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Thursday, 4 January 2024

Os esclarecimentos sobre o documento que não teria esclarecimentos

Cardeal Victor Manuel Fernández

Todos terão reparado que há cerca de 15 dias o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou uma declaração a dizer que as pessoas em uniões irregulares, incluindo homossexuais, podem pedir bênçãos à igreja, nomeadamente aos seus ministros, mas que essas bênçãos não podem ser confundidas com um casamento nem pretendem legitimar as situações. Interessantemente, o documento fazia questão de dizer que os fiéis não deviam esperar qualquer tipo de esclarecimento adicional. Fiz a minha leitura do documento em vários locais, podem consultar aqui.

Desde então, não só o presidente do Dicastério se viu obrigado a dar várias entrevistas para tentar explicar melhor o documento que não precisaria de esclarecimentos adicionais, como hoje o Dicastério publicou um comunicado de imprensa para esclarecer ainda mais o documento que dispensava esclarecimentos adicionais. Chama-se a isto controlo de danos. Virá a tempo?

Como bom comentador, já levei porrada dos dois lados. Alguns críticos, incluindo bons amigos, acusaram-me de “Popesplaining”, isto é, de estar a fazer contorcionismo para tentar procurar a leitura mais benigna possível do Fiducia Supplicans, enquanto outros acharam, no texto que escrevi no blog e no Expresso a dar conta de como a declaração estava a causar divisões, que estava com isso a criticar o Papa e a própria ideia de dar bênçãos a homossexuais.

Deixem-me então, se é que interessa, expressar a minha opinião. Eu acho evidente que pessoas homossexuais, estejam ou não em uniões, bem como outras pessoas em uniões irregulares, podem e devem pedir e receber bênçãos à Igreja e aos seus ministros. Concordo plenamente com o texto quando este diz que esses pedidos, na maior parte dos casos, representam uma sede de aproximação de Deus e do Evangelho, e que as bênçãos devem ser entendidas como auxílio nessa caminhada, e não como sacralização do estado de vida de quem quer que seja.

Acredito – não só em teoria, mas por experiência pessoal de convívio próximo com pessoas nessas situações – que tal como os indivíduos não são a soma dos seus pecados, uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo, ou entre duas pessoas que não se encontram validamente casadas, não se resume às suas dimensões pecaminosas, ou “irregulares”, embora estas possam existir. Todos os laços de amizade e de amor, ainda que seja um amor que não compreendamos ou que não consideramos equivalente ao que é consagrado no matrimónio cristão, têm dimensões positivas de entreajuda, de apoio mútuo, de amizade, de projectos de vida em comum, que podem e devem ser nutridos para crescerem e se desenvolverem da melhor maneira. Dito isto, no que diz respeito aos homossexuais, eu teria evitado usar a palavra “casais” na declaração, precisamente porque acredito que gera e promove precisamente a confusão que o texto diz querer evitar.

Uma porta aberta ou uma gaffe desnecessária

A pergunta que se impõe, a meu ver, é se esta declaração era necessária. Há quem diga que sim, porque aquilo que eu e outros consideramos evidências não as eram para todos. Haveria padres e bispos que se recusariam a abençoar um homem só porque estava numa relação homossexual, por exemplo. Acredito que sim, mas sinceramente parece-me que aquilo que a declaração urge era já prática mais que habitual.

Convence-me mais a ideia de que o Papa queria, com esta declaração, dar mais um sinal às pessoas em uniões irregulares de que se devem aproximar da Igreja, que as portas estão abertas, e que as coisas que nas suas vidas estão em dessintonia com o Evangelho devem ser resolvidas dentro da Igreja, e não fora, como se só os perfeitos e imaculados pudessem ter acesso à mesma.

O problema é que, se era essa a intenção, o resultado acabou por ser, em larga medida, contrário. A reacção causada pelo texto – quer pela ambiguidade que contém, quer pela que alguns fizeram os possíveis para encontrar – acabou por passar o sinal de que a Igreja Universal está dividida sobre os méritos de dar bênçãos a pessoas cuja vida não encaixa na perfeição sugerida. Isto passa tudo menos uma imagem de porta aberta.

Alguns temiam que o documento passaria a ser substituído por um vago e etéreo “espírito do Fiducia Supplicans” que passaria a justificar a bênção de facto, litúrgica, de uniões irregulares. Seria contrário ao texto da declaração em si? Sim, seria. Mas isso não seria impedimento para o exagero de alguns pseudo-iluminados. Se acho que esta preocupação é legítima, também acho que a sucessão de intervenções e, agora, este comunicado da Santa Sé, mostram claramente que esse não é um propósito disfarçado do Papa ou do prefeito do Dicastério.

Fortaleza v. Hospital de Campanha

Depois há o problema do timing. Porquê lançar esta declaração precisamente numa altura em que a civilização cristã parece estar a travar – e a perder – uma guerra contra as ideologias que promovem a homossexualidade e as siglas-alfabeto? Não se trata de uma concessão ao espírito dos tempos?

O problema com esta ideia é de que parte do pressuposto do conflito, a famosa guerra cultural. A Igreja contra o mundo. A Igreja fortaleza. Se há alguma coisa que o Papa tem demonstrado durante o seu pontificado é de que essa não é uma visão própria para os cristãos. Não somos a Igreja entrincheirada, somos a Igreja hospital de campanha, e as hordas que nos batem à porta, ainda que professem ódio a tudo o que somos e defendemos, não são inimigos a abater, mas vítimas estropiadas de uma cultura individualista e niilista, uma cultura de morte. Somos chamados a ajudá-las, a não a derrotá-las.

Visto desta perspectiva, não havia melhor altura para este gesto de boa-vontade. O que não implica que o gesto tomasse esta forma. Pessoalmente acho que teria sido muito mais útil, e bem mais ao estilo do Papa, fazê-lo de forma informal, em conversa ou entrevista, ou ter tomado mesmo a iniciativa de dar uma destas bênçãos não litúrgicas. Acredito que causaria bem menos polémica do que uma declaração definitiva que afinal não é tão definitiva assim.

O que temos agora é um ciclo de explicações e esclarecimentos, com o prefeito para o Dicastério para a Doutrina da Fé a ver-se na situação de ter de publicar um comunicado a explicar que a sua mais recente declaração não é “herética, contrária à Tradição da Igreja ou blasfema”. Não é uma posição confortável para o guardião da ortodoxia, resta ver se não é pior a emenda que o soneto.

Wednesday, 4 October 2023

Papa autoriza bênçãos a uniões homossexuais? Calma aí…

Sempre que o Papa diz alguma coisa ligada a um assunto minimamente polémico, é certo que acontecerão duas coisas. Primeiro virão pessoas – frequentemente jornalistas e activistas – dizer que o Papa acaba de virar de pernas para o ar a posição da Igreja Católica sobre o assunto; e logo de seguida vêm pessoas explicar que o Papa não disse nada daquilo, e se disse não devia ter dito, ou que é indiferente, porque ele não o poderia dizer de qualquer maneira.

O que raramente vemos é tempo de antena dado a interpretar as palavras do Papa de forma correcta e ponderada.

É certo que com o Papa Francisco a questão põe-se mais vezes, até porque ele tem o hábito de se pronunciar de forma mais espontânea sobre tudo o que lhe perguntam, e também – há que ceder este ponto aos seus mais ferozes críticos – porque tende a formular as suas posições de forma ambígua, permitindo diferentes interpretações. Mas também é verdade que aconteceu o mesmo, e mais que uma vez, com o Papa Bento XVI.

A mais recente questão tem a ver com as bênçãos para uniões homossexuais.

Vamos então aos factos. Um grupo de cardeais endereçou ao Papa Francisco uma série de questões, vulgo “dúbia”, incluindo uma pergunta sobre se a prática “generalizada” de abençoar uniões homossexuais está de acordo com o magistério da Igreja Católica.  

