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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Escreves tu ou escrevo eu?

Mártires de Marrocos
O que nos vale é que a Igreja Católica nunca se cansa de polémicas! A última tem a ver com um livro alegadamente escrito a meias entre o cardeal Sarah e o Papa emérito Bento XVI. Primeiro causou algum desconforto, depois veio-se a perceber que afinal Bento XVI não queria o seu nome associado à obra e agora temos a editora americana a insistir que não retira o nome do antigo Papa da capa do livro.

A minha opinião sobre isto? É triste, feio e absolutamente evitável. Isso e mais algumas coisas no meu artigo sobre o assunto, no blogue, em que revelo também um detalhe que tem passado despercebido no meio da novela toda.

Num assunto actual, mas que não tem uma vertente religiosa direta, escrevi também umas curtas notas sobre o aproveitamento político que se está a fazer, tristemente, a propósito da morte do jovem cabo-verdiano Giovani, em Bragança. Morte essa que foi lamentada pelo bispo de Bragança, D. José Cordeiro.

Fiquem também a saber que a Igreja Portuguesa vai transformar as directrizes para a proteção dos menores em normas.

Continua o calvário dos cristãos na Nigéria, agora foram raptados quatro seminaristas.

E termino com a chamada de atenção para o jubileu que se vive em Coimbra desde ontem, alusivo aos 800 anos dos mártires de Marrocos. Conheça a influência que tiveram sobre Santo António.

Uma trapalhada triste, feia e a roçar o absurdo

Recebi alguns pedidos para comentar esta polémica sobre o livro do Cardeal Sarah sobre o celibato. A primeira coisa que me vem à cabeça é dizer que tudo isto é uma grande trapalhada e tudo é muito triste e feio. Era evitável e começa a ganhar contornos absurdos, com as notícias mais recentes de que apesar do pedido expresso feito por Bento XVI, através do seu secretário pessoal, e reiterados pelo cardeal Sarah, a editora em língua inglesa recusou e vai mesmo atribuir o livro aos dois.

Há aqui algo que está mal contado. O Cardeal Sarah insiste que recebeu luz verde do Papa emérito para avançar com a obra, que estava sempre entendido que seria um livro assinado pelos dois, incluindo a introdução e a conclusão, e que Bento XVI viu e aprovou a capa. O arcebispo Ganswein rejeita essa versão dos factos e, embora diga que não põe em causa a boa fé de Sarah, esclarece que o Papa não quer o seu nome associado à obra enquanto autor, que não autorizou a capa e que não ajudou a escrever a introdução e a conclusão.

Mas há aqui um detalhe que está a passar despercebido… A que capa é que o cardeal Sarah se refere? Que capa é que Bento XVI viu (se é que viu alguma) e aprovou? É que o livro sai amanhã em duas versões diferentes: a francesa, original e a tradução inglesa. A versão francesa tem apenas o nome dos dois na capa e o título e a editora já disse que vai deixar claro que Bento XVI contribuiu para a obra, e não que é coautor.

Já a edição da Ignatius Press, que insiste em manter a coautoria, tem um subtítulo que diz: “Sacerdócio, celibato e a crise da Igreja Católica”. É o mesmo livro, mas estas capas são muito diferentes. A versão inglesa dá a entender que existe uma crise na Igreja de que Francisco é Papa e deixa subentendido que Bento XVI está a tomar um partido nessa crise. Julgo que terá sido daí que veio grande parte do desconforto.

Mas é possível ir mais atrás, à decisão do próprio cardeal Sarah de escrever este livro e publicá-lo precisamente numa altura em que o Papa Francisco se prepara para publicar uma exortação pós-sinodal sobre a Amazónia e em que a questão da ordenação sacerdotal de homens casados está em cima da mesa.

Não saberia o cardeal Sarah que a publicação deste livro seria incómoda para a igreja e para o Papa Francisco? Claro que sabia. E a prova de que sabia é que no comunicado que publicou hoje, defendendo a sua versão dos factos, diz mesmo que convidou Bento XVI a participar na obra nos seguintes termos. “Imagino que pense que as suas reflexões poderiam não ser oportunas por causa das polémicas que causarão na imprensa”.

Ou seja, ele sabia já de antemão que a publicação deste livro, nesta altura, causaria polémica, ainda mais se viesse com o nome de Bento XVI. Então porque é que avançou com o projecto? Porque é que insistiu em colocar Francisco e Bento XVI nesta posição?

Poderão dizer que o fez porque sentia que não tinha outra hipótese que não falar. Tudo bem, mas então que deixe de insistir em dizer que a sua obediência filial ao Papa Francisco é absoluta, como teima em fazer. Não se mostra obediência filial absoluta colocando a pessoa em questão numa situação embaraçosa e pondo em causa a decisão que está prestes a tomar, seja ela qual for.

Já pensaram? Imagine-se que Francisco estava a preparar-se para rejeitar a ideia de ordenar homens casados ao sacerdócio na Amazónia? Como é que o pode fazer agora sem parecer que está a ceder a pressões?

Eu não tenho a menor dúvida de que o cardeal Sarah é um homem bom e espiritualmente profundo, os seus escritos assim o indicam. Mas começo a ter grandes dúvidas sobre o seu bom-senso. É aflitivo como se tem deixado manipular, no passado, por fações que lutam contra o magistério do Papa Francisco e é aflitiva a ingenuidade com que se comportou neste caso, com a agravante de envolver na polémica o grande Papa Bento XVI.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Diferentes Papas para Diferentes Épocas

Dentro de cerca de uma hora o padre Tomás Halík vai proferir uma conferência em Lisboa. Se não teve a sorte de poder ir ao evento, não deixe de ler a entrevista que lhe fiz, em que ele explica como o Papa Francisco inaugurou uma nova época para a Igreja, mas sem tecer qualquer crítica – muito pelo contrário – aos seus antecessores. Se conseguiu ir à conferência, leia a entrevista à mesma. Quando acabar de a ler podem ainda ir ler a entrevista que ele deu à Ecclesia, ao Octávio Carmo, que complementa bem a minha.

Por falar na Ecclesia, os nossos amigos dessa agência estão por Angola e de lá mandaram estas duas reportagens muito interessantes. Numa os bispos sublinham a importância da relação com Portugal e noutra colocam-se firmemente junto ao atual regime e às reformas que está a empreender.

