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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Abanar o capacete no Santuário

Ontem, em Fátima, houve um encontro de 130 mil motociclistas que receberam uma bênção especial do Papa Francisco.

Por falar em freiras heroicas, apresento ainda a irmã Júlia Bacelar, que trabalha no campo do tráfico humano e “vai aos sítios onde ninguém quer ir”.

Conheça o padre italiano que cobra o estacionamento no parque da Igreja… Em orações.

Publico hoje no blog um texto muito bonito, que me foi enviado por um leitor anónimo, que vos convido a ler. É uma reflexão de quem passou por dificuldades matrimoniais mas foi ajudado a tempo de evitar cometer um grande erro. Leiam e partilhem, porque pode ajudar outros a tomar a decisão certa.

A propósito, para os interessados, sobretudo quem está ligado ao direito canónico, decorre em Roma um Curso de formação sobre o matrimónio, no Tribunal Apostólico da Rota Romana, entre os dias 26 e 30 de novembro. Mais informações aqui.

A dois

O texto que publico de seguida foi-me enviado por um leitor anónimo, na esperança de que pudesse servir de ajuda e inspiração a quem esteja a passar por dificuldades matrimoniais. 

Deu-me total liberdade para o publicar, ou não, e optei por fazê-lo devido não só à beleza da escrita, mas também à utilidade do assunto. O estado actual do casamento e da família em Portugal - e não só - é de guerra civil. Os feridos e estropeados deste conflito estão por toda a parte. São nossos irmãos, primos, amigos. 

O Papa Francisco pede-nos para sermos hospital de campanha neste mundo. Este texto é uma receita médica. Peço-vos que o leiam com atenção, porque a escrita, sendo bonita, não é óbvia. Partilhem-na com quem pensem que possa precisar, ou apenas nas vossas redes sociais. Pode ser que chegue aos olhos certos, a tempo. 



A montanha, alta, ultrapassa com o seu pico a camada de nuvens que cobre o dia, tornando-o cinzento. O céu azul, que vem depois, é o de um dia que é perfeito porque supera esse cinzento. E porque o superou, não voltará mais à sua sombra.

Para eles, esse azul é meta agora invisível, mas tão real como a montanha que têm vindo a subir, a dois.

Já tinham caminhado o suficiente para se sentirem cansados. O estado de cada um, naquele ponto sinuoso do caminho, montanha acima, era fruto da caminhada dos dois.
A dois. Sem o outro, não era ali que estaria cada um.

Estar agora parada no caminho que era de ambos, era tão estranho como inevitável. Estranho, porque ele não estava ali. Inevitável, por isso mesmo. Como todos os desvios que cada um tinha já visto, também aquele invertia o sentido do cansaço que subia com a montanha. A que vinham a percorrer. A dois.

A voz dele estava já distante, quando o ouviu decidir pela dúvida desse outro caminho. O tal que aliviava a subida para a meta de ambos, descendo fácil e agradável até onde ele não sabia. Não o viu afastar-se... Há quanto tempo teriam largado as mãos? Para ele, o alívio do imediato parecia agora mais forte que o seu desejo de verdade. Turvava esse desejo.

Em nenhum dos caminhos se vê o todo do percurso que está à frente. No deles, ela espera-o, permitindo no seu coração a dor de vê-lo não estar e a paz da certeza da meta dos dois. No dele, coexistem o alívio do que já sabe ser um erro e a resistência à verdade que, no fundo, conhece. A verdade do caminho que percorriam. A dois.

- Tens água na mochila!, ouviu ela.

Foi de imediato ao seu cantil e bebeu, fitando, calada e grata, o pastor que acabava de falar-lhe. Esqueceu-se de estranhar que soubesse do cantil, que continuava cheio e com uma água tão fresca como no início. Estranhou sim, que também ele seguisse por aquele desvio, deixando para trás, sem hesitar, as suas ovelhas. Parada, apercebeu-se de que havia outros desvios. E deixou-se estar.

- Não vou beber a água de um estranho, pensou ele desviando o olhar de quem não podia ser um pastor, por faltar o rebanho. Ignorou o copo que lhe estendia e engoliu a sede que sentia.

- Onde vais?

Não sabia. Mas descia.

Entregando-se só a si, olhos postos nos seus pés, não se apercebeu do próprio desejo de que o estranho ainda ali estivesse.


O seu desvio desce agora mais íngreme; hesita confuso, perante as pedras que se vão soltando. Tropeça sem cair. Uma vez, e outra, e outra. A saudade da verdade aumenta com a distância do caminho que vinham percorrendo. A dois.

No longo instante que durou a queda, estendeu os braços, implorando com o coração aquela ajuda. A do pastor que estaria (?) ainda ali.

- Se calhar já tem pouca água...

- Podes beber. Tens sede e há muita água nesta fonte.

- Onde ia, pastor?

- Vinha pedir-te um favor. Explico-te lá em cima, se quiseres voltar. Leva esta mochila, tem mais água.

Vendo-o iniciar o regresso, ele parou. Rodou a cabeça, e olhou novamente para o desvio que antes o levava não sabia para onde. Repôs os seus olhos no pastor.

- Estou a ir!

- Estou a ir! – Ouviu-o à distância, sem o ver. Ela alegrou-se em silêncio, sabendo que o caminho de regresso que ele tinha decidido, era necessário para que se reencontrassem. Como necessário era o tempo que levaria.

Esperou.

De mão estendida, pedindo-lhe, calado, a dela, completou o regresso à verdade que nunca deixara de desejar, reconhecendo-a. Com o caminho, que reviam agora juntos, viam também, entre as velhas nuvens, algum do azul do céu. Que sempre estivera lá.

- Afinal o que querias de mim, pastor?

- Que me ajudasses a encontrar uma das minhas ovelhas.

Com ele, recomeçaram a caminhar montanha acima.

A dois.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Sinais de Amor Mútuo

Michael Pakaluk
Num dos dedos da minha mão esquerda uso uma aliança, que entendo ser um sinal do meu amor e da minha fidelidade pela minha mulher, Catherine. Mas as palavras da liturgia dão a entender outra coisa. Quando recebi a aliança da minha mulher no nosso casamento ela disse, “Toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Por isso parece que estou enganado: a aliança que eu uso representa a fidelidade dela, não a minha. Ou será? Como é que resolvemos este problema?

