quarta-feira, 31 de julho de 2019

Dançando com lobos de bronze

Lembram-se daquela reportagem da TVI sobre o “grupo secreto” de católicos que procurava “curar” homossexuais? Pois bem, sem grandes surpresas, a reportagem foi arrasada pela ERC.


Conheça João Armando Gonçalves, o Lobo de Bronze.


O Evangelho de Domingo foi sobre o Pai-Nosso. No artigo desta semana do The Catholic Thing o padre Paul Scalia faz uma bonita explicação sobre o sentido de rezar como uma criança.

Reza Como uma Criança

Pe. Paul Scalia
“Disse-lhes, ‘Quando rezarem, digam: “Pai…’” Assim arranca a belíssima catequese do Senhor sobre oração (Lc. 11, 1-3). Devemos pensar bem sobre essa primeira palavra: Pai. Dizer Pai significa colocarmo-nos no papel de filhos. Dizê-lo com autenticidade implica conhecer-me como filho de Deus. Por isso a primeiríssima palavra do Senhor sobre oração contém o princípio da filiação divina – o facto de sermos filhos de Deus através do Filho, capazes de chegar ao Pai com Ele, através dele e nele. A oração cristã assenta nesta verdade fundamental. Toda a oração flui da nossa identidade enquanto filhos de Deus. O Pai é simultaneamente a primeira e a última palavra na oração.

Na verdade, a forma directa como se pedem estas instruções ao Senhor já são indicativas da atitude filial necessária para a oração: “Um dos seus discípulos disse-lhe, “Senhor, ensina-nos a rezar’”. O primeiro passo para a oração é compreender, como este discípulo, que não sabemos rezar como convém (Rom. 8,26). A oração não começa com a nossa força e com os nossos conhecimentos, mas com a nossa fraqueza e docilidade.

Esta verdade é dura para os orgulhosos, mas consoladora para todos os que já tentaram rezar e não foram capazes. Para rezar temos de reconhecer que precisamos de ser instruídos. Na verdade, todas as orações começam com “Senhor, ensina-me a rezar”.

Uma componente essencial desta oração filial é a perseverança. Vemos isto no Patriarca Abraão, cuja oração antecipa a dos filhos de Deus. (Cf. Gen. 18, 20-32). Nesta discussão sobre o destino de Sodoma e Gomorra ele parece uma criança a suplicar por mais uns minutos antes de ter de ir para a cama. Com a perseverança de uma criança que já tem em vista um objetivo e não se deixará dissuadir, Abraão está continuamente a regressar ao Senhor com uma nova proposta.

Mas existe uma diferença importante entre a perseverança de Abraão e a nossa. Ele apela à justiça de Deus, que não desbaratará os inocentes com os culpados. Abraão clama: Não deverá o juiz de todo o mundo agir com justiça? Na verdade, devia. Mas nós apelamos mais até à misericórdia de Deus. Pedimos-lhe que sustenha a sua fúria e que nos dê a sua ajuda não porque a merecemos, mas porque precisamos radicalmente dela. A nossa fraqueza reivindica a sua assistência.

É este seu apelo à misericórdia do Pai que Nosso Senhor enfatiza nas suas instruções. Temos confiança na nossa oração ao Pai não porque gozamos de um direito absoluto aos seus dons, mas porque sabemos que somos seus filhos. Por isso é que podemos regressar continuamente a Ele. Pois se nós, que somos maus, somos capazes de mostrar misericórdia, quanto mais o nosso Pai que está nos céus se apressará a ajudar-nos?

Claro que, sabendo do fim terrível que tiveram Sodoma e Gomorra, podemos pensar que o esforço de Abraão foi em vão. De que serviu toda a sua insistência? Aparentemente, nada. E isso chama atenção para outra dimensão da oração verdadeiramente filial: o abandono à vontade do Pai. Um filho descansa na certeza de que a vontade do Pai é supremamente boa. Se uma oração não é atendida é porque o Pai sabe melhor e tem um bem maior em mente.

Jesus reza no horto das Oliveiras
Vemos o próprio Senhor a adotar esta postura quando Ele reza a mais difícil de todas as orações filiais: “Abba, Pai, para ti tudo é possível. Afasta de mim este cálice, mas não seja feita a minha vontade, mas a tua”. (Mc. 14,36).

De certa forma, esse bem maior já está realizado em cada acto de oração. A oração de Abraão não foi desperdiçada porque através dela ele cresceu na sua capacidade de entrar em diálogo com Deus. Sim, devemos apresentar as nossas necessidades terrenas a Deus. Podemos, contudo, tornarmo-nos tão focados na resposta externa às nossas orações – o “remediar” da situação – que deixamos de ver os efeitos internos que a oração tem em nós.