Em resposta, o Papa disse que para a Igreja o casamento é entre um homem e uma mulher, e que por isso a Igreja se opõe a qualquer prática ou bênção que possa gerar confusão sobre esse assunto. Isto parece claro.

Mas a resposta prossegue, apelando à caridade pastoral quando se lida com pessoas. “A defesa da verdade objectiva não é a única expressão dessa caridade, que também é composta de bondade, paciência, compreensão, carinho e encorajamento. Logo, não podemos tornar-nos juízes que apenas negam, rejeitam e excluem”.

Diz ainda que, por esta razão, é necessário exercer prudência pastoral para determinar “se existem formas de bênçãos, solicitadas por uma ou mais pessoas, que não transmitem um conceito errado de casamento. Porque quando uma bênção é solicitada, isso expressa um pedido de auxílio de Deus, um desejo de poder viver melhor, confiança num Pai que nos pode ajudar a viver melhor”.

Por fim, diz a resposta, “embora existam situações que, de um ponto de vista objectivo, são moralmente inaceitáveis, a caridade pastoral requer que não tratemos como pecadores pessoas cuja culpa ou responsabilidade possa ser atenuada por vários factores”.

Bênçãos há muitas

A primeira conclusão que podemos tirar é que é muito exagerado dizer que o Papa está com isto a reverter a posição tradicional da Igreja sobre bênçãos a uniões homossexuais. Não há nada nesta resposta que indique que a união em si pode ou deve ser objecto de uma bênção. Pelo contrário, na medida em que tal bênção necessariamente implicaria uma confusão com o casamento, isso deve mesmo ser evitado.

Mas o Papa vai mais longe e diz que outra coisa são bênçãos solicitadas por pessoas – seja um, ou um par – que são homossexuais e estão numa união homossexual. Ou seja, é possível abençoar duas pessoas que estão numa relação, sem estar a abençoar a própria da relação.

Vejamos alguns exemplos hipotéticos. Dois homens homossexuais que estão numa relação e estão prestes a fazer uma viagem juntos, pedem a um padre uma bênção para a viagem. O padre pode dar essa bênção, até em conjunto, sem que isso implique, ou seja entendido como, uma bênção aos dois enquanto casal, ou o abençoar de tudo o que se passa na sua relação.

Mais, imaginemos que dois homens que estão numa relação homossexual decidem acolher em sua casa crianças com deficiência, com o sentido de missão de dar a essas crianças um lar onde possam sentir o amor de uma família, e que pedem a um padre uma bênção para esse empreendimento. O padre pode dar essa bênção, como abençoaria outras duas pessoas que se estão a dedicar a uma missão de ajudar os mais frágeis e vulneráveis, sem que passe pela cabeça de ninguém que ele está a dar luz verde ao que se passa na intimidade do quarto daqueles dois homens.

O mesmo se poderia aplicar se em vez de dois homens falássemos de um casal, homem e mulher, que vivem juntos, mas não são casados, talvez por um deles ser divorciado.

No fundo, o Papa está a dizer que todos temos fragilidades e pecados, e que uma bênção, seja por que razão for, não deve ser entendida como a validação ou o encorajamento desse nosso pecado ou fragilidade, mas sim como uma ajuda para o nosso crescimento espiritual e constante conversão. Se fosse necessário estarmos todos em estado de graça e impecabilidade para recebermos bênçãos, então as bênçãos pouco nos acrescentariam.

A Igreja continua a ter um ideal para a humanidade, mas não afasta de nós o seu auxílio só porque não estamos ainda nesse ideal, da mesma forma que não se deve mostrar condescendente com essas fraquezas ou fragilidades, antes ajudando-nos a ultrapassá-las, compreendendo, todavia, que todos estamos em diferentes fases de conversão e crescimento, e por isso não se pode nem deve colocar a mesma exigência a todos, indiscriminadamente.

Por isso não, o Papa não diz que se possa abençoar “uniões” homossexuais, mas isso não significa que pessoas que estão em uniões homossexuais não possam pedir bênçãos para as áreas mais variadas das suas vidas, seja pessoais, seja em conjunto. A isso chama-se cuidado pastoral, a arte de acompanhar espiritualmente as pessoas partindo do lugar, tempo e estado em que estão, e não de exigir que estejam primeiro onde achamos que deviam estar antes de lhes estendermos a mão.

Wednesday, 21 June 2023

Amor Real e Irreal

Stephen P. White

Há muitos anos, quando eu e a minha mulher estávamos noivos, fizemos um teste chamado “FOCCUS Inventory”, que é uma espécie de prova de compatibilidade que a diocese exige a todos os jovens casais que se estão a preparar para o matrimónio. O objectivo do exercício, se bem me lembro, era identificar áreas de potencial conflito ou desacordo entre os futuros marido e mulher, para que a fonte de fricção, ou de potencial fricção, pudesse ser abordado antes, e não depois, de se casarem.

O casamento é muito mais (e por vezes muito menos) do que aquilo que dois jovens possam imaginar. Não é mal pensado identificar de antemão alguns dos elementos mais mundanos, mas não menos importantes, da beleza do casamento. Nem que seja para dar ao sacerdote alguma ideia das rochas submersas que se encontram no caminho, ainda que o casal se mantenha obstinadamente ingénuo.

Fizemos o teste separadamente e depois encontrámo-nos com o pároco para rever os resultados. Ele recordou-nos que o teste é essencialmente um diagnóstico. Não existem respostas “correctas” ou “erradas”, assegurou-nos, apenas respostas que podem apresentar ocasião para uma reflexão, consideração e conversa mais aprofundadas. Só que, estávamos prestes a descobrir, afinal havia respostas erradas.

Muitas das perguntas na prova eram sobre o tipo de consideração prática que poderia facilmente passar despercebida a um par de jovens apaixonados: Quem vai tratar das finanças? Já conversaram sobre como os filhos podem afectar os planos de carreira para um ou ambos? Espera que o seu futuro esposo mude depois de se casar?

Acontece que eu e a minha mulher respondemos de forma diferente a essa última questão. Ela, tão querida, respondeu “não”, o que obviamente é a resposta correcta. As pessoas que se casam com alguém que desesperadamente esperam que se transforme noutra, estão a preparar-se para uma grande desilusão. Raramente é isso que acontece.

Como já devem desconfiar, eu respondi “sim”. Sirenes. Não só tinha dado uma resposta diferente, mas neste teste sem respostas erradas eu tinha claramente dado a resposta errada. O Sr. Prior ficou com um ar muito sério, um olhar de preocupação.

“Precisamos de conversar sobre isto. Stephen, porque é que esperas que ela mude?”. Via-se na cara da minha noiva que ela queria fazer uma pergunta semelhante, embora me pareça que ela a teria posto noutros termos.

Respondi com outra pergunta: “Se o objectivo do casamento é ajudar-nos a crescer em santidade, para que cada um ajude o outro a chegar ao Céu, então de que serve o sacramento se nos deixa iguais ao que somos agora?”

O prior suspirou, teceu um sorriso irónico, e comentou: “Não é isso que eles querem dizer com a pergunta”.

Não pude deixar de ripostar: “Pois devia ser. E seja como for, é isso que eu quero dizer com a minha resposta”.

Agora foi a vez de ela, a minha bela noiva, suspirar. Ela não estava sob qualquer ilusão, sabia muito bem que se ia casar com um espertalhão. Graças a Deus para mim, e como já vimos, ela tinha todas as expectativas de que eu seria assim para sempre. E ainda assim avançou.

