quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Maradona morreu, o mundo chorou, o Papa rezou

O Papa Francisco disse hoje que reza por Diego Armando Maradona, que morreu aos 60 anos de idade. Que tenha na morte a paz que não conheceu na terra.

De Inglaterra vêm duas histórias sobre liberdade religiosa e de expressão. Uma aluna foi suspensa do curso de parteira na Universidade de Nottingham por ser pró-vida. Correu mal para a universidade, que agora lhe pagou uma indemnização.

Uma mãe solteira está a levar o Reino Unido ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem para reivindicar o direito a rezar diante de clínicas de aborto em Inglaterra e poder oferecer às outras a ajuda que ela própria recebeu em 2012.

O bispo de Pemba agradece a ajuda da comunidade internacional para travar a violência em Cabo Delgado.

 No domingo passado celebrou-se a festa do Cristo Rei. Que data é esta? Faz sentido festejar um título que Jesus recusou sempre em vida? O padre Paul Scalia responde a estas e outras perguntas no artigo desta semana do The Catholic Thing.

O Rei Escondido

Pe. Paul Scalia
Há uma certa ironia na celebração da Solenidade de Cristo Rei. Uma ironia que toca a subtileza da sua realeza e da sua razão de ser.

Resumindo, celebrámos no domingo o título que o Senhor propositadamente evitou. Quando as multidões o queriam tornar Rei, retirou-se (Jo 6,15). Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou diretamente, deu uma resposta evasiva, “Tu dizes que eu sou Rei” (Jo. 18,37). Embora hoje o proclamemos Rei do Universo, na sua vida terrena ele procurou esconder a sua realeza e ser apenas “o Filho do Homem”.

As pessoas sempre adoraram histórias de reis escondidos. Há algo de inspirador e esperançoso na história de um homem obscuro e humilde em cujas veias corre sangue real. Vemo-lo primeiro na história do Rei David, que é o menor da sua família, mas é escolhido por Deus, ungido e elevado ao trono de Israel. E temos Artur, o Rei desconhecido que é o único que pode retirar a espada da pedra. O Aragorn, de Tolkien, esconde a sua linhagem real até que chega a altura de reclamar a coroa de Gondor. E por aí fora.

Mas tudo isto são apenas sugestões e ecos do verdadeiro Rei escondido. Jesus vem a este mundo possuindo todo o poder, mas exercendo nenhum. No seu nascimento a sua realeza nem é reconhecida pelo seu próprio povo; a novidade tem de ser trazida por magos vindos do Oriente. Mesmo quando Jesus começa a sua vida pública, o Batista anuncia-o de forma críptica como “um entre vós que não reconheceis” (Jo. 1,26).

Ao contrário de outros, contudo, o estado humilde deste Rei não é uma ficção nem um entrave. Ele torna-se verdadeiramente um connosco, seus súbditos – partilhando as nossas humildes alegrias e profundas tristezas, sendo igual a nós em tudo menos no pecado. Esconde a sua autoridade divina debaixo da nossa humanidade frágil, como Rei e parente.

E mais, o Senhor continua a estar presente desta forma escondida entre nós. Vem ao nosso encontro envergando, nas palavras de Madre Teresa, o “penoso disfarce do pobre”. Como ouvimos no Evangelho de domingo, “Em verdade vos digo, tudo o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25,40).

Pela pobreza da Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de forma particular aos pobres. “nosso Senhor Jesus Cristo (…) sendo rico, se fez pobre por amor de vocês” (2 Cor. 8,9). Assim, ele pode dizer sem ter de qualificar, “A mim o fizestes” – querendo com isso evocar não uma unidade moral mas uma identificação pessoal com os pobres. Neles o Rei mantém a sua presença escondida entre nós. 

E não é só neles. Nosso Senhor identifica-se ainda com outro grupo. “Quem receber um só destes pequenos em meu nome, a mim me recebe; e quem me recebe a mim recebe-me não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc. 11,37). Temos aqui a mesma identificação sóbria e literal do Rei com alguém entre nós. Mais uma vez, ele vem a nós de uma forma escondida, desta vez como uma criança. Como estas palavras devem ser inspiradoras para aqueles de nós que acolhem generosamente crianças? E que horror não devem trazer para uma cultura que as rejeita, ao ponto de as matar no ventre?

Nosso Senhor esconde a sua realeza não porque nos quer enganar, mas para purificar o nosso entendimento. Ele afastou-se das multidões porque elas não teriam compreendido a sua realeza e respondeu de forma enigmática a Pilatos porque o governante não tinha a capacidade de entender a verdade. Primeiro tinham de aprender que aquilo que pensavam que constituía realeza afinal não a era. O Cristo Rei vem de forma escondida para purificar as nossas ideias mundanas, para limpar as nossas mentes de conceitos terrenos como governo, autoridade e poder.


Para além desta purificação, o Rei escondido ensina-nos a verdade. De facto, os disfarces do Rei não escondem, antes revelam. Ao vir a nós na fraqueza, nos pobres e nos vulneráveis, Ele ensina-nos sobre o Reino e sobre a verdadeira Realeza. Dele aprendemos que servir é reinar; que a autoridade está ordenada para o serviço; que o poder está ordenado para a misericórdia e que a verdade triunfa sobre a força.

