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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Faça você mesmo? Nem religião, nem circuncisão!

Mãos no ar se tens prepúcio!
O artigo de hoje sobre a liberdade religiosa na Europa volta-se para a Islândia, o mais recente país a tentar proibir a circuncisão por motivos religiosos. Porque isto das ameaças á liberdade religiosa não afecta apenas os cristãos, e temos de nos unir contra quem simplesmente não percebe a importância da religião.

O Papa Francisco criticou hoje a religiosidade do “faça você mesmo” e, na audiência geral, recebeu o cantor Sting e a sua mulher.

Monchique está a arder e o bispo do Algarve questiona a forma como se tem feito o combate ao incêndio enquanto pede que se minimize a burocracia para ajudar quem perdeu os seus bens.

Ontem escrevi e divulguei um artigo em defesa do bom nome de um amigo. É sempre uma questão difícil. Há quem ache que fiz bem, que estas insinuações e boatos se combatem com a verdade; há quem tema os efeitos de amplificar boatos que provavelmente não chegariam a muitas pessoas não fosse a minha resposta. Admito que é um dilema. Acabei por retirar o artigo e aqui explico porquê.

Sofre ou já sofreu de cancro? Conhece alguém nessa situação? Calculo que sim. Então não deixe de ler este tocante artigo de Brad Miner no The Catholic Thing em que ele explica como a doença o ajudou a mudar a sua concepção de Deus e do Céu.

Em casa, seguro

Brad Miner
Num artigo do dia 2 de Abril escrevi sobre a minha “batalha” contra o cancro. Escrevi nessa altura que não considerava que me encontrava em conflito com a doença:

Se tivesse feiticeiros em fez de médicos, e se esses feiticeiros pudessem invocar e dar corpo ao cancro, apresentando-o diante de mim, de punhos em riste, então eu lutaria – se a cura dependesse disso. Mas eu limito-me a colaborar com os protocolos. E que seja feita a vontade de Deus.

Passadas algumas semanas dei por mim a dizer, “nada como ser tratado por cancro para finalmente me sentir doente”.

Antes de começar quimioterapia e radioterapia, no dia 19 de Março, não me tinha sentido de todo doente. Mas depois de sete sessões de quimio à segunda e trinta sessões de radio, de segunda a sexta, estava mais maldisposto do que alguma vez me tinha sentido em 70 anos: pior que a pior das gripes que alguma vez tive; pior que a reação adversa que tive quando recebi vacinas contra a cólera e a varíola, antes de uma viagem terrível à Ásia, em 1969.

Mas ser “curado” de cancro é uma questão difícil, porque a doença tem uma forma de se “esconder”, palavra que coloco entre aspas, porque o cancro não tem capacidades cognitivas. É desprovido de inteligência, embora continue a desafiar alguns dos melhores cientistas no mundo.

Mas tenho boas notícias, que creio que serão bem-vindas pelos muitos leitores do TCT que me têm desejado uma boa recuperação e me têm pedido que os mantenha informados. Um exame de PET feito no dia 17 de Julho não detectou mais células cancerígenas no meu corpo. Como digo, não me posso dizer curado ainda. Aliás, dentro de três meses estarei de volta ao hospital para ser visto de novo e, depois disso, com regularidade durante cinco anos. Então, caso entretanto não tenha sido atropelado por um autocarro na 5ª Avenida ou atingido na cabeça por um meteorito, e SÓ então, poderei dizer que estou curado.

Tenho muitas memórias más, porque muitas coisas más me aconteceram na vida, sobretudo antes de ter entrado para a Igreja quando tinha vinte e tais anos, e de me ter casado aos trinta e tais. Há coisas de que me arrependo e – apesar de recorrer frequentemente à Confissão – algumas delas quase me assombram. De certa forma, ter cancro está longe de ser a pior coisa que me aconteceu na vida.

Aliás, até pode ter sido uma coisa boa, uma coisa muito boa.

Soube da preocupação de amigos, incluindo leitores deste site, e isso está perto do topo da lista, embora no topo mesmo esteja a minha mulher, Sydny. Naquele primeiro artigo, escrevi que as minhas orações, enquanto estava deitado na marquesa a receber as radiações, eram pelos meus amigos, mas também por estranhos, sobretudo aqueles que eu e a Syd víamos no hospital e que claramente estavam sozinhos. Tenho uma certa reputação de durão, e sim, talvez conseguisse aguentar o último ano sozinho, mas, como disse a um dos funcionários do hospital – “é bom ser casado”. Não pensei que fosse possível amar mais a Syd. Estava errado, mas disso não me arrependo.

Mas existe um amor que ultrapassa esse. Falando da confissão, recordo-me de uma vez ter admitido a um padre que não estava certo de amar a Deus. “Amo a minha mulher, e os meus filhos e os meus amigos e o meu trabalho… mas…” E ele interrompeu-me: “O amor de Deus é uma coisa intelectual. Bom, é e não é”.

Para mim já não é. Amar Deus, amar Jesus e amar o Espírito Santo é uma questão de rendição. É isso que se pretende com a extrema unção e é disso que ouvimos falar os santos: “Deves-te render ao amor de Deus”. Essas palavras têm o seu mérito, mas aquilo que me ocorre depois deste meu encontro próximo com a morte (e com as coisas a que um moribundo se agarra quando chega o seu tempo) é que a Trindade é família. O Céu é Família. O Céu é casa.

Regresso a casa
Robert Frost disse-o na perfeição no triste e belo “Death of a Hired Hand”. Mary e Warren estão sentados na varanda a falar de Silas, um trabalhador sazonal velhote que regressou à quinta fora de época. Warren está preocupado com as suas andanças. Mas Mary diz-lhe para ser simpático, porque tem a certeza que Silas, que dorme lá dentro junto da lareira, regressou a casa para morrer.

Responde Warren e tom suavemente gozoso: “Casa…”, acrescentando “Casa é o local onde, quando não tens mais para onde ir, têm de te acolher”.

Mas Mary contrapõe: “Eu diria antes que é algo que, de certa forma, não temos de fazer por merecer”.

A nossa casa no Céu imaginada é misteriosa. Isaías, em 64,4, citado por Paulo em 1 Coríntios 2, 9, avisa que “desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu o que Deus preparou para quem o ama” (Isaías diz “que nele espera.”)

Aquilo que percebi enquanto amava e rezava, me confessava e comungava, e enquanto esperava e me confiava, deixando-me abraçar a realidade da morte… É que estou no sítio para onde vou. Em casa. Sempre estive em casa. Neste momento o meu corpo não está a morrer, mas um dia estará e, quando esse dia chegar, atravessarei alegremente esse umbral, rumo à minha casa eterna.

Sem dúvida que ainda me espantarei se der com uma cobra na relva, mas não vejo que mais possa haver de que tenha medo.