O Vaticano divulgou esta quarta-feira o programa da visita do Papa ao Panamá, para as Jornadas Mundiais da Juventude, em Janeiro. O Papa publicou ainda uma mensagem em vídeo para os participantes.

Hoje no artigo do The Catholic Thing trago-vos Michael Pakaluk, que comente ao Evangelho de Marcos e a centralidade, no mesmo, do poder de Cristo sobre os demónios. É uma análise muito interessante, cuja leitura recomendo!

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Noli impedire musicam

Lenine – que deu ao mundo a máquina de extermínio socialista conhecida por União Soviética – era um amante de música enquanto esteve no exílio. Quando regressou à Rússia, para dar início à Revolução Bolchevique, disse que já não era capaz de ouvir música. “Afecta-nos os nervos, faz-nos querer dizer coisas parvas e simpáticas e fazer festinhas na cabeça de pessoas capazes de criar tanta beleza enquanto vivem neste vil inferno”.

Sempre houve, e sempre haverá, aquele tipo de amante radical da humanidade que está disposto a sacrificar “dizer coisas parvas”, ou mesmo sacrificar pessoas, em nome de algum esquema marado que acabará por tornar o nosso mundo decaído ainda mais vil. Mas há aqui uma lição para nós, sobretudo os que vivem em sociedades ricas e ultra-tolerantes, que podem sucumbir à tentação de pensar que todas as suas vidas devem ser consumidas por guerras culturais, políticas ou espirituais.

Esta tentação é particularmente forte para pessoas em posições como a minha, pelo que é necessário sempre tomar medidas activas, de outra natureza. Da minha parte, tento tocar piano todas as manhãs pelo menos meia-hora, pois isso recorda-me – ainda que não tenha esse efeito sobre quem me ouve – de que a Criação de Deus é harmonia, uma harmonia discordante, por certo, mas definitivamente uma concórdia de criaturas e não um estado de guerra perpétua.

Muitas pessoas enviam-me livros, livros bons, sobre o estado de confusão actual em que vivemos. Agradeço, mas como estou sempre envolvido em leituras pesadas para vários projectos de escrita, muitas vezes não consigo chegar a estes livros, nem agradecer as ofertas. Esta semana, contudo, recebi um livro de um generoso mecenas do The Catholic Thing que me chamou a atenção: Spiritual Lives of the Great Composers [A Vida Espiritual dos Grandes Compositore] de Patrick Kavanaugh, um compositor que é também director do Christian Perfoming Arts Fellowship.

Trata-se de um relato claro e sucinto das crenças religiosas de vinte compositores clássicos de renome, desde Bach a Messiaen, passando por muitos outros grandes nomes. É um registo maravilhoso de como o espírito e a música andaram tão próximos na cultura ocidental, até há bem pouco tempo.

O grande Johann Sebastian Bach, por exemplo, não teve qualquer dificuldade em ver uma interligação entre Deus e a música, tendo dito: “O único propósito da Música deve ser para a glória de Deus e a recreação do espírito humano”. Músico humilde, embora prodigioso (chegou a caminhar 200 milhas para ouvir o então famoso organista Dieterich Buxtehude), costumava assinalar as suas folhas com J.J. (Jesus Juva – “Jesus ajuda”), antes de compor.

Há exemplos semelhantes do mesmo período. Certa vez um criado interrompeu Georg Friedrich Handel enquanto terminava o refrão do Aleluia, para o Messias, e encontrou-o em lágrimas: “Acredito que vi todo o Céu à minha frente, e o próprio Senhor”. (Incrivelmente, se descontarmos a inspiração divina, Handel produziu toda esta obra de evangelização sonora em apenas 24 dias).

Georg Friedrich Handel
Estes músicos viviam em paz e confiantes na sua fé cristã. Kavanaugh não elabora muito sobre a época em que viveram, mas é significativo que eles podiam atribuir a sua obra aos dons de Deus, apesar do facto de muitos deles terem vivido ao mesmo tempo que grandes figuras anticristãs do Iluminismo, como Diderot, Hume e Voltaire. É o género de coisa que não encontramos na maioria dos textos sobre as nossas raízes no Iluminismo do século dezoito.

Claro que Bach e Handel eram protestantes, mas é interessante, e pouco conhecido, que muitos dos maiores compositores clássicos ao longo dos séculos tenham sido católicos (em diferentes graus): Haydn (o mais firme e ortodoxo de todos), mas também Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Chopin, Bruckner, Gounod, Dvorak, Elgar e Messiaen. Stravinsky, talvez o melhor compositor do Século XX, era ortodoxo russo, mas compôs uma missa e outras músicas sacras. Apesar das suas diferenças, estavam praticamente todos unidos na crença de que a inspiração derivava de, e regressava a, o próprio Criador.

O poeta católico moderno Paul Claudel gostava de usar a frase noli impedire musicam (“Não interrompas a música”), uma referência a Eclesiástico 32,3 sobre a importância de não falar durante um festim, enquanto se toca música.  Ele sugeria que o sentido era mais lato: que frequentemente estragamos a música natural do mundo com as nossas arrogantes preocupações.

Fala-se muito, nestes dias, daquela misteriosa frase de Dostoyevsky, “A beleza salvará o mundo”. São João Paulo II e Alexander Solzhenitsyn já forneceram umas importantes reflexões sobre este tema. E de Bento XVI temos isto:

O encontro com a beleza pode tornar-se a ferida da seta que nos atinge no coração e, dessa forma, nos abre os olhos, de modo a que depois, com base nesta experiência, adoptamos os critérios para ajuizar e conseguimos avaliar correctamente os argumentos. Lembro-me de um concerto de música de Johann Sebastian Bach, em Munique, dirigido por Leonard Bernstein, depois da morte inesperada de Karl Rahner. Ao meu lado estava o bispo luterano Hanselmann. Enquanto se dissipava, triunfantemente, a última nota de uma das grandes Cantatas-Thomas-Kantor, olhámos um para o outro e dissemos espontaneamente: "Quem tenha ouvido isto sabe que a fé é verdadeira”.

Não estou inteiramente convencido. Bernstein e muitos outros músicos modernos parecem transformar a própria da música num ídolo, e duvidam do próprio Deus por detrás da música em quem tantos dos grandes compositores acreditavam.