Uma forma seria simplesmente mudar as palavras. Já vi essa sugestão feita num site popular de planeamento de casamentos, sem a devida autorização, claro, no sentido de mudar as palavras para Eu, [nome] recebo esta aliança como sinal do meu amor e fidelidade”!

Portanto a coisa não parece clara e algumas pessoas tentam resolvê-la com o senso comum. A verdade é que essa situação menos clara foi introduzida com a reforma litúrgica. A Forma Extraordinária é muito mais clara e inclui a bênção, só da aliança da mulher, pelo padre:

Abençoa, + Senhor, esta aliança, que benzemos + em vosso nome, que aquela que a vai usar, mantendo verdadeira fé no seu esposo, possa permanecer na vossa paz e em obediência à vossa vontade e viver para sempre em amor mútuo.*

Repare-se que as palavras não se referem à aliança como “sinal” de nada. Só existe uma cláusula de propósito, “que aquela que a vai usar”. Isto é porque a aliança é vista como um “sacramental”, isto é, algo sagrado que tem o poder conferido de fazer aquilo que significa (como a água benta). Assim, a aliança não é apenas representativa da sua fidelidade: tem como propósito auxiliá-la a ser fiel. (Vemos um sinal disto naqueles homens que tiram a aliança antes de entrar num bar, abdicando assim da ajuda divina em permanecer fiéis).

A bênção refere-se também à obediência à vontade de Deus. Isto é algo que uma pessoa sensata compreende. Ser casado implica aceitar uma regra; estar constrangido. Uma pessoa aceita um jugo – um jugo “suave” e “leve”, claro, que, se for adoptado com o espírito certo, traz muita “paz”. Mas seria insensato negar que uma aliança é um compromisso com a disciplina, tanto como um cabeção para um padre.

Mas há uma falha, uma fraqueza, no ritual. A bênção refere-se ao “amor mútuo” mas só o marido é que dá uma aliança à noiva, e não ao contrário. (Era costume na Europa, até ao final do Século XIX, apenas a mulher usar a aliança.) O novo rito, como veremos, procura remediar isto.

Na Forma Extraordinária, o padre dá a aliança benzida ao noivo, que a dá à noiva, usando uma de duas fórmulas:

Com esta aliança eu te desposo, e juro ser-te fiel*

-ou-

Com esta aliança eu te desposo; este ouro e esta prata eu te dou:
Com o meu corpo eu te venero; e todos os meus bens terrenos te ofereço*

Um objecto em duas mãos
Os linguistas chamam a este tipo de linguagem “performativa” uma vez que as palavras significam e cumpre, simultaneamente, a acção. Aquilo que as palavras significam e efectivam é a perfeição da união matrimonial através da dádiva de um objecto precioso, a aliança.

Mas nem é necessário que o objecto seja uma aliança! Acontece que a aliança era o objecto precioso mais fácil de guardar junto ao corpo nas culturas antigas. Mas o “ouro e prata” refere-se a moedas que também podem ser oferecidas, como as famosas “arras” que ainda são dadas durante a cerimónia nas culturas hispânicas e que por isso mesmo foram incorporadas como uma opção nos casamentos católicos nos Estados Unidos, em 2016.

Nos dias em que o casamento era entendido não tanto como uma simples relação pessoal, mas mais como uma instituição que conduzia à estabilidade financeira, o facto de o homem dar um objecto precioso à sua mulher era um sinal da seriedade do seu compromisso de estabelecer esta instituição com ela em particular. A isto acrescentava-se o dote, o capital inicial para a nova instituição, dada por uma ou ambas as famílias. Uma vez que o casamento continua a manter essa característica, pode-se argumentar que a tradição das “arras” é um vestígio e um testemunho desse entendimento e que por isso ganharia em ser adaptado a outras culturas também.

Podemos agora contrastar isto com o significado das palavras no novo rito. Quando o noivo diz “toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, não se refere à utilização da aliança, mas à aliança enquanto objeto precioso. Oferece a aliança por amor e com uma promessa de fidelidade; depois, ela usará a aliança por amor e como promessa de fidelidade. (Em 2016 a linguagem foi alterada para “Recebe esta aliança” em vez de “toma esta aliança” – o que se pode dizer que emenda o problema ao enfatizar mais corretamente o facto de a dádiva ser um evento único.)

Então esta nova linguagem é confusa e confunde – ou (talvez sem o querer) é profundamente verdadeira? Vejamos por este prisma: num contexto moderno, uma aliança é um objecto ou meio objecto? Comparando: um sapato é meio objecto e não um objecto inteiro, uma vez que os sapatos existem aos pares. Claramente, hoje olhamos para as alianças da mesma forma, como sendo aos pares. Nesse sentido, em bom rigor, uma pessoa não usa uma aliança, são duas pessoas que usam um único objecto – as alianças. Cada aliança, sobretudo pelo facto de não ser completa por si só, representa o amor e a fidelidade de ambos.

Assim, as palavras do novo rito, não obstante a sua falta de clareza aparente, acabam por ser profundamente verdadeiras. É frequente uma coisa significar a sua proveniência. A aliança que uso na minha mão esquerda nunca deixa de “dizer” que foi recebida como sinal de amor e de fidelidade. Usada, representa um amor e uma fidelidade que são precisamente recíprocos e mútuos. 

*As traduções são minhas, do inglês. Não consegui encontrar traduções portuguesas das bênçãos e das expressões. Caso existam, e algum leitor as conhecer, agradeço que me informem para poder trocar. Obrigado!


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Julho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Asias há muitas, infelizmente

O Papa emitiu hoje um documento com novas orientações e normas – com força de lei canónica – para se lidar com casos de abusos. Os especialistas – até alguns críticos do Papa – parecem concordar que é um documento muito bom. Ainda bem!

