Mostrar mensagens com a etiqueta Casamento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Casamento. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Derrotou a ETA, agora quer dar cabo do secularismo

Jaime Mayor Oreja
Vem aí uma plataforma para intelectuais conservadores interessados em ajudar a restaurar os valores cristãos na Europa. À cabeça da iniciativa está Jaime Mayor Oreja, conhecido como “o homem que derrotou a ETA”, com quem falei.

Apresento-vos o António. É da Guarda. Já foi enfermeiro. Agora é bispo de Viseu.

O Papa recebeu durante vários dias um grupo de vítimas de abuso sexual do Chile. Saiba como correu o encontro.

Uma freira portuguesa na República Centro-Africana diz que nem ela nem as suas irmãs vão abandonar Bangui, pois a sua presença questiona os criminosos que destroem o país.


Há novas opções para quem quer caminhar para Santiago, agora já é possível a partir de Évora.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Salve o queijo da Serra, adopte uma ovelha!

Depois de a Renascença ter dado calmamente a notícia da nota do Patriarcado de Lisboa na terça-feira, ontem o resto da imprensa acordou e decidiu pegar no assunto por um ângulo que nada tem de novo, nomeadamente a recomendação de viver em continência para alguns casais em situação irregular. Por isso ao fim da tarde pegámos no tema outra vez e pedimos ao padre José Manuel Pereira de Almeida que nos explicasse exactamente o que se passa. Vale a pena ler para ficar esclarecido.

O Cristo Rei, em Almada, vai ser “pintado” de encarnado em solidariedade com os cristãos perseguidos, tal como o Coliseu de Roma e igrejas em Alepo e em Mossul, no Iraque.

9,4 milhões visitaram Fátima no ano do centenário. Um número verdadeiramente impressionante.

Quer ajudar os produtores de queijo da Serra, afectados pelos incêndios? Adopte uma ovelha.

Conheça ainda o fantástico trabalho das irmãs hospitaleiras na Guarda, que usam a arte para ajudar as pessoas com doença mental.

A Eutanásia vai continuar a dar que falar, claro. Sobretudo com o PS a decidir que a única forma de “participar no debate” é apresentando mais uma lei, não vá ser flanqueado pelo Bloco. Hoje Henrique Raposo explica de forma brilhante por que é que é um absurdo validar e resolver de forma permanente um desespero que por natureza é transitório. Leia e partilhe!


E porque vou estar fora na próxima semana, convido-vos a tomar conhecimento e a divulgar, através da imagem que ilustra este post, a campanha dos 40 dias de oração pela vida, que começa novamente na quarta-feira de Cinzas. A causa não podia ser mais nobre.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Lisboa já tem Laetitia

Lisboa já tem orientações para a aplicação do Amoris Laetitia. Saiba tudo aqui.

Foi lançada a mensagem de Quaresma do Papa Francisco, em que ele alerta para “os falsos profetas” e os riscos de um “coração frio”.

A renúncia quaresmal deste ano em Vila Real será para combater a “miséria envergonhada” e para “bolsas de estudo”, diz o bispo.

Conheça a aula de iconografia cristã a que nem a Judiciária faltou.

O Bloco apresentou hoje o seu projecto sobre a eutanásia e o PS, que evidentemente não quer ficar atrás, disse que também o vai fazer. O PCP é que continua a não mostrar a mão

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Love is in the air!

E pronto… Francisco arranja sempre maneira de nos surpreender novamente. Hoje foi um casamento em pleno voo. Dois assistentes de bordo entraram no avião solteiros, aos olhos da Igreja, e saíram casados. Love is in the air.

Já em Iquique, Francisco celebrou missa e disse aos presentes que os imigrantes que partem das suas casas à procura de melhores vidas, são “ícones da sagrada família”.

Ontem o Papa esteve com os jovens em Santiago, no Chile, e para que não lhes faltasse nada deu-lhes o password da banda larga de Jesus.

Braga é a mais recente diocese a publicar orientações para a aplicação do Amoris Laetitia.

E hoje que começa o oitavário da oração pela unidade dos cristãos, o bispo da Guarda desafia os cristãos a lutar contra novas formas de escravatura.

Apresento-vos o bispo americano que recusou participar numa caminhada pela vida na sua diocese porque a oradora é defensora da pena de morte.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Empurrando problemas com a barriga...

Randall Smith
Há alguns anos surgiu um filme chamado “A Corrente do Bem” [Pay it Forward], cuja ideia principal era de que quando alguém nos faz bem, em vez de retribuir devia-se fazer bem a outra pessoa. A realidade costuma ser menos benigna. O que as pessoas costumam passar aos outros são os resultados de um trabalho mal feito, um problema por resolver, uma disfunção que vai passando de gabinete em gabinete até que cai no colo de alguém que não tem nem a autoridade para o poder passar a mais ninguém.

Digamos que um jovem padre, acabado de se formar em Direito Canónico, é colocado num tribunal diocesano, esperando idealisticamente poder aplicar o conhecimento e as práticas que aprendeu, com base na tradição da Igreja, aos desafios pastoralmente difíceis dos casos de nulidade. O que descobre, porém, é que há anos que o tribunal não segue essas práticas, adoptando uma atitude de despachar os processos, dos quais muito poucos são rejeitados.

Estes funcionários sabem, com base em décadas de experiência (uma vez que muitos estão no tribunal desde os anos 70) que se recusarem um processo, ou se recusarem a nulidade, as partes envolvidas tendem a abandonar a Igreja. Por isso, quando o nosso jovem padre chega, o tribunal encontra-se a decretar algumas centenas de nulidades por ano, tendo rejeitado apenas oito ou nove na última década.

O jovem padre idealista decide resistir a este laxismo burocrático. Assim ele é que passa a ser o problema. A burocracia diocesana gere as coisas de uma certa forma há anos; os padres que aconselham os casais estão habituados a dizer-lhes que não haverá qualquer problema uma vez ultrapassada a difícil fase do preenchimento dos papéis.

Ao resistir, o nosso jovem padre vai causar muito mal-estar. Pessoas zangadas por terem visto os seus processos negados irão abandonar a Igreja e os padres que os aconselharam ficarão furiosos. Se o conflito se tornar público os comentadores “liberais” escreverão artigos revoltados, lamentando a “falta de caridade e sensibilidade pastoral” do tribunal, enquanto os “conservadores” criticarão o tribunal por ser tão laxista, insistindo que a caridade maior é a aplicação rigorosa das leis da Igreja.

Eu, para dizer a verdade, não tenho nada a dizer sobre o assunto.

Em vez disso, pergunto se não fará sentido sugerir que “o problema” começou muito antes. Cada pedido de nulidade que chega ao tribunal deve ser considerado uma falha na preparação para o matrimónio. Se a Igreja pode legitimamente decretar a nulidade de tantos casamentos por ano, então tem de enfrentar a triste realidade de que todos os anos milhares de casais católicos não estão a ser bem preparados para o casamento. Tentar lidar com o problema na fase do processo de nulidade é como tapar uma ferida de bala com um penso. Não faz mais do que esconder o problema, em vez de lidar com a ferida profunda, que devia ter sido evitada. Um “hospital de campanha” responsável deveria perguntar porque é estão a aparecer tantas pessoas vítimas de balas, em vez de procurar pensos mais sofisticados.

O pessoal das urgências era capaz de ficar irritado se um médico se recusasse a fazer como todos os outros e simplesmente tapar a ferida com um penso. Parece cruel deixar a ferida aberta. Mas devemos continuar a tapar os problemas em vez de lidar com as suas causas? Os médicos das urgências que já fizeram as pazes com aquilo que se lhes pede há anos provavelmente dirão que não conseguem controlar o que se passa antes de os feridos darem entrada, e isso é verdade, eles não criaram o problema, simplesmente caiu-lhes no colo. E agora?