Mas numa coisa Bento XVI tem razão, nomeadamente na importância da “ferida” que a beleza inflige ao coração e a importância que estas feridas têm em abrir-nos a realidades com as quais os nossos argumentos e a nossa lógica frequentemente lidam mal, ou ignoram.

Sempre que eu escrevo sobre este tipo de assunto, normalmente durante o Verão, ou noutras alturas em que conseguimos respirar um pouco mais fundo e pôr os olhos em reinos mais alargados, há alguém que me escreve a dizer que devia deixar-me destas mariquices, porque o que precisamos mesmo é de um partido político militante. De certa forma é verdade, precisamos de facto de uma Igreja Militante.

Mas também me lembro de Lenine, e da importância de dizer “coisas parvas e simpáticas” e do perigo de deixar que os bolcheviques interrompam a música e ditem toda a agenda para as nossas vidas.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 16 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Pedido de oração, pode ser já ao Formigão!

O Papa consolou no domingo uma criança cujo pai – um não crente – morreu. Vale a pena ver as imagens.

Esta segunda-feira houve festa no Vaticano. Mas sendo a festa de 91 anos de Bento XVI, foi contida e calma

D. Manuel Linda celebrou no domingo a sua primeira missa enquanto bispo do Porto.

E o Papa pediu soluções de justiça e paz para a Síria, numa altura em que os líderes cristãos mais importantes naquele país assinaram um documento conjunto a defender o regime de Damasco e a criticar o ataque levado a cabo por americanos, britânicos e franceses.

Os médicos católicos pedem que Marcelo Rebelo de Sousa vete a lei que permite a “mudança de género”, que foi aprovada na passada sexta-feira.

Mais um português a caminho dos altares? O Papa abriu caminho ao processo de beatificação do Cónego Formigão, o “apóstolo de Fátima” (na imagem).

Por fim, um pedido. Uma amiga minha vai amanhã à "clínica" dos Arcos em Lisboa, numa última tentativa de dissuadir uma senhora de abortar. Rezem pelas duas. Muito.

Cónego Formigão, que tal um milagrezinho para arrancar?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Jihad em Moçambique?

Jihad em Moçambique?
Está a acontecer uma jihad em Moçambique? Há indicações que sim, mas pode ser que não… Andei a investigar o assunto e com a ajuda do arabista Raúl Braga Pires, do dirigente islâmico Khalid Jamal e do bispo de Pemba, cheguei às conclusões que pode encontrar neste artigo.

O Papa Francisco está satisfeito com o facto de a Coreia do Norte e a Coreia do Sul apresentarem-se em conjunto nos jogos olímpicos de Inverno.

Já o Papa emérito, Bento XVI, escreveu uma carta publicada num jornal italiano em que fala da sua fragilidade, nesta última fase da sua peregrinação “para casa”.

Ainda sobre a notícia de ontem das orientações pastorais para a aplicação do VIII capítulo do Amoris Laetitia em Lisboa, aqui podem encontrar as mesmas em língua inglesa, caso estejam interessados ou conheçam quem esteja, podem partilhar.

Hoje é dia de Catholic Thing. O nosso amigo Randall Smith fala da pastoral dos homossexuais. “Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto?” A ler.

Um desafio a todos os que se interessam por aprofundar o tema dos métodos naturais de planeamento familiar, o Movimento de Defesa da Vida vai organizar um workshop no fim-de-semana de 10 e 11 de Março. São 13 horas de formação e o custo são 80 euros, mas há descontos para casais e ninguém deve deixar de se inscrever por dificuldades financeiras. Os profissionais de saúde que tenham interesse em tornar-se monitores devem inscrever-se e dar conta dessa intenção aos organizadores. 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sem Jesus é outra coisa...

Antes de mais, espero que todos tenham tido um excelente e santo Natal e que os cristãos de entre os destinatários destas mensagens se tenham lembrado de que sem Jesus, não é Natal, é outra coisa, como disse hoje o Papa, depois de ontem ter recordado a ligação entre o Natal e o martírio.

D. Manuel Clemente celebrou missa no dia 25, insistindo na comunhão entre os cristãos e D. Jorge Ortiga alertou contra as “falsas esperanças alicerçadas na confiança em ídolos que nos querem vergar”. Antes, D. Manuel tinha alertado para o perigo da eutanásia, na sua tradicional mensagem de Natal, depois de ter recordado que esta prática é inconstitucional e que caso seja aprovada espera uma intervenção do Presidente. A propósito de eutanásia, saibam o que se passa na Bélgica, o país modelo cujo exemplo os defensores da “morte assistida” gostariam que seguíssemos.

O Papa aproveitou a mensagem de Natal para falar da importância de uma solução de dois estados na Terra Santa, com a partilha de Jerusalém e na missa do Galo falou do drama dos refugiados.

Quem teve um Natal mais difícil foi o cardeal Maradiaga, das Honduras, um dos conselheiros próximos de Francisco, que se vê agora envolvido numa polémica sobre dinheiro.

Hoje temos um artigo especial no The Catholic Thing em português. O texto publicado é um excerto de um ensaio do Papa Bento XVI, uma curiosa reflexão sobre o burro e a vaca no presépio. Convido-vos a ler!

A Vaca, o Burro e Nós

Bento XVI
Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê?

Aquele que não o reconheceu foi Herodes, que nem compreendeu aquilo que lhe disseram sobre a criança: em vez disso o seu desejo de poder e a paranoia que o acompanhava cegaram-no ainda mais (Mt. 2,3). Aqueles que não o reconheceram eram “toda Jerusalém com ele” (ibid). Aqueles que não o reconheceram eram as pessoas “ricamente vestidas” – aquelas com posição social elevada (11,8). Aqueles que não o reconheceram eram os mestres do conhecimento que eram especialistas na Bíblia, os especialistas na interpretação bíblica que, admita-se, conheciam as passagens correctas nas escrituras, mas mesmo assim não compreendiam nada (Mt. 2,6).

Mas aqueles que o reconheceram foram “a vaca e o burro” (em comparação com os homens de prestígio): os pastores, os magos, Maria e José. Mas as coisas poderiam ter sido de outra forma? Aqueles de condição social elevada não estão no estábulo onde descansa o menino Jesus, mas é aí que vivem a vaca e o burro.

