terça-feira, 31 de julho de 2018

Crianças nos funerais? Mais achegas

Depois de ter publicado e divulgado a minha reflexão sobre a presença de crianças em funerais, em diálogo com um outro artigo publicado pela Ana Rute Cavaco, recebi mais testemunhos de diferentes leitores, que aqui reproduzo com a sua autorização. Se tiver casos que queira partilhar, faça-o, para abrirmos o diálogo a mais pessoas!



Quando a minha mãe morreu, há oito anos, foi velada em casa de meu irmão, no Norte. 

Não retirámos as crianças, seus bisnetos: um casal de primos com quatro anos e dois rapazes, primos também, com sete. 

Os de quatro corriam pela casa como era seu costume quando visitam os avós. De vez enquando davam um espreitadela ao caixão. Os de sete anos encararam a coisa com mais seriedade. De vez em quando iam junto ao caixão e ficavam contemplando. 

Em dado momento aproximei-me do caixão e eles fizeram o mesmo. Perguntaram: "Podemos pôr a mão?", "Sim, podeis", respondi. Afagaram as mãos e o rosto da bisavó, com se fossa o último gesto de ternura. 

Depois fui para a cozinha de propósito e eles foram atrás. Foi surpreendente a conversa que tivemos com perguntas sobre a vida e a morte e seu porquês, bem com sobre a fé e Deus. Perguntas que mais pareciam de adultos que se interrogam que de crianças (bem, pensamos que elas são parvas e não se interrogam). 

Ao outro dia os dois rapazes de sete anos acompanharam o funeral à igreja onde foi celebrada missa de corpo presente e ao cemitério, e portaram-se como qualquer outra pessoa presente. Percebi que aprenderam mais sobre a vida do que em qualquer lição teorica. Não lhes foi roubada essa possibilidade de perceberem que todos morremos e de se interrogarem sobre a morte e os seus porquês, e sobre o para além da morte.

Fernando Sampaio



No passado dia 12, faleceu o meu sogro.

A saúde agravara-se nas últimas semanas e quando os rins deixaram de funcionar o desfecho tornou-se previsível.
Os nossos filhos testemunharam e assimilaram a nossa ansiedade e dor. Para eles foi uma experiência nova, pois nunca um familiar tão próximo tinha falecido.
Fizemos questão que estivessem alguns minutos no velório e vissem o corpo do avô no caixão.
Quando os levava para a capela, lembrei-lhes: “O que vocês vão ver é apenas uma parte do avô. A alma dele já não está ali; já partiu para outro mundo. O avô continua a ver-nos e a gostar de todos nós lá no sítio onde ele está agora.”
Alguns dias depois, o mais novo disse-me:
- Sabes pai, hoje tive um sonho que era espectacular se tivesse sido realidade…
- Então, o que foi?
- Sonhei que o avô tinha ressuscitado!
- Como foi isso?
- Estávamos todos em casa da avó, lá no norte, e ele apareceu na sala. E eu perguntei-lhe: “Ó avô, já estás bom dos rins?”. E ele riu-se e respondeu: “Claro, até já fui fazer xixi…”
- Pois é, David. Esse sonho é muito giro, mas eu acho que o avô agora está mais feliz lá no outro mundo. Devia ter o pai dele à espera… Sabes que o pai dele morreu quando ele era pequenino… devia estar com saudades dele. E o irmão dele também devia estar à espera… Um dia todos nós nos vamos reencontrar lá no outro mundo.
- Mas eu tenho saudades dele! Às vezes até choro…
- É normal termos saudades. É sinal que gostamos das pessoas. Mas tu sabes que ele gostava – e ainda gosta! – de ti?
- Sim, sei isso. Mas eu não queria estar triste.
- Estamos todos tristes. É normal. Mas a morte não é uma separação para sempre. Sabemos que um dia nos vamos reencontrar, não é verdade?
- Eu também sei isso. Mas continuo triste.

Marco Oliveira



Há um ano e meio atrás, faleceu a minha mãe. O Miguel, mais velho, na altura quase a fazer 4 anos, acompanhou me por mais que uma vez aos paliativos do IPO. Como o funeral foi durante a semana, nenhum acompanhou (A Sussu tinha então 2 anos, mas uma ligação extraordinária com a avó).

Levei o Miguel à missa de 7º dia e aos 15 dias em memória da avó e bisavós. Nunca perguntou nada: sobre a diferença das rotinas (todos os dias eu chegava do IPO as 21), sobre a ausência da avó nas visitas ao avô, nada. Pediu-me uma pagela. Olhou, afagou, calou. Missa do 1º mês, igual.

Na altura, falei com psicólogos amigos que me aconselharam a aguardar por um sinal dele, e para, dentro dos meus credos, lhe explicar de um modo simples o que aconteceu.

Passado cerca de um mês e meio, acerca de uma visita do meu pai a minha casa, o Miguel perguntou:" ...vem o avô, o padrinho... E a avó?" Respondi:" a avó agora está no céu."... "No céu, como?"

"A avó agora está com o Jesus...é um anjo especial que está a olhar por nós"
"E tem asas? Como posso vê-la?"... A conversa fluiu sem dramas. Mas o Miguel fez questão de rematar dizendo que não queria que eu é o pai nos transformássemos em anjos, e tentei tranquilizá-lo com serenidade.

A Sussu perguntou pela avó ao longo de vários meses, quando me via ao telefone. Rotinas. Falava com ela todos os dias. Há uma semana, agora com 3,5 anos perguntou-me pela "outra avó"... "Que avó??" “a avó Ema". Respirei fundo, e contei-lhe que a avó Ema, foi para o céu... Que agora é um anjo que olha por nós.


Os filhos são o melhor de nós e ensinam-nos entre outras coisas a crescer e aceitar.

Maria Costa



Teologicamente, não há nada que te proíba a cremação. A Igreja Católica prefere a inumação à cremação, creio que mais por se desassociar de práticas pagãs do que pela finalidade em si. Se o corpo volta ao pó, seja pelo processo biológico natural, seja pela cremação, o fim vai ser o mesmo. As cinzas são pó e biblicamente são sinal de humilhação, de redução à insignificância ou de lamento. Claro que é preciso ter atenção aos contextos. Por mim, inumado ou cremado, o principal é o respeito pela cerimónia em si, a celebração daquilo a que os Ortodoxos chamam (e que aprecio muito) o "nascimento para o Céu" do crente, o memorial de esperança que se celebra e o efectivar do processo de luto, algo que muitas vezes desprezamos nestas considerações.