Hospital de Campanha na Áustria, Primeira Guerra Mundial
Podíamos fazer um comentário semelhante sobre as escolas católicas. As escolas não costumam estar na raiz dos problemas, mas são o local onde todos os problemas tóxicos, que grassam na nossa cultura, vão parar. Questões com drogas e álcool, pornografia e a adolescência híper-sexualizada; consumismo; as pressões de ser bem-sucedido numa economia tecnocrática e globalizada; e por detrás de todas estas, as dificuldades de lidar com as exigências cada vez mais insaciáveis de multidões de indivíduos autónomos alimentados pela ideologia do Estado liberal e que acreditam que têm o “direito” de fazer o que querem, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos dos outros e as obrigações para com a comunidade.

O resultado é que temos uma população, incluindo americanos, que sentem que têm o “direito” a casar e a casar nesta igreja; o “direito” a uma declaração de nulidade quando as coisas não correm bem; o “direito” a ter a escola católica que querem (o que pode significar aulas de educação sexual, ética ambiental ou missa em latim); e o “direito” de escolher a vida que querem, quer isso signifique o “direito” a um aborto, o “direito” a casas de banho transgénero ou o “direito” a acumular toda a riqueza possível para poder comprar os bens de consumo que querem.

Por isso, e quando os padres insistem perante as suas congregações que a principal virtude cristã é “ser simpático”, esses fiéis têm alguma dificuldade em compreender porque é que uma instituição católica lhes negaria o que consideram ser desejos legítimos, porque negar às pessoas aquilo que querem não é “simpático”. Quando se alimenta uma cultura de liberalismo autónomo e se prega o Evangelho de deísmo terapêutico moralista, está-se a dar força às raízes das ervas daninhas da nossa cultura, muitas das quais acabarão por crescer com força no jardim de alguém que não tem os recursos necessários para se livrar delas.

Por isso podemos continuar a discutir amargamente e sem fim sobre os tribunais e as escolas onde os problemas acabam por ir parar – embora nesse ponto as dificuldades são já tão grandes e os recursos tão escassos que teria sorte se até um penso lhe dessem. Ou então podemos levar a sério o que está a acontecer na nossa cultura e o que não se está a passar na nossa Igreja e começar a responsabilizar as pessoas envolvidas no sistema, a começar por nós, para não empurrem mais os problemas com a barriga.

Talvez devêssemos fazer disso a nossa resolução de Ano Novo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Não-Silêncio de Santa Perpétua

Randall Smith
“Queremos falar consigo sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Estávamos ainda na primeira semana do curso de Verão que eu estava a leccionar a um grupo de estudantes internacionais quando fui abordado por duas holandesas com este pedido. Temendo que se tratava de uma conversa armadilhada, chutei para canto.

Já por demasiadas vezes dei por mim a entrar em conversas sobre assuntos sensíveis, pensando tratar-se do género de discussão filosófica que se pode ter sobre, por exemplo, a natureza das virtudes morais no pensamento de São Tomás de Aquino. As discussões sobre temas “académicos” também podem ser acesas, estranhamente, mas costumam manter uma capa exterior de discussão desinteressada. Esse não é o caso quando o assunto é, por exemplo, o aborto.

Às vezes acontece, enquanto vamos debitando a nossa lista de argumentos mortíferos, respondendo a todas as objecções de forma socrática ou tomística, encantados pela nossa própria inteligência, que de repente ficamos com uma ideia clara – provavelmente com uns vinte minutos de atraso – de que a pessoa com quem estamos a falar já fez um aborto. Ou então ela diz-nos directamente: “Eu abortei”. Nesse ponto compreendemos, caso tenhamos algum juízo (o que não posso dizer ser o meu caso) que afinal não estamos numa discussão filosófica desinteressada; não, estamos envolvidos numa luta interna na própria alma daquela pessoa, e que é melhor andar com cuidado.

Na maior parte dos casos era importante que ambas as partes na discussão tivessem passado muito mais tempo a edificar uma relação de respeito mútuo e de confiança antes de se aventurarem nestas águas turbulentas. Não é preciso dizer as palavras “és um infanticida” para que a outra pessoa nos entenda dessa forma.

Parece-me que com a questão da homossexualidade, ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se passa o mesmo. Na maioria dos casos as pessoas de ambos os lados da barricada já investiram uma grande parte de si mesmas na questão e pode ser difícil dizer o que quer que seja sem que a outra pessoa não o entenda de forma errada. Nestas circunstâncias de rancor, dor e desconfiança é possível fazer terríveis danos numa ocasião que devia ter servido para alimentar a reconciliação e a compreensão mútua.

A ideia iluminista de que podemos simplesmente sentar-nos e pôr de lado as nossas emoções e preconceitos, discutindo estes assuntos de forma puramente racional, é uma ilusão perigosa. É importante, por isso, nessas situações, agir com grande cautela.

E foi por isso que quando estas duas jovens me abordaram, chutei para canto. Teríamos de nos conhecer melhor, expliquei-lhes; teria de haver de ambos os lados um sentimento de segurança na discussão; teríamos de estar prontos a olhar para além do que as palavras de cada um pudessem significar, para apreender as verdadeiras intenções por detrás dessas palavras; e teríamos de nos interessar suficientemente sobre os assuntos – e uns pelos outros – para termos paciência para um processo que talvez tivesse de se desenrolar ao longo de várias horas ou até semanas.

Mas afinal não era nada disso que elas queriam discutir. Afinal de contas eram ambas católicas devotas (sim, da Holanda!), que aceitavam o ensinamento da Igreja. O que queriam era falar sobre as leis da Holanda que obrigam todos os professores a ensinar aos seus alunos da primária que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é bom. Aquilo que eu pensava que iria ser uma conversa sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou, afinal, por ser uma questão sobre a liberdade de consciência e os limites do poder estatal.

Quis a providência divina que nesse dia a turma estivesse a ler “O Martírio de Perpétua e de Felicidade”, um relato escrito em larga medida pela própria Vibia Perpétua, antes de morrer no ano 203. A questão que Perpétua enfrentava era saber se deveria acender uma vela de incenso ao imperador, jurar-lhe fidelidade enquanto deus e depois prestar culto aos deuses por ele designados.

Um dos protagonistas do relato de Perpétua é o seu próprio pai, que repetidamente a aconselha a aceitar o acordo que foi proposto. Podia dizer uma coisa por palavras, mas acreditar noutra, dizia-lhe ele. As autoridades romanas não queriam saber de religião para nada, apenas de política. Eles não se interessavam em saber que Deuses se adorava, desde que se obedecesse ao imperador e aos seus representantes. Perpetua tinha um bebé, devia pensar nele, suplicou o pai. Mas ela não cedeu.

Muitos dos alunos na aula tinham visto o filme “Silêncio” de Martin Scorsese. “Porque não pisar simplesmente a imagem de Jesus?”, perguntei. “Apenas isso, alinhar, pisar. Deus não se magoa. Pode-se esconder um crucifixo no bolso, o que é que isso teria de mal?”

E você, o que teria feito na situação de Perpétua? Será que ela era uma mulher espetacular e forte que recusou ser amedrontada por homens, desde o imperador, ao governador, passando pelo próprio pai? O será que era uma tola teimosa que deveria ter aceitado a proposta que lhe foi feita? O que é que custaria acender uma vela? Deus não teria compreendido? Afinal de contas, era só uma vela.