O que nos traz até ao propósito desta festa. Longe de ser uma relíquia da Igreja antiga ou medieval, ela foi estabelecida em 1925 – numa altura em que as monarquias estavam a desaparecer e, o que é mais importante, que o pensamento cristão estava a ser expulso da sociedade. Os governos ateus que surgiam pelo mundo rejeitavam qualquer limite ao seu poder. Pio XI, que passou a maior parte do seu pontificado a lidar com estes governos hostis, pretendia que esta festa fosse uma defesa dos direitos de Cristo Rei na praça pública. A ideia era servir de contrapeso àqueles que queriam separar a governação da verdade e, por isso, passar por cima dos fracos.

O Evangelho de domingo apresenta a vinda do Rei no final dos tempos. Mas as suas palavras – a mim o fizestes – indicam que Ele já cá está. De facto, Ele está presente agora – não nos poderosos e ricos, mas nos fracos e vulneráveis, em todos os que estão expostos ao exercício do poder sem justiça e da força sem verdade.

 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de novembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Uma nova economia e símbolos da JMJ em Portugal

Sr. Dr. Presidente
O Papa Francisco entregou este fim-de-semana os símbolos das JMJ a uma delegação de portugueses (e não na semana passada, como eu disse erradamente…). D. Manuel Clemente diz que apesar da pandemia é possível fazer as coisas bem e de forma económica. Em declarações aos portugueses o Papa avisou que nos tornamos aquilo que escolhemos.

A Associação de Médicos Católicos tem um novo presidente. Trata-se de José Diogo Ferreira Martins, cardiologista pediátrico.

Chegou ao fim a Economia de Francisco, uma iniciativa que pôs pessoas de todo o mundo a pensar em alternativas para uma economia mais humana. Aliás, segundo o Papa, o fim-de-semana não marcou o final de uma caminhada, mas um início, num discurso em que pediu que se procurem soluções com os pobres e não apenas para os pobres.

Uma das participantes, Rita Sacramento Monteiro, recusa a diabolização das empresas e diz que estas têm de ser parte da solução e não do problema.  

Mantém-se a situação dramática em Moçambique, com relatos de destruição de uma missão católica e o Parlamento Europeu a mostrar interesse em ouvir o bispo de Pemba sobre o assunto.

Não deixem de ler o artigo da Semana passada do The Catholic Thing em que RandallSmith pergunta se é possível uma universidade ter uma identidade cristã.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Cristãos iraquianos voltam para casa, bispos de Leiria também

O Papa disse esta manhã que “a oração acalma os inquietos”. Será verdade? Alguma vez viram um trapista inquieto? Então pronto.

Boas notícias do Médio Oriente. Três anos depois de o Estado Islâmico ter sido expulso de Mossul, mais um grupo de cristãos regressa a casa. Ainda assim, há muito a fazer e por isso a fundação AIS apela à generosidade de todos.

Boas notícias também em Leiria, onde D. António Marto teve alta hospitalar e vai poder ir recuperar para casa.

Os bispos católicos da Europa querem que a União Europeia encontre soluções solidárias e conjuntas para a crise provocada pela pandemia.

Faz sentido uma universidade ser cristã? A identidade religiosa não será um obstáculo à busca pelo conhecimento e pela verdade? Randall Smith discorre sobre isto no artigo desta semana do The Catholic Thing, recordando que foi precisamente no seio do Cristianismo que o conceito da universidade nasceu.

Quais são as Fundações da Universidade?

Randall Smith
Até há pouco tempo poderia ter assistido a uma conferência com o título “É Possível uma Universidade Cristã?”. Com isto queria-se dizer: “Pode uma universidade moderna e ‘pluralista’ ser cristã?” Ou será que as convicções cristãs da instituição prejudicariam a busca aberta e imparcial pela verdade? A resposta poderá parecer bastante evidente, tendo em conta que a universidade surgiu na Europa cristã medieval e floresceu nesse mesmo ambiente durante séculos.

Agora, porém, uma conferência com o título “É possível uma Universidade Cristã?” teria mais a ver com a questão: “Será que no futuro continuará a ser possível uma universidade identificar-se como cristã?”. Os campus talvez possam continuar a ter uma capela, desde que nada lá seja dito que seja desconfortável para a administração. Mas será que o Estado, a administração ou o corpo docente irão continuar a permitir que a universidade mantenha a sua missão enquanto instituição distintamente cristã?

Há uma história importante a contar sobre a relação entre a primeira questão – É possível uma universidade cristã? – e a segunda: Deve ser permitido uma universidade ser cristã? O ponto de partida para ambas as questões é que poderá haver (e que provavelmente há) uma fundação melhor para a educação que deve acontecer numa universidade do que a convicção cristã.

