quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Milagres vários: Iraque, Fátima e Hanucá

(Clicar para aumentar)
Foi reaberta ao culto a primeira das igrejas iraquianas reconstruídas com o apoio da Ajuda à Igreja que Sofre, depois de terem sido profanadas e danificadas pelo Estado Islâmico. Uma notícia pascal em tempos de Advento!

Os judeus de Portugal tencionam continuar a florescer e não temem o desafio da assimilação cultural, numa altura em que se festeja o Hanucá. Amanhã acende-se a menorá numa cerimónia pública no Parque Eduardo VII a que todos são convidados.

Começam a surgir as mensagens de Natal dos bispos. Já temos Viseu e Angra.

A Igreja está preocupada com as regras de protecção de dados da União Europeia.

Por já passar da meia-noite, e porque provavelmente não haverá mais mails esta semana, publiquei já o artigo desta semana do The Catholic Thing. Howard Kainz fala de um interessante livro que torna acessível e compreensível o Alcorão, ajudando os cristãos a compreender melhor o livro sagrado dos muçulmanos. O autor sublinha a diferença entre o Alcorão antes e depois da fuga de Meca para Medina.

E deixo também o convite para a apresentação do livro de Bernardo Motta, sobre o milagre do Sol, em Fátima, uma obra que certamente será útil para quem quiser aprofundar o fenómeno. Ver imagem.

As Duas Religiões do Alcorão

Howard Kainz
É urgente que os cristãos leiam e compreendam o Alcorão, para poderem compreender melhor uma religião que está constantemente nas manchetes. Mas isso é pedir muito, porque o Alcorão é uma mistura de capítulos, escritos em tempos diferentes, organizados por ordem de comprimento, do maior ao mais curto, misturando assim os pensamentos primordiais de Maomé em Meca com ditos muito diferentes posteriores à fuga para Medina.

No livro A Simple Koran, Bill Warner ajuda-nos a ultrapassar essa confusão, reorganizando o Alcorão por ordem cronológica, ao longo dos 23 anos em que Maomé propagou a sua nova religião. Esta abordagem, composta quase inteiramente por textos do Alcorão, com ocasionais subtítulos ou explicações, demonstra bem como o Islão evoluiu durante a vida de Maomé e ilumina a divisão crucial entre aquilo que Aayan Hirsi Ali descreve como “Muçulmanos de Meca” e “Muçumanos de Medina”.

As primeiras passagens do Alcorão, de Meca, derivam da sua conversão das múltiplas religiões politeístas que existiam em torno do santuário da Kaaba, ao monoteísmo. Algumas fontes dizem que eram adoradas até 360 divindades em Meca. Mas Maomé pregava a sujeição ao único Deus, Allah.

Mas houve um percalço. Maomé parecia ter permitido que três deusas fossem veneradas juntamente com Allah. De acordo com a biografia Twenty-Three Years, escrita por ‘Ali Dashti, dois versículos na Sura 2:19-22 diziam originalmente: “Pensastes em Lāt e em ‘Ozzā? E em Manāt, a terceira, a outra? Essas são os grous em voo. Por isso pode-se esperar pela sua intercessão”

Esta passagem parecia reconhecer a divindade das três deusas, juntamente com Allah. Mas Allah acabaria por repreender Maomé por estes “versículos satânicos”, que foram corrigidos em versões posteriores do Alcorão. A partir de então pregou-se apenas o monoteísmo rigoroso. (Salman Rushdie esreveu um romance sobre esta passagem e continua em vigor uma fatwa do Ayatollah Khomeini a exigir a sua morte).

As primeiras partes do Alcorão reescrevem o Antigo Testamento, explicando que Abraão, Lot, Moisés, etc., eram na realidade todos muçulmanos e que todos aqueles que rejeitam o Islão acabam no inferno. Aparecem várias histórias imaginativas sobre Moisés, que normalmente têm pouco a ver com a versão bíblica.

Tais revisões das histórias do Antigo Testamento eram acompanhadas por constantes avisos sobre a tortura eterna no inferno reservada aos Kafirs (não-muçulmanos) que não se convertam. Isto torna-se um tema recorrente ao longo do Alcorão, que tem 290 versículos sobre o Inferno e mais de 300 referências ao temor de Allah, a quem é devida Islam (submissão) servil, como que a um senhor. Por exemplo: “Os Kafirs de entre os Povos do Livro e os idólatras arderão eternamente nos fogos do Inferno. De todos os seres criados, eles são os mais desprezíveis” (98:6)

Em contraste, aos que aceitam a mensagem de Maomé é prometida uma recompensa celestial, em que se encontrarão sobre “poltronas decoradas”, servidos por “jovens rapazes imortais” a trazer-lhes fruta, vinho e “a carne de aves”, bem como as atenções amorosas de houris virginais.

O povo de Meca, duvidando das suas credenciais, pediram-lhe sinais de que se tratava de um profeta verdadeiro. Maomé apontou para uma litania de coisas como sinais – “a sucessão da noite e do dia”, “a chuva enviada por Allah”, “relâmpagos”, “as mudanças dos ventos”, “folhas verdes e cereais”, “a vossa sonolência noite e dia”, “a vossa busca pela generosidade de Allah”, “os navios, como montanhas no mar”, etc.

Exasperado pelas exigências de sinais mais claros, Maomé responde. “Os sinais estão somente no poder de Allah. Eu sou apenas o que traz o aviso. Não chega para eles que te tenhamos revelado o Livro, para lhes ser recitado? (28:48). Por outras palavras, o Alcorão é em si mesmo um milagre que confirma Maomé como profeta.

Maomé não teve grande sucesso em Meca; acabou com apenas 150 convertidos. Mas tinha alguns seguidores em Medina e foi para lá que fugiu quando a situação em Meca se tornou perigosa.

A Hegira (emigração) de Maomé e dos seus discípulos para Medina aconteceu em 622. Medina era uma cidade meia judia e meia árabe. Os judeus, a classe abastada, eram em larga medida artesãos e agricultores. Tinham aliados entre os árabes, mas reinava uma atmosfera de animosidade e de ciúme. Alguns árabes acreditavam que viria um profeta para os guiar à vitória sobre os judeus. Rapidamente começaram a ver que Maomé poderia ser esse homem. Fizeram-lhe um juramente de fidelidade e ofereceram-se para o proteger com armas, caso fosse necessário. Em breve Maomé começou a agir como um líder militar e a enviar combatentes em raides armados contra as caravanas de comércio que chegavam a Meca. Ao longo de nove anos levaram a cabo sessenta e cinco ataques (Maomé esteve presente pessoalmente em 27), bem como vários assassinatos e execuções.

As ameaças de condenação eterna por rejeitar Maomé começam nesta fase a tornar-se mais gráficas – Allah “destruirá os vossos rostos e virará as vossas cabeças ao contrário” (4:47), dará aos descrentes “fogo por vestuário”, “despejará água a ferver nas suas cabeças”, “escaldará as entranhas e a pele” e batê-los-á com “varas de ferro” (22:19).

Já Maomé começou a gozar de privilégios especiais: Os despojos de guerra (limitado a uma quinta parte do total), e mulheres e escravas para além dos limites que se aplicavam a outros (a comitiva amorosa de Maomé acabaria por incluir nove mulheres e várias escravas).

Irrompeu uma nova onda de violência quando os judeus de Medina e até mesmo muitos árabes rejeitaram a reivindicação de Maomé de ser um profeta enviado por Allah. A jihad islâmica tornou-se essencial para espalhar o Islão na Arábia e noutras partes. Um quarto dos versículos de Medina são exortações à jihad e promessas sobre as recompensas não só para a comunidade muçulmana, mas para guerreiros individuais. 