Ou era? Se a vela era tão pouco importante, então porquê insistir que deveria ser acesa, sob pena de tortura ou morte? Talvez porque no final de contas não era só sobre acender uma vela ou pisar uma imagem, mas sim uma forma de mostrar que se aceitava a autoridade última daqueles que estão no poder. Essas pessoas não querem saber o que faz em privado, desde que mostre em público que aceita as suas vontades e concorde em submeter-se a tudo aquilo que consideram ser indispensável.

“Pensem na Perpétua”, disse-lhes. Há autoridades legítimas no Governo, e precisamos delas para nos ajudar a construir e defender o bem comum. Mas há também aqueles que apenas nos querem governar. Com estes chega-se a um ponto em que simplesmente devemos perguntar: “Que parte de mim mesmo estou disposto a submeter?”, “A que divindades me prostrarei?” e, a dada altura, “Quem é o meu Deus?”.


Não são perguntas que eu poderia responder por elas. Faz parte da dignidade da pessoa que cada um as deva enfrentar por si. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Agosto de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A Outra Europa

A semana passada, enquanto o líder do mundo livre estava ocupado a destruir o sistema americano de alianças cuidadosamente construído ou a abalar a estrutura política nacional e estrangeira para poder lidar com os desafios ambientais, dependendo dos órgãos de comunicação que vêem, aconteceu algo igualmente importante – e mais fundamental – na Hungria, que passou quase despercebido.

Fui convidado para falar no 11º Congresso Mundial para as Famílias, que decorreu em Budapeste. Mas é difícil exprimir o quão inspirador e esperançoso – e inesperado – foi o evento.

Estamos tão afundados nas nossas obsessões políticas que quase nunca ouvimos falar disso, mas há milhares de activistas e organizações de defesa da família e do casamento a trabalhar à volta do mundo. A maioria esteve presente em Budapeste a semana passada. E mais importante que tudo, fora da Europa Ocidental, da América do Norte e de países culturalmente parecidos como a Austrália e a Nova Zelândia, os países não estão de todo a seguir as modas absurdas e suicidas sobre casamento e filhos que acreditamos, falsamente, terem dominado o mundo.

A Hungria é um exemplo na própria Europa. O primeiro-ministro, o ex-dissidente soviético Viktor Orban, conseguiu inverter a tendência desastrosa de casamento e nascimentos que a Hungria, à imagem da Europa ocidental, revelava há anos. É o resultado tanto de compromissos sociais como de políticas específicas.

A Constituição da Hungria de 2011, a primeira adoptada desde que recuperou a liberdade depois da queda da União Soviética, diz o seguinte:

Artigo L (1) A Hungria protegerá a instituição do casamento enquanto união entre um homem e uma mulher, estabelecida voluntariamente, e a família como base da sobrevivência da nação. Os laços familiares basear-se-ão no casamento e/ou na relação entre progenitores e filhos. (2) A Hungria encorajará o compromisso de ter filhos.

Pode parecer um gesto vazio de sentido, tendo em conta a cultura dominante entre as elites internacionais, mas há dez anos a Hungria tinha um índice de casamento de 3,6 por mil, o mesmo que países do Sul da Europa como Itália, Espanha e Portugal. Agora está perto dos 4.75 e continua a subir.

De igual forma o índice de fertilidade na Hungria passou do mesmo que a Europa Ocidental para cerca de 1,45 – e parece estar a subir em direcção aos mágicos 2,1 necessários para garantir a estabilidade demográfica. Estas mudanças levam tempo e o Governo da Hungria reconhece que não haverá estabilidade demográfica até cerca de 2030. Entretanto foram inseridas no sistema húngaro uma série de vantagens para as famílias por forma a encorajar não só o casamento e a procriação, mas famílias com três filhos ou mais.

A recuperação de atitudes saudáveis a respeito do casamento e da família não é uma impossibilidade quando a sociedade reconhece que ambos são importantes para o bem-estar humano e para a estabilidade social, e desde que os governos nacionais não empreendam uma cruzada para os destruir.

Na verdade, a resistência da Hungria aos esforços da União Europeia para expandir o “casamento” gay tem citado a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais: “O direito de contrair casamento e o direito de constituir família são garantidos pelas legislações nacionais que regem o respectivo exercício.” As relações jurídicas são sempre complexas, claro, mas a Carta Europeia, como a Constituição americana, não dá ao Governo central qualquer jurisdição sobre o casamento e a família.

E não é só a Hungria. A Eslováquia emendou a sua constituição em 2014 e definiu o casamento da mesma forma que a Hungria. E isso foi sob um Governo socialista. Na Polónia o artigo 18º da Constituição diz: “O casamento, sendo uma união entre um homem e uma mulher, bem como a família, maternidade e paternidade, serão colocadas sob a protecção da República da Polónia”. A Roménia está a seguir o mesmo caminho.

Claro, estas não são as grandes potências da Europa. A Alemanha, França e Reino Unido – e sobretudo a distante América – são quem define, em larga medida, a agenda da comunidade internacional. Pelo menos é isso que os radicais querem que se pense sobre os poderes das Nações Unidas e outras organizações como a Organização Mundial de Saúde.

Mas vejam isto:




As áreas azuis escuras são os lugares onde o “casamento” gay é legal. Mas os países encarnados são aqueles onde é ilegal – sendo o casamento definido como sendo entre um homem e uma mulher. As áreas azuis estão no meio, tanto geográfica como juridicamente: permitem algumas formas de união “não-tradicional”, mas não as equacionam ao casamento.

De certa forma até na Europa existe divisão entre estados azuis e encarnados. Apesar de todas as acusações de que o casamento, a família, a moral sexual etc. têm sido feitos reféns por “progressistas”, isto é, radicais que não sabem bem com o que é que se meteram, mesmo na Europa decadente e em colapso demográfico existe resistência significativa.

Não deve ser por acaso que é precisamente nas periferias europeias, as partes que até há pouco estavam sob domínio comunista, que a resistência é mais forte. Elas ainda se lembram dos antigos totalitarismos e não se deixam intimidar pelos novos.

Mais, têm a vantagem de poder ver – tanto na América como na Europa ocidental – onde é que a nova ética totalitária conduz: A uma perda de fibra social e uma perda, literal, daquilo que forma uma sociedade – pais com filhos.

Claro que, por terem enfrentado esta crise de frente e por se terem recusado a aceitar refugiados muçulmanos para colmatar as falhas demográficas, têm sido acusados de esmagar os direitos dos homossexuais e de estarem a encorajar uma nova forma de nacionalismo perigoso, com tons fascistas.

Viktor Orban é pai de cinco filhos. Muitos dos seus ministros e secretários de Estado são pessoas novas com famílias grandes. E no resto da Europa central e sudeste as principais figuras políticas têm filhos, ao contrário dos líderes da União Europeia, da Alemanha, de França, Itália e Reino Unido.

Os opinadores progressistas pensam que estão “do lado certo da história”. Mas é difícil dizer o que será precisamente o futuro progressista, uma vez que não parece preocupar-se com o futuro literal de crianças e sociedades suficientemente férteis para se reproduzirem.

Do nosso ponto de vista essa forma de encarar o mundo é que passou à história, no sentido de que já pertence ao passado e não tem futuro a longo prazo. Outros modelos, mais esperançosos mas que dão menos nas vistas, estão a surgir numa variedade de lugares inesperados.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 1 de Junho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Esposo

Pe. Paul Scalia
Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale de Cédron, até ao ponto onde havia um jardim (Jo. 18,1). Cristo, o Novo Adão, vai até um jardim para desfazer aquilo que num jardim foi feito. O primeiro Adão vivia num jardim e recebeu uma mulher. Foi lá que se revoltou contra o Pai e falhou em relação à sua mulher. Agora, o Novo Adão vai para um jardim para obedecer ao seu Pai e oferecer-se à sua Esposa. Toda a narrativa da Paixão – desde a agonia de Cristo no horto até às suas palavras finais na Cruz – é nupcial. Nela compreendemos que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef. 5,25).

