrogénicas que contribuem para estes desequilíbrios ao nível fisiológico. Outros químicos, tais como os que se encontram nos antidepressivos, provocam alterações anormais no ramo do comportamento.

É um dado bem conhecido que a pílula é carcinogénea; mas isso pode não estar limitado ao consumo directo. Podemos estar perante um problema mais alargado, por causa dos níveis de estrogénio na água. Existe uma correlação forte – mas não, sublinho, uma causalidade comprovada – entre a utilização da pílula na sociedade e o cancro da próstata nos homens. Essa associação significativa foi detectada em todos os 88 países em que foi investigada.

Seja como for, a preocupação gerada pela realidade dos peixes inter-sexo – um exemplo inegável da conspurcação humana do ambiente – é insignificante em comparação com o furor sobre as alterações climáticas, alegadamente causadas pelo homem. Nem se dá por ela. Perante dados científicos ciência tão inegáveis, mas tão inconvenientes como estes, é muito mais eficiente ignorar do que negar.

A mera quantidade de repercussões da pílula, a todos os níveis, que é preciso ignorar só se compreende através de um exercício voluntário do intelecto. Melinda Gates disse recentemente que a pílula é uma das maiores medidas de sempre para combater a pobreza. Talvez esteja simplesmente a ignorar o trabalho do falecido economista Julian Simon, que demoliu essa visão recorrente que, no fundo, revela uma visão de soma zero de recursos limitados, destinados a diminuir à medida que as pessoas proliferam. Uma visão temorosa, contradita por resmas de provas. Simon, por outro lado, sabia que o melhor recurso no planeta são as pessoas e defendia que é tendo mais pessoas, e não menos, que se chegará à inovação e à produtividade responsáveis pelo desenvolvimento.

O principal motor do progresso mundial é uma boa quantidade de conhecimento humano. E o melhor dos recursos é composto por pessoas esperançosas, qualificadas e animadas, usando a vontade e a imaginação para se sustentarem a elas e às suas famílias, contribuindo dessa forma para o benefício de todos.

A investigação de Simon mostrou-se tão persuasiva que a sua tese passou de contracorrente a largamente aceite hoje. Até os peixes ficariam contentes se a Srª Gates passasse a ver as coisas deste modo. Esperar-se-ia que as pessoas que amam a humanidade – como a Srª Gates, na qualidade de filantropa – ficariam fora de si com a perspectiva do triunfo do engenho humano sobre as aparentes contrariedades da natureza.

A Srª Gates parece esperançada de que a Igreja Católica esteja em vias de mudar os seus ensinamentos sobre a contracepção. Talvez saiba algo que eu não sei. É verdade que algumas pessoas têm especulado sobre alterações para coincidir com os 50 anos da “Humanae Vitae” no próximo ano.

Há muitas razões importantes e de peso sobre porque é que isso não é boa ideia, mas eu acrescentaria mais uma: A aceitação de um conhecido poluente por parte da Igreja não estaria em contradição com a admoestação de 2015 contida na “Laudato Si”, de “cuidar da nossa casa comum”?


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 31 de Julho 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Charlie em Paz, feministas zangadas e "transgéneros"

Charlie Gard, finalmente em paz
Ao fim de uma longa batalha legal, que cativou o mundo, Charlie Gard está finalmente em paz. Este caso motivou muitas opiniões, algumas apaixonadas, muitas desinformadas. Sugiro a leitura deste artigo.

Mais uma sexta-feira, mais um ataque terrorista. Desta vez foi na Alemanha.

Bispos, tenham cuidado! Elas andam aí. Quem são elas? São o Comando Feminista Informal para a Acção Antiautoritária que atacou a sede da Conferência Episcopal no México.

Está a sentir-se generoso? Ajude lá os Leigos para o desenvolvimento a ajudar os miúdos santomenses a ajudar a sua comunidade através do surf.

Donald Trump proibiu as pessoas “transgénero” de servirem nas forças armadas americanas. É uma decisão parva, motivada por uma série de outras decisões parvas, tudo assente no mito de que um homem se pode transforar numa mulher. Leia aqui porquê.

Há artigo novo do The Catholic Thing. O padre Paul Scalia pega no Evangelho do domingo passado para explicar porque é que as pessoas não devem levar longe demais o seu zelo em expulsar o joio – leia-se outras pessoas – de entre o trigo. Vale muito a pena ler numa altura em que as tensões e divisões na Igreja se acentuam.

Como é costume, o Actualidade Religiosa vai de férias durante as próximas semanas, salvo alguma notícia urgente. Vão acompanhando o blog para ver os artigos do The Catholic Thing ou artigos da minha autoria e já sabem que no grupo do Facebook há sempre discussões animadas…

Trump & Trans: O mundo de pernas para o ar

Trump e os transgéneros, tudo mal desde o princípio
Há poucos dias Donald Trump anunciou – através do Twitter, como é seu estilo – que vai proibir as pessoas transgénero de servirem nas Forças Armadas, uma vez que a missão destas é proteger o país e não podem mais suportar os custos médicos inerentes à presença daquelas.

Logo surgiram gritos de discriminação, homofobia, transfobia e alguém foi buscar dados que mostram que as Forças Armadas gastam cinco vezes mais em viagra para os seus soldados do que em operações de mudança de sexo.