Nos seus anos finais Maomé começou a comportar-se como um profeta-rei. Cada aspecto da vida estava sob o seu controlo – horas de oração, proibições alimentares, o uso de véus, heranças, testamentos, punição por crimes, distribuição de impostos, etc. – tudo obedecendo a sentenças de Allah.

Resumindo, uma leitura cronológica/biográfica do Alcorão revela tremendas diferenças entre as partes anteriores e as posteriores. Não há apelos à jihad no Alcorão de Meca, nem antissemitismo, apenas apelos pacíficos à conversão. Mas em Medina temos a formação gradual de um verdadeiro exército, inspirado a conquistar, literalmente, o mundo para o Islão.

O Islão enquanto “religião da paz” tem, por isso, alguns fundamentos corânicos, mas a história islâmica e os eventos contemporâneos deixam claro que a justificação corânica para a jihad violenta é talvez maior.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 9 de Dezembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Muçulmanos chateados com Trump, jornalista chateado com humorista

O Papa recordou esta segunda-feira que os hospitais católicos não são empresas, no dia em que se tornaram públicas suspeitas de que a Igreja Universal do Reino de Deus dirigiu uma rede de adopção ilegal em Portugal.

A decisão de Donald Trump de mudar a embaixada americana em Israel para Jerusalém continua a causar problemas na Terra Santa, levou o Papa da Igreja Copta a cancelar uma reunião com Mike Pence e pode mesmo ter estado na origem de um atentado frustrado em Nova Iorque, hoje. O Papa pede medidas para travar uma “nova espiral de violência”.


Estou chateado com o Bruno Nogueira. Sei que muitos de vocês também, mas a mim irrita-me mais a manifesta ignorância sobre o que se celebra a 8 de Dezembro do que os insultos à fé.

Estou chateado com o Bruno Nogueira

Ao longo dos últimos dias recebi várias mensagens de católicos a alertar-me para uma rubrica do Bruno Nogueira em que ele ofende Nossa Senhora de forma vil e baixa.

Normalmente ignoro esses apelos. Os católicos têm de perceber que os humoristas ganham dinheiro a fazer humor e que a forma mais simples e básica de fazer humor é à custa de outros. De vez em quando os católicos vão estar na mira dos humoristas, é a vida. Por vezes conseguiremos rir-nos de nós próprios, outras vezes ficaremos chocados com o que ouvimos e serão apenas os outros a rir, mas seja como for as campanhas organizadas de revolta, que têm sempre o efeito de aumentar as audiências e os cliques da dita ofensa, acabam por ser contraproducentes e passam uma imagem dos cristãos como gente histérica e sem sentido de humor.

Mas desta vez fui ouvir e confesso que fiquei chocado e chateado.

Não foi com as piadas… Só quem conseguiu viver até agora passando ao largo de uma tradição de dois mil anos de piadas sobre o nascimento virginal de Cristo é que pode ficar chateado com as larachas sofríveis e pouco imaginativas do Bruno Nogueira. Vá, todos temos dias maus no trabalho.

O que me chateia é que alguém com tempo de antena fixo na RDP, ou seja, pago pelos contribuintes, possa ter direito a cinco minutos para falar sobre um feriado e confundi-lo com outra coisa qualquer. 

Imaginem agora que a RDP me convidava para fazer um curto programa sobre o 1º de Dezembro e eu dedicava-o a falar do regicídio e da implantação da República? Pois foi basicamente isso que o Bruno Nogueira fez. Propondo-se a falar sobre o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, conseguiu falar durante vários minutos sobre outra coisa totalmente diferente, que é a concepção virginal, confundindo ainda “pecado original” com relação sexual.

Por amor de Deus Bruno! A festa da Imaculada Conceição assinala o facto de Nossa Senhora ter sido concebida sem pecado original, ou seja, sem a propensão para o pecado que a todos nos limita a liberdade. Não tem nada a ver com sexo, lamento informar-te.

Aquilo sobre o qual tu escreveste é a concepção virginal de Jesus Cristo, festejado no dia de Nossa Senhora da Encarnação, por ser o dia em que Deus encarnou. É a 25 de Março, por ser nove meses antes do Natal. Estás a ver a ligação? Giro não é?… Pois.

Tenho para mim que o melhor humor é aquele que consegue divertir o seu público e ao mesmo tempo deixá-lo mais inteligente. Mas o Bruno Nogueira conseguiu fazer uma rubrica inteira que não só não teve grande piada, como deixou uma boa parte da população mais ignorante. Mas enfim, como já disse, dias maus no trabalho todos temos. 



PS: Se depois de tudo isto ainda querem ir lá dar mais um clique, o programa pode ouvir-se aqui.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Confissões de um Convertido

Casey Chalk
Este ano teceram-se várias considerações sobre os 500 anos da Reforma. Para mim, 2017 foi também um ano de comemoração pessoal: faz sete anos desde que regressei ao Catolicismo. Uma noite de conversa com um padre dominicano transformou-se numa vontade impulsiva para me confessar (não o fazia desde os sete anos). Mas se a recordação da Reforma tem sido razão tanto para introspecção e luto, o aniversário do meu regresso a Roma também. “Perda e Ganhos”, o título de um romance filosófico do Cardeal John Henry Newman, sobre a conversão de um aluno em Oxford ao Catolicismo, descreve bem aquilo que senti.

A vasta maioria dos testemunhos de conversão ao Catolicismo focam tudo o que se ganha ao entrar na Igreja fundada por Jesus. Isso é bom, a Igreja não é apenas algo que Ele estabeleceu há milénios, é onde Ele continua a residir. Mais, sendo verdadeiramente universal, engloba tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Em todo o caso pode ser útil para potenciais convertidos, bem como para aqueles que os irão encontrar, descrever também aquilo que se perde.

Comunidade: Eu fazia parte de uma pequena e conservadora comunidade cristã alinhada com a Igreja Presbiteriana na América (PCA). A minha congregação da PCA contava com uns 150 fiéis ao domingo. Eu conhecia praticamente todas as famílias e elas conheciam-me. Conversávamos depois do serviço, às vezes durante horas. Tinha visitado as casas de muitos deles. Quando uma família tinha um bebé era anunciado na igreja e os diáconos asseguravam que não lhes faltava nada, incluindo refeições enquanto se adaptavam. Havia dois serviços compridos ao domingo, estudos bíblicos e vários eventos durante a semana ou fim-de-semana… A nossa vida rodava intimamente à volta de um pequeno grupo de pessoas. Era uma verdadeira bênção, envolvendo abertura aos outros, sacrifício e amor profundo. É difícil esconder as nossas falhas e falhanços numa comunidade destas; quando somos amados apesar de os nossos pecados serem conhecidos, o Evangelho ganha vida.

Em contraste, na minha primeira missa depois de regressar à Igreja não houve qualquer convite para eventos depois da celebração. Nada sobre grupos de jovens ou estudos bíblicos. Ninguém na paróquia sabia que era a minha primeira vez lá. Era anónimo. Aos poucos acabei por descobrir vários grupos sociais católicos, mas a missa de domingo continuou a resumir-se a uma hora por semana sentado sozinho, sem que ninguém me abordasse. A paróquia católica que frequentei durante os primeiros anos após a minha conversão ficava a algumas centenas de metros do quartel dos bombeiros onde a minha congregação presbiteriana se reunia para os serviços. Isolado na minha nova paróquia, senti-me muitas vezes tentado a descer a rua e voltar para lá.

