quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

São José: O Pai de Quem Precisamos

Pe. Paul Scalia
A maior parte de nós conhece a cena do Evangelho do domingo passado (Lc. 2, 22-40) como o quarto mistério gozoso: a apresentação do menino Jesus no Templo. Mas é também uma das sete dores e alegrias de São José. O seu coração enche-se de dor perante a profecia de Simeão de que o pequeno Cristo “está destinado a causar a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição”. Mas ao mesmo tempo, José regozija ao ouvir o seu filho proclamado como “Salvação” de Deus e “luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel”.

Todos devemos sentir dor e alegria ao meditar esta cena, mas José experimenta essa dor e alegria de uma forma singular: enquanto pai de Jesus. De facto, o ponto de partida e de chegada na sua experiência deste evento é a realidade da sua paternidade.

Costumamos qualificar a paternidade de São José. Embora estejamos correctos, até certo ponto, essas qualificações podem dar a impressão de que a sua paternidade era uma ficção, ou faz de conta. O termo “Pai terreno” sugere uma relação pai/filho limitada a este mundo. “Pai adoptivo” implica que Jesus só se tornou filho de José a partir de certa altura. De facto, José e Maria eram casados aos olhos da lei quando Jesus foi concebido. Por isso não houve qualquer momento durante a vida de Nosso Senhor em que Ele não fosse filho de José.

Os Evangelhos não adjectivam. A passagem do Evangelho aqui referida identifica José e Maria simplesmente como “pai e mãe” de Jesus. Mais tarde, quando o encontram no Templo, Nossa Senhora diz “Teu pai e eu estávamos aflitos” (Lc 2, 48). São João refere-se duas vezes ao Senhor simplesmente como “filho de José” (Jo. 1,45 e 6,42). A única adjectivação usada nos Evangelhos é um parêntese, quando Lucas se refere a Jesus como “o filho (como se supunha) de José” (Lc. 3,23). Uma vez que isto surge imediatamente depois do Batismo do Senhor, a intenção é claramente de distinguir entre o Pai de Cristo revelado no Jordão e o seu pai conhecido em Nazaré.

É esta paternidade que o Papa Francisco enfatiza em Patris Corde, a carta em que anuncia o Ano de São José (8 de Dezembro de 2020 até 8 de Dezembro de 2021). E com boa razão. Como muitos já têm observado, na raiz dos problemas da nossa Igreja e da nossa nação está uma crise de paternidade. No cerne dos escândalos da Igreja está a traição de pais espirituais. As convulsões no nosso país são o resultado inevitável de décadas de pais ausentes. Mary Eberstadt chamou-o “a fúria dos sem-pai”.

A paternidade de José é um remédio necessário para estes males. Mas, primeiro, temos de a compreender correctamente. Falhamos na apreciação da paternidade de José porque não compreendemos a própria noção de paternidade. Limitamos a paternidade às suas dimensões física e terrena; a geração biológica de um bebé, ou a preparação de uma criança para poder ter sucesso neste mundo. De facto, a parte mais importante da paternidade não é a concepção nem a sua preparação ou formação para o sucesso mundano, é a partilha de sabedoria, de património e de identidade.  

Precisamente por não ser o pai biológico de Jesus, José chama a nossa atenção para a dimensão mais profunda e importante da paternidade. Ele não gerou o Senhor, nem tem quaisquer bens terrenos para lhe conceder. Mas enquanto marido de Maria, José é de facto o pai legal de Jesus – uma designação com um significado muito maior em Israel naquele tempo do que na nossa cultura. Era seu dever criar o seu filho nas tradições e na fé de Israel, passar-lhe as práticas e a sabedoria do povo de Deus. Na medida em que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc. 2,52), cabia a José ensiná-lo a rezar, levá-lo à sinagoga e familiarizá-lo com as escrituras.


“Com os nossos próprios ouvidos ouvimos, ó Deus; os nossos antepassados nos contaram os feitos que realizaste no tempo deles, nos dias da antiguidade” (Salmo 44, 1). É maravilhoso contemplar José a ensinar este versículo a Nosso Senhor, introduzindo-o no património de Israel, ao que “os nossos antepassados nos contaram”. Esses antepassados tinham dotado os seus filhos de identidade, levaram-nos a saber quem eram – e quem não eram – no mundo e na história. A fidelidade desses pais significa que os Israelitas se conheciam como povo de Deus.

E é precisamente isso que os pais não têm feito na nossa cultura. Podem ter dotado os seus filhos de bens materiais e de conselhos sobre como ter sucesso neste mundo – ou pelo menos como atingir o conforto. Mas durante décadas os pais têm falhado em dar aos seus filhos a sua verdadeira identidade. Não transmitiram o património do Ocidente, da nossa nação e sobretudo do Cristianismo.

Isto deve-se em larga medida ao facto de esses pais terem, por sua vez, impiamente rejeitado a sua própria herança. A impiedade é estéril. Como o passado não significa nada para eles, agora também eles não têm nada para propor para o futuro. Pior, esta orfandade em relação ao passado deixa-nos vulneráveis no presente. Por isso, aquilo a que assistimos no “wokeismo” é uma geração órfã, desconectada do seu património de sabedoria e cultura e por isso presa fácil para qualquer nova teoria que aí venha.

Temos assistido ao mesmo fenómeno na Igreja. Padres impiedosos para quem o passado está desprovido de significado, que não transmitiram a gerações de católicos a sua herança legítima de ensinamentos e liturgia eclesial. Tanta da nossa atual maleita vem desta desconexão, deste esquecimento de quem somos – e de quem não somos – no mundo e na história.

Chegou então o momento de “ir ter com José” (Gen. 41,55). Com ele, pai de Jesus, aprendemos o verdadeiro significado da paternidade e o valor incomparável de um homem que cumpre fielmente essa missão.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de dezembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Arranjar Espaço na Estalagem

O Evangelho de Lucas é o único que narra os eventos que rodearam o nascimento de Jesus. É difícil pensar noutra passagem das escrituras que exerça uma influência tão grande sobre a imaginação, sobretudo das crianças, do que a Natividade. E como é que não havia de ser? É uma história que tem tudo aquilo com que as crianças se podem identificar: uma “viagem” de família, um bebé, anjos, pastores, animais.

É verdade que muitos dos detalhes que associamos à Natividade – vacas, camelos, burros e por aí fora – não são mencionados nos Evangelhos, mas isso só realça o que disse. Nenhum episódio na vida de Cristo, nem mesmo a Paixão, se adequa tanto à imaginação infantil.

O Natal é a mais humana das grandes festas da Igreja, a que é mais acessível para nós num nível natural. É no Natal que encontramos Deus no seu estado mais acessível e familiar: um recém-nascido.

Na sua homilia da Missa do Galo de 2012, o Papa Bento XVI resumiu-o da seguinte forma:  É como se Deus dissesse “Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar”.

Também isto explica a facilidade com que as crianças se apaixonam pela história de Natal e porque é que o seu poder permanece connosco mesmo quando ficamos mais velhos e mais ocupados. Para a maioria de nós não há festa que evoque mais as alegrias (e talvez as tristezas) da nossa juventude do que o Natal.

Quanto mais velho fico, mais reparo que a alegria do Natal traz consigo uma nota da mais doce tristeza. Que incrível que a alegria do Natal seja tão diferente da alegria pascal (sendo esta última muito mais mundana, no melhor sentido possível da palavra).

