quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Rupturas que se tornam tradições

A última vez que mandei mail foi para desafiar para a Caminhada Pela Vida. No sábado lá estive e fiquei genuinamente admirado com o número de pessoas que compareceram, que bom!

O Bloco de Esquerda mantém a aposta em legalizar a eutanásia, não obstante a Associação Médica Internacional manter a sua oposição. Na segunda-feira um encontro inter-religioso no Vaticano também levou a uma tomada de posição comum, saudada pelo padre José Nuno Silva.

Continua a haver países em que é muito difícil ser-se cristão. A Nigéria está perto do topo da lista, como nos explica este sacerdote (na foto) cuja diocese se encontra exatamente no berço do Boko Haram.

Chegou ao fim o sínodo da Amazónia, com o apelo à ordenação sacerdotal de diáconos casados, como se esperava. É uma ruptura? Em parte sim, mas no passado também houve rupturas que acabaram por se tornar tradição, dizem estes missionários.


Em Évora partem os monges da Cartuxa, mas podem continuar a vê-los em exposição.


Secularismo Militante e Repressão Religiosa na América Latina

Eric Patterson
Quando pensamos em locais do mundo onde a expressão de fé é restringida, não se costuma pensar no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma população religiosamente ativa. A América Latina está adornada com a arte e a arquitectura do Catolicismo. Mas olhando mais de perto vemos tendências antirreligiosas – ou mesmo casos de perseguição aberta – em várias cidades da América Latina.

Existem pelo menos dois tipos de perseguição religiosa. A primeira é levada a cabo por pessoas que reclamam uma justificação religiosa para fazer mal a outros, como no Irão. A segunda acontece em países como na China, onde indivíduos ou comunidades são perseguidos por causa da sua religião. O Estado Islâmico exemplifica o pior do pior: um cabal que assenta a sua autoridade em justificações explicitamente religiosas para poder praticar a violência, ao mesmo tempo que persegue comunidades com base na sua identidade religiosa.

Felizmente a maior parte da América Latina não tem de lidar com conflitos ou perseguição religiosa como vemos noutras partes do mundo. Porém, olhando para a paisagem atual da América Latina, existem exemplos de perseguição explícita. Esta repressão é normalmente da responsabilidade dos velhos secularistas: autoritários movidos pelo dogma materialista, secular, anti-fé da esquerda dura do Século XX.

Nalguns sítios, sobretudo em Cuba, existem restrições legais pesadas que foram desenhadas para colocar os crentes sempre em risco de violar a lei. Depois vemos esses cidadãos a serem perseguidos pela polícia, multados e detidos. Por exemplo, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos o gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano e o Ministro da Justiça recorrem a “ameaças, restrições às viagens internacionais e internas, detenções e violência contra alguns líderes religiosos e seus seguidores, restringindo ainda os direitos dos reclusos de praticar livremente a sua religião. Os líderes religiosos e dos media dizem que o governo continua a assediar ou deter membros de grupos religiosos que lutam por mais liberdade política e religiosa.”

É extremamente difícil registar uma igreja, arrendar propriedades, abrir uma nova igreja, renovar edifícios que já existem ou construir uma igreja nova em Cuba, seja protestante ou católica.

Hugo Chavez e os seus sucessores têm sido muito críticos da Igreja Católica quando isso lhes convém. A Venezuela também tem assistido a um aumento grande de anti-semitismo, em larga medida devido a propaganda antijudaica e anti-Israel por parte do Governo. Tanto na Venezuela como na Nicarágua figuras religiosas, tanto clericais como leigas, têm sido investigadas, assediadas e nalguns casos acusadas e condenadas por tomarem posições públicas contra a corrupção.

Hoje o México é um local religiosamente diverso e vibrante, mas também existem casos de perseguição. Alguma desta é um legado da revolução (1910-1920) e das políticas secularistas de partidos do Século XX, tal como o PRI, que governou o país anos e anos, e o PRD socialista. De acordo com pelo menos um relatório contemporâneo o México é o local mais perigoso do mundo para padres católicos e para leigos, sobretudo por se oporem aos cartéis de droga e à sua violência e corrupção.

Melhor filme estrangeiro nos óscares de 2018
À parte disso, ainda existem no México sítios onde as autoridades locais punem – com espancamentos e prisão, entre outros – quem se converte do Catolicismo a outra fé. Infelizmente isto é um problema global: o uso de violência governamental para inibir ou punir o direito fundamental de tomar decisões religiosas, incluindo de mudar de religião, que sejam consistentes com as suas consciências.

Mais a norte vemos perseguição menos violenta, mas há uma tendência para o secularismo violento que procura empurrar as pessoas, instituições e ideias religiosas para fora da praça pública. Normalmente isto é feito com expedientes jurídicos, usando como armas novas regulações de forma a retirar aos crentes o seu ganha pão e os seus direitos religiosos.

No Canadá, por exemplo, o Quebec passou recentemente uma lei que impede os funcionários públicos de usar símbolos religiosos em serviço. Trata-se de uma clara violação da Constituição do Canadá, uma vez que impede um cristão de usar um pequeno crucifixo ao pescoço, um judeu de usar um quipá e uma muçulmana de cobrir o cabelo no local de trabalho.

Nos Estados Unidos temos visto leis e processos semelhantes, forçando empresas privadas, organizações religiosas e instituições privadas de solidariedade social a violar as suas convicções mais profundas ao obrigá-las a pagar por contracetivos ou sobre se os empregados têm ou não a obrigação de cumprir com os valores religiosos dos seus empregadores.