Ontem tivemos a fabulosa notícia de que Asia Bibi já se encontra em segurança no Canadá. Foi quase uma década de sofrimento que para ela já acabou. Mas infelizmente o dela é apenas um de muitos casos que existem. Falei com dois paquistaneses cristãos que se encontram na Europa a tentar encontrar soluções para os jovens da sua comunidade poderem sair do país para estudar, porque mesmo nas universidades são vítimas de discriminação.

A Conferência Episcopal quer mais católicos a intervir para ajudar casais a superar as suas crises conjugais e a Cáritas quer tudo a votar nas europeias de dia 26!

Ontem publiquei mais um artigo do The Catholic Thing em português. Matthew Hanley sublinha algumas das contradições inerentes ao movimento que nos quer impor a fantasia de que se possa mudar de sexo e mostra como estamos já numa era em que dizer a verdade pode ser considerado crime.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Derrotou a ETA, agora quer dar cabo do secularismo

Jaime Mayor Oreja
Vem aí uma plataforma para intelectuais conservadores interessados em ajudar a restaurar os valores cristãos na Europa. À cabeça da iniciativa está Jaime Mayor Oreja, conhecido como “o homem que derrotou a ETA”, com quem falei.

Apresento-vos o António. É da Guarda. Já foi enfermeiro. Agora é bispo de Viseu.

O Papa recebeu durante vários dias um grupo de vítimas de abuso sexual do Chile. Saiba como correu o encontro.

Uma freira portuguesa na República Centro-Africana diz que nem ela nem as suas irmãs vão abandonar Bangui, pois a sua presença questiona os criminosos que destroem o país.


Há novas opções para quem quer caminhar para Santiago, agora já é possível a partir de Évora.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Salve o queijo da Serra, adopte uma ovelha!

Depois de a Renascença ter dado calmamente a notícia da nota do Patriarcado de Lisboa na terça-feira, ontem o resto da imprensa acordou e decidiu pegar no assunto por um ângulo que nada tem de novo, nomeadamente a recomendação de viver em continência para alguns casais em situação irregular. Por isso ao fim da tarde pegámos no tema outra vez e pedimos ao padre José Manuel Pereira de Almeida que nos explicasse exactamente o que se passa. Vale a pena ler para ficar esclarecido.

O Cristo Rei, em Almada, vai ser “pintado” de encarnado em solidariedade com os cristãos perseguidos, tal como o Coliseu de Roma e igrejas em Alepo e em Mossul, no Iraque.

9,4 milhões visitaram Fátima no ano do centenário. Um número verdadeiramente impressionante.

Quer ajudar os produtores de queijo da Serra, afectados pelos incêndios? Adopte uma ovelha.

Conheça ainda o fantástico trabalho das irmãs hospitaleiras na Guarda, que usam a arte para ajudar as pessoas com doença mental.

A Eutanásia vai continuar a dar que falar, claro. Sobretudo com o PS a decidir que a única forma de “participar no debate” é apresentando mais uma lei, não vá ser flanqueado pelo Bloco. Hoje Henrique Raposo explica de forma brilhante por que é que é um absurdo validar e resolver de forma permanente um desespero que por natureza é transitório. Leia e partilhe!


E porque vou estar fora na próxima semana, convido-vos a tomar conhecimento e a divulgar, através da imagem que ilustra este post, a campanha dos 40 dias de oração pela vida, que começa novamente na quarta-feira de Cinzas. A causa não podia ser mais nobre.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Lisboa já tem Laetitia

Lisboa já tem orientações para a aplicação do Amoris Laetitia. Saiba tudo aqui.

Foi lançada a mensagem de Quaresma do Papa Francisco, em que ele alerta para “os falsos profetas” e os riscos de um “coração frio”.

A renúncia quaresmal deste ano em Vila Real será para combater a “miséria envergonhada” e para “bolsas de estudo”, diz o bispo.

Conheça a aula de iconografia cristã a que nem a Judiciária faltou.

O Bloco apresentou hoje o seu projecto sobre a eutanásia e o PS, que evidentemente não quer ficar atrás, disse que também o vai fazer. O PCP é que continua a não mostrar a mão

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Love is in the air!

E pronto… Francisco arranja sempre maneira de nos surpreender novamente. Hoje foi um casamento em pleno voo. Dois assistentes de bordo entraram no avião solteiros, aos olhos da Igreja, e saíram casados. Love is in the air.

Já em Iquique, Francisco celebrou missa e disse aos presentes que os imigrantes que partem das suas casas à procura de melhores vidas, são “ícones da sagrada família”.

Ontem o Papa esteve com os jovens em Santiago, no Chile, e para que não lhes faltasse nada deu-lhes o password da banda larga de Jesus.

Braga é a mais recente diocese a publicar orientações para a aplicação do Amoris Laetitia.

E hoje que começa o oitavário da oração pela unidade dos cristãos, o bispo da Guarda desafia os cristãos a lutar contra novas formas de escravatura.

Apresento-vos o bispo americano que recusou participar numa caminhada pela vida na sua diocese porque a oradora é defensora da pena de morte.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Empurrando problemas com a barriga...

Randall Smith
Há alguns anos surgiu um filme chamado “A Corrente do Bem” [Pay it Forward], cuja ideia principal era de que quando alguém nos faz bem, em vez de retribuir devia-se fazer bem a outra pessoa. A realidade costuma ser menos benigna. O que as pessoas costumam passar aos outros são os resultados de um trabalho mal feito, um problema por resolver, uma disfunção que vai passando de gabinete em gabinete até que cai no colo de alguém que não tem nem a autoridade para o poder passar a mais ninguém.

Digamos que um jovem padre, acabado de se formar em Direito Canónico, é colocado num tribunal diocesano, esperando idealisticamente poder aplicar o conhecimento e as práticas que aprendeu, com base na tradição da Igreja, aos desafios pastoralmente difíceis dos casos de nulidade. O que descobre, porém, é que há anos que o tribunal não segue essas práticas, adoptando uma atitude de despachar os processos, dos quais muito poucos são rejeitados.