Uma das personagens da história da Natividade que mais me tem interessado à medida que vou ficando mais velho nem sequer é mencionado no Evangelho, tal como o camelo ou o burro. Estou a falar do pobre estalajadeiro.

Segundo o Evangelho de Lucas, a Sagrada Família chega à vila de Belém e descobre que não há lugar para eles na estalagem. O estalajadeiro anónimo costuma ser apresentado como uma lição para as pessoas que estão demasiado ocupadas e centradas em si mesmas para receber Cristo quando ele vem.

Naquela mesma homilia do Natal de 2012, o Papa Bento usou este ponto para reflectir sobre o nosso estado de preparo para receber Cristo:


“Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles?”

E continua:

“A grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos?”

O Papa Bento propõe uma bela meditação sobre a humildade de Deus e os perigos das preocupações mundanas. Cada um de nós deve ultrapassar o nosso próprio egoísmo para que possamos receber não só o Bebé de Belém, mas também o pobre e o indigente com quem o Senhor se identifica tão estreitamente.

Mas voltando ao tal estalajadeiro…

Penso bastante se, ao imaginá-lo como insensível e preocupado, não estaremos a ser injustos.

É fácil partir do princípio que o pobre estalajadeiro rejeitou a Sagrada Família e lhes fechou a porta na cara. Mas porque havemos de o fazer? E se a única razão pela qual Maria tinha sequer uma estalagem para o seu recém-nascido era porque o estalajadeiro lhes ofereceu o pouco que tinha em termos de abrigo? Alguém deu guarida a José e a Maria, porque é que partimos do princípio que não foi ele? Porque é que devemos presumir que o seu humilde envolvente foi o resultado de malícia ou de indiferença?

O Natal é um tempo que se presta à imaginação, por isso imaginemos:

Imagine José a bater à porta da estalagem, já tarde. O estalajadeiro vai à porta. A estalagem está cheia, por causa do recenseamento. Mas o estalajadeiro consegue ver a preocupação estampada na cara de José. Consegue ver que a jovem Maria não podia estar mais grávida. Não tem quartos. Claro que não pode acordar os seus clientes e expulsá-los a meio da noite!

Então faz o que pode.

Oferece ao casal um estábulo. É humilde, mas pelo menos é quente. E oferece-o sem custos. Traz-lhes um pouco de comida, alguma coisa para beber. Traz cobertores e água para se lavarem. Talvez a sua mulher lhe tenha lançado um daqueles olhares, como que dizendo: “Estás doido? Quem são estas pessoas?” Mas ele ajuda na mesma. Ou talvez a sua mulher seja tão generosa como ele e também ajude. Vão visitando durante a noite, sem querer incomodar, para ver se os viajantes têm tudo o que precisam.

Talvez o estalajadeiro seja um homem honesto, compassivo, que dedicou toda a vida e a carreira à hospitalidade e tendo dado o pouco que tinha para oferecer, com o amor e o cuidado possíveis, obteve a graça de poder acolher o próprio Deus, sem nunca ter percebido quem é que estava a receber na sua morada – ou pelo menos no seu estábulo.

Talvez o estalajadeiro de Belém seja uma recordação de que, quando somos generosos para com aqueles que não podem retribuir a nossa simpatia, quando damos o que temos, por mais humilde que seja, Deus pode transformar os nossos esforços em algo maravilhoso, capaz até de mudar o mundo. Talvez.

Pelo menos eu gosto de pensar que sim.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2020)

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Memória e Gratidão

Francis X. Maier
Charles Péguy terá dito, alegadamente, que o problema dos cristãos é que não acreditam naquilo em que acreditam. É uma frase engraçada. Não faço a menor ideia se o disse de facto, mas não faz mal, porque seja como for, é verdade. Até sofrermos por aquilo em que acreditamos, ou o nosso coração for tocado pelo testemunho de quem sofre, a nossa fé continua por testar, nada mais é que uma aspiração, um conjunto de boas intenções. O que me traz ao meu melhor amigo, Joe.

Pai de oito filhos e ex-fuzileiro, o Joe tem uma personalidade clássica de líder: racional, organizado, motivado pelo desempenho. Passou as últimas décadas da sua carreira como diretor executivo de duas empresas multimilionárias, alicerçado nas capacidades que aprendeu nas Forças Armadas. Durante 13 meses, entre 1967-68, o Joe liderou uma companhia de infantaria de fuzileiros na zona de Dong Há, a sul da Zona Desmilitarizada (DMZ) e encostado à fronteira do Vietname do Norte. A atividade inimiga era intensa e por isso, juntamente com as patrulhas normais, o Joe tinha responsabilidades de ajudar e interagir com a população local. Acontece que muitos destes vietnamitas eram católicos, como ele. E foi assim que conheceu o padre Paul.

O padre Paul vinha, juntamente com muitos dos seus paroquianos, do Norte. Tinham fugido para Sul quando acabou o regime colonial francês e os comunistas tomaram o poder em Hanói. O padre Paul, um homem pequeno e discreto, tinha sido pároco coadjutor até há pouco tempo e foi promovido, como acontece em zonas e guerra, quando os viet cong assassinaram o pároco enquanto ele levava os sacramentos a famílias nas zonas rurais. Enquanto o padre Paul preparava a sua motorizada para dar continuidade a esse trabalho, o Joe sugeriu que, tendo em conta os eventos recentes, essa talvez não fosse a estratégia mais avisada. O padre encolheu os ombros. As pessoas precisam dos sacramentos, disse, e partiu para o mato. Sabe-se lá porquê, mas o padre Paul não foi emboscado nesse dia, nem em qualquer outro.

A paróquia ficava dentro da zona de alcance da artilharia norte-vietnamita na DMZ. E por isso, a meio da missa das 10h, num domingo de manhã, as armas visaram a paróquia e dispararam sobre a igreja, destruindo grande parte do edifício e matando, ou ferindo, dezenas de paroquianos. O Joe partiu do princípio de que isso marcava o fim da paróquia.

Mas um ou dois dias mais tarde o padre Paul apareceu no bunker do Joe. Enquanto oficial para as relações com civis, ele tinha acesso a materiais de construção e o padre Paul pediu-lhe ajuda para reconstruir a igreja. O Joe deu-lhe a ver que uma vez que o local da igreja já tinha sido atingido de forma certeira pela artilharia inimiga, as mesmas armas podiam facilmente atingi-la outra vez, sempre que o inimigo assim quisesse. Mais uma vez, o padre encolheu os ombros. As pessoas precisam da missa, comentou. Por isso, algumas semanas mais tarde, enquanto convidado de honra, o Joe ajoelhou-se devotamente na primeira fila para uma liturgia de ação de graças. A música e os cânticos eram belíssimos e altos – tão altos, admite agora o Joe, que teriam abafado o som de artilharia caso o inimigo optasse por disparar naquele instante.

O padre Paul e o Joe tornaram-se bons amigos e ajudavam-se na medida do possível. Mas as missões de combate acabam e por isso, depois de 13 meses, o Joe voltou para casa para a sua mulher, Gail. Começaram uma família e uma nova vida. De tempos a tempos, com o passar dos anos, o Joe pensou no padre e noutros amigos que tinha conhecido no Vietname. Alguns tinham sobrevivido, outros não. Alguns regressaram com cicatrizes permanentes, outros não regressaram de todo. O que o Joe soube dos padres como o Paul foi que a maioria tinha acabado em valas comuns, mortos nas represálias depois da queda de Saigão.

