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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Insegurança dos “Lugares Seguros”

Randall Smith
Há dias passei por um gabinete com um sinal à porta que dizia “Lugar Seguro”. Senti-me imediatamente inseguro.

Eu espero que toda a gente que entra no meu gabinete se sinta segura. Mas não deviam ser elas a dizer-me se se sentem seguras, e não ao contrário?

Seja como for, a questão não se põe, porque normalmente eu encontro-me com os meus alunos em cafés, alguns dos quais são mais “seguros” que outros. Certa vez um aluno, um jovem veterano das Forças Armadas, disse-me que tinha passado pelo café onde sabia que eu costumava estar à noite, mas não me tinha encontrado. “A que horas chegaste?”, perguntei “Cerca das 21h20”, respondeu. “Eu cheguei uns cinco ou dez depois. Porque é que não esperaste?” “Não, não”, disse ele, “aquilo estava cheio de hipsters (está sempre), e eu conseguia senti-los a olhar para mim e a julgar-me, por isso tive de sair”.

Não tenho a menor dúvida de que a maior parte das pessoas naquele café devem ter uma imagem muito acolhedora e aberta de si mesmas, mas é curioso como estas coisas podem ser relativas. O que parece “aberto” e “acolhedor” para um grupo de hipsters que se consideram muito progressistas, pode alienar uma multidão de outras pessoas que se sentem “julgadas” por ser demasiado “normais”, ou não serem suficientemente “fixes”.

Deve ter sido este mesmo medo instintivo de ser “observado” ou “julgado” que senti quando vi o sinal de “Lugar Seguro”. Será que o meu olhar tinha sido suficientemente aprovador? E a minha linguagem corporal, foi a correcta? Se alguém visse a curiosidade estampada na minha cara talvez pensasse que estava a expressar desaprovação, o que não era de todo a minha intenção.

Se a dona do gabinete tivesse posto a cabeça de for a e perguntasse: “Está a olhar para o meu sinal. Algum problema?”, o que é que eu teria respondido? “Não, não, não… De todo. Estava a só a ler… o seu… errr… sinal”. Teria acreditado em mim? Ou teria continuado desconfiada? Teria feito queixa?

E se ela adivinhasse que sou católico? O que é que teria pensado acerca das coisas horríveis que supostamente penso sobre homossexuais? Teria conseguido convencê-la de que não penso essas coisas? Nunca consegui convencer os meus pais protestantes de que os católicos não acreditam nas coisas em que eles pensavam saber que os católicos acreditavam.

Talvez o que me tenha feito sentir desconfortável com o sinal de “Lugar Seguro” seja o facto de o passatempo mais popular na América, agora, ser uma versão do que um autor de outra geração chamou “upmanship”, a superação do outro. Por exemplo, se você disser “a semana passada conheci o presidente da Câmara de Londres” e o seu amigo responder: “O presidente da Câmara de Londres? É um tipo encantador! Almoçou em minha casa a semana passada”, fazendo com que o seu encontro pareça muito menos impressionante, supera-o.

Nos Estados Unidos há cada vez mais pessoas apostadas em jogar uma versão ligeiramente diferente a que se pode chamar “ultrapassar pela esquerda”, cujo objetivo é mostrar-se mais à esquerda que o outro. Você diz: “Mandei a minha filha para uma escola muito liberal e progressista, só para meninas” e o seu amigo responde, com um desprezo mal disfarçado, “ainda se chamam meninas? Quero dizer, tantas dessas escolas só para meninas não percebem como o termo ‘menina’ pode ser ofensivo para os transgéneros”. E eis que a escola muito progressista em que orgulhosamente matriculou a sua filha, de repente parece bastante menos progressista, ou até mesmo discriminatória.

Você sente-se muito pequeno, o que era precisamente o objetivo.

As pessoas podem fazer como entenderem, mas para mim é tudo menos claro que estas guerras linguísticas que travamos nos confins refinados do mundo académico estejam de facto a ajudar as pessoas que dizemos querer ajudar. Depois de décadas a patrulhar obsessivamente o discurso, os miúdos pobres estão a obter uma melhor educação? E os homossexuais sofrem de menos ansiedade? As minorias estão a ser tratadas com maior respeito nos seus locais de trabalho, habitação e educação? As mulheres estão a ser mais respeitadas?

Porque se a resposta for não, e se tudo o que estamos a fazer é jogar o jogo da linguagem para que nós mesmos nos sintamos melhor, como se estivéssemos a resolver os problemas, mostrando que nos preocupamos, ao contrário das outras pessoas que não estão tão despertas como nós, então, para dizer a verdade, prefiro não fingir.

Quando vemos tantas pessoas a esforçar-se para não serem apanhadas nas armadilhas deixadas por todas as pessoas que jogam o jogo da ultrapassagem pela esquerda, dificilmente alguém se sente “seguro”. Lugares que deixam de fora as pessoas que têm as opiniões e atitudes “incorrectas” tendem a ser o oposto de seguras.

Agora, por exemplo, temos um grupo de pressão que lançou uma petição para apresentar à Universidade de Oxford no sentido de remover John Finnis, que é católico, do seu cargo, por este revelar “pontos de vista extremamente discriminatórios contra grupos de pessoas vulneráveis” (i.e., por não concordar com a visão dos signatários em relação a actividades homossexuais ou cirurgias de mudança de sexo). Eles insistem que a Universidade “clarifique a sua política em relação a professores que discriminam”, porque, atualmente, “os estudantes e corpo docente têm de esperar que haja um momento de assédio pessoal ou de vitimização, antes de se poderem queixar sobre o ambiente de intolerância e de intimidação que os professores criam através dos seus artigos escritos”. Não é preciso tratarem mal alguém, basta terem as opiniões erradas.