Uma cultura partilhada: Enquanto cristão reformado fazia parte de um mundo pequeno e paroquial. A denominação tinha apenas cerca de 330.000 membros em todos os Estados Unidos, e talvez uns poucos milhões de pessoas no resto do país que se identificariam como “reformados” ou “calvinistas”. Paradoxalmente, isto teve o efeito de aprofundar os nossos laços neste pequeno “gueto” calvinista. Líamos os mesmos livros, cantávamos os mesmos cânticos e falávamos a mesma linguagem. Também partilhávamos uma herança comum com os nossos “santos”, homens em grande medida desconhecidos fora do nosso pequeno mundo, como J. Gresham Machen, Charles Hodge, B.B. Warfield, Robert Lewis Dabney. Orgulhavamo-nos muito desta cultura reformada. Na verdade tínhamos de o fazer. Uma comunidade cristã assim tão pequena precisa de uma grande fonte de riqueza cultural partilhada para conseguir sobreviver.  

Quando deixei o presbiterianismo deixei para trás quase tudo isso. As paróquias católicas não cantavam os cânticos que eu conhecia, não liam os livros que me tinham formado e não estavam interessadas no que o meu pequeno mundo de cristianismo tinha para oferecer. Sejamos claros, eu sabia que a maior parte da minha formação cristã era imprecisa ou incompleta, e que os “santos” reformados eram pouco em comparação com a santidade ou o brilhantismo de um São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales ou Santa Teresa de Lisieux.  

Em muitos aspectos tive de recomeçar tudo do início, aprendendo a cantar a Salve Rainha em latim, desenvolvendo um conhecimento e apreciação das diferentes correntes culturais, litúrgicas e teológicas que existiam na Igreja e encontrando algo no Catolicismo a que poderia chamar meu. Sete anos mais tarde tenho sem dúvida mais orgulho e lealdade para com a Igreja Católica e a maravilhosa diversidade das suas manifestações culturais do que alguma vez tive para com o calvinismo. Mas tive de passar por isso sozinho.

Pessoas: Deixei para trás algumas centenas de presbiterianos com quem já tinha desenvolvido uma relação espiritual profunda. Meses depois da minha conversão uma rapariga calvinista com quem tinha tido um namoro sério – e com quem tinha querido casar – disse-me que se eu regressasse ela concordava em casar comigo. Isso é que é guerra espiritual! Disse que não (depois de algumas noites em branco!). Muitas das minhas outras relações não românticas com ex-correligionários persistem, graças a Deus. Mas tristemente essas relações estão agora incompletas, estamos agora separados pelo facto de não podermos comungar dos elementos mais universais do Cristianismo Católico: A Eucaristia e a união com o episcopado apostólico.

Estas feridas são verdadeiras e são a razão pela qual escrevo estas linhas. Em breve estaremos a celebrar o Natal e já sei o que está no topo da minha lista: a unidade de todos os cristãos, sobretudo estes meus irmãos calvinistas. Quando entrei na Igreja Católica ganhei Cristo e tudo o que Ele tão generosamente ofereceu ao seu corpo místico. Mas perdi a comunhão de alguns dos meus melhores amigos, aqueles por quem rezo, para que um dia se juntem a mim em Roma.

A sua separação (e a de todos os protestantes) é uma verdadeira perda e deve encorajar-nos a todos a ajudá-los a descobrir não só a verdadeira herança apostólica, mas também a fonte e o cume de tudo o que anseiam: comunhão com Cristo na Eucaristia. É aí que encontraremos aquilo pelo qual Ele rezou com tanto fervor em João 17: que sejamos um – uma boa coisa pela qual rezar nesta época de Advento.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 2 de Dezembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Papa ordena Luiz Pinto Costa... No Bangladesh


Não costumo mandar mails ao fim-de-semana, mas não queria deixar de partilhar alguns dos trabalhos relativos à viagem do Papa à Birmânia e ao Bangladesh, e como vou estar fora alguns dias, achei melhor fazê-lo agora. Agradeço a vossa compreensão!

A visita do Papa à Birmânia chegou ao fim com um encontro com os jovens e depois Francisco seguiu para o Bangladesh onde ficou logo claro que a proibição de se dizer “rohingya” já não se aplicava. Mesmo assim, Francisco esperou até ao último dia para pronunciar o termo e aí não só falou dele como se encontrou com membros da comunidade e, admitiu mais tarde, até chorou.

Toda esta viagem foi marcada por marcas da presença dos portugueses. Francisco encontrou-se com os bispos do Bangladesh – incluindo o Costa, o Rozário e o Gomes – e ordenou 16 novos padres, sete dos quais com apelidos portugueses, incluindo o Luís Pinto Costa…

Este tema foi alvo de conversa entre mim e o historiador Miguel Castelo Branco e podem ler a interessantíssima transcrição integral da conversa aqui. Podem também ler a transcrição da conversa com o luso-birmanês James Swe, que diz que não tem cara de português, mas sente-se português.

Hoje começou o Advento. O Papa alertou para a importância da vigilância. Quem quiser ajudas no campo da oração pode recorrer às ferramentas deixadas pelo Apostolado.

Com medo da invasão islâmica? Não stresse… Mas já agora, sabia que há um país na União Europeia onde não só se permite a Sharia como ela é obrigatória para os cidadãos muçulmanos?

"I don't look Portuguese, but I feel Portuguese"

Burmese Catholics at Papal mass
This is a full transcript, in the original English, of my conversation with Mr. James Swe, a Burmese Catholic of Portuguese descent and member of the "Bayingyi" community. Mr. Swe is also author of the book Cannon Soldiers of Burma about the Portuguese presence in the country. The interview was used in two stories which can be read here, and here, in Portuguese.


Most people in the world will never have heard of the Bayingyi. Who are they?
They call the Catholics in Burma Bayingyis. Historians say that Bayingyis came from Frankies, the Europeans were called Frankies during the Crusades by the Arab and Middle Eastern people, and when the Christians came to Asia they were known as the Frankies, and then slowly the Burmese changed the name to Bayingyis. So in Burma right now all these descendants of the Portuguese are called Bayingyis.

And you are a descendant of these people?
Yes. They were here about three or four hundred years ago, and I am one of the descendants of the villages, I came from Chanthaywa, near the first Portuguese settlement in 1613.

All this was close to 500 years ago. What kinship do the Bayingyi feel to Portugal today?
To tell you the truth, they don't understand too much about it. Most of them, the people living in the villages, don't even know where Portugal is. But they are very proud of the fact that they are descended from the Portuguese. The reason is that in Burmese history, the expansion of Burmese influence and power is because of the Portuguese descendants who served the Burmese kings as cannon men and gunners. Because the Burmese were fighting with bows and arrows and knives against their enemies, and when the Portuguese came, with the guns and cannons, they won their wars and expanded all over Asia. That is why they are very proud of it.

In what characteristics can this Portuguese heritage still be seen?
There are very few little signs left. The main thing is the Catholic faith. All of the Catholics are Portuguese descendants. All the churches... Even the first Cardinal we have in Burma right now, Charles Bo, is also one of their descendants. He is also my cousin.

How about clothing, cooking, and vocabulary?
There are very few things left, like vindaloo, making sausages, in most of the villages they know how to make pork sausages, just like the Portuguese had done many hundred years ago. That is how things carry on through the generations. A lot of that continues with the cooking and the religion, some of the traditions.

You can see the features of some of the people, they are quite fair, have blue eyes and green eyes, but there are very few of those left because they have been living in a very hot and remote area for centuries and their skin colour changed a little bit. These are the only traces left right now.

The Bayangyi were considered elite and loyal soldiers. Is there still a military tradition? Are any represented in senior posts in the armed forces at the moment?
The last Catholic general in the Burmese military was general Abel, which was about 20 years ago, but he has retired now. He was the last one to be in a prominent military position.