O nosso Pai não quer simplesmente resolver todos os nossos problemas por nós. Ele quer algo mais. Deseja que nos aproximemos dele nas nossas orações, confiando-lhe as nossas preocupações. E se ele resolver, de facto, os nossos problemas, é para que ao experimentar o seu poder e bondade possamos confiar ainda mais nele.

E isto leva-nos àquela última e misteriosa linha na catequese do Senhor: “Quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará o Espírito Santo a quem o pedir?” Procuramos e pedimos muitas coisas na nossa oração. Batemos (e às vezes com força) na porta do Céu com vários pedidos. Mas as palavras de Nosso Senhor indicam que o fim último das nossas petições não é esta coisa ou aquela, mas algo maior: o próprio Espírito.

Nosso Senhor responde sempre às nossas orações (dizendo ou sim ou não) como o objetivo de dar ou aumentar o dom do Seu Espírito. A nossa oração pode ser dirigida apenas a esta ou aquela situação, mas Ele quer que seja mais, para nos aproximar mais de Si. Ele deseja não tanto que recebamos o que pensamos precisar aqui e agora, mas que cresçamos em união com Ele.

Quer o compreendamos ou não, a nossa oração é sempre dirigida a este aumentar do Espírito, o Espírito de Filiação, que reza de dentro de nós e nos permite clamar: Abba! Pai!


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Adiós Ortega, adeus Cartuxa, olá hospital e missionários em Macau


O Papa Francisco insurgiu-se ontem contra o facto de continuarem a morrer migrantes às dezenas no Mediterrâneo.

Macau mantém-se como porta do Cristianismo no extremo-oriente. O Caminho Neocatecumenal vai gerir um colégio de missionários destinados à Ásia, que estudarão na Universidade de São José.

Boas notícias também do Iraque, onde a Igreja abre um hospital que serve toda a população e promove a presença cristã na região.

Morreu o cardeal Jaime Ortega, que ajudou a manter viva a Igreja Católica em Cuba e desempenhou um papel muito importante nas relações entre o Vaticano e Havana, mas também entre Cuba e os EUA.



quarta-feira, 24 de julho de 2019

Boris, o primeiro... Qualquer coisa... em Downing Street

Boris Johnson é o novo primeiro-ministro do Reino Unido. Será também o primeiro católico a ocupar Downing Street? É bastante mais complicado do que parece…


O bispo de Portalegre-Castelo Branco descreve como “desolação total” o cenário em torno de Mação, que esteve vários dias a arder. Já o bispo da Guarda pergunta quem é que ganha com este flagelo e critica o “esquecimento do interior” por parte das autoridades.

A Polónia não escapou à crise dos abusos sexuais. É este o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Aconselho ainda a lerem o artigo da semana passada, sobre como ser um Bom Samaritano nos dias de hoje.

Rezem pela Polónia

Stephen P. White
O drama que abalou a Igreja dos Estados Unidos ao longo do último ano pode distrair-nos da dimensão global da crise de abusos sexuais praticados pelo clero, e das más práticas episcopais a ela associados. Aqui na Polónia, onde me encontro desde finais de Junho, a Igreja está a enfrentar o seu próprio escândalo de abusos.

Um relatório publicado em Março pela Conferência Episcopal da Polónia reconheceu que desde 1990 um total de 382 padres foram acusados de abusos sexuais de menores. Estas alegações foram feitas por 625 vítimas diferentes.

A maioria das vítimas na Polónia tinha mais de 15 anos, o que é bastante mais do que nos Estados Unidos. A maioria das vítimas, 58,4%, são do sexo masculino, segundo os bispos polacos. Note-se que a idade de consentimento na altura em que o relatório foi publicado era de 15 anos e a maioridade atinge-se aos 18.

A forma como se lidou com os casos tem sido, em certas alturas, e de forma tragicamente familiar, gravemente desadequada. Mudança de padres para outros lugares, culpabilização dos media e por aí fora. De certa forma, a Igreja aqui está no mesmo lugar em que estava a americana há 25 anos.

A resposta dos bispos polacos variou entre o cuidado, sincero e o mais insensível. O arcebispo Wojciech Polack de Gniezno, Primaz da Polónia, insistiu que cada caso de abusos deveria “evocar em nós dor, vergonha e culpa”. Já o bispo de Cracóvia, Marek Jędraszewski, atrapalhou-se todo ao insistir que “tolerância zero” não deve significar “misericórdia zero”. Para o ilustrar escolheu talvez a pior analogia possível: “Quando os nazis adoptaram uma política de tolerância zero para com os judeus, o resultado foi o Holocausto”. Como devem calcular, a comparação não caiu particularmente bem.

Em maio dois irmãos – Tomasz (guionista e diretor) e Marek Sekielski (produtor) – lançaram um documentário chamado “Não Digas a Ninguém”. O filme conta as histórias de sobreviventes de abusos e a resposta inadequada dos bispos polacos. Inclui cenas arrepiantes de sobreviventes a confrontar os seus abusadores.