O bispo Paul Nguyen Thanh Hoan

Passaram-se os anos, a vida continuou, as memórias tornaram-se mais escassas. Até que um dia, quase quatro décadas depois de ter saído do Vietname, o Joe recebeu um email de um amigo que tinha servido com ele. Pesquisando na internet, com o seu fraco vietnamita, tinha encontrado um artigo sobre o enterro de um “padre Paul” na província de Binh Thuân, do que tinha em tempos sido o Vietname do Sul. Parecia o padre que o Joe tinha conhecido, mas não era. Era o funeral de outro sacerdote, celebrado pelo agora bispo Paul Nguyen Thanh Hoan, pastor da diocese de Phan Thiêt.

O padre Paul, o jovem e discreto sacerdote que amava o seu povo, que se recusava a ser intimidado, que não se preocupava com a sua própria vida e que conseguia extrair sangue de uma pedra, tinha conseguido sobreviver à guerra e ao pós-guerra e tinha retomado o seu ministério. Nos anos que se tinham passado entretanto fundou uma comunidade de religiosas, um orfanato, uma leprosaria e um santuário mariano popular – tudo apesar da constante opressão e interferência do regime. O Joe entrou de novo em contacto com o “padre Paul” e visitou-o no Vietname e até à morte do bispo, em 2014, ele e a Gail apoiaram-no com dinheiro e contactos para o ajudar com a sua obra.

E tudo isto é uma história bonita, mas não é por isso que a conto. O ponto é este: O padre Paul acreditava naquilo em que acreditava. Provou-o com a sua vivência. E ao vivê-lo, tocou o coração dos outros.

O meu amigo Joe tem setentas e muitos agora e é um homem de carácter, de profunda fé e agora também de uma emoção intensa e inesperada, que é difícil de descrever. A idade leva-nos a recordar. Alguns homens são assombrados pelas suas memórias. Outros são conduzidos por elas por um rio de gratidão que se torna maior e mais profundo todos os dias, na medida em que se recordam do amor, da coragem e da fé que receberam de outros. Essa gratidão é o último dom da vida, uma antevisão da eternidade. Numa altura não muito diferente da nossa Dietrich Bonhoeffer terá dito que a gratidão é a o começo da alegria. Também é uma frase bonita. Se o disse, de facto, não sei. Mas não interessa. Não deixa de ser verdade.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2020)

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Um Gentio Justo

Brad Miner
Em 1943 houve uma revolta contra os nazis no gueto judaico de Czestochowa, na Polónia, que foi rapidamente esmagado pelas SS, matando muitos judeus. Muitos outros foram enviados para campos de morte. Os que permaneceram em Czestochowa foram postos a trabalhar como escravos até que o Exército Vermelho libertou a cidade. Nessa altura, como os nazis teriam dito com orgulho, a cidade estava quase Judenfrei.

A história mostrou que a “libertação” da Polónia foi, devido à sua subjugação pelos comunistas, um pau de dois bicos. A Polónia foi verdadeiramente, como disse o arcebispo Fulton Sheen, uma nação “crucificada entre dois ladrões.”

No dia 28 de janeiro de 1945 uma menina judia exausta e subnutrida, Edith Zierer, conseguiu chegar a uma estação do caminho de ferro que atravessava Czestochowa. Acreditando que a família estava viva em Cracóvia, entrou numa carruagem de transporte de carvão, de um comboio que, pensava, a levaria até lá. Mas o vento gélido que entrava pela porta aberta da carruagem era demasiado forte e por isso duas horas mais tarde, e com medo de congelar até à morte, aproveitou uma paragem e saiu. Coxeou até à plataforma da estação em Jedrzejow – uma decisão providencial, até porque Cracóvia ficava a sul o comboio estava a ir para leste.

Sentou-se sozinha na estação. Se alguém a viu, ignoraram-na, embora fosse evidente que era uma refugiada. Envergava a farda numerada, agora em trapos, que os sempre eficientes nazis obrigavam os trabalhadores escravos a vestir. Quem tivesse olhos na cara poderia ver que ela estava fraca e esfomeada. Mas ninguém a veio ajudar.

A Edite estava a começar a pensar que mais valia morrer, até que a Providência interveio. Como o seu sobrinho-neto, Roger Cohen, explica, “A morte aproximava-se, mas um jovem antecipou-se. ‘Era muito bem parecido’, recorda a Edith, e vigoroso”. De acordo com ela, o jovem rapaz perguntou-lhe o que é que ela estava ali a fazer. Ela disse-lhe. Outro relato diz que ele também perguntou o seu nome, mas quando ela lho disse desatou a chorar, porque durante tantos anos tinha sido apenas um número.

O homem afastou-se, mas voltou com uma chávena de chá. Enquanto ela bebia ele disse que também ia para Cracóvia e prometeu ajudar a levá-la até lá. Ela estava desconfiada. Ele voltou ao sítio onde tinha ido buscar o chá e voltou com pão e queijo. Isso ajudou, muito. O estranho, que conhecia as linhas e os horários, sabia que o próximo comboio para Cracóvia partia longe dali e tinha a sensação de que a Edith não tinha muito tempo.

“Tenta levantar-te”, disse ele. Mas ela não conseguia. Por isso ele pegou nela e carregou-a mais de três quilómetros até à estação certa. Mais uma vez encontrava-se numa carruagem de carvão. Estava lá outra família judia escondida. O jovem entrou também. Colocou a sua capa à volta de Edith e fez uma pequena fogueira dentro da carruagem, para proteger do inverno gelado. Finalmente apresentou-se.

“O meu nome é Karol Wojtyla”.

Agora sem a capa, Edith e a família judaica conseguiam ver que ele era um padre católico. Ou pelo menos assim lhes pareceu, por causa da batina. Na verdade, era ainda seminarista.

Quando chegaram a Cracóvia o Karol saiu do comboio, talvez para arranjar informação que pudesse ajudar a Edith a encontrar a família. Quando regressou ela tinha partido. Um dos outros passageiros tinha-lhe dito que fugisse, não fosse este padre querer metê-la num convento. “Fugi”, disse ela, “porque as pessoas começaram a perguntar porque é que um padre estava a viajar com uma menina judia”.

Ela recorda-se de se ter escondido atrás de um monte de vasos de leite metálicos quando o homem que a tinha ajudado começou a chamar por ela em polaco: “Edyta, Edyta!”

Como escreve o senhor Cohen:


Aqui estavam duas pessoas numa terra devastada, um católico de 24 anos e uma judia de 13. O futuro Papa já tinha perdido a sua mãe, o seu pai e o seu irmão. A Edith, embora ainda não o soubesse, já tinha perdido a mãe em Belzec, o pai em Maidaneck e a irmãzinha em Auschwitz. Não podiam estar mais sozinhos.

Naquele momento Edith Zierer fez aquilo que achou necessário para preservar a vida e a sua fé. Mas nunca se esqueceu de Karol Wojtyla.

Quando leu num jornal, em 1978, que este homem extraordinário tinha sido eleito Papa, chorou. Escreveu-lhe várias vezes, mas não recebeu qualquer resposta… Durante 20 anos. Mas em 1998 voltaram e encontrar-se no Vaticano. Naquele encontro, de acordo com Cohen, o Papa pôs-lhe a mão na cabeça e disse: “Volta, minha filha”, uma coisa estranha de se dizer meio-século depois.