É suposto que o meu amor seja imperfeito, mas o de Cristo não é. Ele ama-me e esse amor é tudo o que preciso para me levar à prudência, coragem, temperança e justiça. E isso é amar a Deus.


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 6 de Agosto de 2018 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

McCartumâncias


O caso McCarrick continua a dar que falar. Hoje um bispo americano pediu a laicização do ex-cardeal e no artigo desta semana do The Catholic Thing, Brad Miner revela como recebeu propostas indecentes de três padres nos meses depois de se converter ao catolicismo e pede que se drene o pântano, por mais que custe.

O Papa recebeu hoje presentes do bispo de Bragança-Miranda, no contexto da peregrinação internacional de acólitos e avisou, na audiência geral, que os católicos devem rejeitar a cartomancia e a adivinhação.

Conheçam a aplicação que permite ouvir o Papa Francisco em seis línguas.

A partir de hoje é proibido usar niqab na Dinamarca. Crime ou direito

O outro dia partilhei aqui o link para o meu texto de resposta a outro artigo sobre se as crianças devem ir aos funerais. Logo nessa noite recebi uma interessante partilha de um leitor e ontem, no Facebook ou em privado, recebi outras. Estão agora todas publicadas aqui e deixo desde já o convite a que as leia e, caso queira, que partilhe a sua também. Eu não esperava que este assunto gerasse tanto interesse, mas afinal de contas é algo que toca a todos.

Para o “bem da Igreja”

Brad Miner
Cá para mim as revelações sobre McCarrick vão acabar por ser uma coisa positiva. Como assim? Bom, uma parte da novela dos abusos sexuais dos padres é o encobrimento. Isso já sabemos, e que o encobrimento aumenta sempre o crime.

Quando um bom padre descobre os pecados homossexuais de um mau padre (de um bispo, então, nem se fale), e se esse bom padre vai falar com o seu pastor, ou com um bispo (de um arcebispo, então, nem se fale), o mais provável é ouvir uma versão deste discurso:

Obrigado. Temos de fazer algo sobre isto, e assim faremos! Mas, para o bem da Igreja, não deve dizer nada disto a ninguém. Os media aproveitariam uma história destas para desacreditar o próprio Catolicismo. Teve muita coragem em vir ter comigo, mas eu não quero que arrisque a sua carreira, tornando-se o foco de uma investigação sensacionalista.

Para uma Igreja que valoriza a hierarquia e a disciplina, trata-se de um obstáculo difícil de ultrapassar. Mas a minha previsão é que agora muitos dos padres que sabem de escândalos de padres ou de bispos homossexuais – e, em alguns casos, heterossexuais – vão finalmente começar a revelá-los.

Espero que o façam. Todos. Porque este pinga-pinga de escândalo está a prejudicar verdadeiramente a Igreja. Se for preciso rebentar uma barragem, que seja, para que a inundação possa limpar o pântano.

Deixem correr a torrente: de resignações e de laicizações – talvez centenas. Será desestabilizador e, como conservador, tremo diante da possibilidade. Mas o miasma actual é intolerável. O esterco de suspeição paira sobre cada bispo, ou mesmo cada padre.

Também é preciso reconhecer que a prática de abusos sexuais por padres é apenas parte do problema. O relatório de 2004 da John Jay College of Criminal Justice, feito a pedido da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, contem muitos dados importantes sobre a crise. Mas a sua perspectiva está limitada ao abuso de crianças, abaixo dos 18 anos. Não se investigou nada sobre as desventuras sexuais de padres com homens, de 18 anos ou mais.

Esses dados provavelmente revelariam um escândalo muito, muito maior – que rebentaria com a conclusão principal dos investigadores da John Jay, bem como da equipa da Spotlight no Boston Globe e pessoas como o padre James Martin, S.J., de que os escândalos “não têm nada a ver com homossexualidade”. Isso simplesmente não pode ser verdade.

Agora vou-vos contar uma história a que já aludi no The Catholic Thing. Mas primeiro vou repetir o que já disse a amigos próximos, alguns dos quais colaboram com este site. Se eu soubesse em 1973, quando estava prestes a entrar para a Igreja, o que agora sabemos sobre a extensão da homossexualidade predatória entre o clero e a quantidade de encontros homossexuais pecaminosos entre padres, rapazes, adolescentes e homens, não me teria tornado católico. Graças a Deus não sabia porque, apesar destes escândalos, não consigo imaginar outro lar espiritual.

Então. . .

Pouco depois de ter feito a minha profissão de fé, saí tarde do trabalho e faltei à missa das 17h na Igreja que costumava frequentar. O sacerdote, que estava ainda a despedir-se das pessoas, disse-me que havia outra às 18h, a poucos quilómetros dali, por isso fui para lá.

No fim dessa missa um padre aproximou-se no parque de estacionamento e disse-me que nunca me tinha visto na missa ali. Eu expliquei e ele disse:

“Quero perguntar-te uma coisa, mas não quero abalar a tua fé.”

“Porque é que haveria de fazer isso?”

“É uma coisa privada.”

Continuei sem perceber.

Resumindo muito, ele disse que queria ter relações sexuais comigo.

“Você fez um voto de castidade,” respondi.

“Não, não. Você é novo na Igreja. O meu voto é de celibato – não casar – e não de castidade, entende?”

Dirigi-me ao meu carro.

Alguns meses mais tarde, no Ohio, onde cresci, voltei a ir a uma missa de fim de tarde e quando fui receber comunhão o padre sussurrou: “Vá ver-me na sacristia, ok?”

Até tenho vergonha de o admitir, mas na altura não desconfiei de nada. Este tipo foi mais subtil. Perguntou se daí a uns dias eu iria com ele a um jogo de basquete do liceu, onde tinha de fazer a oração inicial.

No final da primeira parte ele agradeceu-me: “Obrigado pela companhia, devo-te um copo”. Guiámos até um bar de que nunca tinha ouvido falar, na baixa de Columbus. Quando saímos do carro ele abriu a mala, tirou o cabeção e vestiu um casaco igualzinho ao meu.

Senti um nó no estômago e confirmei que sim, era um bar gay.

“O que é que bebes?”, perguntou.

“Uma cerveja qualquer”, disse eu, e ele foi buscar.

O bar ficava a sete quilómetros da minha casa. Saí rapidamente, corri durante alguns quarteirões, e depois fui a pé o resto do caminho até casa.

Depois visitei um seminário, pois estava a considerar uma vocação ao sacerdócio. Já tinha visitado outro seminário e dois mosteiros. O director de vocações levou-me a jantar fora, e aconteceu outra vez. Não vou repetir o que lhe disse a ele na altura.

Nesta altura eu era católico há menos de seis meses. A vantagem foi que mantive-me longe de padres durante os 15 anos seguintes, basicamente até conhecer os padres Neuhaus, Rutler e Schall.