Veremos a mesma coisa na América Latina num futuro próximo? Infelizmente, parece que sim. O primeiro sinal é o aumento do secularismo das populações urbanas e das elites. Segundo organizações como a Pew, e outras, há dados que apontam para níveis muito baixos de prática religiosa entre católicos, sobretudo em cidades influentes como Buenos Aires, Rio de Janeiro e La Paz. As sondagens mostram números cada vez maiores de pessoas que nem sequer fingem identificar-se culturalmente como católicas, preferindo o termo “secular”: Uruguai (42%), Cuba (25%), Chile (25%), Argentina (21%), e quase 10% no Haiti, Brasil, Venezuela, Equador e Suriname.

Em segundo lugar, estamos a assistir uma campanha jurídica agressiva em muitas capitais, sobretudo no que diz respeito a questões de vida, casamento e orientação sexual/identidade de género. Só em 2018 o Uruguai e o Chile aprovaram leis que tornam mais fácil aos transgéneros mudar as suas identidades nos documentos oficiais; tribunais em Costa Rica e no Equador declaram inconstitucionais proibições de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e um tribunal nas Bermudas declarou a inconstitucionalidade de uma lei que restringia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os media estão a desempenhar o seu papel: o melhor filme estrangeiros dos óscares o ano passado foi para um filme chileno sobre rejeição e triunfo de transgéneros que se tornou uma sensação na região.

Num artigo em que documenta orgulhosamente todos estes avanços progressistas, o autor avisa que “estão a surgir sinais de uma contramaré conservadora. Liderada por evangélicos e católicos conservadores, os cidadãos estão a organizar-se para exigir o fim de políticas progressistas sobre diversidade de género, sexualidade e direitos reprodutivos”. O próximo passo será, logicamente, catalogar os ensinamentos religiosos sobre sexualidade como “discurso de ódio”. As primeiras tentativas já chegaram aos tribunais.

Os defensores da liberdade religiosa apoiam o direito fundamental de todos os cidadãos, incluindo aqueles com quem alguns discordam, apresentarem argumentos inspirados na sua fé na praça pública. Isto devia estar acima de posições religiosas ou partidárias, sejam elas conservadoras ou progressistas. Contudo, os novos secularistas da América Latina, tal como os antigos, estão a tentar usar o poder coercivo do Governo para impor uma nova ideologia à população, uma que ameaça claramente uma visão de fé da vida, da família e das instituições fundamentais da sociedade.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Eric Patterson, é vice-presidente executivo da Religious Freedom Institute, em Washington, D.C. Entre os 14 livros que já escreveu incluem-se “Latin America’s Neo-Reformation: Religion’s Influence onContemporary Politics” e “Politics in a Religious World: Building a ReligiouslyInformed U.S. Foreign Policy”.


© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Christians in Nigeria "live with fear in their hearts"

This is a full transcript, in the original English, of my interview with Fr. Gideon Obasogie, director of communications in the Catholic diocese of Maiduguri, in the extreme North East of Nigeria, bordering Niger, Chad and the Cameroon. The news report, in Portuguese, can be read here

Esta é uma transcrição completa, no inglês original, da minha entrevista ao Pe. Gideon Obasogie, director de comunicação da diocese católica de Maiduguri, no extremo nordeste da Nigéria, na fronteira com o Níger, o Chade e os Camarões. A reportagem pode ser lida aqui. 

Your diocese has has been badly affected by Boko Haram...
Sure. It is the epicenter, the birthplace of Boko Haram.

Boko Haram has slightly disappeared from the news cycle. Is the threat still as real as it was a few years ago?
From your question I can take two important facts. You say it seems to have disappeared, but no, it has not. But journalists do not go in there to get news, it is difficult, it is dangerous and sometimes they don't have security cover.

On the other hand, it is quite true that compared to 2014, Boko Haram has been reduced to a small corner. They were pushed to the fringes of the Sambisa forest and to the Lake Chad region.

Though there have not been attacks in the city of Maiduguri, as we had in 2014, we have attacks on the fringes of the Sambisa forest every other day.

Are there Christian communities in that area?
There are Christian communities which have returned after the displacement of 2014 and the diocese, the bishop, has sent priests to work with them. As priests we get firsthand information from those on the ground, and even from our friends.

Have you ever been in this area which is more affected by the terrorists?
The parish I worked in until 2013 was displaced, attacked and burned down by Boko Haram. Though we fled, we were not killed, but we have a lot of friends, family and parishioners who were kidnapped or killed, and there was 100% structural destruction, because the priest's residences were burned down, one of the priests who was on a break for two weeks had his house looted and burned while he was away.

In the diocese we have 26 priests who were displaced in 2014-15.

Of course, not all Muslims are terrorists. Has the persecution affected relations between Muslims and Christians on the ground?
As you said, I also do not believe that every Muslim is a Boko Haram terrorist. While we have some who are sympathizers, there are still Muslims who are very good at heart. As far as the relationship between Christians and Muslims, there seems to be some clear and quiet relationship, on a very good note, but people have fear in their heart.

There was a boy who lost his father to Boko Haram, when he was very young, and his mother found it very difficult to explain to him that his father was caught up in a bomb attack. When she was able to explain to him, at the age of 8, after four years of not hearing about his father's whereabouts - because there was no corpse to bury, he was cut up in the bomb blast - she told him that Boko Haram had killed his father. And the young boy, who was only 8, told his mother that when he grew up he would kill Boko Haram.

That is the situation we are faced with now as a diocese.

Besides the situation in your diocese, there has been violence between Fulani herdsmen and Christians in the rest of the country.
Nigeria is a very wonderful nation, a complex reality, a blessed nation. I still believe it is the giant of Africa. We still have attacks everywhere. In the northeast Boko Haram, in the South we have kidnapping, Fulani herders who have killed a lot of priests in Nigeria, Northwest, South, every part of Nigeria has its own bit of conflict and crisis. All this is a result of poor governance and bad leadership.