Por agora a Universidade está a recusar-se a agir. Mas que mensagem é que esta petição transmite a outros membros do corpo docente em relação à sua “segurança” caso não aceitem expressar as opiniões “aprovadas” sobre um grupo ou outro, quer tenha a ver com o casamento gay, com a forma como os muçulmanos tratam as mulheres, ou a questão israelo-palestiniana?

Essa é uma questão. Mas outra é esta: Será que as manobras tácticas das pessoas envolvidas neste jogo de “ultrapassagem pela esquerda” está mesmo a ajudar as minorias e as pessoas vulneráveis, como se alega?

Será seguro sequer fazer a pergunta?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Progresso ou Falhanço Repetido?

Randall Smith
Entre os Padres da Igreja havia duas tradições sobre o Antigo Testamento. Uma via o Antigo Testamento como uma progressiva educação da humanidade por parte de um Deus providente e sábio, com o objectivo de elevá-la, passo-a-passo, e prepará-la para a revelação final de Deus em Cristo. Sob esta perspectiva, “a humanidade não aguenta demasiada realidade”, por isso Deus tinha de preparar os homens pouco a pouco para estarem prontos para a revelação final do Verbo incarnado.

O teólogo Eusébio escreveu, no quarto Século, que “a raça humana, nos tempos antigos, não estava ainda capaz de receber os ensinamentos de Cristo, a perfeição do conhecimento e da virtude”. Era necessário primeiro que as “sementes da religião” fossem semeadas pelo mundo até que “todas as nações da terra estivessem prontas a conceber a ideia do Pai que lhes ia ser revelada”. Só então é que o Verbo apareceu em pessoa.

Mas outra tradição sugere que o Antigo Testamento não passou de uma série de falhanços. Santo Agostinho pergunta: “Há dúvidas de que é por isto que a lei foi dada, para que o homem se encontrasse? E por isso ele se encontrou; encontrou-se imerso no mal”. Entregue a si próprio, o homem “teve de se submeter a uma longa e variada experiência da sua própria malvadez, e descer às profundezas para reconhecer melhor que precisava de um salvador”. De igual modo o autor da Carta a Diogneto confessa que “Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o Salvador capaz de salvar até mesmo o impossível”.

Na obra de São Tomás Aquino encontram-se ambas as tradições, tal como ambas se encontram nas Epístolas de São Paulo. Por um lado, diz São Tomás, a lei era uma pedagogia, um mestre ou tutor, que nos ensinava, protegia e preparava para a vinda de Cristo (ver Gal. 3,24). Por outro lado, a lei também revelou a nossa impotência porque mesmo quando, orientados pela lei, sabemos o que devemos fazer, não somos capazes de o fazer. A lei era incapaz de nos tornar bons e revelou a nossa impotência, aumentando assim em nós o desejo por um Salvador e o dom da graça de Deus (ver Rom. 7, 8)

Então como é que ficamos? O Antigo Testamento é uma história de progresso, ou de repetidos falhanços?

As duas coisas. O Antigo Testamento é a história da aliança de Deus com o seu povo. O povo, pela sua parte, falhou repetidamente no cumprimento da aliança e afastou-se. E, porém, apesar das infidelidades, Deus permaneceu sempre fiel. Os castigos existiram apenas para exaltar o povo.

Depois de 40 anos no deserto, que foi quer um castigo quer uma preparação, Ele introduz o povo na Terra Prometida. Subsequentemente, por causa das suas repetidas infidelidades, envia-o para o exílio na Babilónia, outro castigo e outra preparação. Então trouxe-o de volta da Terra Prometida para construir o Templo e preparar a vinda do Messias.

Por entre os triunfos e as derrotas, as quedas e as elevações, Deus, na sua providência de amor, está sempre a conduzir o seu povo rumo a uma união mais completa e uma comunhão mais profunda com Ele. A história judaico-cristã não é o antigo “mito do eterno retorno”. Não estamos condenados a repetir o mesmo ciclo sem sentido para toda a eternidade. Somos um povo peregrino e, embora possamos cometer os mesmos erros vezes e vezes sem conta, Deus está a dirigir-nos de volta para si.

Eusébio de Cesareia
Estas duas abordagens ao Antigo Testamento não têm algo de importante para nos ensinar? Talvez possamos ver a providência de Deus em acção, inspirando os pais e os doutores da Igreja, ensinando-nos a evitar dois erros contrários: imaginar que a história é de contínuo “progresso”, por um lado, ou que é apenas uma série de ciclos sem sentido, e sem rumo, por outro.

Confessamos repetidamente muitos dos mesmos pecados, na esperança de conseguir fazer melhor, apenas para voltar a confessá-los mais tarde. Estaremos a conseguir algum progresso?

Orgulhámo-nos tanto do Papa São João Paulo, o Grande e de Bento XVI. Parecia uma “nova primavera” para a Igreja. Contudo, a isso seguiu-se uma “longa Quaresma” de McCarricks e companhia, levando as pessoas a perguntar se as coisas alguma vez estiveram tão más (resposta: Sim, mas não é um concurso) e será que a Igreja está acabada? (resposta: não, mas só por causa do Espírito Santo).

A verdade é que progredimos. Podemos esperar que o Espírito Santo nos mude verdadeiramente. Mas devemos contar com regressões. Precisaremos de nos levantar e começar de novo, uma e outra vez.

Durante o Século XX foi feito um trabalho teológico fantástico, e tivemos alguns dos melhores Papas da história. A nossa compreensão de quem Deus é e da missão a que nos chama avançou de forma maravilhosa desde os tempos do Concílio de Niceia, em 325 até ao Concílio Vaticano II. Isto sim é progresso. E, porém, continuamos a cometer erros, por vezes piores que os do passado.