O objectivo desta história não é mostrar-vos que a minha mulher é paciente e compreensiva, ou pelo menos não é esse o único objectivo. O drama de cada vida humana passa-se entre a pessoa que somos e a pessoa em que nos estamos a transformar. Estamos todos algures no meio. Arriscamos o desastre se não aspirarmos a ser mais do que somos – se não esperamos, rezamos e trabalhamos para mudar, para nos convertermos, para nos tornarmos cada vez mais a pessoa que somos chamados a ser.

Ao mesmo tempo, esta ideia de “a pessoa que eu devo ser” pode tornar-se também uma ilusão. É tão fácil como é perigoso apaixonar-se por uma ideia, seja uma versão idealizada de nós mesmos ou de outros. É um hábito peculiarmente humano ver nos outros aquilo que desejamos ver, e de acreditar naquilo que queremos que seja verdade. É curioso como o coração humano pode estar tão ansioso de acreditar que os seus desejos sejam verdade.

As amizades e os amores mais verdadeiros não são forjados a partir de ideais puros ou de meras ligações mundanas. Somos corpo e alma, e a exaltação de um acima do outro ao ponto de os separar invariavelmente conduz à destruição de ambos. O homem que ama a “humanidade” pode facilmente não amar o seu vizinho. O que ama aquilo que é seu – ele próprio, ou a sua tribo – acima de, e contra todos os outros, acaba por diminuir ambos.

A amizade humana não existe como abstracção. A ideia da amizade não é um amigo. E a ideia da família ou da nação não substitui essas realidades. Mas o homem também não se pode tornar ele mesmo se o seu coração nunca for para além da sua própria carne e vida.

Uma das passagens mais citadas do Concílio, da Gaudium et Spes tantas vezes citada por João Paulo II, chega ao cerne da questão:

Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n'Ele a sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude.

Compreender isto é compreender o mundo como ele realmente é. É aprender a diferença entre o amor real e irreal. Tanta da nossa história tem sido uma derrapagem contínua entre o materialismo e o idealismo. No centro, pode-se dizer, encontra-se o Deus Homem, Cristo Encarnado, mantendo toda a criação em conjunto. Nele, começamos a fazer sentido para nós mesmos. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Junho de 2023)

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Wednesday, 26 April 2023

Os Votos da Minha Liberdade

Peter Laffin

Cerca de uma hora antes do meu casamento aconteceu uma coisa impressionante. Um dos meus padrinhos levou-me a mim e a outro padrinho para uma sala vazia da casa onde nos estávamos a arranjar. Depois, estendeu as mãos, inclinou a cabeça e conduziu-nos em oração. Era, e é, um grande amigo, mas era a primeira vez que eu o via a rezar. A voz deste evangélico não praticante tremeu com doce incerteza enquanto invocou sobre nós a bênção de Deus. Foi um momento inesquecível.

Rezámos o Pai Nosso e fomos para o carro que nos levaria até à Igreja. Sentei-me no lugar do passageiro e observei as quintas e os campos a passar debaixo de um céu prateado. A enormidade dessa viagem – a última da minha vida de solteiro – incendiou as cores desta zona rural de Nova Inglaterra.

Ocorreu-me então que eu era total e completamente livre. Foi uma sensação peculiar e estranha, uma vez que se tratava do oposto daquilo que a cultura me tinha condicionado a esperar deste momento. Como noivo a caminho do altar, era suposto estar apreensivo com a perspectiva de perder a minha “liberdade”. Mas enquanto estava a ser conduzido rumo à ocasião do meu cativeiro matrimonial – no qual me seria colocada a “corda ao pescoço” – tudo o que sentia era a mais pura das libertações.

Tendo sido criado na América nos finais do século XX, tinha sido sobretudo influenciado pela interpretação secular-liberal da palavra “liberdade”, que mais do que ser diferente do entendimento católico, é mesmo antitético. Costumamos brincar, dizendo que os nossos irmãos seculares e liberais falam uma língua diferente da nossa. Mas olhando mais de perto, vemos que é mesmo isso que acontece, até quando usamos exactamente as mesmas palavras.

Há um exemplo famoso deste fenómeno perto do final do maior dos romances de Evelyn Waugh, Reviver o Passado em Brideshead. O narrador, um artista agnóstico chamado Charles Ryder, escarnece da ideia de se ter chamado um padre para visitar o Lord Marchmain, que está moribundo. “Não o podem sequer deixar morrer em paz?”. Julia, a filha de Marchmain, com quem Ryder tem estado a ter um caso adúltero, responde de forma triste: “Eles querem dizer algo tão diferente com a palavra paz”. A visão secular de “paz”, expressada por Ryder, significa pouco mais do que não ser maçado. Mas, para os católicos, “paz” é um estado objectivo, e não uma emoção fugaz.

Há muitos outros exemplos. Mas talvez a maior das divisões seja precisamente sobre o significado da palavra “liberdade”. De acordo com a interpretação secular-liberal, ser livre significa ter o máximo de opções e mínimo de responsabilidade pessoal. Assim, a liberdade conquista-se escapando dos confins da vida normal imposta pela necessidade de ganhar dinheiro para suportar uma família. Só aí é que se torna possível dedicar tempo e energia a objectivos ostensivamente mais satisfatórios.

Esta é a visão firmemente proposta pela comediante progressista Chelsea Handler num vídeo recentemente lançado e que se tornou viral nas redes sociais. O sketch de cerca de dois minutos detalha um dia na vida de uma mulher sem filhos cuja “liberdade” assenta em não ter miúdos para levar para a escola, ou para controlar no supermercado. Assim, a personagem de Handler é “livre” de dormir até ao meio-dia, drogar-se, ter sexo com estranhos e “meditar”.

Seria difícil, ou mesmo impossível, exprimir de forma mais concisa o contrário daquilo que é o entendimento católico de liberdade.

Isso é porque, ao contrário do que pensa a mente moderna, o conceito católico de liberdade consiste em assumir cada vez mais responsabilidade, e não em fugir dela. Na visão secular, a liberdade perfeita encontra-se algures numa ilha tropical remota onde pessoas “livres” bebem cocktails chiques até ao final dos tempos.

Em contraste, para os católicos, a verdadeira liberdade encontra-se nas ruas de Calcutá, onde Missionárias da Caridade dão-se inteira e livremente às almas mais pobres da terra. Escusado será dizer que a diferença é significativa.

Não é que haja qualquer problema em um católico apreciar cocktails numa ilha deserta, mas isso podem ser férias católicas, nunca uma vida católica. E não é porque os católicos são uns chatos, mas porque eles ficariam aborrecidos até à morte com esse tipo de vida. Onde não existe responsabilidade não existe liberdade para perseguir os aspectos mais significativos da vida.

A vida interior de um católico comprometido – um que se submeteu heroicamente à aventura da santificação – é uma montanha russa para a alma.

A vida hedonística, pelo contrário, em que não existe outro propósito para além da satisfação própria, parece-nos triste e vazia. Mais uma ilusão do que uma vida.

Em retrospectiva, a razão pela qual me senti tão livre a caminho do meu casamento é evidente: Ao escolher dar-me completamente (e de forma impensada), estava a experimentar as emoções próprias de uma grande aventura. A viagem seria desafiadora – o meu director espiritual, o padre Peter Mussett, de Boulder, Colorado, assegurou-me várias vezes de que o casamento exigiria tudo de mim.

Mas isso só tornou a perspectiva mais atraente. Eu queria dar tudo para algo maior do que eu, porque queria ser livre. Talvez o desejo mais natural do ser humano seja o de se doar totalmente em amor. Qualquer coisa menos que isso é uma frustração para a alma.

Eis a grande verdade da Cruz, que, em tempos modernos, se tornou um segredo tragicamente escondido: que a nossa liberdade está directamente relacionada com o quanto nos oferecemos.