E nós? Estamos longe do estábulo porque as nossas roupas são demasiado ricas e somos demasiado inteligentes? Envolvemo-nos de tal forma na exegese sofisticada das Escrituras, nas demonstrações da inautenticidade ou da verdade histórica de passagens individuais, que nos tornamos cegos ao menino em si e não entendemos nada dele?

Estamos de tal forma “em Jerusalém”, no palácio, em casa em nós mesmos e na nossa arrogância e paranoia, que não conseguimos ouvir a voz dos anjos na noite para que partamos a adorar a criança?

Nesta noite, então, as caras da vaca e do burro olham para nós com uma interrogação: O meu povo não compreende, mas tu discernes a voz do teu Senhor? Quando colocamos as figuras familiares no presépio devemos pedir a Deus que nos dê corações simples que descubram o Senhor na Criança – tal como Francisco fez em Greccio. Porque aí talvez nós também possamos experimentar aquilo que Tomás de Celano relata sobre aqueles que participaram na missa do Galo em Greccio – com palavras que se assemelham às de São Lucas sobre os pastores na primeira noite de Natal – “voltaram todos para as suas casas cheios de alegria”.


Excerto do livro “A Bênção do Natal”, de Joseph Ratzinger

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Novos cardeais e o temor a Deus

Cinco cardeais e dois papas


Esta manhã o Papa falou sobre o martírio, dizendo acima disso está a caridade e que repugna aos cristãos ouvir chamar mártires aos bombistas suicidas.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Por falar em bombistas suicidas, Ines A. Murzaku escreve sobre a diferença entre o medo que nos paralisa e o natural temor a Deus. Quem teme a Deus mais nada tema, explica. É convincente e encorajador. Leiam e partilhem.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A determinação de Bento XVI e o palhaço da Madeira

O Papa Bento XVI vai lançar mais um livro, trata-se de uma conversa com o jornalista alemão Peter Seewald em que o Papa emérito faz o balanço do seu pontificado, reconhece que lhe faltou determinação, confirma a existência de um lobby gay e sublinha que não foi pressionado a resignar.

O Estado Islâmico voltou a ser notícia esta sexta-feira. Porquê? Por causa de um deputado do parlamento regional da Madeira que decidiu aproveitar a presença de Marcelo Rebelo de Sousa para desfraldar uma bandeira jihadista.

Mas será a bandeira que todos associamos ao Estado Islâmico, verdadeiramente a bandeira do Estado Islâmico? Não. Conheça aqui a história e o significado do “estandarte negro”.

Para quem vive para os lados de Coruche, realiza-se amanhã um concerto de angariação de fundos para ajudar as monjas de Belém, uma causa que vale bem a pena apoiar!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Brexit e ideologias demoníacas

O Brexit é o tema da semana e o Patriarca de Lisboa não lhe passou ao lado. Segundo D. Manuel Clemente a Europa deve guardar o lugar do Reino Unido.

Infelizmente existem racistas idiotas em todo o lado, no Reino Unido, porém, são tão idiotas que pensam que os 17 milhões que votaram para sair da Europa estão com eles e por isso têm protagonizado alguns tristes incidentes. São fenómenos que o arcebispo católico de Westminster rejeita absolutamente.

O Papa Francisco encontrou-se ontem com Bento XVI e os dois elogiaram-se mutuamente. Em Lisboa o encontro foi outro, Marcelo Rebelo de Sousa concedeu ao cardeal Sean O’Malley uma condecoração e cardeal até contou anedotas.

A actualidade está a ser marcada pelo terrível ataque terrorista em Istambul. O Papa já lamentou o atentado que fez cerca de meia centena de mortos e muitos feridos.

A ideologia de género está por detrás de muitos dos ataques à família e ao homem nos nossos dias. No artigo desta semana do The Catholic Thing, o padre Paul Scalia, filho do falecido juiz do Supremo Tribunal americano Antonin Scalia, explica porque é que se trata de uma teoria demoníaca, no puro sentido da palavra.Leiam que vale a pena.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Papa elogia Papa e Fernando Santos contra a Eutanásia

O Papa Francisco compareceu na audiência geral desta quarta-feira acompanhado de vários refugiados, como forma de chamar atenção para o que estes sofrem.

Também hoje foi divulgado o prefácio que o Papa escreveu de homenagem a Bento XVI, pelo aniversário de ordenação sacerdotal deste. São 65 anos!

Em dia de selecção, a notícia – que já tem um ou dois dias – de Fernando Santos que fez questão de assinar a petição contra a eutanásia.

E amanhã temos o referendo no Reino Unido! Não é uma questão religiosa, evidentemente, mas serviu para Robert Royal fazer uma interessante análise sobre o estado actual da organização.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Foro Interno e os Católicos Recasados

Howard Kainz
É evidente que pelo menos alguns bispos europeus, e talvez vários americanos, consideram que o uso do “foro interno” para “reconciliar” católicos recasados é uma prática aceite. Porquê a polémica então? Estaremos a lidar com um fait accompli? Um pouco de história pode ajudar.

A distinção entre os “foros externos” (por exemplo os tribunais eclesiásticos) e o “foro interno” (i.e. o confessionário enquanto tribunal da consciência) tem sido alvo de discussões há séculos no âmbito do Direito Canónico e da teologia. Mas ao longo dos últimos 47 anos surgiram várias vicissitudes de interpretação que conduziram aos actuais desentendimentos sobre o chamado “recasamento católico”.

Esta cronologia pode ajudar a mostrar como chegámos ao actual cenário:

1969: O padre Joseph Ratzinger publica um artigo num jornal teológico em que discute a possibilidade de que “na comunidade da Igreja Primitiva, como aparece representada em Mateus 5 e Mateus 19, havia a prática de divórcio e recasamento depois de um caso de adultério”.

1972: No artigo “Sobre a Questão da Indissolubilidade do Casamento”, Ratzinger contradiz a sua afirmação anterior uma vez que “à luz da completa unanimidade da tradição ao longo dos primeiros quatro séculos em sentido contrário, esta posição é inteiramente improvável”. Mas mantem que em certos casos existe a possibilidade “não judicial, com base no testemunho do pastor e de membros da Igreja, de admitir à Comunhão aqueles que vivem num segundo casamento”. Cita como justificação para isso a falibilidade dos processos de nulidade e as eventuais novas obrigações morais decorrentes de um segundo casamento.