Se tem havido progresso, e tem, então é de Deus e não nosso. Nós, juntamente com São Paulo, devemos admitir a nossa impotência e voltar-nos para Ele para obter a salvação que sabemos que não podemos alcançar para nós mesmos. Estamos aqui, nas palavras de T.S. Eliot, para “ajoelhar onde a oração já teve valor”.

E o que há para conquistar,
Por força e obediência, já antes foi descoberto
Uma vez ou duas, ou várias vezes, por homens que não podemos ter esperança
De emular — mas não se trata de competição —
Trata-se apenas da luta para recuperar o que se perdeu
E achou e perdeu outra e outra vez: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis. Mas talvez nem ganho nem perda.
Para nós, há apenas a tentativa. O resto não é connosco.
(Tradução de Gualter Cunha – Relógio d’Água)


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 25 de Novembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

“Fizemos o Nosso Trabalho”

Randall Smith
O filme “Sully”, de Clint Eastwood (2016), conta a história do capitão “Sully” Sullenberger e da aterragem de emergência do voo da US Airways no Rio Hudson, em 2009, após ter perdido ambos os motores ao ser atingido por um bando de pássaros depois de levantar voo. Todos os 155 passageiros e a tripulação sobreviveram, apenas com alguns ferimentos ligeiros. A maioria dos passageiros foi evacuada para as asas do avião, de onde foram resgatados do frio pela rapidez da acção dos pilotos de ferries e por mergulhadores da equipa de resgate aquático da Cidade de Nova Iorque.

Embora o título do filme seja “Sully”, e grande parte da acção seja centrada nele (desempenhado por Tom Hanks), este é mais do que um filme de bajulação biográfica, contém muitos temas e lições importantes.

Um dos temas a que o filme recorre constantemente diz respeito à relação entre os homens e a tecnologia que usam. Numa cena reveladora, logo no início do filme, Sullenerger e o seu co-piloto Jeff Skiles estão a ser interrogados por membros do Departamento Nacional de Segurança dos Transportes, que lhes dizem que as várias simulações de computador indicam que poderiam ter regressado em segurança ao aeroporto.

Skiles responde: “Olhem, eu acabei agora mesmo de treinar no A320, e digo-vos que a única razão pela qual o avião operou tão bem, a única razão pela qual conseguiu aterrar onde quer que seja, foi porque o capitão Sullenberger ligou a Unidade Auxiliar de Potência.”

“Estava simplesmente a seguir o QRH [manual técnico]”, diz um membro do Departamento.

“Não. Não estava a seguir os procedimentos, coisa nenhuma”, diz Skiles, naquilo que poderia parecer uma crítica ao seu capitão. “Sei isso”, continua, “porque eu estava com o QRH nas mãos. Ele ligou a UAP imediatamente depois dos motores terem falhado. Segundo a Airbus, essa é a 15.ª coisa na lista. A 15.ª. Se ele tivesse seguido as malditas regras, tínhamos morrido todos.”

Outra leitura técnica contém dados que indicam que o motor esquerdo ainda tinha alguma potência, suficiente para os poder ter livrado de sarilhos. “Então os dados estarão errados”, diz-lhes. “Olhem para o motor esquerdo e não terá nada mais que gansos mortos e zero potência”. Quando o avião é finalmente retirado do Hudson percebe-se que o computador estava errado. Se tivessem seguido as orientações da máquina, teriam morrido.

Quando lhe perguntam como é que “calculou todos os parâmetros” quando decidiu aterrar de emergência, Sully responde, “não houve tempo para cálculos. Tive de me fiar na minha experiência a gerir altitude e velocidade em milhares de voos, ao longo de quatro décadas”. Diz aos membros do departamento, atónitos, que fez tudo “a olho”.

As máquinas fazem muitas coisas bem. Conseguem calcular mais depressa que os humanos. Mas não são capazes de tomar decisões de vida e de morte. Para isso é preciso um humano e, normalmente, um humano excepcionalmente bem treinado. As máquinas podem ajudar os humanos, mas é uma parvoíce pensar que alguma vez possam substituir o juízo humano.

As máquinas apenas são, como sempre foram, tão boas como os humanos que as usam. Isto é algo de que nos devemos lembrar quando ouvimos o canto da sirene dos carros automatizados. Só um ser humano pode tomar a decisão de arriscar a vida despenhando o seu carro para evitar acertar numa criança que saiu a correr para a estrada.

Eu calculo que haja dois tipos de passageiros de carro automatizado. Aqueles que querem o carro programado para chocar, sacrificando o passageiro, e aqueles que querem o carro programado para atropelar qualquer obstáculo, em vez de arriscar a segurança do passageiro. Que algoritmo é que você escolheria? As nossas máquinas não são melhores que os homens que as usam.

Capitão Sullenberger
Depois de ouvirem a gravação do cockpit da aterragem de emergência, que revela o quão miraculosamente calmos e metódicos foram os dois pilotos, Sullenberger diz ao seu copiloto: “Estou tão orgulhoso de ti. Estiveste sempre ao meu lado, apesar de todas as distrações. Com tanto em causa. Fizemos isto juntos. Fomos uma equipa.” Os olhos de Skiles enchem-se de lágrimas e o Sully diz simplesmente: “Fizemos o nosso trabalho”.

Quando regressam à audição de segurança, um dos membros do departamento, que anteriormente tinha sido antagónico, elogia Sullenberger por ter sido a componente mais importante da equação que salvou o voo. “Se o retirarmos da equação”, diz-lhe, “a matemática não bate certo”.