O pe. Gideon com uma das alunas vítimsa do Boko Haram
When we have good leadership, people ready to protect the interest of the nation, they should put security in place, so people can live in peace and harmony. So, we still have attacks every other day, people are being kidnapped, insecurity... People say its poverty that is responsible for these attacks, which I refuse to believe... Poverty has been there from time immemorial. Poverty cannot be the reason for kidnapping, where was kidnapping before? It could be, on a very social economic level, but I think the Nigerian leaders need to do more.

There have been accusations that the President, who is Fulani, has not been doing enough.
What the Catholic bishops said was just the blatant truth. The Government should stand up and do what it is supposed to do... protection of the life and property of the citizens. And any government that is short in that should really pack and go. The Government has been doing its best, we can say, but it needs to do more. President Muhammadu Buhari, when he came on board, made a lot of promises... But perhaps due to his ill health the status quo is still as it was in the beginning.

Are there also Christian Fulanis?
From the word go Fulanis have been very, very peaceful people. All of a sudden we see Fulani men carrying AK47s. In my opinion there is some influence of Boko Haram infiltration into the Fulani system.

I have never met a Christian Fulani, but I'm not saying they don't exist, there should be some. But what we are interested in knowing is at what point did the Fulani men start carrying arms? They carried sticks to protect their animals, but of late the conflict between them - which I know, people will say it has been there for a very long time between farmers and herders - but there should be a positive way of reconciling this crisis, it shouldn't lead to the loss of lives.

So do you believe there is outside infiltration by Boko Haram... Do you believe there are also other forces from outside Nigeria, trying to destabilize?
If you have been following the news of Boko Haram of late, it has a numeric strength of about six thousand fighters, which has been divided into two factions. There is ISWAP, Islamic State of West Africa Province, which has pledged allegiance to ISIS and we have the JAS - amā'at Ahl as-Sunnah lid-Da'wah wa'l-Jihād -, under Ahubahar Shekau. The Shekeu group are in the Sambisa forest, the rest are in the Chad border area. So, if there is a faction called ASWAP that tells you all you need to know, that it is linked to international bodies. We hope and pray that it should be exterminated and cleansed, because Nigeria is known to be a place for peaceful coexistence between Christians and Muslims. So, we still hope that we shall come to see days when we shall live without terrorism.

What has been the importance to ACN in Nigeria?
I am here at the invitation of ACN, about to present their report Persecuted and Forgotten? We, in Nigeria, dare to say that we are persecuted but never forgotten. Why? Because of ACN. Aid to the Church in Need has assisted not only my diocese, but most dioceses, almost every other diocese in Nigeria. They are rebuilding our structures, providing skillful acquisition agencies, medical health, schools for our orphans, because the diocese has about 15 thousand orphans and 5 thousand widows. The bishop is left to see how they are fed and taken care of medically, and ACN has been a very serious support, it has assisted the diocese in reconstructing our structures, in training the priests, in providing relief materials for Internally Displaced People. And I think that the diocese of Maiduguri would be nowhere without agencies like ACN.


Fr. Gideon visited Portugal at the invitation of Aid to the Church in Need

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Caminhada Pela Vida com enfoque na Eutanásia

Peço desculpa pela longa ausência, que só não se prolonga porque urge avisar-vos sobre a importância de participarem na Caminhada Pela Vida, que se realiza amanhã em várias cidades (ver abaixo).

O Bloco de Esquerda, mostrando claramente as suas prioridades, já anunciou um projecto de lei no primeiro dia da nova legislatura. Sabendo que a lei passa quase de certeza no Parlamento, a Federação Pela Vida quer que o tema seja posto a referendo.

Ontem foi detido no Algarve um ex-padre abusador em série, que já tinha sido condenado na Califórnia e na Irlanda por abusos e posse de pornografia infantil. Porque este é um problema que diz respeito a todos, o artigo do The Catholic Thing desta semana fala do novo filme francês “Graças a Deus”, sobre o caso do abusador Bernard Preynat, de Lyon. A ler.

Por fim, chamo a vossa atenção para o relatório da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, sobre a perseguição aos cristãos. Se a situação no Médio Oriente melhorou um pouco – já que pior seria difícil – a área que mais preocupa agora é a Ásia Meridional. O termo correcto, segundo Paulo Portas, é genocídio. Catarina Martins Bettencourt diz que o Ocidente ignora a perseguição na China porque o dinheiro fala sempre mais alto.


Pontos de partida da caminhada marcada as para 15h00 de sábado:
Lisboa – Praça Luis Camões
Porto – Sé
Aveiro – Largo do Mercado Manuel Firmino
Braga – Avenida central (Arcada)
Viseu- Campo de Viriato

Veja também


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

“Graças a Deus”: Uma recensão

Brad Miner
O escândalo de abusos sexuais na Igreja Católica persegue-nos a todos, e não só nos Estados Unidos. Nenhuma nação com igrejas católicas foi poupada. É verdade que o pior, isto é, o abuso sexual de meninos, rapazes e jovens adultos, parece ter passado, mas temos aprendido as lições certas? A tempestade já passou? Ou estamos apenas no olho do furacão?

Eu não tenho respostas, mas Bento XVI ofereceu-nos algumas nas suas instruções sobre a educação nos seminários. Esperemos que essas orientações estejam a ser implementadas de forma eficaz.

Contudo, continuamos a assistir a esforços por parte de algumas vítimas à procura de justiça, bem como tentativas por parte de bispos para evitar as suas responsabilidades. É por isso que o filme do realizador francês François Ozon, “Graças a Deus”, é tão importante.

A virtude deste filme está no foco que põe nas vítimas, ao contrário do Spotlight, um filme de Tom McCarthy de 2015, que venceu um Óscar e que focava os jornalistas que revelaram a dimensão do encobrimento de abusos sexuais na Arquidiocese de Boston.