Is there any contact, recognition or interest on the part of current Portuguese authorities in relation to the descendants of the Portuguese in Burma?
The first contact I had with them was with the previous Portuguese ambassador to Burma. His name was Mr. Luís de Sousa. He was very interested, because when he saw my book he read it and he invited me to his residence in Thailand, my wife and I went there, and we discussed many things. Then he went to the villages and he visited with his family and showed his children, saying these people had lived in these remote areas for the last 400 years, so they were very touched.

That was the first contact the villages had with the Portuguese Government or representatives. But now this new ambassador, Mr. Francisco, he is also very interested. I told him last time to come and visit, during the Pope's trip to Burma, but I think he is busy right now, he is looking after three countries as Portuguese ambassador to Thailand, to Burma and to Vietnam, I believe. So he has to go on rotating the countries. So he is busy, but he said if he has the chance he would come down to Burma some time.

This is the first contact the Portuguese villages had with the Portuguese government.

Have you ever even been to Portugal?
I was there about four times, because when I was writing my book I went there quite a few times to do research. There is a lady called Ana Guedes, who stayed in Burma for a long time doing her own research. So I went there to contact her as well.

What was it like for you?
For me, the first feeling I had when I arrived in Portugal was that we were being reunited to Portugal. After 400 years, even though my forefathers from 400 years ago never new if they would get back to Portugal, but after 400 years I, as their spiritual heir, arrived back in Portugal. That is how I felt it. Even though I don't look like a Portuguese person, I feel like it, like I was back home.

Would you say that for most of your people this kinship has less to do with geography, and is of a more spiritual nature?
A lot of things yes. Spiritual things like the Catholic religion are deeply embedded in our culture. All these villages are very firm Catholics, very conservative Catholics, so that is a very strong position, we carry on as Portuguese descendants. It is a very important thing.

What do your people expect from the Pope’s visit?

They are very excited. It is almost like a miracle for them. Most of the people cannot afford to go to Rome, and the Pope is going to meet them, and they are very anxious to meet the Pope. They will see him from a very far distance, but they are really excited. They are talking about between two and three hundred thousand, minimum, people showing up there. All these villages are planning to come, with busses and trains and planes right now.

As Christians, you are a minority in Burma. Currently another minority, the Rohyngia, have been in the news, with accusations of genocide levelled at the Armed Forces. What is your opinion on what is going on there?
Rohingyas is just a name that they created. Some of them have been in Burma for a long time, some of them since the Portuguese were there, but they are not Rohingya, they are Bengalis, the people from Bangladesh.

When their population grew to fast they started having problems with the Budhists. Budhists are also very conservative people, there was a clash between the Budhists and Muslims in that area.

For us, as Christians, we don't want to get too involved, complaining to any sides. That is why our Cardinal Charles Bo asked the Pope not to use the word Rohingya, because Rohingya is not recognised in Burma as a race, or ethnicity. We have so many ethnic groups in Burma, they don't want to create another one.

But we always try to help them, even the Church is helping them to resettle. We Christians always try to be neutral in these religious and cultural conflicts.

Is there a history of intolerance and conflict between the Budhist majority and the Christians, for example?
During the military government, around 50 or 60 years ago, they nationalised about 32 schools and six hospitals which were run by the Catholic Church. The Government took them over and never returned them. Also, during that time the Churches were not allowed to rebuild or even be maintained, we couldn't even paint them. Only now, with this new government, since 2011 did they allow us to remodel and repaint the churches. It was very hard before, but now it is more relaxed with regard to the churches. 


Further reading


"Católicos na Birmânia e no Bangladesh sentem-se (legitimamente) portugueses"

Aqui podem ler a transcrição integral da minha conversa com o historiador Miguel Castelo Branco, a propósito da importância da presença portuguesa na Birmânia e no Bangladesh. Esta entrevista serviu de base para três reportagens, que podem ser lidas aqui, aqui e aqui.

O Papa viaja nos próximos dias para a Birmânia e para o Bangladesh. São dois destinos em que o catolicismo está muito ligado a Portugal…
O primeiro contacto que tiveram com o Ocidente foi com portugueses, muito embora alguns digam que por lá, ocasionalmente pudesse ter chegado algum mercador genovês ou veneziano. Mas a presença impressiva, que deixou sulco e que ainda deixa sulco por todas as comunidades católicas – atrever-me-ia mesmo a dizer do Cabo ao Japão – foram profundamente inspiradas pela matriz do Catolicismo português, porque há estruturas sociais, mentais e de valores que extravasam o campo estritamente religioso e que têm uma marca profunda de Portugal.

No caso da Birmânia desde meados do Século XVI foram chegando portugueses, não propriamente portugueses organizados, porque não eram funcionários ou servidores do Estado da Índia, e que se fizeram no actual Myanmar como soldados.

Mas há aqui uma série de outras questões engraçadas, que dariam um filme por exemplo, dos aventureiros mercenários portugueses, dois dos quais até se transformaram em reis locais.

Há o caso do Sebastião Tibau, que é um rapaz novo, de 20 anos, que chega à Índia, deserta imediatamente e põe-se ao serviço do Rei do Arracão, que é esta região onde há actualmente este problema dos Rohingyas, chama-se Rakhine. E ele transforma-se lentamente num rei pirata de uma ilha que fica no Golfo de Bengala, em frente ao Bangladesh, onde termina o Bangladesh começa Myanmar.

Ele foi rei de Sundiva, depois é claro que com tantas traições e mudanças de campo acabou por ser destruído pelos birmaneses.  E depois há o famosíssimo Rei do Sirião, ou rei do Pegú, que é um Filipe Brito de Nicote, no primeiro quartel do século XVII, e que era também um mercenário, que ganhou tanto relevo que acabou por ser investido como Senhor do Sirião. Sirião fica no Pegú, o extremo sul da Tailândia, perto do mar de Andaman. Mas a partir do momento em que extravasou a sua lealdade para com o Rei do Arracão...

Tudo isto no que é actualmente a Birmânia?
A Birmânia antigamente, assim de forma muito simplista, eram dois reinos. O Arracão, actualmente o Rakhine – aquele Estado onde está em curso aquele problema dos rohingyas – e o norte, a Birmânia interior, que era o Reino de Ava.

Filipe Brito de Nicote servia o Arracão, mas a partir do momento em que excedeu em liberdade em autonomia, foi eliminado. Temos aqui dois casos de soldados práticos que não têm nada a ver com o Estado da Índia nem com as relações diplomáticas, informais, entre Portugal e a Birmânia.

Esses são dois casos isolados e curiosos. Mas há depois uma presença mais organizada que acaba por ter uma grande influência na história da Birmânia...
Onde há portugueses à solta – que era o nome que se lhes dava – geravam espontaneamente comunidades ditas portuguesas. Casavam com mulheres locais e os filhos recebiam educação portuguesa, o que quer dizer a religião dos portugueses, católica. E por conseguinte, ao fim de 20 ou 30 anos geravam-se os chamados bandéis, que são povoados inteiramente ocupados por esta população mista, neste caso luso-birmanesa, como na actual Tailândia, luso-siamesa e por todo o lado assim aconteceu.
Eram comunidades que desabrochavam espontaneamente e que eram especializadas, isto é, estas comunidades tinham uma função no quadro das monarquias locais. Eram soldados, eram intérpretes (não nos esqueçamos que o português era a língua franca internacional. Até ao Século XIX os ingleses, holandeses e franceses, tinham de aprender português para poderem negociar nessa região, uma região vasta, que vai praticamente até Timor. O inglês é uma coisa muito recente), eram bons agentes diplomáticos para receber europeus, porque dominavam o processo de negociação e conheciam as manhas dos ocidentais, e eram também fundidores.

Até ao século XIX, no caso da Birmânia, estas comunidades, que eram numerosas, tinham um estatuto muito privilegiado e eram muito protegidas pelas monarquias budistas – como é o caso da Tailândia e da Birmânia – que são aliadas dos portugueses, mas no sentido em que há forças que são intermediárias entre Portugal e essas monarquias e essas forças locais, sociais, são estas comunidades católicas.