As núpcias de um noivo e de uma noiva requerem votos – palavras através das quais doam a vida um ao outro, para o bem de um e de outro. Por isso o casamento de nosso Senhor começa com palavras de doação – para todos os efeitos, com um voto. Mas neste caso as palavras são dirigidas ao Seu Pai, para o benefício da Esposa: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc. 14,36). Deste modo oferece-se eternamente à sua esposa. É neste momento que se submete definitivamente à vontade do Pai. O primeiro Adão falhou a sua mulher através da desobediência. O Novo Adão conquista a sua esposa obedecendo: Seja feita a vossa vontade.

Jesus tinha antecipado este momento na Última Ceia: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc. 22,19). O dom de si próprio no casamento não é uma questão apenas de palavras, mas de corpo. O corpo é parte daquilo que somos e, por isso, é essencial no dom de si mesmo. O casamento não tem a ver apenas com bonitos pensamentos e palavras, mas com o dom de corpos, um ao outro; na geração de nova vida através desses corpos; no cuidar do corpo do outro quando o fim se aproxima. Agora, no horto, Jesus oferece definitivamente o seu corpo. O voto tem um efeito corporal. “Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra” (Lc. 22,44).

Todos os casamentos têm as suas dificuldades. O primeiro Adão foi testado pelo malévolo, que o desviou da confiança no Pai e, por isso, do amor pela sua mulher. O Novo Adão também é posto à prova – através de Judas, em quem o demónio entrara: “Apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus” (Mt. 26,47). O demónio, cujas anteriores tentações tinham sido mal sucedidas, encontra aqui o seu “tempo oportuno”. Ao infligir dor, humilhação ridicularização e morte, procura separar Jesus da vontade do Pai e da sua Esposa. Mas será novamente derrotado através da simples confiança e obediência: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 24,46).

Todos os casamentos exigem sacrifício – a vivência dos votos na vida real. As palavras pronunciadas no altar, no dia do casamento, são vividas diariamente através de actos de amor sacrificial, pequenos e grandes. Por isso, a Paixão de nosso Senhor, não é mais do que o vivenciar do seu voto no jardim. Os espancamentos, interrogações, ridicularizações… a flagelação e a coroação de espinhos… o carregar da Cruz e a crucificação. Que são estas coisas se não o viver dos votos? Estão todas implícitas no dom de si mesmo. Assim, no cume do seu sacrifício ele grita que o voto está completo, cumprido, vivido ao máximo. O termo usado é perfeitamente nupcial: “Consummatum est – Está consumado” (Jo. 19,30).

O sacrifício de Cristo, que hoje recordamos [este artigo foi publicado originalmente na Sexta-feira Santa] é a cura de todos os nossos pecados e ilumina toda a nossa escuridão. Dada a confusão que actualmente reina sobre o casamento, porém, devemos compreender o sacrifício como sendo particularmente de Jesus, esposo da Igreja, quem restaura o sentido original do casamento e, através da sua graça, permite aos casais viverem-no (Catecismo da Igreja Católica #1614).

Dito de forma mais simples, a morte do Senhor revela como o casamento deve ser vivido. O seu voto e sacrifício são o padrão para a vida de casado. Os votos que a noiva e o noivo fazem no dia do casamento formam o compromisso de darem as suas vidas – tal como nosso Senhor se comprometeu a dar a sua. As suas vidas de casados devem ser a vivência desse dom – tal como o sacrifício do Senhor foi a vivência do seu voto. Que são todos os pequenos sacrifícios e dificuldades se não o viver dos votos? Os casamentos prosperam e trazem felicidade unicamente na medida em que têm a Cruz do Senhor por modelo.

O dom do seu corpo – na sala da Última Ceia, no horto e na Cruz – recordam-nos aquilo que a nossa cultura preferiria esquecer: A verdade do corpo humano. A contracepção e a esterilização deram início à rejeição do sentido do corpo. Agora, vemos os frutos maduros na “ideologia do género”, que afirma que o meu corpo não sou eu e não tem qualquer significado. Que a nossa adoração do seu corpo crucificado ajude a curar esta maleita.

Na sua Paixão o Senhor mostra ainda a forma simples de ultrapassar as dificuldades do casamento: Obediência à vontade do Pai. Essa simples virtude não lhe permite evitar os desafios, mas triunfar neles. Talvez tenhamos o hábito de complicar demasiado as coisas. Uma obediência confiante na verdade do casamento – permanente, fiel, geradora de vida – permite a um casal não só ir ultrapassando as dificuldades, mas triunfar nelas. É um caminho simples – mas não fácil – que demasiadas pessoas ignoram.

Isto não é apenas para casais casados, mas para todos os fiéis: “Toda a vida cristã é marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja” (CCC 1617). Todos os fiéis beneficiam de casamentos bem vividos – casamentos que obtêm um aumento de graças para a Igreja e que apontam para além deste mundo, para as núpcias do Cordeiro. Nisto, como em tudo, Cristo o Noivo revela a Cruz como spes unica – a nossa única esperança.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

terça-feira, 4 de abril de 2017

Papa tira do tesouro coisas antigas e coisas novas

A saga da procura da reconciliação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (vulgos lefebvrianos) continua. O Vaticano deu mais um passo, tomando medidas para que os casamentos celebrados no contexto da Fraternidade sejam considerados lícitos.

Neste mesmo dia o Papa sublinhou a importância do documento Populorum Progressio, de Paulo VI, um marco no campo da justiça social e do desenvolvimento.


António Costa esteve na Renascença esta terça-feira para ser entrevistado. Sobre a eutanásia diz que não sabe como votaria se fosse deputado. Da minha parte insurgi-me em artigo de opinião no blogue contra frases do género “é preciso um debate sério e sereno” ou “ainda não é tempo de discutir isto, há questões económicas mais importantes”, etc. Leiam e discutam.

Um convite, antes que se metam as férias da Páscoa, Thereza Ameal vai apresentar o seu livro “Querido Deus” no dia 19 de Abril às 17h30, na Obra Social Paulo VI, no Campo Grande. Apareçam e divulguem, que a autora certamente agradece!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sinai(s) de perigo e os mercadores do Santuário

Ui... Em Fátima seria um festival!
Ontem o Papa Francisco criticou as pessoas que dizem que são católicas mas depois agem de forma desonesta no trabalho, ou metem o lucro acima da ética. Hoje soubemos que em Fátima alugam-se espaços para dormir em saco de cama por mil euros por noite. Dizias, Francisco?

O pastor adventista que ontem foi detido por abusos sexuais afinal foi destituído do seu cargo antes de terem começado a circular os boatos sobre esses mesmos abusos. Uma fonte próxima da igreja deu hoje mais alguns detalhes sobre esta triste história.

O Papa Francisco voltou hoje a falar sobre a questão do casamento e do divórcio, enfatizando que justiça e misericórdia são sinónimos aos olhos de Deus.

Do Egipto chega a notícia dramática de uma vaga de assassinatos de cristãos na difícil região do Sinai. Já morreram sete, a comunidade está a fugir.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Trump quer católicos e papa condena "estrábicos"

Esta segunda-feira ficou marcada pelo histórico acordo de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC. O secretário de Estado do Vaticano, que dentro de alguns dias estará em Portugal, esteve presente no momento da assinatura.