Esta não devia ser uma questão complicada de analisar, mas infelizmente é. Porquê? Porque estamos a discuti-la com as bases inquinadas… Vamos por pontos.

1º O problema aqui centra-se numa comunidade específica que se identifica como “transgénero”. Mas – e lamento aqui ter de vos assustar com um pouco de ciência – não existem mulheres e homens transgénero. Existem mulheres, e existem homens. Algumas mulheres pensam que são homens. Alguns homens pensam que são mulheres. Alguns homens e mulheres pensam até que são outras coisas. Alguns homens mutilam-se e drogam-se para poderem parecer mulheres e algumas mulheres mutilam-se e drogam-se para parecer homens. Mas da mesma maneira que eu não fico mais novo se fizer um implante de cabelo, nem fico mais velho se pintar o pouco cabelo que ainda tenho de branco, um homem mutilado, drogado e com uma saia não se transforma numa mulher, e vice-versa.

2º Se um homem ou uma mulher estão aptos física e psicologicamente, então devem poder servir nas Forças Armadas e devem ser integrados nas Forças Armadas na qualidade de homem ou mulher que são, de facto, e não como se imaginam ou como gostariam de ser.

3º O facto de um homem se identificar com uma mulher ou de uma mulher se identificar com um homem revela uma instabilidade psicológica? Excepto na muito reduzida quantidade de casos em que existe uma disforia de género clinicamente comprovada, penso que isso é evidente. Deve isso excluir a sua participação nas Forças Armadas? Só isso, a meu ver – que não sou psicólogo nem especialista no assunto – não deve ser impedimento. Eu também acho que as pessoas que gostam de se vestir de verde e participar em rituais semanais de humilhação colectiva não devem bater bem da cabeça, mas não é por isso que são piores pais de família, bombeiros ou soldados. Se, porém, um homem diz que o facto de ter de ser tratado como um homem pelas Forças Armadas é para ele insuportável, então haverá uma clara incompatibilidade.

4º Se eu percebo porque é que as Forças Armadas americanas pagam os cuidados de saúde básicos dos seus membros, com destaque especial para mutilados e traumatizados de guerra, por exemplo, confesso que não faço a menor ideia porque é que devem pagar a homens e mulheres fisicamente saudáveis operações ou tratamentos que os mutilam ou alteram o regular funcionamento do seu corpo. A ideia de que essa mutilação física é necessária para que haja bem-estar psicológico não só não está comprovada pela ciência, como os estudos apontam precisamente no sentido contrário.

5º Já que estamos nesta, também não faço a menor ideia porque é que as Forças Armadas andam a comprar viagra para os seus soldados…

Resumindo. Trump tomou uma decisão parva, com uma justificação parva. Mas fê-lo dando continuidade a uma já longa e honrada tradição de parvoíces, que atingiu o seu cúmulo quando alguém nas Forças Armadas decidiu que seria adequado e boa ideia financiar operações medicamente desnecessárias aos seus soldados.

Se Trump, em vez de excluir das Forças Armadas homens e mulheres que, tanto quanto eu ou ele sabemos, podem ser excelentes soldados e têm vontade de servir o seu país, se limitasse a rescindir a prática absurda de financiar as operações de mudança de sexo tinha-se evitado este problema. Seria acusado de homofobia e de transfobia de qualquer maneira, como tem sido desde que apareceu na cena política, mas pelo menos teria razão.

Último ponto. Deve este texto ser lido como uma crítica ou desvalorização pessoal de homens ou de mulheres que, tragicamente, não estão em paz com a sua própria biologia? Não, não deve. Eles e elas não deixam de ser pessoas com uma dignidade indelével que devem ser amadas, respeitadas e apoiadas. Mas apoiar, amar e respeitar alguém não implica alinhar com uma fantasia irracional, sobretudo quando ela pretende impor-se à sociedade, querendo obrigado todo o resto do mundo a compactuar com aquilo que é, na verdade, uma mentira.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Proteger o Reino

Pe. Paul Scalia
“Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo”. É significativo que nosso Senhor comece as suas parábolas sobre o Reino do Céu (Mt. 13,24-50) com uma referência ao inimigo. O Reino do Senhor não é estabelecido facilmente (aliás, requer o seu próprio sacrifício). Nem se defende com facilidade. O maligno anda sempre à espreita para semear joio no Reino. Por isso a parábola do joio no trigo tem ensinamentos não só sobre o Reino, mas sobre como o proteger.

Em primeiro lugar, o inimigo aproveita o facto de estarem todos a dormir. Devemos ouvir nessa referência uma alusão não ao sono confiante de uma criança, ou o pacífico sono dos justos, mas sim o adormecimento da negligência – a sonolência espiritual que aflige os apóstolos no jardim, Dante a meio da sua vida e o nosso mundo hoje.

A sonolência conduz à trapalhice. Um guarda sonolento deixa entrar aqueles que não deve – e que não deixaria caso estivesse acordado. Um pensador sonolento não faz distinções necessárias. A sua precisão sofre, deixando passar coisas que lhe teriam chamado a atenção caso estivesse mais desperto. Na parábola de Nosso Senhor, a sonolência dá ao inimigo a oportunidade que procura. Assim também na Igreja o torpor dá uma abertura ao inimigo. O nosso pensamento embrutecido, a incapacidade de fazer distinções e a falta de clarividência são uma porta aberta para o joio do inimigo.