Estes funcionários sabem, com base em décadas de experiência (uma vez que muitos estão no tribunal desde os anos 70) que se recusarem um processo, ou se recusarem a nulidade, as partes envolvidas tendem a abandonar a Igreja. Por isso, quando o nosso jovem padre chega, o tribunal encontra-se a decretar algumas centenas de nulidades por ano, tendo rejeitado apenas oito ou nove na última década.

O jovem padre idealista decide resistir a este laxismo burocrático. Assim ele é que passa a ser o problema. A burocracia diocesana gere as coisas de uma certa forma há anos; os padres que aconselham os casais estão habituados a dizer-lhes que não haverá qualquer problema uma vez ultrapassada a difícil fase do preenchimento dos papéis.

Ao resistir, o nosso jovem padre vai causar muito mal-estar. Pessoas zangadas por terem visto os seus processos negados irão abandonar a Igreja e os padres que os aconselharam ficarão furiosos. Se o conflito se tornar público os comentadores “liberais” escreverão artigos revoltados, lamentando a “falta de caridade e sensibilidade pastoral” do tribunal, enquanto os “conservadores” criticarão o tribunal por ser tão laxista, insistindo que a caridade maior é a aplicação rigorosa das leis da Igreja.

Eu, para dizer a verdade, não tenho nada a dizer sobre o assunto.

Em vez disso, pergunto se não fará sentido sugerir que “o problema” começou muito antes. Cada pedido de nulidade que chega ao tribunal deve ser considerado uma falha na preparação para o matrimónio. Se a Igreja pode legitimamente decretar a nulidade de tantos casamentos por ano, então tem de enfrentar a triste realidade de que todos os anos milhares de casais católicos não estão a ser bem preparados para o casamento. Tentar lidar com o problema na fase do processo de nulidade é como tapar uma ferida de bala com um penso. Não faz mais do que esconder o problema, em vez de lidar com a ferida profunda, que devia ter sido evitada. Um “hospital de campanha” responsável deveria perguntar porque é estão a aparecer tantas pessoas vítimas de balas, em vez de procurar pensos mais sofisticados.

O pessoal das urgências era capaz de ficar irritado se um médico se recusasse a fazer como todos os outros e simplesmente tapar a ferida com um penso. Parece cruel deixar a ferida aberta. Mas devemos continuar a tapar os problemas em vez de lidar com as suas causas? Os médicos das urgências que já fizeram as pazes com aquilo que se lhes pede há anos provavelmente dirão que não conseguem controlar o que se passa antes de os feridos darem entrada, e isso é verdade, eles não criaram o problema, simplesmente caiu-lhes no colo. E agora?

Hospital de Campanha na Áustria, Primeira Guerra Mundial
Podíamos fazer um comentário semelhante sobre as escolas católicas. As escolas não costumam estar na raiz dos problemas, mas são o local onde todos os problemas tóxicos, que grassam na nossa cultura, vão parar. Questões com drogas e álcool, pornografia e a adolescência híper-sexualizada; consumismo; as pressões de ser bem-sucedido numa economia tecnocrática e globalizada; e por detrás de todas estas, as dificuldades de lidar com as exigências cada vez mais insaciáveis de multidões de indivíduos autónomos alimentados pela ideologia do Estado liberal e que acreditam que têm o “direito” de fazer o que querem, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos dos outros e as obrigações para com a comunidade.

O resultado é que temos uma população, incluindo americanos, que sentem que têm o “direito” a casar e a casar nesta igreja; o “direito” a uma declaração de nulidade quando as coisas não correm bem; o “direito” a ter a escola católica que querem (o que pode significar aulas de educação sexual, ética ambiental ou missa em latim); e o “direito” de escolher a vida que querem, quer isso signifique o “direito” a um aborto, o “direito” a casas de banho transgénero ou o “direito” a acumular toda a riqueza possível para poder comprar os bens de consumo que querem.

Por isso, e quando os padres insistem perante as suas congregações que a principal virtude cristã é “ser simpático”, esses fiéis têm alguma dificuldade em compreender porque é que uma instituição católica lhes negaria o que consideram ser desejos legítimos, porque negar às pessoas aquilo que querem não é “simpático”. Quando se alimenta uma cultura de liberalismo autónomo e se prega o Evangelho de deísmo terapêutico moralista, está-se a dar força às raízes das ervas daninhas da nossa cultura, muitas das quais acabarão por crescer com força no jardim de alguém que não tem os recursos necessários para se livrar delas.

Por isso podemos continuar a discutir amargamente e sem fim sobre os tribunais e as escolas onde os problemas acabam por ir parar – embora nesse ponto as dificuldades são já tão grandes e os recursos tão escassos que teria sorte se até um penso lhe dessem. Ou então podemos levar a sério o que está a acontecer na nossa cultura e o que não se está a passar na nossa Igreja e começar a responsabilizar as pessoas envolvidas no sistema, a começar por nós, para não empurrem mais os problemas com a barriga.

Talvez devêssemos fazer disso a nossa resolução de Ano Novo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Não-Silêncio de Santa Perpétua

Randall Smith
“Queremos falar consigo sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Estávamos ainda na primeira semana do curso de Verão que eu estava a leccionar a um grupo de estudantes internacionais quando fui abordado por duas holandesas com este pedido. Temendo que se tratava de uma conversa armadilhada, chutei para canto.

Já por demasiadas vezes dei por mim a entrar em conversas sobre assuntos sensíveis, pensando tratar-se do género de discussão filosófica que se pode ter sobre, por exemplo, a natureza das virtudes morais no pensamento de São Tomás de Aquino. As discussões sobre temas “académicos” também podem ser acesas, estranhamente, mas costumam manter uma capa exterior de discussão desinteressada. Esse não é o caso quando o assunto é, por exemplo, o aborto.

Às vezes acontece, enquanto vamos debitando a nossa lista de argumentos mortíferos, respondendo a todas as objecções de forma socrática ou tomística, encantados pela nossa própria inteligência, que de repente ficamos com uma ideia clara – provavelmente com uns vinte minutos de atraso – de que a pessoa com quem estamos a falar já fez um aborto. Ou então ela diz-nos directamente: “Eu abortei”. Nesse ponto compreendemos, caso tenhamos algum juízo (o que não posso dizer ser o meu caso) que afinal não estamos numa discussão filosófica desinteressada; não, estamos envolvidos numa luta interna na própria alma daquela pessoa, e que é melhor andar com cuidado.