1973: O Cardeal croata Franjo Šeper cita “a prática aprovada do foro interno” de permitir aos católicos num segundo casamento inválido que regressem aos sacramentos após o arrependimento.

1975: O Arcebispo Jean Jérôme Hamer, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) estipula que o foro interno pode permitir aos católicos divorciados recasados receber os sacramentos caso “tentem viver de acordo com as exigências dos princípios morais cristãos”.

1981: Essa estipulação, contudo, embora formalmente aprovada pelo CDF, foi restringida pela Exortação Apostólica de João Paulo II, “Familiaris Consortio”: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio.”

1991: Numa carta publicada no jornal católico inglês “The Tablet”, o Cardeal Ratzinger clarifica a referência do Cardeal Šeper, de 1973, à “prática aprovada”, sublinhando que este uso do foro interno implicaria um “compromisso a abster-se de relações sexuais”.

2005: O Sínodo sobre a Eucaristia reafirma a decisão de João Paulo II da “Familiaris Consortio”, de 1981.

2007: O Papa Bento XVI, na exortação apostólica “Sacramentum Caritatis”, reitera a decisão do Sínodo de 2005.

2015: O Cardeal Christoph Schönborn, no seu livro “A Vocação e Missão da Família: Documentos Essenciais do Sínodo dos Bispos” dá um exemplo do uso correcto do foro interno: “Se uma mulher, por exemplo, teve um casamento falhado e um aborto, mas mais tarde ‘recasou’ civilmente e agora tem cinco filhos e deseja receber absolvição pelo seu anterior aborto… vocês [padres] não a podem deixar partir sem a libertar do fardo do seu pecado.”

2016: O Papa Francisco escolhe o Cardeal Schönborn para apresentar a exortação apostólica “Amoris Laetitia”, que aconselha os padres a acompanhar aqueles que se encontram em “situações conjugais irregulares” a evitar transformar o confessionário numa “câmara de torturas” ou a Eucaristia como um “prémio para os perfeitos”.

É natural que alguns se questionem, por isso, se não estamos perante uma regeneração da tese de Schönborn.

À luz do Direito Canónico ainda existem usos legítimos para o foro interno na absolvição de católicos divorciados recasados. Se o “foro externo” dos tribunais eclesiásticos não puder ser usado por falta de testemunhas, provas ou simplesmente por indisponibilidade, então o foro interno seria o lugar de último recurso. Também, em casos de morte iminente, um penitente pode receber o sacramento da unção dos doentes e a absolvição.

Mais importante que qualquer foro interno... 
Mas aquilo que me preocupa no que diz respeito ao cuidado pastoral de católicos recasados são as vítimas de anteriores casamentos. Nos casos que eu conheço o “recasamento” envolveu o abandono de donas de casa com muitos filhos. Como é que é suposto elas lidarem com o assunto? Como é que os filhos lidam com o facto de o pai os abandonar?

As “viúvas e os órfãos” criados pela prática actual de divórcio sem culpabilidade e as dificuldades de mulheres católicas que ainda se sentem sacramentalmente ligadas ao homem que as abandona são um problema dos nossos dias. Devem sair à procura de um novo marido? Acrescentar mais um nome à lista de “divorciados recasados”?

A Bai Macfarlane dirige uma organização chamada Mary’s Advocates que se dedica “a fortalecer o casamento, eliminar os divórcios forçados sem culpabilidade e apoiar aqueles que foram injustamente abandonados pelos seus esposos”. Um dos seus actuais projectos passa por apresentar petições online para entregar a bispos, pedindo-lhes que intervenham para evitar rupturas e ajudar o potencial abandonador a “recordar as suas promessas matrimoniais e a sua vontade inicial profunda de ser um esposo dedicado”

De certeza que este tipo de acção preventiva é tão importante e legítimo como o recurso ao “foro interno”. Neste Jubileu da Misericórdia seria bom reconhecer que não só os bispos, mas a Igreja como um todo, deve apoiar social, financeira e espiritualmente os esposos injustamente abandonados.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 27 de Abril de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 2 de março de 2016

A Igreja e o Islão

Howard Kainz
O pastor evangélico Franklin Graham – filho do lendário Billy Graham – caracteriza o Islão como “uma religião cruel e muito má… uma religião de ódio, uma religião de guerra.” Ao longo dos últimos anos outros pastores conhecidos fizeram declarações semelhantes. Acontece que vários papas também.

No Século XIV Clemente V lamentou que em terras cristãs ainda se ouça a “invocação pública do nome sacrílego de Maomé”; no Século XV, Calisto III denunciou o Islão como sendo uma “seita diabólica”. Pio II criticou Maomé como “falso profeta” e o Papa Eugénio condenou a “seita abominável de Maomé”; no Século XVI o Papa Leão X disse que os muçulmanos tinham substituído a luz da salvação por uma “cegueira total e obstinada”; e no Século XVIII o Papa Bento XIV criticou os cristãos que promovem, indirectamente, “os erros de Maomé” quando adoptam nomes muçulmanos para evitar impostos ou outras penalizações por parte das autoridades islâmicas.

Também santos de séculos passados, como Tomás de Aquino ou João Damasceno, apelidaram o Islão de “diabólico”.

“Diabólico”? “Cruel”? Serão exageros? Muitos de nós conhecemos um bom número de muçulmanos individuais que são boas pessoas. Mas poderá ser que a sua religião seja má? Pode-se distinguir entre a bondade dos membros individuais e a sua religião?

O Papa Bento XVI toucou ao de leve na alegada “maldade” do Islão no seu famoso discurso de Ratisbona em 2006, sobre a necessidade de se unir a razão e a religião. Citou o exemplo de um imperador do Século XIV que descrevia o Islão como inerentemente violento e irracional, logo, mau. Isso provocou uma revolta mundial e vários episódios de violência, levando o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, futuro Papa, a comentar: “Essas afirmações servirão para destruir em vinte segundos a relação cuidadosamente construída com o Islão, ao longo dos últimos vinte anos, pelo Papa João Paulo II”. Acrescentou que tais declarações “não reflectem as minhas opiniões”.

E o que dizer dos relatos de atrocidades islâmicas, tanto no passado como no presente? A “World Watch List” de 2015 deu conta de 4.344 cristãos mortos por razões ligadas à fé e 1.062 igrejas atacadas. A lista de 2016 documenta casos de 7.106 mortes e 2.425 igrejas atacadas. Há literalmente milhares de casos de violência contra cristãos e destruição de igrejas no Egipto, Paquistão, Síria, Iraque, Irão, Indonésia, partes de África e noutros locais do mundo islâmico.