A parábola apela, por isso, à vigilância, uma virtude que devia caracterizar a vida espiritual de todos os fiéis. Cada um de nós deve estar desperto e atento, primeiro para ver o Senhor, mas também para se proteger contra o maligno, não vá ele semear nos nossos corações e poluir aquilo que Deus plantou em nós.

Contudo, no que diz respeito à Igreja como um todo, a tarefa da vigilância cabe aos pastores. São eles que têm o dever de vigiar o rebanho e o campo, de serem as sentinelas mencionadas pelos profetas (ver Jeremias 6,17 e Ezequiel 3,17). Infelizmente, ao longo da história temos visto esta parábola a desenrolar-se no seio da Igreja: o mal ganha entrada devido à falta de vigilância. No seu tempo, o santo John Fisher lamentou que “a fortaleza é traída até por aqueles que a deviam defender”. Essas palavras aplicam-se, infelizmente, a muitos momentos na história da Igreja.

A parábola ensina-nos também sobre uma táctica essencial do maligno: a confusão. Este é o seu cartão-de-visita. O Senhor traz luz e claridade. O maligno traz escuridão e confusão. Ele divide aquilo devia estar unido e mistura aquilo que devia ser distinto. Na parábola, o inimigo mistura a semente boa com a má. A sabotagem tinha dois objectivos, ou os consumidores da colheita sofreriam pela mistura malévola, ou os criados prejudicariam o fruto bom ao tentar arrancar o mau.

O semeador e o demónio, Albin Egger-Linz
A mesma táctica malévola aplica-se hoje. A confusão foi semeada à nossa volta. Chamamos bom ao que é mau e mau ao que é bom. Até chamamos homem à mulher e mulher ao homem. Os consumidores desta confusão sofrerão, de facto, sofrerão a tristeza e a dor que deriva da confusão actual sobre casamento, sexualidade e a pessoa. Na melhor das hipóteses sofrerão apenas a tristeza de vidas desancoradas de qualquer sentido ou propósito.

E nós, os criados, tal como aqueles da parábola, somos tentados a extirpar o mal de forma demasiado agressiva – e ao fazê-lo arriscamo-nos a prejudicar precisamente aqueles que queremos ajudar. Parece aqueles filmes de acção manhosos em que o vilão mantém os bons como reféns. Não nos atrevemos a agir, por mendo de causar mais mal. Na verdade, podemos fazer muito mal quando tentamos livrar o Reino de qualquer semblante de mal, de todo e cada joio aparente. Na história da Igreja não há falta de heresias e seitas criadas por tal zelo imprudente.

Reparem que com esta tentação o demónio procura ferir não os medíocres nem os preguiçosos, mas sim os zelosos e fiéis – isto é, precisamente os criados mais preocupados com a pureza e a integridade da fé.

O que nos leva a outra virtude essencial para os criados do Senhor: paciência – a capacidade de sofrer enquanto esperam a intervenção do Senhor. Sem paciência apressamo-nos e, tipicamente, estragamos tudo. Os criados devem esperar pela colheita – o fim dos tempos – para ver as coisas a serem postas em ordem, como o Senhor promete que acontecerá. A paciência é diferente da inacção dos desatentos e dos despreocupados. Não é um encolher dos ombros ou resignação. É o poder (virtus) de esperar pela vindicação do Senhor.

Claro que a palavra “vindicação” parece cruel aos olhos do mundo, talvez até aos olhos de muitos católicos. Faz pensar em corações empedernidos, desejosos de vingança. Mas devemos esperar pela vindicação, caso contrário Nosso Senhor não a teria prometido. A esperança tem a certeza de que Nosso Senhor virá revelar a sua justiça e a paciência espera pacificamente que o dia chegue.

Mas é pela vindicação do Senhor que os criados esperam, não pela das suas opiniões, posições ou partidos. Através da paciência centramo-nos Nele, nas suas promessas e no seu poder. São estes os criados que o Senhor deseja, aqueles que tanto vigiam o seu Reino como esperam pacientemente a sua vinda.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Gentil Martins e a dimensão sensorial do Catolicismo

O Papa convidou esta quarta-feira a rezar pelas vítimas das máfias, isto no aniversário do assassinato de um juiz italiano.

Decorreu a peregrinação nacional da Pastoral Penitenciária, com o objectivo de levar esperança aos reclusos.

No mail de segunda-feira esqueci-me de partilhar a entrevista feita por Aura Miguel ao arcebispo Athanasius Schneider. Só existe versão áudio, mas podem ouvir aqui.

Anda meio mundo zangado com Gentil Martins, mas pela razão errada. Eu também estou zangado com ele, mas por razões diferentes. Saiba quais.

E hoje temos novo artigo do The Catholic Thing em português. O jovem Casey Chalk faz um elogio à dimensão sensorial do Catolicismo, que diz fazer falta à tradição protestante em que o próprio nasceu e foi criado.

Está meio mundo zangado com Gentil Martins, mas pela razão errada

Por esta altura já toda a gente sabe que Gentil Martins deu uma entrevista em que disse uma coisa inadmissível. Mas a maior parte das pessoas está zangada pela razão errada.

Os progressistas pedem a cabeça de Gentil Martins numa bandeja por ele ter dito que a homossexualidade é uma anomalia. A frase exacta foi: “Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.”