Claro que estas histórias não provam nada. E no que diz respeito ao caso McCarrick, eu não irei ao ponto de dizer, como tenho ouvido, que “toda a gente sabia”. Muitas sabiam, mas a maioria não fazia a menor ideia. A não ser que fizesse parte do círculo dos rumores, não teria ouvido falar do assunto.

Mas eu não sou o único adulto que sofreu estas abordagens de padres. E nem devo ser o único a quem isso aconteceu três vezes.

Para o bem da Igreja – vamos drenar o pântano.


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 30 de Julho de 2018 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Sobrevivendo em Rio de Mouro

Survivors
O Papa encontra-se esta sexta-feira com soldados, polícias e guerrilheiros feridos na guerra civil da Colômbia, mantendo o enfoque na reconciliação, que tem sido o mote para a sua viagem.

Ontem encontrou-se com os bispos da Venezuela, que renovam as críticas ao regime.

Conheça aqui a história da escola católica que sobreviveu à I República e continua de portas abertas, em Rio de Mouro.

Hoje chamo atenção para mais um artigo do The Catholic Thing que foi publicado durante as férias. Robert Royal, editor do site, escreve sobre o fenómeno cada vez mais frequente que se traduz numa revolta adolescente dos ocidentais contra a sua própria cultura.

Não perca também o artigo desta semana, sobre a necessidade de agir agora para salvar o Cristianismo no Iraque

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Reconstruir o Cristianismo no Iraque: Agora ou Nunca

Brad Miner
O início de Setembro marca o regresso às aulas para milhões de crianças. Este ano, Graças a Deus, será marcado também pelo regresso às aulas de crianças cristãs iraquianas que, juntamente com as suas famílias, estão a regressar à planície de Nínive para reclamar as suas casas e as suas vidas, tão brutalmente afectadas pelo terrorismo e pela guerra. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e em particular o seu ramo americano, têm sido instrumentais em ajudar a tornar isto possível. (Nota: Eu faço parte da direcção a AIS nos Estados Unidos e o nosso colega aqui no The Catholic Thing, George J. Marlin, é presidente.)

Num artigo anterior eu escrevi sobre um discurso do Sr. Marlin em que ele pedia um novo Plano Marshall para o Médio Oriente. É com alegria que anuncio que já se estão a dar os primeiros passos para a implementação de tal plano no Iraque.

Estamos felicíssimos por saber que este mês a AIS espera repatriar 15 mil pessoas na cidade cristã de Qaraqosh, no Iraq. São três mil famílias.

Esta planta, com as casas danificadas a amarelo, mostra quão extensivos foram os danos.



Ao todo, na Planície de Nínive, mais de 1200 casas foram destruídas pelo Estado Islâmico. Mais de 3000 foram danificadas pelo fogo e ainda mais de 8000 foram danificadas de outras formas e precisam de ser reparadas. O número de igrejas nas mesmas situações é respectivamente 34, 132 e 197. É aquilo a que se pode chamar um desastre não natural.

Mas como eu escrevi anteriormente, a repatriação dos cristãos para as suas terras ancestrais depende da existência de paz. E embora o Estado Islâmico tenha sido expulso de Nínive, resta saber se é possível garantir o regresso dos cristãos em segurança para Nínive e outros lados.

A história é esta:

Quando o mais recente problema de refugiados começou a aparecer nas notícias costumava ser em termos de combates entre o Estado Islâmico e várias milícias e exércitos nacionais, na maioria no Iraque e na Síria. A maioria de nós já viu fotografias de longas filas de deslocados internos, a fugir dos combates ou dos ultimatos que o Estado Islâmico fez aos cristãos: Converter-se ao Islão, abandonar as suas terras, ou morrer. Muito poucos cristãos optaram por converter-se e alguns foram mortos. Mas a maioria – juntamente com muitos, muitos muçulmanos – simplesmente fugiu, ou para países estrangeiros, ou para campos de refugiados.

As manchetes costumam referir-se ao influxo de Muçulmanos para a Europa, e em muitas situações lidam com a infiltração de militantes do Estado Islâmico, ou outros terroristas, que desde o 11 de Setembro de 2001 já mataram, pelo menos, 20,000 pessoas no mundo, com muitos milhares de feridos.

Mas estes são apenas assassinatos em ataques terroristas. A guerra – em larga medida islamita – na Síria, quase 400 mil pessoas morreram. Dezanove mil civis morreram no Iraque desde 2014 (acima de 60 mil combatentes perderam a vida), mas número mais devastador diz respeito ao número de deslocados internos no Médio Oriente: 4,525,968.

A Ajuda à Igreja que Sofre tem trabalhado em prole destes refugiados desde o início da crise, e sempre tivemos dois objectivos mente.

Temos procurado fornecer ajuda humanitária imediata a todos aqueles que foram expulsos das suas casas: água, comida, roupa e medicina – os essenciais – mas também educação para as crianças, ajudando a garantir que não se perde uma geração inteira de crianças.

E sempre acreditámos que um dia – tal como aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial – estes deslocados voltariam para retomar as suas casas, empregos e herança antiga. Os eventos mais recentes provam que tínhamos razão – e estamo-nos a preparar para enfrentar o desafio.

Recentemente o jornalista John L. Allen Jr. escreveu na revista “Columbia”, dos Knights of Columbus, que desde 2011 que a Ajuda à Igreja que Sofre “gastou 35.5 milhões de dólares a ajudar refugiados cristãos no Iraque e na Síria, em particular os que se encontram em Erbil e noutros pontos do Curdistão. O ramo americano da AIS têm contribuído de forma decisiva para este esforço.”

Allen encontrou um termo maravilhoso para este trabalho que estamos agora a começar: Dunkirk ao contrário.

Regresso a casa, aos olhos de uma criança cristã do Iraque
Tendo passado os últimos seis anos a ajudar as pessoas que fogem das suas casas, a AIS está agora, juntamente com outros grupos, entre os quais os Knights of Columbus, a Catholic Near East Welfare Association e a Catholic Relief Services, a ajudar os refugiados a regressar. Este esforço colectivo tem sido apelidado de Comité de Reconstrução de Nínive (CRN).

O objectivo da CRN é, de forma simples: “Ajudar os Cristãos Iraquianos que queiram regressar às suas aldeias na Planície de Nínive, onde vivem há séculos, e a fazê-lo de forma digna e em segurança”.

Como é evidente estas pessoas (na maioria católicas e ortodoxas) carregam com elas a sua dignidade, que nunca perderam, não obstante os sofrimentos e perigos que enfrentaram. Uma ajuda a essa dignidade passa pela reconstrução e renovação urgente das suas casas, escolas e meios económicos.