O relatório dos bispos, lançado em Março, foi uma notícia importante, mas o lançamento de “Não Digas a Ninguém” abalou o país inteiro. O filme foi lançado no YouTube, onde foi visto mais de um milhão de vezes só nas primeiras seis horas. Até à data foi visto mais de 22,5 milhões de vezes, um número incrível tendo em conta que a população total da Polónia é de pouco mais de 38 milhões.

Sendo a Polónia, todo este drama – e o assunto dos abusos sexuais praticados pelo clero em geral – assumiu rapidamente contornos políticos. “Não Digas a Ninguém” foi lançado duas semanas antes das eleições para o Parlamento Europeu.

O partido conservador Direito e Justiça, no poder, tinha ligações próximas com muitos dos bispos polacos. Alguns membros da oposição tomaram nota da revolta provocada pelo filme e tentaram usar os abusos sexuais como tema de campanha. Mas a oposição deu um passo maior que as pernas (incluindo a promoção agressiva da agenda LGBT) e saiu-lhes o tiro pela culatra.

"Não Digas a Ninguém"
Juntou-se a todo este desassossego os comentários feitos pelo Papa Francisco na conversa com os jornalistas a bordo do avião depois da sua visita a Abu Dhabi, em Fevereiro. O Santo Padre estava a defender o registo do então Cardeal Ratzinger e a forma como tinha lidado com alegações de abusos sexuais, nomeadamente em relação ao fundador dos Legionários de Cristo, o padre Maciel. Ao defender Ratzinger Francisco pareceu dar a entender – pelo menos assim o compreenderam vários polacos – que os esforços de Bento XVI tinham sido travados por João Paulo II.

O secretário de longa data de João Paulo II, o arcebispo emérito de Cracóvia, Cardeal Stanisław Dziwisz, saiu em defesa de João Paulo, insistindo que as insinuações baseadas nos comentários ambíguos de Francisco eram injustas. Quando, mais tarde, Francisco elogiou o trabalho feito pelo Papa João Paulo II na luta contra o abuso – chamando-o “corajoso” e dizendo que “ninguém pode duvidar da santidade e da boa-vontade deste homem” –Dziwisz publicou uma carta aberta agradecendo ao Papa Francisco por “pôr fim às tentativas de difamar São João Paulo II”.

Em Junho o arcebispo Charles Scicluna, o homem de mão do Papa Francisco para resolver crises de abusos sexuais, encontrou-se com os bispos polacos. A imprensa polaca especulava que vinha aí uma onda de resignações. Consta que Scicluna foi duro, mas por agora o episcopado polaco permanece intacto.

Contudo, Scicluna aproveitou o momento para sublinhar a defesa do Papa João Paulo II feita por Dziwisz: “Eu sou testemunha da determinação de São João Paulo II em combater os abusos sexuais de menores quando confrontado com os casos. Penso que aqueles que questionam a competência ou a determinação de São João Paulo II em lidar com este fenómeno devem rever os seus conhecimentos históricos.”

Muitos dos polacos com quem eu falei disseram-me que a ideia que reina é que as más notícias nesta questão ainda não acabaram. Os últimos meses têm sido uma montanha russa. As coisas poderão acalmar, sobretudo se os bispos polacos conseguirem evitar tornar os seus erros ainda piores, com alguns dos bispos americanos fizeram. Mas o sentimento geral que obtive de amigos polacos – devotos ou não – é que o pior ainda está para vir.

É difícil prever como é que a Polónia lidará com isso. O país continua a ser profunda e extraordinariamente católico, mas o catolicismo polaco mantém-se em larga medida na defensiva. As alianças entre a Igreja e políticos populistas, por mais devotos que sejam, podem adquirir estabilidade a curto prazo mas com um altíssimo custo a longo prazo. Como aprendemos da pior maneira aqui nos Estados Unidos, o instinto eclesial de defender a instituição, por mais piedoso que seja, pode conduzir a actos que têm o efeito precisamente contrário.

No meu entender a Igreja polaca está muito mais próxima do princípio do que do fim de toda esta trapalhada. A forma como os bispos polacos lidarem com a crise dos abusos ao longo dos próximos meses e anos contribuirá em larga medida para garantir o futuro de um dos exemplos mais belos de verdadeira cultura católica. Esse futuro está agora mais frágil do que muitos gostariam de admitir.

Rezem pela Polónia.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Julho de 2019)

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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Umas cartas são mais cilindrosas que outras

O homem chegou à Lua! Não é propriamente notícia de última hora, mas se nunca viu o Papa Paulo VI a saudar “os conquistadores da Lua” nem sabia que o Papa Francisco evocou a efeméride, então já aprendeu alguma coisa hoje!

