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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Não Existe Cultura Secular

James Matthew Wilson
O Simon During formulou um argumento deprimente, mas convincente, sobre a relação entre religião e cultura na revista “The Chronicle of Higher Education”, uma referência no meio académico actual. Diz ele que a secularização do Ocidente moderno não implicou o abandono da religião, mas a sua redução a uma dimensão opcional da vida humana (uma ideia retirada do importante livro “A Secular Age”, de Charles Taylor). A despromoção da religião levou à promoção da cultura. A cultura, nos tempos modernos, tornou-se um novo termo-divino que dá coerência à civilização e à sociedade – uma espécie de substituto imanente para a transcendência da fé cristã. Como defendia Matthew Arnold, a cultura salvar-nos-á da anarquia.

Mas essa substituição está agora a ser desfeita, argumenta During, por uma segunda secularização. Tal como a autoridade da Igreja sofreu uma erosão por causa de vários eventos que convergiram numa ordem política secular, agora uma série de eventos, desde o neoliberalismo até ao feminismo e à política identitária, levou à rejeição dos cânones da cultura.

Já não é necessário ter uma certa apreciação pela Paixão de São Mateus, de Bach, ou da Eneida, de Virgílio, para se ser considerado um ser humano minimamente civilizado. Pelo contrário, esse tipo de conhecimento pode ser prejudicial. Mais vale passar o tempo a estudar análise de risco ou cibersegurança, dizem-nos os tecnocratas neoliberais. Ou então crítica pós-colonial de Virgílio ou, melhor ainda, deixar esse cadáver para trás em troca pelo estilo lírico de uma representante de povos não-ocidentais, ou um defensor da “pedagogia dos oprimidos”.  

Esta versão da história proposta por During pode não seguir as leis férreas da história, mas tem a sua própria dinâmica que é difícil de contrapor, ainda que não sejamos fãs. Mas eu gostaria de olhar apenas para a ligação que ele faz entre as secularizações religiosa e cultural e levantar algumas questões sobre a própria ideia de a cultura ser um “substituto” da religião. Na minha opinião as grandes obras culturais são antes expressões fortes da verdade do Cristianismo.

Não é por acaso que autores do início do Século XX, como Henri Massis, Charles Péguy, T.S. Elliot e Christopher Dawson tendiam a alternar entre a defesa do Cristianismo e da cultura, usando o termo nebuloso “Ocidente”. Eles compreendiam, e bem, que o Cristianismo transcende todas as realidades históricas, incluindo a cultura ocidental, e sabiam também que seria difícil, se não impossível, ter uma sem o outro.

Viam-no porque é, de uma forma muito particular, verdade. Devemos aos melhores filósofos pagãos as descrições mais convincentes e bem articuladas sobre o que significa ser humano. Os seres humanos são criaturas cuja alma aspira, por natureza, ao conhecimento da verdade por si só; criaturas que não desejam apenas a verdade, mas precisam de a contemplar. Assim nos sentimos preenchidos, felizes, e as nossas vidas transformam-se da vã perseguição da glória mundana para o descanso na eterna glória de tudo o que é, do próprio Ser.

Esta foi uma conquista cultural difícil, mas mais importantemente, foi uma conquista religiosa. A revelação de Deus a Israel e o envio do seu Filho ao mundo para proclamar a Boa Nova conduziu o mundo à plenitude predestinada da sua compreensão. A contemplação da verdade preenche-nos porque a Verdade é uma pessoa que nos criou para o conhecermos e amarmos. Encontrá-lo e viver nele não é apenas uma boa nova, é a única nova que permanece sempre boa.

A era moderna descrita por During e Taylor como sendo secular nunca abandonou verdadeiramente estas visões, embora as tenha truncado e despido dos seus verdadeiros sentidos. Reconhecia que existia algo distintivo e misterioso sobre as pessoas: Somos feitos para a transcendência. A era moderna simplesmente parou de especificar de que tipo de transcendência estava a falar e, pelo caminho, ofuscou a sua própria visão.

Sim, temos almas, dizem os modernos: elevamo-nos acima das nossas existências materiais, pelo menos de tempos a tempos, num ato de autoconsciência. As obras da alta cultura são tudo o que parecem ser – desde a filosofia de Kant às pinturas de Friedrich, à opera de Wagner ou à poesia de Rilke. Recordam à alma esquecida que é capaz de subir acima das leis mecânicas da natureza, ainda que apenas por instantes.

Enfim, a cultura moderna também pôde afirmar esta elevação, este êxtase, mas só como um tipo de patologia. Temos momentos de iluminação e depois afundamo-nos novamente na carne. “Tangendo-me de ti [espírito eterno] de volta à solidão”, como escreveu Keats. Eventualmente as pessoas compreenderam o esquema. Para quê preocupar-se com uma transcendência sem sentido? Parece demasiado etérea quando comparada com a transcendência mais funcional do dinheiro, através do qual asseguramos para nós mesmos uma imortalidade em miniatura. Já a elevação cultural parece uma indulgência narcisista quando comparada com a transcendência de perseguir bens políticos que poderão permanecer para além de nós.

Uma secularização sucede necessariamente à outra. A fundação da cultura, como disse frequentemente Joseph Pieper, é o cultus – o culto. Sem um claro sentido da nossa orientação para a contemplação de Deus, todas as obras do homem que parecem verdadeiras, boas, e belas começam a parecer primeiro meras distrações e finalmente ilusões.

Em “A Pessoa e o Bem Comum” Jacques Maritain argumenta que o ser humano é uma criatura ordenada para a comunhão imediata com Deus, mas que a personalidade revela ainda uma tendência para a comunhão com outros seres. O tesouro da cultura, como ele lhe chama, é simplesmente a irradiação da verdade e da beleza produzidos pela nossa tendência natural para nos unirmos a Deus e aos outros enquanto pessoas.

Se a Verdade não fosse uma pessoa com quem nos encontramos, não haveria uma experiência primordial da qual a cultura é uma espécie de fruto, nenhuma orientação para o sagrado, nenhuma expressão de nós mesmos na ordem “secular”. Mas pelo contrário, todos os nossos encontros com a obras culturais são pistas, reflexões, ecos sobre a natureza e o destino do homem. Escutem-nos.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Uma América Pós-Cristã?

Gunnar Gundersen
A sondagem recentemente publicada pela Pew Forum, que dá conta da continuada erosão da fé cristã nos Estados Unidos, levou a uma torrente de comentários sobre a América “pós-cristã”. E mesmo antes desta última ronda de previsões o termo “pós-cristão” já tinha sido usado por muitos comentadores.

Entre estes inclui-se o Rod Dreher, que o usou no subtítulo do seu livro “A Opção Beneditina”. Mas será que uma nação pode alguma vez tornar-se pós-cristã?