O Papa Francisco deve estar bem informado sobre tais eventos, mas na sua exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, diz que “frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.”

Ao assumir esta posição Francisco, um “filho fiel da Igreja” está a ecoar o Concílio Vaticano II. No Concílio o Papa João XXIII, como parte do seu objectivo de “abrir as janelas da Igreja” pediu aos participantes para reconsiderarem a relação da Igreja com o Judaísmo, evitando as posições teológicas e litúrgicas que tinham um historial de contribuir para o anti-semitismo. Inicialmente não havia qualquer ideia de fazer pronunciamentos sobre o Islão; mas como já referi noutro artigo, alguns padres conciliares e teólogos no concílio queriam incluir o Islão em documentos oficiais sobre “religiões não-cristãs”.

Louis Massignon
Nisto pesou muito o trabalho de Louis Massignon (1883-1962), um católico especializado no Islão e pioneiro de esforços de compreensão mútua entre católicos e muçulmanos. Massignon ensinava que era preciso fazer uma “revolução copernicana” na nossa abordagem e compreensão do Islão. Devíamos colocar-nos no centro da mentalidade islâmica, compreender a sua espiritualidade e conduzir um diálogo a partir dessa perspectiva.  

Durante o Concílio um dos discípulos de Massignon, o teólogo dominicano egípcio Georges Anawati (1905-1994) liderou os esforços, juntamente com outros, para se incluir afirmações positivas sobre o Islão nos documentos oficiais. O sucesso deste grupo vê-se na Nostra Aetate e na Lumen Gentium, que contêm comentários laudatórios sobre o Islão: “Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos”, uma religião abraâmica e monoteísta, que se submetem de todo o coração aos “decretos, mesmo ocultos,” de Deus, partilhando muito com o Cristianismo no que diz respeito a crenças básicas e ensinamentos morais.

Mas tendo em conta o ódio para com outras religiões que se revela nas escrituras islâmicas, bem como o enorme número de assassinatos, incêndios de igrejas e perseguições que temos visto nas últimas décadas, será tudo isto apenas uma mão cheia de boas intenções? Na Igreja de hoje as condenações de aspectos evidentes do Islão são praticamente inexistentes.

O Papa Pio XI publicou o Mit brennender Sorge, uma crítica aberta ao regime nazi e o Divini redemptoris contra o comunismo. Já Pio XII optou por trabalhar de forma discreta mas persistente, durante o seu pontificado, para derrotar o nazismo e salvar judeus. O que teria acontecido se tivesse publicado uma condenação firme ao nazismo?

Durante o Concílio Vaticano II a União Soviética era um flagelo global e Nossa Senhora de Fátima, nas aparições extraordinárias que coincidiram com o início da revolução comunista, avisou a Igreja sobre o perigo de a Rússia “espalhar os seus erros através do mundo”. Mas, incrivelmente, não houve um só cheirinho de crítica ao comunismo no Concílio. E se Paulo VI tivesse condenado a União Soviética, o leninismo e o marxismo? A cautela diplomática deve influir nos pronunciamentos papais? Ou devíamos seguir o lema do Imperador do Sacro Império Romano, Fernando I, “Fiat justitia, pereat mundus”, seja feita a justiça, nem que o mundo pereça?

No que diz respeito ao Islão actualmente, uma condenação clara da religião, tal como foi feita pelos papas nos séculos passados, resultaria, podemos estar certos, em graves perturbações por todo o mundo – talvez uma Terceira Guerra Mundial. E uma condenação dessas poderia ainda afectar injustamente os muçulmanos moderados a par dos extremistas. Mas mesmo sem se condenar, os elogios constantes parecem-me descabidos. Quanto ao termo “religião da paz” é altura de ter em conta a interpretação tradicional de “paz” no Islão: O mundo encontra-se dividido em duas “casas” – a Casa da Paz (Dar Al-Salaam) e a Casa da Guerra (Dar Al-Harb). Na primeira, cabem apenas os muçulmanos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Março de 2016)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Sobre a questão da conversão dos judeus

Edith Stein
No passado Domingo o Papa Francisco esteve na Sinagoga de Roma, onde discursou. A dada altura disse o seguinte: “Os cristãos, para se compreenderem a si mesmos, não podem deixar de referir as suas raízes judaicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação através da fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel”.

Esta foi sem dúvida a passagem mais importante do seu discurso e nela o Papa refere-se a uma discussão teológica interna ao Cristianismo que passa por saber se os cristãos deviam pregar o Evangelho aos judeus. A teoria que parece estar a ganhar terreno na Igreja Católica é que os cristãos não devem procurar evangelizar os judeus de forma especial, uma vez que a Antiga Aliança ainda é válida – uma vez que as promessas de Deus são irrevogáveis, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.

O meu bom amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, leu o discurso e não gostou. Porque o Tiago é boa pessoa e intelectualmente honesto, o seu texto não é um ataque cerrado – que seria fácil mas pouco produtivo de fazer – mas antes uma série de interrogações que, a meu ver, se podem resumir numa só. “Se os judeus não precisam de Jesus, o que é que Jesus veio cá fazer?”

Este meu texto, agora, não é uma defesa da posição da Igreja Católica ou do Papa. Antes, tenciono aqui deixar algumas pistas para ajudar à discussão, porque me parece que esta é uma discussão que importa ter e que não está de forma alguma resolvida.

Sendo assim:

1. Isto não é (assim tão) novo
O discurso do Papa trouxe o assunto mais para a ordem do dia, mas a primeira vez que eu dei por isto foi há mais de uma década. Na altura foi num documento da conferência episcopal americana. Eu li e a dada altura levantei o assunto com um professor do meu mestrado, na altura padre e agora bispo, que disse que achava isso tudo muito estranho. Mostrei-lhe o documento. Ele leu e, basicamente, descartou, dizendo que podia ser um documento de reflexão teológica da Igreja americana, mas a posição da Igreja Universal não era essa.

Mais recentemente a comissão do Vaticano para o diálogo religioso com os judeus publicou um novo documento a dizer basicamente a mesma coisa. “Que os judeus são participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério divino insondável”.