Talvez se estivesse a recordar dos seus gritos ansiosos naquela estação em Cracóvia: “Edyta, Edyta! Volta, minha filha.” Ou talvez estivesse a convidá-la a voltar a Roma para outra visita. Isso nunca aconteceu, mas os dois voltaram a encontrar-se em 2000 no Yad Vashem, quando João Paulo fez uma peregrinação a Jerusalém. “Ele era um espírito irmão no sentido mais puro da palavra. Um homem capaz de salvar uma menina naquele estado, congelada, esfomeada e cheia de piolhos, e levá-la até segurança”, disse ela, depois de São João Paulo II morrer, em 2005. “Eu não teria sobrevivido se não fosse ele”.

Naquela visita a Yad Vashem o santo octogenário foi cumprimentar seis sobreviventes do Holocausto, uma das quais era a senhora Zierer. O Papa falou a cada um, até chegar a Edith. Então colocou uma mão sobre o seu ombro, enquanto conversavam. Ela diria depois que “não chorei no Vaticano, mas em Yad Vashem, desfiz-me em lágrimas”. 

Edith morreu em 2014. 


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Dezembro de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Outra Sagrada Família

Joseph R. Wood
Associamos o Advento à penitência e à família. Este tempo em que a Igreja espera pelo Senhor é um de preparação penitencial para a grande festa do Natal.

Para aqueles que contam entre os seus parentes pessoas com personalidades complicadas, mesmo sem pandemias e eleições as noções de penitência e família encaixam bem e sem esforço. No Evangelho de São Mateus, Cristo diz-nos para deixar “casas ou irmãos ou irmãs ou pai ou mãe ou filhos”. (Lucas e alguns dos tradutores de Mateus incluem esposas, o que pode razoavelmente entender-se como incluindo maridos também). Em troca promete-nos 100 vezes mais e para alguns de nós uma curta pausa de ter de aturar parentes argumentativos (ou pior) pode ser um bom começo.  

Já outros gostariam de ter uma família, qualquer tipo de família, das que discutem ou não, com a qual partilhar este período alegre e penitencial do ano litúrgico, bem como os altos e baixos da vida.

A Igreja apresenta a Sagrada Família de Belém e de Nazaré como um modelo para a vida familiar. A família é reconhecida como a relação natural fundamental desde Aristóteles até às Escrituras, de Edmund Burke a Winston Churchill.

Aqueles que não têm a sorte de ter uma vida familiar especialmente alegre poderão ter bem a noção de que a Sagrada Família era atípica. A mãe e esposa não carregava os efeitos o pecado original; o padrasto e marido teve sonhos convincentes de que a sua esposa era fiel tanto a ele como ao grande plano de redenção; e o filho era Deus.  

Trata-se de um modelo que os mortais decaídos têm dificuldade em seguir, mesmo na melhor das situações. Mas a Igreja tem razão quando diz que a nossa maior alegria nesta terra vem de tentar seguir fielmente esse modelo, nas famílias e nas comunidades, e que quem não tiver esse tipo de amor sofre profundamente.

A sua proibição do divórcio, a afirmação de que o adultério é pecado e a sua obediência aos pais depois da aventura de três dias no templo, são a forma como Cristo fortaleceu o nosso conceito de família. A parábola do Filho Pródigo realça o amor de um pai pelo seu filho desviado e a necessidade de um irmão mais velho se colocar acima do ressentimento de um filho obediente que se sente negligenciado.

Os milagres em que Jesus cura crianças, parentes, criados e até a sogra daqueles que lho pedem com fé mostra a sua atenção e afeto especial para com a família. O seu primeiro milagre público foi fornecer vinho para um casamento, onde as famílias celebram a criação de uma família nova.

Cristo cura o homem cego cujos pais, com medo dos fariseus e distanciando-se do seu filho, escondem qualquer interesse no assunto que possam ter.

Mas é evidente que Cristo nos chama a mais do que a nossa família natural. Frequentemente chama a nossa atenção para outra família, sobrenatural, que é verdadeiramente sua. Os membros dessa família podem vir, ou não, de lares felizes.

Os seus discípulos largam as suas famílias e negócios mundanos para o seguir.

Diz a um potencial seguidor para não esperar para cumprir a sua vontade admirável de sepultar o seu pai e a outro que adiar para dizer adeus à sua família não era forma de o seguir. Ele não aceita hesitações por parte daqueles que chama das suas famílias naturais para se juntar à sua.


Jesus insiste que veio trazer divisões aos lares e que quem ama pai, mãe, irmã ou irmão mais do que a Ele não é digno dele. Todos os Evangelhos sinópticos incluem versões da sua exigência para que deixemos pais, irmãos, esposos e lares para o seguir.

Chamado pela sua própria família natural enquanto pregava, responde que a sua família – os seus irmãos, irmãs e mãe – são todos aqueles que fazem a vontade do seu Pai.

Respondendo a uma questão hipotética por parte dos saduceus, sobre uma viúva que desposou sete irmãos, assegura-nos de que na Ressurreição não casam nem se dão em casamento. Os votos que estão na base da família natural não são vinculativos depois da morte e o casamento, tal como o conhecemos agora, não existe na eternidade.

Estará Cristo a denegrir a família natural? De todo.

Está a anunciar outra família, uma família final que perdurará para a eternidade. Tal como Santo Agostinho explica que a cidade humana não é a nossa pólis final e que nos encontramos a caminho da Cidade de Deus e existe uma família final para além daquela em que estamos colocados agora. São Paulo confirma-o.

Para deixar mais claro, Cristo compara o seu Reino a um casamento, o evento na terra onde uma nova família se forma.

Ele institui esta outra Sagrada Família quando, pendurado na Cruz, o seu trabalho na terra já está completo. Diz à sua mãe “eis o teu filho” e a João diz “eis a tua mãe”. No momento mais significativo da sua vida utiliza a linguagem da família natural para nos orientar para a nossa família final.

Esta outra Sagrada Família já não depende das circunstâncias do lar em que nasceram, sem qualquer voto na matéria. Ser filho ou filha nesta Sagrada Família final requer uma decisão de fé.

Os tempos penitenciais são a base da maior das festas familiares. A difícil caminhada até Belém que recordamos no Advento leva-nos até à Sagrada Família no Natal; e a Quaresma traz-nos a outra Sagrada Família aos pés da Cruz e a sua alegria pascal. A família que não encontra abrigo para o nascimento do seu filho aponta para a família no Calvário. A alegria da Encarnação que se torna visível para os pastores e para o mundo no Natal aponta para a alegria da Ressurreição.

Estes tempos ensinam-nos que toda a gente – das casas onde estas coisas são compreendidas e vividas, de casas onde reina a tragédia ou de casas que nem o são – tem o dom revelado no Evangelho de São João, o poder de se tornarem, através da Graça, filhos de Deus.

Somos chamados a ser membros das nossas famílias terrenas agora, quando também nós procuramos abrigo, aos pés da cruz e aí, por fim, membros da outra Sagrada Família, para a eternidade.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 29 de novembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Maradona morreu, o mundo chorou, o Papa rezou

O Papa Francisco disse hoje que reza por Diego Armando Maradona, que morreu aos 60 anos de idade. Que tenha na morte a paz que não conheceu na terra.

De Inglaterra vêm duas histórias sobre liberdade religiosa e de expressão. Uma aluna foi suspensa do curso de parteira na Universidade de Nottingham por ser pró-vida. Correu mal para a universidade, que agora lhe pagou uma indemnização.

Uma mãe solteira está a levar o Reino Unido ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem para reivindicar o direito a rezar diante de clínicas de aborto em Inglaterra e poder oferecer às outras a ajuda que ela própria recebeu em 2012.