No que diz respeito à morte como início, discordo. A morte é um evento no meio de todo o processo que é a nossa vida, sobretudo a partir do momento em que começamos a caminhar com Cristo. Diria que a conversão é o início e a morte o efectivar da receção da esperança com que vivemos: a eternidade junto do Pai. Claro, aí a vida é perfeita, mas não deixa de ser uma continuação da nossa imortalidade (termo que uso para não confundir com o conceito de Deus ser eterno), que começa no momento da nossa concepção.

Em relação às crianças... vai muito da opção parental e da maturidade de pais e crianças. Com 14 anos não fui ao funeral do meu avô materno, que havia estado internado num hospital e fisicamente debilitado. A razão que me deram, mesmo sendo num lar cristão e o meu avô um homem de fé, foi a de não ficar na cabeça com uma imagem que não era aquela que correspondia ao meu avô. Quando estive presente no funeral de um pastor amigo e pai de um grande amigo, pude presenciar aquele misto de tristeza e alegria que é o funeral de um cristão. Sabemos que o corpo que ali está é a imagem que vamos relembrar do último contacto, mas também é a figura com quem convivemos. Se não existir capacidade de uma criança entender isto ou de encaixar isto, o assunto pode ser complicado. Mas voltando ao que disse acima, parte sempre da maturidade e creio que sobretudo dos pais em ajudarem as crianças a lidarem com esse momento.

Obrigado a ti e à Ana Rute por lançarem um debate interessante e pertinente para quem é pai e se preocupa com a educação dos filhos.


Ricardo Mendes Rosa



Levei a Helena (4 anos) e a Jacinta (meses) à missa de corpo presente (caixão fechado) de uma conhecida. Estava imensa gente, mas elas eram as únicas crianças . Não me arrependo nada. Ser cristão é encarar a morte com naturalidade.

Morreu também a tia Zita, freira doroteia e madrinha da minha sogra, e lá tive de as levar outra vez à missa de corpo presente (caixão aberto). Não deixei a Helena chegar perto do caixão, e encarou tudo com tranquilidade.

Correu e saltou para o colo da avó, porquê esta se desfez em lagrimas quando estava a falar, e foi um gesto de que só uma criança se lembra. Quem diz que não são consolações de Deus?

As irmãs doroteias ficaram comovidíssimas.

Não levei ao enterro propriamente dito, achei que talvez não fosse o tempo.

O Gastão (enteado, 10 anos) que por uma razão ou outra não estava connosco, soube da morte da tia Zita pelo primo, no carro, e começou a chorar e a dizer “mas tu contas isso assim?!”.

Isto para dizer que crianças nos funerais, sim. Cremações, não. Cada vez me lembra mais o fogo do inferno, nunca me esqueço do meu avô a ir “para o forno”. Pó, és, pó, serás; mas respeitemos a decomposição natural do corpo, tal como respeitamos o modo como foi criado.

Matilde Torres Pereira




O meu marido morreu em Milão no final de uma doença de seis meses. Estava bem de saúde, mas quando se apercebeu que estava mal não havia muito a fazer.

Era relativamente jovem, muito activo, e dos nossos cinco filhos havia um, o mais novo, de 8 anos, que vivia connosco. Acompanhou o desmoronar físico do Pai, que foi de facto impressionante.

Ele conversou com o Pai diversas vezes sobre a sua doença e sobre a sua morte, como se fosse o assunto mais comum. O meu marido explicava-lhe o suficiente para ele se ir compenetrando que o Pai ia mesmo morrer, mas que ele nunca ficaria sozinho.

Na véspera da morte, presenciei o diálogo que se segue. No fim de rezarmos o terço em conjunto o meu filho dizia ao Pai:
“Oh Pai eu não quero que o Pai morra”. E o meu marido respondia-lhe: “Eu vou morrer, mas tu deves continuar a pedir-me tudo”.

Depois de algum silêncio dizia o meu filho: “E se o Pai me diz que não?”

Mais algum silencio, e responde-lhe o meu marido: “Se o que acontecer não for o que tu esperavas, vais perguntar à Mãe por quê.”

O Pai morreu nessa madrugada e o meu filho foi ver o corpo do Pai ainda na cama. À minha intervenção de que o Pai parecia estar a dormir, o meu filho respondeu prontamente que não estava dormir, por que não ressonava.

O funeral, quer em Milão, quer depois em Lisboa, foi vivido pelo Alexandre como uma festa. Estava excitado e tudo era diferente. Muita gente a dar-lhe atenção. O drama aconteceu quando a rotina se instalou novamente na nossa vida, então já transferida para Lisboa, e ele não aceitava que o Pai tivesse morrido. Estava verdadeiramente zangado... Tão zangado que muitas vezes só sossegava quando ia visitar o jazigo do Pai, graças a Deus muito próximo da nossa casa.

Eu própria tive de "adiar" fazer o luto, de tal maneira o meu filho estava perturbado e eu tinha de lhe dar atenção. Mas estava perturbado pela ausência do Pai, não pelo funeral.

Desta experiencia posso afirmar que foi muito bom para o meu filho ter acompanhado a decadência física do Pai, a sua morte e funeral. As crianças, em particular ele, assimilam melhor o que também elas experimentam do que aquilo que lhes é contado. A realidade é sempre mais positiva que a fantasia.


Mariana Vilas-Boas

segunda-feira, 30 de julho de 2018

As crianças são mais frágeis que as cidades

Pe. Fouad Nakhla
De volta, pelo menos por mais alguns dias, deixo-vos com esta interessantíssima entrevista com o pe. sírio Fouad Nakhla, que lidera o Serviço Jesuíta aos Refugiados em Damasco. Como é que se constrói o futuro num país com uma geração inteira que não conhece mais do que a guerra?

O Pe. Fouad trabalha em Damasco com um jesuíta português que, há dias, conversou com a minha colega Ana Lisboa.

O Papa aceitou a renúncia de um bispo australiano acusado de encobrir casos de abusos sexuais e aceitou também a renúncia do cardeal americano Theodore McCarrick, acusado de ter cometido abusos sobre menores e sobre seminaristas e jovens padres das dioceses que liderou.

Não se pode subestimar o quanto o caso do cardeal McCarrick está a revoltar a opinião pública nos Estados Unidos, sobretudo dos católicos, terrivelmente desapontados com a sua hierarquia. Pode saber mais sobre este caso aqui, no artigo da semana passada do The Catholic Thing. Uma leitura difícil, mas importante.

E nestes dias Portugal ganhou um bispo, D. José Tolentino Mendonça, e perdeu outro, D. António Rafael, emérito de Bragança-Miranda. Em relação a D. José Tolentino, destaque para as suas palavras, comparando uma biblioteca a um jardim, e para o significado das suas armas e do seu lema episcopal.