Ozon é conhecido em França por filmes que são sensíveis ao femininom, (conhecidos como cinema du corps, ou “cinema do corpo” e que incluem títulos como "8 Femmes" e "Swimming Pool"). O realizador começou por tentar filmar um documentário, mas depois percebeu que a história das vítimas do abusador em série Pe. Bernard Preynat (desempenhado por Bernard Verley, o melhor do filme) e o encobrimento por parte do cardeal Philippe Barbarin, Arcebispo de Lyon (François Marthouret), exigiam uma narrativa mais dramática, com ênfase nas personagens, ao estilo de um romance baseado em factos verídicos.

Nas palavras de Ozon, essa era também a vontade das vítimas:

Elas imaginavam um filme ao estilo do Spotlight, em que seriam personagens fictícias, desempenhadas por actores famosos. Então pensei: é isto que elas querem e é isto que eu sei fazer.

O história conta como Alexandre Guérin (Melvil Poupaud) começa a aperceber-se dos abusos que sofreu anos antes, às mãos do padre Preynat. Confiando na integridade do cardeal Barbarin, escreve ao arcebispo, que aceita marcar um encontro cara-a-cara entre Alexande, o padre (agora idoso) e uma funcionária da diocese, Régine Maire (Martine Erhel). Tanto Alexandre como a sua mulher e alguns amigos com quem falou sobre o assunto esperam que Preynat tente embrulhar o assunto, ou mesmo negar tudo. Mas não o faz.

Chocado, mas encorajado, Alexandre pede a Preynat que torne pública a sua confissão.

“Sinceramente”, diz o padre, “eu preferia evitar os excessos e ataques físicos que isso poderia provocar”, explicando que alguns anos antes tinha sido atacado no jardim da sua casa de campo por pais “violentos e histéricos”.

“Você abusou dos filhos deles”, diz Alexandre.

“Sim”, diz o velho padre, “mas isso não é razão para se ser violento!”

Nesta altura Alexandre está confiante de que Preynat será laicizado e ainda acredita que o cardeal Barbarin é um homem corajoso e honesto. Mas quando o cardeal lhe concede aquilo que apenas pode ser considerado uma audiência, Barbarin começa a arrastar os pés em relação às medidas a tomar contra Preynat. Alexandre não compreende porque é que o arcebispo deixaria um pedófilo manter-se no ministério.
 
“Por favor, não use essa expressão”, diz o cardeal, num tom muito formal.

Porque não?

Porque, explica Barbarin, “no sentido etimológico pedófilo significa ‘amar crianças’”.

O cardeal pede a Alexandre para ser paciente e recorda-lhe que o Papa Francisco tinha pedido aos cardeais para “enfrentar corajosamente este mal”. Depois, numa evocação do juízo que Alexandre tinha feito dele inicialmente, garante, “eu serei corajoso”.

Mas por esta altura o Alexandre já começa a duvidar das promessas, sobretudo depois de ter descoberto que Barbarin e Preynat são velhos amigos. Fica ainda mais desencorajado depois de outra reunião com um funcionário da arquidiocese, um padre que reconhece os “crimes” de Preynat mas diz francamente que ele não será laicizado: “Para quê desenterrar estas velhas histórias?”

É então que Alexandre começa um grupo de antigas vítimas que se intitulam “La Parole Libérée”, o que significa literalmente “a Palavra libertada” mas é traduzida pelos próprios para inglês como "Lift the Burden" [Retira a Carga].

O título do filme vem de uma conferência que Barbarin deu em 2016 na qual, em resposta à pergunta de um jornalista sobre a extensão da crise em Lyon, diz “a maior parte dos factos, graças a Deus, já prescreveram”. Ou, por outras palavras, “se a lei civil não nos obriga a responder, então não responderemos”.

Algumas das cenas de “Graças a Deus” fazem lembrar o Spotlight. Na recensão que fiz desse filme escrevi:

Há uma cena perto do fim do filme em que um jornalista está de pé na parte de trás de uma igreja, ouvindo um coro infantil a cantar músicas de Natal. A Igreja é linda, os miúdos são lindos e a música é linda… Senti alegria por causa dessa beleza essencial, a beleza da fé católica, mas também tristeza por causa da traição de padres e bispos que não responderam à esta onda de crimes com sequer um semblante de compaixão cristã, preferindo antes um carreirismo católico.

Há uma cena praticamente idêntica em “Graças a Deus” e – tal como no Spotlight – parte-nos o coração.

Por causa da atenção que dá não só à história de Alexandre como à de três outros homens, este filme é um bocadinho repetitivo. E em vez de ter um final emocionante o fim – que se resume a uma longa conversa ao jantar entre os fundadores de “Le Parole Libérée – desilude um pouco.

Bernard Preynat abusou de pelo menos 70 rapazes e foi finalmente reduzido ao estado laical em julho deste ano. Como disse uma das suas vítimas, era um verdadeiro Preynador”. Antes, no mesmo ano, o cardeal Barbarin foi julgado e condenado por não ter denunciado casos de abusos sexuais. Recebeu uma sentença de seis meses, pena suspensa. O Papa Francisco não aceitou a sua resignação.

Na última cena de filme um dos filhos de Alexandre chega a casa e pergunta como correu o tal jantar do “La Parole Libérée”. Foi tenso, mas correu bem, diz o pai. Estavam a celebrar o facto de terem ganho o prémio de cidadãos do ano de Lyon. “Sabes quem é que ganhou o ano passado?”, pergunta ao filho. “Não”, responde o jovem. A resposta: Barbarin.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Cristãos em queda nos EUA e aliviados na Síria

Inês Leitão
O Cristianismo continua a perder peso nos Estados Unidos, com o número de pessoa que se identificam com esta religião a cair 12 pontos percentuais nos últimos dez anos.