Tendemos a discutir o estado da religião na América da mesma maneira que falamos de modas sociais que vamos ultrapassar, como perucas ou cassetes VHS – a sociedade há de se esquecer. A América, pensamos, vai cansar-se do Cristianismo.

Mas o Cristianismo não é uma teoria, é um encontro com uma Pessoa, com o Alpha e o Omega. Cristo é o fim de todas as coisas. Não é possível simplesmente ultrapassá-lo depois de O ter aceite.

Tal como diz o Papa Bento XVI em Spe Salvi, uma sociedade que rejeita Cristo não se limita a seguir em frente. Pelo contrário, este tipo de sociedade irá, como disse Kant, colocar-se em oposição a Cristo. Assim, em vez de pós-cristã, uma sociedade que rejeitou o Cristianismo deve tornar-se necessariamente anticristã. “Portanto, não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no ‘fim perverso’ de todas as coisas, descrito por Kant [reino do Anticristo]: já o vimos e vemo-lo sempre de novo.” [23]

Nos lugares onde a Cruz é substituída por símbolos estranhos e novas ideologias, aqueles que vivem de acordo com a Cruz não podem se tolerados. Desde a Revolução Francesa à Revolução de Outubro da Rússia, já vimos esta novela vezes e vezes sem conta. A nossa deriva nesta direção poderá estar disfarçada pelas boas maneiras anglo-americanas, mas isso não muda o objetivo final pretendido.

A imagem romântica de cristãos resistentes a sobreviver segundo a “opção beneditina” numa América pós-cristã pode parecer bonita, mas não passa de uma fantasia. Não haverá onde nos escondermos se os nossos vizinhos decidirem que o Cristianismo não é digno do seu amor.

É de realçar que alguns académicos e activistas de esquerda já começaram a descrever o baptismo infantil e a formação cristã como formas de abuso infantil ou violações dos direitos humanos. Se a tendência de descristianização continuar não é provável que esta posição continue remetida para as margens durante muito mais tempo, partindo do princípio que ainda o é. Aliás, uma das principais defensoras desta teoria é a antiga Presidente da Irlanda, Mary McAleese, que a desenvolveu na sua tese, feita na Universidade Gregoriana de Roma. Não é propriamente uma pessoa das margens.

A ideia de que será possível chegar a um nobre entendimento entre os cristãos e os arquitectos da América pós-cristã não deve ser levada a sério. Aquilo de que precisamos é de testemunho e da disposição para sermos francos sobre a necessidade do Cristianismo para o correcto funcionamento da democracia no Ocidente, como explica o cardeal Joseph Ratzinger:

Entretanto o facto permanece que esta democracia [moderna] é produto da fusão das heranças grega e cristã e por isso apenas pode sobreviver com esta ligação fundacional. Se não voltarmos a reconhecê-lo e, por conseguinte, aprendermos a viver a democracia com vista ao Cristianismo e o Cristianismo com vista ao estado livre democrático, arriscamo-nos certamente a perder a democracia.

O pacto do Mayflower
John Adams disse o mesmo, da seguinte maneira: “A nossa Constituição foi feita para um povo moral e religioso. É inteiramente desadequado ao governo de qualquer outro”. E em Gettysburg Abraham Lincoln também reconhece que esta República se colocava “sob Deus”. Este entendimento penetrou o nosso juramento, o lema e os feriados nacionais.  

Os cristãos devem insistir que a sociedade não pode ser livre e simultaneamente anticristã. As primeiras colónias foram fundadas para promover a religião cristã através do Governo consentido. Isso fica claro nas palavras do Pacto do Mayflower: Tendo empreendido para a Glória de Deus, e Avanço da Fé Cristã, e Honra do nosso Rei e País, uma viagem para estabelecer a primeira colônia no norte da Virgínia; os presentes fazemos pacto solene e mutuamente na Presença de Deus e nós próprios, para conjuntamente formar um Corpo Político Civil para nossa Ordem, Preservação e Fomento dos objetivos referidos acima.

Ratzinger reconheceu que a fusão dos ideais democráticos com o dever cristão, própria da América, marcou o nascimento da democracia moderna: “A democracia como a entendemos hoje não surgiu automaticamente a partir desta raiz mas, de facto, foi formada primeiramente à luz das circunstâncias especiais do congregacionalismo americano, ou seja, à parte das tradições clássicas europeias da relação Igreja-Estado que cá se desenvolveu historicamente”. Esta fusão espalhou-se depois pelo mundo à medida que a influência global da América aumentou.

Os nossos concidadãos precisam de ouvir dizer que a democracia americana não pode sobreviver sem o respeito e o apoio da moral e da religião judaico-cristãs. Isto não é o mesmo que defender uma visão teocrática de Governo, é simplesmente reconhecer a raiz que alimenta o sistema democrático, que hoje muitos reconhecem como estando em perigo.

John F. Kennedy, Ronald Reagan e Barack Obama todos reconheceram a vontade dos primeiros colonos de fundar a América como uma cidade no topo de um monte – recordando o sermão de John Winthrop: 

Veremos que o Deus de Israel está entre nós, quando dez de nós serão capazes de resistir a mil dos nossos inimigos, quando ele fizer de nós um louvor e uma glória, tanto que os homens dirão das próximas colónias: ‘que o Senhor a faça como a de Nova Inglaterra’. Pois devemos considerar que seremos como uma cidade no topo de um monte.

Winthrop acrescentou um aviso, que os nossos políticos tendem a não mencionar mas que ecoa nas palavras de Bento XVI : 

Os olhos de todos os povos estão sobre nós. E se formos falsos com o nosso Deus nesta obra que empreendemos, e assim o levarmos a retirar de entre nós a sua presença, fará de nós uma história e uma lição para o mundo.

Um aviso pertinente de que apenas teremos esta República – sob Deus – enquanto a conseguirmos manter.


Gunnar Gundersen é investigador na James Wilson Institute on Natural Rights and the American Founding. A sua área de pesquisa inclui Liberdade Religiosa, Direitos de Propriedade e Jurisprudência.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 16 de Novembro de 2019)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Cristãos em queda nos EUA e aliviados na Síria

Inês Leitão
O Cristianismo continua a perder peso nos Estados Unidos, com o número de pessoa que se identificam com esta religião a cair 12 pontos percentuais nos últimos dez anos.

Na Síria chegámos a um ponto em que a operação “Primavera da Paz” se está a transformar na operação “Pesadelo de Erdogan”. A bola parece estar no campo dos curdos, agora, mas os cristãos contactados pela Ajuda à Igreja que Sofre dizem-se aliviados pela chegada das tropas leais ao regime de Bashar al-Assad.