Claro que a segurança é uma preocupação constante e algo que a AIS/CRN não podem fornecer. Para isso é necessária a colaboração entre oficiais locais e nacionais do Iraque bem como de terceiros interessados. Na medida em que há paz na área, cabe a esses governos e aos terceiros (isto é, outras nações que têm interesses no Iraque e que têm consciência moral) desenvolver formas de proteger os cidadãos recém regressados, sejam católicos, ortodoxos, yazidis ou muçulmanos.

Os muçulmanos que anteriormente viviam em relativa paz com os seus vizinhos cristãos não podem se não agradecer os esforços dos cristãos para reconstruir Nínive, porque também eles serão beneficiários da renovada actividade económica e, sobretudo, da paz.

Aquilo que a NRC está a estabelecer em Nínive é uma espécie de lança em África – uma prova de que é possível reestabelecer comunidades multireligiosas onde diferentes fés podem coexistir de forma amigável.

Se for possível aqui, pode ser possível noutros lados. Seja como for, é agora ou nunca. 


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sudão do Sul e Solidariedade Suspeita

Ajuda? Desculpa, estamos a financiar abortos...
O Papa Francisco apelou esta quarta-feira à ajuda concreta ao Sudão do Sul, onde existe actualmente uma grande crise alimentar que agrava a já terrível situação de guerra civil.

Da próxima vez que tiver de esperar meses por uma consulta no Serviço Nacional de Saúde, não se preocupe! Reconforte-se sabendo que Portugal – sempre solidário – comprometeu-se a financiar organizações que promovem ou praticam o aborto em países em desenvolvimento.

No artigo do The Catholic Thing de hoje temos uma recensão ao filme “Inácio de Loyola”, que retrata a vida do fundador dos Jesuítas. Segundo me dizem, em breve o filme chegará a Portugal precisamente através desta ordem religiosa. Fiquem atentos.

Cavaleiro de Deus: Recensão de “Inácio de Loyola”

Brad Miner
Embora esta biografia cinematográfica do fundador dos jesuítas tenha estreado no Verão passado, só esta semana é que tive oportunidade de a ver. O filme do guionista-realizador Paulo Dy foi gravado – em inglês – entre Espanha e as Filipinas, sob os auspícios da Fundação de Comunicações Jesuítas das Filipinas (JesCom Films). É pouco provável que apareça no seu cinema local mas, como explicarei mais à frente, pode tomar a iniciativa de organizar um visionamento para um grupo ou uma organização católica.

E sugiro que o façam, porque este é um filme católico que está muito à frente de qualquer outro que tenho visto nos últimos anos. Consegue ser simultaneamente verdadeiramente católico e bom cinema.

O filme começa com fogo e água – um tema que se mantém ao longo da película. Entramos pelo fogo da conversão e emergimos através do baptismo da vida nova. Inácio Lopez de Loyola (desempenhado pelo actor Andreas Muñoz) desenvolve-se como uma flor a brotar de terra queimada – é um soldado forjado como uma espada nas chamas e depois submetido à água para testar a força. É mesmo assim que culmina a cena, e é muito forte.

A história de Loyola, um nobre espanhol quebrado pela guerra que acaba por fundar a Sociedade de Jesus, é como muitas verdadeiras histórias de conversão: De Agostinho a Merton, mas sobretudo São Francisco de Assis, antes dele e Charles de Foucauld, depois, que também eram soldados para quem os profundos ferimentos da guerra levaram a uma vontade mais profunda para servir Cristo. Tal como Agostinho, Loyola viveu uma vida bastante carnal até ser gravemente ferido na Batalha de Pamplona, em 1521.

O filme custou cerca de 1 milhão de dólares (trocos para Hollywood). Normalmente nos filmes de guerra de baixo custo as cenas de combate são pouco impressionantes, mas não é o caso aqui. Alguns dos efeitos especiais, sim, são limitados, mas não podemos esperar efeitos ao nível do “Reino dos Céus” de Ridley Scott, que teve um orçamento dez vezes superior. Mas no geral, as imagens de guerra são potentes – sobretudo as imagens das sequelas do combate, por exemplo a perna destroçada de Loyola, que o deixou coxo para o resto da vida, precisa de ser colocada no sítio, depois partida novamente e recolocada. Estas cenas devem muito à realização prudencial de Dy e à cinematografia de Lee Briones Meily.

Mas é a representação de Muñoz que verdadeiramente faz com que as cenas e, na verdade, todo o filme, funcionem tão bem. É ele quem dá unidade. É um papel pelo qual facilmente poderia ter sido nomeado para um Oscar, caso os membros da academia tivessem visto o filme. Há outros actores igualmente bons, o suficiente para terem sido nomeados para um prémio de elenco da Screen Actors Guild, se essa malta tivesse visto o filme.

Deve ser mais fácil representar a agonia do que o carinho e há uma cena no filme – na minha opinião a melhor – em que entra um Inácio desgastado pela guerra, e uma prostituta, Ana. O seu irmão e o seu primo levaram-no a um bordel, na esperança de o animar depois da guerra, sem saber que ele já ouviu o chamamento de Deus. Sentado na cama de Ana, recusa os seus avanços, querendo apenas conversar, algo que nenhum homem lhe tinha pedido.

Ana, desempenhada por Marta Codena, e Inácio falam sobre Jesus. Tal como faz com outras personagens durante o filme, ele pede-lhe que use a sua imaginação para ver Jesus sentado numa cadeira no seu quarto. A conversão dele está bem encaminhada, a dela está apenas a começar. A cara de Ana é transformada primeiro pelo medo, depois pela esperança, e a dele também. É um momento tão emocionalmente poderoso como qualquer outro que tenho visto nos ecrãs nos últimos anos; a subtileza estonteante atinge-nos como uma vaga.

Pouco depois Loyola parte para seguir as pegadas de São Francisco. Serve os doentes e os moribundos num hospital em Manresa, Espanha, e vive durante meses numa caverna – torturando-se e sendo tentado por um demónio (também representado por Muñoz). As cenas de autoflagelação remetem sempre para uma forma de loucura, mas o resultado da angústia de Inácio é uma quase total sanidade. O que o leva à presença da Inquisição.

Esta parte do filme é estranha, não porque não tenha acontecido (aconteceu), mas porque o inquisidor que o julga por pregar sem ter curso de teologia nem ser ordenado, é Alonso de Salazar Frias. Mas Frias – desempenhado por Gonzalo Trujillo – que era conhecido como o defensor das bruxas, só nasceu oito anos depois da morte de Loyola. Talvez tenha havido outro inquisidor chamado Frias, mas se sim, não encontrei qualquer referência. Mas adiante.