Antes de mais, para muita gente isto pode não ser claro, sobretudo para protestantes que não têm obrigação nenhuma de saber como é que as coisas funcionam no Vaticano, mas nem um documento da comissão para o diálogo, nem um discurso do Papa numa sinagoga vinculam a Igreja Universal a uma posição. Não me parece correcto, simplesmente por uma questão de rigor, dizer que a posição da Igreja Católica agora é esta ou aquela. Penso, aliás, que isto é claramente um “work in progress”. Todavia, o facto de o Papa ter endossado a ideia num discurso público não é, obviamente, irrelevante. O que quero deixar claro é que dentro da Igreja a ideia não é de modo algum unânime.

Cardeal Lustiger
Contudo, esta também não foi, ao contrário do que eu pensava quando li o discurso, a primeira vez que um Papa subscreve publicamente esta ideia. Rapidamente no twitter recebi referências de outras instâncias. Nomeadamente no Evangelii Gaudium, nº 247: “Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’”.

Mas o EG é um texto do Papa Francisco, portanto quem acha, como o Tiago, que este é o pior Papa das últimas décadas (e não são só protestantes que o acham), dificilmente se deixará tocar por isto. Mas a maioria dos grandes críticos de Francisco nutrem, ao mesmo tempo, uma enorme admiração por Bento XVI. Sei que é o caso do Tiago e sei que todos concordarão que BXVI não é o tipo de teólogo de se deixar levar por sentimentalismos.

Vejamos então o que ele escreveu nos seus livros sobre Jesus de Nazaré:

“A este respeito, no horizonte de fundo, aparece sempre também a questão sobre a missão de Israel. (…) uma nova reflexão permite reconhecer que é possível, em todas as obscuridades, encontrar pontos de partida para uma justa compreensão.

Quero referir aqui o que, relativamente a este ponto, aconselhou Bernardo de Claraval ao seu discípulo, o Papa Eugénio III. Recorda ao Papa que não lhe foi confiado o cuidado apenas dos cristãos. “Tu tens um dever também para com os infiéis, os judeus, os gregos e os pagãos”. Mas corrige-se logo a seguir, especificando: “Admito, relativamente aos judeus, que tens a desculpa do tempo; para eles foi estabelecido um determinado momento, que não se pode antecipar. Primeiro devem entrar os pagãos na sua totalidade. (…)

Hildegard Brem comenta assim este trecho de Bernardo: “Na sequência de Romanos 11,25, a Igreja não se deve preocupar com a conversão dos judeus, porque é preciso esperar o momento estabelecido por Deus, ou seja, “até que a totalidade dos gentios tenha entrado”. Ao contrário, os próprios judeus constituem uma pregação vivente, para a qual deve apontar a Igreja, porque nos trazem à mente a paixão de Cristo”.
Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição - Capítulo II, ponto 2

Este artigo contém uma interessante análise e comentários a este ponto.

2. O “efeito holocausto”
Embora seja relativamente fácil dizer que estas teorias são apenas o resultado de um complexo de culpa que sentimos em relação ao holocausto, por este só ter sido possível graças ao facto de haver um terreno fértil para o anti-semitismo, para o qual contribuíram mais de mil anos de Cristianismo europeu – o que não é obviamente o mesmo que dizer que o Cristianismo foi responsável pelo holocausto, atenção – penso que não é assim tão simples. Poderá ser um factor, mas não explica tudo. O já citado São Bernardo de Claraval não sofria certamente de complexos do holocausto.

Mas penso que o holocausto pode ter despertado entre os teólogos uma dúvida. Como é que uma ideia aparentemente tão benévola, de querer levar aos judeus o conhecimento do Messias que tanto dizem esperar, pode ter tido consequências tão trágicas ao longo de tantos séculos? É que não foi uma vez nem duas, foram centenas. Só para dar um exemplo, já que este texto pretende ser um diálogo com um pastor que se identifica com a tradição luterana, vemos o que aconteceu quando Lutero viu frustradas as suas tentativas de converter os judeus. Em 1543 escreveu o panfleto “Sobre os judeus e as suas mentiras” em que recomenda a destruição de casas e sinagogas de judeus, a proibição dos seus livros sagrados e dos rabinos ensinarem, etc. etc. Tragicamente, existem demasiados exemplos no lado católico também.

Repito que este meu texto não tem por objectivo defender a teoria de que não precisamos de pregar aos judeus, apenas de levantar mais algumas questões e apontar para fontes que podem contribuir para o aprofundamento. E é nesse sentido que pergunto se não é natural que alguém pense que esta estratégia de tentar converter os judeus fez mais mal do que bem ao longo dos milénios e se isso não será sinal de que o caminho não é esse, sobretudo tendo em conta o suporte neo-testamentário já citado.

Pe. David Neuhaus
3. Vozes ausentes
No meio de tudo isto, confesso que há vozes que ainda não ouvi mas que penso que são fundamentais para este debate. Refiro-me a católicos que tenham nascido judeus. O Cardeal Lustiger, de Paris, que morreu em 2007, sempre se afirmou judeu e embora não tenha ideia de ele ter abordado esta questão especificamente, pelo que ele dizia, nomeadamente ao intitular-se um “fulfilled Jew” (falta-me agora um termo adequado em português), leva-me a crer que discordaria da ideia de não se pregar aos judeus, embora esteja apenas a especular.

O padre David Neuhaus, que é vigário-geral para os católicos de língua hebraica, na Terra Santa, seria uma voz a ouvir também, mas tanto quanto vejo na net, ainda não se pronunciou sobre isto em particular. Se alguém tiver dados em contrário, que me avise.

Também não conheço suficientemente a obra de Edith Stein sobre esta questão, mas imagino que possa ter algo a dizer.

Este é um assunto complexo e que merece certamente muita reflexão e debate. Penso que todos, cristãos católicos ou reformados, ou mesmo judeus, temos a ganhar em fazê-lo e agradeço por isso o texto do Tiago que me levou a escrever este. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Jubileu da Misericórdia e Bowie reza

David Bowie RIP
Já estão disponíveis para leitura alguns excertos do livro do Papa Francisco, sobre misericórdia. O livro em si só vai para as bancas amanhã e a Renascença terá entrevista com Andrea Tornielli, o vaticanista que conduziu a entrevista.