O bispo de Pemba, em Moçambique, escreveu uma carta aberta a cilindrar as autoridades pela forma como têm estado a lidar com os alegados ataques jihadistas em Cabo Delgado. Vale a pena ler.

E o Papa Francisco escreveu uma carta menos “cilíndrica” ao Presidente da Síria, a pedir mais esforço para a reconciliação nacional.


E para quem tem dificuldades em ser Bom Samaritano no seu dia-a-dia, a leitura deste artigo do The Catholic Thing do mês passado é indispensável. Aproveitem!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Em Busca do Bom Samaritano

O amor ao próximo é algo que é pedido a todos nós. A parábola do Bom Samaritano, que escutámos no passado domingo, fornece um bom guião. Temos a responsabilidade de reconhecer a necessidade e a miséria humanas, e de lhes responder tanto com atenção pessoal como com generosidade material.

Numa sociedade rica, com mudanças demográficas velozes, contudo, isto requer alguma análise. Poucos são os que, hoje em dia, vivem a familiaridade cara-a-cara das pequenas comunidades. A maioria vive em subúrbios e vai de carro para o trabalho, passando ao largo dos bairros mais pobres.

Claro que os media apresentam-nos muitas imagens de pessoas necessitadas, mas poucos de nós encontramos essas pessoas no nosso dia-a-dia. Existem, contudo, verdadeiras bolsas de miséria humana até no nosso mundo desenvolvido, desde o interior das cidades até às paisagens mais rurais.

Nas nossas ruas existem pessoas com necessidades crónicas. Vemo-las nas esquinas das ruas e nos degraus das igrejas. Algumas estão perturbadas emocionalmente, outras sofrem de stress pós-traumático, outros ainda estão simplesmente a atravessar um mau momento e há os que estão a aproveitar-se do sistema. Mas a desolação emocional e espiritual pode ser ainda mais devastadora.

Os padres que acompanham as Missionárias da Caridade apercebem-se que as irmãs os dissuadem de dar dinheiro diretamente aos necessitados. Lançar-lhes algumas moedas é muito mais fácil do que dar-lhes aquilo de que precisam verdadeiramente: cuidado pessoal moroso. As pessoas que vivem vidas isoladas e pobres precisam – segundo nos dizem aqueles que verdadeiramente cuidam delas – de interacção humana, muito mais do que de dinheiro. Frequentemente o que lhes conduziu àquela situação foi precisamente a falta de ligações pessoais.

Portanto nos nossos tempos não é fácil ser um Bom Samaritano. O Bom Samaritano cuidou das necessidades físicas da vítima do assalto e deixou-lhe dinheiro para uma espécie de cuidado institucionalizado: “E no dia seguinte retirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro, dizendo, ‘Cuida dele, e tudo o que gastares a mais, pagar-te-ei quando regressar’” (Lc. 10,35).

Muitas vezes, dar dinheiro às pessoas na rua apenas os leva a adiar a procura de emprego ou de ajuda. Se souber que se vai cruzar com pobres ao longo do seu dia, um Bom Samaritano moderno poderá ter o cuidado de levar consigo uma sanduiche a mais, ou uma bebida, ou então comprometer-se com algo ainda mais substancial em termos de tempo e de trabalho, oferecendo-se para trabalhar numa sopa dos pobres ou uma iniciativa do género.

As paróquias suburbanas recolhem valores consideráveis das caixas de esmolas. Os párocos, em conjunto com os concelhos financeiros das paróquias, geralmente fazem chegar esses fundos a organizações que servem os necessitados. Ocasionalmente um paroquiano poderá também precisar de ajuda, por causa de uma crise. É bom que as paróquias encontrem formas de permitir que os paroquianos os possam abordar com esses problemas sem sentirem demasiada vergonha.

E, já agora, os párocos nunca devem aceitar agradecimentos pessoais por distribuírem dinheiro da caixa de esmolas. São chamados a ser bons gestores dos recursos paroquiais, como é evidente, mas a verdadeira generosidade é dos paroquianos que fazem os donativos.

De igual modo uma sociedade recta – o que normalmente significa as comunidades locais (por uma questão de subsidiariedade) – devem fornecer os cuidados mais básicos de quem está a passar um mau bocado. Mas deve ser claro – e hoje em dia não costuma ser – que cobrar impostos para ajudar os pobres não corresponde ao conceito de “caridade” que encontramos na Bíblia.

Essas cobranças são, na realidade, uma forma de justiça retributiva (e a virtude da solidariedade) mediada através do processo político. Ao longo dos tempos aprendemos que nem todos esses programas funcionam, e que chegam mesmo a prejudicar as pessoas que pretendem ajudar. Mas uma assistência social bem monitorizada e dirigida às pessoas certas, também tem o seu lugar.