Fundndo uma universidade sobre o Cristianismo, presumiu-se, destruiria a livre troca de ideias que é essencial para a sua missão. Mas infelizmente foram poucos os que se questionaram por que razão, se o Cristianismo e o livre intercâmbio de ideias são incompatíveis, é que as universidades surgiram e floresceram precisamente num berço cristão? Menos ainda foram os que perguntaram o que aconteceria quando se criassem as chamadas “universidades livres”, sem qualquer filiação religiosa. Foram elas mais livres do que os seus pares confessionais? Raramente, ou nunca. Em vez disso acabaram por se sujeitar ao poder imperial do Estado.

O autor de um recente artigo no “Church Life Journal” fornece uma recordação importante sobre as obras que fazem parte do muito debatido cânone ocidental.

Hobbes refere-se a si mesmo como um anti-Aristóteles, Nietzsche chamou a um dos seus livros o anticristo, e por aí fora. Os projetos políticos incluídos na descrição são também diametralmente opostos – monarquia versus democracia, capitalismo versus socialismo, teocracia versus secularismo – todas estas oposições e muitas outras têm sido sugeridas dentro dos limites da Civilização Ocidental… Hobbes e Schmitt queriam banir certos livros. Platão quis banir os poetas e instalar mitos edificantes. Nietzsche queria ultrapassar e esquecer toda a “moralidade escrava”. Marx poderá ter abandonado a sala do seminário para se juntar à revolução.

Seja como for, a “revolução” acabaria por banir a maioria dos livros que ele tinha estado a ler.

Plotino e Porfírio pensavam que a literatura cristã dos primeiros tempos devia ser descartada. Os aristotelianos do Renascimento queriam banir a obra de Galileu. Os aliados renascentistas pitagorianos de Galileu queriam livrar-se de Aristóteles. Mais recentemente, a união de estudantes da University College London baniu o Clube de Nietzsche, por ser “fascista”. Em boa verdade o próprio Nietzsche provavelmente os teria banido a todos e certamente não admitiria que ninguém se juntasse a um clube com o seu nome. Mais recentemente ainda os estudantes da mesma instituição britânica quiseram banir todos os “filósofos brancos”. E não é por acaso que um dos livros mais banidos da história – e ainda hoje – seja a Bíblia. 

Não deixa de ser interessante que em qualquer faculdade de humanidades de uma universidade católica séria pode-se ler as obras de Platão, Aristóteles, Cícero, Lutero, Rousseau, Marx e Nietzsche e levá-los a todos a sério. Se os discípulos devotos de qualquer um desses pensadores mandasse, porém, a lista de leitura permitida seria muito mais limitada. Será que a Universidade Nietzschiana o deixaria ler Marx ou Aristóteles? E a Universidade Marxista deixaria ler Cícero ou Aquino?

É possível? Parece que sim.

A estranha presunção de que, se simplesmente nos livrássemos do Cristianismo as universidades seriam mais “livres”, não tem pernas para andar, como comprova a história antiga e recente. Não é que o Cristianismo não tenha tido também as suas tensões com a universidade. Mas isso não tem mal, porque a questão perene da universidade cristã é compreender a relação entre a fé e a razão.

A convicção crista que sempre serviu de base a essa questão é de que as verdades da fé e da razão jamais estarão em contradição, porque ambas derivam de Deus. Como João Paulo II disse, de forma tão eloquente: “A fé e a razão são como as duas asas com que o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. O trabalho de compreender esta relação entre a fé e a razão tem, contudo, sido frequentemente um desafio dinâmico, mudando conforme as alterações nas ciências e na filosofia dominante de cada tempo. Mas é precisamente esse desafio que tem animado a vida intelectual da universidade.

Quando Cristo, o Verbo feito carne, é entendido justamente como o centro da missão da universidade, então toda a verdade, seja qual for a sua origem, é bem-vinda e importante. É quando essa convicção cristã é substituída por um “sistema” ou “processo” ou “ideologia” que todo o edifício começa a ruir a partir de dentro.

Olhemos para a universidade contemporânea, agora confortavelmente isolada de qualquer resquício de cristianismo. Estas instituições são mais livres? Estão a treinar os seus estudantes para serem melhores servidores da humanidade? Ou transformaram-se em refúgios de uma ideologia partilhada e da “cultura de cancelamento”? Será que se perderam em larga medida, fazendo-se servidores de Mamon em vez da verdade?

A universidade é um produto distintamente cristão. Quando Cristo se encontra no seu centro, toda a criação é importante, obra das mãos de um Deus de amor. Quando Cristo está no centro não há nada de genuinamente humano que não ecoe no coração dos seus membros. Quando perde Cristo como centro, torna-se rapidamente um servo de Mamon, da ideologia ou do Estado.

É possível uma universidade cristã? Ainda é possível? A resposta a essas perguntas dar-nos-á a resposta a uma terceira: Ainda é possível uma universidade? Em relação a isso os dados não são nada animadores.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Novembro de 2020)

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terça-feira, 17 de novembro de 2020

Os sinos solitários de Davidank

Terror e morte são as palavras de ordem em Cabo Delgado, em Moçambique. Os relatos continuam a chegar, desta vez é uma freira católica que diz que não pode calar mais a sua indignação, perante os ataques terroristas.