Há medida que a história se desenrola, vemos Loyola a escrever um diário da sua vida (que formaria a base da sua autobiografia) e os seus Exercícios Espirituais. A conversão pode ser descrita como morrer em, e por, Cristo e, em certo sentido, Loyola desenvolveu uma fórmula para fazer isso mesmo – um processo disciplinado através do qual tudo é visto através de Jesus Cristo e oferecido a Cristo.

O filme termina sem contar a história da fundação da Sociedade de Jesus e as décadas finais da vida de Loyola, por isso talvez possamos esperar uma sequela – eventualmente com um flashback para a sua viagem à Terra Santa. Acredito que isso acontecerá se houver gente suficiente a ver o filme. A Ignatius Press está a disponibilizar o filme para exibições cinematográficas patrocinadas por qualquer organização. Podem encontrar mais informação aqui. [Nota do Tradutor: O gabinete de comunicação dos jesuítas em Portugal diz-me que estão previstas sessões de visionamento do filme, mas ainda não há detalhes concretos].

O filme é para maiores de 13 [nos EUA], em grande parte por causa das cenas de flagelação. Entre o elenco contam-se ainda a belíssima Tacuara Casares, que representa a Princesa Casares e Javier Godino e Mario de la Rosa, que fazem de parentes de Loyola. A elegante Isabel Garcia Lorca representa uma das primeiras mecenas de Inácio e Julio Perillán aparece no papel do dominicano que defende Inácio diante da Inquisição. Pepe Ocio é um camarada em armas de Loyola, cuja morte assombra o futuro santo e o projecta em direcção a Deus.


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Shusaku Endo may have loved Christ, but he wasn’t fond of Christians"

This is a full transcript, in the original English, of my conversation with The Catholic Thing's Brad Miner on Martin Scorsese's "Silence". The news stories, in Portuguese, can be found here and here. My personal take on the film is here, also in Portuguese. Transcripts of my interview with  Jesuit Fr. José Maria Brito and with missionary and Shusaku Endo specialist Fr. Adelino Ascenso are also available, both in the original Portuguese.

Transcrição completa, no inglês original, da minha conversa com Brad Miner, do The Catholic Thing, sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese. As reportagens estão aqui e aqui. A minha visão pessoal sobre o filme pode ser lida aqui. Transcrições integrais das conversas com o padre jesuíta José Maria Brito e com o missionário e perito em Shusaku Endo padre Adelino Ascenso também estão disponíveis.


Some say this film is a justification for Apostasy. Is that something that you agree with?
Yes it is.

I wouldn't say that Martin Scorsese, particularly, is certain of that. I don't think he is out to take a particular position that apostasy is a virtue, but rather that he does not believe that martyrdom is a virtue. That martyrdom serves the cause of Christ.

So apostasy, as one character says, in the film and in the book, is actually an act of love. It is what Christ would do. And I think that, obviously, is belied by the history in which there were so many martyrs, in Japan and elsewhere, who did give up their lives for Christ, who felt that enduring in the faith, over the course of great suffering, was the way in which Christians manifested love of God.

You go so far as to cast doubt on the completeness of Endo’s conversion...
It’s a speculation on my part, but I do think that he may have loved Christ, but was not particularly fond of Christians. One of the themes of the book, and of the film, is that Japan is not a place in which Christianity flourishes. Or so Endo believed in the 1960's and certainly the interlocutors of the various Jesuit priests who are tortured and then apostatize, in the book and in the film. They call it a swamp, a fen, a place where Christianity couldn't flourish. Although it had, obviously, prior to the persecution that began and that didn't cease until the Meiji era, which was some 100 years or more after the events which take place in silence.

Imagem do filme de Shinoda
In the many reviews I have read, you are the only one who has mentioned Masahiro Shinoda’s 1971 “Chinmoku”. How do the two compare?
Well Scorsese’s film is more interesting and is cinematically more compelling. The cinematography is more advanced, as you would expect a film made some 50 years later. However, there are great similarities between the two, and Endo's story is there, the apostasy is certainly there.

I guess there is a sense, in the earlier film, made by Shinoda, that the apostasy is perhaps more superficial than comes across in Scorsese’s film. Shinoda's film is darker, visually, but it is essentially the same story. I think both directors did justice to Endo and his vision.

And the acting in the earlier film is strange, in that the man who plays Sebastião Rodrigues does an awful lot of shouting. It is a peculiar thing. But as I also mention, what is remarkable is that the two American actors in the earlier film, both appear to speak Japanese, and that was a more interesting thing to watch in watching the film, because you really did get a sense that they really had, these two missionaries, immersed themselves in Japanese culture and understood, and were able to communicate with people in a way that doesn't really come across in the Scorsese film.

You also drew a comparison with the Joseph Conrad’s “Heart of Darkness”. Would you care to elaborate on that a bit?
I think many people know the story of the Joseph Conrad novel, of a man who is sent on a mission to try and find a fellow named Kurtz who has, as they say, gone native.

It takes place in Africa, and was, as many people now, remade by Francis Ford Coppola in his film Apocalypse Now, and set in Vietnam. The same character, Kurtz, is the man being sought. And again, it is very much a story about going native. Kurtz is an Ivory Trader in one film, and an American military commander in the other, he has become a kind of God-like figure to the people, to the natives in Africa, to the Montaignard tribesmen in Vietnam, and it is very much what is going on here, because going native is what happens to the characters in both Shinoda's film, in the book, of course, and in Scorcese's film.

Marlon Brando em "Apocalypse Now"
I think it is simply a carrying forward of this idea that Japan is a swamp, that there were times when a westerner goes into a situation trying to understand the people, and they end up kind of overwhelming him. He no longer wishes to be someone who imposes this foreign culture on the people he finds and the country he has come to serve.

In “Heart of Darkness” Kurtz writes letters back and forth to an organization Conrad calls the International Society for the Suppression of Savage Customs. Well, that is exactly, really, what the Jesuits have gone to Japan to do. And either you believe that that is valid, because they are bringing not only a series of new customs to replace the savage ones, but they are bringing the one true God into the understanding of people [or you don’t]. And I think that there is an anti-imperialist sense both in Conrad and in Endo and finally now, in Scorsese.

But when you say Endo must have been impressed by this concept of the Society for the Suppression of Savage Customs, do you know for a fact that he may have been influenced by it?
I do not know that for a fact, it is speculation.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Beato Jacques Hamel e Hitler vs. Pio XII

Beato Jacques Hamel
O Papa disse esta quarta-feira que o padre francês que foi degolado em Julho enquanto celebrava missa é mártir e que, por isso, é automaticamente beato.

Decorre por estes dias o encontro da pastoral social, em Fátima. Ontem para além de Marcelo Rebelo de Sousa (por vídeo), os ouvintes puderam ouvir o ambientalista Francisco Ferreira, que disse que as alterações climáticas não são uma brincadeira de crianças.