“Não fui apenas eu”, responde Sully, “fomos todos. O Jeff, a Donna, a Sheila, a Doreen. Os passageiros e as equipas de resgate. Os controladores aéreos. Os tripulantes dos ferries e os polícias mergulhadores. Nós conseguimos”. E é aqui que o espectador compreende que esta é a história que Eastwood tem estado a contar desde o início. Ele tem mostrado, com perícia, como todas estas pessoas se juntaram e desempenharam um papel essencial. Os ferries chegaram o mais perto possível da asa do avião, para retirar os passageiros; os polícias mergulhadores salvaram os que estavam na água e os comissários de bordo prepararam os passageiros. Todos eles “fizeram os seus trabalhos”.

Quando pensamos em heróis e em santidade, raramente pensamos em homens e mulheres que simplesmente fazem os seus trabalhos, e os fazem com excelência. Dia após dia, hora após hora, há pessoas cujas vidas e bem-estar dependem de nós, de fazermos bem os nossos trabalhos, tal como as nossas vidas dependem de eles fazerem bem os seus. Esta é a base de qualquer comunidade. É sobre isto que se constrói a civilização. Não é sobre o poder militar, ou máquinas poderosas, ou brilhantismo científico. As nossas máquinas podem convencer-nos que não é assim, mas trata-se de uma ilusão perigosa.

Numa era de hiperindividualismo, bem podemos aprender as lições de “Sully”. As nossas vidas estão interligadas. As máquinas são tão boas como as pessoas que as sabem usar e quando as ignorar. E existem heróis. São as pessoas que fazem os seus trabalhos com excelência – não por dinheiro, não para serem promovidas, não por fama nem por notoriedade, mas simplesmente porque, nas palavras do poeta e letrista Bob Dylan, “you gotta’ serve somebody”. E é bom que não seja uma máquina.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 24 de Outubro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Choques naturais e ultrapassáveis

Declarações "chocantes" de Osswald
Começou o sínodo dos jovens. O Papa Francisco emocionou-se ao ver lá dois bispos chineses, fruto do acordo alcançado com Pequim, e no seu discurso disse a todos os bispos reunidos que devem deixar para trás preconceitos e estereótipos.

Temos no site da Renascença uma interessante entrevista com o bispo D. António Augusto Azevedo, que está presente nos trabalhos.

Também hoje decorreu em Lisboa o II Congresso do Diálogo Inter-religioso. Numa das conferências, Walter Osswald disse que o choque cultural até é natural, mas é preciso ultrapassar a rejeição. Noutro painel o padre Fernando Sampaio confessou que a proibição de perguntar aos doentes a sua religião é, em alguns casos, uma violação dos seus direitos.

Ainda na sequência da crise de abusos que sacode a Igreja, Randall Smith, um dos meus autores favoritos do The Catholic Thing, escreve esta quarta-feira directamente para aqueles que invocam os problemas para abandonar a Igreja. É um artigo arrasador, cheio de bom-senso. Leiam e partilhem!

Para onde iríamos?

Randall Smith
Há quem diga que vai abandonar a Igreja Católica por causa dos escândalos actuais. Estou confuso. Em quem é que tinham fé? No padre? No bispo? Ou em Deus? Se a sua fé era num padre, bispo, ou até o Papa, então o que professava era idolatria e não a fé cristã.

Estarei a menosprezar a gravidade do escândalo e do mal que tem causado? Não, mas vamos pôr as coisas em perspetiva. Se perguntar, “Tendo em conta todos estes actos terríveis, como é que posso continuar a ter fé na Igreja Católica?”, então ponha-se no lugar da comunidade judaica depois do Holocausto. Eles tiveram de perguntar: “Como é que posso continuar a ter fé em Deus, apesar de todos estes actos horríveis?”

Como é que podemos continuar a dedicar-nos a uma comunidade que é tão infiel a Deus? Moisés fez a mesma pergunta quando viu a infidelidade dos seus correligionários judeus no deserto. Os profetas fizeram a mesma pergunta quando viram as injustiças do povo na Terra Prometida. Os primeiros apóstolos devem ter perguntado a mesma coisa quando viram que um dos seus tinha entregado Jesus aos seus inimigos. E o próprio Pedro, a “rocha” sobre a qual seria edificada a Igreja, negou sequer conhecer o Senhor na sua hora de provação. Isso é difícil de superar.

Acham que era fácil permanecer na Igreja quando os amigos, vizinhos e familiares estavam a ser martirizados, desmembrados por animais ou queimados vivos, por se recusar a negar a fé? E quando tantos dos outros amigos, vizinhos e familiares tinham cedido e negado Cristo, face às ameaças das autoridades romanas? A vida na Igreja raramente foi simples.

O que é que você teria feito quando a heresia ariana dividiu a Igreja ao meio, com o imperador Constantino, supostamente “cristão”, e a maioria do império a alinhar com os arianos? E quando três homens alegavam ser Papa ao mesmo tempo, no Século XIV? Ou quando a revolta protestante dividiu a Cristandade e grande parte da hierarquia da Igreja era corrupta e moribunda? O Concílio de Trento foi um dom do Espírito para a Igreja, mas só começou em 1545 (Martinho Lutero afixou as 95 teses em 1517) e apenas acabou passados quase 20 anos, em 1563.

Imagine ser um católico no meio destes escândalos. O que é que teria feito? Teria sido daqueles que permaneceu e combateu o bom combate na fé? Ou seria um dos muitos que disse: “Esqueça. Estou fora”?

Mas para onde iria? É essa a pergunta que Pedro faz a Cristo. “Senhor, para quem iremos?” Quem mais tem palavras de vida eterna?

Desculpem lá… Escapou-me alguma coisa? Cristo por acaso fundou outra Igreja, só para a malta boa? A Igreja com as liturgias perfeitas? A Igreja em que todo o clero e os leigos têm a doutrina certa e não existe pecado? Porque se sim, eu nunca a vi. Nunca li sobre ela nas Escrituras, nem a vi referida pelos Padres e Doutores da Igreja. Muito pelo contrário, eles falaram repetidamente sobre o elemento humano e pecador da Igreja, a precisar da redenção de Cristo.