A qualquer jovem que esteja em busca da verdadeira liberdade e que tenha ouvidos para ouvir, que os vossos anciãos católicos falem com uma só voz: Para ser livre, encontrem alguém a quem possam amar com todo o coração e que seja capaz de vos amar de volta. E quando o tiverem feito, esvaziem-se de forma impensada, dêem tudo o que tiverem pelo casamento e pela família, ou pela vocação, e verão que miraculosamente a vossa taça transbordará para sempre.

Não faz qualquer sentido, mas não é suposto. É só suposto ser verdade. E é. E libertar-vos-á.


Peter Laffin escreve de New England. O seu trabalho mais recente encontra-se no The Catholic Thing, The Washington Examiner, e The National Catholic Register.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 19 de Abril de 2023)

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Wednesday, 30 November 2022

O Senhor da História

Pe. Paul Scalia
A discussão em torno da proposta de lei do suposto “Respeito pelo Casamento” voltou a colocar o assunto do casamento homossexual na agenda mediática e, juntamente com ele, o lema “O lado certo da história”. Esse mantra é uma forma inteligente de obrigar as pessoas a aceitar uma ideia política ou uma agenda social. Ou se concorda com a proposta em cima da mesa, ou estamos do lado errado da história. Não há pior forma de pressão social. Ninguém gosta de se sentir deixado de parte, mas estar do lado errado da história? Ora aí está uma proposta assustadora.

Na verdade, esta expressão encapsula a visão errada da história que a nossa cultura abraça. Nomeadamente, a ideia de que se trata de uma evolução da humanidade em constante melhoramento; de que toda a história se dirige rumo à perfeição. É evidente que temos assistido a progresso em determinadas áreas. Quase que erradicámos certas doenças. Temos formas extraordinárias de comunicação e de transporte. A câmara do novo iPhone é incrível, etc..

O problema está em pensar que o mesmo se aplica a nós mesmos e à nossa sociedade. Presumimos que, tal como a nossa tecnologia, também nós estamos constantemente a melhorar, através dos nossos próprios esforços e criatividade. Assim, a história não é mais do que uma marcha rumo à perfeição humana. Quem discorda está do lado errado, não apenas da discussão, mas da história.

Claro que todo o conceito é terrivelmente ingénuo. Sim, temos conseguido grandes avanços no ramo da ciência, da tecnologia e da medicina. Mas para que é que os usamos? Para o bem, em alguns casos, e para o mal, noutros. Por mais que tenhamos avançado em determinadas áreas, ainda temos a mesma capacidade para o mal que tinham os nossos antepassados e esse mal não é algo do qual nos possamos libertar apenas com os nossos esforços.

Outro problema é que os líderes tendem a estar sempre com muita pressa para chegar ao lado certo da história. E isso até faz sentido. Se é esse o objectivo final, porquê esperar? Nada se deve meter no caminho. Assim vimos que durante a Revolução Francesa o Reino do Terror guilhotinou todos aqueles velhacos que não prestavam culto à República e ao Culto do Ser Supremo. Lenin e Stalin correram atrás do paraíso dos trabalhadores, à custa de milhões de vidas dos seus próprios cidadãos. A mortandade provocada por Mao Tsé Tung conseguiu ser ainda maior que o Grande Salto em Frente. Chegar ao lado certo da história tem um grande custo em sangue.

Esta visão da história também escraviza espiritualmente e intelectualmente as pessoas. Uma vez que o lado certo da história está sempre no futuro, nada do passado tem valor. Qualquer apelo à história ou à tradição, à sabedoria do passado, é proibido. As estátuas devem ser removidas, a história purificada, os nomes das ruas e das escolas alterados.

Mas esse tal futuro nunca chega. É sempre uma utopia, mesmo para lá do horizonte. Claro que os líderes não têm qualquer interesse em que esse momento perfeito chegue, porque aí perderiam os seus trunfos. Então as pessoas são roubadas quer do seu passado, quer do seu futuro. Sem tradição que os alimente, nem futuro realístico por que esperar, tornamo-nos órfãos do imediato.

E o que é que isto tem a ver com o Primeiro Domingo do Advento?

O ponto de viragem da história
É que a Igreja tem uma visão radicalmente diferente da história. Nós não acreditamos que o momento mais importante esteja nalgum futuro “lado certo”. Acreditamos que o ponto de viragem da história está no evento passado, para o qual agora nos preparamos agora: o nascimento de Cristo. Tudo o resto ou estava a convergir para aí, ou parte daí. Aquilo por que ansiamos no futuro, no final dos tempos, não é uma coisa nova mas a plenitude, o desvendar, de tudo o que começou com o seu nascimento.

Nem estamos propriamente à espera que as coisas melhorem entretanto. Há incontáveis passagens das escrituras que nos mostram que para o povo de Deus as coisas não melhoram, antes pioram, à medida que o fim se aproxima. Então o Senhor aparecerá para salvar o seu povo e retribuir a sua fidelidade.

É verdade que isto pode parecer desencorajador e pessimista. Mas é também realístico e libertador: as coisas não estão sempre a melhorar. Existe grande sabedoria no passado e haverá grandes males no futuro. Isto ajuda-nos a colocar aquilo que vemos à nossa volta em perspectiva. As confusões culturais, as guerras, a doença, a fome e tudo o resto devem entristecer-nos. As injustiças devem deixar-nos zangados. Mas nem umas nem outras nos devem surpreender ou desorientar. Porque não esperamos a contínua perfeição do mundo nem procuramos a perfeição em todas as coisas deste mundo.

Esta visão bíblica também clarifica o nosso propósito. Devemos procurar construir uma sociedade melhor, cuidar dos doentes e ajudar os pobres. E isso é precisamente o que os cristãos têm feito ao longo da história, mais do que qualquer outro. Mas fazemos essas coisas como expressão de fé, como obras de misericórdia, e não por pensarmos que podemos aperfeiçoar o mundo. Não nos cabe a nós dobrar o arco da história. Nós não procuramos a perfeição das coisas presentes, mas sim mantermo-nos fiéis àquele grande evento do passado, enquanto esperamos o seu cumprimento no futuro.

Assim, para o cristão, toda a história tem sentido, e não apenas um momento fugaz no futuro. O momento definidor da história está no passado, e por isso podemos olhar para o passado em busca de sabedoria, verdade e sentido. O passado não nos está vedado. E olhamos em frente também. O culminar da história está no futuro e por isso devemos aguardar com esperança – não a perfeição deste mundo – mas a vinda de Cristo em sua glória.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing) 

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Wednesday, 16 November 2022

O Problema do Sexo “Recreativo”

Anthony Esolen
Estou grato à fé católica por me ter feito mergulhar, apesar das minhas hesitações, mais a fundo na realidade, quando tantas coisas à nossa volta parecem dirigidas à abstracção, a roubar a pouca noção que já temos do que é verdadeiro, e não apenas das ideias sobre o que é real, ou pior ainda, de palavras que passam por ideias sobre coisas.

Recentemente fui repreendido por uma mulher que defendia o direito ao aborto porque, dizia, “algumas pessoas gostam de ter sexo recreativo” e não deviam ter de se preocupar com gravidezes e partos no caso das hormonas sintéticas falharem, como tantas vezes acontece.

Pensei nessa expressão, “sexo recreativo” e como é cansado, estagnado, chato e pouco rentável o fingimento de que um homem e uma mulher se podem unir naquele acto singular sem que haja qualquer outro significado, como se fossem apenas fitas de velcro presas uma à outra por umas horas.

Os nossos corpos são mais sinceros. Eles preparam-se de inúmeras formas que ainda estamos a descobrir para gerar a criança que poderá ser o fruto dessa união. Mas nas mentes abstraídas de quem apenas quer brincar não existe criança, não existirá criança, não há nada se não “recreação”.  

E essa tentativa de sintetizar o acto é tão esforçada que a deixa desprovida de verdadeira humanidade.