Esta segunda-feira o Papa discursou ao corpo diplomático acreditado junto ao Vaticano, falando novamente da crise dos refugiados e de como a resposta que está a ser dada (ou falta dela) está a minar as bases humanistas da Europa.

Durante o fim-de-semana foi publicada a primeira de uma série de reportagens que estou a fazer a propósito do Jubileu da Misericórdia, com base nos guiões oficiais lançados pelo Vaticano. Esta primeira reportagem é sobre a liturgia.

O Porto tem um novo bispo-auxiliar. D. António Augusto Azevedo foi nomeado pelo Vaticano no sábado.

Da Alemanha chega a triste notícia de um escândalo de abusos sexuais e físicos contra membros de um famoso coro juvenil. O irmão do Papa Bento XVI era o director do coro nos anos em que os abusos aconteceram, embora diga agora que nunca soube de nada.

E por fim, como já se devem ter apercebido, morreu o David Bowie*. Não vou fingir que sou especialista ou o maior fã dele, mas achei piada quando vi hoje este vídeo em que ele presta homenagem aos mortos. Porque não fazer hoje o mesmo por ele?

* O vídeo em questão é de uma homenagem do Bowie ao Freddy Mercury. Por lapso, inicialmente troquei-me e escrevi que tinha morrido o Mercury. A confusão vem daí. Obrigado a quem apontou para o erro para que eu o pudesse corrigir.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Beleza é o Coração da Nossa Fé Cristã

James V. Schall sj
Quando o Papa Bento XVI entrou na Catedral de Westminster para celebrar missa durante a sua visita a Inglaterra em 2010, fê-lo ao som de “Tu est Petrus”, composto pelo compositor escocês Sir James MacMillan. Como comprovam as ruínas de inúmeras catedrais, a Escócia foi em tempos um país católico. Alguns dos clãs ainda são. Nas palavras de Samuel Johnson, no seu “Diário de uma Viagem às Hébridas”, “Não é de invejar o homem cujo patriotismo não ganhe força na planície de Maratona ou cuja piedade não se acalente entre as ruínas de Iona”.

MacMillan foi escolhido como “Católico do Ano, 2015” pelo “Catholic Herald” e é um admirador confesso de Bento XVI, que também coloca a música e a beleza no cerne da vida humana. “A beleza é o coração da nossa fé cristã”, escreve o compositor. “Deve estar no centro das nossas atenções quando nos aproximamos, em adoração, do trono de toda a Beleza”. Há muito que a Igreja percebe que os homens precisam tanto de beleza como de pão para a boca, a longo prazo, talvez precisem mais.

No “Relatório Ratzinger” (1985) lemos: “O Cristianismo não é uma especulação filosófica; não é uma construção da nossa mente. O Cristianismo não é obra ‘nossa’; é uma Revelação; é uma mensagem que nos foi confiada e não temos o direito de a reconstruir ao nosso gosto ou à nossa escolha.”

Os papas e bispos não têm missão mais importante do que manter essa “mensagem” essencial intacta. A “especulação filosófica” surge apenas no seguimento, e como auxílio, da recepção adequada da revelação e do seu conteúdo. Qualquer tentativa de “reconstruí-la” ou diluí-la à luz de uma imaginada “construção” da mente é em si a recusa daquilo que nos foi confiado. É isso que Deus quis que estivesse presente no mundo ao longo dos tempos e entregou à Igreja com esse objectivo, por mais impopular ou estranho que seja numa dada cultura ou era.

O Sir James MacMillan colocou a questão desta forma. “Muitas pessoas, crentes ou não, dedicaram toda a vida a tentar diluir o Cristianismo, vendo num secularismo uniforme e cinzento um inevitável passo seguinte. É verdade que vivemos numa sociedade plural, mas a nossa civilização foi moldada por uma cultura e valores judaico-cristãos. Alguns de nós continuaremos a celebrar isto e a viver a nossa fé como pluralistas”. Não há que duvidar que muito do Protestantismo e do Catolicismo liberal moderno tem-se dedicado de facto a “diluir” os princípios básicos da revelação e da realidade a que se referem.

Sir James MacMillan
Este esforço para “diluir” o Cristianismo num “secularismo uniforme cinzentão” tornaria a Igreja um agente da uniformidade cultural. Aquilo que torna a Cristianismo único – a própria revelação da Trindade e da Encarnação – seria eliminado ou explicado até à insignificância. Esta revelação e a sua unicidade são, a crer no que se apregoa, a causa das nossas desordens civis, pelo que ninguém deve sentir-se obrigado ao que quer que seja salvo aquilo que o Estado ordena para a paz na praça pública. Um “humanismo” ou “secularismo” universal esforça-se para eliminar qualquer causa de conflito. A Igreja não pode, por isso, reclamar qualquer liberdade de acção fora das suas próprias portas. A liberdade religiosa termina à porta das igrejas.

O tipo de “pluralismo” seguido por MacMillan é mais robusto do que o “multiculturalismo” que actualmente nos rege. O “multiculturalismo” moderno, do estilo que MacMillan rejeita, baseia-se no cepticismo. Por princípio, nada é verdade. Todas as ideias religiosas são igualmente erradas. Ninguém pode reclamar conhecer a verdade.

No “pluralismo” de Sir James MacMillan, os pensamentos e as ideias diferentes não são algo que se deve esconder, mas que se devem viver de forma aberta e legal. Frequentemente é preciso grande coragem para o fazer.

A ideia de que a paz se alcança através da remoção forçada de qualquer símbolo religioso estabelece, de facto, o “humanismo secular” como “confissão pública” obrigatória, tudo em nome de “multiculturalismo”. É um conceito que, pelo que se vê, se revelou tão estreito e letal como qualquer religião do passado. Baseia-se, novamente, na afirmação de que não existe verdade.

Tal como Bento XVI, Sir James compreende que o seu pluralismo tem por base a razão. Não nega a existência de fanatismo nalgumas religiões, que deve ser enfrentado de forma directa, mas ao mesmo tempo afirma que aquilo que foi revelado é para ser conhecido e vivido. Estas são as verdades que ele continuará a celebrar e defender dentro das nações, a começar pela sua própria.

Por fim, repito, com Joseph Ratzinger que “o Cristianismo não é obra ‘nossa’; é uma Revelação”, e com Sir James: “A beleza é o coração da nossa fé cristã”.


“Tu est Petrus” de James MacMillan.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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