No dia para a erradicação da Pobreza a Renascença falou com Inês Leitão, a realizadora que foi a Moçambique ver o que a Cáritas tem feito para ajudar as vítimas dos ciclones.

Se não conhece ainda, fique a conhecer o trabalho feito pela Irmandade da Misericórdia de São Roque, que cumpre o importantíssimo trabalho de sepultar os mortos que não têm ninguém.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é da autoria de Michael Pakaluk, que analisa o mais recente livro de R.R. Reno. Vale a pena ler.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Cristianismo em acção

Todas as noites tento rezar com os meus filhos, primeiro com os três mais novos, depois com os três mais velhos.

Ontem, em vez de rezar, sentei-me com eles para ver este vídeo.

Temos aqui o Jean Brandt a usar da sua prerrogativa de falar em tribunal na altura em que a homicida do seu irmão é sentenciada. Botham Brandt foi morto quando uma polícia chegava a casa e - segundo diz - entrou no apartamento dele por engano, pensando ser o dela. Ao ver um homem desconhecido no que pensava ser o seu apartamento, baleou-o duas vezes.

A resposta de Jean Brandt em tribunal vale mais que todas as catequeses, todas as homilias. É Cristianismo em acção. É heroísmo. É santidade. É tudo o que eu quero que os meus filhos sejam.


terça-feira, 19 de março de 2019

Tarrant não é fruto do Cristianismo, é fruto do seu abandono


Por mais que algumas pessoas, incluindo o presidente da Turquia, Erdogan, insistam em dizer o contrário, o terrorista de Christchurch não era cristão.

No seu manifesto ele fala de Cristianismo, mas quando chega ao ponto de se identificar, ou não, como cristão, responde que “isso é complicado, quando souber, digo”, o que deixa bastante a desejar em termos de profissão de fé. Nisto, segue a tendência de outros famosos terroristas raciais. A excepção é Anders Breivik que, no seu manifesto, diz que foi baptizado, mas deixa esta explicação importante: “Se alguém tem uma relação pessoal com Jesus e com Deus, então é um cristão religioso. Eu, e muitos como eu, não temos necessariamente uma relação pessoal com Jesus Cristo e com Deus. Contudo, acreditamos no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, identitária e moral. Isso faz de nós cristãos”. Lamento desiludir-te Breivik, mas não, não faz.

A questão preocupante, para mim, é que tanto Breivik, que matou dezenas de pessoas inocentes na Noruega, como Tarrant, que matou 49 pessoas inocentes na Nova Zelândia, alegaram estar a agir em defesa da cultura e da civilização ocidentais.

Sempre achei fascinante como alguém pode alegar defender uma cultura e uma civilização rejeitando precisamente o Cristianismo que é o elemento aglutinador. Tirando o Cristianismo, o que é que um português tem em comum com um finlandês? Ou com um russo? Não é de espantar que fiquemos reduzidos à questão racial, aliás, forçadíssima… Basta colocar lado-a-lado um português típico e um finlandês para se ver as diferenças em termos de tonalidade da pele.

E quando nos agarramos a coisas tão básicas como a cor da pele, tão efémeras como especificidades culturais e tão fluidas como a língua, claro que nos sentimos sempre sob ameaça e vemo-nos forçados a adoptar numa mentalidade de trincheira que vê qualquer pessoa de cor, cultura ou língua diferente como um perigo ou, para usar o termo infeliz de Tarrant, invasor.

O abandono do Cristianismo transforma a cultura europeia numa carcaça. Vemos isso tanto na decadência cultural da Europa relativista que abandonou a sua religião voluntariamente, como na retórica nojenta dos racistas atuais. São fenómenos que se alimentam mutuamente, duas faces da mesma moeda. Uma apostada num lento suicídio, outra em morrer matando.

Eu não sei porque é que Tarrant não se assume como cristão. Só Deus sabe o que se passa naquela cabeça. Mas sei que se ele fosse de facto cristão não conseguiria justificar o seu acto em qualquer manifesto, tal como Breivik só podia mesmo ser um “cristão” sem relação com Deus ou com Jesus para achar que a religião que manda amar os inimigos é compatível com a matança de inocentes.

Mentalidades como a de Tarrant e de Breivik não são fruto do Cristianismo, são fruto do seu abandono e devem servir de alerta para os guerreiros culturais que querem extirpar a fé da nossa civilização. O Cristianismo é um travão ao extremismo cultural, racial e étnico. Não é um travão infalível, como bem sabemos, mas é um travão potente. Livramo-nos dele à nossa conta e risco.

Que Deus acolha na sua misericórdia os mortos e que os cristãos sejam firmes e unânimes na sua condenação destes actos e da mentalidade que lhes está subjacentes. O nosso lugar nunca será ao lado destes homens, mas sempre das suas vítimas, independentemente da sua religião.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Duas filosofias de vida

No pós-Segunda Guerra Mundial, um cientista de Oxford escreveu um livro curto e tocante em que examina as verdades da fé cristã de “forma científica”. A obra é pouco conhecida hoje, mas as ideias exploradas em “Two Ways of Life” de Sherwood Taylor, são relevantes para a situação presente no Ocidente pós-cristão.

Taylor examina duas formas de vida – a cristã e a materialista – perguntando que impacto visível é que cada uma destas filosofias tem sobre o indivíduo e a sociedade. É, admita-se, uma abordagem simples, mas uma que pode ser iluminadora para qualquer tempo e para as verdades da Fé. Como o próprio Cristo disse, “pelos seus frutos conhecê-los-ão”.

A nossa vida interior tem impacto sobre tudo e sobre todos. O cristão sabe o propósito da sua vida: servir a Deus e salvar a alma. Como guias neste caminho, tem a vida e os ensinamentos de Jesus, a sabedoria das Escrituras e a autoridade da Igreja. Toda a sua vida é marcada por diversos amores que radicam, como diz Dante, no “amor que move o sol e as outras estrelas”. Anseia imitar Nosso Senhor, um objectivo gloriosamente alto.

No quadro geral do Cristianismo, uma criança é acolhida no mundo como um dom, não como um fardo. É baptizada como criatura de Deus. Rapidamente aprende sobre Cristo e sobre a natureza incomensurável da Encarnação.

Aprende que não pode servir a Deus e ao dinheiro, que os poderes desta vida não lhe devem dizer respeito e que o sofrimento – se vier – deve ser acolhido como forma de se configurar com a vida divina. Vê a beleza da criação em todas as coisas. Tenta colocar o amor no centro da sua vida. Falhando isso, pede perdão. Quando a morte chegar, não é o fim. Reza para que possa alcançar o Céu.