Na Síria chegámos a um ponto em que a operação “Primavera da Paz” se está a transformar na operação “Pesadelo de Erdogan”. A bola parece estar no campo dos curdos, agora, mas os cristãos contactados pela Ajuda à Igreja que Sofre dizem-se aliviados pela chegada das tropas leais ao regime de Bashar al-Assad.

No dia para a erradicação da Pobreza a Renascença falou com Inês Leitão, a realizadora que foi a Moçambique ver o que a Cáritas tem feito para ajudar as vítimas dos ciclones.

Se não conhece ainda, fique a conhecer o trabalho feito pela Irmandade da Misericórdia de São Roque, que cumpre o importantíssimo trabalho de sepultar os mortos que não têm ninguém.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é da autoria de Michael Pakaluk, que analisa o mais recente livro de R.R. Reno. Vale a pena ler.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Regresso dos Deuses Fortes

Michael Pakaluk
O editor do First Things, R. R. Reno, acaba de publicar um livro chamado “The Return of the Strong Gods”. Confesso que o título me dá os arrepios. Não gosto de linguagem idólatra, nem como metáfora – e não é porque acho que esses falsos deuses não existem. Devemos conjurar esses velhos deuses, ou ser por eles controlados? Apenas devemos aguardar a vinda de um Deus, enquanto Moloque e Dionísio estão entre nós, mais fortes que nunca. Ou se calhar sou só eu.

O termo alude à teoria de Émile Durkheim de que as divindades que inventamos resultam da unidade social que desejamos. “Os deuses de outrora estão a envelhecer ou a morrer”, escreveu, “e ainda não nasceram os novos… Chegará um dia em que as nossas sociedades voltarão a conhecer horas de efervescência criativa, durante as quais surgirão novos ideais e novas fórmulas para guiar a humanidade durante um tempo”.

O livro de Reno é, essencialmente, um comentário a essas frases. Durante o período de 1914-45, observa, os “deuses fortes” de povo, sangue, classe e destino histórico governavam com mão firme muitas nações. Uniram a Itália, Alemanha, Japão e o Império Russo, mas puseram homem contra homem em guerras destrutivas de agressão e genocídios. Não podemos deixar que isso volte a acontecer. Então como é que as sociedades livres devem ser protegidas e formadas na sequência dessas guerras?

Entre os líderes dos vencedores democratas da guerra surgiu o consenso de que a melhor forma de avançar era a promoção de mentes abertas, uma sociedade aberta e fronteiras abertas. Destas, a primeira foi decisiva. Deste ponto de vista, a verdade é, inerentemente, autoritária e divisiva uma vez que quem acredita numa verdade importante não cede e está disposto a morrer por ela. Daí que a promoção da verdade teve de ser substituída pelas palavras bonitas do “sentido”.

Por isso as classes governantes promoveram todo e qualquer pensador que tinha por objetivo “desencantar” o nosso mundo. A consequência foi uma sociedade aberta, instintivamente oposta a tradições e convenções. Depois, para alcançar as fronteiras abertas fizeram-se aliados dos economistas como F.A. Hayek, que defendia que as relações económicas, embora fracas, eram (em termos práticos) mais alcançáveis, ou Milton Friedman, que defendia a competição do mercado livre contra quais todas as formas de controlo social.

Reno admite que este “consenso do pós-guerra” levou a uma prosperidade incrível. Pode-se acrescentar a isso o facto de o mundo não ter voltado a experimentar uma guerra cataclísmica. Mas a postura constante da nossa elite de ser “anti” os “desuses fortes” da verdade, religião e patriotismo (veja-se a rapidez com que estes termos são criticados como “racismo” e “fascismo”) praticamente destruiu a solidariedade.

As “três sociedades necessárias” de que escreveu Russell Hittinger – família, pátria e igreja – estão a sofrer terrivelmente. “O casamento está a ruir entre as classes operárias americanas”, observa Reno, “face a esta realidade, é praticamente uma insanidade fixar a atenção política nas casas de banho transgénero”.

Mas o homem é um ser social e, avisa Reno, poemos estar certos de que os “deuses fortes” vão regressar. Cabe-nos a nós decidir se serão benévolos ou malévolos.

A esperança de Durkheim por uma nova era de “efervescência criativa” encontra eco no livro de Reno. Ele simpatiza com os jovens que se vêem como que presos num século anterior, enquanto os líderes da sua sociedade moribunda lutam contra miragens de Hitler e do KKK. Num par de curtos parágrafos Reno interpreta o fenómeno de Trump como expressão de uma ansiedade, que devemos apoiar, para começar uma nova narrativa.

A força deste livro depende, na minha opinião, do padrão. Se assumirmos que Reno está a fornecer uma perspetiva em falta, ou unificadora, então é simplesmente brilhante e exige que reconsideremos (ou leiamos pela primeira vez, com atenção) muitas obras influentes da cultura do pós-guerra.

R.R. Reno
Mas se partirmos do princípio que se trata da “perspetiva chave” ou a “síntese orientadora”, então não tenho tantas certezas. Ao contrário do que muitos americanos afirmam, não existiu um consenso pós-guerra simples. Em vez disso a resposta a 1914-45 foi de recuperar as fundações da democracia e, até, de transmitir esta tradição através das universidades. Neste respeito Reno é injusto para com William F. Buckley.

As raízes do liberalismo do pós-guerra remontam até antes das grandes guerras e não são apenas políticas, mas intelectuais. Mais, o liberalismo contemporâneo tem muitas reações instintivas para além de ser “anti” fascista. Sentimento de culpa pela prosperidade; favorecimento do estranho acima do amigo (amor próprio desordenado); abuso do princípio de Mill de negar que há vítimas e depois de ignorar as vítimas que se apresentam; usar a riqueza de outros para fazer amigos; sacrificar amigos para fazer amigos; favorecer procedimentos gerais acima de juízos “paternais” de proximidade; a romantização do banal e do primitivo; julgar os agentes governamentais pelas intenções, mas os privados pelos resultados. Tudo isto são aspectos da personalidade liberal que a tese de Reno nem sequer toca.