Algumas organizações podem ser classificadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social de acordo com as leis do Estado, ao mesmo tempo que contrariam as leis de Deus. A Planned Parenthood, por exemplo, recebe 500 milhões de dólares por ano de dinheiro público, bem como donativos privados, dedutíveis em IRS, para financiar 330 mil abortos por ano (e para colher e vender órgãos fetais à socapa). Esta suposta caridade não passa, na verdade, de uma monstruosa máquina de matança.

Algumas organizações têm mais jeito para angariar dinheiro do que para usá-lo em obras verdadeiramente caritativas. O Bom Samaritano de hoje que queira doar dinheiro a organizações de caridade deve dar ouvidos ao aviso de Eric Hoffer de que “todas as grandes causas começam por ser movimentos, depois transformam-se em negócios e eventualmente degeneram em fraudes”.

Parte do trabalho do Bom Samaritano moderno passa por exercer vigilância adequada, sem a qual as caridades podem encher-se de funcionários e tornar-se um buraco financeiro dependente de constantes peditórios, cada vez mais agressivos.

Por outro lado, como qualquer IPSS sabe, também existem pessoas que pensam que o trabalho caritativo deve operar praticamente sem custos administrativos, o que não é realístico. Até as Missionárias da Caridade recebem – merecidamente – comida e estadia em troca do exercício do seu santo apostolado.

Quando fazemos um donativo devemos examinar as nossas consciências. Foi-nos dito pela mais alta autoridade que o bom impulso de caridade pode ser estragado pelo desejo de admiração. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

No fim de contas temos de reconhecer que todos os programas governamentais do mundo, bem como todas as IPSS, são incapazes de aliviar o sofrimento humano em grande escala. Uma das consequências do pecado original é que os pobres, seja no sentido material ou espiritual, sempre os teremos connosco. Os leigos devem trabalhar para criar sistemas socioeconómicos justos e eficientes. Mas a assistência aos pobres, num generoso espírito cristão, é a levedura necessária para complementar e ultrapassar os mecanismos das ordens meramente económicas.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Sinais de Amor Mútuo

Michael Pakaluk
Num dos dedos da minha mão esquerda uso uma aliança, que entendo ser um sinal do meu amor e da minha fidelidade pela minha mulher, Catherine. Mas as palavras da liturgia dão a entender outra coisa. Quando recebi a aliança da minha mulher no nosso casamento ela disse, “Toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Por isso parece que estou enganado: a aliança que eu uso representa a fidelidade dela, não a minha. Ou será? Como é que resolvemos este problema?

Uma forma seria simplesmente mudar as palavras. Já vi essa sugestão feita num site popular de planeamento de casamentos, sem a devida autorização, claro, no sentido de mudar as palavras para Eu, [nome] recebo esta aliança como sinal do meu amor e fidelidade”!

Portanto a coisa não parece clara e algumas pessoas tentam resolvê-la com o senso comum. A verdade é que essa situação menos clara foi introduzida com a reforma litúrgica. A Forma Extraordinária é muito mais clara e inclui a bênção, só da aliança da mulher, pelo padre:

Abençoa, + Senhor, esta aliança, que benzemos + em vosso nome, que aquela que a vai usar, mantendo verdadeira fé no seu esposo, possa permanecer na vossa paz e em obediência à vossa vontade e viver para sempre em amor mútuo.*

Repare-se que as palavras não se referem à aliança como “sinal” de nada. Só existe uma cláusula de propósito, “que aquela que a vai usar”. Isto é porque a aliança é vista como um “sacramental”, isto é, algo sagrado que tem o poder conferido de fazer aquilo que significa (como a água benta). Assim, a aliança não é apenas representativa da sua fidelidade: tem como propósito auxiliá-la a ser fiel. (Vemos um sinal disto naqueles homens que tiram a aliança antes de entrar num bar, abdicando assim da ajuda divina em permanecer fiéis).

A bênção refere-se também à obediência à vontade de Deus. Isto é algo que uma pessoa sensata compreende. Ser casado implica aceitar uma regra; estar constrangido. Uma pessoa aceita um jugo – um jugo “suave” e “leve”, claro, que, se for adoptado com o espírito certo, traz muita “paz”. Mas seria insensato negar que uma aliança é um compromisso com a disciplina, tanto como um cabeção para um padre.

Mas há uma falha, uma fraqueza, no ritual. A bênção refere-se ao “amor mútuo” mas só o marido é que dá uma aliança à noiva, e não ao contrário. (Era costume na Europa, até ao final do Século XIX, apenas a mulher usar a aliança.) O novo rito, como veremos, procura remediar isto.