Dentro de menos de uma hora começa o debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Os dois estão empatados nas sondagens, mas Trump quer mais votos católicos e contratou dezenas de católicos conservadores, incluindo alguns que assinaram uma carta aberta contra ele em Março, para o aconselhar.

Durante o fim-de-semana o Papa recordou a morte de dois padres mexicanos, raptados e assassinados, e encorajou a Igreja daquele país que está a travar um braço-de-ferro com o Governo sobre o casamento homossexual.


Na véspera, Francisco esteve com familiares de vítimas do atentado de Nice e disse que a única forma de combater o ódio demoníaco é através do amor e do perdão.

Se é daquelas pessoas que pensa que os jornalistas são todos contra a Igreja, então saiba que o porta-voz da Conferência Episcopal de Espanha não concorda consigo…

A semana passada publiquei um artigo brilhante de Anthony Esolen no The Catholic Thing em Português. O autor lamenta o triunfo da ideologia sobre a busca da verdade e termina parafraseando São Paulo. Vale mesmo a pena ler.

E termino com um desafio para todos os educadores de infância. Vai haver uma peregrinação a Fátima, dirigido a todos os que trabalham com crianças até aos 6 anos. A data limite de inscrição é 30 de Setembro, portanto apressem-se! Todas as informações nas imagens por baixo.



quinta-feira, 7 de abril de 2016

Lei anti-gay ou pró-liberdade de consciência?

Governador Phil Bryant
Discriminador ou defensor da
liberdade de consciência?
Tenho visto várias pessoas a manifestar revolta pela aprovação de uma lei no Mississippi, nos EUA, que, segundo a imprensa “permite a discriminação contra homossexuais”.

Eu, se me fiasse no título, também ficaria revoltado. Mas não me fio nas manchetes porque sei que estes assuntos raramente são assim tão simples.

Ninguém pense que com esta nova lei uma gelataria pode recusar servir gelados a uma pessoa simplesmente porque é homossexual. Os artigos da lei são claros e pretendem evitar situações que têm surgido nos Estados Unidos nos últimos anos, como por exemplo: 

- Pastelarias que foram multadas por se recusarem a fazer bolos para casamentos homossexuais, ou fotógrafos por se recusarem a trabalhar nesse tipo de evento. O que está em causa aqui não é discriminação contra homossexuais, mas a recusa em participar num evento que atenta contra as suas consciências. Se dois homossexuais tivessem pedido um bolo de anos, ou umas flores para enfeitar a casa, isso não seria um problema. Por isso, como é evidente, o problema não está nem na pessoa nem na orientação sexual mas sim no acto do casamento.

- Escolas, Igrejas, instituições de carácter religioso etc. que podem ter muitas razões para não querer contratar alguém que professa valores ou vive publicamente de uma forma que choca com os valores da instituição.
Para dar um exemplo, eu compreendo que uma escola católica prefira não contratar para trabalhar na cantina, à vista das crianças, um travesti que insiste em ir vestido de mulher para o trabalho apesar de ser um homem; ou um professor que decidiu casar com outro homem, numa cerimónia pública, e insiste em falar disso à frente dos alunos como se fosse uma coisa boa. É uma questão de respeito pelos valores da instituição, como o professor em causa deve compreender.
Para tornar o exemplo mais próximo, se amanhã o Sporting me contratasse para fazer tradução simultânea numa conferência, e eu aparecesse com camisola do Benfica, compreenderia que me mandassem embora.

- Escolas ou outras instituições que não querem permitir que alunos do sexo masculino usem os balneários femininos apenas porque se "identificam" como raparigas. Parece absurdo? Está a acontecer e não é só um caso. A lei menciona especificamente isso.

- Pessoas que alugam quartos ou casas e preferem, por razões morais, não o fazer a casais homossexuais e/ou casais heterossexuais não casados.

- Agências de adopção que, independentemente de a adopção por homossexuais ser legal ou não, recusam colocar crianças com casais homossexuais ou não casados. A verdade é que se existisse uma lei destas no Reino Unido talvez não tivessem sido encerradas TODAS as agências de adopção católicas em Inglaterra e na Escócia.

Quero apenas deixar muito claro, porque me parece fundamental, que existe uma grande diferença entre recusar um serviço a alguém simplesmente porque é homossexual – o que me parece absolutamente condenável – e recusar tomar parte activamente numa cerimónia ou num ritual que atenta gravemente contra a consciência. Esta lei, a meu ver e tendo-a lido, procura não consagrar a discriminação contra os homossexuais ou quaisquer outros, mas sim proteger o direito à objecção de consciênciade prestadores de serviços e funcionários públicos.

Não me surpreende que alguns órgãos de imprensa apresentem isto como um acto de discriminação, mas é pena e não me parece que contribua para um debate racional.

Repito que li a lei e, sinceramente, não me parece que haja nela margem de manobra para fazer discriminação pura, tipo rejeitar um cliente num restaurante porque não gostamos da roupa que tem vestido, mas como não sou jurista não posso garantir que alguém não tente invocar esta lei para fazer precisamente isso. O que posso dizer, tendo acompanhado o debate, é que a lei não tem esse objectivo e espero muito sinceramente que isso não aconteça.

Se mesmo assim não estão convencidos, convido-vos a ler o documento por completo, como eu fiz agora, e que me digam com base nessa leitura quais as vossas objecções.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Não confundir família com outro tipo de união

O Papa Francisco discursou esta manhã à Rota Romana e disse que o mundo não pode confundir a família natural com outras formas e união. Disse também que a falta de fé não chega para justificar a nulidade de um casamento, esclarecendo assim uma dúvida que deu bastante que falar há uns meses.

Hoje foi dia de publicar muita coisa no blog. Começo com as transcrições integrais das entrevistas do padre Peter Stilwell e de Esther Mucznik, a propósito da reportagem que fiz de antecipação à visita do Papa Francisco à sinagoga de Roma.

Essa visita, se bem se lembram, deu origem a uma polémica nas redes sociais sobre se os cristãos têm obrigação de evangelizar os judeus, ou não, para a qual contribuí aqui, respondendo a Tiago Cavaco, pastor evangélico. Entretanto dei-me conta da preocupação de alguns protestantes, que temiam que eu estava a dizer que a posição do Tiago é a de todo o protestantismo. A Rute Salvador, que é pastora na Igreja Presbiteriana, mandou-me a sua opinião, que publiquei, com a sua autorização.

E porque o assunto dá pano para mangas, isolei noutro post a resposta do padre Peter sobre esta questão à qual juntei aposição de um bispo jordano, que entrevistei noutro âmbito, e que vai no sentido contrário.

Há, como vêem, muito para ler.

Mas mesmo que não tenham tempo para nada disto, por amor de Deus não deixem de ler o artigo de Randall Smith do The Catholic Thing que critica o facto de a nossa sociedade conviver, aparentemente sem grande preocupação, com o facto de 92% dos bebés com trissomia XXI serem abortados. Bem a propósito no dia da Caminhada pela Vida, nos EUA.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tratar os empregados como família e conselhos para CPM

Remember, remember... Martyr
Já são conhecidos alguns dos detalhes dos dois livros que revelam escândalos sobre o Vaticano. Há uma coisa importante a recordar… É que neste caso, os escândalos só vieram à luz do dia por causa da reforma interna que está a ser feita, o que não deixa de ser um bom sinal.

O Papa Francisco avisou as famílias que não se pode viver (bem) sem se perdoar.

Já hoje D. Manuel Clemente disse aos gestores cristãos que devem tratar os seus trabalhadores como se fossem a sua própria família. Um desafio, certamente.