E por fim, as crianças devem ir a funerais? A Ana Rute Cavaco deu o mote para a discussão e eu acrescentei uma reflexão aqui.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

As crianças devem ir a funerais? Uma resposta a uma amiga


A Ana Rute Cavaco, mulher do meu amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, escreveu um post muito interessante, de leitura obrigatória para quem tem filhos, sejam católicos, protestantes ou ateus. Ela responde à pergunta sobre se devemos deixar as crianças ir a funerais e conclui que sim. Não podia concordar mais.

Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.

Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.

Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”

Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.

Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?

Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.

Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.

E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.

Obrigado, Ana Rute, por teres desencadeado esta reflexão.


A Ana Rute respondeu entretanto a algumas das minhas perguntas:

1. Deus planeou tudo? - Sim, acredito que Deus é soberano e que não há nada que não aconteça no mundo que ele não tenha planeado. Não sendo ele a origem do mal, o mal não é algo que aconteça e que o surpreeenda. Em Isaías 46.9-10 diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.A morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados não foi o plano B de Deus. Foi o plano A desde sempre, por mais confuso que isto possa parecer, mas é o que a Bíblia me diz e eu acredito, pela fé.

2. Cremação - também não sou a favor, pelos mesmos motivos que tu. Acredito na ressurreição do corpo e na vida eterna e acho que um funeral deve ser feito pelo enterro e não pela cremação. Esta é a minha posição pessoal, mas há muitos evangélicos que praticam a cremação, e eu respeito. Centrei-me no acto ser "feio" para as crianças, porque lhes pode fazer impressão verem o corpo com que conviveram ser coberto de terra, e foi por isso que usei essa expressão.

3. A vida nos funerais - é isso mesmo: a morte não é o fim, é o princípio.
"E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

João 6:39-40

Tocando lira enquanto a América – e Roma – ardem?

O conhecido filósofo político Leo Strauss terá dito certa vez que os teoristas políticos modernos são piores que o imperador Nero, de Roma. Porque ao contrário deste, eles não sabem que estão a tocar lira, nem que Roma está a arder.

Há poucas semanas, em Junho, os bispos americanos tiveram a sua reunião anual em Fort Lauderdale e, segundo os relatos, passaram grande parte do tempo a discutir política contemporânea e as alterações a fazer ao guia para as eleições do Outono.

Entretanto em Roma, na semana passada, o padre Antonio Spadaro, S.J., editor da revista semi-oficial do Vaticano, La Civiltá Cattolica, publicou em conjunto com Marcelo Figueroa, o presbiteriano escolhido pessoalmente pelo Papa Francisco para ser editor da edição argentina do L’Osservatore Romano, um longo ensaio que ataca um fenómeno religioso americano: “O Evangelho da Prosperidade: Perigoso e Diferente”.

Ao contrário do seu anterior esforço conjunto, que argumentava que a colaboração entre evangélicos e católicos conservadores era uma forma de “ecumenismo de ódio”, este artigo atraiu pouca atenção. O que não é surpreendente.

Embora os promotores do Evangelho da Prosperidade tenham ligações ao Presidente Trump – que parece ser o verdadeiro alvo deste ensaio – poucos dos que conhecem a religião nos Estados Unidos diriam que este fenómeno é de alguma forma importante. Na verdade, a maioria dos religiosos, tanto à Esquerda como à Direita, encaram-nos como uma excêntrica seita cristã.

Entretanto, em simultâneo em vários países, está a emergir uma nova ameaça à Igreja, uma crise de confiança na liderança católica e na Igreja em si, que poderá fazer com que estas outras preocupações, que são todas bastante periféricas à vida e missão da Igreja, pareçam mera música.

Na América são muitos os que se têm sentido chocados com revelações de que o Cardeal Theodore McCarrick, um dos prelados mais importantes da Igreja Católica americana ao longo das últimas décadas e a face pública da Igreja depois da revelação, em 2002, da crise de abusos sexuais por parte de padres, era ele próprio um abusador.

Inicialmente surgiram histórias da sua relação com homens adultos, dois dos quais receberam indemnizações das dioceses de Metuchen e de Newark, onde McCarrick tinha servido enquanto bispo e arcebispo. Essas histórias confirmavam o que se dizia em rumores há muitos anos, que o “Tio Ted” tinha o hábito de pressionar jovens seminaristas e outros para encontros sexuais.

Mas agora surgiu um homem com histórias de abusos praticados por McCarrick quando aquele tinha apenas 11 anos. E, tendo em conta o que já sabemos, não há dúvidas que mais escândalos estão para vir.

Tudo isto tem levado a mais revelações por parte de pessoas que foram abusadas por padres e bispos, alguns de forma chocante, bem como o facto doentio de praticamente ninguém em posição de autoridade ter agido, sobretudo quando havia bispos envolvidos. Se aguentar os detalhes, alguns dos quais são blasfemos e verdadeiramente diabólicos, poderá ficar com uma ideia da natureza do problema aqui, aqui, aqui e, sobretudo, aqui.

Perante isto, não admira que estejamos a assistir a uma onda de revolta na América, mesmo entre católicos fiéis. A julgar pelas muitas pessoas com quem estou em contacto regularmente e que conhecem bem esta matéria, poderemos estar à beira de mais uma profunda interrogação na Igreja, desta feita não devido a queixas sobre padres, mas sim sobre bispos que deveriam ter feito algo sobre outros bispos e pessoas em posição de autoridade.

Já vimos como este assunto azedou a viagem do Papa ao Chile no início deste ano. Dois cardeais chilenos, incluindo um dos que pertence ao grupo de nove conselheiros do Papa Francisco, estão implicados em encobrimento e possivelmente no envio de desinformação ao Papa Francisco. Ainda ontem as autoridades chilenas anunciaram que estão a investigar 158 membros da Igreja que são suspeitos de ter abusado, ou de ter encoberto abusos.

Outro dos principais conselheiros do Papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, das Honduras, foi acusado de corrupção financeira. Mas potencialmente mais sério é o caso do seu subordinado, o bispo Juan José Pineda Fasquelle, que gere a arquidiocese durante as longas ausências de Maradiaga, que teve de resignar depois de várias revelações de abuso sexual de seminaristas, numa situação em tudo semelhante à de McCarrick.

Mas o que é pouco usual no caso de McCarrick é que se trata de um cardeal em exercício que agora foi julgado pelas autoridades competentes por ter cometido ofensas ao longo de muitos anos, mas que continua a ser cardeal. O Papa Francisco tem de fazer algo sobre isto, bem como sobre aqueles que permitiram que a situação se mantivesse.