O bispo de Pemba agradece a ajuda da comunidade internacional para travar a violência em Cabo Delgado.

 No domingo passado celebrou-se a festa do Cristo Rei. Que data é esta? Faz sentido festejar um título que Jesus recusou sempre em vida? O padre Paul Scalia responde a estas e outras perguntas no artigo desta semana do The Catholic Thing.

O Rei Escondido

Pe. Paul Scalia
Há uma certa ironia na celebração da Solenidade de Cristo Rei. Uma ironia que toca a subtileza da sua realeza e da sua razão de ser.

Resumindo, celebrámos no domingo o título que o Senhor propositadamente evitou. Quando as multidões o queriam tornar Rei, retirou-se (Jo 6,15). Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou diretamente, deu uma resposta evasiva, “Tu dizes que eu sou Rei” (Jo. 18,37). Embora hoje o proclamemos Rei do Universo, na sua vida terrena ele procurou esconder a sua realeza e ser apenas “o Filho do Homem”.

As pessoas sempre adoraram histórias de reis escondidos. Há algo de inspirador e esperançoso na história de um homem obscuro e humilde em cujas veias corre sangue real. Vemo-lo primeiro na história do Rei David, que é o menor da sua família, mas é escolhido por Deus, ungido e elevado ao trono de Israel. E temos Artur, o Rei desconhecido que é o único que pode retirar a espada da pedra. O Aragorn, de Tolkien, esconde a sua linhagem real até que chega a altura de reclamar a coroa de Gondor. E por aí fora.

Mas tudo isto são apenas sugestões e ecos do verdadeiro Rei escondido. Jesus vem a este mundo possuindo todo o poder, mas exercendo nenhum. No seu nascimento a sua realeza nem é reconhecida pelo seu próprio povo; a novidade tem de ser trazida por magos vindos do Oriente. Mesmo quando Jesus começa a sua vida pública, o Batista anuncia-o de forma críptica como “um entre vós que não reconheceis” (Jo. 1,26).

Ao contrário de outros, contudo, o estado humilde deste Rei não é uma ficção nem um entrave. Ele torna-se verdadeiramente um connosco, seus súbditos – partilhando as nossas humildes alegrias e profundas tristezas, sendo igual a nós em tudo menos no pecado. Esconde a sua autoridade divina debaixo da nossa humanidade frágil, como Rei e parente.

E mais, o Senhor continua a estar presente desta forma escondida entre nós. Vem ao nosso encontro envergando, nas palavras de Madre Teresa, o “penoso disfarce do pobre”. Como ouvimos no Evangelho de domingo, “Em verdade vos digo, tudo o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25,40).

Pela pobreza da Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de forma particular aos pobres. “nosso Senhor Jesus Cristo (…) sendo rico, se fez pobre por amor de vocês” (2 Cor. 8,9). Assim, ele pode dizer sem ter de qualificar, “A mim o fizestes” – querendo com isso evocar não uma unidade moral mas uma identificação pessoal com os pobres. Neles o Rei mantém a sua presença escondida entre nós. 

E não é só neles. Nosso Senhor identifica-se ainda com outro grupo. “Quem receber um só destes pequenos em meu nome, a mim me recebe; e quem me recebe a mim recebe-me não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc. 11,37). Temos aqui a mesma identificação sóbria e literal do Rei com alguém entre nós. Mais uma vez, ele vem a nós de uma forma escondida, desta vez como uma criança. Como estas palavras devem ser inspiradoras para aqueles de nós que acolhem generosamente crianças? E que horror não devem trazer para uma cultura que as rejeita, ao ponto de as matar no ventre?

Nosso Senhor esconde a sua realeza não porque nos quer enganar, mas para purificar o nosso entendimento. Ele afastou-se das multidões porque elas não teriam compreendido a sua realeza e respondeu de forma enigmática a Pilatos porque o governante não tinha a capacidade de entender a verdade. Primeiro tinham de aprender que aquilo que pensavam que constituía realeza afinal não a era. O Cristo Rei vem de forma escondida para purificar as nossas ideias mundanas, para limpar as nossas mentes de conceitos terrenos como governo, autoridade e poder.


Para além desta purificação, o Rei escondido ensina-nos a verdade. De facto, os disfarces do Rei não escondem, antes revelam. Ao vir a nós na fraqueza, nos pobres e nos vulneráveis, Ele ensina-nos sobre o Reino e sobre a verdadeira Realeza. Dele aprendemos que servir é reinar; que a autoridade está ordenada para o serviço; que o poder está ordenado para a misericórdia e que a verdade triunfa sobre a força.

O que nos traz até ao propósito desta festa. Longe de ser uma relíquia da Igreja antiga ou medieval, ela foi estabelecida em 1925 – numa altura em que as monarquias estavam a desaparecer e, o que é mais importante, que o pensamento cristão estava a ser expulso da sociedade. Os governos ateus que surgiam pelo mundo rejeitavam qualquer limite ao seu poder. Pio XI, que passou a maior parte do seu pontificado a lidar com estes governos hostis, pretendia que esta festa fosse uma defesa dos direitos de Cristo Rei na praça pública. A ideia era servir de contrapeso àqueles que queriam separar a governação da verdade e, por isso, passar por cima dos fracos.

O Evangelho de domingo apresenta a vinda do Rei no final dos tempos. Mas as suas palavras – a mim o fizestes – indicam que Ele já cá está. De facto, Ele está presente agora – não nos poderosos e ricos, mas nos fracos e vulneráveis, em todos os que estão expostos ao exercício do poder sem justiça e da força sem verdade.

 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de novembro de 2020 em The Catholic Thing

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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Uma nova economia e símbolos da JMJ em Portugal

Sr. Dr. Presidente
O Papa Francisco entregou este fim-de-semana os símbolos das JMJ a uma delegação de portugueses (e não na semana passada, como eu disse erradamente…). D. Manuel Clemente diz que apesar da pandemia é possível fazer as coisas bem e de forma económica. Em declarações aos portugueses o Papa avisou que nos tornamos aquilo que escolhemos.

A Associação de Médicos Católicos tem um novo presidente. Trata-se de José Diogo Ferreira Martins, cardiologista pediátrico.

Chegou ao fim a Economia de Francisco, uma iniciativa que pôs pessoas de todo o mundo a pensar em alternativas para uma economia mais humana. Aliás, segundo o Papa, o fim-de-semana não marcou o final de uma caminhada, mas um início, num discurso em que pediu que se procurem soluções com os pobres e não apenas para os pobres.

Uma das participantes, Rita Sacramento Monteiro, recusa a diabolização das empresas e diz que estas têm de ser parte da solução e não do problema.  

Mantém-se a situação dramática em Moçambique, com relatos de destruição de uma missão católica e o Parlamento Europeu a mostrar interesse em ouvir o bispo de Pemba sobre o assunto.

Não deixem de ler o artigo da Semana passada do The Catholic Thing em que RandallSmith pergunta se é possível uma universidade ter uma identidade cristã.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Cristãos iraquianos voltam para casa, bispos de Leiria também

O Papa disse esta manhã que “a oração acalma os inquietos”. Será verdade? Alguma vez viram um trapista inquieto? Então pronto.

Boas notícias do Médio Oriente. Três anos depois de o Estado Islâmico ter sido expulso de Mossul, mais um grupo de cristãos regressa a casa. Ainda assim, há muito a fazer e por isso a fundação AIS apela à generosidade de todos.