Atenção a todas as pessoas envolvidas em cursos de noivos ou CPM, não percam o artigo desta semana do The Catholic Thing, com conselhos e recomendações muito práticas para quem prepara jovens para o casamento.

Hoje publiquei a transcrição integral da entrevista que fiz ao bispo nigeriano de Zaria, que sobreviveu a um atentado do Boko Haram. Vale bem a pena ler, para perceber como vivem os cristãos naquela região.

Deixo-vos por fim com uma recomendação e um aviso. Chegou-me à atenção uma livraria online dedicada só a livros católicos. Visitem a Livraria Filoteia, também no Facebook, para ver os melhores livros da milenar tradição da Igreja Católica - Stª Teresinha, S. Josemaría, S. Francisco de Sales, S. Luís de Montfort, Tomás de Kempis e outros.

E na segunda-feira, dia 9 de Novembro, estarei às 18h30 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa para falar dos desafios à Liberdade Religiosa. Apareçam, se puderem. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Preparação para o Casamento

George Sim Johnston
Passei mais de vinte anos a dar cursos de preparação para o matrimónio na arquidiocese de Nova Iorque e, pelas minhas contas, se todos os casais a quem eu já falei se reunissem num só local, facilmente enchiam o Madison Square Garden [pavilhão desportivo com capacidade para mais de 18 mil pessoas]. De vez em quando ainda me chamam para ir dar formação a uns cinquenta e tal casais que precisam de mostrar que fizeram o CPM antes de poderem casar pela Igreja.

Escusado será dizer que aparece de tudo entre estes casais em termos de crenças e descrenças. Há muitos não-católicos e é seguro dizer que uma maioria dos católicos não sabe quase nada sobre a fé. Metade dos casais já vive junto e parecem pensar que a promessa que estão prestes a fazer não vai mudar grande coisa na sua relação. Uma prova disto é que alguns não planeiam ir de lua-de-mel depois do casamento.

E é claro que uma maioria não partilha o entendimento da Igreja em relação ao sexo. Para esta geração, o sexo é um intercâmbio consentido de prazer entre adultos, que determinam o seu significado ad hoc. Não há dados adquiridos no que diz respeito à sexualidade; é simplesmente aquilo que se quer fazer dele. Estou a exagerar, mas só um bocadinho.

No meu caso, tratando-se de Nova Iorque, alguns vêm com atitude e estão preparados para desafiar o orador durante a fase das perguntas e respostas. Alguns formadores de CPM nem aceitam perguntas, para evitar que a situação se descontrole.

Tudo isto faz com que um CPM em Manhattan seja uma das “periferias” de que o Papa Francisco tanto fala. Certamente não é uma zona de conforto para o orador. Mas o trabalho não podia ser mais importante. Na verdade, um bom CPM devia ser uma prioridade para qualquer bispo, ao nível de um bom seminário e programa de catequese continuada. Em muitos casos é a última oportunidade que a Igreja tem para chegar às pessoas que nele participam.

Atitude errada...
Os formadores dos CPM tendem a escolher uma de duas abordagens, nenhuma das quais funciona. Uma é a abordagem fácil e terapêutica. Um diácono de meia-idade aparece e faz umas piadas. Usa muitos chavões psicológicos e evita falar de qualquer ensinamento da Igreja que ache que não vai cair bem com os jovens. Isto pode ser constrangedor. Mesmo os não-crentes entre os formandos ficam irritados perante o espectáculo de um orador a tentar pôr-se ao nível do que supõe serem os hábitos dos jovens.

Depois há os rigoristas. Sobretudo no que toca a sexualidade, estes vêm preparados para dar um sermão. Anunciam, por exemplo, que a contracepção é um pecado mortal. O pecado mortal é certamente algo que existe, e o uso de contraceptivos é certamente desordenado. Mas quando um formador de CPM usa o termo “pecado” num curso, metade dos formandos desligam e já não vão ouvir mais nada do que o orador tem para dizer. Acabou de cometer um erro para o qual o magistério está sempre a alertar – legalismo.   

Eu sei que ao escrever isto posso estar a perturbar os católicos conservadores que pensam que a doutrina deve ser expressada de forma clara e firme. Não podia estar mais de acordo. Mas concordo também com o Papa Francisco quando este diz que a primeira obrigação da Igreja é ir ao encontro das pessoas onde elas estão, com uma preocupação pelo seu bem-estar. Por isso a primeira coisa que temos de perceber é que esta é uma geração que tende a não aceitar bem a imposição de regras ou a ideia do pecado como uma categoria teológica.

Mas ao mesmo tempo, estes casais procuram orientação. Estão rodeados de casamentos infelizes e não querem repetir os mesmos erros que viram cometidos pelos seus pais ou amigos. Querem fazer a coisa certa. Ouvirão de bom grado conselhos sobre temas como comunicação e como gerir (e ultrapassar) uma discussão. Serão receptivos a histórias sobre o casamento dos oradores, que possam ser instrutivas e divertidas.

Então a conversa pode tocar temas mais profundos. O orador pode desafiar os casais com ideias que poderão nunca ter ouvido articuladas. Por exemplo, que o verdadeiro amor está na vontade e não nas emoções. Que o amor num casamento é a decisão de continuar a tomar decisões. Que um “dom de si” radical enriquece a vida de formas inesperadas. Que o ensinamento de Cristo sobre a indissolubilidade do casamento é um apelo a fazer com que este corra bem – a felicidade não é algo fácil de alcançar. Que os métodos naturais de planeamento familiar melhoram a vida sexual – se vamos ter relações sexuais com a mesma pessoa durante trinta ou quarenta anos, tem de haver um pouco de ascetismo para que tudo corra bem. Que os filhos são o nosso maior legado – mesmo o trabalho mais bem feito no escritório acabará por ser um conjunto de dossiês no sótão ou será apagado pelos informáticos da empresa.

Atitude certa...
O orador – ou oradores, porque os casais são os melhores a fazer isto – deve pelo menos deixar a impressão de que a Igreja pensou profundamente sobre estes assuntos. Os ensinamentos católicos sobre a sexualidade, por exemplo, não foram inventados no início da Idade Média por um bando de monges celibatários a tentar reprimir a vida sexual de toda a gente. Pelo contrário, baseiam-se numa leitura profunda do homem e da mulher enquanto seres sexuais. Devem ajudar-nos a florescer. Como diz São Tomás, Deus só se ofende com actos que não são para o nosso bem. Ao mesmo tempo, delicia-se por vivermos de forma mais completa a “lei do dom” inscrita no nosso ser.

Acima de tudo, devíamos persuadir os casais de que tanto eles como a sociedade têm a ganhar se eles se esforçarem com os seus casamentos. Bem como a Igreja. Há verdade na ideia de que o declínio da família é que conduziu ao declínio da religião, e não o contrário. Ao fim do dia os casais poderão nem ter ideia da quantidade de doutrina que acabaram de absorver. Geralmente será melhor assim. Talvez até voltem a falar do assunto em casa.


George Sim Johnston é autor de “Did Darwin Get It Right? Catholics and the Theory of Evolution” (Our Sunday Visitor).

(Publicado pela primeira vez no sábado, 31 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Marx, Müller e o Tarzan das ocupações surpreendem

Cardeal Reinhard Marx
Foram hoje apresentados os relatórios dos grupos de trabalho no sínodo, relativos à terceira parte do instrumentum laboris, precisamente a parte mais “polémica”. Aqui pode encontrar o essencial de todos os relatórios.