Já o materialista parte de uma posição desprovida de finalidade. A livre vontade é impossível. Tudo acontece por necessidade e a ideia de escolha é uma triste ilusão. Como é que se vive depois de rejeitar a existência de um propósito no cosmos?

A sua vida é preenchida com diferentes objectivos e preocupações. Tudo o que o ajude a evitar ponderar o sem sentido do vazio. Nas palavras de Sherwood Taylor, “quem rejeita a crença no espírito deve esforçar-se por esquecer a escuridão do sepulcro sem fim, distraindo-se com brinquedos”. E que brinquedos são estes? Dinheiro, prazer, poder – as diversões do costume.

Claro que, em si mesmas, estas coisas apenas podem redundar num sentimento de vazio. Enquanto o cristão sabe que “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”, o materialista tem sempre presente um sentimento de vazio interno. Sherwood cita o Fausto, de Goethe, para o ilustrar:

Em mal, que é certo.
Quanta ciência em mente de homem cabe
Toda em balde juntei; por mais que explore,
Força nenhuma se criou cá dentro;
Não cresci a grossura de um cabelo,
E em nada do infinito estou mais perto.

Frank Sherwood Taylor
Claro que não há falta de materialistas que, de facto, procuram o bem – a maioria das vezes, porém, através de formas de altruísmo que radicam nas brasas adormecidas das sociedades cristãs. Não encontramos muitos materialistas a apoiar publicamente atitudes pré-cristãs para com os pobres e deficientes, por exemplo. É excepcionalmente difícil fazer uma defesa racional do altruísmo materialista.

Da perspectiva do materialismo, muita sorte tem a criança a quem é permitido sair do ventre. Se o fizer, rapidamente absorverá a moralidade da moda, a que falta qualquer base objectiva. É-lhe dito que as suas acções são simplesmente “claramente certas ou erradas”. Virá a perceber que a não ser que mate alguém, é provavelmente uma “boa pessoa”, seja o que for que isso significa.

Aprende que a prosperidade é algo da maior importância, que o sexo é separável do amor e do casamento e que vive num período de grande liberdade e progresso. Procura encher a sua vida com confortos. No fim, enfrenta sozinho o vazio. Não passa de um “conjunto de átomos” sem qualquer importância num universo vasto e indiferente. Será de admirar que os idosos e os “economicamente inúteis” são descartados nas nossas sociedades progressistas?

Ao nível da sociedade, as filosofias cristã e materialista propõem visões francamente diferentes do Estado ideal e das suas relações com a pessoa. Sherwood Taylor nota que o cristão preocupa-se com uma sociedade enquanto composta por indivíduos, enquanto o materialista vê a sociedade como uma massa.

O cristão é chamado a amar o seu próximo como a si mesmo, sendo o seu “próximo” qualquer pessoa que encontrar. Ele sabe que é responsável diante de Deus pelos seus actos, sobretudo para com os pobres e oprimidos: “Pois eu tinha fome, e deste-me de comer”. Mas o materialista contemporâneo, pelo contrário, preocupa-se com conceitos abstratos e grupos de interesse. Assim se explica o surgimento de “comunidades” e “identidades” particulares, que requerem intervenção social e a intrusão do Estado em cada faceta da vida.

Os seres humanos tornam-se meros números com os quais a burocracia do Estado pode interferir na sua busca pela utopia terrestre. De acordo com este esquema, o indivíduo existe para benefício do Estado. O Estado torna-se um novo Deus, com a política no lugar da religião. Os adversários políticos são a encarnação do mal e ultraje falso substitui o discurso político racional.

A análise de Sherwood Taylor é incrivelmente potente. Claro que o impacto desta ou daquela filosofia de vida não nos dá toda a certeza sobre a sua veracidade. Mas não deixa de comprovar muita coisa. Desde os tempos de Sherwood Taylor assistimos a uma grande mudança moral no Ocidente. A rejeição do código moral cristão não se traduziu numa população emancipada e racional. Pelo contrário, resultou numa terrível e triste confusão tanto na vida pública como privada. O que é que isto nos diz?


Christopher Akers é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.


(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Maio de 2018 em The Catholic Thing)


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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ela não quer salvar o mundo sozinha, mas vai fazendo a sua parte

Joana Gomes
A Joana não pretende salvar o mundo sozinha, mas continuará no Chade, a única branca no campo de refugiados onde trabalha, enquanto Deus a quiser lá. Se pensam que tiveram um dia chato no trabalho, leiam esta entrevista. Se o dia correu bem, leiam na mesma.

O Chade é longe e a vida é difícil, mas é bastante pior para cristãos que vivem num dos 10 países que mais perseguem o Cristianismo, segundo a organização Open Doors. Conheça essa lista aqui.

O Papa vai na segunda-feira para o Chile e segue para o Peru. Não é desta que visita a Argentina, mas pelo menos 40 mil argentinos vão visitá-lo a ele.

A primeira-ministra do Reino Unido nomeou uma vice-presidente do Partido Conservador para promover a integração das mulheres. As organizações e figuras pró-aborto do país tiveram um ataque porque ela é, pasme-se, pró-vida e pretende ser uma voz para os que não têm voz. Bravo Maria Caulfield!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Estou chateado com o Bruno Nogueira

Ao longo dos últimos dias recebi várias mensagens de católicos a alertar-me para uma rubrica do Bruno Nogueira em que ele ofende Nossa Senhora de forma vil e baixa.

Normalmente ignoro esses apelos. Os católicos têm de perceber que os humoristas ganham dinheiro a fazer humor e que a forma mais simples e básica de fazer humor é à custa de outros. De vez em quando os católicos vão estar na mira dos humoristas, é a vida. Por vezes conseguiremos rir-nos de nós próprios, outras vezes ficaremos chocados com o que ouvimos e serão apenas os outros a rir, mas seja como for as campanhas organizadas de revolta, que têm sempre o efeito de aumentar as audiências e os cliques da dita ofensa, acabam por ser contraproducentes e passam uma imagem dos cristãos como gente histérica e sem sentido de humor.

Mas desta vez fui ouvir e confesso que fiquei chocado e chateado.

Não foi com as piadas… Só quem conseguiu viver até agora passando ao largo de uma tradição de dois mil anos de piadas sobre o nascimento virginal de Cristo é que pode ficar chateado com as larachas sofríveis e pouco imaginativas do Bruno Nogueira. Vá, todos temos dias maus no trabalho.

O que me chateia é que alguém com tempo de antena fixo na RDP, ou seja, pago pelos contribuintes, possa ter direito a cinco minutos para falar sobre um feriado e confundi-lo com outra coisa qualquer. 