Estarão os escândalos a afastar as pessoas da Igreja? Por favor… As pessoas afastam-se da Igreja porque a Igreja faz afirmações desconfortáveis e porque os católicos não são testemunhas vivas da veracidade desses ensinamentos na sociedade. As sondagens mostram repetidamente que os católicos variam pouco em relação à maioria da população no que diz respeito a questões morais fundamentais. Os católicos em São Francisco ameaçaram processar o seu próprio bispo quando ele tentou aplicar os princípios morais mais básicos nas escolas católicas. O Arcebispo Chaput é mantido longe de muitas universidades católicas enquanto o Cardeal Mahoney, supostamente confinado à penitência, da mesma forma que o ex-Cardeal McCarrick, viaja livremente.

E perguntem aos padres e editores de sites católicos “conservadores” as reacções que recebem quando tentam dizer aos leigos que deviam pagar um ordenado justo, e para serem honestos e justos na sua vida profissional, ou exercitar uma opção preferencial pelos pobres? Que tipo de bispos e padres é que se podem esperar quando uma grande parte do laicado se revolta sempre que ouve qualquer coisa a partir do púlpito sobre aborto, contracepção, fornicação e actividade homossexual?

Grande parte dos católicos americanos queria bispos que olhassem para o lado enquanto aqueles violassem abertamente ensinamentos fundamentais da Igreja. Então porque é que se admiram que alguns desses homens ignoravam as regras também nas suas vidas privadas? Queriam fidelidade? Ou queriam uma personalidade vencedora, capaz de angariar dinheiro? Não é por isso que muitas das instituições que hoje condenam McCarrick, ontem enchiam-no de honras de elogios?

O C.S. Lewis queixou-se certa vez da cultura que produz “homens sem peito” e depois espera que sejam virtuosos. “Rimo-nos da honra”, escreve Lewis, “e ficamos chocados ao descobrir traidores no meio de nós. Castramos os cavalos e esperamos que se reproduzam”. Uma Igreja Católica americana que se riu na cara da doutrina social e da moral sexual católica não deve surpreender-se ao encontrar traidores morais e doutrinais no seu seio.

E agora que fazemos? Exigimos a verdade? Claro. Mas como disse o dissidente Checo Vaclav Havel, a verdade exige-se vivendo na verdade. Devemos dizer sobre o ensinamento da Igreja aquilo que Santo Agostinho diz sobre os Evangelhos: “Se acreditas no que queres do Evangelho, e rejeitas o que não gostas, então não é no Evangelho que crês, mas em ti mesmo”.

É católico? Então pare de se preocupar e comporte-se como tal.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 30 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

China - Longa marcha rumo à unidade

O acordo entre a China e a Santa Sé continua a dar que falar. Hoje o Papa escreveu uma longa mensagem ao povo chinês, apelando à reconciliação e pedindo aos chineses que sejam bons cidadãos.

O padre Peter Stilwell, que conhece bem a realidade chinesa, diz que será muito difícil unir a Igreja chinesa. É um projecto para longos anos, considera.

Já o Governo chinês diz que quer “sinceramente” avançar no diálogo com Roma.

Ontem, no avião de regresso dos bálticos, o Papa falou sobre a questão dos abusos e garantiu que nunca assinou qualquer indulto após uma condenação.

O que é que sonha para os seus filhos? Preocupa-se que tenham uma educação que abra portas para uma vida de sucesso, ou que tenham uma educação de valores sólidos cristãos? Randall Smith escreve sobre o trabalho, no artigo desta semana do The Catholic Thing.

O Valor do Trabalho

Randall Smith
“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,
Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?” (Tiago 2, 1-4)

Na semana passada assistimos à humilhação pública do ator Geoffrey Owens, ex-estrela do “Cosby Show”. Owens, que desempenhava o papel do genro de Cosby no programa, viu serem publicadas fotografias suas a empacotar compras no supermercado onde trabalha atualmente. Quando as fotografias se tornaram virais foi inundado com comentários insultuosos.

Mas outros saíram em sua defesa. O antigo jogador de futebol americano, e agora actor, Terry Crews, escreveu no Twitter: “Eu trabalhei em limpezas já depois de ter jogado. Se fosse preciso, voltava a fazê-lo. Não há qualquer vergonha em fazer trabalho honesto.”

As reacções iniciais às fotografias sugerem, porém, que muitas pessoas julgam o valor do trabalho de acordo com o dinheiro que rende. Segundo esta visão, a prostituição de luxo vale mais do que limpar quartos num hotel.

No “Laborem Exercens”, a sua encíclica sobre o trabalho humano, o Papa João Paulo II critica a ideia, comum no mundo antigo, de que o trabalho físico é indigno de homens livres, sendo por isso reservado aos escravos. O Cristianismo introduziu uma mudança fundamental a esta perspectiva, porque Cristo, Deus incarnado, passou “a maior parte dos anos da vida sobre a terra junto de um banco de carpinteiro, dedicando-se ao trabalho manual.”

“Em tal concepção quase desaparece o próprio fundamento da antiga diferenciação dos homens em grupos, segundo o género de trabalho que eles faziam”, escreve o Papa. “Em última análise, a finalidade do trabalho, de todo e qualquer trabalho realizado pelo homem — ainda que seja o trabalho mais humilde de um ‘serviço’ e o mais monótono na escala do modo comum de apreciação e até o mais marginalizador — permanece sempre o mesmo homem.”

Seria de esperar que os católicos se distinguissem por abraçar esta visão da nobreza do trabalho bom e honesto. Mas será assim? Quantos pais católicos sentem orgulho quando os seus filhos ou filhas aceitam empregos de salário baixo? Quantos não preferiam que o seu filho ou filha fosse um executivo bem remunerado em vez de professor num liceu católico?