Em Nagorno-Karabakh um mosteiro tornou-se o símbolo do conflito entre arménios e azeris. Davidank vai permanecer, em solo controlado pelos azeris muçulmanos, graças à proteção de militares russos. Os arménios que abandonam a vila até as campas dos seus antepassados levam consigo.

Depois de ter surgido uma notícia de que as celebrações de Natal seriam canceladas, os bispos emitiram um esclarecimento a sublinhar que é seguro celebrar nas igrejas católicas em Portugal.

O cardeal D. Tolentino Mendonça foi nomeado para fazer parte da Congregação para a Evangelização dos Povos.

E continua a marcha rumo às Jornadas Mundiais da Juventude, em Lisboa. O Papa Francisco vai entregar os símbolos a uma delegação portuguesa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Tolentino e a competência dos pais para educar os filhos

Amanhã é o primeiro fim-de-semana de recolher obrigatório, o que vai dificultar as missas dominicais. Alguns padres e bispos tinham avançado a possibilidade de permitir a celebração de missa dominical ao sábado de manhã, mas uma nota publicada pela CEP, esta sexta-feira, explica que isso não é possível, afinal.

A Renascença publica hoje uma grande entrevista com o cardeal D. Tolentino Mendonça. A ler, como sempre!

Realizou-se na noite de ontem o segundo webinar da Pastoral da Família. O tema desta sessão era “Serão os pais competentes para educar?”. Podem saber mais aqui, e até assistir à conferência toda.

As eleições americanas deram muito que falar. Donald Trump continua a negar que tenha perdido, mas o Papa Francisco ligou a Joe Biden para lhe dar os parabéns.

Como já disse, tenho estado a coordenar uma interessantíssima série de “Postais de Quarentena” de diferentes partes do mundo. O de ontem é escrito por um padre romeno e vem em jeito de homilia, com criticas apontadas a quem dificulta o combate ao vírus.

Uma recomendação. Com o aproximar do Natal, não deixem de ver este livro de Thereza Ameal, que pode dar um óptimo presente. Podem saber mais sobre o projecto no programa da Aura Miguel em que a autora participou.

Não se esqueçam de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o relatório McCarrick, a minha opinião sobre o assunto está aqui.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Mais surpresa, mais McCarrick

Os bispos voltaram a afirmar que foram apanhados de surpresa pelo anúncio do recolher obrigatório e que vão discutir mais o assunto durante a reunião plenária da Conferência Episcopal.

O tema da pandemia está, por isso, na ordem dos trabalhos dos bispos, mas na abertura da reunião, quarta-feira, D. José Ornelas voltou a falar do tema da Eutanásia.

O Papa Francisco disse esta quarta-feira que a Igreja vai continuar a lutar pela erradicação dos abusos sexuais. Disse-o um dia depois de ter sido publicado o relatório McCarrick, que visa saber como é que um predador sexual como ele chegou a cardeal e arcebispo de Washington, gozando de enorme influência.

Esse relatório, que já referimos ontem, deixa o Papa João Paulo II bastante mal visto. Para quem, como eu, cresceu a amar aquele pastor, são revelações difíceis de engolir. Como conciliar estes seus erros com o facto de ter sido declarado santo? Em primeiro lugar, compreendendo que existe uma diferença entre o erro e a corrupção. Escrevo sobre isso, evocando outra figura sobre quem surgiram entretanto revelações tristes, Jean Vanier, neste artigo que vos convido a ler

E o relatório McCarrick é ainda o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Normalmente publicamos um artigo que tenha sido publicado no site original na semana anterior, mas esta semana, pela primeira vez, publicamos nós em primeira mão, o artigo que só sairá mais tarde na edição americana. É a vossa oportunidade de se anteciparem aos leitores anglófilos! Não a percam.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Houve Erros

Stephen P. White
Para aqueles que acham que o clericalismo não desempenhou um papel muito importante na crise de abusos na Igreja Católica, o Relatório McCarrick, publicado esta semana, deve chegar para mudarem de ideias. O relatório revela uma cultura clerical insular e burocratizada que serviu as ambições de um homem como Theodore McCarrick, que soube manipular e tirar partido do sistema muito mais do que a Igreja e o Evangelho. E certamente muito melhor do que serviu as muitas vítimas do comportamento predador de McCarrick.

Quem esperava o desmascarar de uma grande conspiração também vai ficar desiludido. A banalidade das falhas institucionais a este nível não é nem emocionante nem satisfatória, mas sempre foi a explicação mais provável e plausível. E continua a ser. O relatório tem limitações, claro, e deixa muitas perguntas por responder. Mas também apresenta um relato detalhado e incriminador de falhanços institucionais que decorreram ao longo de décadas e vários pontificados.

O que se segue são apenas algumas breves reflexões que me ocorreram depois de ler o relatório inteiro:

Os imites do relatório

O relatório depende em larga medida em dois tipos de fonte: registos de arquivo e entrevistas com pessoas relevantes. O resultado é um olhar público, sem precedentes, para a correspondência entre prelados tanto nos Estados Unidos como em Roma, bem como um relato das alegações contra McCarrick tal como foram recebidos antes de 2017.