Na maior parte dos casos era importante que ambas as partes na discussão tivessem passado muito mais tempo a edificar uma relação de respeito mútuo e de confiança antes de se aventurarem nestas águas turbulentas. Não é preciso dizer as palavras “és um infanticida” para que a outra pessoa nos entenda dessa forma.

Parece-me que com a questão da homossexualidade, ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se passa o mesmo. Na maioria dos casos as pessoas de ambos os lados da barricada já investiram uma grande parte de si mesmas na questão e pode ser difícil dizer o que quer que seja sem que a outra pessoa não o entenda de forma errada. Nestas circunstâncias de rancor, dor e desconfiança é possível fazer terríveis danos numa ocasião que devia ter servido para alimentar a reconciliação e a compreensão mútua.

A ideia iluminista de que podemos simplesmente sentar-nos e pôr de lado as nossas emoções e preconceitos, discutindo estes assuntos de forma puramente racional, é uma ilusão perigosa. É importante, por isso, nessas situações, agir com grande cautela.

E foi por isso que quando estas duas jovens me abordaram, chutei para canto. Teríamos de nos conhecer melhor, expliquei-lhes; teria de haver de ambos os lados um sentimento de segurança na discussão; teríamos de estar prontos a olhar para além do que as palavras de cada um pudessem significar, para apreender as verdadeiras intenções por detrás dessas palavras; e teríamos de nos interessar suficientemente sobre os assuntos – e uns pelos outros – para termos paciência para um processo que talvez tivesse de se desenrolar ao longo de várias horas ou até semanas.

Mas afinal não era nada disso que elas queriam discutir. Afinal de contas eram ambas católicas devotas (sim, da Holanda!), que aceitavam o ensinamento da Igreja. O que queriam era falar sobre as leis da Holanda que obrigam todos os professores a ensinar aos seus alunos da primária que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é bom. Aquilo que eu pensava que iria ser uma conversa sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou, afinal, por ser uma questão sobre a liberdade de consciência e os limites do poder estatal.

Quis a providência divina que nesse dia a turma estivesse a ler “O Martírio de Perpétua e de Felicidade”, um relato escrito em larga medida pela própria Vibia Perpétua, antes de morrer no ano 203. A questão que Perpétua enfrentava era saber se deveria acender uma vela de incenso ao imperador, jurar-lhe fidelidade enquanto deus e depois prestar culto aos deuses por ele designados.

Um dos protagonistas do relato de Perpétua é o seu próprio pai, que repetidamente a aconselha a aceitar o acordo que foi proposto. Podia dizer uma coisa por palavras, mas acreditar noutra, dizia-lhe ele. As autoridades romanas não queriam saber de religião para nada, apenas de política. Eles não se interessavam em saber que Deuses se adorava, desde que se obedecesse ao imperador e aos seus representantes. Perpetua tinha um bebé, devia pensar nele, suplicou o pai. Mas ela não cedeu.

Muitos dos alunos na aula tinham visto o filme “Silêncio” de Martin Scorsese. “Porque não pisar simplesmente a imagem de Jesus?”, perguntei. “Apenas isso, alinhar, pisar. Deus não se magoa. Pode-se esconder um crucifixo no bolso, o que é que isso teria de mal?”

E você, o que teria feito na situação de Perpétua? Será que ela era uma mulher espetacular e forte que recusou ser amedrontada por homens, desde o imperador, ao governador, passando pelo próprio pai? O será que era uma tola teimosa que deveria ter aceitado a proposta que lhe foi feita? O que é que custaria acender uma vela? Deus não teria compreendido? Afinal de contas, era só uma vela.

Ou era? Se a vela era tão pouco importante, então porquê insistir que deveria ser acesa, sob pena de tortura ou morte? Talvez porque no final de contas não era só sobre acender uma vela ou pisar uma imagem, mas sim uma forma de mostrar que se aceitava a autoridade última daqueles que estão no poder. Essas pessoas não querem saber o que faz em privado, desde que mostre em público que aceita as suas vontades e concorde em submeter-se a tudo aquilo que consideram ser indispensável.

“Pensem na Perpétua”, disse-lhes. Há autoridades legítimas no Governo, e precisamos delas para nos ajudar a construir e defender o bem comum. Mas há também aqueles que apenas nos querem governar. Com estes chega-se a um ponto em que simplesmente devemos perguntar: “Que parte de mim mesmo estou disposto a submeter?”, “A que divindades me prostrarei?” e, a dada altura, “Quem é o meu Deus?”.


Não são perguntas que eu poderia responder por elas. Faz parte da dignidade da pessoa que cada um as deva enfrentar por si. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Agosto de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A Outra Europa

A semana passada, enquanto o líder do mundo livre estava ocupado a destruir o sistema americano de alianças cuidadosamente construído ou a abalar a estrutura política nacional e estrangeira para poder lidar com os desafios ambientais, dependendo dos órgãos de comunicação que vêem, aconteceu algo igualmente importante – e mais fundamental – na Hungria, que passou quase despercebido.

Fui convidado para falar no 11º Congresso Mundial para as Famílias, que decorreu em Budapeste. Mas é difícil exprimir o quão inspirador e esperançoso – e inesperado – foi o evento.

Estamos tão afundados nas nossas obsessões políticas que quase nunca ouvimos falar disso, mas há milhares de activistas e organizações de defesa da família e do casamento a trabalhar à volta do mundo. A maioria esteve presente em Budapeste a semana passada. E mais importante que tudo, fora da Europa Ocidental, da América do Norte e de países culturalmente parecidos como a Austrália e a Nova Zelândia, os países não estão de todo a seguir as modas absurdas e suicidas sobre casamento e filhos que acreditamos, falsamente, terem dominado o mundo.

A Hungria é um exemplo na própria Europa. O primeiro-ministro, o ex-dissidente soviético Viktor Orban, conseguiu inverter a tendência desastrosa de casamento e nascimentos que a Hungria, à imagem da Europa ocidental, revelava há anos. É o resultado tanto de compromissos sociais como de políticas específicas.