Hoje é quarta-feira, portanto temos um novo artigo do The Catholic Thing. Neste artigo Brad Miner analisa o programa do National Geographic TV que aborda a relação entre Pio XII e Hitler. O autor termina com um apelo a Francisco para abrir os arquivos do Vaticano relativos a este período.

“O Papa vs. Hitler”: Uma Recensão e um Pedido

Brad Miner
O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O Canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo “ecodrama” chamado “O Papa vs. Hitler”, sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de “Church of Spies”. Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. “O Papa vs. Hitler” demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto Secretário de Estado do Vaticano, foi ele o principal autor de “Mit brennender Sorge” (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em Latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao Catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: “É quase como se o Diabo estivesse do seu lado”.

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um “consenso” de que a Shoah (o holocausto) “não poderia ter tido a magnitude” que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: “A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo”.

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt. 

Uma boa parte de “O Papa vs. Hitler” lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a “Absolvição de São Leão”. É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era “o Papa de Hitler”, como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da Diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o Cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Freiras detidas, freira falecida e bomba Schweppes

Hoje é daqueles dias em que metade das notícias parecem inventadas…

Um padre e três freiras foram detidas no norte, acusados de maus-tratos e abusos psicológicos de noviças no mesmo convento onde há três anos apareceu uma noviça morta num poço.

Morreu uma das freiras que tinha ficado gravemente ferida na sequência do despiste da “bicicleta de 12 lugares do ano da vida consagrada”.

O Estado Islâmico mostrou fotografias da bomba que alegadamente usou para abater o avião russo. Consiste de uma lata de Schweppes!

E no meio disto tudo não é de espantar um missionário italiano na República Centro-Africana avise que há riscos realmente altos envolvidos na visita do Papa àquele país, agendada para o fim-do-mês. Amanhã poderá haver novidades sobre este assunto, já que a Santa Sé convocou uma conferência de imprensa para falar da visita.

Com os atentados de Paris a dominar as atenções do mundo mediático, ainda, temos neste momento em estúdio, aqui na Renascença, o presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, Abdul Karim Vakil, que vai participar no debate de assuntos religiosos que vai para o ar na Edição da Noite, depois das 23h. Não percam!

Deixo-vos, entretanto, com o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Brad Miner parte dos eventos tristes de Paris do fim-de-semana passado para recordar como a sua visita àquela cidade anos antes o colocou no caminho da conversão ao Catolicismo.

Cristo entre a Tralha: Notre Dame Ontem e Hoje

Brad Miner
Ver a multidão a transbordar do Notre Dame de Paris, na vigília de domingo à noite pelas vítimas dos atentados terroristas, foi uma experiência emocionante. É fantástico como a proximidade do mal leva as pessoas a voltarem-se para Deus. Mas recordou-me de uma experiência pessoal de há muitos anos, que também conduziu a uma viragem espiritual.

Certo dia, em Agosto de 1968, estava a deambular pelas estradas de Paris. Tinha um quarto num hotel barato na zona de Saint Germain e não tive grande pressa em passear até à Pont Neuf para chegar à Île de la Cité e à Notre Dame.

Nessa altura da minha vida era apenas um universitário pagão. Tinha entrado em igrejas católicas um total de duas vezes, ambas em Ohio. A primeira foi a igreja do meu bairro, para a misteriosa Primeira Comunhão de uma colega da escola, bonita no seu vestido e mantilha brancos, pois isto foi antes do Concílio. A outra vez tinha sido há poucos meses, para uma missa no campus universitário a que a minha namorada católica me levou. Nem num caso nem noutro tinha prestado a menor atenção ao que se estava a passar, só estava interessado nas miúdas.  

As velas, as imagens e os crucifixos dentro da Notre Dame de Paris – a estranheza de tudo aquilo – ofendia-me, porque estava habituado à bruta simplicidade da igreja metodista da minha juventude, embora fosse, como se esperaria de um pagão, totalmente indiferente à piedade fácil protestante. Pensei que a Notre Dame era interessante do ponto de vista arquitectónico, mas demasiado requintada. Como é que se encontrava Deus no meio de toda esta tralha? Se é que havia um Deus para encontrar.

Mas havia mais, e eu sabia. Tinha lido que os arcos interiores góticos simbolizavam mãos em oração, e na catedral estavam imensas pessoas ajoelhadas a rezar, com os olhos postos no alto e, por todo o lado, uma sensação de deslumbramento que se sentia. Centenas de pessoas andavam de um lado para o outro em silêncio. Sabia que se estivesse com os meus amigos estaríamos quietos e em silêncio, como todos os outros, sem as palhaçadas irreverentes que de resto praticamente nos definiam. Sozinho, comecei a ficar perturbado por este deslumbramento. Nunca me tinha sentido tão pequeno. Há medida que a minha aflição aumentava, disse uma palavra ansiosa, quase como protecção contra o mistério: Jesus.

Virei-me para sair e vi pela primeira vez a janela rosácea. O sol do meio-dia atravessava-a – atrás de mim o som da missa a começar – Nossa Senhora com o menino Jesus, no centro, os vitrais dos seus 84 painéis a formar um caleidoscópio vertiginoso de apóstolos, anjos, ressurreição e inferno.

Saí apressado para a Place du Parvis (hoje Place João Paulo II), sentindo as gárgulas a observar-me enquanto corria de volta para a margem esquerda.

Passados uns dias, no comboio para Roma, dei por mim a pensar na minha reacção. Não acreditava em Deus, e pensava que a Igreja Católica não passava de uma gigantesca fraude, embora tivesse ficado bastante impressionado pelo estudo da Europa em Civilização Ocidental 1 e 2, em que a Igreja desempenhava um papel tão importante. Mas num trabalho (para o qual tive A-) tinha-me revoltado contra o catolicismo pela forma como tratou Galileu e o meu professor tinha escrito na margem: “Teria sido um A+ se não fosse o acesso de revolta anti-católica. Tenta ser objectivo, sempre.” Mais tarde, quando lhe disse que ia passar o Verão à Europa ele deu-me uma espécie de penitência, fez-me prometer-lhe que iria visitar todas as principais catedrais de Paris, Roma, Florença, Viena e Praga, embora duvidasse – não obstante os meus planos – que eu conseguisse entrar na Checoslováquia. Tinha razão. Dois dias antes da minha planeada viagem de Viena para Praga, 2000 carros de combate soviéticos e 200 mil tropas do Pacto de Varsóvia invadiram.

Janela rosácea de Notre Dame
Mas à medida que o comboio de Paris ia rolando para sul até Roma, meditei sobre o poder que a história e a literatura têm para nos cativar, mesmo quando nos convencemos que aquilo não tem nada a ver connosco. Esse verão representou, a meu ver, a minha emancipação de todas as amarras do passado e não fazia ainda ideia que Deus me estava a prender agora ao próprio objecto do meu desprezo.