Imaginem agora que a RDP me convidava para fazer um curto programa sobre o 1º de Dezembro e eu dedicava-o a falar do regicídio e da implantação da República? Pois foi basicamente isso que o Bruno Nogueira fez. Propondo-se a falar sobre o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, conseguiu falar durante vários minutos sobre outra coisa totalmente diferente, que é a concepção virginal, confundindo ainda “pecado original” com relação sexual.

Por amor de Deus Bruno! A festa da Imaculada Conceição assinala o facto de Nossa Senhora ter sido concebida sem pecado original, ou seja, sem a propensão para o pecado que a todos nos limita a liberdade. Não tem nada a ver com sexo, lamento informar-te.

Aquilo sobre o qual tu escreveste é a concepção virginal de Jesus Cristo, festejado no dia de Nossa Senhora da Encarnação, por ser o dia em que Deus encarnou. É a 25 de Março, por ser nove meses antes do Natal. Estás a ver a ligação? Giro não é?… Pois.

Tenho para mim que o melhor humor é aquele que consegue divertir o seu público e ao mesmo tempo deixá-lo mais inteligente. Mas o Bruno Nogueira conseguiu fazer uma rubrica inteira que não só não teve grande piada, como deixou uma boa parte da população mais ignorante. Mas enfim, como já disse, dias maus no trabalho todos temos. 



PS: Se depois de tudo isto ainda querem ir lá dar mais um clique, o programa pode ouvir-se aqui.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Make America Christian Again

David Warren
O erro é um grande dissipador de tempo e de energia. Quem o disse foi Goethe, numa carta que escreveu a alguém, mas poderia ter sido outra pessoa qualquer, em qualquer outro lado. Sim, Goethe diz que num mundo em que o erro se repete de forma incessante, a verdade deve ser repetida frequentemente.

Recordei-me desta máxima devido ao meu péssimo hábito de ler as notícias – outra actividade que dissipa tempo e energia. As notícias confundem-nos. Certamente não é preciso dar exemplos.

Há tolos santos, embora actualmente sejam difíceis de encontrar; há tolos triviais; e depois há tolos maliciosos. Estes útimos são grandes dissipadores, não só deles mesmos. Faríamos bem em ignorá-los totalmente, mas o problema é que tendem a ser ambiciosos. É preciso tempo e energia para os travar.

Na América de hoje (enquanto Canadiano incluo-me neste continente), parece que o erro está consagrado na Constituiçao. Está expresso como separação entre Igreja e Estado. Isso significa uma coisa para os seus autores, que eram cristãos, e outra para os seus descendentes pagãos.

Ao excluir da vida pública os próprios princípios sobre os quais se fundou a sociedade americana, o erro fica com uma espécie de monopólio, para ser imposto por um sem número de departamentos de Estado.

Aqui neste “espaço seguro” somos maioritariamente católicos, e os pais fundadores (pré e pós-revolução) eram maioritariamente protestantes, mas as verdades fundamentais a que se referiam atravessavam fronteiras confessionais.

A Virgínia, o Massachusetts e o Québec eram regiões bem distintas, tanto em termos eclesiais como gerais, mas para um observador da China seriam bastante semelhantes. A noção do homem num mundo decaído, nascido escravo do pecado e a precisar de redenção, era comum a todas as facções. Daqui seguiam muitas particularidades.

Entre os poucos filmes que já vi inclui-se “Nashville”, realizado pelo falecido Robert Altman, para o bicentenário dos Estados Unidos. Entre os seus enredos inclui-se a odisseia de uma jornalista pretensiosa da BBC (desempenhada por Geraldine Chaplin), em busca da “verdadeira América”, mas constantemente a enganar-se.

Num certo domingo de manhã ela encontra-se num gigantesco parque de estacionamento, cheio de autocarros escolares amarelos. Encontra nestes monstros metálicos um grande simbolismo.

Mas depois a câmara mostra-nos várias igrejas – baptistas, metodistas, episcopalianas, etc. – em que se encontram os vários protagonistas cómicos do filme. Todos estão a cantar, a rezar e a ouvir homilias. Aí vemos a “verdadeira América” que a menina bem de Inglaterra não tinha conseguido ver.

Refiro o filme apenas porque é tão recente; afinal de contas, 1976 não foi assim há tanto tempo. Eu lembro-me da data e estou na casa dos 60. Lembro-me que quando estava a crescer em Ontário o que era normal era ir à Igreja. Eu não fui criado por cristãos praticantes, mas percebia que isso é que era fora do comum.

De certa forma os meus pais eram liberais à moda antiga, anticlericais por disposição e a minha mãe, na verdade, era conscientemente ateia, mas penso que nunca lhes passou pela cabeça sugerir que a cultura religiosa do continente inteiro tinha de ser destruída. Até dizia que “os crentes são mais bem-comportados”.

Isso porque dão por adquiridas coisas sobre as quais os outros precisam de reflectir – com todos os erros que se seguem naturalmente quando alguém precisa de reinventar a moralidade a partir do zero. Os crentes tinham noções básicas do bem e do mal, implantadas desde pouco depois do nascimento. Até as crianças de lares sem fé absorviam estes valores da sociedade em geral.

Sim, a maioria dos crentes era hipócrita; e também eram ateus, na prática, naqueles momentos em que se esqueciam que Deus nos observa. Esta não é uma particularidade dos cristãos, mas da condição humana: encontramo-nos frequentemente no erro.

E é por isso que Goethe – também ele um liberal à antiga – diz que devemos regressar à verdade, como quem desperta do sono, sentindo-se refrescado. Domingo, “todo o santo Domingo”, era o nosso toque de despertar.

Não sou um daqueles parvos ingénuos que pensa que a América simplesmente pensou duas vezes e concluiu, de forma democrática, que a religião era inconveniente e dispensável. Deu muito trabalho minar a religião, resultado de uma “longa marcha pelas instituições” dos progressistas. Foi preciso muita capitulação das nossas figuras de autoridade.

E como todos sabem – e como todos os progressistas gostam de proclamar – a história não anda para trás. Não há nada na antiga América que se vá reedificar espontaneamente. Não foi sozinha que se edificou, foi resultado do trabalho e da aspiração humana, com raízes muito anteriores à sua própria descoberta e povoação.

Muita coisa foi destruída no espaço de duas gerações. Não estamos perante uma transição geracional, mas civilizacional. Quando abandonamos o Cristianismo, o nosso passado cristão torna-se incompreensível para nós. Os nossos antepassados tornam-se impossivelmente estranhos. A sua prática religiosa torna-se um factor de alienação. Os cristãos sobreviventes tornam-se uma seita exótica minoritária que precisa de ser cuidadosamente regulada e vigiada pelo Governo.