A Constituição da Hungria de 2011, a primeira adoptada desde que recuperou a liberdade depois da queda da União Soviética, diz o seguinte:

Artigo L (1) A Hungria protegerá a instituição do casamento enquanto união entre um homem e uma mulher, estabelecida voluntariamente, e a família como base da sobrevivência da nação. Os laços familiares basear-se-ão no casamento e/ou na relação entre progenitores e filhos. (2) A Hungria encorajará o compromisso de ter filhos.

Pode parecer um gesto vazio de sentido, tendo em conta a cultura dominante entre as elites internacionais, mas há dez anos a Hungria tinha um índice de casamento de 3,6 por mil, o mesmo que países do Sul da Europa como Itália, Espanha e Portugal. Agora está perto dos 4.75 e continua a subir.

De igual forma o índice de fertilidade na Hungria passou do mesmo que a Europa Ocidental para cerca de 1,45 – e parece estar a subir em direcção aos mágicos 2,1 necessários para garantir a estabilidade demográfica. Estas mudanças levam tempo e o Governo da Hungria reconhece que não haverá estabilidade demográfica até cerca de 2030. Entretanto foram inseridas no sistema húngaro uma série de vantagens para as famílias por forma a encorajar não só o casamento e a procriação, mas famílias com três filhos ou mais.

A recuperação de atitudes saudáveis a respeito do casamento e da família não é uma impossibilidade quando a sociedade reconhece que ambos são importantes para o bem-estar humano e para a estabilidade social, e desde que os governos nacionais não empreendam uma cruzada para os destruir.

Na verdade, a resistência da Hungria aos esforços da União Europeia para expandir o “casamento” gay tem citado a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais: “O direito de contrair casamento e o direito de constituir família são garantidos pelas legislações nacionais que regem o respectivo exercício.” As relações jurídicas são sempre complexas, claro, mas a Carta Europeia, como a Constituição americana, não dá ao Governo central qualquer jurisdição sobre o casamento e a família.

E não é só a Hungria. A Eslováquia emendou a sua constituição em 2014 e definiu o casamento da mesma forma que a Hungria. E isso foi sob um Governo socialista. Na Polónia o artigo 18º da Constituição diz: “O casamento, sendo uma união entre um homem e uma mulher, bem como a família, maternidade e paternidade, serão colocadas sob a protecção da República da Polónia”. A Roménia está a seguir o mesmo caminho.

Claro, estas não são as grandes potências da Europa. A Alemanha, França e Reino Unido – e sobretudo a distante América – são quem define, em larga medida, a agenda da comunidade internacional. Pelo menos é isso que os radicais querem que se pense sobre os poderes das Nações Unidas e outras organizações como a Organização Mundial de Saúde.

Mas vejam isto:




As áreas azuis escuras são os lugares onde o “casamento” gay é legal. Mas os países encarnados são aqueles onde é ilegal – sendo o casamento definido como sendo entre um homem e uma mulher. As áreas azuis estão no meio, tanto geográfica como juridicamente: permitem algumas formas de união “não-tradicional”, mas não as equacionam ao casamento.

De certa forma até na Europa existe divisão entre estados azuis e encarnados. Apesar de todas as acusações de que o casamento, a família, a moral sexual etc. têm sido feitos reféns por “progressistas”, isto é, radicais que não sabem bem com o que é que se meteram, mesmo na Europa decadente e em colapso demográfico existe resistência significativa.

Não deve ser por acaso que é precisamente nas periferias europeias, as partes que até há pouco estavam sob domínio comunista, que a resistência é mais forte. Elas ainda se lembram dos antigos totalitarismos e não se deixam intimidar pelos novos.

Mais, têm a vantagem de poder ver – tanto na América como na Europa ocidental – onde é que a nova ética totalitária conduz: A uma perda de fibra social e uma perda, literal, daquilo que forma uma sociedade – pais com filhos.

Claro que, por terem enfrentado esta crise de frente e por se terem recusado a aceitar refugiados muçulmanos para colmatar as falhas demográficas, têm sido acusados de esmagar os direitos dos homossexuais e de estarem a encorajar uma nova forma de nacionalismo perigoso, com tons fascistas.

Viktor Orban é pai de cinco filhos. Muitos dos seus ministros e secretários de Estado são pessoas novas com famílias grandes. E no resto da Europa central e sudeste as principais figuras políticas têm filhos, ao contrário dos líderes da União Europeia, da Alemanha, de França, Itália e Reino Unido.

Os opinadores progressistas pensam que estão “do lado certo da história”. Mas é difícil dizer o que será precisamente o futuro progressista, uma vez que não parece preocupar-se com o futuro literal de crianças e sociedades suficientemente férteis para se reproduzirem.

Do nosso ponto de vista essa forma de encarar o mundo é que passou à história, no sentido de que já pertence ao passado e não tem futuro a longo prazo. Outros modelos, mais esperançosos mas que dão menos nas vistas, estão a surgir numa variedade de lugares inesperados.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 1 de Junho de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Esposo

Pe. Paul Scalia
Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale de Cédron, até ao ponto onde havia um jardim (Jo. 18,1). Cristo, o Novo Adão, vai até um jardim para desfazer aquilo que num jardim foi feito. O primeiro Adão vivia num jardim e recebeu uma mulher. Foi lá que se revoltou contra o Pai e falhou em relação à sua mulher. Agora, o Novo Adão vai para um jardim para obedecer ao seu Pai e oferecer-se à sua Esposa. Toda a narrativa da Paixão – desde a agonia de Cristo no horto até às suas palavras finais na Cruz – é nupcial. Nela compreendemos que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef. 5,25).

As núpcias de um noivo e de uma noiva requerem votos – palavras através das quais doam a vida um ao outro, para o bem de um e de outro. Por isso o casamento de nosso Senhor começa com palavras de doação – para todos os efeitos, com um voto. Mas neste caso as palavras são dirigidas ao Seu Pai, para o benefício da Esposa: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc. 14,36). Deste modo oferece-se eternamente à sua esposa. É neste momento que se submete definitivamente à vontade do Pai. O primeiro Adão falhou a sua mulher através da desobediência. O Novo Adão conquista a sua esposa obedecendo: Seja feita a vossa vontade.