Não faz sentido. De facto, muitas coisas deixam de fazer sentido no preciso instante em que dizemos que são recreativas. Pode-se rezar durante um jogo de futebol, ou durante um picnic. Até devemos fazê-lo! Mas embora se esteja a rezar rodeado de divertimento e pessoas a descontrair, a oração em si não é recreativa, nem poderia ser sem deixar de ser oração. Se estou a brincar às orações, não estou a rezar.

A guerra pode fazer com que um homem se sinta mais vivo do que alguma vez se sentiu em tempos de paz, como me admitiu certa vez um velho sábio. Mas não se pode travar uma “guerra recreativa”. Se é recreação, então não é guerra, e se é guerra, certamente não é recreação. A não ser que se seja um mercenário insensível ou um monstro moral, não se parte para a guerra a não ser que seja a valer.

Poderá conhecer o seu futuro cônjuge num ginásio, num estádio, ou a subir uma montanha, e poderá gostar de aproveitar o ar livre com ele, mas não existe tal coisa como “amor recreativo”, sob risco de deixar de ser amor. O amor é refrescante, torna o nosso lazer mais doce; o amor está para lá das coisas do dia-a-dia.

Mas se aquilo a que chama amor é apenas algo que faz por ser divertido, então não há mesmo amor no que está a fazer. Os sorrisos são todos oferecidos, custam pouco, mas o coração não se dá de barato.

Porque o amor, como diz São Paulo, tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo aguenta, e não existe amor maior do que a de um homem que dá a vida pelos seus amigos, diz Jesus.

E estes pensamentos trazem-nos de volta à questão fundamental: “O que é que andas a fazer?” A resposta não está numa manifestação de intenções, de motivos, de sentimentos ou de ideias, que frequentemente são apenas autorizações que passamos a nós mesmos para manter as consciências adormecidas.

Suponha que o João está a preparar um prato de restos traçados com veneno. “Toma Bobby”, diz, enquanto chama o cão do vizinho, “anda comer”. Queremos mesmo saber o que se passa na cabeça do João? O que o levou a querer fazer aquilo? O que pretende alcançar? As suas teorias pessoais sobre a alma dos caninos? Será que o deixaríamos dizer: “Isto para mim é apenas recreação. Estou a vingar-me do António. É um jogo. Ele está a ganhar por quatro pontos, mas com isto eu passo novamente para a frente”. Isso não seria ainda pior?

Este também pensava que era só recreação 
(linguagem explícita)

Duas pessoas jovens e apaixonadas cedem aos seus desejos, embora não estejam casadas. Aquilo que estão a fazer não é um mal em si, mas apenas pelas circunstâncias. Se fossem casados, seria uma coisa gloriosamente boa.

Isto nós compreendemos. Há algo do coração neste pecado, não obstante ser pecado, e embora o pecado não possa gerar nada de bom, os dois poderão, de uma forma confusa, estar a apontar para o bem. Mas quando os dois não estão apaixonados de todo, sem um pingo sequer de paixão, a fazer “desamor” por recreação? Isso já me custa mais a entender.

Uma das razões para isso, como já sugeri, é que a Igreja voltou a minha atenção para aquilo que é real. O que é que acontece quando os dois se fundem? Que ser poderão gerar? Que tipo de criatura será essa criança? Qual será a sua relação com o tempo e a memória?

Porque é que é errado que um ser que se recorda, que imagina, que providencia e que espera seja gerado por recreação? Nascer com um pai e uma mãe que não estão comprometidos um com o outro para a vida? Nascer sem uma família estável, numa longa linhagem de famílias em iguais circunstâncias que se estende para o passado e para o futuro?

Que ser é esse no útero? Não sem organização, como uma verruga; não inerte, como uma bolota no passeio; não inanimada, como um cristal; não morto, nem meramente vida em potência; nem canino, nem felino, nem nada para além de humano, com todas as capacidades de um homem, latentes, mas em desenvolvimento, com maravilhosa complexidade, exactidão e rapidez; uma criança, nossa irmã.

Quão misteriosa e bela é esta criança! A Igreja dirige-me os olhos e a alma para essa beleza objetiva.

O pecado mascara-se de “realismo”, no sentido em que assenta sobre a forma habitual do homem se ausentar da realidade. Mas as coisas que estão escondidas serão trazidas para a luz.

Algumas dessas coisas escondidas estiveram todo este tempo diante dos nossos olhos. Nem poderemos dizer ao nosso Juiz: “Se eu soubesse!”. Admitiremos a verdade. “Eu sabia, Senhor, mas não queria saber. Tem misericórdia da minha alma.”


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Escreveu, entre outros, Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, and Nostalgia: Going Home in a Homeless World, e mais recentemente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts, em Warner, New Hampshire. Pode visitor o seu site em: Word and Song.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 5 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Wednesday, 12 October 2022

Prega sempre o Evangelho. Usa mais vezes palavras

Peter Laffin

No mês passado casei-me com a minha linda e graciosa mulher. A melhor parte do copo-de-água foi quando nos sentámos os dois a ver amigos e família finalmente a conviver, a beber vinho e a divertirem-se na pista. Foi um vislumbre do Céu. Pareciam anjos iluminados.

Os meus amigos também gostaram de me ver no dia. Sobretudo aqueles que não me viam há algum tempo. O que fazes tu com uma mulherona destas?, brincavam, e eu ria-me, cúmplice.

Mas o que mais os surpreendeu foi a celebração tão marcadamente católica, que decorreu na Catedral de St. Patrick, em Norwich, no Connecticut. Converti-me do ateísmo ao catolicismo quando tinha vinte e tal anos (agora tenho 39). Isso não era surpresa para ninguém, mas poucos esperavam que a minha fé tivesse primazia num dia que era, ostensivamente, sobre mim e a minha mulher.

Mesmo aqueles com quem tenho estado mais nos últimos anos ficaram admirados com a falta de subtileza. O meu círculo social manteve-se bastante secular-liberal depois da minha conversão. Uma vez que me converti já depois da universidade, nunca fiz parte de grupos de jovens católicos. E embora tenha vivido a minha fé de forma aberta, nunca a esfreguei na cara dos meus amigos. Acho (espero) que com isso ganhei o respeito deles ao longo dos anos.

Já ouvi conversas suficientes em festas para saber o que pensam sobre o Catolicismo. E certamente já vi o que chegue nas redes sociais.

Mas o amor deles por mim é superior ao ódio pela religião. Se é bom para mim, está bem para eles. E por isso foram capazes de apreciar a minha fé enquanto terapia, como se tivesse começado a praticar ioga ou adoptado uma dieta mais saudável. O catolicismo era apenas mais um item no meu plano de bem-estar pessoal, por pouco apelativo que lhes parecesse.

E por isso o nosso casamento profundamente católico foi um choque para eles, como teria sido caso eu tivesse casado num estúdio de ioga e tivesse dado graças e todo o louvor ao Mestre Yogi.

“Eras uma pessoa tão ansiosa”, disse-me um velho amigo durante a festa. “Acho que a religião te tem feito bem.”

E é verdade. Eu era uma desgraça antes, por isso aceitei o elogio.

“Eu sabia que te tinhas convertido ao catolicismo”, disse outro, “mas não sabia que eras mesmo católico”

“Nunca o escondi”, respondi. “Mas não andavas por aí com uma grande cruz à volta do pescoço, nem nada”, disse ele.

“O terço pendurado do espelho retrovisor não conta?”

“Seja como for”, disse ele. “Estás com bom ar. Estou muito contente por ti”, e deu-me um grande abraço.

Desde que entrei para a Igreja sempre fui a favor da abordagem de mostrar mais e falar menos, no que respeita a evangelização. “Prega sempre o Evangelho. Se necessário, usa palavras”, disse, supostamente, São Francisco de Assis, embora tenha dificuldade em imaginá-lo a usar tais expressões melosas.