Claro que com o aumento da expressão demográfica destas minorias católicas portuguesas, porque era assim que eram tratados – a religião dos portugueses era o Catolicismo, logo o Catolicismo só era próprio dos portugueses – eles tiveram de pedir assistência religiosa e assim várias ordens religiosas, nomeadamente os jesuítas, os agostinhos, os franciscanos enviaram missionários e criaram-se missões.

Ainda há quem recorde a presença dos portugueses naquele país? O que é que lá ficou?
Ainda há uma comunidade compacta. Eles foram distribuídos pelo território, por vários motivos históricos.

A França e a Alemanha daquela região são respectivamente a Birmânia e a Tailândia, e estavam em constantes guerras. Como havia portugueses de um e de outro lado, ao serviço das monarquias, o princípio não era matá-los, era capturá-los, porque nas guerras asiáticas desse tempo a lógica não era exterminar o inimigo, era aprisionar o inimigo, porque havia uma falta crónica de mão-de-obra e de gente e sabiam que estes arcabuzeiros, estes atiradores portugueses eram muito bons, pelo que tentavam capturá-los e cobriam-nos de regalias.

Estando de um lado ou de outro, sendo capturado por um lado ou por outro, sabiam que não seriam mal-tratados.

Actualmente ainda há vestígios razoavelmente importantes. Quem leu as “Burmese Days”, de Orwell, encontra esta figura do português, aquilo a que os ingleses chamavam desdenhosamente “Black Portuguese”, com o seu racismo, porque de facto essas populações foram hostilizadas sobretudo pelas potências coloniais, não foram pelos estados independentes que subsistiram até ao século XIX. No caso da Tailândia felizmente nunca foi colonizada até ao Século XX.

Actualmente estes descendentes vivem alguns em Rangum, que foi até há pouco a capital do Myanmar, mudou para Naipindau, e no Norte. Eles foram acompanhando a monarquia Birmanesa no seu recuo para o interior. Sobretudo no Século XIX quando os ingleses chegaram para invadir pela primeira vez a Birmânia – a Birmânia era um grande Estado, foi agredida três vezes militarmente pelos ingleses até desaparecer, três guerras sucessivas no século XIX – a população católica acompanhou os seus reis, os seus reis budistas, até Mandalay. No Norte do país, perto do Rio Mo, há ainda uma numerosa população portuguesa, com os seus padres católicos, descendentes de portugueses.

Ainda há um ano na Faculdade de Direito, a Nova Portugalidade organizou uma conferência que teve por convidado Sua Alteza Real o Sr. D. Duarte, e ele falou sobre as comunidades e as cristandades portuguesas no Oriente e lembrou que todos os bispos da região têm ascendência portuguesa, o que de facto mostra que são comunidades que mantiveram a sua lealdade e a sua lealdade é tripla: É uma lealdade nacional, porque eles são bons patriotas e bons cidadãos dos países onde nasceram; uma lealdade à sua religião, são católicos, e uma lealdade emocional a Portugal, coisa que certamente nas Necessidades ninguém se lembrará.

São comunidades extremamente importantes e continuam a ser, sobretudo na Tailândia, onde ocupam funções de grande relevo no serviço público.

Neste momento há uma crise humanitária com os Rohingya... Quais são as raízes históricas do que se está a passar aí?
Creio que há uma grande parcialidade, para não dizer uma grande manipulação, em relação á questão dos refugiados rohingyas. Para o Governo birmanês eles não são birmaneses, isto é, não são cidadãos do Myanmar. Chamam-lhes bengalis, porque vieram do Golfo de Bengal.

Acontece que a questão é antiga e é recente. É antiga porque de facto há referências esparsas, de viajantes ingleses, sobretudo, à existências desses rohingyas já no século XVIII. Como era prática no quadro do império, o Raj britânico, havia mudanças de população. Os ingleses levaram para a Malásia milhares, que agora são milhões, de chineses, como levaram para o Uganda indianos, como levaram chineses também para a actual Singapura e levaram estes bengalis para o ocidente de Myanmar, para este Estado de Rakhine.

O que acontece é que durante a Segunda Guerra Mundial a Birmânia tornou-se independente. Teve um Governo fabricado pelos japoneses para demonstrar que o Japão estava na dianteira do processo de luta contra o imperialismo ocidental. Os birmaneses aceitaram naturalmente essa graça da independência e foram fiéis aliados dos japoneses. Quando voltaram os ingleses em 45 já estavam com problemas na Índia, iniciaram o processo de independência da Índia e depois da Birmânia. E ao saírem entregaram todas as armas que tinham aos muçulmanos, ditos rohingyas, que agora estão no centro dos noticiários.

Acontece que entre 1948, data da independência da Birmânia, e os anos 60, estes muçulmanos desenvolveram uma guerra de guerrilha intensíssima que foi, finalmente, vencida pelo Exército birmanês.

Agora, uma coisa que as pessoas não sabem é porque é que o Governo do Bangladesh e o Governo da Índia hostilizam de uma forma tão notória os chamados rohingyas. Porquê? Porque o braço armado da chamada resistência rohingya é o nome local para a Al-Qaeda.

Os rohingyas não são só alvo de perseguição, têm morrido milhares de budistas, impalados, queimados vivos, com templos destruídos, pelo chamado exército de defesa rohingya. Portanto os rohingya armados são outro nome para a Al-Qaeda.

Não devemos de uma forma tão afirmativa separar os bons dos maus, porque aqui há de facto um problema grave. Há um problema de populações, um problema de sofrimento humano, mas parece-me que, ao contrário do que se diz, a senhora Aung San Su Kyi tem tentado de uma forma razoavelmente cordata – no pressuposto de que Estado algum aceita uma secessão de uma parte do seu território. Se acontecesse connosco no Algarve ou nos Açores, ou com os espanhóis na Catalunha, a posição do Estado é mais dura – mas não me parece que da parte dela e da parte da grande maioria da população, e sobretudo dos agentes políticos birmaneses, haja qualquer expressão de ódio em relação aos muçulmanos.

Não está em curso uma guerra religiosa, ao contrário do que muitas pessoas julgam. A situação não é tão clara como parece e há, no caso dos rohingyas, um fantasma, um espectro oculto, que é a Al-Qaeda, que também está em Mindanao nas Filipinas, que está no Sul da Tailândia, portanto a questão não é tão linear como alguns pretendem fazer crer.

Independentemente disso, que dá contexto, as imagens que vimos dos refugiados, das tragédias, da limpeza étnica...
Eu não sei se será limpeza étnica, mas há de facto um nível de violência inaceitável.

Mas conviria estudar e saber in loco, porque ao contrário do que o senso comum, que muitas vezes tem um peso imenso, pretende fazer crer, os especialistas na matéria birmanesa tomam todos partido pelo Governo da Birmânia. Estou a falar de grandes autoridades, historiadores, sociólogos e antropólogos e etnólogos, que conhecem profundamente Rakhine, que é o estado onde estão a acontecer estes problemas, e todos eles tomam partido.

Eu creio que tal como aconteceu na Síria, seria conveniente saber quem é quem e saber quem é que faz o quê. Ainda me lembro que há quatro ou cinco anos era impossível falar na Síria sem ter de despejar uma torrente de impropérios sobre o Governo de Bashar al-Assad, quando para nós, católicos e cristãos, era a entidade que estava a defender as cristandades existentes na Síria. Portanto eu creio que é necessário muitas vezes tentar perceber um pouco e ouvir as autoridades certas e no caso da Birmânia aquilo que me parece é que houve um grande exagero, como há estas explosões emocionais, que são próprias, mas que não são esclarecedoras. E depois é necessário dar voz, e ouvir as pessoas que conhecem, sobretudo ocidentais, sem parcialidade e sem cegueiras, para que possam dizer-nos exactamente o que é que está a acontecer.