O slogan “Make America Great Again” pode ter resultado durante a última eleição presidencial, mas são palavras vazias. Partem do princípio que houve uma América que em tempos foi grande. Talvez tenha havido, mas esta já não é a América. “Já não estamos no Kansas”

Mesmo o conceito de grandiosidade é vazio se não puder ser especificado. Estamos a falar de grandeza geográfica? Mas isso já somos. Económica? Mas já produzimos bens de gosto duvidoso em quantidades sem precedentes. Ou estaremos a falar de um conceito de virtude e de nobreza?

Claro que é isso, apesar da confusão. Mas sem um conceito claro do que é nobre e virtuoso continuamos desorientados. E estas coisas não virão do nada.

E é por isso que proponho um slogan alternativo, “Make America Christian Again”. E já que a história não anda para trás, concentremo-nos em fazê-la católica, desta vez. Caso contrário estaremos a dissipar tempo e energia. 


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 24 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Deus e a Moralidade Objectiva

Christopher Akers
Existe um argumento filosófico simples, mas hoje em dia raramente invocado, que nos pode ajudar a concluir pela existência de Deus. Tem o potencial de tocar os corações e as mentes daqueles que o consideram de forma séria.

Resumidamente, o argumento estipula que a existência de um sistema moral objectivo requer a existência de Deus. Para que um sistema moral seja verdadeiramente objectivo, a lei moral deve ter a sua origem numa fonte exterior à humanidade. Caso contrário tudo o que temos são opiniões morais humanas e subjectivas, independentemente da roupagem que lhes pusermos. As implicações são particularmente fascinantes, sobretudo tendo em conta que a vasta maioria dos não crentes vive e age como se acreditasse num sistema moral objectivo, embora o seu próprio sistema de crenças o impossibilite.

A meditação sobre estas questões desempenhou um papel fundamental para a minha própria conversão à Igreja. Pensar seriamente sobre a moralidade objectiva obriga-nos a colocar questões sobre porque agimos como agimos no dia-a-dia e que tipo de racionalidade sustenta as nossas escolhas morais.

Se utilizarmos a lógica isenta, a conclusão é só uma: sem um legislador divino as escolhas e as acções morais só podem ser subjectivas e, no final de contas, sem sentido. É aterrador compreender as verdadeiras implicações das palavras de Ivan em “Os Irmãos Karamazov”, que “sem Deus tudo é permitido”.

Chegados a este ponto temos apenas Deus e o niilismo. Os ateus mais inteligentes compreendem isto muito bem e é por isso que o tema raramente é discutido. Em vez disso os actos mais horrendos são simplesmente descritos como “claramente errados”, sem que se procure investigar mais a fundo do porquê de o serem.

Mas uma moralidade destas, sem bases, é literalmente disparatada. Faz-nos lembrar a máxima atribuída a Chesterton de que “quando um homem deixa de acreditar em Deus não passa a acreditar em nada, acredita em qualquer coisa”.

Reiterando, a maioria dos indivíduos vive como se existisse um sistema moral objectivo, mas sem Deus esse sistema não pode existir. C.S. Lewis disse de forma lúcida, nas primeiras secções do livro “Mero Cristianismo”, que as pessoas “apelam a um tipo de padrão de comportamento que esperam que os outros conheçam” em alturas de desacordo moral.

É assim ainda nos nossos dias, porém de acordo com as normas da sociedade moderna não existe ninguém (mais especificamente, nenhum Deus) que forneça esse padrão. Logicamente, se é esse o caso, então o próprio padrão colapsa.

Já debati este ponto várias vezes com amigos ateus, alguns dos quais procuraram oferecer formas “objectivas” alternativas para se compreender a moralidade. Certo interlocutor sugeriu que um exemplo de sistema moral objectivo não-teísta seria o utilitarismo.

Porém, o utilitarismo é meramente uma teoria filosófica colocada pelo homem. Mesmo que toda a gente no mundo aceitasse o utilitarismo, ninguém seria obrigado a segui-lo da forma como nos vincula a lei moral do Criador do Céu e da Terra. A utilidade é nada quando comparada com o amor, como os nossos leitores tão bem saberão. Não se trata de uma diferença subtil, a distância entre estes dois conceitos é grande e evidente.

Utilitarismo biológico...
Outro amigo sugeriu que apenas nos comportamos como o fazemos por causa da biologia e argumenta que podemos extrair verdades morais objectivas a partir da contemplação da nossa composição biológica e do ambiente em que vivemos. Mas este seria um mundo em que apenas agimos por interesse próprio, em que o auto-sacrifício é uma mentira e o amor é meramente uma “reacção química no cérebro”.

Seja qual for a perspectiva, este argumento é simplesmente incompreensível. Porque se Deus não existe, então quem é que pode dizer se é certo ou errado seguir determinadas vontades biológicas? Peguemos no exemplo horrível da violação. Se seguirmos um sistema moral baseado apenas na biologia darwiniana, em que o objectivo da vida é, em última análise, a propagação dos genes, então a violação não poderia ser entendida como um bem na medida em que assegura uma transmissão mais alargada desses mesmos genes?

Não estou a sugerir que o meu caro amigo alguma vez argumentaria neste sentido, mas este é um exemplo evidente do absurdo de reduzir a moralidade à biologia. Não é preciso ir mais longe do que dizer que há um mundo de diferença entre a beleza do amor sexual humano e o copular violento de muitas espécies do reino animal.

À nossa volta podemos ver a desintegração da ética civilizada que resultou da confusão sobre a moralidade objectiva. E a confusão é agravada pelas pessoas bem-intencionadas que nos rodeiam e que falam como se a moralidade objectiva existisse enquanto rejeitam todas as coisas, incluindo Deus, que têm de a sustentar.

O que resta de ética civilizada de que ainda gozamos deve-se apenas aos resquícios de uma civilização cristã, se nada for feito a nossa herança poderá ser completamente varrida. A ligação entre Deus e a moralidade objectiva deve ser reafirmada claramente e com frequência por padres, apologistas, filósofos, catequistas e todos os outros. Deve, aliás, ser proclamada aos quatro ventos!


Christopher Akers, que se juntou agora à equipa do The Catholic Thing, é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 8 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um muçulmano, um cristão e um judeu entram numa escola... Quem fica mais tempo?

No mundo os cristãos tendem a ter mais anos de estudo formal do que os muçulmanos, embora ambos fiquem bem atrás dos judeus. Já em Portugal são os muçulmanos que estudam mais que os cristãos, mas sempre atrás dos judeus… São os resultados de um novo estudo feito pela Pew Research Forum, que tem outros dados interessantes sobre este assunto.