Boas notícias também em Leiria, onde D. António Marto teve alta hospitalar e vai poder ir recuperar para casa.

Os bispos católicos da Europa querem que a União Europeia encontre soluções solidárias e conjuntas para a crise provocada pela pandemia.

Faz sentido uma universidade ser cristã? A identidade religiosa não será um obstáculo à busca pelo conhecimento e pela verdade? Randall Smith discorre sobre isto no artigo desta semana do The Catholic Thing, recordando que foi precisamente no seio do Cristianismo que o conceito da universidade nasceu.

Quais são as Fundações da Universidade?

Randall Smith
Até há pouco tempo poderia ter assistido a uma conferência com o título “É Possível uma Universidade Cristã?”. Com isto queria-se dizer: “Pode uma universidade moderna e ‘pluralista’ ser cristã?” Ou será que as convicções cristãs da instituição prejudicariam a busca aberta e imparcial pela verdade? A resposta poderá parecer bastante evidente, tendo em conta que a universidade surgiu na Europa cristã medieval e floresceu nesse mesmo ambiente durante séculos.

Agora, porém, uma conferência com o título “É possível uma Universidade Cristã?” teria mais a ver com a questão: “Será que no futuro continuará a ser possível uma universidade identificar-se como cristã?”. Os campus talvez possam continuar a ter uma capela, desde que nada lá seja dito que seja desconfortável para a administração. Mas será que o Estado, a administração ou o corpo docente irão continuar a permitir que a universidade mantenha a sua missão enquanto instituição distintamente cristã?

Há uma história importante a contar sobre a relação entre a primeira questão – É possível uma universidade cristã? – e a segunda: Deve ser permitido uma universidade ser cristã? O ponto de partida para ambas as questões é que poderá haver (e que provavelmente há) uma fundação melhor para a educação que deve acontecer numa universidade do que a convicção cristã.

Fundndo uma universidade sobre o Cristianismo, presumiu-se, destruiria a livre troca de ideias que é essencial para a sua missão. Mas infelizmente foram poucos os que se questionaram por que razão, se o Cristianismo e o livre intercâmbio de ideias são incompatíveis, é que as universidades surgiram e floresceram precisamente num berço cristão? Menos ainda foram os que perguntaram o que aconteceria quando se criassem as chamadas “universidades livres”, sem qualquer filiação religiosa. Foram elas mais livres do que os seus pares confessionais? Raramente, ou nunca. Em vez disso acabaram por se sujeitar ao poder imperial do Estado.

O autor de um recente artigo no “Church Life Journal” fornece uma recordação importante sobre as obras que fazem parte do muito debatido cânone ocidental.

Hobbes refere-se a si mesmo como um anti-Aristóteles, Nietzsche chamou a um dos seus livros o anticristo, e por aí fora. Os projetos políticos incluídos na descrição são também diametralmente opostos – monarquia versus democracia, capitalismo versus socialismo, teocracia versus secularismo – todas estas oposições e muitas outras têm sido sugeridas dentro dos limites da Civilização Ocidental… Hobbes e Schmitt queriam banir certos livros. Platão quis banir os poetas e instalar mitos edificantes. Nietzsche queria ultrapassar e esquecer toda a “moralidade escrava”. Marx poderá ter abandonado a sala do seminário para se juntar à revolução.

Seja como for, a “revolução” acabaria por banir a maioria dos livros que ele tinha estado a ler.

Plotino e Porfírio pensavam que a literatura cristã dos primeiros tempos devia ser descartada. Os aristotelianos do Renascimento queriam banir a obra de Galileu. Os aliados renascentistas pitagorianos de Galileu queriam livrar-se de Aristóteles. Mais recentemente, a união de estudantes da University College London baniu o Clube de Nietzsche, por ser “fascista”. Em boa verdade o próprio Nietzsche provavelmente os teria banido a todos e certamente não admitiria que ninguém se juntasse a um clube com o seu nome. Mais recentemente ainda os estudantes da mesma instituição britânica quiseram banir todos os “filósofos brancos”. E não é por acaso que um dos livros mais banidos da história – e ainda hoje – seja a Bíblia. 

Não deixa de ser interessante que em qualquer faculdade de humanidades de uma universidade católica séria pode-se ler as obras de Platão, Aristóteles, Cícero, Lutero, Rousseau, Marx e Nietzsche e levá-los a todos a sério. Se os discípulos devotos de qualquer um desses pensadores mandasse, porém, a lista de leitura permitida seria muito mais limitada. Será que a Universidade Nietzschiana o deixaria ler Marx ou Aristóteles? E a Universidade Marxista deixaria ler Cícero ou Aquino?

É possível? Parece que sim.

A estranha presunção de que, se simplesmente nos livrássemos do Cristianismo as universidades seriam mais “livres”, não tem pernas para andar, como comprova a história antiga e recente. Não é que o Cristianismo não tenha tido também as suas tensões com a universidade. Mas isso não tem mal, porque a questão perene da universidade cristã é compreender a relação entre a fé e a razão.

A convicção crista que sempre serviu de base a essa questão é de que as verdades da fé e da razão jamais estarão em contradição, porque ambas derivam de Deus. Como João Paulo II disse, de forma tão eloquente: “A fé e a razão são como as duas asas com que o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. O trabalho de compreender esta relação entre a fé e a razão tem, contudo, sido frequentemente um desafio dinâmico, mudando conforme as alterações nas ciências e na filosofia dominante de cada tempo. Mas é precisamente esse desafio que tem animado a vida intelectual da universidade.

Quando Cristo, o Verbo feito carne, é entendido justamente como o centro da missão da universidade, então toda a verdade, seja qual for a sua origem, é bem-vinda e importante. É quando essa convicção cristã é substituída por um “sistema” ou “processo” ou “ideologia” que todo o edifício começa a ruir a partir de dentro.

Olhemos para a universidade contemporânea, agora confortavelmente isolada de qualquer resquício de cristianismo. Estas instituições são mais livres? Estão a treinar os seus estudantes para serem melhores servidores da humanidade? Ou transformaram-se em refúgios de uma ideologia partilhada e da “cultura de cancelamento”? Será que se perderam em larga medida, fazendo-se servidores de Mamon em vez da verdade?

A universidade é um produto distintamente cristão. Quando Cristo se encontra no seu centro, toda a criação é importante, obra das mãos de um Deus de amor. Quando Cristo está no centro não há nada de genuinamente humano que não ecoe no coração dos seus membros. Quando perde Cristo como centro, torna-se rapidamente um servo de Mamon, da ideologia ou do Estado.

É possível uma universidade cristã? Ainda é possível? A resposta a essas perguntas dar-nos-á a resposta a uma terceira: Ainda é possível uma universidade? Em relação a isso os dados não são nada animadores.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Novembro de 2020)

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terça-feira, 17 de novembro de 2020

Os sinos solitários de Davidank

Terror e morte são as palavras de ordem em Cabo Delgado, em Moçambique. Os relatos continuam a chegar, desta vez é uma freira católica que diz que não pode calar mais a sua indignação, perante os ataques terroristas.

Em Nagorno-Karabakh um mosteiro tornou-se o símbolo do conflito entre arménios e azeris. Davidank vai permanecer, em solo controlado pelos azeris muçulmanos, graças à proteção de militares russos. Os arménios que abandonam a vila até as campas dos seus antepassados levam consigo.

Depois de ter surgido uma notícia de que as celebrações de Natal seriam canceladas, os bispos emitiram um esclarecimento a sublinhar que é seguro celebrar nas igrejas católicas em Portugal.