Porque apesar de o negarem, muitos bispos americanos receberam queixas sobre McCarrick e nada fizeram para o impedir. Mesmo Roma teve de ser informada sobre as indemnizações devido a abusos cometidos mais cedo e sabemos que uma delegação de leigos esteve em Roma para tentar impedir a nomeação de McCarrick para Washington, precisamente por causa das suas inclinações sexuais.

Mesmo o “The Washington Post”, que anteriormente não tinha mostrado qualquer interesse nos boatos sobre McCarrick, observou: “Muitos comentadores na Igreja acham que este é um momento crucial para o pontificado de Francisco, devido à estatura de McCarrick e o facto de estarem a rebentar escândalos de abusos sexuais no Chile e nas Honduras.”

O nosso amigo Phil Lawler escreveu um ensaio de leitura obrigatória, que foi publicado ontem no site da First Things. Saber como é que McCarrick conseguiu abusar de crianças e adultos durante tanto tempo, diz ele, é uma questão importante para a protecção de futuras vítimas, mas: “é menos importante do que saber como é que a sua ascensão pela hierarquia eclesial continuou, apesar de já existirem rumores sobre as suas actividades homossexuais. Porque é que McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington e feito cardeal? Porque é que o deixaram promover os seus protegidos, que depois desempenharam missões diplomáticas para o Vaticano? Como é que pôde influenciar a nomeação de bispos e até de um Papa, depois das suas aventuras na casa da praia se terem tornado conhecimento comum?

Descobrir a resposta a estas perguntas exige um autoexame muito doloroso, tanto nos Estados Unidos como em Roma. Mas a alternativa é continuar como se nada fosse, e isso está a tornar-se impossível.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 25 de Julho de 2018)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Santidade em Fátima e lixo em São Tomé

Santificação em acção em Fátima
Ontem estive em Fátima no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. O ambiente é, de facto, muito especial!

Pude entrevistar o bispo iraquiano Georges Casmoussa, que falou da necessidade de perdão mesmo em casos de perseguição extrema e disse que a reconciliação no Iraque tem de ser liderada por leigos.

Hoje publicamos uma entrevista com o presidente da Conferência Episcopal do Brasil, que também está no encontro. D. Sérgio Rocha elogia o papel das Equipas para redescobrir a alegria do casamento e, noutro tema, diz que é cedo para se saber o sínodo da Amazónia, no próximo ano, irá aprovar a ordenação de homens casados.

Cabinda tem um novo bispo. Saiba porque é que isso é mais interessante do que possa parecer à primeira vista…


E saiba aqui como é que pode ajudar os Leigos pelo Desenvolvimento a comprar um carro de recolha de lixo para São Tomé!


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Henri Caffarel, rogai por nós

Continua a decorrer em Fátima o Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora, que hoje recebeu a visita do cardeal Peter Turkson, que explicou aos presentes porque é que a nossa dignidade não advém das Nações Unidas, mas sim de Deus.

E também hoje ficámos a saber que embora várias graças tenham sido já atribuídas à intercessão do fundador das ENS, Henri Caffarel, ainda falta um milagre cientificamente verificável para avançar com a sua beatificação. Por isso já sabem, tudo a rezar por intercessão dele e, caso não conheçam o seu legado, investiguem e leiam, que vale bem a pena.

Se é como eu, então por vezes deve-se sentir cansado de um clima social, político e até eclesial que parece ser de constante conflito e onde, sobretudo, parecemos estar sempre à defesa e em recuo. Robert Royal, fundador e editor do The Catholic Thing também compreende esse sentimento e é sobre isso, nomeadamente sobre a necessidade de não deixar que as nossas vidas sejam sufocadas por esse ambiente, que ele escreve hoje. O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é para ser lido ao som de música clássica.

Noli impedire musicam

Lenine – que deu ao mundo a máquina de extermínio socialista conhecida por União Soviética – era um amante de música enquanto esteve no exílio. Quando regressou à Rússia, para dar início à Revolução Bolchevique, disse que já não era capaz de ouvir música. “Afecta-nos os nervos, faz-nos querer dizer coisas parvas e simpáticas e fazer festinhas na cabeça de pessoas capazes de criar tanta beleza enquanto vivem neste vil inferno”.

Sempre houve, e sempre haverá, aquele tipo de amante radical da humanidade que está disposto a sacrificar “dizer coisas parvas”, ou mesmo sacrificar pessoas, em nome de algum esquema marado que acabará por tornar o nosso mundo decaído ainda mais vil. Mas há aqui uma lição para nós, sobretudo os que vivem em sociedades ricas e ultra-tolerantes, que podem sucumbir à tentação de pensar que todas as suas vidas devem ser consumidas por guerras culturais, políticas ou espirituais.

Esta tentação é particularmente forte para pessoas em posições como a minha, pelo que é necessário sempre tomar medidas activas, de outra natureza. Da minha parte, tento tocar piano todas as manhãs pelo menos meia-hora, pois isso recorda-me – ainda que não tenha esse efeito sobre quem me ouve – de que a Criação de Deus é harmonia, uma harmonia discordante, por certo, mas definitivamente uma concórdia de criaturas e não um estado de guerra perpétua.

Muitas pessoas enviam-me livros, livros bons, sobre o estado de confusão actual em que vivemos. Agradeço, mas como estou sempre envolvido em leituras pesadas para vários projectos de escrita, muitas vezes não consigo chegar a estes livros, nem agradecer as ofertas. Esta semana, contudo, recebi um livro de um generoso mecenas do The Catholic Thing que me chamou a atenção: Spiritual Lives of the Great Composers [A Vida Espiritual dos Grandes Compositore] de Patrick Kavanaugh, um compositor que é também director do Christian Perfoming Arts Fellowship.

Trata-se de um relato claro e sucinto das crenças religiosas de vinte compositores clássicos de renome, desde Bach a Messiaen, passando por muitos outros grandes nomes. É um registo maravilhoso de como o espírito e a música andaram tão próximos na cultura ocidental, até há bem pouco tempo.

O grande Johann Sebastian Bach, por exemplo, não teve qualquer dificuldade em ver uma interligação entre Deus e a música, tendo dito: “O único propósito da Música deve ser para a glória de Deus e a recreação do espírito humano”. Músico humilde, embora prodigioso (chegou a caminhar 200 milhas para ouvir o então famoso organista Dieterich Buxtehude), costumava assinalar as suas folhas com J.J. (Jesus Juva – “Jesus ajuda”), antes de compor.

Há exemplos semelhantes do mesmo período. Certa vez um criado interrompeu Georg Friedrich Handel enquanto terminava o refrão do Aleluia, para o Messias, e encontrou-o em lágrimas: “Acredito que vi todo o Céu à minha frente, e o próprio Senhor”. (Incrivelmente, se descontarmos a inspiração divina, Handel produziu toda esta obra de evangelização sonora em apenas 24 dias).