O terrível atentado do passado domingo, contra a comunidade copta no Egipto, foi reivindicado pelo Estado Islâmico. Quem estiver surpreendido que ponha a mão no ar…

Terminou definitivamente a batalha por Alepo. Depois de anos de divisão, a cidade está agora inteiramente controlada pelo regime. Agora temem-se eventuais atrocidades cometidas pelas milícias pró-regime. Entretanto em Beja saiu-se à rua em manifestação pela paz nesta e noutras partes do mundo.

Os padres de Bragança-Miranda vão aprender a “comunicar Deus”.

Devido à minha ausência poderão não ter dado pelo artigo do The Catholic Thing de há duas semanas, em que David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse dirigida apenas por homens do calibre do Leão de Münster. Saiba porquê aqui…

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Sim, Cristãos e Muçulmanos Adoram o Mesmo Deus

Francis J. Beckwith
Nota: O mais recente artigo do professor Beckwith sobre este assunto gerou muita controvérsia entre leitores do The Catholic Thing e outros. Muitas pessoas pensaram que ele estava a afirmar a semelhança daquilo que são claramente duas religiões muito diferentes. Neste novo artigo ele clarifica alguns pontos da doutrina católica sobre o assunto e sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão. – Robert Royal

No dia 17 de Dezembro abordei nesta página a questão de se os muçulmanos e os cristãos adoram o mesmo Deus. Dei a mesma resposta que foi dada pelo Vaticano II, e pela Igreja Católica desde o Concílio: Sim. Os Muçulmanos e os Cristãos adoram o mesmo Deus, pese embora o Islão tenha um entendimento imperfeito do divino, uma vez que nega a divindade de Cristo e, implicitamente, a natureza trinitária de Deus.

Como a Igreja declara na Nostra Aetate (1965) sobre os muçulmanos: “Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens (…) Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta”.

Este argumento levou a muitas respostas críticas, quase todas de cristãos não-católicos, incluindo pensadores distintos como Albert Mohler, Andrew Walker, Matthew Cochran e Peter Leithart. (Isto para não falar de uma enxurrada de revolta de leitores do The Catholic Thing). Cada um deles, enfatizando questões diferentes, identifica correctamente aquilo que os cristãos consideram ser as inadequações da teologia islâmica, tendo em conta a forma como Deus se tem revelado ao longo da história, como aprendemos na Escritura. Nada tenho contra esta linha de argumentação, pelo contrário, ela é consistente com o meu próprio argumento. Passo a explicar.

A visão da Igreja distingue entre revelação “geral” e “especial”. A primeira diz respeito àquelas verdades sobre Deus que podem ser conhecidas através da razão humana, por si; esta diz respeito àquelas verdades sobre Deus que só conhecemos através da Escritura, Sagrada Tradição e/ou o Espírito Santo que fala através do magistério. (Muitos protestantes também aceitam esta distinção, embora na categoria de revelação especial incluam apenas as Escrituras).

Para melhor compreender esta distinção, vejamos este argumento para a existência de um Deus Criador, do filósofo persa e muçulmano Al-Ghazali (1058 – 1111 AD), conhecida como o “Argumento Cosmológico de Kalam” e que é uma peça proeminente da filósofo e apologista evangélico William Lane Craig. Ele resume o argumento da seguinte forma.

1. Tudo o que tem início tem uma causa.
2. O universo começou a existir.
3. Logo, existe uma causa para a existência do universo.

Depois de defender cada uma das premissas deste argumento, um cristão com formação filosófica passará a demonstrar (através de vários argumentos) que a primeira causa do universo deve necessariamente ser um Criador eterno, auto-subsistente, perfeito e não causado, que sustenta tudo e que não deriva o seu ser de qualquer outro. (O Craig coloca a questão de uma forma ligeiramente diferente, uma vez que não é um teísta clássico, o que levanta a questão ainda mais bizarra de saber se todos os cristãos adoram o mesmo Deus, um assunto que deixaremos para outra altura).

Suponha-se que o Abdullah, um ateu árabe, depois de se ter deixado convencer por este argumento passa a acreditar, como acreditam os cristãos, que tal Criador existe. Será que o Abdullah e um cristão acreditam no mesmo Deus? Parece-nos que sim. O Cristão, como é evidente, não só acredita neste Deus mas presta-lhe culto também. Acredita também em muitas outras coisas sobre este Deus que a revelação geral, por si só, não lhe fornece. Estas coisas incluem a noção de que Deus é uma trindade, que a Segunda Pessoa da Trindade encarnou como Jesus, e por aí fora. De acordo com a fé cristã, estas crenças apenas se podem depreender com base na revelação especial, a Bíblia.

"Não há outro Deus que não Deus"
Pouco depois de ter mudado de ideias sobre a existência de Deus, Abdullah passa a frequentar a mesquita local, onde lhe ensinam a acreditar que o Criador (a quem ele chama “Allah”) é digno de adoração, não é uma Trindade, não pode gerar nem ser gerado, e por aí fora. Estas crenças não derivam da revelação geral que o levou a acreditar em Allah mas derivam, antes, daquilo que os muçulmanos acreditam ser revelação especial, o Alcorão.

Será que Abdullah e o cristão ainda acreditam no mesmo Deus, que agora ambos adoram? Sim, mas com um senão: Embora adorem o mesmo Deus, não podem ter os dois razão sobre a Trindade e a Encarnação. Partindo do princípio que o Cristianismo e o Islão são opções mutuamente exclusivas, entre o cristão e o Abdullah há um que sabe mais sobre Deus do que é possível depreender a partir da revelação geral. Mas é precisamente por isso que é correcto dizer que adoram o mesmo Deus, apesar de um deles estar claramente enganado sobre algumas das crenças que tem sobre esse Deus.

Vejamos mais este exemplo: A Lois Lane está apaixonada pelo Kal-El (o nome de nascimento do Super Homem), e acredita que ele não é humana porque nasceu em Krypton. Agora imagine-se que a Lana Lang se apaixona pelo Clark Kent (o alter-ego jornalista do Super Homem) e que acredita que ele é humano porque pensa que é filho de Martha e Jonathan Kent. A Lois não sabe que o Kal-El é, na realidade o Clark Kent e a Lana não sabe que o Clark Kent é, na realidade, Kal-El.

A Lois e a Lana estão apaixonados pelo mesmo homem? Claro que sim, embora uma delas esteja claramente enganada no que diz respeito a algumas das crenças sobre o Kal-El/Clark e a sua natureza. A razão por detrás disto é que existe apenas um ser que é, na sua essência, o Kal-El.