Reno não apresenta o seu livro como sendo católico, ou sequer cristão. Mas como é que o devemos julgar enquanto católicos?

Bom, como é que um católico pode pensar entrar neste novo século sem carregar com ele a análise, feita no século passado, de João Paulo II – que conscientemente conduziu a Igreja para o novo milénio. Reno nunca refere o seu diagnóstico de uma “cultura da morte”. Para Reno isso não faz parte do puzzle nem é uma perspetiva concorrente que deve ser contestada.

Por falar nisso, o livro também não refere nunca o mal do aborto a pedido. Mas esse fenómeno parece ser uma peça chave do declínio do amor na família e na piedade nacional. Como é que podemos ter pietas tradicional por uma sociedade que nem se responsabiliza pelo nosso direito a nascer? Também prejudicou a solidariedade: que solidariedade é possível se nos limitamos a ver aqueles que dizemos ser nossos irmãos e irmãs conduzidos para a morte?

É de novos deuses que precisamos? Não bastará encontrar a coragem de combater os males presentes e genuínos com a mesma paixão com que os liberais, no vácuo por nós criado, tratam os males do passado?


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Outubro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Apelos ao diálogo, da Síria à Catalunha

Antes de mais, se está a pensar ir ao lançamento do meu livro, amanhã, mando em anexo um croqui a mostrar onde são as entradas para o Pina Manique. É às 19h e não haverá multibanco, portanto se quiserem comprar o livro (€12,50) têm de levar dinheiro. Trocos deve haver.
Qualquer dúvida, é só perguntar.


A situação na Síria deu uma cambalhota com a entrada em cena da Rússia e do exército do regime. O Papa pede diálogo. O conflito está explicado aqui.

Num ambiente menos bélico, mas também tenso, os bispos da Catalunha também pedem diálogo.

Houve 13 de outubro, entretanto, com mais centenas de milhares de fiéis e apelos à participação nas Jornadas Mundiais da Juventude por parte do arcebispo Andrew Yeom Soo-jung, da Coreia do Sul.


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Alma gémea do Estado Islâmico, dizem os autores da Primavera da Paz

A invasão do nordeste da Síria continua. A operação “Primavera da Paz” já fez mais de uma centena de mortos e dezenas de milhares de deslocados. A Turquia justifica-se dizendo que os curdos são a alma gémea do Estado Islâmico e um bispo católico avisa que tudo isto pode conduzir a um novo êxodo de cristãos da zona.

Há cada vez mais estrangeiros a fazer os “caminhos de Fátima”. Saiba mais nesta entrevista à presidente do Centro Nacional de Cultura, Maria Calado.


Gosta de literatura fantástica e ficção científica? Pois está a decorrer o Fórum Fantástico, na biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, e amanhã estarei lá às 17h15 para falar sobre a religião na Ficção Científica, tendo como mote os 20 anos da estreia do Matrix. (Sim, estamos todos a ficar velhos). Apareçam!

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Síria num explicador e livro Rumo ao Jamor

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Tragicamente, a invasão da Síria por parte da Turquia já começou. Está confuso com tudo o que se passa naquela parte do mundo? Não se preocupe, temos um explicador.

O Papa Francisco aceitou esta quinta-feira a resignação de um bispo americano acusado de abusos.

O processo de canonização do Padre Cruz conheceu recentemente um “novo fôlego”, saiba mais aqui.


Trabalha em saúde, ou conhece quem o faça? Então leia e partilhe este artigo sobre como até o mais pequeno gesto pode fazer a diferença na vida de quem está a passar por um momento de aflição e de doença. Mais um artigo do grande Randall Smith, do The Catholic Thing.

Deixo-vos por fim, com um convite. É para o lançamento do meu mais recente livro. O tema não é religioso, mas se gostam mesmo de futebol, e não das polémicas estéreis que andam à volta do desporto, gostaria muito de vos ver por lá!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Precisamos de Hospitais Católicos?

Fiquei profundamente tocado, e até bastante perturbado, com o artigo de Brad Miner da passada segunda-feira em que reflecte sobre o exame oncológico que se prepara para fazer. Para nós que já estivemos na mesma situação estas histórias trazem de volta memórias desconfortáveis e por vezes traumáticas. Faz-me lembrar a letra da música de Tom Petty: “The waiting is the hardest part” [o mais difícil é a espera].

Every day you see one more card
You take it on faith, you take it to the heart
The waiting is the hardest part

Com base na minha experiência, diria que o melhor que as pessoas podem fazer é rezar. Há alturas em que as pessoas dizem: “rezo por ti” e soa-nos a “adeus e bom dia”. Mas quando enfrentamos um futuro escuro, potencialmente fatal e desconhecido, na certeza apenas de que, seja o que for, o que nos espera é algo diferente do que tínhamos planeado, há poucas coisas mais reconfortantes do que ouvir alguém dizer, de forma sincera, “rezo por ti”, ou “estamos todos a rezar por ti”.

Por mais que não queira recordar esses dias terríveis, permitam-me contar uma breve história pessoal para ilustrar um ponto mais importante. Tenho memórias claras de estar deitado numa daquelas macas de hospital, num daqueles cubículos, atrás de uma cortina, enquanto esperava pela minha biópsia cirúrgica. Tinha esfregado o meu corpo todo com toalhitas Hepa enquanto aguardava de pé, nu e cheio de frio, no chão de linóleo. Tinha vestido aquela bata ridícula que nos dão e as meias antiderrapantes. Tinha respondido à longa lista de perguntas medico-jurídicas (Data de nascimento? Sabe o que lhe vão fazer hoje? Alguma vez teve uma reação alérgica a anestesia? Está acompanhado?). E agora estava sentado, sozinho – nunca me senti tão só na vida – simplesmente à espera.