Georg Friedrich Handel
Estes músicos viviam em paz e confiantes na sua fé cristã. Kavanaugh não elabora muito sobre a época em que viveram, mas é significativo que eles podiam atribuir a sua obra aos dons de Deus, apesar do facto de muitos deles terem vivido ao mesmo tempo que grandes figuras anticristãs do Iluminismo, como Diderot, Hume e Voltaire. É o género de coisa que não encontramos na maioria dos textos sobre as nossas raízes no Iluminismo do século dezoito.

Claro que Bach e Handel eram protestantes, mas é interessante, e pouco conhecido, que muitos dos maiores compositores clássicos ao longo dos séculos tenham sido católicos (em diferentes graus): Haydn (o mais firme e ortodoxo de todos), mas também Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Chopin, Bruckner, Gounod, Dvorak, Elgar e Messiaen. Stravinsky, talvez o melhor compositor do Século XX, era ortodoxo russo, mas compôs uma missa e outras músicas sacras. Apesar das suas diferenças, estavam praticamente todos unidos na crença de que a inspiração derivava de, e regressava a, o próprio Criador.

O poeta católico moderno Paul Claudel gostava de usar a frase noli impedire musicam (“Não interrompas a música”), uma referência a Eclesiástico 32,3 sobre a importância de não falar durante um festim, enquanto se toca música.  Ele sugeria que o sentido era mais lato: que frequentemente estragamos a música natural do mundo com as nossas arrogantes preocupações.

Fala-se muito, nestes dias, daquela misteriosa frase de Dostoyevsky, “A beleza salvará o mundo”. São João Paulo II e Alexander Solzhenitsyn já forneceram umas importantes reflexões sobre este tema. E de Bento XVI temos isto:

O encontro com a beleza pode tornar-se a ferida da seta que nos atinge no coração e, dessa forma, nos abre os olhos, de modo a que depois, com base nesta experiência, adoptamos os critérios para ajuizar e conseguimos avaliar correctamente os argumentos. Lembro-me de um concerto de música de Johann Sebastian Bach, em Munique, dirigido por Leonard Bernstein, depois da morte inesperada de Karl Rahner. Ao meu lado estava o bispo luterano Hanselmann. Enquanto se dissipava, triunfantemente, a última nota de uma das grandes Cantatas-Thomas-Kantor, olhámos um para o outro e dissemos espontaneamente: "Quem tenha ouvido isto sabe que a fé é verdadeira”.

Não estou inteiramente convencido. Bernstein e muitos outros músicos modernos parecem transformar a própria da música num ídolo, e duvidam do próprio Deus por detrás da música em quem tantos dos grandes compositores acreditavam.

Mas numa coisa Bento XVI tem razão, nomeadamente na importância da “ferida” que a beleza inflige ao coração e a importância que estas feridas têm em abrir-nos a realidades com as quais os nossos argumentos e a nossa lógica frequentemente lidam mal, ou ignoram.

Sempre que eu escrevo sobre este tipo de assunto, normalmente durante o Verão, ou noutras alturas em que conseguimos respirar um pouco mais fundo e pôr os olhos em reinos mais alargados, há alguém que me escreve a dizer que devia deixar-me destas mariquices, porque o que precisamos mesmo é de um partido político militante. De certa forma é verdade, precisamos de facto de uma Igreja Militante.

Mas também me lembro de Lenine, e da importância de dizer “coisas parvas e simpáticas” e do perigo de deixar que os bolcheviques interrompam a música e ditem toda a agenda para as nossas vidas.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 16 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Equipistas aos milhares em Fátima

Está a decorrer, desde ontem, o encontro das Equipas de Nossa Senhora.

O Papa enviou uma mensagem aos participantes, que salvo erro não existe publicada em lado nenhum, se não aqui no meu blog, tanto em português como numa tradução minha para inglês.

Entre os participantes há milhares de casais como o Luís e a Waleska Silva e todos os dias começam com uma reflexão conduzida pelo padre Tolentino Mendonça, recém-nomeado arcebispo.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre aprovou 40 projetos para ajudar os cristãos na Síria, no valor de cerca de três milhões de euros.

E ontem saíram as nomeações de padres para Lisboa, sendo que a principal surpresa é o facto de os jesuítas assumirem a paróquia da Encarnação.


Mensagem do Papa para o Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora

O Papa Francisco escreveu uma mensagem aos participantes no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. A mensagem foi lida em português, durante a cerimónia de abertura, pelo núncio apostólico Rino Passigato. O texto não foi divulgado, pelo que isto é uma transcrição da mensagem lida, com base na filmagem feita pela organização. Caso exista algum erro, fruto da má qualidade do som em algumas partes do vídeo, peço desculpa.

Acolhendo de bom grado o pedido de bênção para os participantes do 12º Encontro Internacional das ENS que se realiza em Fátima, sobre o tema “O Filho Pródigo”, o Papa Francisco saúda-vos fraternalmente, recordando a todos e cada um que a Igreja condena o pecado, porque deve dizer a verdade, mas ao mesmo tempo agraça o pecador que se reconhece como tal, aproxima-se dele, fala-lhe da Misericórdia infinita de Deus.

Que grande alegria e esperança nos dá a parábola do Filho Pródigo. Nela não se fala apenas de acolhimento e de perdão, mas também da festa pelo filho que regressa. O Santo Padre convida todos e cada um a rever-se naquele filho extraviado que voltou e a quem o pai não se cansa de abraçar e repor na sua grandeza de filho.

Comovidos por tão grande benevolência, deixem o coração falar: “É verdade, Senhor, sou um pecador, uma pecadora. Sinto-me tal e tenho a certeza de o ser. Deixei-me enganar de mil maneiras, fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de vós. Resgatai-me de novo Senhor. Aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores".

Aqueles braços abertos na Cruz provam que ninguém é excluído do amor do pai e da sua misericórdia. Ele não quer, nem se resigna a, perder ninguém. Marido, esposa, pais e filhos, bem sabem que aos olhos de Jesus não há pessoas definitivamente perdidas, mas apenas pessoas que devem ser reencontradas, e ele impele-nos a sair à procura delas. Porque se queremos encontrar o Senhor, temos de o procurar não onde nós pretendemos encontrá-lo, mas onde ele nos quer encontrar, e o pastor só pode ser encontrado onde está a ovelha perdida. Fazendo saber que vai à procura da ovelha perdida, ele provoca as outras 99 para que participem na reunificação do rebanho e, se assim procederem, não só a ovelha trazida aos ombros, mas todo o rebanho acompanhará o pastor até casa para fazer a festa com os amigos e os vizinhos.