Em Itália cumpri a minha obrigação de visitar a basílica de São Pedro e o Il Duomo de Florença, e em Viena fui ao Stephansdom. Numa paragem em Lausanne, na Suíça, até corri monte acima para ver a catedral de Notre Dame, visível da cidade (e cujo nome me tinha sido indicado por um transeunte), apenas para descobrir que se tinha tornado protestante no século XVI. Não tinha qualquer razão para ficar desapontado por isso, mas fiquei.

De regresso a Paris voltei para o Notre Dame. O cheiro de uma catedral católica é incomparável, não tem nada a ver com o cheiro fresco de pinheiros do protestantismo do Oeste americano. Sentei-me num banco e reflecti sobre aquela que continuo a considerar a maior igreja da Cristandade e tentei discernir os aromas: cera derretida, incenso, suor, lágrimas, suspiros, idade… Agora, em vez de “requintada”, a palavra que me surgia foi “antiga”. E lembro-me de pensar: O que é velho é novo.

Jean-Charles, o recepcionista do hotel, recrutou-me nessa noite para jantar com ele e duas raparigas que lá estavam hospedadas. Ele estava caído pela Ilke, que era alemã, deixando-me com uma mexicana morena e linda chamada Maria, que não falava uma palavra nem de inglês nem de francês. Elogiei-a pela bonita cruz de prata que usava ao pescoço. Através da Ilke, (que falava espanhol, para além de inglês, francês e alemão) ela corrigiu-me: “É um crucifixo”.

Corrigido estou.


(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 18 de Novembro de 2015 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Direito ao Erro

Brad Miner
O novo livro de Robert R. Reilly, “Making Gay Okay: How Rationalizing Homosexual Behavior is Changing Everything”, fala da natureza, compreendida como o telos no sentido do qual todas as coisas criadas procuram a sua perfeição.

Fala também de sodomia, um comportamento claramente antinatural e que, como Reilly comprova meticulosamente, sempre foi visto como tal. Veja-se Sócrates, Platão e Aristóteles – todos gregos, claro, cuja cultura é frequentemente (e erradamente) descrita como homofílica – todos eles criticaram a sodomia como desordenada.

A prova do homossexualismo emergente na América tem estado diante dos nossos olhos há décadas, mas a maioria, tendo visto os sinais, simplesmente partiu do princípio que o objectivo final não seria muito mais do que a tolerância. Quem diria, há vinte anos sequer, que o movimento pelos direitos homossexuais procurava uma autêntica transformação cultural?

Aliás, há apenas dois anos podia-se dizer – com o que hoje parece um optimismo absurdo – que afinal de contas, sempre que os cidadãos tinham sido chamados a decidir sobre a questão do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, a iniciativa tinha sido chumbada. Mas depois vieram os tribunais, na sua sabedoria, para corrigir a vontade torta do povo. Como é que chegámos a isto?

A filosofia política ocidental dividiu-se em dois ramos distintos no século XVIII: Um radica em Edmund Burke e William Blackstone e atravessa a fundação dos Estados Unidos, desembocando no conservadorismo moderno; outro, com origem em Jean-Jacques Rousseau e a Revolução Francesa, levou ao liberalismo contemporâneo. Este segundo ramo, o liberal, continua sob a influência da visão antiteleológica de Rousseau e  foi reforçada pelo existencialismo, multiculturalismo e outros entusiasmos de esquerda. O primeiro ramo, o conservador, que manteve a teleologia, tem passado grande parte dos últimos dois séculos a tentar encontrar uma forma, que não o totalitarismo, de subjugar as paixões pagãs soltas pelo segundo.

Porque se o Homem é a última fonte do sentido, se a humanidade não discerne os fins morais inerentes à Natureza, fixados pelo Deus da Natureza, então, como escreve Reilly, encontramo-nos diante de um paradoxo, sobretudo para os que defendem os “direitos homossexuais”, isto porque...

… os proponentes da homossexualidade estão a defender uma causa que apenas pode vingar se obliterar a própria compreensão de Natureza da qual depende a nossa existência enquanto povo livre... A sua reivindicação de direitos subverte os direitos que reivindicam. Porquê? “Se a Natureza for negada, então a justiça reduzir-se-á necessariamente a aquilo que é desejado o que, por sua vez, se transforma na lei do mais forte”.

Dizer que as uniões homossexuais são normais, após milhares de anos a acreditar no contrário, implica “pôr de lado Sócrates, Platão, Aristóteles, o Antigo Testamento e o Novo, Agostinho e Aquino”. Reilly cita exemplos de mudança de normas culturais e de decisões judiciais recentes, através dos quais este “pôr de lado” já começou.

Claro que não é só a sodomia que tem sido libertada por este determinismo anti-teleológico, mas a contracepção e o aborto também, bem como o divórcio, sexo pré-matrimonial e em breve, quiçá, a pedofilia e o bestialismo.

Escrevendo sobre Lawrence v. Texas, a decisão do Supremo Tribunal de 2003 que considerou inconstitucional uma lei que bania o sexo “gay”, Reilly pergunta: “Porque é que levou mais de dois séculos para que o tribunal descobrisse um direito à sodomia?” Responde que foi porque o Tribunal considerou que os fundadores simplesmente não tinham compreendido a liberdade e “as suas múltiplas possibilidades”.

Pelos vistos o próprio tribunal também não o tinha compreendido no caso de Bowers v. Hardwick, 17 anos antes, quando declarou que não existia qualquer direito constitucional à sodomia.

Os juízes e os seus apoiantes nos media decidiram que a tradição é, frequentemente, um sinónimo de opressão. Quanto aos que se mantêm agarrados “aos nossos deuses e às nossas armas”, as elites vêem-nos como perdidos naquilo a que Engels chamou “falsa consciência”.


O Governo tem sido movido a agir não tanto por compaixão, mas mais por pressão dos media e dos lobbies. O mesmo tem acontecido através da cultura.

Foram essas pressões que levaram a uma campanha bem-sucedida, em 1973, para retirar a homossexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística, a bíblia de desordens mentais da Associação Psiquiátrica Americana, onde constava desde 1952.

A indústria do entretenimento tem feito todos os esforços para povoar os filmes, comédias e séries de personagens homossexuais, com o objectivo de nos dessensibilizar para o “amor que não ousa manifestar-se”, agora conhecido como o “amor que não nos dá um minuto de descanso”.

“Making Gay Okay” inclui capítulos curtos sobre o impacto e as consequências de parentalidade homossexual, “estudos” homossexuais e a influência do homossexualismo nas Forças Armadas, política externa e o movimento dos escuteiros.

Nos anos 80 estava num jantar em que um activista homossexual disse a umas feministas que os homens gay apoiavam absolutamente o aborto. Questionei-me na altura sobre a coincidência de interesses. Era demasiado bronco, ou ingénuo, para compreender a forma como partilham esta inversão da realidade.