Podemos aprender muito desta correspondência oficial e dos arquivos; o que não podemos aprender são o tipo de detalhes e de informação que jamais entrariam na correspondência oficial e nos arquivos.

No que diz respeito às entrevistas, muitos dos agentes principais, sobretudo os envolvidos no início da carreira de McCarrick, já morreram. Outras entrevistas dizem respeito a eventos que já aconteceram há décadas. E a fiabilidade das entrevistas depende não só da memória dos entrevistados, mas também da sua honestidade e candor.

Um relatório deste género apresenta necessariamente um retrato incompleto. É importante reconhecer estes limites tanto para evitar a falsa impressão de que se trata de um relato totalmente abrangente da matéria, como para evitar a falsa impressão de que as suas falhas são prova de um embuste.

Quem soube o quê e quando?

Uma série de bispos, tanto nos Estados Unidos como em Roma, estavam claramente cientes dos boatos sobre McCarrick em meados dos anos 90. Alguns sabiam até de um pequeno número de alegações específicas sobre McCarrick, mas não as acharam credíveis. E foi isso que dissram a Roma. Nenhum dos prelados referidos no relatório – mesmo os que, como o cardeal O’Connor, recomendaram que McCarrick não tivesse mais promoções – estava disposto a indicar de forma firme que achava McCarrick culpado. Se algum deles teve dúvidas sérias sobre a sua inocência, ninguém o disse.

Se isso se deveu à vontade excessiva de acreditar na inocência de um amigo, uma recusa em levar a sério a insinuação de que um irmão no episcopado pudesse cometer tais actos, ou algo mais grave, é impossível saber com base no relatório.

O que é claro é que simplesmente não existiu vontade de levar a cabo o tipo de investigação que poderia de facto descobrir a verdade. O risco de escândalo era demasiado grande e a deferência para com um colega bispo era demasiado forte. As tentativas de investigação que de facto aconteceram normalmente envolverem bispos a telefonar ou a escrever a outros bispos para perguntar o que sabiam sobre estes rumores envolvendo o seu amigo comum, McCarrick. Só quando surgiram as alegações de que McCarrick tinha abusado de um menor é que o cardeal Dolan ordenou uma investigação, envolvendo investigadores leigos, em 2017.

McCarrick era um mestre do engano

McCarrick era um mentiroso nojento. A forma como tentou tirar partido de alegações anónimas e rumores realça a sua capacidade de manipulação. Insistiu que estes ataques partiam dos seus inimigos, tanto à direita como à esquerda. Como prova de transparência, encaminhou as acusações anónimas feitas contra ele para o FBI e informou o concelho presbiteral. Até admitiu a alguns bispos, incluindo em Roma, que tinha sido imprudente ao partilhar a cama com seminaristas na casa de praia, mas que não tinha passado disso.

E enquanto tudo isto acontecia McCarrick continuava a tornar-se indispensável: entrando nas boas graças dos outros bispos, da conferência episcopal, do núncio, da Curia Romana e fazendo parte de incontáveis direções e caridades, fazendo dezenas de viagens internacionais em nome da Igreja e construindo relações próximas com amigos ricos e bem colocados politicamente.

O que os Papas sabiam

Antes da nomeação de McCarrick para Washington DC, em 2000, Roma pediu a quatro bispos que tinham servido com McCarrick para comentarem se ele era apto a ser promovido, sobretudo dados os boatos persistentes em torno do seu comportamento. De acordo com o relatório: “Três dos quatro bispos americanos forneceram à Santa Sé informação incompleta e errada sobre o contudo sexual de McCarrick com jovens adultos. Parece provável que esta informação errada tenha tido impacto sobre as conclusões a tirar pelos conselheiros de João Paulo II e, por consequência, pelo próprio João Paulo II.”

McCarrick e João Paulo II

O Papa Bento XVI sai do relatório essencialmente como ineficiente – sem vontade de impor sanções concretas a McCarrick e ou sem vontade, ou incapaz, de fazer cumprir as “indicações” informais que o convidavam a manter um perfil discreto.

O Papa Francisco parece ter dado pouca atenção a McCarrick antes de 2017. As limitações que Bento XVI tinha imposto eram, de acordo com Viganò, “letra morta” antes de Francisco ter sido sequer eleito. As ordens de Roma para que o então núncio investigasse mais a fundo as alegações contra McCarrick em 2012 nunca foram cumpridas. Depois de ter sido eleito, Francisco não mostrou interesse em examinar a forma como os seus antecessores tinham lidado com o americano.

Perguntas sem resposta

O relatório levanta uma série de outras perguntas: Porque é que a CDF não foi consultada, como era protocolo, antes de ter sido aprovada a nomeação de McCarrick para Washington? Quem é que passou a McCarrick o conteúdo da carta confidencial escrita pelo cardeal O’Connor, recomendando que ele não fosse promovido de Newark para outra diocese? Haverá repercussões para altos prelados – penso especificamente nos cardeais Wuerl e Farrell – cujas afirmações de que não tinham qualquer conhecimento sobre os rumores em torno de McCarrick em 2018 são diretamente contraditas pelo relatório?