Mas o que mais admirou foi o facto de o grupo de língua alemã ter apresentado uma proposta de admissão de algumas pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. A surpresa, lá está, não é a proposta, mas sim o facto de ter sido aprovada por unanimidade nesse grupo, o que significa que os cardeais Marx e Kasper estiveram de acordo com o cardeal Muller.

Durante a conferência de imprensa de hoje, o Cardeal Marx aproveitou também para lamentar o tom com que o cardeal Pell se dirigiu aos defensores da mudança da prática da Igreja nestes casos.

A preparação para o matrimónio tem sido um dos assuntos em cima da mesa. A jornalista Matilde Torres Pereira foi ver o que se faz nesse campo em Portugal, e se é suficiente.

Anda a circular uma notícia que diz que o Papa está com um tumor benigno no cérebro, mas o Vaticano desmente categoricamente

O que parece ser mesmo verdade é que alguém do Vaticano escreveu uma carta de apoio ao “Tarzan das ocupações”… pois… mais vale lerem, porque não sei bem o que dizer sobre este assunto.

O padre Tolentino venceu um prémio literário pela obra “A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa”

E hoje é dia de artigo do Catholic Thing. O padre Jerry Pokorsky estreia-se na versão portuguesa com um texto que mostra as diferenças entre a perspectiva terrena e a perspectiva cristã sobre o que constitui um “grande homem”.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

“A nossa prioridade é o casamento”

António e Marta Pimenta de Brito
Transcrição integral da entrevista feita a António e Marta Pimenta de Brito, o casal por detrás do portal datescatolicos.org. A reportagem pode ser lida aqui.


Que projecto é este?
António: É um site de encontros para católicos em que o primeiro objectivo é promover o encontro das pessoas e em segundo lugar a partilha da fé e dos valores.

Falámos com a Igreja e temos já alguns apoios na Igreja, desde o bispo-auxiliar de Lisboa D. Nuno Brás, ou o secretário-geral das Conferências Episcopais Europeias, o padre Duarte da Cunha, e outras pessoas. 

E de facto a ideia é encontrar solteiros, pessoas que querem casar e desejem encontrar uma pessoa e nós, através desta plataforma online proporcionamos esse encontro e ao mesmo tempo também fornecemos conteúdos, ligados à questão da fé, valores, “lifestyle”, valores humanos e também organizamos eventos. Ou seja, não é só algo online, é algo que também se realiza cá fora, com encontros, retiros, palestras, mas também caminhadas, workshops sobre vários temas, a nossa vida, encontros, etc.

É um modelo que já existe noutros países, não é?
António: Exactamente. 

Marta: Esta plataforma nasceu há dez anos em alemão. Não só em países como a Alemanha, Suíça e Áustria mas também noutros como a Eslovénia e a República Checa. Nós somos o décimo país a entrar e ficamos responsáveis por todos os países de expressão portuguesa e todos os portugueses espalhados pelo mundo, que são bastantes, se pensarmos que um terço dos portugueses está fora de Portugal. 

Não existe nada disto em Portugal... No Brasil também não?
Marta: No Brasil existe, e na América Latina este tipo de sites são conhecidos. Aliás, o termo dating é de origem anglo-saxónica e quer na cultura da América do Norte, quer na cultura latina da América do Sul existem diferentes tipos de site. 

Mas especificamente católicos, no Brasil, já existe?
António: Temos ideia que existe um, ou dois. De qualquer forma este site que estamos a desenvolver também se adapta muito não só ao Brasil mas também a Portugal, cada um tem as suas especificidades culturais, e essa adaptação também é importante. Depois, pertencer a um grupo que já tem muita credibilidade, já tem apoio na Igreja, neste caso na Igreja alemã, e nas outras igrejas de outros países. Portanto é um grupo que tem credibilidade, por ser algo que é apoiado pela Igreja e nesse sentido acaba por ter essa força.

Marta: E tem por base um modelo europeu, tendo nascido na Alemanha.

Fazendo um bocadinho de advogado do Diabo... A cultura dos "dates" não é uma coisa portuguesa. Acham que os portugueses se vão adaptar a esse conceito dos encontros? Nós estamos mais habituados a conhecer as pessoas através de interacção social... 
António: Essa é uma boa questão, que nós nos colocámos, obviamente e todos colocam, especialmente algumas pessoas ainda muito no paradigma do escrito. Hoje em dia vivemos quase 30% do nosso tempo na internet.

Voltando à questão do termo "date", de facto é verdade que é um termo mais anglo-saxónico, até porque eles assumem muito mais esta questão do encontro. Quando se encontram é para ver se dá ou não dá. Nós aqui "engonhamos" um bocadinho, andamos a organizar cafés, depois é ou não é. 

Por outro lado, a vantagem de ser católico, é que nós não andamos propriamente com um sinal na testa a dizer que somos católicos. Aqui acaba por facilitar um bocadinho. Mas o online ajuda-nos a triar certas coisas. Temos um questionário, que não é obrigatório, em que a pessoa pode falar um bocadinho sobre si: "O que é que eu faria numa situação com um mendigo na rua?", "O que é que faço num sábado à tarde?" Pequenas coisas da personalidade. 

Por outro lado, em relação aos valores, que Papas aprecio mais ou com os quais me identifico mais? Que santos? O que é que faria numa determinada situação? Triamos todas estas características e fazemos uma combinação. Há partida a pessoa fica a conhecer o perfil da outra.

Portanto o site recomenda pessoas conforme o nosso perfil?
Marta: Mas cada pessoa pode também fazer a procura. A pessoa começa por fazer um perfil e vai descrevendo-se da forma que melhor o define, com diferentes características, como a cor dos olhos, mas também os santos que mais o inspiram, a forma como passam um sábado e pode fazer a pesquisa em que coloca determinados parâmetros, por exemplo a zona geográfico. Por exemplo, se é de Lisboa e prefere procurar pessoas na zona da Grande Lisboa, pode fazer esse tipo de pesquisa. 

A questão da combinação é no sentido de facilitar e é uma proposta, mas a própria pessoa pode ir pesquisar perfil a perfil.

Outra questão, será que em Portugal existe gente suficiente para um site como este funcionar? Já têm objectivos a esse respeito
António: Claro, a pergunta é importante, porque este projecto não só é algo com objectivo pastoral, de ajudar as pessoas, mas é algo que é gerido profissionalmente e tem de ser sustentável. A plataforma é complexa, e exige manutenção e daí também ter um preço, mas de facto Portugal é eminentemente católico. Olhamos para alguns países, como Espanha que ainda tem bastante anti-clericalismo, que nós também temos, mas temos muito menos. Portugal é um país católico e mesmo que às vezes, como dizem os números da Universidade Católica, que 80% do país é católico, havendo um aumento do número de evangélicos, por exemplo, mas 20% vão à missa. Podemos dizer que os convictos são esses, mas muitas outras podem não ir ao culto mas continuam a identificar-se com a Igreja e com os seus princípios. Portanto esta iniciativa vem na melhor altura, não só no sínodo da família, como há muitas pessoas que sendo um país católico que por várias circunstâncias na vida não conseguiram encontrar aquela pessoa, mas que têm esse desejo profundo de amar e ser amado ainda, e de encontrar alguém e ser felizes.