Talvez porque, em mais novo, abracei brevemente (mas com vigor) a moda da “liberdade sexual”, quem sabe, a primeira das inversões da verdade. Há muitos na minha geração que sentem relutância em criticar as escolhas sexuais dos outros, tendo tomado decisões tão erradas quando eram mais novos.

Chegou a hora de crescer.

“Making Gay Okay” é uma lição em filosofia, psicologia, história, direito, política e ciência. Para dizer a verdade, até vai aprender coisas que preferia não saber, como o significado de “bug chasing”, por exemplo. Mas para isso vai ter de comprar o livro.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 19 de Maio 2014 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aprendendo a Amar Raoul de Cambrai

Brad Miner
A literatura arturiana (sendo que o Rei Artur é a figura por excelência da imaginação das histórias de cavalaria) é especialmente optimista quanto ao carácter dos cavaleiros, embora se centre sempre no “verdadeiro” cavaleiro. Os contos de Artur, Lancelot, Gauvain e os restantes foram, do ano 1100 até cerca de 1400, o principal entretenimento da época, os primeiros romances.

As obras de não-ficção daquele tempo, porém, embora raras e muitas vezes tão imaginativas como as fábulas, contam uma história bastante mais cruenta dos cavaleiros.

A “Era do Cavalheirismo” era frequentemente brutal e moralista. Há uma história que chega para mostrar porque é que o excesso de sentimentalismo à volta da figura do cavaleiro é inapropriado.

Há uma “chanson de geste”, uma de quase duzentas baladas “francesas” desta época (a França, a bem dizer, não era ainda França), escritas por trovadores, sobre os paladinos (cavaleiros) dos séculos XI e XII, sobre um grande herói, um tal Raoul de Cambrai. Pertence a um subgénero específico: “vassalos rebeldes”. Trata-se, segundo o autor, de um testemunho em primeira mão.

Raoul é católico, filho leal da Igreja, embora possivelmente um convertido recente de uma ou outra forma de paganismo. Estes dados sobre a sua “fé” tornam particularmente chocante o relato de como arrasa um convento durante uma das suas campanhas na Côte-d’Or.

Mais tarde, na sua tenda, enquanto sacode o pó e as cinzas da roupa e lava o sangue das mãos, pede ao seu senescal – uma mistura entre criado e tenente – “Preparai-me comida e far-me-eis um grande serviço”. (Assassinar freiras suscita um grande apetite num homem). Raoul é específico sobre o que quer comer: “Pavão assado e ganso apimentado, e veado em abundância”. E quer que o seu séquito fique saciado também, pois “nem por todo o ouro de uma cidade aceitaria que os meus barões me achassem egoísta”.

Mas o senescal fica de boca aberta e, arriscando a saúde e a vida, censura o seu amo:
“Em nome de Nossa Senhora”, grita, “que estais a pensar? Estais a negar o Cristianismo e o vosso baptismo e o Deus da majestade! É Quaresma, quando todos devem jejuar; é a Sexta-feira santa da paixão, na qual os pecadores sempre honraram a Cruz”.

Agora, sem dúvida, a sua voz começa a tremer com vergonha e raiva: “E nós miseráveis homens que aqui viemos, queimámos freiras e violámos a Igreja e jamais nos reconciliaremos com Deus se a sua misericórdia não for maior que a nossa maldade”.

Chega então a vez de Raoul ficar pasmado. Abana o seu punho poderoso na direcção do senescal: “Seu filho de uma escrava”, diz – e apenas podemos imaginar o olhar de nojo na face do cavaleiro – e começa então a gritar com o seu servo aterrorizado: Aquelas malditas freiras tiveram a lata de insultar dois dos meus escudeiros! Tinham de pagar – e pagar bem. E, por Deus, que bem pagaram! Está estupefacto com a impudência e a ingenuidade do seu servo. O senescal de um grande cavaleiro devia compreender como funciona o mundo.


Mas então Raoul suspira, e deixa cair o seu punho erguido.

“Em todo o caso”, diz, encolhendo os ombros, “tendes razão: Tinha-me esquecido que é Quaresma.” 

E por isso Raoul, agora diante de um prato sem carne, senta-se para jogar xadrez com um dos seus barões.

Nas palavras de um comentador académico desta chanson: “Eis que os quarenta dias de Cristo no deserto são piedosamente comemorados”.

Desde o início do cavalheirismo que os homens têm bem noção do fosso que existe entre o ideal e a realidade; têm tido noção da tensão entre o alegre optimismo e o desapontamento. Mas os primeiros cavaleiros que juravam proteger os fracos ao mesmo tempo que os espezinhavam não eram propriamente hipócritas, nem que seja porque acreditavam tanto na hierarquia como na fragilidade humana de uma maneira que nós já não acreditamos.

Sabiam a diferença entre o bem e o mal da mesma maneira que nós, mas faltava-lhes o optimismo sobre o carácter e a primazia do que é bom. E sentiam que o status social era ordenado pelo destino, que é como quem diz, por Deus.

O Estado de direito ainda não existia completamente. Havia um legado do direito romano, e uma lei comum em lenta evolução que servia para adjudicar alguns conflitos, e todavia aquilo que hoje em dia entendemos como justiça naquela altura era perturbado pela falta de constituições, conceitos de direitos civis e forças de manutenção da ordem. A justiça era altamente subjectiva e executada ad hoc; para a maioria dos membros da sociedade não parecia haver alternativa à opressiva hierarquia do privilégio, exemplificada pelo “droit de seigneur”, pela qual o senhor feudal tinha direito a manter relações sexuais com a noiva de um vassalo na noite de núpcias. Embora esses direitos fossem raramente reivindicados, mantinham-se como uma lembrança fria do poder do senhor.

Por outro lado, durante o XI e XII séculos, existiu também um gradual soltar das amarras feudais. Os servos tornaram-se camponeses e começaram a ter alguns direitos de posse. O aumento de rendimentos levou à mobilidade e as cidades europeias começaram a expandir-se; os artesãos e os mercadores começaram a vingar. Vários constrangimentos – legais, éticos e religiosos – começaram a moderar o sentido de poder dos cavaleiros.

Não é que o cavalheirismo nunca tenha existido. Existiu, mas sobretudo na imaginação de homens bons. Talvez possamos dizer do cavalheirismo o que G.K. Chesterton disse do ideal Cristão: “Não é que tenha sido experimentado e considerado insatisfatório. Foi considerado difícil e ficou por experimentar”.

Rauol viveu e morreu pela espada. Tinha tudo o que é preciso para ser um verdadeiro cavaleiro, excepto “courtoisie” e “franchise”. Faltava-lhe amor no coração e uma mente nobre.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 18 de Novembro 2013 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador senior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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