É um belo sentimento: devemos aspirar a viver o Evangelho de tal forma que deixaria de ser necessário recorrer aos argumentos racionais. Mas é também muito pouco prático (eu não sou suficientemente santo para o conseguir) e suspeitamente conveniente. Se nunca dizemos quem somos, a tentação de levar uma vida dupla torna-se demasiado forte.

O modelo de pregar pelo exemplo também nos dá uma escapatória para não termos de explicar as partes mais complexas da nossa fé. Mesmo as premissas mais básicas – que a nossa existência se deve a um Criador que, qual bom progenitor, respeita a nossa liberdade na mesma medida em que nos ama, loucamente – requer preparação, prática e esforço.

São Francisco a pregar, com palavras
Durante décadas os católicos americanos, incluindo eu, pregaram tão zelosamente pelo exemplo que agora temos uma geração inteira que é funcionalmente analfabeta no que diz respeito ao Catolicismo. A única coisa que a maioria dos jovens sabe sobre a Igreja é que a odeia.

Partem do princípio que quando usamos a palavra “Deus” nos estamos a referir a um Pai Natal cósmico que só concede desejos a quem se benze antes das refeições. Ou a uma projecção freudiana para a realização de desejos (a descrença em Deus encaixa melhor aqui para uma espécie com inclinação para o pecado). Ou então a um moderno Ódin, um Ser Muito Grande entre outros Seres Muito Grandes, a batalhar no espaço.

Ainda no mês passado o popular filósofo Sam Harris tentou provar a inexistência desta versão particular de Deus, referindo que mesmo os telescópios mais avançados não o revelam.

A sério?

Pessoas como estes meus amigos também não fazem ideia do que significa “Cristo”. Pensam que Jesus – se é que existiu – era uma versão primordial do guerreiro de justiça social (e possivelmente um zombie, o que até consideram bastante fixe). Não sabem o que diferencia a Igreja Católica dos Presbiterianos ou da Igreja Baptista de Westboro. Não conseguiriam distinguir o Espírito Santo do Novo Banco.

Porquê? Porque os católicos não lhes explicaram.

Pois bem, acabou. Chegou a altura de pregarmos o Evangelho e de usarmos palavras mais vezes, sobretudo aqueles de nós com amigos e conhecidos no mundo secular.

Para que fique claro, não estou a sugerir começar cada conversa com as palavras: “Já ouviste a Boa Nova?”, nem que levemos todas as conversas para uma explicação da Presença Real de Cristo na Eucaristia.

Só peço que fiquemos atentos a oportunidades evangélicas que se possam apresentar. Que quando se abre uma brecha numa conversa, ajudemos a escancarar a porta para que a luz possa entrar.

Para mim, um bom começo seria uma resposta à reacção dos meus amigos ao meu "Casamento Muito Católico".

Poderia explicar-lhes que não é por razões terapêuticas que tenho a minha fé, embora seja saudável. De facto, não pratico a minha fé por nenhuma razão secundária, mas sempre como um fim em si mesmo. Porque deixar-me morrer na Luz é o único acto racional. Porque cada vez que penso que compreendi Cristo ou senti toda a força do seu abraço, abre-se um novo abismo que me engole. Porque o Catolicismo é verdade e beleza sem fim.

Mas acima de tudo porque estou apaixonado. E porque, inexplicavelmente, a Luz também está apaixonada por mim.

Talvez lhes diga isso mesmo. Talvez tenha acabado de o fazer.


Peter Laffin escreve de New England. O seu trabalho mais recente encontra-se no The Catholic Thing, The Washington Examiner, e The National Catholic Register.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 9 de Outubro de 2022)

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Monday, 27 December 2021

Adeus Desmond Tutu, adeus Renascença

Na esperança de que tenham tido todos um óptimo e santo Natal, aproveito para vos informar que esta será a minha última semana na Renascença. A partir de janeiro vou começar uma nova fase na minha carreira, a trabalhar como freelancer, embora com uma estreita ligação ao gabinete de comunicação da sede da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, na Alemanha. Com esta mudança devo ficar mais disponível para colaborações, trabalhos pontuais em regime de freelance, comentário e análise, etc., nas minhas áreas de especialidade, por isso não hesitem em contactar-me se tiverem interesse.

O que é que isto significa para a Actualidade Religiosa? Certamente haverá mudanças, mas não quero deitar a perder esta lista de contactos que fui construindo ao longo desta década e por isso posso garantir que tentarei dar continuidade ao trabalho, embora num formato diferente, que está por determinar.

Entretanto o mundo não pára e ontem disse adeus a Desmond Tutu. O herói da luta contra a discriminação na África do Sul foi também um elemento chave na reconciliação pós-apartheid. São factos que merecem ser recordados e elogiados, não obstante o arcebispo anglicano ter defendido outras causas incompatíveis com o Cristianismo tradicional. O Papa já enviou um telegrama de condolências pela sua morte e o Dalai Lama também.

Por cá as celebrações do Natal foram marcados pela Covid, mas se isso vos chateou, lembrem-se que na Nigéria os festejos são marcados pela cautela e em Cabo Delgado 800 mil celebraram longe das suas casas por causa do terrorismo.

O Papa escreveu uma carta aos casais de todo o mundo, publicada ontem.

Os militares são essencialmente homens e mulheres de paz, garante o bispo das Forças Armadas, o entrevistado desta semana da Renascença e da Ecclesia.

E não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, que vem mesmo a propósito desta nossa época pré-eleitoral.

Wednesday, 26 May 2021

#LoveWins, mas sem Alegria

Michele Malia McAloon
Há duas semanas, numa manhã chuvosa de segunda-feira, caminhei até uma pequena igreja Católica situada num beco na cidade de Mainz, na Alemanha. Mais de 100 igrejas católicas na Alemanha tinham anunciado serviços religiosos para os dias 9 e 10 de Maio, para abençoar casais de namorados, numa campanha publicitada na internet com o lema “love wins” [o amor vence].

Eu queria ver em que consistia esta “cerimónia de bênção” para todos os casais, independentemente da sua orientação sexual. Enquanto advogada de direito canónico que trabalha na área de processos de nulidade e de casamentos, estava interessada em ver que tipo de cerimónia seria esta, para pessoas que ou não estavam para se chatear com um casamento sacramental, ou então não compreendem que nem todas as proclamações de “amor” favorecem o florescimento humano.  

Esta iniciativa, que abrangeu toda a nação alemã, foi organizada por padres, diáconos e voluntários católicos que pensam, erradamente, que têm o direito e o dever de rejeitar a decisão de Março da Congregação para a Doutrina da Fé de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. O site que promovia as cerimónias anunciava orgulhosamente: “Erguemos as nossas vozes e dizemos: Continuamos a colocar-nos ao lado daqueles que se comprometem numa relação vinculativa, e abençoamos as suas relações”.

Enquanto me instalava nas filas detrás da Igreja, rezei para que ninguém comparecesse. Esperava encontrar uma igreja vazia, e então iria alegremente jantar. Tanto quanto conseguia perceber, muito poucos casais tinham-se registado no site, como se pedia. E, de facto, só lá encontrei três casais – dois casais heterossexuais e um par de homens homossexuais.

No santuário, junto ao altar, estava um sacerdote e uma mulher vestida de diácono. Outro homem com um hábito castanho estava sentado, a tocar guitarra. O altar estava despido, à excepção de algumas velas. Ninguém se preocupou em levantar-se quando o padre entrou, nem em fazer o Sinal da Cruz. O “serviço” abriu com uma série de músicas folclóricas, cantadas pela mulher com a casula.

Toda a charada estava repleta de ironias, mas talvez a maior fosse o facto de estarmos a poucos metros de um famoso órgão pelo qual a pequena igreja, fundada em 1331 pelos antonitas e entregue às clarissas em 1620, é conhecida.