Na Forma Extraordinária, o padre dá a aliança benzida ao noivo, que a dá à noiva, usando uma de duas fórmulas:

Com esta aliança eu te desposo, e juro ser-te fiel*

-ou-

Com esta aliança eu te desposo; este ouro e esta prata eu te dou:
Com o meu corpo eu te venero; e todos os meus bens terrenos te ofereço*

Um objecto em duas mãos
Os linguistas chamam a este tipo de linguagem “performativa” uma vez que as palavras significam e cumpre, simultaneamente, a acção. Aquilo que as palavras significam e efectivam é a perfeição da união matrimonial através da dádiva de um objecto precioso, a aliança.

Mas nem é necessário que o objecto seja uma aliança! Acontece que a aliança era o objecto precioso mais fácil de guardar junto ao corpo nas culturas antigas. Mas o “ouro e prata” refere-se a moedas que também podem ser oferecidas, como as famosas “arras” que ainda são dadas durante a cerimónia nas culturas hispânicas e que por isso mesmo foram incorporadas como uma opção nos casamentos católicos nos Estados Unidos, em 2016.

Nos dias em que o casamento era entendido não tanto como uma simples relação pessoal, mas mais como uma instituição que conduzia à estabilidade financeira, o facto de o homem dar um objecto precioso à sua mulher era um sinal da seriedade do seu compromisso de estabelecer esta instituição com ela em particular. A isto acrescentava-se o dote, o capital inicial para a nova instituição, dada por uma ou ambas as famílias. Uma vez que o casamento continua a manter essa característica, pode-se argumentar que a tradição das “arras” é um vestígio e um testemunho desse entendimento e que por isso ganharia em ser adaptado a outras culturas também.

Podemos agora contrastar isto com o significado das palavras no novo rito. Quando o noivo diz “toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, não se refere à utilização da aliança, mas à aliança enquanto objeto precioso. Oferece a aliança por amor e com uma promessa de fidelidade; depois, ela usará a aliança por amor e como promessa de fidelidade. (Em 2016 a linguagem foi alterada para “Recebe esta aliança” em vez de “toma esta aliança” – o que se pode dizer que emenda o problema ao enfatizar mais corretamente o facto de a dádiva ser um evento único.)

Então esta nova linguagem é confusa e confunde – ou (talvez sem o querer) é profundamente verdadeira? Vejamos por este prisma: num contexto moderno, uma aliança é um objecto ou meio objecto? Comparando: um sapato é meio objecto e não um objecto inteiro, uma vez que os sapatos existem aos pares. Claramente, hoje olhamos para as alianças da mesma forma, como sendo aos pares. Nesse sentido, em bom rigor, uma pessoa não usa uma aliança, são duas pessoas que usam um único objecto – as alianças. Cada aliança, sobretudo pelo facto de não ser completa por si só, representa o amor e a fidelidade de ambos.

Assim, as palavras do novo rito, não obstante a sua falta de clareza aparente, acabam por ser profundamente verdadeiras. É frequente uma coisa significar a sua proveniência. A aliança que uso na minha mão esquerda nunca deixa de “dizer” que foi recebida como sinal de amor e de fidelidade. Usada, representa um amor e uma fidelidade que são precisamente recíprocos e mútuos. 

*As traduções são minhas, do inglês. Não consegui encontrar traduções portuguesas das bênçãos e das expressões. Caso existam, e algum leitor as conhecer, agradeço que me informem para poder trocar. Obrigado!


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Julho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 3 de julho de 2019

A pré-publicação do padre João

Vai de férias? Não deixe Deus de parte. Os jesuítas ajudam.

A questão dos refugiados continua a mobilizar muita gente. Ao contrário de alguns, que insistem em demonizá-los, estes artistas reuniram-se para mostrar que “somos todos os ‘outros’ uns dos outros”.

Amanhã é publicado o livro “João Seabra – à Sua maneira”, sobre o padre João Seabra. Temos na Renascença um capítulo do livro em pré-publicação, para lerem. O lançamento é às 19h no liceu Pedro Nunes.

O Vaticano vai abrir dois túmulos como parte das investigações sobre o desaparecimento da uma rapariga italiana em 1983.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Randal Smith volta à carga sobre a questão da morte, e como a Igreja pode ajudar a sociedade a lidar melhor com o processo de morte. Este é um dos grandes temas do nosso tempo. Não estamos a lidar bem com o assunto! Não deixe de ler.

Música para os Moribundos

Randal Smith
Quando tinha dezoito anos a Elaine Stratton Hild ofereceu-se para tocar viola de arco no seu hospital local. Logo no primeiro dia uma assistente social pediu-lhe para ir ao quarto de uma mulher que queria ouvir “Amazing Grace”. A mulher estava sozinha no quarto. Fechando os olhos e deixando que a música as envolvesse às duas, Elaine tocou. Quando abriu os olhos percebeu que a senhora se tinha voltado para a janela e deixado de respirar. Morreu a ouvir o “Amazing Grace”.