E pensava: Quando é que me deixam ver a minha mulher? Quando é que me vêm buscar? O que é que o futuro me guarda? E mil outros pensamentos que surgiam, sem que eu quisesse, na minha mente. E foi precisamente nesse momento que olhei para cima e vi uma enfermeira com uma mancha preta na testa, e lembrei-me que era Quarta-feira de Cinzas.

É difícil explicar o quão reconfortante foi, para mim, ver essa mancha preta. Poderão pensar que seria o contrário, afinal de contas, a frase que escutamos na Quarta-feira de Cinzas é “lembra-te que és pó, e ao pó retornarás”. Mas aquele símbolo de fé, aquela recordação de que há algo mais profundo e englobante que todo o aparato estéril da medicina moderna (que sendo importante, não deixa de ser alienante e desumanizante), foi o suficiente para elevar o meu espírito, como um abraço caloroso de uma esposa amada.

E depois, num daqueles momentos em que a graça de Deus nos submerge, apareceu outra enfermeira com cinzas na testa, depois outra, e ainda outra, até que praticamente todas as enfermeiras na unidade pré-operatória tinham as cinzas.

“Recebeste as cinzas?”, perguntou uma delas à colega. Um padre católico tinha passado por lá e estava a distribuir as cinzas a quem lhe pedisse. Nada do que se passou naquele dia, para além da presença da minha mulher, teve tanto poder nem me confortou tanto como a visão daquelas cinzas. As enfermeiras não fizeram nada diferente nem disseram nada de diferente, mas elas estavam diferentes, como estava diferente a enfermaria em que me encontrava deitado.

Alguns anos mais tarde estava sentado com um amigo num cubículo igualmente frio e estéril, enquanto ele esperava desconfortavelmente por uma colonoscopia. Não se trata de uma grande operação, não é preciso internamento e os resultados costumam ser bons. “Tudo ok!” Viva.

Mas só estar ali à espera pode ser cansativo. Contei-lhe a história das cinzas. “Ena”, disse ele, “aí está uma boa história. Devias escrever sobre isso naquela tua coluna no Catholic Thing”. (Será que o seu tom de voz sugeriu que as minhas outras colunas ficavam aquém? Tipo, finalmente uma boa história?)

Então discutimos como seria se naquele preciso momento uma religiosa, com hábito e tudo, entrasse para o tratar. Não como capelã, com uma linguagem religiosa, mas como enfermeira. E se, por detrás de nós, houvesse um crucifixo na parede e toda a volta ícones de Maria e de santos, em vez das cores estéreis e pinturas modernistas de nada, como se vê em escritórios em todo o lado? Como é que isso afectaria a experiência de estar naquele hospital?

Será chegada a hora dos hospitais católicos? Não me refiro a hospitais que sirvam apenas católicos, como é evidente, mas de hospitais que sirvam as pessoas de uma forma católica. Se as pessoas tiverem alguma objecção quanto a ver crucifixos e religiosas e outros símbolos de fé, então não há falta de alternativas a que podem ir. E que Deus os abençoe.

Mas numa nação que não fala de outra coisa senão de “diversidade”, haverá lugares onde católicos e outros cristãos podem obter cuidados tanto para o espírito como para o corpo? Não será tempo de um florescimento de ordens religiosas para treinar homens e mulheres para servirem, não como docentes universitários, onde não faltam candidatos, mas em hospitais onde a sua presença é tão necessária? Onde as tendências estéreis e desumanizantes da modernidade podem afundar as pessoas, mesmo as mais saudáveis, nas profundezas da solidão e do desespero?

Para aqueles que são chamados a “escrutinar os sinais dos tempos à luz do Evangelho”, a resposta a estas perguntas não é evidente? Se alguma vez esteve numa daquelas macas, com uma daquelas batas, numa daquelas salas brancas e estéreis, sozinho e à espera, então sim, é.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 2 de Outubro de 2019)


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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Fim-de-semana em cheio e Cristianismo em ação

Temos aí um fim-de-semana em cheio à porta!

Para além das eleições, temos a elevação de D. José Tolentino Mendonça a cardeal e, no domingo o arranque do sínodo da Amazónia. Acompanhem a Renascença para uma cobertura aprofundada quer de um quer do outro.

Hoje temos a sorte de ter uma grande entrevista a D. José Tolentino, em que ele fala do que a Igreja espera dele e explica que as diferentes sensibilidades na Igreja não são, nem nunca foram, um problema, são antes uma fonte de riqueza.

Temos também uma entrevista com o missionário Adelino Ascenso (na foto), que diz que a Igreja precisa de levar um “abanão”.

Como é que a detenção de um suspeito de ser incendiário pode ser uma questão de liberdade religiosa? Veja aqui, não se vai arrepender.

Peço-vos agora quatro minutos da vossa vida para verem o vídeo que está neste post. É um resumo da essência do Cristianismo. É santidade em ação. Não percam, mesmo.


Cristianismo em acção

Todas as noites tento rezar com os meus filhos, primeiro com os três mais novos, depois com os três mais velhos.

Ontem, em vez de rezar, sentei-me com eles para ver este vídeo.

Temos aqui o Jean Brandt a usar da sua prerrogativa de falar em tribunal na altura em que a homicida do seu irmão é sentenciada. Botham Brandt foi morto quando uma polícia chegava a casa e - segundo diz - entrou no apartamento dele por engano, pensando ser o dela. Ao ver um homem desconhecido no que pensava ser o seu apartamento, baleou-o duas vezes.