Gentil Martins, dizem, não pode ser bom médico, nem boa pessoa, nem bom da cabeça, se acha que a homossexualidade é uma anomalia. É indiferente ele ter dito que quando tem um doente à frente se está nas tintas se é homossexual ou não. Se não afirma a “identidade sexual” do doente, devia ir preso.

Mas para tudo isto ser verdade, para esta indignação ter pés e cabeça, é necessário que o que Gentil Martins disse seja errado. E para ser errado é necessário que se saiba explicar, de forma clara e sem margem para dúvidas, o que faz com que as pessoas sejam homossexuais. Alguém descobriu isso nos últimos tempos sem que eu tenha reparado?

A indignação implica que a homossexualidade seja uma coisa tão normal como a heterossexualidade. Ou seja, implica que o desenvolvimento natural do aparelho reprodutor e do instinto sexual de algumas pessoas sejam direccionados a algo que não conduz à reprodução.

É possível que assim seja? Talvez, já li sobre bastantes teorias nesse sentido. Está provado? Mostrem-me onde.

Enquanto não estiver provado, a opinião de Gentil Martins pode ser mais ou menos simpática, mais ou menos sensível à luz das modas dos nossos tempos, mas não pode ser crime nem pode ser motivo para esta perseguição que se tem movido.

Sobretudo quando vemos que a moda de dizer que a religião é uma doença mental ou uma forma de abuso infantil não merece a mesma condenação por parte dos arautos do politicamente correcto, ou será que houve uma indignação liberal contra Richard Dawkins, o querido do movimento secularista anti-religioso, que me passou despercebida?

Mas eu comecei este texto por dizer que Gentil Martins tinha dito uma coisa inadmissível, e mantenho que o fez. A frase é esta. “Sou completamente contra os homossexuais, lamento imenso”.

Porque é que esta frase não causou mais indignação? Como é que alguém pode dizer que é “completamente contra” um grupo abstracto de pessoas sem que isso seja mais polémico que fazer uma afirmação que está em sintonia com aquilo que era consenso científico até há alguns anos e é assumido pelas principais religiões de todo o mundo?

Gentil Martins é contra os homossexuais? Todos? Porquê?

São generalizações como estas que são fáceis de fazer mas que vão cavando um fosso cada vez maior entre as pessoas levando os homossexuais a sentir que pessoas como eu – que acham que o ideal para as crianças é terem pai e mãe; que acham que o casamento só faz sentido se for entre pessoas de sexo diferente e que têm uma visão da sexualidade e de família que choca com a visão socialmente dominante – estão do lado de lá de uma barricada.

Mas eu não quero estar numa barricada. Eu recuso a imagem da fortaleza sitiada da Cristandade ou da guerra cultural. Tenho adversários ideológicos, mas não quero ter inimigos, mesmo que eles me odeiem, como sei que alguns odeiam.

Nós não podemos ser “contra os homossexuais”, menos ainda “completamente contra os homossexuais”, primeiro porque isso pressupõe que todos os homossexuais são iguais e pensam da mesma maneira, o que é obviamente um disparate, e segundo, porque isso reduz um grupo grande de seres humanos, com toda a sua complexidade, com a sua indelével dignidade, profundamente amados por Deus, a uma única característica que ainda-por-cima não é escolhida.

Não conheço pessoalmente Gentil Martins mas acredito que se ele lesse estas palavras concordaria com elas e compreenderia que a frase que usou foi infeliz. Mas é precisamente porque muitos de nós continuamos a deixar escapar essa e outras frases infelizes com demasiada frequência que sinto que devo chamar atenção para isso, sabendo porém que a minha voz dificilmente se fará ouvir entre os clamores dos gritos por causa da outra situação, muito menos relevante. 

Parentalidade Católica e a Reforma Protestante

Casey Chalk
Em época de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante gosto de pensar na corrente de evangélicos que está a desaguar no Tibre, abençoando não só a Igreja mas todo o diálogo ecuménico – tanto para católicos como para protestantes – sobre a natureza da Tradição, o papel de Maria e a necessidade de uma autoridade objectiva e apostólica.

A isto devemos somar a parentalidade. Quando me converti do calvinismo ao catolicismo discerni uma assinalável mudança na catequese que dava aos meus filhos, uma distinção tão importante que pode fazer toda a diferença entre ter pequenos Cristos ou pagãozinhos à solta lá em casa.

Começa com o baptismo. Muitos evangélicos ainda praticam o baptismo na infância, graças a Deus. Embora a maioria não acredite na regeneração baptismal, não deixam de baptizar validamente com água e em nome do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Quer compreendam ou não, os seus filhos recebem assim o Espírito Santo e herdam os dons teológicos da fé, esperança e amor, sendo incorporados em Cristo.

Infelizmente muitos outros protestantes adiam o baptismo até que as crianças alcancem a “idade da razão” e decidam por eles se querem receber o sacramento. Por isso muitas crianças de famílias protestantes nunca o fazem. Para as famílias que assim negligenciaram este rito mandatado por Cristo, os seus filhos permanecem, para todos os efeitos, pagãos.