Mais recentemente Stratton Hild, doutorada em musicologia, tem estado a dedicar-se ao estudo fascinante dos cânticos que as diferentes comunidades entoavam para moribundos na Idade Média. Havia liturgias inteiras para confortar quem estava a morrer. Partia-se do pressuposto que toda a comunidade de amigos e família acompanhariam os moribundos na sua viagem através da morte e para além dela. Presumia-se que ninguém deveria morrer sozinho e que ninguém deveria morrer sem o apoio da comunidade de crentes que cuidariam das suas necessidades físicas, emocionais e espirituais.

Não eram só os medievais que acreditavam nisto. Muitas culturas desenvolveram práticas para ajudar a “acompanhar” os mortos tanto física como espiritualmente. Uma mãe de três filhos, que tinha sido noviça numa comunidade religiosa, disse-me que quando tocava uma certa campainha no mosteiro toda a gente parava imediatamente o que estivesse a fazer e ia para o quarto da irmã que estava a morrer. Então toda a comunidade, incluindo as que não cabiam no quarto, entoava um cântico enquanto ela morria.

Neste mundo moderno e secularizado a maioria de nós já não sabe cuidar dos moribundos. A nossa tendência é para fechar as pessoas num quarto para que ninguém tenha de assistir a este “falhanço” da nossa tecnologia moderna.

Recebi de uma amiga uma descrição do trabalho da Elaine Stratton Hild há algumas semanas, quando publiquei um artigo no The Catholic Thing em que exortava os bispos e padres católicos a aliviar algum do peso das famílias quando morrer um paroquiano. O velório, o terço e o funeral devem ter lugar na Igreja, em plena vista do altar e da cruz, dizia, e não numa sinistra casa funerária, com custos exorbitantes.

Não precisamos de embalsamar os corpos – um desastre tóxico para o ambiente – e as pessoas devem ser sepultadas num simples caixão de madeira, na terra, nos arredores da igreja, como acontece há séculos. Gastar milhares de euros para enterrar um corpo, dando pouca atenção à missa é tão estúpido como gastar milhares de euros num casamento e não pensar na missa. Ah, pois! Também fazemos isso…

Mas ao ouvir Stratton Hild falar do seu trabalho percebi que mal tinha arranhado a superfície da questão com o meu artigo anterior. Agora, acredito que a Igreja deve oferecer a sua ajuda, e a presença consoladora do Corpo de Cristo, não apenas no funeral, mas durante todo o processo da morte. E quando digo “a Igreja” não me refiro apenas aos clérigos.

Não quero com isso menosprezar a importância dos padres e das freiras. Não consigo pensar em nada mais consolador num hospital do que ver uma enfermeira que é também uma freira, de hábito. Os católicos costumavam ver isso a toda a hora, mas hoje em dia já não acontece. (Porquê?) Mas os padres e as freiras não podem fazer tudo, e não podem substituir-se a uma comunidade inteira. Não devemos querer descarregar neles esta responsabilidade, mantendo-a longe da vista, tal como já fizemos com os médicos e as enfermeiras.

Elaine Stratton Hild a fazer pesquisa
A única coisa que todos os moribundos que alguma vez conheci queriam era morrer em casa. Nenhum o fez. E as probabilidades de uma pessoa ter acesso a música, cânticos, uma liturgia comunitária ou a mera presença constante de família e amigos, é quase nula.

Deixámos que a cultura moderna nos atomize, transformando-nos em unidades isoladas. Quando isso acontece deixamos de ter qualquer poder contra as instituições que prometem cuidar de nós, mas que nos ameaçam cada vez mais. A comunidade médica tem um papel importantíssimo a desempenhar no tratamento dos moribundos, mas é apenas uma parte. Ninguém deveria ter de morrer sozinho, num hospital, longe de casa.

Recentemente tive o privilégio de poder participar numa celebração melquita em honra de um homem recém-falecido. Foi uma experiência triste, mas belíssima e profundamente tocante. A única tragédia era o homem não estar lá para o experienciar. E não o digo como piada, o que quero dizer é que há poucas coisas mais belas e consoladoras para uma pessoa que está a morrer do que experimentar este tipo de liturgia.

Precisamos de recuperar as liturgias e práticas comunais que a Igreja usou durante séculos para confortar os moribundos e consolar as suas famílias, antes da sociedade ter decidido que se tratava de um “assunto médico”. Cometemos uma violência contra a pessoa quando não compreendemos a importância e o valor de comer e falar com outros, do riso, do toque, da música, canto e da presença de amigos, família e comunidade. Isto é verdade tanto durante os nossos tempos de saúde como quando estamos às portas da morte.