Falando em números, qual é a vossa expectativa?
Marta: Nós neste momento temos, a cada minuto, os números de interessados a deixar o email e estamos bastante optimistas de que realmente a nossa expectativa inicial dê bons frutos e prevemos que daqui a um ano possamos já ter resultados concretos de termos conseguido, através da plataforma, proporcionar encontros que de outra forma não seriam possíveis. Ou por distância, ou porque as pessoas [não têm tempo], e Portugal é um país em que se trabalham muitas horas, o que muitas vezes dificulta que as pessoas tenham disponibilidade de encontrar a sua cara metade e que partilhe os valores cristãos. Como dizia há pouco o António, não temos escrito na testa que somos católicos. Portanto estamos optimistas e o feedback das pessoas, porque já temos uma página de Facebook e temos a página em que as pessoas podem pedir mais informações e todos os dias recebemos emails e mensagens de pessoas bastante interessadas, a perguntar por exemplo se com 62 anos, sendo uma pessoa viúva se pode inscrever, mas temos também jovens que nos perguntam se não é Deus que escolhe? Se Ele não tem um plano para eles. Todo o feedback que temos recebido nos faz pensar que podemos continuar a estar optimistas e que isto vai ajudar muitos casais a chegar ao altar católico.

António: Estes sites são um bocado diferentes daqueles para encontros ocasionais, como aquele que esteve recentemente nas notícias, que tem cerca de 34 milhões de utilizadores. Não é esse o nosso campeonato nem o nosso objectivo. Por ser de relações sérias e por ter um pagamento associado, se as pessoas vão é porque querem algo sério. O pagamento não é só porque querem algo sério, é porque o sistema é complexo e tem moderação. Mas é para dizer que este site não tem o volume que têm os sites de encontros ocasionais, que são os números que sabemos.

Nós não temos isto para ficarmos ricos, é antes de tudo uma missão, mas quero dizer que os números não são astronómicos, mas também não são demasiado diminutos. Podemos dizer que o site alemão já tem 5000 membros e já conseguiu ter 400 casamentos...

5000 membros, e fundado à quanto tempo?
Marta: Este foi fundado há 10 anos. Mas nós quando falamos de 5000 membros é uma média, porque há pessoas que saem e outras que entram, alguns porque casam.

Dos países que já fazem parte, há algum que se assemelhe a Portugal em dimensão ou prática religiosa, que possam ter como modelo mais próximo?
Marta: Temos por exemplo a Lituânia, que é também um país católico, de dimensão não igual à nossa, e depois também a questão de características culturais, ser uma cultura de leste ou de oeste, portanto totalmente igual nunca podemos dizer que é. Também a nível histórico somos muito diferentes e temos diferenças geracionais também bastante acentuadas na nossa cultura, portanto não diria que existe um país que possa ser exactamente um modelo para o nosso país.

António: O que é muito curioso e muito surpreendente para nós é o acolhimento que tem tido nos media tradicionais, não-católicos, a nossa iniciativa. Esperaríamos que fosse ao contrário, tendo em conta que é uma iniciativa a favor da família. Mas de facto tem tido um acolhimento bastante interessante.

Mas é engraçado que muitas pessoas não-católicas, ou menos praticantes, vêm ter connosco e dizem que sempre quiseram casar, não sabem é como. Obviamente isto é um desafio, temos de acolher todos, e também, obviamente é um desafio, mas ao mesmo tempo é surpreendente e interessante. É um desafio, mas é também gratificante.

Há um pagamento associado, qual é o valor?
Marta: Temos a trimestralidade por 24 euros e a anuidade por 60 euros. A experiência nos outros países é que é mais vantajoso a anuidade, que acaba por ficar apenas a 5 euros por mês, porque é mais vantajoso. Há casos em que pode ser, num date que encontrem o marido ou a sua esposa, mas há pessoas que têm a experiência que só ao terceiro é que se faz o clique. 

É uma plataforma que tem custos. Disseram que não estão aqui para enriquecer, é também uma questão de missão, mas certamente não têm amplitude para estar a perder dinheiro com esta iniciativa. Quantas pessoas precisam de ter inscritas a pagar 5 euros por mês, mais coisa menos coisa, para isto ser rentável e poder continuar.
António: Isso é um número que é preciso ver, só pode ser apurado na altura, porque há várias questões que têm de ser tidas em conta ao nível de custos de implementação, mas de facto não é um valor... É um projecto em que investimos, mas temos toda a confiança que é um projecto que vai ser sustentável. Não é um projecto que nos vai dar muito dinheiro, nem é esse o objectivo, mas penso que vai cobrir os custos, isso sim.

Mas não querem dizer quantas pessoas é que estimam que têm de estar inscritas para isso...
António: É algo que, neste momento, não podemos prever, tendo em conta que ainda não foi feito o lançamento.

Gostariam de, ou prevêem, ser convidados para algum dos casamentos que possam surgir daqui?
António: Obviamente gostávamos bastante...
Marta: A nossa principal preocupação é tentar proporcionar, porque sabemos que nem sempre é fácil encontrar a cara metade e quanto isso é importante, porque temos diversos estudos portugueses e estrangeiros que nos dizem que aquilo que as pessoas querem é constituir família e serem felizes e realmente temos muitas pessoas em Portugal que não conseguiram encontrar, por isso, se daqui a dez anos pudéssemos ver esses casais felizes, para nós isso é a principal motivação. Se nos convidariam ou não é acessório.

António: Os casamentos é importante, é uma realidade palpável, obviamente que também o processo todo que existe, do acompanhamento na fé, tudo isso também é importante, porque também saem daqui muitos amigos, no exemplo que temos da Alemanha, não apenas casamentos mas também a amizade e conhecimento entre todos, também é interessante de ver. E essa caminhada também é importante.

Isso que acabou de dizer é importante... Não teria feito mais sentido talvez apresentar isto mais como uma rede social para católicos se poderem conhecer, porque há muitas pessoas que vivem desacompanhadas na fé, mesmo que não estejam à procura de uma relacionamento amoroso, ou isso não seja prioridade, querem simplesmente estar em contacto com outras pessoas... E depois daí podiam surgir eventualmente relações, do que estar a pôr o enfoque muito na questão do amor?
António: Isso é uma questão, aliás acho que já existe uma rede social desse estilo, não sei se em Portugal ou se noutro país, talvez o Brasil. Isso é importante e é importante existir, é interessante, mas não é o nosso objectivo. O nosso objectivo é mesmo proporcionar um encontro a pessoas que têm valores comuns e querem encontrar uma pessoa para a vida. Porquê? Porque nós vemos no nosso caso, como casal, o facto de termos algumas ideias e princípios em comum, facilita muito a nossa vida. Princípios cristãos como o compromisso, a fecundidade, a fidelidade, o perdão, muitos outros até relacionados com a nossa vida em comum, o respeito pelo outro, colocar o outro em primeiro lugar. Tudo isso, nós tendo essa visão cristã das coisas, facilita muito. Obviamente é importante a química, mas depois algo sólido que pode perdurar pelo tempo. 

As pessoas procuram muito amar e ser amados, nem todos têm vocação para casar, mas os que têm, nós queremos que possam chegar a conhecê-lo. Uma rede social, com amigos, tem os seus objectivos, mas nós queremos outro objectivo. Se a pessoa quer encontrar alguém, aqui é facilitado esse caminho e esse encontro.

É engraçado que existe algum preconceito com o online. Mas temos grupos eclesiais de rapazes e raparigas, universitários, para casais, que acabam muito por fazer essa abordagem. Aqui, o meio que usamos é a nossa especificidade, o online, porque as pessoas hoje em dia estão no online. Já não estamos no tempo do Gutemberg, que foi importante. O online pode ser usado para coisas más, mas também para coisas boas e é isso que nós queremos também proporcionar, acompanhado também com a Igreja. Temos padres que nos acompanham, pessoas que nos acompanham e nos dirigem e através desses meios, apoiados por eles conseguimos, e se Deus quiser, porque para Deus nada é impossível, acompanhar essas pessoas.

Marta: Exactamente. A nossa prioridade é o casamento.

Partilhar