Temos depois o Bangladesh onde, segundo o embaixador em Lisboa, ainda existem 1.500 palavras portuguesas no vocabulário e o principal bispo tem o apelido D’Rozário… Fica surpreendido ao saber estas coisas?
Há uma grande comunidade, aliás, Calcutá, que foi – creio que ainda será – a maior cidade indiana, onde os ingleses se fixaram depois no Século XVII para XVIII, foi criada pelos portugueses. De Calcutá para Leste, ali na foz do Bramaputra, constituíram esses tais bandéis, esses tais acampamentos dos portugueses. A maior cidade portuária, que é agora especialista mundial em desfazer navios, que é Chitacong, foi criada pelos portugueses. E o Bangladesh tem esta curiosidade, tem de facto uma minoria católica forte, muito resistente até à pressão islâmica, o que é um caso notável de sobrevivência. Mas essa presença portuguesa está lá desde o século XVI, também.

Temos alguns piratas e que desenvolvem uma actividade importante, porque escoam os produtos dessas regiões, portanto tornaram-se úteis, ao contrário do que diz alguma historiografia anglo-saxónica, não são parasitas, pelo contrário, são agentes de reprodução de riqueza, dai serem tão estimados.

A India durante 400 anos foi governada pelo chamado Império o Grão Moghol. O Grão Moghol hostilizava os cristãos, mas protegia os portugueses, porque sabia que tinham esta faculdade, eram agentes importantes dinamizadores do comércio e da riqueza. No caso do Bangladesh, um país que se inunda com facilidade, os portugueses penetraram ligeiramente no interior.

Os portugueses não foram os únicos europeus a ter interesses, comércio e a deixar um legado na Ásia. Mas este fenómeno de orgulho nas raízes portuguesas que vemos na Birmânia, na Tailândia, etc. acontece também com ingleses, holandeses, franceses?
No caso holandês e inglês não, decididamente, porque a própria expressão da sua presença e até a sua própria ideologia é marcada por uma profunda desconfiança em relação àquilo. O Grócio dizia que os portugueses eram uma raça decaída, um povo caído, porque se misturavam com os animais. Isto mostra um bocadinho o tipo de atitude holandês e inglês em relação aos povos de pele escura.

No caso dos franceses é tardia, porque a França tem sobretudo uma presença na Índia em Puducherri, a mestiçagem é muito pequena, e depois a França só volta de facto a ter algum impacto no sudeste asiático a partir da década de 60 da década XIX.

No caso português é diferente. As populações católicas que se orgulham das suas raízes portuguesas são imensas. E até têm a faculdade de resgatar do isolamento e da sua condição social marginal os mestiços feitos pelos ingleses e pelos holandeses. Todos eles quer em Batávia, actual Jacarta, quer no actual Ceilão, muitos dos descendentes de marinheiros e soldados holandeses quiseram ficar portugueses e tomaram nomes portugueses, não querem nada com essa memória e com essa ancestralidade cultural holandesa.

Aliás, as marcas são muito pequenas. Eu falo tailandês, estive vários anos na Tailândia, e não há semana que não encontre uma expressão portuguesa já muito corrompida. Perguntaria quantos termos holandeses terão ficado na actual Indonésia.

E o caso inglês e holandês, são casos de companhias, são companhias de accionistas. O império, de jure, inglês na Ásia é do Século XIX. Antes eram iniciativas de uma empresa, de uma companhia, que se chamava Companhia das Índias Orientais. O mesmo acontecia com os holandeses.

A presença portuguesa é efectiva e desenvolve-se em vectores profundíssimos, não é só uma presença de estado, económica e comercial. É uma presença religiosa, cultural e de populações que passam a ser portuguesas, dentro e fora dos limites do próprio império português. Isto é um caso único daí que para muitos ocidentais se consegue demonstrar que há actualmente – isto pode parecer um pouco exagerado – um império. Já lhe chamaram império informal ou império invisível, mas há um império invisível português na Ásia que tem a ver com todas estas comunidades católicas, que continuam vivas, algumas com alguma influência, e que Portugal infelizmente não acompanha, porque são vectores poderosíssimos de relacionamento com os estados onde prosperam estas comunidades.

Hoje em dia temos comunidades em vários pontos da Ásia que reivindicam ser descendentes dos portugueses. O Governo português faz alguma coisa para cultivar estes laços? Que mais poderia ou deveria ser feito?
Poderia fazer muito, creio que deveria. Da mesma forma que a Assembleia da República, há cerca de um ano, aprovou a concessão da nacionalidade portuguesa a sefarditas que façam testemunho e prova da sua ancestralidade portuguesa – é claro que não poderíamos fazê-lo de uma forma despreocupada – mas julgo que se deveria estudar, devia-se conhecer e de uma forma, mesmo que fosse simbólica, restituir parte da cidadania portuguesa.

Até ao século XIX a cidadania antiga portuguesa era para todo aquele que fosse católico, vivesse ou não em domínio português e que fosse leal, de uma certa forma, ao Rei de Portugal que era o responsável pelo padroado português no Oriente. Todos eles se consideravam portugueses. Subitamente há uma revolução em 1820, fazem uma Constituição escrita a dizer que são portugueses os cidadãos nascidos em Portugal... Essa gente sofre desde então uma certa orfandade, porque eles consideram-se, e legitimamente, na sua perspectiva, portugueses.

Portanto caberia ao Estado português tentar encontrar uma fórmula e sobretudo investir um bocadinho mais. Creio que a Igreja portuguesa poderia ser neste caso apoiada, e todas as organizações católicas, que enviam tantos jovens para África, poderiam ajudar. Há pouco tempo uma Cátia Ferreira esteve em Malaca, professora de português, e tinha centenas de miúdos a querer aprender português.

O Governo português poderia enviar – e isto custaria menos que um dos milhares de bolsas da FCT – uns 20 professores primários, professores de português básico, para o Bangladesh, para as nossas comunidades portugueses no Myanmar, para os bairros católicos de Banguecoque, para tanto lado onde há uma fome imensa de aprendizagem da língua portuguesa, porque eles consideram-se portugueses. São portugueses, mas não têm cidadania, não são ouvidos, nem se quer, julgo eu, para nosso mal, haverá muitas pessoas nas Necessidades que tenham sequer a percepção de que este problema existe. 

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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Buda, São Francisco de Assis e Donald Trump

Católicos de diferentes regiões na missa com o Papa Francisco
O Papa Francisco continua a sua viagem pela Birmânia e esta manhã teve o primeiro verdadeiro encontro com o povo católico, vendo uma Igreja viva que nos últimos anos tem multiplicado o número de padres, freiras e até dioceses.

Depois o Papa encontrou-se com líderes budistas, traçando uma comparação entre Buda e São Francisco de Assis. No respectivo artigo pode encontrar ainda alguma contextualização sobre a politização do budismo naquele país.

Em Portugal, a diocese de Bragança-Miranda quer despertar a consciência das pessoas para a deficiência.

Nos EUA Donald Trump achou que seria boa ideia publicar vídeos partilhados por elementos da extrema direita inglesa que mostram actos de violência alegadamente praticados por muçulmanos.

E já que falamos de Trump, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português David Warren pega no famoso slogan do Presidente americano, adapta-o e pergunta se não seria preferível “Make America Christian Again”?

Make America Christian Again

David Warren
O erro é um grande dissipador de tempo e de energia. Quem o disse foi Goethe, numa carta que escreveu a alguém, mas poderia ter sido outra pessoa qualquer, em qualquer outro lado. Sim, Goethe diz que num mundo em que o erro se repete de forma incessante, a verdade deve ser repetida frequentemente.