Jesus tinha antecipado este momento na Última Ceia: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc. 22,19). O dom de si próprio no casamento não é uma questão apenas de palavras, mas de corpo. O corpo é parte daquilo que somos e, por isso, é essencial no dom de si mesmo. O casamento não tem a ver apenas com bonitos pensamentos e palavras, mas com o dom de corpos, um ao outro; na geração de nova vida através desses corpos; no cuidar do corpo do outro quando o fim se aproxima. Agora, no horto, Jesus oferece definitivamente o seu corpo. O voto tem um efeito corporal. “Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra” (Lc. 22,44).

Todos os casamentos têm as suas dificuldades. O primeiro Adão foi testado pelo malévolo, que o desviou da confiança no Pai e, por isso, do amor pela sua mulher. O Novo Adão também é posto à prova – através de Judas, em quem o demónio entrara: “Apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus” (Mt. 26,47). O demónio, cujas anteriores tentações tinham sido mal sucedidas, encontra aqui o seu “tempo oportuno”. Ao infligir dor, humilhação ridicularização e morte, procura separar Jesus da vontade do Pai e da sua Esposa. Mas será novamente derrotado através da simples confiança e obediência: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 24,46).

Todos os casamentos exigem sacrifício – a vivência dos votos na vida real. As palavras pronunciadas no altar, no dia do casamento, são vividas diariamente através de actos de amor sacrificial, pequenos e grandes. Por isso, a Paixão de nosso Senhor, não é mais do que o vivenciar do seu voto no jardim. Os espancamentos, interrogações, ridicularizações… a flagelação e a coroação de espinhos… o carregar da Cruz e a crucificação. Que são estas coisas se não o viver dos votos? Estão todas implícitas no dom de si mesmo. Assim, no cume do seu sacrifício ele grita que o voto está completo, cumprido, vivido ao máximo. O termo usado é perfeitamente nupcial: “Consummatum est – Está consumado” (Jo. 19,30).

O sacrifício de Cristo, que hoje recordamos [este artigo foi publicado originalmente na Sexta-feira Santa] é a cura de todos os nossos pecados e ilumina toda a nossa escuridão. Dada a confusão que actualmente reina sobre o casamento, porém, devemos compreender o sacrifício como sendo particularmente de Jesus, esposo da Igreja, quem restaura o sentido original do casamento e, através da sua graça, permite aos casais viverem-no (Catecismo da Igreja Católica #1614).

Dito de forma mais simples, a morte do Senhor revela como o casamento deve ser vivido. O seu voto e sacrifício são o padrão para a vida de casado. Os votos que a noiva e o noivo fazem no dia do casamento formam o compromisso de darem as suas vidas – tal como nosso Senhor se comprometeu a dar a sua. As suas vidas de casados devem ser a vivência desse dom – tal como o sacrifício do Senhor foi a vivência do seu voto. Que são todos os pequenos sacrifícios e dificuldades se não o viver dos votos? Os casamentos prosperam e trazem felicidade unicamente na medida em que têm a Cruz do Senhor por modelo.

O dom do seu corpo – na sala da Última Ceia, no horto e na Cruz – recordam-nos aquilo que a nossa cultura preferiria esquecer: A verdade do corpo humano. A contracepção e a esterilização deram início à rejeição do sentido do corpo. Agora, vemos os frutos maduros na “ideologia do género”, que afirma que o meu corpo não sou eu e não tem qualquer significado. Que a nossa adoração do seu corpo crucificado ajude a curar esta maleita.

Na sua Paixão o Senhor mostra ainda a forma simples de ultrapassar as dificuldades do casamento: Obediência à vontade do Pai. Essa simples virtude não lhe permite evitar os desafios, mas triunfar neles. Talvez tenhamos o hábito de complicar demasiado as coisas. Uma obediência confiante na verdade do casamento – permanente, fiel, geradora de vida – permite a um casal não só ir ultrapassando as dificuldades, mas triunfar nelas. É um caminho simples – mas não fácil – que demasiadas pessoas ignoram.

Isto não é apenas para casais casados, mas para todos os fiéis: “Toda a vida cristã é marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja” (CCC 1617). Todos os fiéis beneficiam de casamentos bem vividos – casamentos que obtêm um aumento de graças para a Igreja e que apontam para além deste mundo, para as núpcias do Cordeiro. Nisto, como em tudo, Cristo o Noivo revela a Cruz como spes unica – a nossa única esperança.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 4 de abril de 2017

Papa tira do tesouro coisas antigas e coisas novas

A saga da procura da reconciliação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (vulgos lefebvrianos) continua. O Vaticano deu mais um passo, tomando medidas para que os casamentos celebrados no contexto da Fraternidade sejam considerados lícitos.

Neste mesmo dia o Papa sublinhou a importância do documento Populorum Progressio, de Paulo VI, um marco no campo da justiça social e do desenvolvimento.


António Costa esteve na Renascença esta terça-feira para ser entrevistado. Sobre a eutanásia diz que não sabe como votaria se fosse deputado. Da minha parte insurgi-me em artigo de opinião no blogue contra frases do género “é preciso um debate sério e sereno” ou “ainda não é tempo de discutir isto, há questões económicas mais importantes”, etc. Leiam e discutam.

Um convite, antes que se metam as férias da Páscoa, Thereza Ameal vai apresentar o seu livro “Querido Deus” no dia 19 de Abril às 17h30, na Obra Social Paulo VI, no Campo Grande. Apareçam e divulguem, que a autora certamente agradece!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sinai(s) de perigo e os mercadores do Santuário

Ui... Em Fátima seria um festival!
Ontem o Papa Francisco criticou as pessoas que dizem que são católicas mas depois agem de forma desonesta no trabalho, ou metem o lucro acima da ética. Hoje soubemos que em Fátima alugam-se espaços para dormir em saco de cama por mil euros por noite. Dizias, Francisco?