O cardeal D. Tolentino Mendonça foi nomeado para fazer parte da Congregação para a Evangelização dos Povos.

E continua a marcha rumo às Jornadas Mundiais da Juventude, em Lisboa. O Papa Francisco vai entregar os símbolos a uma delegação portuguesa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Tolentino e a competência dos pais para educar os filhos

Amanhã é o primeiro fim-de-semana de recolher obrigatório, o que vai dificultar as missas dominicais. Alguns padres e bispos tinham avançado a possibilidade de permitir a celebração de missa dominical ao sábado de manhã, mas uma nota publicada pela CEP, esta sexta-feira, explica que isso não é possível, afinal.

A Renascença publica hoje uma grande entrevista com o cardeal D. Tolentino Mendonça. A ler, como sempre!

Realizou-se na noite de ontem o segundo webinar da Pastoral da Família. O tema desta sessão era “Serão os pais competentes para educar?”. Podem saber mais aqui, e até assistir à conferência toda.

As eleições americanas deram muito que falar. Donald Trump continua a negar que tenha perdido, mas o Papa Francisco ligou a Joe Biden para lhe dar os parabéns.

Como já disse, tenho estado a coordenar uma interessantíssima série de “Postais de Quarentena” de diferentes partes do mundo. O de ontem é escrito por um padre romeno e vem em jeito de homilia, com criticas apontadas a quem dificulta o combate ao vírus.

Uma recomendação. Com o aproximar do Natal, não deixem de ver este livro de Thereza Ameal, que pode dar um óptimo presente. Podem saber mais sobre o projecto no programa da Aura Miguel em que a autora participou.

Não se esqueçam de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o relatório McCarrick, a minha opinião sobre o assunto está aqui.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Mais surpresa, mais McCarrick

Os bispos voltaram a afirmar que foram apanhados de surpresa pelo anúncio do recolher obrigatório e que vão discutir mais o assunto durante a reunião plenária da Conferência Episcopal.

O tema da pandemia está, por isso, na ordem dos trabalhos dos bispos, mas na abertura da reunião, quarta-feira, D. José Ornelas voltou a falar do tema da Eutanásia.

O Papa Francisco disse esta quarta-feira que a Igreja vai continuar a lutar pela erradicação dos abusos sexuais. Disse-o um dia depois de ter sido publicado o relatório McCarrick, que visa saber como é que um predador sexual como ele chegou a cardeal e arcebispo de Washington, gozando de enorme influência.

Esse relatório, que já referimos ontem, deixa o Papa João Paulo II bastante mal visto. Para quem, como eu, cresceu a amar aquele pastor, são revelações difíceis de engolir. Como conciliar estes seus erros com o facto de ter sido declarado santo? Em primeiro lugar, compreendendo que existe uma diferença entre o erro e a corrupção. Escrevo sobre isso, evocando outra figura sobre quem surgiram entretanto revelações tristes, Jean Vanier, neste artigo que vos convido a ler

E o relatório McCarrick é ainda o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Normalmente publicamos um artigo que tenha sido publicado no site original na semana anterior, mas esta semana, pela primeira vez, publicamos nós em primeira mão, o artigo que só sairá mais tarde na edição americana. É a vossa oportunidade de se anteciparem aos leitores anglófilos! Não a percam.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Houve Erros

Stephen P. White
Para aqueles que acham que o clericalismo não desempenhou um papel muito importante na crise de abusos na Igreja Católica, o Relatório McCarrick, publicado esta semana, deve chegar para mudarem de ideias. O relatório revela uma cultura clerical insular e burocratizada que serviu as ambições de um homem como Theodore McCarrick, que soube manipular e tirar partido do sistema muito mais do que a Igreja e o Evangelho. E certamente muito melhor do que serviu as muitas vítimas do comportamento predador de McCarrick.

Quem esperava o desmascarar de uma grande conspiração também vai ficar desiludido. A banalidade das falhas institucionais a este nível não é nem emocionante nem satisfatória, mas sempre foi a explicação mais provável e plausível. E continua a ser. O relatório tem limitações, claro, e deixa muitas perguntas por responder. Mas também apresenta um relato detalhado e incriminador de falhanços institucionais que decorreram ao longo de décadas e vários pontificados.

O que se segue são apenas algumas breves reflexões que me ocorreram depois de ler o relatório inteiro:

Os imites do relatório

O relatório depende em larga medida em dois tipos de fonte: registos de arquivo e entrevistas com pessoas relevantes. O resultado é um olhar público, sem precedentes, para a correspondência entre prelados tanto nos Estados Unidos como em Roma, bem como um relato das alegações contra McCarrick tal como foram recebidos antes de 2017.

Podemos aprender muito desta correspondência oficial e dos arquivos; o que não podemos aprender são o tipo de detalhes e de informação que jamais entrariam na correspondência oficial e nos arquivos.

No que diz respeito às entrevistas, muitos dos agentes principais, sobretudo os envolvidos no início da carreira de McCarrick, já morreram. Outras entrevistas dizem respeito a eventos que já aconteceram há décadas. E a fiabilidade das entrevistas depende não só da memória dos entrevistados, mas também da sua honestidade e candor.

Um relatório deste género apresenta necessariamente um retrato incompleto. É importante reconhecer estes limites tanto para evitar a falsa impressão de que se trata de um relato totalmente abrangente da matéria, como para evitar a falsa impressão de que as suas falhas são prova de um embuste.

Quem soube o quê e quando?

Uma série de bispos, tanto nos Estados Unidos como em Roma, estavam claramente cientes dos boatos sobre McCarrick em meados dos anos 90. Alguns sabiam até de um pequeno número de alegações específicas sobre McCarrick, mas não as acharam credíveis. E foi isso que dissram a Roma. Nenhum dos prelados referidos no relatório – mesmo os que, como o cardeal O’Connor, recomendaram que McCarrick não tivesse mais promoções – estava disposto a indicar de forma firme que achava McCarrick culpado. Se algum deles teve dúvidas sérias sobre a sua inocência, ninguém o disse.

Se isso se deveu à vontade excessiva de acreditar na inocência de um amigo, uma recusa em levar a sério a insinuação de que um irmão no episcopado pudesse cometer tais actos, ou algo mais grave, é impossível saber com base no relatório.

O que é claro é que simplesmente não existiu vontade de levar a cabo o tipo de investigação que poderia de facto descobrir a verdade. O risco de escândalo era demasiado grande e a deferência para com um colega bispo era demasiado forte. As tentativas de investigação que de facto aconteceram normalmente envolverem bispos a telefonar ou a escrever a outros bispos para perguntar o que sabiam sobre estes rumores envolvendo o seu amigo comum, McCarrick. Só quando surgiram as alegações de que McCarrick tinha abusado de um menor é que o cardeal Dolan ordenou uma investigação, envolvendo investigadores leigos, em 2017.

McCarrick era um mestre do engano

McCarrick era um mentiroso nojento. A forma como tentou tirar partido de alegações anónimas e rumores realça a sua capacidade de manipulação. Insistiu que estes ataques partiam dos seus inimigos, tanto à direita como à esquerda. Como prova de transparência, encaminhou as acusações anónimas feitas contra ele para o FBI e informou o concelho presbiteral. Até admitiu a alguns bispos, incluindo em Roma, que tinha sido imprudente ao partilhar a cama com seminaristas na casa de praia, mas que não tinha passado disso.