Quando eu era novo o estereótipo do católico era operário. Agora parece que muitos valorizam tanto os trabalhos de executivo como o meu pai, que era um típico protestante anglo-saxónico.

Quantos pais católicos não preferem enviar os seus filhos para as universidades de topo em vez de uma escola católica qualquer, porque querem tanto ver os seus filhos a ter “sucesso” segundo os padrões normais de sucesso financeiro e estatuto social?

Por mim, todas as universidades católicas obrigariam os seus alunos a ter formação em alvenaria ou canalização. Não porque acho que deviam todos tornar-se canalizadores ou trabalhar nas obras, mas simplesmente porque todos os alunos tirariam proveito em trabalhar com materiais reais, em vez de simplesmente mudar imagens de um lado para o outro em realidades “virtuais”. 

Para além disso, os construtores e os canalizadores são cidadãos desta democracia e também merecem todos os benefícios de uma educação católica que respeite a sua vocação. Como é que os católicos deixaram que a cultura protestante os convencesse de que o objectivo de uma educação católica em artes liberais serve apenas para preparar futuros executivos?

Geoffrey Owens - nada de que se envergonhar
Ontem fui com a minha mulher ao sapateiro local. O homem não só domina a sua profissão, como é honesto. Consegue arranjar praticamente tudo, incluindo carteiras ou fivelas de cabedal, e não hesita em avisar se algo não vai ficar tão bem como queremos. É um homem que fornece valor real.

Podia dizer o mesmo sobre o nosso mecânico. Os advogados caros da universidade onde trabalho só parecem dar conselhos maus, mas um mecânico honesto e capaz é uma dádiva do céu. O meu mecânico não só consegue arranjar praticamente tudo, como o faz de forma honesta. A primeira vez que o procurei foi porque um limpa-vidros tinha enlouquecido. Nas outras oficinas tinham-me dito que seria preciso mudar o mecanismo inteiro, e que custaria mais de 400 dólares. Mas o Jim desmontou-o e apontou para uma bucha partida. “Quanto?” perguntei. “Se conseguirmos encontrar uma igual, cerca de um dólar e meio”, respondeu. Noutra ocasião arranjou o meu carro na véspera do meu casamento. É o meu herói.

Temos ainda um homem que arranja coisas cá por casa. Nunca deixo de me espantar com todas as coisas de que ele é capaz. Tem um valor inestimável e já nos poupou centenas de dólares em reparações. Provavelmente até salvou a casa mais do que uma vez. Também ele é o meu herói.

Recentemente um escritor católico expressou preocupação pelo futuro do trabalho, dizendo que “alguns especialistas até prevêem que dentro em breve todo o trabalho de que precisamos será feito por uma pequena elite cognitiva, em colaboração com máquinas geniais”. Serão estes os mesmos especialistas que previram que por esta altura estaríamos todos a morrer à fome por causa da explosão demográfica, e que seríamos substituídos por computadores inteligentes?

Não acreditem em nada disso. Há trabalhos que simplesmente não podem ser transferidos para países em desenvolvimento ou dados a um robot. Tomar conta do seu bebé, por exemplo, ou assentar tijolos para fazer uma parede. Arranjar os seus canos ou ainda instalar uma tomada em sua casa. Mais uma? Fazer a cama no seu quarto de hotel. Todos os executivos do mundo podem ser substituídos antes de substituirmos as pessoas que fazem esses trabalhos.

Pensem por momentos em todas as pessoas que fazem esses trabalhos – trabalhos que fornecem valor real para as pessoas, empregos que melhoram tanto a sua qualidade de vida – e dê graças a Deus.

As pessoas dizem para sermos como Cristo. Muito bem. Ele começou como carpinteiro. Começemos, então, em casa. Ou melhor, no trabalho.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

As Três Formas de Justiça

Randall Smith
Ainda consigo ouvir a sua voz suave e preocupada. “Mas professor Smith, isto soa muito a comunismo.”

Estávamos a estudar o maravilhoso livro de Josef Pieper “As Quatro Virtudes Cardinais” e a falar de justiça distributiva. O comentário foi feito por uma jovem mórmon, mãe de quatro, e a minha primeira reacção foi perguntar: “Josef Pieper, o devoto tomista, um comunista?”, mas quando uma mãe de quatro filhos nos faz uma pergunta sincera, temos de a levar a sério.  

Mas recuemos um pouco. “Quando é que se pode dizer que a justiça prevalece numa nação?”, pergunta Pieper. Na linha de São Tomás, Pieper responde que “a justiça predomina numa comunidade ou num estado sempre que as três relações básicas, as três estruturas fundamentais da vida comunal, estão dispostas pela sua ordem correcta”: as relações dos indivíduos uns com os outros (justiça comutativa); as relações do todo social com os indivíduos (justiça distributiva); e as relações dos indivíduos para com o todo social (justiça legal ou geral).

A justiça, enquanto virtude, situa-se sempre em indivíduos. Mesmo a justiça do Estado é confiada a agentes individuais: o primeiro-ministro, o Presidente, legisladores e juízes. Mas as relações entre indivíduos podem mudar, e não compreender isto pode conduzir a sérios problemas.

Um Presidente não deve tratar os cidadãos como se fossem seus filhos, nem uma mãe deve educar os seus filhos como se fossem cidadãos com direito de votar sobre as regras que os governam. De igual modo, a obrigação de pagar impostos difere da obrigação de pagar ao canalizador. E a protecção legal que me é devida pelo Estado é bastante diferente do dinheiro que o meu chefe me deve a mim.