Da mesma forma, existe apenas um ser que é, na sua essência, Deus: o Criador eterno, auto-subsistente, perfeito, não causado, imutável, que tudo sustenta e que não deriva o seu ser de qualquer outro. Nas palavras de São Paulo, no seu sermão no Areópago, “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens (…) porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos. (Actos 17: 24,28)

Se esta descrição corresponde a quem adora, então adora Deus. Em todo o caso, faria bem em dar atenção à conclusão de São Paulo nesse dia em Atenas: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há-de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. (Actos 17:30,31)

Deo Gloria.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 7 de Janeiro 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A Guerra Mais Longa

David Carlin
A actual luta contra o Estado Islâmico e o “terrorismo islâmico radical” (que o Presidente Obama me perdoe por usar esta expressão) é apenas a mais recente fase de uma guerra que dura há mais de 3.000 anos, uma guerra que tem sido combatida ao longo da maior falha sísmica geopolítica do mundo, a que separa a Ásia ocidental da Europa. Vejamos alguns dos pontos principais da guerra mais longa do mundo.

1. O primeiro registo deste conflito encontra-se na Ilíada: A Guerra de Troia, de Homero, em que uma coligação de gregos ataca Tróia, uma cidade comercial importante do lado asiático do mar Egeu.

2. No início do século V antes de Cristo, o Grande Rei da Pérsia, Xerxes, invadiu a Grécia com um tremendo exército e uma marinha significativa. Para além da batalha das Termópilas (“Estrangeiro, dizei a Esparta que aqui jazemos, em obediência às suas leis”), Xerxes enfrentou pouca oposição na Grécia e ocupou Atenas. Mas depois foi derrotado na batalha naval de Salamina (480 AC) e, um ano mais tarde, perdeu também em terra, em Plateias.

3. Em 330 AC, Alexandre liderou um exército de gregos e macedónios pela Ásia adentro, e numa campanha militar brilhante conquistou o vasto Império Persa. Num acto de vingança pelo incêndio da acrópole de Atenas em 480, Alexandre – enquanto bêbado – deitou fogo à capital persa de Persépolis. (Alexandre era conhecido por ser casto, não por ser sóbrio).

4. Começando em meados do Século III Antes de Cristo e terminando em meados do segundo, Roma combateu duas granes guerras contra Cartago, mais uma guerra mais pequena. Depois desta terceira guerra Cartago – que apesar da sua localização ocidental, era uma cidade Asiática, sendo uma colónia de Tiro – foi derrotada e arrasada.

5. No Século II AC os judeus (que naquele tempo eram asiáticos e não europeus), sob a liderança dos Macabeus, saiu debaixo do jugo do rei da Síria, que era de tradição helénica. Mas em meados do Século I AC Roma tinha reestabelecido o domínio ocidental na Palestina. Cerca do ano 70 da Era Cristã, os judeus ergueram-se contra os romanos, mas foram totalmente esmagados. No segundo século houve outro levantamento, mas o resultado foi o mesmo.

6. Durante séculos houve guerras intermitentes entre Roma e os impérios sucessivos da Pérsia e de Pártia. Numa destas batalhas (primeiro século AC), Marcos Crassos, membro do Primeiro Triunvirato, foi morto e, noutra (século IV DC), morreu o Imperador Juliano (“O Apóstata”).

7. No começo da década de 630 os guerreiros de uma nova religião, o Islão, emergiram dos desertos da Arábia e conquistaram grande parte de Ásia e todas as porções africanas do Império Romano. Os Árabes conquistaram quase toda a Península Ibérica e o seu avanço para Ocidente só foi travado quando Carlos Martel (avô de Carlos Magno) os derrotou perto da cidade francesa de Tours.

8. Na Península Ibérica, onde alguns enclaves cristãos sobreviveram à conquista árabe, começou em breve a Reconquista, mas esta só ficou completa quando os reis Fernando e Isabel ocuparam Granada, o último dos reinos muçulmanos em Espanha, e expulsaram todos os muçulmanos (e judeus).

9. Enquanto os cristãos estavam a recuperar a Península, os cristãos noutras partes da Europa Ocidental estavam a marchar e a navegar rumo à Palestina. As cruzadas começaram no final do Século XI e continuaram, intermitentemente, durante os próximos 200 anos. Depois de algum sucesso inicial, o Ocidente falhou na tentativa de reconquistar as partes da Ásia Ocidental que tinha perdido com o levantamento dos Árabes no Século VII.

10. Entretanto o Império Romano (ou Bizantino) caiu em 1453, quando os otomanos muçulmanos capturaram a sua praça forte, Constantinopla, depois de mais de um século a conquistar bocadinhos do que tinha sido até então um vasto império.

Aquiles depois de matar Heitor, na batalha de Tróia
11. Não contentes com isto, os turcos invadiram o coração da Europa, subindo pelo vale do Danúbio, vencendo a Batalha de Mohács (1526). Isto deu-lhes controlo de grande parte da Hungria e uma rampa de lançamento para dois ataques mal sucedidos contra Viena, o último dos quais aconteceu em 1683. Entre estas duas datas o Ocidente cristão venceu a grande batalha naval de Lepanto (1571)

12. A grande mudança deu-se com a modernização do Ocidente, enquanto o Império Otomano se foi tornando “o homem doente da Europa”. A começar pela Grécia no início do Século XIX, as províncias europeias do império turco foram ganhando independência um após outro. No final da Primeira Guerra Mundial a frente Islâmica/Asiática na Europa estava reduzida a Istanbul, seus subúrbios e a Albânia.

13. À medida que o Império Otomano entrou em declínio e finalmente colapsou, as nações europeias, sobretudo a Grã-Bretanha e França, preencheram o vácuo, controlando, através de colónias ou de outras formas, os países da África do Norte e do Médio Oriente que tinham feito parte do império turco.

14. No final do Século XIX começou o movimento sionista. Muitos judeus (que por esta altura já eram europeus) emigraram para a Palestina. Os seus colonatos foram legitimados pela Declaração de Balfour (1917). Eventualmente estes colonatos levaram à criação do Estado de Israel (1948) e a uma série de guerras com os países árabes vizinhos.

15. Depois da Segunda Guerra Mundial surgiu o nacionalismo árabe, cujo elemento agregador era um ódio universal por Israel. Os árabes não viam (nem vêem) Israel da mesma maneira que os judeus, isto é, como o restabelecimento de uma pátria antiga. Vêem-na como uma invasão ocidental do seu território.

16. If we can believe Homer, this whole tragic series began when the beautiful wife of an important European ruler ran off with a handsome and charming young fellow from Asia – an illicit love affair that touched off centuries of even more illicit hatred.

Se acreditarmos em Homero, toda esta série trágica começou quando a mulher lindíssima de um importante líder europeu fugiu com um jovem charmoso e vistoso da Ásia – um romance ilícito que espoletou séculos de um ódio ainda mais ilícito.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sexta-feira, 18 de Dezembro de 2015 em The Catholic Thing)

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