Mas esse é apenas o primeiro erro em muitos lares protestantes. A maioria dos evangélicos, e certamente os da minha anterior tradição calvinista, rejeitam imagens, ícones e instrumentos catequéticos que historicamente têm sido usados por famílias cristãs para ensinar os caminhos de Deus. Quem estuda a história sabe que a Reforma despiu os altares, derrubou estátuas de santos e removeu Cristo da Cruz. Os terços foram destruídos, relíquias postas de lado e as peregrinações abandonadas.

Na ânsia de purificar a fé e a prática cristã, os reformados parecem ter negligenciado uma questão essencial: Como é que se comunicam os fundamentos da fé cristã a uma criança de dois ou três anos?

Para os evangélicos que se mantêm em contacto de alguma forma ou feitio com a tradição reformada anticatólica, o que permanece é apenas uma casca, uma pobreza prática de catequese. Ainda se pode rezar com uma criança pequena, ler livros religiosos ou cantar músicas sobre Deus. Estas são todas práticas boas e belas, que na minha família também usamos. Mas são todas de natureza cerebral.

E qualquer pai sabe que o cerebral não é o melhor caminho para crianças pequenas. A este respeito podemos dizer que o Cristianismo reformado revela um certo gnosticismo, enfatizando um conhecimento escondido e abstracto à custa de um dos aspectos mais belos e essenciais da nossa fé: a Encarnação.

Estas tendências protestantes revelam uma compreensão incompleta daquilo que o Evangelista São João queria dizer quando se referia a Cristo da seguinte forma: “O Verbo encarnou e habitou entre nós” (João 1,14) ou, noutra passagem, “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1,1).

Já o Catolicismo, em contraste, é profundamente sensorial: crucifixos, água benta, sinais da cruz, pagelas, imagens, terços e – por fim – a Eucaristia. Jesus habitou um corpo e os seus milagres aconteceram não só através das suas palavras, mas pelas acções, saliva e lama, peças de roupa.

As devoções que reconhecem isto permitem que até as crianças mais novas entrem na fé cristã. Talvez tenha sido isso mesmo que Jesus estava a pensar quando exortou os apóstolos: “Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.

Não estava certamente a pensar em fazer-lhes um sermão sobre um texto bíblico. Na verdade, Jesus impôs-lhes as mãos! (Mt. 19,14-15). Pensem só, ser uma criança cujo corpo foi tocado por Nosso Senhor!

Catolicismo: Um banquete sensorial
Quando a minha família convida amigos evangélicos para jantar e chegam antes de a nossa filha mais velha se ter ido deitar é sempre giro ver o que se passa. Como qualquer menina de quatro anos, adora visitas e partilha tudo sobre a sua vida: os maillots de bailarina, brinquedos e a rotina nocturna de ir para a cama.

Em nossa casa essa rotina envolve arrumar o quarto, vestir o pijama e lavar os dentes. Mas envolve ainda várias práticas explicitamente católicas: ajoelhar e rezar diante de um crucifixo, cantar músicas católicas de um cancioneiro já gasto e ler um livro que frequentemente, e por escolha da minha filha, é profundamente católico.

Ainda não perguntei aos meus amigos o que lhes passa pela cabeça quando vêem a minha filha a falar com Jesus crucificado como se estivesse vivo, ou a pedir uma “Música de Maria” do cancioneiro, ou a aparecer com um livro sobre “santos para raparigas” da sua estante.

Mas sei que a sua devoção é vibrante e verdadeira. Anda constantemente com pagelas, benze-se com água benta na igreja – não uma vez, nem duas, mas dezenas de vezes – e coloca copos de água com flores no nosso altar caseiro, como presente especial para Jesus.

Recorda-me a jovem Cordelia no livro “Reviver o Passado em Brideshead” de Evelyn Waugh, que na sua inocência e zelo doava dinheiro para ajudar os missionários que ensinavam crianças em África, regozijando de cada vez que uma delas era baptizada com o seu nome.

Caros leitores evangélicos, compreendam por favor que não estamos perante tralha sentimental católica, sinos e incensos sem qualquer substância teológica. Eu vivo na Tailândia e temos uma empregada filipina pentecostal que fala sem rodeios sobre a sua fé. E ela já nos confessou várias vezes o seu espanto pelo facto de a nossa filha mais velha saber tanto sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Sabe mais, diz-nos ela, do que as crianças na sua própria igreja. Só posso concluir que isso se deve ao facto de toda esta parte sensorial do Catolicismo fazer com que as histórias das Escrituras – que habitualmente lhe lemos – ganhem vida na sua mente em desenvolvimento.

Se eu tivesse continuado a ser calvinista teria tentado introduzir os meus filhos à fé e à prática cristã o mais cedo possível. Os meus muitos amigos evangélicos fazem precisamente isso, com efeitos obviamente positivos.

Mas numa família típica de evangélicos ou calvinistas os pais trabalham sempre com uma mão atada atrás das costas – deixando os seus filhos sem meios para contemplar uma religião que deveria ocupar não só as suas mentes mas os seus corpos e todo o seu ser.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Julho de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Archer v. CR7 e D.J. Ortiga 50

O que diria o padre Luís Archer a Cristiano Ronaldo? Que é melhor gerar vida que a encomendar de um catálogo. Isto e muito, muito mais na interessantíssima entrevista que fiz a Francisco Malta Romeiras, que acaba de publicar, juntamente com Henrique Leitão, a obra selecta deste grande cientista.

A ONU apresentou um plano de acção para líderes religiosos combaterem o incitamento à violência, com Guterres a sublinhar a importância do exemplo destes líderes.