A resposta de Jean Brandt em tribunal vale mais que todas as catequeses, todas as homilias. É Cristianismo em acção. É heroísmo. É santidade. É tudo o que eu quero que os meus filhos sejam.


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

E se Portugal tivesse 200 cardeais? Seria Marrocos

O Papa Francisco vai visitar as cidades de Hiroxima e Nagasáqui, no Japão, para rezar pelo desarmamento nuclear. O programa das duas viagens foi marcado esta quarta-feira.

Ontem houve buscas na secretaria de Estado e de Informação Financeira do Vaticano. Em causa estarão negócios suspeitos com imóveis.

Estamos a dias de Portugal ter cinco cardeais. Ora, cinco cardeais dá cerca de um por cada dois milhões de portugueses, o que é uma média só superada por Itália, se contarmos os países comparáveis a Portugal em termos demográficos e/ou religiosos. Mas se for só uma questão de números, olhos em Marrocos, que tem um cardeal para cada 50 mil católicos. Proporcionalmente, é como se Portugal tivesse 200 cardeais.

No artigo desta semana do The Catholic Thing, Stephen P. White pergunta quem é que irá renovar a Igreja, tão fustigada por crises. Deixa-nos esta questão, que cada um responda no seu coração.

«O Senhor está a purificar a sua Igreja. Ainda bem, dizemos nós. Não era sem tempo, dizemos. Mas estamos dispostos a deixá-lo purificar-nos a nós? Podemos mesmo esperar que a Igreja seja purificada e, ao mesmo tempo, esperar que nós, que somos membros da Igreja, sejamos poupados à dor e à angústia dessa purificação?»

Quem Restaurará a Igreja?

Stephen P. White
A frequência dominical está em queda. As contribuições financeiras ao nível tanto da paróquia como da diocese também. Há anos que assistimos a um decréscimo dos casamentos e baptismos de crianças. A maioria destas quedas não começou com a crise dos abusos, mas os dados do ano passado indicam que a crise as acelerou.

Quem é que reedificará a Igreja? De onde virá a renovação que todos sabemos ser necessária, e que tanto desejamos ver? Dos bispos? De Roma? Já disse várias vezes: Se algum dia chegar, uma autêntica reforma da Igreja virá através de, e com, o bispo de Roma e os bispos em comunhão com ele. Mas para quem tem fé isso não passa de uma tautologia, não nos leva muito longe.

Confiar que o Senhor preservará a sua Igreja não requer que acreditemos ou esperemos que a reforma surja de Roma ou que comece por iniciativa de um dos sucessores dos apóstolos. A história revela que a maioria das reformas eclesiais não começaram com o Papa. A maioria das reformas não começaram sequer com os bispos. O padrão é sempre o mesmo, a renovação começa com a santidade, esteja ela onde estiver.

A santidade não é património do clero. Aliás, a santidade não é só para quem é ordenado. O chamamento à santidade é universal e estende-se a todos os baptizados, ou melhor, a toda a humanidade. Estive uma vez numa conferência em que alguém estava a comentar uma frase do Papa Francisco sobre a santidade. Ao meu lado estava uma conhecida activista de justiça social, que exclamou: “Eu nunca pensei em santidade, nem um dia na minha vida”. Não duvido minimamente.

E porque não? Porque há muito trabalho a fazer neste Vale de Lágrimas que não requer sequer uma gota de santidade. Ser uma pessoa decente não nos obriga a sermos perfeitos como o Pai no Céu é perfeito. Mas somos chamados a mais, muito mais do que isso.

Na sua primeira homilia como Papa, Francisco alertava todos os que o acabavam de eleger para a futilidade das boas obras que não proclamam Cristo:

“Podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não se caminha, ficamos parados. Quando não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência.”

Se nos esquecermos disto – se os nossos esforços, por mais bem-intencionados que sejam, se separarem da proclamação da Boa Nova – então os nossos esforços não só falharão, mas tornarão as coisas piores. “Quando não confessamos Jesus Cristo”, diz o Papa, “confessamos o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio”.

A questão é esta: o trabalho de restaurar a Igreja – de abordar as necessidades urgentes do momento, de procurar a justiça de forma sincera, de restaurar o Corpo maltratado de Cristo – não se pode substituir à proclamação do Evangelho. São uma e a mesma coisa. Agora, neste momento de crise, não é tempo de colocar a evangelização de lado para lidar com problemas aparentemente mais urgentes: “Deixem os mortos enterrar os seus mortos. Vai e proclama o Reino de Deus”.

O arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia, disse-o de uma forma belíssima. As suas palavras são de 2012, mas adaptam-se perfeitamente aos nossos dias:

O pecado faz parte do território humano e é uma ameaça diária ao nosso discipulado. E se os nossos corações enregelarem, se as nossas mentes se fecharem, se os nossos espíritos se tornarem gordos e gananciosos, aninhados na nossa pilha de bens, então a Igreja neste país murchará. Aconteceu antes, noutros tempos e noutros lugares, e pode acontecer aqui. Não podemos mudar o mundo sozinhos. E não podemos reinventar a Igreja. Mas podemos ajudar Deus a mudar-nos a nós. Podemos viver a nossa fé com zelo e com convicção – e Deus tratará do resto.

O Senhor está a purificar a sua Igreja. Ainda bem, dizemos nós. Não era sem tempo, dizemos. Mas estamos dispostos a deixá-lo purificar-nos a nós? Podemos mesmo esperar que a Igreja seja purificada e, ao mesmo tempo, esperar que nós, que somos membros da Igreja, sejamos poupados à dor e à angústia dessa purificação?

Quem restaurará a Igreja? Ele. E se estivermos dispostos, Ele realizará grandes coisas através de nós. Só nos custará tudo – o que afinal de contas não é nada.

Tomai, Senhor, e recebei, toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes, a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, à vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta. (Uma oração de Santo Inácio de Loyola)

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