Então, “tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor. Podemos dizer-Lhe: A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração.”*

Assim consagrados aos corações misericordiosos de Jesus e Maria, podem contar com a sua graça, a mesma graça que há cento e um anos, na pessoa da Virgem Mãe de Deus, refugia os olhos dos três pastorinhos e mudou as suas vidas, para salvarem os pecadores.

Com votos de que a paixão com que estes o fizeram se apodere dos esposos, pais, filhos membros das Equipas de Nossa Senhora, semeadas pelo mundo inteiro, o Papa Francisco concede a sua bênção, extensiva aos assistentes espirituais e orientadores de retiros e encontros.


*Da oração do Papa Francisco na Capelinha das Aparições, durante a sua visita pastoral de 2017.

Pope Francis’ Message to the International Meeting of the Teams of Our Lady

Núncio Rino Passigato, reading the Pope's message
This is my own translation of the Pope's message to the participants of the International Meeting of the Teams of Our Lady. The message was read out during the opening ceremony by Papal Núncio to Portugal, Rino Passigato. It was read out in Portuguese, and the text has not been made available, so this translation is based on the audio as read out by the Núncio and filmed by the organisation of the meeting. I appologise for any error that it might therefore contain.

Having received the request for a blessing for the participants of the 12th International Meeting of the Teams of Our Lady, which is taking place in Fátima, under the theme: “The Prodigal Child”, Pope Francis sends you brotherly greetings, reminding all of you that the Church condemns the sin, because it must speak the truth, but at the same time graces the sinner who recognizes himself as such, draws close to him and speaks to him of the infinite mercy of God.

What joy and hope we find in the parable of the Prodigal Child. It speaks not only of welcoming and forgiveness, but also of the celebration for the child who returns. The Holy Father invites all of us to see themselves in that lost child who returned and whom the father does not tire of embracing and returning to his position of son.

Moved by such goodness, let the heart speak: “It is true, Lord, I am a sinner. I feel myself as such, and am sure of it. I let myself be fooled in thousands of different ways, I ran from your love, but here I am again to renew my covenant with you. I need you. Rescue me again, Lord. Receive me once more into your redeeming arms”.

The open arms on the Cross prove that none are excluded from the love of the father and His mercy. He neither wants, nor resigns himself, to losing anybody. Husband, wife, parents and children, know well that in the eyes of Jesus there is no such thing as people who are definitely lost, only people who need to be found once more, and He encourages us to go in search of them. Because if we want to find the Lord we must search out not in the places where He is, but where He wishes to find us, and the shepherd can only be found by the lost sheep. By letting them know that He is going to search for the lost sheep, he provokes the other 99 into participating in the reunification of the flock and, if they do so, not only the sheep carried back, but the whole flock can follow the shepherd home to celebrate with friends and neighbors.

Hand in hand with the Virgin Mother, and under her watchful gaze, may we come to sing with joy the mercies of the Lord, and cry out: “My soul sings to you, Lord!” The mercy you have shown to all your saints and all your faithful people, you have also shown to me. Out of the pride of my heart, I went astray, following my own ambitions and interests, without gaining any crown of glory! My one hope of glory, Lord, is this: that your Mother will take me in her arms, shelter me beneath her mantle, and set me close to your heart."*

Thus consecrated to the merciful hearts of Jesus and Mary, you can count on His grace, that same grace which one hundred and one years ago, through the Virgin Mary, was reflected in the eyes of the three shepherd children and changed their lives, for the salvation of sinners.

In the hope that the passion with which they did so should fill all the couples, parents, children and members of the Teams of Our Lady spread out through the whole world, Pope Francis bestows on you his blessing.

*From the Pope's prayer in the chapel of the apparitions, in Fátima, during his pastoral visit, in 2017.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Casais aproximam-se de Fátima, SSPX afastam-se Roma

O Papa Francisco escreveu pessoalmente ao Patriarca de Lisboa para agradecer a sua nota a propósito da aplicação do Amoris Laetitia, no que diz respeito ao acesso aos sacramentos por parte de casais em situação irregular. Tanto quanto sei é apenas a segunda vez que o Papa tem um gesto destes.

Começa já na próxima segunda-feira o encontro internacional das Equipas de Nossa Senhora, em Fátima. Esperam-se cerca de 10 mil pessoas. Saiba tudo aqui.

Faz este ano 60 anos que D. António Ferreira Gomes fez frente a Salazar, acabando por ser exilado. O Cónego Arnaldo de Pinho considera que o bispo teve razão no seu tempo. Uma entrevista a ler.

E a Sociedade de São Pio X dá mais um passo para longe de Roma, com a escolha surpreendente de um novo superior geral da ala dura, que se opõe às negociações com a Santa Sé.


Pope Francis' letter of thanks to Patriarch of Lisbon on Amoris Laetitia note

The Patriarchate of Lisbon made public a letter, this Thursday, from Pope Francis to Patriarch D. Manuel Clemente. This follows the publication by the Patriarch of Lisbon, last February, of a note on the application of chapter VIII of Amoris Laetitia

Beloved Brother Cardinal
D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente
Patriarch of Lisbon

I am writing to thank you for having sent me, during the past Lent, the Note you addressed to the priests of the Patriarchate concerning the application of the VIII Chapter of the Apostolic Exhortation Amoris Laetitia.

This deep reflection of yours filled me with joy, as I recognised in it the effort of a pastor and father who, aware of the duty to accompany his faithful, wished to begin with his priests so that they can better fulfil their ministry.

Today, the reality of married life is one of the fields where this accompaniment is most delicate and necessary. That is why I wished to call the Bishops to a long synodal path which might prove propitious – despite the inevitable difficulties – to the maturing of shared guidelines which would benefit the entire People of God.

Therefore, in expressing my gratitude, I would like to take advantage of the opportunity to encourage my Brother Cardinal and his collaborators in the pastoral ministry – in primis the priest – to carry on, with wisdom and patience, in their commitment to accompany, discern and integrate the fragility which shows itself in many forms in couples and their ties. A commitment which, on one hand, requires considerable effort on the part of us pastors, but which , on the other, regenerates us and sanctifies us, as everything is animated by the grace of the Holy Spirit which the Risen Lord bestowed on his apostles, for the remission of sins and the solicitous caring of all wounds.

While joyfully sharing with you, beloved Brother, this sweet and demanding mission, I assure you of your presence in my prayers and, asking that you pray for me also, bless you from my heart, together with your priests and the entire diocesan community of the Patriarchate of Lisbon.