D. Jorge Ortiga assinala 50 anos de sacerdócio e diz que o ADN da Igreja está nas respostas corajosas. No fim-de-semana ordenou novos padres, a quem pediu para estarem no mundo sem “mundanismos”.

Conheçam aqui o projecto do Centro Comunitário São Cirilo, no Porto, que ajuda a integrar imigrantes.

Em todo o mundo morrem anualmente muitas raparigas, assassinadas pelas suas próprias famílias por alegadas ofensas à honra. Infelizmente um caso recente passou-se numa família cristã em Israel.

Este mail segue mais tarde que o normal porque hoje estou a fazer madrugada. Se isso vos aborrece de alguma forma, sigam o conselho do Papa: Proibido lamentar-se.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Russos em Fátima e Yazidis preocupados

Bispo Clemens Pickel, russófono
É dia 13, por isso é dia de Fátima. Neste momento está no santuário uma comunidade de católicos de língua russa. Um dos seus bispos sublinha a importância de Fátima para eles.

Temos também uma entrevista de João César das Neves, autor do livro “O Século de Fátima”.

Notícia de dois ex-funcionários do hospital Bambino Gesu, em Roma, que são acusados de desviar fundos e que serão julgados por isso no Vaticano.

Hoje publico a transcrição completa de mais uma das entrevistas que fiz para a série “E depois de Mossul?”. Neste caso trata-se de Mirza Dinnayi, um activista da comunidade Yazidi que fala sobre a posição deste povo num eventual braço-de-ferro entre curdos e árabes no Iraque.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como a crença num sistema de valores objectivo implica acreditar em Deus.

ISIS destroyed the harmony of the society in Nineveh

This is a full transcript, in the original English, of my conversation with Yezidi activist Mirza Dinnayi. It was recorded on the 14th of March and used for a series of articles published a few days before the liberation of Mosul.

Esta é uma transcrição completa, no inglês original, da minha conversa com o activista yazidi Mirza Dinnayi. Foi gravada no dia 14 de Março e usada para uma série de artigos publicados dias antes da libertação de Mossul.


When Mosul is liberated, we can expect the situation between Kurdistan and Baghdad to come to the surface. Do you believe that it could turn into an armed conflict?
There are many conflicts that can happen after the liberation of Mosul. One of them that you mentioned is the conflict between the KRG and the central government about the future of the disputed area.

But what we saw in the last weeks also, because of the Turkish factor and pressure from Turkey, was a conflict between PKK and KDP which is also a very dangerous conflict which is taking place in Sinjar area. Just today some PKK civilian sympathizers, Yezidi people, were demonstrating in Sinjar and a 16 year old was killed by Peshmerga forces from KDP and about 20 people were injured. Two weeks ago, or one week ago, there was also a conflict between Rojava militia, which is supported by Turkey and KDP and PKK forces, and there were also more than 20 injured and at least four people were killed.

So the problem is that we have, in these disputed areas, two types of conflict. One is between KRG and the central government, about the future administration of this region, and the second is an inter-Kurdish conflict, with influence of Turkey and Iran. Some Kurdish forces are supported by Turkey and others are supported by Iran and they are fighting each other. This is more dangerous than the conflict between Iraq and Kurdistan.

I have read reports on heavy presence of PKK militants in and around Sinjar, and that many of these are actually Yezidi members of PKK. Is it true that there is a big presence of Yezidis in PKK?
The sympathy is more directly to the YBS [Sinjar Protection Units] and YPG, more than being members, there are actually very few members, among Iraqi Yezidis there are no members of the PKK, but we have members of these YPG or YBS militias, which are also armed forces, but supported by the Iraqi Government, and they have some relations with the PKK, but they are not direct members of the PKK because PKK is a forbidden organization in Iraq and Turkey, but also in Europe.

So these are people who have some sympathy for PKK, and one of the reasons why they joined YPG or YBS is because they were the ones who, in 2014, liberated more than 150 thousand Yezidis from the Mountain when ISIS attacked the Yezidis. At that time the Peshmerga forces collapsed, the Iraqi forces collapsed, and these people came and saved the lives of tens of thousands of Yezidis who were surrounded in the mountain, without food or water. So this is one of the reasons some of the people in the area have some sympathies for these forces and joined them.

We also have armed force which belongs to the Iraqi Hash al-Shabi Forces [Popular Mobilization Forces] who are Yezidis from one side, and which also have some relations with YPG or YBS. The problem is that KDP said that Sinjar should belong to them, and the Peshmerga say that these groups do not belong to the Peshmerga and they are not legal groups, so they should leave. But the problem is that these people are from Sinjar, not from outside. This is a problem that we have and we have tried to solve this conflict in a peaceful way, but unfortunately it has not been possible.

The Kurds seem set on independence. What is your position on this?
There is a wish for independence among the Kurdish people, we support this wish, but we think that these problems, especially in the disputed areas, because most of the Yezidi people and the minorities, Yezidi and Christian, in Iraq, are living in these disputed areas and we think the only way to declare independence is if it is peaceful, because a war will damage our community.