Recordei-me desta máxima devido ao meu péssimo hábito de ler as notícias – outra actividade que dissipa tempo e energia. As notícias confundem-nos. Certamente não é preciso dar exemplos.

Há tolos santos, embora actualmente sejam difíceis de encontrar; há tolos triviais; e depois há tolos maliciosos. Estes útimos são grandes dissipadores, não só deles mesmos. Faríamos bem em ignorá-los totalmente, mas o problema é que tendem a ser ambiciosos. É preciso tempo e energia para os travar.

Na América de hoje (enquanto Canadiano incluo-me neste continente), parece que o erro está consagrado na Constituiçao. Está expresso como separação entre Igreja e Estado. Isso significa uma coisa para os seus autores, que eram cristãos, e outra para os seus descendentes pagãos.

Ao excluir da vida pública os próprios princípios sobre os quais se fundou a sociedade americana, o erro fica com uma espécie de monopólio, para ser imposto por um sem número de departamentos de Estado.

Aqui neste “espaço seguro” somos maioritariamente católicos, e os pais fundadores (pré e pós-revolução) eram maioritariamente protestantes, mas as verdades fundamentais a que se referiam atravessavam fronteiras confessionais.

A Virgínia, o Massachusetts e o Québec eram regiões bem distintas, tanto em termos eclesiais como gerais, mas para um observador da China seriam bastante semelhantes. A noção do homem num mundo decaído, nascido escravo do pecado e a precisar de redenção, era comum a todas as facções. Daqui seguiam muitas particularidades.

Entre os poucos filmes que já vi inclui-se “Nashville”, realizado pelo falecido Robert Altman, para o bicentenário dos Estados Unidos. Entre os seus enredos inclui-se a odisseia de uma jornalista pretensiosa da BBC (desempenhada por Geraldine Chaplin), em busca da “verdadeira América”, mas constantemente a enganar-se.

Num certo domingo de manhã ela encontra-se num gigantesco parque de estacionamento, cheio de autocarros escolares amarelos. Encontra nestes monstros metálicos um grande simbolismo.

Mas depois a câmara mostra-nos várias igrejas – baptistas, metodistas, episcopalianas, etc. – em que se encontram os vários protagonistas cómicos do filme. Todos estão a cantar, a rezar e a ouvir homilias. Aí vemos a “verdadeira América” que a menina bem de Inglaterra não tinha conseguido ver.

Refiro o filme apenas porque é tão recente; afinal de contas, 1976 não foi assim há tanto tempo. Eu lembro-me da data e estou na casa dos 60. Lembro-me que quando estava a crescer em Ontário o que era normal era ir à Igreja. Eu não fui criado por cristãos praticantes, mas percebia que isso é que era fora do comum.

De certa forma os meus pais eram liberais à moda antiga, anticlericais por disposição e a minha mãe, na verdade, era conscientemente ateia, mas penso que nunca lhes passou pela cabeça sugerir que a cultura religiosa do continente inteiro tinha de ser destruída. Até dizia que “os crentes são mais bem-comportados”.

Isso porque dão por adquiridas coisas sobre as quais os outros precisam de reflectir – com todos os erros que se seguem naturalmente quando alguém precisa de reinventar a moralidade a partir do zero. Os crentes tinham noções básicas do bem e do mal, implantadas desde pouco depois do nascimento. Até as crianças de lares sem fé absorviam estes valores da sociedade em geral.

Sim, a maioria dos crentes era hipócrita; e também eram ateus, na prática, naqueles momentos em que se esqueciam que Deus nos observa. Esta não é uma particularidade dos cristãos, mas da condição humana: encontramo-nos frequentemente no erro.

E é por isso que Goethe – também ele um liberal à antiga – diz que devemos regressar à verdade, como quem desperta do sono, sentindo-se refrescado. Domingo, “todo o santo Domingo”, era o nosso toque de despertar.

Não sou um daqueles parvos ingénuos que pensa que a América simplesmente pensou duas vezes e concluiu, de forma democrática, que a religião era inconveniente e dispensável. Deu muito trabalho minar a religião, resultado de uma “longa marcha pelas instituições” dos progressistas. Foi preciso muita capitulação das nossas figuras de autoridade.

E como todos sabem – e como todos os progressistas gostam de proclamar – a história não anda para trás. Não há nada na antiga América que se vá reedificar espontaneamente. Não foi sozinha que se edificou, foi resultado do trabalho e da aspiração humana, com raízes muito anteriores à sua própria descoberta e povoação.

Muita coisa foi destruída no espaço de duas gerações. Não estamos perante uma transição geracional, mas civilizacional. Quando abandonamos o Cristianismo, o nosso passado cristão torna-se incompreensível para nós. Os nossos antepassados tornam-se impossivelmente estranhos. A sua prática religiosa torna-se um factor de alienação. Os cristãos sobreviventes tornam-se uma seita exótica minoritária que precisa de ser cuidadosamente regulada e vigiada pelo Governo.

O slogan “Make America Great Again” pode ter resultado durante a última eleição presidencial, mas são palavras vazias. Partem do princípio que houve uma América que em tempos foi grande. Talvez tenha havido, mas esta já não é a América. “Já não estamos no Kansas”

Mesmo o conceito de grandiosidade é vazio se não puder ser especificado. Estamos a falar de grandeza geográfica? Mas isso já somos. Económica? Mas já produzimos bens de gosto duvidoso em quantidades sem precedentes. Ou estaremos a falar de um conceito de virtude e de nobreza?

Claro que é isso, apesar da confusão. Mas sem um conceito claro do que é nobre e virtuoso continuamos desorientados. E estas coisas não virão do nada.

E é por isso que proponho um slogan alternativo, “Make America Christian Again”. E já que a história não anda para trás, concentremo-nos em fazê-la católica, desta vez. Caso contrário estaremos a dissipar tempo e energia. 


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 24 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Gémeos guerreiros e israelitas perdidos na Birmânia

Fumadores, líderes do Exército de Deus, amigos do Rambo
O Papa continua na Birmânia e hoje viajou para a capital onde discursou juntamente com a primeira-ministra Aung Suu Kyi. Francisco não referiu os rohingya, embora Kyi tenha falado especificamente daquele conflito sem dizer a “palavra proibida”.

É inegável que o conflito que afecta os rohingya é uma tragédia, mas esta situação tem mais que se lhe diga. Conheça as raízes do problema, que envolve grupos militantes de inspiração jihadista.

Mas os rohingya não são os únicos com queixas sobre o regime birmanês. Há mais de uma dúzia de grupos étnicos ou políticos armados. Conheça os gémeos baptistas que aos 9 anos lideravam o “Exército de Deus” e a insurreição da tribo perdida de Israel…

Entretanto o Governo anunciou a realização de uma conferência para as minorias étnicas. Efeito Francisco?

Antes de se encontrar com as autoridades, o Papa Francisco esteve com líderes religiosos, a quem disse também que unidade não é necessariamente uniformidade.

E o santuário de Fátima anunciou um novo ciclo de anos temáticos para os próximos três anos. O tema será “Graça e Misericórdia”.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Católicos portugueses na Birmânia e padres que não existem

O Papa Francisco chegou esta segunda-feira à Birmânia e já se encontrou com o responsável das Forças Armadas que – aqui entre nós – é quem manda verdadeiramente no país.

Francisco vai ser calorosamente acolhido pelos católicos birmaneses que são todos, sim todos, descendentes de portugueses. Nesta reportagem, que me deu muito gozo fazer, pode ver imagens de alguns destes luso-birmaneses e ler o testemunho de um deles que, quando visitou Portugal a primeira vez, diz que se sentiu em casa.