Vatican, 26th June 2018
Franciscus

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Arrupe ao altar e Aga Khan a festejar

Vem aí mais um santo jesuíta? Soube-se hoje que a causa de canonização de Pedro Arrupe foi aberta.

Vila Viçosa acolhe, a partir de amanhã, o “Instituto da Padroeira de Portugal”. Saiba tudo aqui.

Lisboa acolhe, por estes dias, os festejos do jubileu de prata do Aga Khan. A Renascença falou sobre este assunto com a investigadora Faranaz Keshavjee.

E estamos todos muito satisfeitos com o resgate das 12 crianças tailandesas! E bem. Mas o que é que esta operação diz sobre a natureza humana? Mais do que possa imaginar. Tudo aqui, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português, não perca.

Farei de vós Pescadores de Javalis

Michael Pakaluk
Que todos os javalis se salvem! – Esta minha oração, a que se juntam as de muitos outros, terá obtido, se Deus quiser, resposta quando ler estas linhas.

Os Javalis são a equipa de 12 rapazes e o seu treinador, que ficaram presos pelas águas das monções numa pequena câmara, quatro quilómetros no interior de uma rede de grutas no norte da Tailândia. É preciso alguma imaginação para apreciar o drama da coisa.

As grutas são escuras como o breu, sem pinga de luz. As passagens não foram limpas nem polidas para poderem receber turistas, assemelham-se mais a caminhos rigorosos ao longo de escarpas. 

Não é raro encontrar pequenas fendas pelas quais só se consegue passar se dobrar o corpo exactamente da forma correcta. Agora imaginem tudo isso, mas debaixo de água fria, com correntes fortes. Pense na sua caminhada favorita junto a uma falésia, e agora imagine-se a percorrer essa mesma distância, mas nadando, em escuridão total, através de caminhos estreitos, contra a corrente. Porque é isso que é preciso para os tirar de lá. Entretanto têm estado aninhados numa pequena saliência daquela pequena câmara, com o oxigénio a esgotar-se.

Poderia ter sido um grupo de rapazes qualquer, mas são uma equipa de futebol. Este facto pode não significar muito para si, mas não se esqueça que 40% da população mundial tem estado a acompanhar, nos últimos dias, o maior evento desportivo do planeta, o campeonato do mundo de futebol.

Os rapazes entraram para a gruta quase em simultâneo com o primeiro jogo do campeonato. O presidente da FIFA já convidou os Javalis para assistirem à final em Moscovo, no domingo, se estiverem bem de saúde. Não haveria melhor forma de chamar a atenção do mundo para tudo o que têm passado.

O conceito cristão de providência diz-nos que este tipo de provação pública não acontece apenas por acidente, mas são desígnios do plano de Deus que servem para nos ensinar algo. É por isso que podem servir de inspiração para arte de boa qualidade (ou de menor qualidade) como “O Naufrágio do Deutschland”, “No Ar Rarefeito”, “Titanic” e “O Endurance”.

Nosso Senhor dá-nos um exemplo disto: “E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” (Lucas 13:4,5)

Então o que podemos aprender da provação dos Javalis, para além da necessidade de arrependimento?

Aqui temos alguma liberdade criativa. Enquanto filósofo, gosto particularmente da combinação de imagens – uma gruta, debaixo de água. Muitos têm sentido que a vida envolve algum tipo de contenda, ou de teste. Platão concebeu-a na forma de caverna e desde então os filósofos têm apreciado a imagem.

A caverna de Platão era profunda e acidentada, não totalmente escura, mas iluminada por um fogo que lançava sombras. Em princípio era possível sair dela por si. Mas com um guia seria mais fácil e era preciso ser libertado por ele para poder sequer começar a viagem.

Cristo poderia ter usado a imagem da caverna, uma vez que estas abundam na Terra Santa. Mas em vez disso ele imaginou a salvação como um resgate da água, sendo o homem retirado de lá como um peixe. Isto é, em si, interessante.

As cavernas são, por natureza, lugares inóspitos à vida; a água é uma fonte de vida: assim, um homem que se afoga na água não está num lugar onde nenhum ser vivo deve estar, mas simplesmente onde nenhum ser humano deve estar. Mais, a sua salvação pode ser instantânea: basta retirá-lo da água. Aí poderá respirar, ficará ao sol. A ascensão através da água é secundária, uma vez que basta uma poça para se poder afogar. Para além disso, o tempo é limitado. Logo, a principal tarefa de um homem que se está a afogar não é esforçar-se por subir, mas deixar de esbracejar e aceitar a ajuda do Pescador de Homens.

E, no entanto, muitos dos nossos contemporâneos têm mais em comum com esta equipa de futebol. Precisam de ser pescados da água, sim, mas ao mesmo tempo vão-se colocando cada vez mais fundo na caverna. O seu resgate, nesse caso, requer uma combinação hábil de fé e de razão: um testemunho sacrificial de fé, ao ponto da morte, mas também as capacidades necessárias para encontrar passagens através das grutas escuras.

Esta é, para mim, a mais importante lição deste evento. Imaginem o homem abandonado numa saliência, dentro de uma caverna parcialmente inundada. A Igreja deve ir em seu auxílio. Mas será que ela já anteviu a necessidade de ter uma equipa de mergulhadores especialistas para o fazer? Será capaz de identificar os peritos “amadores” que verdadeiramente sabem como lidar com estas circunstâncias, ou aceitará a sua ajuda se eles se apresentarem como voluntários? Já teve apóstolos com essas características, mas precisa de mais.

Há muitas outras lições a retirar, que deixarei ao leitor, com uma excepção. A cooperação internacional que envolveu o resgate destes rapazes permite-nos retirar alguma ilação sobre a natureza humana?

Se a natureza da humanidade fosse de estado de guerra de todos contra todos, quando uma equipa de elite da marinha tailandesa nadasse quatro quilómetros através das águas escuras de uma caverna não para eliminar, mas para salvar, o grupo que lá se encontra, estaria a agir contra a natureza humana. O seu aparente heroísmo resultaria apenas da convenção e da ameaça de punição por incumprimento.

Mas claramente não é esse o caso, e gostamos de nos lembrar que assim é. Gostamos de histórias como esta, do resgate da caverna, porque nos mostra que os militares são, fundamentalmente, agentes de paz e porque a humanidade, não obstante o pecado e a morte, está enfim, em paz.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 10 de Julho de 2018)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Kavanaugh e Nicarágua

A Igreja da Nicarágua suspendeu o seu papel de mediadora na crise política, depois de dois bispos e o núncio apostólico terem sido agredidos por paramilitares.