As pessoas que não compreendem a diferença entre justiça comutativa e justiça distributiva dizem coisas do género: “Eu pago, e bem, por aquelas escolas (ou estradas, ou pontes, ou bibliotecas públicas), mas não beneficio delas. Quero o meu dinheiro de volta”. Mas quando pagamos ao canalizador, esperamos serviço. Se ele não arranjar os canos, não lhe pagamos. Mas não estamos a contratar um serviço ao Governo.

Os impostos que pagamos ao Governo servem para apoiar o bem comum, e os representantes do Estado distribuem-no da melhor forma que podem, para servir o bem comum. O facto de eu usar pessoalmente as escolas, as autoestradas ou as bibliotecas, é irrelevante. Posso não ter filhos, mas uma população educada é boa para todos. E talvez pague impostos mais altos do que a malta que vive do outro lado da cidade, mas a sua necessidade de boas escolas é tanta, ou talvez até maior, que a minha.

Também acontece ouvir certo tipo de pessoas privilegiadas a dizer algo deste género a um agente da polícia: “Eu pago o seu salário! Eu paguei por esta estrada. Devia poder conduzir nela como me apetecer.” Outras pessoas acham que merecem um serviço mais lesto por parte do Estado porque pagam mais em impostos.

Trata-se de confundir a justiça comutativa com justiça geral, ou legal. Quando pagamos ao homem que nos corta a sebe, podemos dizer-lhe para fazer o que nós quisermos, mas não estamos a “pagar” pela autoestrada ou pela polícia da mesma forma. O Código da Estrada existe para a segurança de todos e nós temos uma obrigação para com todos os outros nessa estrada pública. Os ricos não devem ser tratados melhor pela polícia, juízes, ou outras entidades públicas, e os estados que oferecem um tratamento diferenciado para quem paga mais estão a distorcer a relação com os seus cidadãos.

Os individualistas coerentes tendem a criticar a noção de justiça distributiva porque acreditam que os indivíduos estão sempre a lidar com outros indivíduos. Logo, cada forma de justiça é, desta perspectiva, apenas mais uma forma de justiça comutativa.

Josef Pieper
Às vezes as pessoas não reconhecem as suas obrigações para com o bem comum, preferindo concentrar-se nos “direitos” dos indivíduos. Para um individualista coerente, diz Pieper, “cada fase da vida comunal de um homem, tanto na família como no Estado, é um acordo de compromisso entre os interesses de indivíduos com direitos iguais”.

A crítica colectivista dos três tipos de justiça, por outro lado, é bastante diferente. Para o colectivista, diz Pieper, “não existe tal coisa como um indivíduo capaz de entrar numa relação por si. Acima de tudo, não existem relações entre indivíduos. A vida do homem é de caracter inteiramente pública, porque o indivíduo só pode ser definido através da sua pertença ao todo social, que é a única realidade”.

Daí que existam pessoas que nos querem negar o direito à propriedade privada, ou que pensam que cada relação, incluindo a sua relação com o canalizador, deve ser subordinada a preocupações étnicas ou políticas. Em vez de “o meu” amigo, ou “o meu” canalizador, agora somos ambos meros co-funcionários no seio do todo político.

O resultado é que “todas as relações humanas são (…) subordinadas ao critério do desempenho de uma função, e podem deixar abruptamente de existir quando eu não me conformar à norma estipulada”.

És “meu” amigo? Se tens as opiniões erradas ou votas nas pessoas erradas, não és. “Contrataste um canalizador que votou Trump? Como é possível?”. Talvez porque ele sempre trabalhou de forma honesta e boa, e nunca me engana. A minha relação com ele é governada pelos padrões da justiça comutativa, não pela justiça distributiva nem a geral.

A partir do momento em que pensamos que aquilo que é “legal” expressa por inteiro aquilo que devo à comunidade ou à minha família, ou quando achamos que a nossa relação com a comunidade é equivalente à que temos com uma empresa quando contratamos um serviço, estamos a cometer um erro. “A própria essência de justiça está ameaçada”, conclui Pieper, “no momento em que estas três estruturas fundamentais da vida comunal, e por isso as três formas básicas de justiça, simplesmente deixam de existir”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Junho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Jihad em Moçambique?

Jihad em Moçambique?
Está a acontecer uma jihad em Moçambique? Há indicações que sim, mas pode ser que não… Andei a investigar o assunto e com a ajuda do arabista Raúl Braga Pires, do dirigente islâmico Khalid Jamal e do bispo de Pemba, cheguei às conclusões que pode encontrar neste artigo.

O Papa Francisco está satisfeito com o facto de a Coreia do Norte e a Coreia do Sul apresentarem-se em conjunto nos jogos olímpicos de Inverno.

Já o Papa emérito, Bento XVI, escreveu uma carta publicada num jornal italiano em que fala da sua fragilidade, nesta última fase da sua peregrinação “para casa”.

Ainda sobre a notícia de ontem das orientações pastorais para a aplicação do VIII capítulo do Amoris Laetitia em Lisboa, aqui podem encontrar as mesmas em língua inglesa, caso estejam interessados ou conheçam quem esteja, podem partilhar.

Hoje é dia de Catholic Thing. O nosso amigo Randall Smith fala da pastoral dos homossexuais. “Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto?” A ler.

Um desafio a todos os que se interessam por aprofundar o tema dos métodos naturais de planeamento familiar, o Movimento de Defesa da Vida vai organizar um workshop no fim-de-semana de 10 e 11 de Março. São 13 horas de formação e o custo são 80 euros, mas há descontos para casais e ninguém deve deixar de se inscrever por dificuldades financeiras. Os profissionais de saúde que tenham interesse em tornar-se monitores devem inscrever-se e dar conta dessa intenção aos organizadores. 

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Empurrando problemas com a barriga...