E enquanto tudo isto acontecia McCarrick continuava a tornar-se indispensável: entrando nas boas graças dos outros bispos, da conferência episcopal, do núncio, da Curia Romana e fazendo parte de incontáveis direções e caridades, fazendo dezenas de viagens internacionais em nome da Igreja e construindo relações próximas com amigos ricos e bem colocados politicamente.

O que os Papas sabiam

Antes da nomeação de McCarrick para Washington DC, em 2000, Roma pediu a quatro bispos que tinham servido com McCarrick para comentarem se ele era apto a ser promovido, sobretudo dados os boatos persistentes em torno do seu comportamento. De acordo com o relatório: “Três dos quatro bispos americanos forneceram à Santa Sé informação incompleta e errada sobre o contudo sexual de McCarrick com jovens adultos. Parece provável que esta informação errada tenha tido impacto sobre as conclusões a tirar pelos conselheiros de João Paulo II e, por consequência, pelo próprio João Paulo II.”

McCarrick e João Paulo II

O Papa Bento XVI sai do relatório essencialmente como ineficiente – sem vontade de impor sanções concretas a McCarrick e ou sem vontade, ou incapaz, de fazer cumprir as “indicações” informais que o convidavam a manter um perfil discreto.

O Papa Francisco parece ter dado pouca atenção a McCarrick antes de 2017. As limitações que Bento XVI tinha imposto eram, de acordo com Viganò, “letra morta” antes de Francisco ter sido sequer eleito. As ordens de Roma para que o então núncio investigasse mais a fundo as alegações contra McCarrick em 2012 nunca foram cumpridas. Depois de ter sido eleito, Francisco não mostrou interesse em examinar a forma como os seus antecessores tinham lidado com o americano.

Perguntas sem resposta

O relatório levanta uma série de outras perguntas: Porque é que a CDF não foi consultada, como era protocolo, antes de ter sido aprovada a nomeação de McCarrick para Washington? Quem é que passou a McCarrick o conteúdo da carta confidencial escrita pelo cardeal O’Connor, recomendando que ele não fosse promovido de Newark para outra diocese? Haverá repercussões para altos prelados – penso especificamente nos cardeais Wuerl e Farrell – cujas afirmações de que não tinham qualquer conhecimento sobre os rumores em torno de McCarrick em 2018 são diretamente contraditas pelo relatório?

Mas a grande pergunta que persiste é esta: Que garantias temos de que este relatório não está manchado pela mesma cultura de clericalismo que descreve com tanto detalhe? E essa e uma questão que é tão difícil responder como é de evitar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Novembro de 2020)

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O João e o Jean, reflexões de um pecador sobre a santidade

No dia 7 de maio de 2019 publiquei uma mensagem no Twitter sobre a morte de Jean Vanier que terminava com as palavras “Santo subito!”. Foram anos de enorme admiração por um homem que dedicou a vida à promoção da dignidade dos mais vulneráveis e descartados da nossa sociedade. Como podia não ser santo?

Menos de um ano mais tarde olhei estupefacto para o telemóvel, durante a festa de anos de um sobrinho, a ler a notícia de que Vanier tinha estado envolvido em relações com mulheres adultas de quem supostamente seria diretor espiritual, e que essas relações foram fruto do abuso e manipulação dessa sua posição, sendo muito prejudiciais para as vítimas. Deixo os detalhes para quem quiser ir aprofundar, mas digo apenas que não há qualquer indício de que tenha abusado das pessoas com deficiência que dedicou a vida a servir.

Como é que era possível ser a mesma pessoa?

Hoje aconteceu uma coisa parecida. João Paulo II foi o Papa da minha juventude, ainda hoje fico emocionado quando vejo aquelas montagens com momentos do seu pontificado ou ouço a sua voz. Era como um avô para mim e culminou os seus dias na terra dando o mais magnífico testemunho já visto por parte de uma figura pública de que a velhice e a doença não diminuem a nossa dignidade.

Mas com a publicação do relatório sobre o cardeal McCarrick, aguardado há dois anos, ficámos a saber que João Paulo II tinha sido avisado repetidamente sobre os rumores em torno do ex-cardeal, de que tinha evitado nomeá-lo para duas dioceses antes de finalmente o nomear para Washington. Para isto terá pesado a relação pessoal de amizade entre os dois.

A questão não é assim tão simples, mas no fundo entre acusações que, na altura, não eram mais do que isso mesmo, acusações sem provas, e uma experiência pessoal de proximidade, João Paulo II cometeu dos piores erros do seu pontificado, promovendo e elevando um homem que, segundo a informação disponível agora, era profundamente doente e corrupto, para além de ser mentiroso, tendo jurado em mais do que uma ocasião que era virgem e que jamais tinha tido relações com quem quer que seja.

A situação é parecida, digo, mas não é igual. Por um lado, João Paulo II já foi declarado santo. Concluir agora que afinal não era põe em causa todo o processo de canonização da Igreja. Mas não creio que isso seja necessário.

A grande diferença entre os dois casos é uma que o mundo moderno e descristianizado já não consegue distinguir. É a diferença entre o erro e a corrupção.


João Paulo II cometeu um erro. Foi ingénuo, talvez. Preferiu dar crédito a um homem que não o merecia, e a Igreja pagou por isso. Mas foi isso mesmo, um erro. Não tenho a menor dúvida de que se tivesse sido confrontado com provas concretas não teria promovido o americano como promoveu. Aliás, o facto de ter hesitado em duas ocasiões anteriores parece comprová-lo. Também não chego ao ponto de dizer que teria agido como se espera hoje que um bispo ou o Papa aja nessa situação, aplicando a tolerância zero. Provavelmente teria pedido ao cardeal para se retirar da vida pública, ir para um convento levar uma vida de oração e penitência… Enfim, era assim que se fazia naqueles tempos – erradamente – pensando que o escândalo para os fiéis era pior do que saber a verdade.

Já Jean Vanier, para minha grande tristeza, mostrou ser um homem corrupto. Um homem que aproveita uma posição de superioridade, manipulando uma pessoa frágil para satisfazer as suas vontades, ainda por cima travestindo isso com roupagens pseudo-espirituais, é um homem doente e corrupto. O erro e o pecado já não são fruto de uma fraqueza momentânea, são o fruto natural de um estado de alma em que a pessoa se deixou cair. E isso faz toda a diferença.  

O que é que isso nos diz sobre as muitas e inegáveis boas acções de Vanier? Da obra de uma vida? Nada que nos deva surpreender. Mostra, antes, da forma mais crua e triste, o paradoxo da humanidade decaída. As boas obras de Vanier permanecem boas e se Deus quiser continuarão a dar muitos frutos.

Ao pensar novamente no seu caso hoje, não pude deixar de me lembrar da parábola, tão difícil de entender, do administrador prudente e da conclusão que Cristo nos deixa:

“Então, o senhor elogiou aquele administrador da injustiça, pois agiu com sabedoria. Porquanto os filhos deste mundo são mais sagazes entre si, na conquista dos seus interesses, do que os filhos da luz em meio à sua própria geração. Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas”

Jean Vanier era um pecador, um homem pelos vistos incapaz de se desprender do pecado que o agarrava. Mas durante a sua vida ganhou muitos amigos, aquelas pessoas com deficiência cuja dignidade promoveu, de quem se fez verdadeiramente próximo. Será que ele vai para Céu, apesar dos abusos que cometeu? Não sei. Espero que sim. Sei que terá uma multidão de amigos a torcer por isso e a interceder por ele.

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