The Yezidis have some demands from Iraq and from Kurdistan, and our demands are to have some special autonomous areas, self-administered autonomous areas, for Yezidis, a province in Sinjar and Nineveh Plain, and these areas should be in cooperation between Bagdad and Kurdistan. This is the wish of the Yezidi people. Because there has been no referendum, we don't know what the people will decide, we think that it is the best way to find what the Yezidi people want. I think the Yezidis will agree, but not without conditions.

If Kurdistan does become independent, and an autonomous region for minorities were to be created, should it be linked to Bagdad or to Erbil?
After all the problems that we had, after the genocide, I think it is the full right of the Yezidis and the Christians to have some demands in order to be part of Kurdistan or not. This is the position of the Yezidis at the moment. Most of the Yezidis would like to be in Kurdistan, because we don't think that we have a future with Mosul, we think there is no future between Yezidis and Mosul, because all the attacks were planned in Mosul, Yezidis were sexually enslaved in Mosul by Sunni Arabs, so there is no way in the next generation to be integrated so smoothly with Mosul, but with the Kurds we have the same roots, we have ethnical roots, so it could be. But we have to have a democratic background and to save the lives and the future of Yezidi existence, their political and social entity, I don't think the Yezidis will agree without conditions.

When you speak of an autonomous region, you would be living side by side with other minorities, such as Christians, Shabaks, Turkmen, etc. Is this what the Yezidis want as well?
Yes, this is the idea, that all the minorities live together in peace.

The Kurds reserve places in their parliament for ethnic minorities, but this does not include Yezidis. They say Yezidis are Kurds with a different religion. What is your opinion on this?
The Yezidis are not united about this issue. Some of them say we are an independent nation, some say we are Kurds, and some say we are an ethno-religious entity and that this ethno-religious entity should be respected. So we have three versions, and my opinion is that the identity of the Yezidis has been established now as an identity after genocide, so the feeling of the Yezidis before and after 2014 is different. The politicians in Iraq and Kurdistan didn't realize this until now, unfortunately, but they should recognize it.

Christians seem very divided in this region, with more than a dozen political parties and at least six militias. The Kurds are also quite divided, although all seem to agree on independence. Does this problem affect the Yezidis as well?
Unfortunately yes.

The community is divided because of the genocide and the massacres, and the genocide has not stopped yet. So my community is also divided in membership among different parties. We have Yezidis who belong to the PKK, Yezidis who belong to the KDP, PUK, independent Yezidis, some small Yezidi parties which were useless in the last two years. Now the elections will come and there will be new political identities of Yezidis, so I think my community is also very divided, maybe not as badly as our Christian brothers, but also divided.

I see you used the term Christian brothers. If there is this autonomous region you would be living as brothers with the Christians, Shabaks, Turkmen... Are relations between Yezidis and Christians and these other minorities brotherly, would it be easy to live in this autonomous region in peace?
I think that between Yezidis and Christians there is no problem. With the Shabak Shias we have no problem. The Shabak Sunnis, unfortunately, joined ISIS. The Shabak themselves are divided. And for Turkmen it is also very difficult because we have Turkmen Shias and Turkmen Sunnis and these aggressively joined ISIS, and they were members and they attacked Yezidis, but we have very good relations with the Turkmen Shia, so you will find that the minorities are even divided among themselves and that ISIS destroyed the harmony of the societies, but in my opinion Yezidi, Christians, Shabak Shias and Turkmen Shia can understand each other. Any relationship with Sunni Muslims, because of ISIS, cannot be included in such projects, in my opinion.

For the creation of an autonomous region you would need support and allies. Bagdad and/or Erbil, but also international allies. Do you have allies for this plan at the moment?
Unfortunately we are trying to lobby at the European Union level and at the American level. Everybody, from the UN or different Western countries, they tell us that we are right, that we need an autonomous area, but everybody is asking us who will pay for it. And this is a problem which we have now. We have some solidarity from the Western countries, but nobody is ready, until now to establish a project... I think the international community as a whole is responsible for this.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Nova via para beatos que lêem livros perigosos

Caminho aberto para beatificação?
O Papa criou ontem uma nova categoria para processos de beatificação. É uma novidade interessante que vem clarificar a distinção entre quem dá a vida como mártir e quem a dá por amor ao próximo.

O mesmo Papa escreveu o prefácio para a Bíblia Jovem YouCat, advertindo que a Bíblia é um livro extremamente perigoso. Pode ler o texto completo do Papa aqui.

Um ano depois de terem ido à Polónia para participar nas JMJ, um grupo de portugueses recebeu os seus amigos polacos no santuário de Nossa Senhora das Dores, na Guarda.

Deus e a Moralidade Objectiva

Christopher Akers
Existe um argumento filosófico simples, mas hoje em dia raramente invocado, que nos pode ajudar a concluir pela existência de Deus. Tem o potencial de tocar os corações e as mentes daqueles que o consideram de forma séria.

Resumidamente, o argumento estipula que a existência de um sistema moral objectivo requer a existência de Deus. Para que um sistema moral seja verdadeiramente objectivo, a lei moral deve ter a sua origem numa fonte exterior à humanidade. Caso contrário tudo o que temos são opiniões morais humanas e subjectivas, independentemente da roupagem que lhes pusermos. As implicações são particularmente fascinantes, sobretudo tendo em conta que a vasta maioria dos não crentes vive e age como se acreditasse num sistema moral objectivo, embora o seu próprio sistema de crenças o impossibilite.