Mas a grande pergunta que persiste é esta: Que garantias temos de que este relatório não está manchado pela mesma cultura de clericalismo que descreve com tanto detalhe? E essa e uma questão que é tão difícil responder como é de evitar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Novembro de 2020)

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O João e o Jean, reflexões de um pecador sobre a santidade

No dia 7 de maio de 2019 publiquei uma mensagem no Twitter sobre a morte de Jean Vanier que terminava com as palavras “Santo subito!”. Foram anos de enorme admiração por um homem que dedicou a vida à promoção da dignidade dos mais vulneráveis e descartados da nossa sociedade. Como podia não ser santo?

Menos de um ano mais tarde olhei estupefacto para o telemóvel, durante a festa de anos de um sobrinho, a ler a notícia de que Vanier tinha estado envolvido em relações com mulheres adultas de quem supostamente seria diretor espiritual, e que essas relações foram fruto do abuso e manipulação dessa sua posição, sendo muito prejudiciais para as vítimas. Deixo os detalhes para quem quiser ir aprofundar, mas digo apenas que não há qualquer indício de que tenha abusado das pessoas com deficiência que dedicou a vida a servir.

Como é que era possível ser a mesma pessoa?

Hoje aconteceu uma coisa parecida. João Paulo II foi o Papa da minha juventude, ainda hoje fico emocionado quando vejo aquelas montagens com momentos do seu pontificado ou ouço a sua voz. Era como um avô para mim e culminou os seus dias na terra dando o mais magnífico testemunho já visto por parte de uma figura pública de que a velhice e a doença não diminuem a nossa dignidade.

Mas com a publicação do relatório sobre o cardeal McCarrick, aguardado há dois anos, ficámos a saber que João Paulo II tinha sido avisado repetidamente sobre os rumores em torno do ex-cardeal, de que tinha evitado nomeá-lo para duas dioceses antes de finalmente o nomear para Washington. Para isto terá pesado a relação pessoal de amizade entre os dois.

A questão não é assim tão simples, mas no fundo entre acusações que, na altura, não eram mais do que isso mesmo, acusações sem provas, e uma experiência pessoal de proximidade, João Paulo II cometeu dos piores erros do seu pontificado, promovendo e elevando um homem que, segundo a informação disponível agora, era profundamente doente e corrupto, para além de ser mentiroso, tendo jurado em mais do que uma ocasião que era virgem e que jamais tinha tido relações com quem quer que seja.

A situação é parecida, digo, mas não é igual. Por um lado, João Paulo II já foi declarado santo. Concluir agora que afinal não era põe em causa todo o processo de canonização da Igreja. Mas não creio que isso seja necessário.

A grande diferença entre os dois casos é uma que o mundo moderno e descristianizado já não consegue distinguir. É a diferença entre o erro e a corrupção.


João Paulo II cometeu um erro. Foi ingénuo, talvez. Preferiu dar crédito a um homem que não o merecia, e a Igreja pagou por isso. Mas foi isso mesmo, um erro. Não tenho a menor dúvida de que se tivesse sido confrontado com provas concretas não teria promovido o americano como promoveu. Aliás, o facto de ter hesitado em duas ocasiões anteriores parece comprová-lo. Também não chego ao ponto de dizer que teria agido como se espera hoje que um bispo ou o Papa aja nessa situação, aplicando a tolerância zero. Provavelmente teria pedido ao cardeal para se retirar da vida pública, ir para um convento levar uma vida de oração e penitência… Enfim, era assim que se fazia naqueles tempos – erradamente – pensando que o escândalo para os fiéis era pior do que saber a verdade.

Já Jean Vanier, para minha grande tristeza, mostrou ser um homem corrupto. Um homem que aproveita uma posição de superioridade, manipulando uma pessoa frágil para satisfazer as suas vontades, ainda por cima travestindo isso com roupagens pseudo-espirituais, é um homem doente e corrupto. O erro e o pecado já não são fruto de uma fraqueza momentânea, são o fruto natural de um estado de alma em que a pessoa se deixou cair. E isso faz toda a diferença.  

O que é que isso nos diz sobre as muitas e inegáveis boas acções de Vanier? Da obra de uma vida? Nada que nos deva surpreender. Mostra, antes, da forma mais crua e triste, o paradoxo da humanidade decaída. As boas obras de Vanier permanecem boas e se Deus quiser continuarão a dar muitos frutos.