O pastor adventista que ontem foi detido por abusos sexuais afinal foi destituído do seu cargo antes de terem começado a circular os boatos sobre esses mesmos abusos. Uma fonte próxima da igreja deu hoje mais alguns detalhes sobre esta triste história.

O Papa Francisco voltou hoje a falar sobre a questão do casamento e do divórcio, enfatizando que justiça e misericórdia são sinónimos aos olhos de Deus.

Do Egipto chega a notícia dramática de uma vaga de assassinatos de cristãos na difícil região do Sinai. Já morreram sete, a comunidade está a fugir.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Trump quer católicos e papa condena "estrábicos"

Esta segunda-feira ficou marcada pelo histórico acordo de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC. O secretário de Estado do Vaticano, que dentro de alguns dias estará em Portugal, esteve presente no momento da assinatura.

Dentro de menos de uma hora começa o debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Os dois estão empatados nas sondagens, mas Trump quer mais votos católicos e contratou dezenas de católicos conservadores, incluindo alguns que assinaram uma carta aberta contra ele em Março, para o aconselhar.

Durante o fim-de-semana o Papa recordou a morte de dois padres mexicanos, raptados e assassinados, e encorajou a Igreja daquele país que está a travar um braço-de-ferro com o Governo sobre o casamento homossexual.


Na véspera, Francisco esteve com familiares de vítimas do atentado de Nice e disse que a única forma de combater o ódio demoníaco é através do amor e do perdão.

Se é daquelas pessoas que pensa que os jornalistas são todos contra a Igreja, então saiba que o porta-voz da Conferência Episcopal de Espanha não concorda consigo…

A semana passada publiquei um artigo brilhante de Anthony Esolen no The Catholic Thing em Português. O autor lamenta o triunfo da ideologia sobre a busca da verdade e termina parafraseando São Paulo. Vale mesmo a pena ler.

E termino com um desafio para todos os educadores de infância. Vai haver uma peregrinação a Fátima, dirigido a todos os que trabalham com crianças até aos 6 anos. A data limite de inscrição é 30 de Setembro, portanto apressem-se! Todas as informações nas imagens por baixo.



quinta-feira, 7 de abril de 2016

Lei anti-gay ou pró-liberdade de consciência?

Governador Phil Bryant
Discriminador ou defensor da
liberdade de consciência?
Tenho visto várias pessoas a manifestar revolta pela aprovação de uma lei no Mississippi, nos EUA, que, segundo a imprensa “permite a discriminação contra homossexuais”.

Eu, se me fiasse no título, também ficaria revoltado. Mas não me fio nas manchetes porque sei que estes assuntos raramente são assim tão simples.

Ninguém pense que com esta nova lei uma gelataria pode recusar servir gelados a uma pessoa simplesmente porque é homossexual. Os artigos da lei são claros e pretendem evitar situações que têm surgido nos Estados Unidos nos últimos anos, como por exemplo: 

- Pastelarias que foram multadas por se recusarem a fazer bolos para casamentos homossexuais, ou fotógrafos por se recusarem a trabalhar nesse tipo de evento. O que está em causa aqui não é discriminação contra homossexuais, mas a recusa em participar num evento que atenta contra as suas consciências. Se dois homossexuais tivessem pedido um bolo de anos, ou umas flores para enfeitar a casa, isso não seria um problema. Por isso, como é evidente, o problema não está nem na pessoa nem na orientação sexual mas sim no acto do casamento.

- Escolas, Igrejas, instituições de carácter religioso etc. que podem ter muitas razões para não querer contratar alguém que professa valores ou vive publicamente de uma forma que choca com os valores da instituição.
Para dar um exemplo, eu compreendo que uma escola católica prefira não contratar para trabalhar na cantina, à vista das crianças, um travesti que insiste em ir vestido de mulher para o trabalho apesar de ser um homem; ou um professor que decidiu casar com outro homem, numa cerimónia pública, e insiste em falar disso à frente dos alunos como se fosse uma coisa boa. É uma questão de respeito pelos valores da instituição, como o professor em causa deve compreender.
Para tornar o exemplo mais próximo, se amanhã o Sporting me contratasse para fazer tradução simultânea numa conferência, e eu aparecesse com camisola do Benfica, compreenderia que me mandassem embora.

- Escolas ou outras instituições que não querem permitir que alunos do sexo masculino usem os balneários femininos apenas porque se "identificam" como raparigas. Parece absurdo? Está a acontecer e não é só um caso. A lei menciona especificamente isso.

- Pessoas que alugam quartos ou casas e preferem, por razões morais, não o fazer a casais homossexuais e/ou casais heterossexuais não casados.

- Agências de adopção que, independentemente de a adopção por homossexuais ser legal ou não, recusam colocar crianças com casais homossexuais ou não casados. A verdade é que se existisse uma lei destas no Reino Unido talvez não tivessem sido encerradas TODAS as agências de adopção católicas em Inglaterra e na Escócia.

Quero apenas deixar muito claro, porque me parece fundamental, que existe uma grande diferença entre recusar um serviço a alguém simplesmente porque é homossexual – o que me parece absolutamente condenável – e recusar tomar parte activamente numa cerimónia ou num ritual que atenta gravemente contra a consciência. Esta lei, a meu ver e tendo-a lido, procura não consagrar a discriminação contra os homossexuais ou quaisquer outros, mas sim proteger o direito à objecção de consciênciade prestadores de serviços e funcionários públicos.

Não me surpreende que alguns órgãos de imprensa apresentem isto como um acto de discriminação, mas é pena e não me parece que contribua para um debate racional.

Repito que li a lei e, sinceramente, não me parece que haja nela margem de manobra para fazer discriminação pura, tipo rejeitar um cliente num restaurante porque não gostamos da roupa que tem vestido, mas como não sou jurista não posso garantir que alguém não tente invocar esta lei para fazer precisamente isso. O que posso dizer, tendo acompanhado o debate, é que a lei não tem esse objectivo e espero muito sinceramente que isso não aconteça.

Se mesmo assim não estão convencidos, convido-vos a ler o documento por completo, como eu fiz agora, e que me digam com base nessa leitura quais as vossas objecções.

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