Durante todo o processo não houve a menor interação com a congregação. A mesma mulher aproximou-se do altar sem qualquer sinal de reverência exterior pela presença do Senhor no sacrário e fez uma homilia de 15 minutos sobre o amor. Depois dessa homilia, e de mais uma música, o padre fez uma leitura. Mais uma vez, ninguém se preocupou em levantar-se.

Depois, pediu aos casais que se levantassem e lessem algum tipo de declaração de amor um pelo outro. Não houve beijos para selar o acordo, nem qualquer sinal exterior de afeição. Toda a gente se sentou. A mulher cantou mais um bocado e em menos de 30 minutos tudo tinha acabado.

O padre aproximou-se de mim no final e, para dizer a verdade, só me consegui afastar. Não há palavras em inglês ou em alemão que pudessem justificar um tal gesto cismático por parte de qualquer pessoa na Igreja.  

São Bonifácio
Não me preocupei com o jantar, já não tinha apetite. Tudo aquilo tinha sido deprimente e triste. Não houve qualquer sentido de celebração, só o sentido duramente mundano de uma tarefa cumprida, algo mais parecido com o registo de um automóvel na Direção-geral de Viação do que a natureza alegre de um baptismo ou de um casamento.


Não houve trajes nupciais. Os casais estavam vestidos de calças de ganga e camisolas. Tudo se passou sem champagne, bolo, jantar, amigos e família juntos para celebrar o começo de uma comunidade de vida e de amor.

A terra de Martinho Lutero continua sujeita a fortes restrições por causa da Covid-19, por isso não havia restaurantes abertos para celebrar aquilo que tinha acontecido. Será que os casais voltaram para casa e festejaram com um jantar de restos e de Netflix? Terá esta bênção transmitido magicamente a ideia de que um compromisso para a vida toda tem de facto a ver com o trabalho duro e nada romântico de salvação e redenção, enquanto esposos que dão a vida um ao outro com o objetivo de levarem-se um ao outro até ao Céu?

Ou será que tudo não passou de uma farsa politica/ideológica?

Em vez da concessão de graça dada pelo Espírito Santo por via de um verdadeiro sacramento, os casais que alegadamente procuravam a riqueza dos tesouros da Igreja receberam migalhas sacramentais das mãos dos padres que deviam ser os primeiros a saber a diferença entre verdadeira empatia e falsa “compaixão”.

No final de contas, nada saiu de tudo isto para além da manipulação de pessoas para fazer uma espécie de afirmação política sobre casamento homossexual e um manguito adolescente para o Vaticano.

Enquanto regressava ao meu carro, passei por uma estátua de tamanho real de São Bonifácio, bispo e mártir (680-754 AD) que está diante da Catedral de Mainz. Durante a sua vida este santo anglo-saxónico tornou-se conhecido como o Apóstolo do povo germânico, depois de ter derrubado com um machado uma árvore sagrada, adorada pelos pagãos germânicos.

De acordo com a lenda, São Bonifácio usou a madeira da árvore para construir uma igreja dedicada a São Pedro. Quando se tornou arcebispo de Mainz, em 752, recebeu como pálio um pano que tinha sido colocado sobre o túmulo de São Pedro.

São Bonifácio foi martirizado por causa da sua fidelidade aos ensinamentos da Igreja, destemido apesar das muitas ameaças feitas por adoradores de falsos deuses. Quem diria que a sua vida santa seria, depois de séculos de Cristianismo na Alemanha, um comentário irónico sobre aqueles que preferem o cisma à unidade, o individualismo indulgente à comunidade e a destruição social à graça vivificante?

São Bonifácio, rogai pela Alemanha – e por nós.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 20 de Maio de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 23 September 2019

Abanar o capacete no Santuário

Ontem, em Fátima, houve um encontro de 130 mil motociclistas que receberam uma bênção especial do Papa Francisco.

Por falar em freiras heroicas, apresento ainda a irmã Júlia Bacelar, que trabalha no campo do tráfico humano e “vai aos sítios onde ninguém quer ir”.

Conheça o padre italiano que cobra o estacionamento no parque da Igreja… Em orações.

Publico hoje no blog um texto muito bonito, que me foi enviado por um leitor anónimo, que vos convido a ler. É uma reflexão de quem passou por dificuldades matrimoniais mas foi ajudado a tempo de evitar cometer um grande erro. Leiam e partilhem, porque pode ajudar outros a tomar a decisão certa.

A propósito, para os interessados, sobretudo quem está ligado ao direito canónico, decorre em Roma um Curso de formação sobre o matrimónio, no Tribunal Apostólico da Rota Romana, entre os dias 26 e 30 de novembro. Mais informações aqui.

A dois

O texto que publico de seguida foi-me enviado por um leitor anónimo, na esperança de que pudesse servir de ajuda e inspiração a quem esteja a passar por dificuldades matrimoniais. 

Deu-me total liberdade para o publicar, ou não, e optei por fazê-lo devido não só à beleza da escrita, mas também à utilidade do assunto. O estado actual do casamento e da família em Portugal - e não só - é de guerra civil. Os feridos e estropeados deste conflito estão por toda a parte. São nossos irmãos, primos, amigos. 

O Papa Francisco pede-nos para sermos hospital de campanha neste mundo. Este texto é uma receita médica. Peço-vos que o leiam com atenção, porque a escrita, sendo bonita, não é óbvia. Partilhem-na com quem pensem que possa precisar, ou apenas nas vossas redes sociais. Pode ser que chegue aos olhos certos, a tempo. 



A montanha, alta, ultrapassa com o seu pico a camada de nuvens que cobre o dia, tornando-o cinzento. O céu azul, que vem depois, é o de um dia que é perfeito porque supera esse cinzento. E porque o superou, não voltará mais à sua sombra.

Para eles, esse azul é meta agora invisível, mas tão real como a montanha que têm vindo a subir, a dois.

Já tinham caminhado o suficiente para se sentirem cansados. O estado de cada um, naquele ponto sinuoso do caminho, montanha acima, era fruto da caminhada dos dois.
A dois. Sem o outro, não era ali que estaria cada um.

Estar agora parada no caminho que era de ambos, era tão estranho como inevitável. Estranho, porque ele não estava ali. Inevitável, por isso mesmo. Como todos os desvios que cada um tinha já visto, também aquele invertia o sentido do cansaço que subia com a montanha. A que vinham a percorrer. A dois.

A voz dele estava já distante, quando o ouviu decidir pela dúvida desse outro caminho. O tal que aliviava a subida para a meta de ambos, descendo fácil e agradável até onde ele não sabia. Não o viu afastar-se... Há quanto tempo teriam largado as mãos? Para ele, o alívio do imediato parecia agora mais forte que o seu desejo de verdade. Turvava esse desejo.

Em nenhum dos caminhos se vê o todo do percurso que está à frente. No deles, ela espera-o, permitindo no seu coração a dor de vê-lo não estar e a paz da certeza da meta dos dois. No dele, coexistem o alívio do que já sabe ser um erro e a resistência à verdade que, no fundo, conhece. A verdade do caminho que percorriam. A dois.

- Tens água na mochila!, ouviu ela.

Foi de imediato ao seu cantil e bebeu, fitando, calada e grata, o pastor que acabava de falar-lhe. Esqueceu-se de estranhar que soubesse do cantil, que continuava cheio e com uma água tão fresca como no início. Estranhou sim, que também ele seguisse por aquele desvio, deixando para trás, sem hesitar, as suas ovelhas. Parada, apercebeu-se de que havia outros desvios. E deixou-se estar.

- Não vou beber a água de um estranho, pensou ele desviando o olhar de quem não podia ser um pastor, por faltar o rebanho. Ignorou o copo que lhe estendia e engoliu a sede que sentia.