Ao pensar novamente no seu caso hoje, não pude deixar de me lembrar da parábola, tão difícil de entender, do administrador prudente e da conclusão que Cristo nos deixa:

“Então, o senhor elogiou aquele administrador da injustiça, pois agiu com sabedoria. Porquanto os filhos deste mundo são mais sagazes entre si, na conquista dos seus interesses, do que os filhos da luz em meio à sua própria geração. Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas”

Jean Vanier era um pecador, um homem pelos vistos incapaz de se desprender do pecado que o agarrava. Mas durante a sua vida ganhou muitos amigos, aquelas pessoas com deficiência cuja dignidade promoveu, de quem se fez verdadeiramente próximo. Será que ele vai para Céu, apesar dos abusos que cometeu? Não sei. Espero que sim. Sei que terá uma multidão de amigos a torcer por isso e a interceder por ele.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Relatório McCarrick: Dores que saram

Demorou, mas chegou. O relatório sobre o caso do ex-cardeal McCarrick foi publicado esta terça-feira. Inclui a informação que se pedia: Como é que aquele homem conseguiu chegar onde chegou, apesar de serem conhecidos já boatos sobre o seu comportamento e abusos? Nem todos ficam bem na fotografia e é leitura que dói. Dói mas sara!

Há uma década que não existiam tantas restrições à liberdade religiosa no mundo. A conclusão é da Pew Research Forum e diz respeito a dados coligidos até 2018. Portugal sai-se bem no estudo.

O presidente da Conferência Episcopal de Itália está gravemente doente com Covid-19 e em Portugal já morreram alguns padres da doença que continua a dar cabo do nosso juízo. Com as novas restrições, os habitantes dos concelhos com recolher obrigatório estão sem saber como ir à missa ao domingo, enquanto as dioceses procuram soluções.

De Angola chega a notícia da morte do arcebispo de Malanje, de doença súbita, aos 74 anos, enquanto em Portugal temos o nosso D. António Marto hospitalizado, mas aparentemente estável.

sábado, 7 de novembro de 2020

Um cardeal raptado, outro humilhado

Padre Manuel Horácio, vítima de Covid-19
Começamos com a triste notícia da morte, por Covid-19, de um sacerdote em Felgueiras.

Um cardeal polaco de 97 anos foi despido das suas honras episcopais e não terá direito a um funeral na catedral, na sequência de uma investigação sobre abusos sexuais.

Já nos Camarões um cardeal de 90 anos foi raptado mas, felizmente, libertado novamente ao fim de 24 horas. Nem de propósito, um missionário nigeriano que se encontra em Portugal lamenta, em entrevista à Renascença, que os europeus apenas tenham reagido aos atentados que acontecem no seu território, quando este problema já era muito comum em África. A ler.

Realizou-se na quinta-feira o primeiro de quatro webinars organizados pela Pastoral da Família. Podem ler aqui um resumo e ficam a conhecer as datas dos próximos três.

E em semana de eleições nos EUA, o artigo desta semana do The Catholic Thing fala sobre como os católicos, que em tempos se sentiam como peixe na água no Partido Democrata, se têm estado a afastar aos poucos para o Partido Republicanos. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Onde estão os Eleitores Católicos?


David Carlin
Nos anos 30 e 40 do Século XX a esquerda americana dividia-se em três grupos:

Primeiro, a extrema-esquerda (os vermelhos) – composta sobretudo por membros do Partido Comunista dos Estados Unidos.

Depois, a esquerda mainstream (os rosas) – composta sobretudo por socialistas, alguns dos quais anticomunistas e outros pró-comunistas (companheiros de estrada).

Em terceiro lugar, a esquerda moderada, composta por liberais, quase todos democratas, como Walter Reuther, Hubert Humphrey, Franklin e Eleanor Roosevelt.

Nessa altura a extrema-esquerda influenciava a esquerda mainstream e esta influenciava a esquerda moderada. Por outras palavras, os comunistas influenciavam os socialistas e os socialistas influenciavam os democratas liberais. Assim, indiretamente, os comunistas influenciavam os democratas.

Quando começou a Guerra Fria, logo depois da II Guerra Mundial, e as relações amigáveis que existiram durante a guerra entre os EUA e a União Soviética se dissolveram rapidamente, os democratas liberais decidiram que deviam erguer um “muro de separação” entre eles e todos os que se situavam à sua esquerda. Por isso os liberais tornaram-se ferozmente anticomunistas e antissoviéticos e expulsaram os comunistas e os seus companheiros de estrada dos sindicatos. A anterior atitude de “nenhum inimigo à esquerda” deu lugar a uma atitude de “todos à esquerda são inimigos”.

Este “muro de separação” não só permitiu aos liberais evitar qualquer influência vermelha ou cor-de-rosa, como lhes permitiu ainda formar alianças políticas e culturais com os centristas, ou seja, os americanos comuns que não se consideram nem de esquerda nem de direita, nem liberais nem conservadores.

Era esta aliança entre os liberais e os centristas que caracterizava o Partido Democrata, configurada em personalidades como Harry Truman, John Kennedy e Lyndon Johnson. Isso permitiu aos liberais (isto é, esquerda moderada) apresentarem-se como 100% americanos. Os liberais podiam apresentar-se como sendo tão patriotas como a direita e mais, convenciam-se que o seu patriotismo era mais inteligente, logo mais eficiente, que o patriotismo desmiolado da direita.