No Japão o número de mortos devido às cheias não pára de subir. O Papa enviou ontem um telegrama de solidariedade com aquele país.

Donald Trump nomeou ontem um candidato para suceder ao resignatário Anthony Kennedy, no Supremo Tribunal. Trata-se de Brett Kavanaugh.

E o que é que isso tem a ver com actualidade religiosa? Tudo, como se explica aqui.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Preconceito Anticristão Despercebido

Hoje em dia quando pensamos em cristãos perseguidos a maior parte de nós pensa em locais como a China, o Médio Oriente, ou estados pária como a Coreia do Norte, Venezuela ou Cuba. São casos apontados ocasionalmente, mas que recebem pouca publicidade nos media seculares. Normalmente são os meios de comunicação religiosos, católicos e protestantes, que se ocupam de nos manter informados sobre as dificuldades dos nossos correligionários no mundo moderno.

Mas existe toda uma outra dimensão de ameaças aos cristãos que passa praticamente despercebida. Sabemos que existe pressão sobre organizações religiosas e igrejas na América – bem como crentes isolados como floristas ou pasteleiros – para se acomodarem às tentativas do Estado ou das agências federais para impor uma nova ética sexual, ou para aplicar as leis que regulam o “discurso de ódio” ou o preconceito contra crentes.

Até agora o Supremo Tribunal tem sido bastante bom a proteger a liberdade religiosa. E se o Presidente Trump – como é provável – conseguir nomear para o tribunal mais um juiz (ou dois?) que seja sensível à importância das defesas constitucionais da liberdade religiosa, poderemos ter protecção a longo prazo do constante ruído anticristão nas universidades, nos media e em Hollywood.

Há anos que tenho conhecimento da existência de problemas semelhantes na Europa, onde normalmente não existem as mesmas protecções ou recursos jurídicos que nós temos ao abrigo da Primeira Emenda. Mas não tinha noção da verdadeira extensão dos problemas que lá existem – e penso que poucos terão – embora agora tenhamos um excelente instrumento com o qual os podemos medir.

O Observatório de Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa publicou um relatório de 74 páginas, relativo a 2018, que nos abre verdadeiramente os olhos (podem lê-lo online, aqui). Não se trata simplesmente de uma compilação de queixas ou de reacções exageradas aos choques típicos de sociedades pluralistas. Fornece um retrato de um problema extensivo que deve interessar a toda a gente que se importa com a liberdade, incluindo a liberdade religiosa.

Uma das coisas mais marcantes do relatório é o cuidado com que foi elaborado, a começar pelos termos que o definem: “O termo ‘intolerância’ refere-se à dimensão social ou cultural e, no pior caso, inclui crimes de ódio contra cristãos; o termo ‘discriminação’ refere-se à dimensão legal e inclui interferências com a liberdade de expressão, religião, consciência, livre associação e reunião, direitos paternais, liberdade contratual, remoção de símbolos cristãos pelo Governo, leis que afectam os cristãos de forma negativa e acesso desigual à justiça”.

Ao ler este parágrafo ficamos espantados por saber que estas coisas estão a acontecer na Europa, hoje. O observatório cita o Papa Francisco que diz que existem dois tipos de perseguição anticristã. A primeira é aberta, como se vê em locais como o Paquistão, e é clara, explícita e inegável. A segunda é “perseguição bem-educada (…) disfarçada de cultura, de modernidade ou de progresso”.

O relatório também divide a perseguição na Europa em duas categorias com nomes mais coloquiais: “Apertar” e “esmagar”. Os apertos estão a transformar-se num fenómeno internacional, como se vê por estas discrições, que têm paralelos na América: “Em França, um farmacêutico foi sancionado por se recusar a vender um DIU, um aparelho abortivo. Parteiras suecas que se recusam a participar em abortos perderam os recursos por despedimento injustificado e tiveram de pagar custas de tribunal. Um lar católico na Bélgica foi multado por impedir que os médicos administrassem uma injecção letal e outro na Suíça foi ordenado a permitir o suicídio assistido nas suas instalações, sob pena de perder os apoios estaduais”.

Isto já é mau em si. Mas os casos de esmagamento são ainda mais preocupantes. Muitos envolvem ataques por parte de muçulmanos a membros do clero ou a pessoas que ostentam cruzes ou outros artefactos religiosos. Se apenas ouve as notícias dos media generalistas, dificilmente saberia que estas coisas acontecem, a não ser que surja um caso impossível de ignorar, como o assassinato, em 2016, do padre Jacques Hamel, em França, às mãos de dois extremistas muçulmanos.

Mas não são apenas os muçulmanos. A maior parte do relatório do Observatório descreve mais de 500 casos de intolerância e discriminação, acompanhados de links que lhe permitem ver o que se passou em maior detalhe.

Um dos sinais da seriedade de tudo isto é que o Observatório não se contenta meramente em relatar estes abusos, mas faz sugestões concretas sobre o que poderá ajudar a contrariar aquilo que parece ser uma moda em crescimento. Duas dessas sugestões chamaram-me a atenção e são cruciais para sociedades onde se tornam cada vez mais aceitáveis atitudes anticristãs: “Os líderes de opinião devem ter noção da sua responsabilidade em formar um discurso público tolerante, e devem evitar estereotipar negativamente os cristãos ou o cristianismo. Os artistas devem respeitar os locais e os símbolos religiosos, tendo em conta que o objecto da sua arte poderá ser muito sagrado para os fiéis”.

Isto já seria muito bom, claro, embora os nossos intelectuais antirreligiosos não devam levar tais conselhos muito a peito. No fim das contas, porém, são as autoridades públicas, a todos os níveis, que devem ser confrontadas com as provas dos seus próprios preconceitos e erros. E devem ser obrigados a não os esquecer.

No caso americano da Masterpiece Cakeshop o nosso Supremo Tribunal notou, correctamente, a hostilidade aberta revelada pelo comissários dos direitos civis do Colorado para com o pasteleiro que se recusou a criar um bolo especial para um casamento gay. Desde então algumas pessoas comentaram que a decisão do tribunal não representou propriamente uma vitória, porque deu a entender que o tribunal só agirá quando existirem provas de preconceito anticristão aberto.

É bom que tenhamos isso em conta, uma vez que vão surgir outros casos parecidos. Mas os nossos amigos europeus fizeram bem em denunciar governos, a todos os níveis, por permitir discriminação subtil e – como temos visto nos Estados Unidos – o abuso de leis contra a discriminação para discriminar os cristãos.

Não vai ser uma batalha fácil. Mas quanto mais nós fizermos em termos de registar e denunciar o tipo de abusos identificados pelo Observatório, mais difícil será para os preconceituosos anticristãos.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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