- Onde vais?

Não sabia. Mas descia.

Entregando-se só a si, olhos postos nos seus pés, não se apercebeu do próprio desejo de que o estranho ainda ali estivesse.


O seu desvio desce agora mais íngreme; hesita confuso, perante as pedras que se vão soltando. Tropeça sem cair. Uma vez, e outra, e outra. A saudade da verdade aumenta com a distância do caminho que vinham percorrendo. A dois.

No longo instante que durou a queda, estendeu os braços, implorando com o coração aquela ajuda. A do pastor que estaria (?) ainda ali.

- Se calhar já tem pouca água...

- Podes beber. Tens sede e há muita água nesta fonte.

- Onde ia, pastor?

- Vinha pedir-te um favor. Explico-te lá em cima, se quiseres voltar. Leva esta mochila, tem mais água.

Vendo-o iniciar o regresso, ele parou. Rodou a cabeça, e olhou novamente para o desvio que antes o levava não sabia para onde. Repôs os seus olhos no pastor.

- Estou a ir!

- Estou a ir! – Ouviu-o à distância, sem o ver. Ela alegrou-se em silêncio, sabendo que o caminho de regresso que ele tinha decidido, era necessário para que se reencontrassem. Como necessário era o tempo que levaria.

Esperou.

De mão estendida, pedindo-lhe, calado, a dela, completou o regresso à verdade que nunca deixara de desejar, reconhecendo-a. Com o caminho, que reviam agora juntos, viam também, entre as velhas nuvens, algum do azul do céu. Que sempre estivera lá.

- Afinal o que querias de mim, pastor?

- Que me ajudasses a encontrar uma das minhas ovelhas.

Com ele, recomeçaram a caminhar montanha acima.

A dois.

Wednesday, 10 July 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos…

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Sinais de Amor Mútuo

Michael Pakaluk
Num dos dedos da minha mão esquerda uso uma aliança, que entendo ser um sinal do meu amor e da minha fidelidade pela minha mulher, Catherine. Mas as palavras da liturgia dão a entender outra coisa. Quando recebi a aliança da minha mulher no nosso casamento ela disse, “Toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Por isso parece que estou enganado: a aliança que eu uso representa a fidelidade dela, não a minha. Ou será? Como é que resolvemos este problema?

Uma forma seria simplesmente mudar as palavras. Já vi essa sugestão feita num site popular de planeamento de casamentos, sem a devida autorização, claro, no sentido de mudar as palavras para Eu, [nome] recebo esta aliança como sinal do meu amor e fidelidade”!

Portanto a coisa não parece clara e algumas pessoas tentam resolvê-la com o senso comum. A verdade é que essa situação menos clara foi introduzida com a reforma litúrgica. A Forma Extraordinária é muito mais clara e inclui a bênção, só da aliança da mulher, pelo padre:

Abençoa, + Senhor, esta aliança, que benzemos + em vosso nome, que aquela que a vai usar, mantendo verdadeira fé no seu esposo, possa permanecer na vossa paz e em obediência à vossa vontade e viver para sempre em amor mútuo.*

Repare-se que as palavras não se referem à aliança como “sinal” de nada. Só existe uma cláusula de propósito, “que aquela que a vai usar”. Isto é porque a aliança é vista como um “sacramental”, isto é, algo sagrado que tem o poder conferido de fazer aquilo que significa (como a água benta). Assim, a aliança não é apenas representativa da sua fidelidade: tem como propósito auxiliá-la a ser fiel. (Vemos um sinal disto naqueles homens que tiram a aliança antes de entrar num bar, abdicando assim da ajuda divina em permanecer fiéis).

A bênção refere-se também à obediência à vontade de Deus. Isto é algo que uma pessoa sensata compreende. Ser casado implica aceitar uma regra; estar constrangido. Uma pessoa aceita um jugo – um jugo “suave” e “leve”, claro, que, se for adoptado com o espírito certo, traz muita “paz”. Mas seria insensato negar que uma aliança é um compromisso com a disciplina, tanto como um cabeção para um padre.

Mas há uma falha, uma fraqueza, no ritual. A bênção refere-se ao “amor mútuo” mas só o marido é que dá uma aliança à noiva, e não ao contrário. (Era costume na Europa, até ao final do Século XIX, apenas a mulher usar a aliança.) O novo rito, como veremos, procura remediar isto.

Na Forma Extraordinária, o padre dá a aliança benzida ao noivo, que a dá à noiva, usando uma de duas fórmulas:

Com esta aliança eu te desposo, e juro ser-te fiel*

-ou-

Com esta aliança eu te desposo; este ouro e esta prata eu te dou:
Com o meu corpo eu te venero; e todos os meus bens terrenos te ofereço*

Um objecto em duas mãos
Os linguistas chamam a este tipo de linguagem “performativa” uma vez que as palavras significam e cumpre, simultaneamente, a acção. Aquilo que as palavras significam e efectivam é a perfeição da união matrimonial através da dádiva de um objecto precioso, a aliança.

Mas nem é necessário que o objecto seja uma aliança! Acontece que a aliança era o objecto precioso mais fácil de guardar junto ao corpo nas culturas antigas. Mas o “ouro e prata” refere-se a moedas que também podem ser oferecidas, como as famosas “arras” que ainda são dadas durante a cerimónia nas culturas hispânicas e que por isso mesmo foram incorporadas como uma opção nos casamentos católicos nos Estados Unidos, em 2016.

Nos dias em que o casamento era entendido não tanto como uma simples relação pessoal, mas mais como uma instituição que conduzia à estabilidade financeira, o facto de o homem dar um objecto precioso à sua mulher era um sinal da seriedade do seu compromisso de estabelecer esta instituição com ela em particular. A isto acrescentava-se o dote, o capital inicial para a nova instituição, dada por uma ou ambas as famílias. Uma vez que o casamento continua a manter essa característica, pode-se argumentar que a tradição das “arras” é um vestígio e um testemunho desse entendimento e que por isso ganharia em ser adaptado a outras culturas também.

Podemos agora contrastar isto com o significado das palavras no novo rito. Quando o noivo diz “toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, não se refere à utilização da aliança, mas à aliança enquanto objeto precioso. Oferece a aliança por amor e com uma promessa de fidelidade; depois, ela usará a aliança por amor e como promessa de fidelidade. (Em 2016 a linguagem foi alterada para “Recebe esta aliança” em vez de “toma esta aliança” – o que se pode dizer que emenda o problema ao enfatizar mais corretamente o facto de a dádiva ser um evento único.)

Então esta nova linguagem é confusa e confunde – ou (talvez sem o querer) é profundamente verdadeira? Vejamos por este prisma: num contexto moderno, uma aliança é um objecto ou meio objecto? Comparando: um sapato é meio objecto e não um objecto inteiro, uma vez que os sapatos existem aos pares. Claramente, hoje olhamos para as alianças da mesma forma, como sendo aos pares. Nesse sentido, em bom rigor, uma pessoa não usa uma aliança, são duas pessoas que usam um único objecto – as alianças. Cada aliança, sobretudo pelo facto de não ser completa por si só, representa o amor e a fidelidade de ambos.

Assim, as palavras do novo rito, não obstante a sua falta de clareza aparente, acabam por ser profundamente verdadeiras. É frequente uma coisa significar a sua proveniência. A aliança que uso na minha mão esquerda nunca deixa de “dizer” que foi recebida como sinal de amor e de fidelidade. Usada, representa um amor e uma fidelidade que são precisamente recíprocos e mútuos. 

*As traduções são minhas, do inglês. Não consegui encontrar traduções portuguesas das bênçãos e das expressões. Caso existam, e algum leitor as conhecer, agradeço que me informem para poder trocar. Obrigado!


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Julho de 2019)

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