A meditação sobre estas questões desempenhou um papel fundamental para a minha própria conversão à Igreja. Pensar seriamente sobre a moralidade objectiva obriga-nos a colocar questões sobre porque agimos como agimos no dia-a-dia e que tipo de racionalidade sustenta as nossas escolhas morais.

Se utilizarmos a lógica isenta, a conclusão é só uma: sem um legislador divino as escolhas e as acções morais só podem ser subjectivas e, no final de contas, sem sentido. É aterrador compreender as verdadeiras implicações das palavras de Ivan em “Os Irmãos Karamazov”, que “sem Deus tudo é permitido”.

Chegados a este ponto temos apenas Deus e o niilismo. Os ateus mais inteligentes compreendem isto muito bem e é por isso que o tema raramente é discutido. Em vez disso os actos mais horrendos são simplesmente descritos como “claramente errados”, sem que se procure investigar mais a fundo do porquê de o serem.

Mas uma moralidade destas, sem bases, é literalmente disparatada. Faz-nos lembrar a máxima atribuída a Chesterton de que “quando um homem deixa de acreditar em Deus não passa a acreditar em nada, acredita em qualquer coisa”.

Reiterando, a maioria dos indivíduos vive como se existisse um sistema moral objectivo, mas sem Deus esse sistema não pode existir. C.S. Lewis disse de forma lúcida, nas primeiras secções do livro “Mero Cristianismo”, que as pessoas “apelam a um tipo de padrão de comportamento que esperam que os outros conheçam” em alturas de desacordo moral.

É assim ainda nos nossos dias, porém de acordo com as normas da sociedade moderna não existe ninguém (mais especificamente, nenhum Deus) que forneça esse padrão. Logicamente, se é esse o caso, então o próprio padrão colapsa.

Já debati este ponto várias vezes com amigos ateus, alguns dos quais procuraram oferecer formas “objectivas” alternativas para se compreender a moralidade. Certo interlocutor sugeriu que um exemplo de sistema moral objectivo não-teísta seria o utilitarismo.

Porém, o utilitarismo é meramente uma teoria filosófica colocada pelo homem. Mesmo que toda a gente no mundo aceitasse o utilitarismo, ninguém seria obrigado a segui-lo da forma como nos vincula a lei moral do Criador do Céu e da Terra. A utilidade é nada quando comparada com o amor, como os nossos leitores tão bem saberão. Não se trata de uma diferença subtil, a distância entre estes dois conceitos é grande e evidente.

Utilitarismo biológico...
Outro amigo sugeriu que apenas nos comportamos como o fazemos por causa da biologia e argumenta que podemos extrair verdades morais objectivas a partir da contemplação da nossa composição biológica e do ambiente em que vivemos. Mas este seria um mundo em que apenas agimos por interesse próprio, em que o auto-sacrifício é uma mentira e o amor é meramente uma “reacção química no cérebro”.

Seja qual for a perspectiva, este argumento é simplesmente incompreensível. Porque se Deus não existe, então quem é que pode dizer se é certo ou errado seguir determinadas vontades biológicas? Peguemos no exemplo horrível da violação. Se seguirmos um sistema moral baseado apenas na biologia darwiniana, em que o objectivo da vida é, em última análise, a propagação dos genes, então a violação não poderia ser entendida como um bem na medida em que assegura uma transmissão mais alargada desses mesmos genes?

Não estou a sugerir que o meu caro amigo alguma vez argumentaria neste sentido, mas este é um exemplo evidente do absurdo de reduzir a moralidade à biologia. Não é preciso ir mais longe do que dizer que há um mundo de diferença entre a beleza do amor sexual humano e o copular violento de muitas espécies do reino animal.

À nossa volta podemos ver a desintegração da ética civilizada que resultou da confusão sobre a moralidade objectiva. E a confusão é agravada pelas pessoas bem-intencionadas que nos rodeiam e que falam como se a moralidade objectiva existisse enquanto rejeitam todas as coisas, incluindo Deus, que têm de a sustentar.

O que resta de ética civilizada de que ainda gozamos deve-se apenas aos resquícios de uma civilização cristã, se nada for feito a nossa herança poderá ser completamente varrida. A ligação entre Deus e a moralidade objectiva deve ser reafirmada claramente e com frequência por padres, apologistas, filósofos, catequistas e todos os outros. Deve, aliás, ser proclamada aos quatro ventos!


Christopher Akers, que se juntou agora à equipa do The Catholic Thing, é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 8 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)


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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Imãs "on tour" e glúten para todos

Glúten e Vaticano: A conspiração!
É possível que tenha ouvido dizer nos últimos dias que o Vaticano, do alto da sua enorme maldade e ódio aos celíacos, proibiu as hóstias sem glúten. Respire fundo, leia isto e perceba que afinal esta última polémica é uma mão cheia de nada.
Um grupo de imãs está em “tournée” pela Europa para condenar o terrorismo e o extremismo. E é apropriado que assim seja pois, segundo o meu entrevistado Aamir Mufti, o fenómeno do radicalismo islâmico tem precisamente raízes europeias. É uma perspectiva interessante, leia e veja por si mesmo.
Mais ordenações pelo país fora. Braga tem seis novos diáconos, numa altura em que D. Jorge Ortiga celebra 50 anos de sacerdócio e Bragança-Miranda tem um novo padre que, segundo o bispo, deve ser manso e humilde de coração.

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