Esta era uma aliança que se adequava perfeitamente à razão e ao coração dos católicos americanos. Por razões religiosas os católicos opunham-se fortemente ao comunismo e a qualquer forma de esquerda ateia, e por causa do seu estatuto socioeconómico (eram na esmagadora maioria operários ou de classe média baixa) tendiam a apoiar políticas sociais de esquerda moderada. Um Partido Democrata liberal-centrista caía-lhes no goto, tanto que se podia dizer que o Partido Democrata era o partido católico.

O pico desta aliança liberal centrista chegou em Novembro de 1964 quando Lyndon Johnson foi eleito Presidente por esmagadora maioria. Isto aconteceu poucos meses depois da passagem da Civil Rights Act de 1964 e poucos meses antes do Voting Rights Act de 1965.

Mas depois veio a Guerra do Vietname. As secções mais radicais da esquerda americana, que tinham permanecido do lado de lá do “muro da separação” há cerca de vinte anos, começou a desmantelar esse muro. A esquerda radical foi, logo desde o início, fortemente contra o envolvimento no Vietname enquanto que a esquerda moderada (democratas liberais) apoiava o envolvimento americano.

Com o passar dos meses e dos anos o apoio liberal pela guerra foi amolecendo; cada vez mais a esquerda radical e a esquerda moderada começaram a concordar quanto à oposição à guerra. Este consenso antiguerra da esquerda tornou-se perfeitamente claro em 1968 quando dois liberais, Eugene McCarthy e Bobby Kennedy, concorreram à candidatura democrata com base numa posição antiguerra. O muro de separação estava a ruir. (Ironicamente foi Hubert Humphrey, um dos arquitectos desse muro, quem se tornou o candidato democrata nesse ano).


Entretanto a esquerda americana mudou. Em meados dos anos 60 a esquerda radical já não era composta sobretudo por membros do Partido Comunista, uma vez que o comunismo tradicional da União Soviética e dos seus satélites já não exercia grande atração para os radiais americanos, que eram sobretudo jovens imbuídos do espírito da revolução. Outras formas de comunismo já eram mais atraentes para estas pessoas, como por exemplo o de Mao, na China e o de Castro, em Cuba. Estes regimes pareciam genuinamente revolucionários, ao contrário do comunismo maçadoramente burocrático da União Soviética.

Com o passar dos anos e a chegada dos anos 70 o apoio pela guerra do Vietname desapareceu quase por completo entre os liberais e passou a existir sobretudo entre conservadores como o Presidente Nixon e Henry Kissinger. Eventualmente até eles desistiram.

O muro de separação tinha desaparecido. Entre liberais, a ideia era: “Durante anos estávamos errados sobre o Vietname, mas os radicais tinham razão. Devíamos tê-los escutado. Mais, se se eles tinham razão quanto ao Vietname, talvez tivessem razão sobre outras coisas. Devemos dar-lhes um lugar à mesa”.

Desde os anos 70, portanto, a esquerda radical e as suas ideias têm entrado aos poucos para o Partido Democrata. Cada vez mais o partido influenciado pela esquerda mainstream, que por sua vez é influenciada pela esquerda radical, abraçou crenças e valores radicais. O centro de gravidade do partido derivou muito mais para a esquerda.

E é assim que o partido veio gradual, mas enfaticamente, a abraçar ideias radicais em relação ao aborto, à homossexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo e transgénero. Com a subida de influência de Bernie Sanders caminhou cada vez mais no sentido de que a América se devia tornar “socialista”, querendo com isso dizer que o Governo federal deve ter enormes poderes para dirigir a economia nacional tanto na produção como na distribuição. Agora podemos dizer que a esquerda radical não só está dentro do partido como quase o controla completamente.

E onde é que ficam os católicos, outrora tão satisfeitos com o partido de Roosevelt, Truman, Kennedy e Johnson? O católico comum tem estado a derivar – lentamente, sem grandes certezas – em direção ao Partido Republicano. Será que os católicos vão conseguir transformar o Partido Republicano naquilo que o Partido Democrata já foi, um partido quase católico? Teremos de esperar para ver.


 David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 30 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Viena, de novo

Sinagoga de Viena
Os ataques de radicais islâmicos na Europa continuam a suceder-se. Hoje a Al-Qaeda ameaçou diretamente Emmanuel Macron, no sábado um padre ortodoxo grego foi baleado à porta da sua igreja em Lyon, soube-se entretanto que um grupo de dezenas de jovens – alegadamente de ascendência turca – atacaram uma igreja em Viena e hoje temos um ataque a uma sinagoga na mesma cidade. Os detalhes são escassos, mas é triste que tenhamos poucas dúvidas da intenção dos atacantes.

O Vaticano divulgou um esclarecimento sobre as palavras do Papa, de apoio a uma forma de cobertura legal para pessoas do mesmo sexo em uniões civis, que tanta polémica causou há quase duas semanas.

Temos novas restrições por causa da pandemia, mas não há qualquer alteração as normas para o culto religioso. Ainda assim, muitos que queriam ir aos cemitérios no fim-de-semana não puderam, mas houve quem conseguisse. O Papa estava com eles em espírito.

José Eduardo Rebelo, biólogo da Universidade de Aveiro que se dedicou ao estudo na área do luto, explica porque é que esta questão é de saúde pública também.

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