Lembram-se da “correcção filial” que um grupo de padres e de teólogos simpaticamente fez chegar ao Papa, acusando-o de propagar heresias? Pois esse documento tinha um único signatário português. Fomos à procura dele… O resultado foi bastante surpreendente.


E temos ainda a notícia terrível do pior ataque terrorista dos últimos anos no Egipto. Desta vez não foram os coptas, foram os muçulmanos sufis que foram massacrados. O Papa rezou pelas vítimas e os cristãos do Egipto tocaram os sinos de todas as igrejas em solidariedade.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre duastendências preocupantes. Primeiro, a recusa em discutir criticamente a relação entre o Islão e a violência e, segundo, a recusa em aceitar vozes dissonantes do politicamente correcto nas universidades americanas. Há-de cá chegar…

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Jihad em Stanford, Georgetown e Além

Matthew Hanley
É mais difícil ser aceite em Stanford do que em qualquer outra universidade americana, apenas 5% dos candidatos o conseguem. Mas recentemente Stanford achou por bem admitir uma pessoa que usou o espaço concedido para o ensaio de candidatura – em resposta à questão “o que é importante para si, e porquê?” – para escrever 100 vezes “#BlackLivesMatter”. Imaginem como se devem sentir os candidatos merecedores que ficaram de fora.

Acontece que este candidato tinha estagiado com a Hillary Clinton (obviamente); acontece também que é muçulmano. Mas nenhuma das reportagens nos media se preocupou em saber como ele reconcilia a sua evidente preocupação por vidas de negros com o facto de ainda haver escravatura de negros em partes de África, às mãos de muçulmanos. Mais ninguém o faz, em mais parte nenhuma. Não é uma imagem bonita.

Estará este aluno de Stanford a repudiar o exemplo de Maomé, que detinha escravos e aprovou pessoalmente incursões para a captura de escravos? Estará? Podemos achar que tudo isto é uma vergonha, e deixar por aí. Mas há mais a dizer sobre o facto de ser mais fácil entrar em Stanford do que abordar factos desconfortáveis sobre o Islão naquela universidade. Perguntem ao Robert Spencer.

Um grupo de alunos convidou-o para ir à Universidade falar dos seus estudos meticulosos sobre as fontes islâmicas que justificam e até ordenam a jihad. O resultado foi uma indignação generalizada, pedidos para que o evento fosse cancelado e um apelo ao boicote. Embora ele saiba mais sobre o assunto do que a maioria dos imãs, os alunos agitados apelidaram-no de “ininteligível”, “não académico” e “lixo”. Os administradores lamentaram o seu alegado historial de incitação ao ódio.

Será que Stanford desencoraja a tomada de posição contra coisas hediondas como o assassinato em nome da jihad, escravatura, as muitas indignidades que a sharia reserva para as mulheres, etc., quando estas se encontram embebidas de tal forma numa religião? Será esta religião tão merecedora de adulação acrítica que estes aspectos devem ser ignorados?

Stanford não imitou a postura de Berkeley, cancelando o evento ou recorrendo à brutalidade para evitar que uma voz curiosamente pouco bem-vinda fosse ouvida. Em vez disso desenvolveram um plano mais subtil – e com semanas de antecipação – para alcançar o mesmo fim.

Pouco depois de a sua conferência ter começado, ouviu-se por breves e tensos segundos um canto islâmico, aparentemente vindo do telefone de alguém. Na verdade, a quantidade de pessoas que estavam a olhar para os seus telefones era estranha, tendo em conta que a sala estava tão cheia que muitas pessoas viram negado o acesso. Alguns minutos mais tarde a maioria da assistência levantou-se e abandonou a sala num uníssono coreografado – ao som do canto agressivo e supremacista a berrar dos telemóveis: Allahu Akbar sem a violência. Aqueles a quem tinha sido recusada a entrada por falta de espaço viram então negada a oportunidade de ocupar os lugares deixados vagos.

Spencer tinha acabado de relatar um facto objectivo que devia ser bem-vindo em qualquer local de ensino superior: que de acordo com a maior autoridade de jurisprudência sunita – a Universidade al-Azhar, no Cairo – um factor chave da jihad é que o sangue e as posses de alguém apenas estão seguros se aceitar o domínio do Islão; ninguém fora dele é merecedor de protecção. Isto poderia ser descrito como uma legitimação religiosa precisamente de uma forma de “discurso de ódio” fortemente enraizado que os alunos pensavam que estavam a denunciar ao abandonar a sala.

Robert Spencer
Spencer acredita que os administradores da Universidade sancionaram a perturbação que, seja como for, tem todas as marcas do fascismo; pode parecer um termo muito forte, mas ao montar, primeiro, uma campanha contra ele e depois evitar que outros fossem expostos às suas ideias, Stanford merece a caracterização.

Foi dito que a mera presença do orador gerava um sentimento de insegurança entre os muçulmanos – porém o único a precisar de um contingente de segurança foi o próprio Spencer. Ele sempre disse que os seus críticos se rebaixam ao nível de ataques pessoais porque não conseguem prevalecer no debate de factos e de ideias. O abandono do auditório em Stanford comprova-o, tal como aqueles que cometeram actos de violência em reacção ao discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, em que comentou criticamente as tendências violentas no Islão, o comprovaram.

Ao não permitir que a jihad seja analisada segundo os seus próprios critérios, Stanford escolheu legitimá-la. Aparentemente, figuras islâmicas que repetem, com aprovação, textos islâmicos que apelam, por exemplo, ao extermínio de judeus, devem ser aceites sem questionar. Só o denunciar desta realidade é que é problemático, o pecado secular da “islamofobia” (um termo forjado pelos sauditas).

As empresas também contribuem para este clima de conformismo. Bem perto de Stanford, os dirigentes da PayPal impediram o site de Spencer de usar os seus serviços, privando-o assim de uma fonte de financiamento. Era precisamente isso que queria o Southern Poverty Law Center (SPLC), especializado em classificar como “grupos de ódio” as organizações de que não gosta. Eles limitam-se a declarar que o grupo de Spencer é um grupo de ódio e os media cumprem o seu dever de o papaguear, não obstante a natureza claramente tendenciosa do SPLC.  

Mas Stanford está longe de estar sozinha. A Universidade Católica de Georgetown organiza iniciativas financiadas pelos sauditas, pensadas para promover uma visão positiva do Islão. Os aspectos ameaçadores são, ao que parece, uma preocupação marginal. Mas o que alguns consideram marginal pode ter graves consequências: Perguntem a Nova Iorque, Londres, Paris, Bruxelas, Nice, Madrid, Barcelona, Berlim, até a Escandinávia.

Igualmente arriscado é sugerir que a postura “marginal” de Spencer está em desacordo com a posição globalmente conciliatória da Igreja moderna em relação ao Islão:

Discordo da afirmação do Papa Francisco quando ele diz que “o Islão autêntico e uma leitura correcta do Alcorão opõem-se a todo o tipo de violência”, como qualquer pessoa no seu perfeito juízo e devidamente informada, seja católica ou não, deve discordar. Se esse é, de facto, o ensinamento da Igreja, então a Igreja Católica tem um problema sério, pois está a apresentar falsidades como “ensinamento da Igreja” e não merece a confiança nem dos católicos nem de mais ninguém.

Há vários anos um funcionário do gabinete de admissões de Stanford despediu-se para se tornar padre. Não faço ideia se as banalidades e a burocracia universitária desempenharam algum papel. Mas não posso deixar de pensar: se o tipo de falsidade ingénua que agora domina praticamente tudo começar a dominar também os meios eclesiásticos em que ele agora circula, para onde irá a seguir?


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 21 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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