A morte não é um falhanço humano. É o fim natural da vida humana. Mais, Cristo advertiu os seus seguidores para o facto de que “se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer produzirá muito fruto”. Mais tarde São Paulo escreveria que “se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos”. Esta ainda é a nossa fé? Então precisamos de rodear as pessoas com expressões repetidas dessa mesma fé à medida que se aproximam da sua viagem final.

Podem encontrar uma introdução belíssima ao projeto de Elaine Stratton Hild neste curto vídeo.



(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 29 de Junho de 2019)

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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Newman e ditadores ressuscitados

O Cardeal John Henry Newman vai ser canonizado no dia 13 de Outubro!

Espanha vai apresentar queixa formal sobre o núncio apostólico. A culpa é do Franco, claro.

Numa altura em que o segredo da confissão está sob ataque em vários sítios, o Vaticano emitiu um documento a falara da importância da inviolabilidade.



Ultimamente tenho lido, sobretudo nas redes sociais, várias referências aos trabalhadores das organizações que resgatam migrantes no Mediterrâneo como “negreiros” e traficantes humanos. Segundo esta lógica, evidentemente, as freiras que ajudam prostitutas são chulos e as instituições que socorrem grávidas adolescentes estão a incentivar a sexualidade desregrada. É a lógica dos “bloquistas de direita”.


Os novos negreiros e os bloquistas de direita

Lembram-se da polémica por causa da Isabel Jonet? A mulher que, sozinha, já deve ter feito mais para aliviar a fome e a pobreza neste país do que todos os ministros dos últimos Governos, foi arrasada há uns anos depois de ter criticado algumas atitudes esbanjadoras dos portugueses.

Nessa altura a esquerda ao estilo “bloquista” deixou cair a máscara e trucidou-a. É que para eles a Isabel Jonet e todas as “isabéis jonets” deste país, fazem apenas “caridadezinha”. Ao alimentar os pobres não estão a fazer mais do que aplicar um adesivo a uma hemorragia causada pelo sistema capitalista, esse sim o verdadeiro culpado dos males sociais. Pior, ao disfarçar esses males, perpetuam o problema.

Pois agora temos uma nova versão da mesma estratégia, mas em vez da Isabel Jonet o problema é o Miguel Duarte e todos os que, como ele, ajudam a resgatar sírios, afegãos, e africanos de diferentes nacionalidades, de botes à deriva no Mediterrâneo.

E agora é malta de direita – de uma certa direita – que aponta o dedo. Não é que o Miguel Duarte e seus colegas são, aos olhos destas pessoas “negreiros”? Sim, leram bem. Para muitos críticos um homem que deixa o conforto da sua casa e do seu trabalho e vai viver para alto mar durante semanas a fio, retirando da água pessoas que talvez não, mas muito possivelmente sim, iriam morrer, entregando-os depois num porto seguro é equiparado a traficante de escravos.

Dizem os críticos que o Miguel Duarte e companhia são parte do problema, que não são a solução para a crise dos migrantes. Duvido que alguém tenha dúvidas disso. Duvido que o Miguel pense que ao tirar homens, mulheres e crianças do Mediterrâneo está a contribuir para melhorar o regime da Eritreia ou pôr fim à guerra na Síria. Mas há ali homens, mulheres e crianças a ser salvas e o seu afogamento também não trava guerras nem depõe ditadores.

Apliquemos, então, a lógicas dos “negreiros” a outras áreas. Afinal de contas, os amigos da Sea-Watch não são os únicos a fazer “a caridadezinha”.

Já ouviram falar daquelas freiras que saem de noite para ajudar prostitutas? Convidam-nas a entrar numa carrinha para beber um chá quente, comer uma bucha. Dão-lhes um cartão e convidam-nas a pensar em mudar de vida. Conhecem? Pois bem. Segundo esta lógica são chulas. Com aqueles gestos de amizade, a melhorar um bocado a vida daquelas mulheres, que mais estão a fazer se não a perpetuar a exploração sexual? Anátema!

As várias instituições que existem por todo o país, fundadas por ativistas pró-vida depois do primeiro referendo ao aborto em 1998? Que ideia é aquela de dar roupa, estadia e comida quente a miúdas que engravidam aos 16 anos? Assim não estão a resolver o problema da gravidez adolescente! Estão, pelo contrário a incentivar a sexualidade desregrada… Assim reza a lógica dos “bloquistas de direita”.

A Comunidade Vida e Paz? Alimenta redes de pobreza e de exclusão. Madre Teresa de Calcutá? Ui! O Christopher Hitchens é que tinha razão

Mas sobre estes, curiosamente, os bloquistas de direita não falam. Se calhar, afinal, o problema está em quem está a ser alvo da caridadezinha, e não de quem a pratica. O problema com os “novos negreiros”, aparentemente, não está nos “eiros”.

Deixem-me dizê-lo claramente, agora sem ironias. Nojo. Não há outras palavras para isto. É um nojo e deviam ter vergonha.

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