Randall Smith
Há alguns anos surgiu um filme chamado “A Corrente do Bem” [Pay it Forward], cuja ideia principal era de que quando alguém nos faz bem, em vez de retribuir devia-se fazer bem a outra pessoa. A realidade costuma ser menos benigna. O que as pessoas costumam passar aos outros são os resultados de um trabalho mal feito, um problema por resolver, uma disfunção que vai passando de gabinete em gabinete até que cai no colo de alguém que não tem nem a autoridade para o poder passar a mais ninguém.

Digamos que um jovem padre, acabado de se formar em Direito Canónico, é colocado num tribunal diocesano, esperando idealisticamente poder aplicar o conhecimento e as práticas que aprendeu, com base na tradição da Igreja, aos desafios pastoralmente difíceis dos casos de nulidade. O que descobre, porém, é que há anos que o tribunal não segue essas práticas, adoptando uma atitude de despachar os processos, dos quais muito poucos são rejeitados.

Estes funcionários sabem, com base em décadas de experiência (uma vez que muitos estão no tribunal desde os anos 70) que se recusarem um processo, ou se recusarem a nulidade, as partes envolvidas tendem a abandonar a Igreja. Por isso, quando o nosso jovem padre chega, o tribunal encontra-se a decretar algumas centenas de nulidades por ano, tendo rejeitado apenas oito ou nove na última década.

O jovem padre idealista decide resistir a este laxismo burocrático. Assim ele é que passa a ser o problema. A burocracia diocesana gere as coisas de uma certa forma há anos; os padres que aconselham os casais estão habituados a dizer-lhes que não haverá qualquer problema uma vez ultrapassada a difícil fase do preenchimento dos papéis.

Ao resistir, o nosso jovem padre vai causar muito mal-estar. Pessoas zangadas por terem visto os seus processos negados irão abandonar a Igreja e os padres que os aconselharam ficarão furiosos. Se o conflito se tornar público os comentadores “liberais” escreverão artigos revoltados, lamentando a “falta de caridade e sensibilidade pastoral” do tribunal, enquanto os “conservadores” criticarão o tribunal por ser tão laxista, insistindo que a caridade maior é a aplicação rigorosa das leis da Igreja.

Eu, para dizer a verdade, não tenho nada a dizer sobre o assunto.

Em vez disso, pergunto se não fará sentido sugerir que “o problema” começou muito antes. Cada pedido de nulidade que chega ao tribunal deve ser considerado uma falha na preparação para o matrimónio. Se a Igreja pode legitimamente decretar a nulidade de tantos casamentos por ano, então tem de enfrentar a triste realidade de que todos os anos milhares de casais católicos não estão a ser bem preparados para o casamento. Tentar lidar com o problema na fase do processo de nulidade é como tapar uma ferida de bala com um penso. Não faz mais do que esconder o problema, em vez de lidar com a ferida profunda, que devia ter sido evitada. Um “hospital de campanha” responsável deveria perguntar porque é estão a aparecer tantas pessoas vítimas de balas, em vez de procurar pensos mais sofisticados.

O pessoal das urgências era capaz de ficar irritado se um médico se recusasse a fazer como todos os outros e simplesmente tapar a ferida com um penso. Parece cruel deixar a ferida aberta. Mas devemos continuar a tapar os problemas em vez de lidar com as suas causas? Os médicos das urgências que já fizeram as pazes com aquilo que se lhes pede há anos provavelmente dirão que não conseguem controlar o que se passa antes de os feridos darem entrada, e isso é verdade, eles não criaram o problema, simplesmente caiu-lhes no colo. E agora?

Hospital de Campanha na Áustria, Primeira Guerra Mundial
Podíamos fazer um comentário semelhante sobre as escolas católicas. As escolas não costumam estar na raiz dos problemas, mas são o local onde todos os problemas tóxicos, que grassam na nossa cultura, vão parar. Questões com drogas e álcool, pornografia e a adolescência híper-sexualizada; consumismo; as pressões de ser bem-sucedido numa economia tecnocrática e globalizada; e por detrás de todas estas, as dificuldades de lidar com as exigências cada vez mais insaciáveis de multidões de indivíduos autónomos alimentados pela ideologia do Estado liberal e que acreditam que têm o “direito” de fazer o que querem, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos dos outros e as obrigações para com a comunidade.

O resultado é que temos uma população, incluindo americanos, que sentem que têm o “direito” a casar e a casar nesta igreja; o “direito” a uma declaração de nulidade quando as coisas não correm bem; o “direito” a ter a escola católica que querem (o que pode significar aulas de educação sexual, ética ambiental ou missa em latim); e o “direito” de escolher a vida que querem, quer isso signifique o “direito” a um aborto, o “direito” a casas de banho transgénero ou o “direito” a acumular toda a riqueza possível para poder comprar os bens de consumo que querem.

Por isso, e quando os padres insistem perante as suas congregações que a principal virtude cristã é “ser simpático”, esses fiéis têm alguma dificuldade em compreender porque é que uma instituição católica lhes negaria o que consideram ser desejos legítimos, porque negar às pessoas aquilo que querem não é “simpático”. Quando se alimenta uma cultura de liberalismo autónomo e se prega o Evangelho de deísmo terapêutico moralista, está-se a dar força às raízes das ervas daninhas da nossa cultura, muitas das quais acabarão por crescer com força no jardim de alguém que não tem os recursos necessários para se livrar delas.

Por isso podemos continuar a discutir amargamente e sem fim sobre os tribunais e as escolas onde os problemas acabam por ir parar – embora nesse ponto as dificuldades são já tão grandes e os recursos tão escassos que teria sorte se até um penso lhe dessem. Ou então podemos levar a sério o que está a acontecer na nossa cultura e o que não se está a passar na nossa Igreja e começar a responsabilizar as pessoas envolvidas no sistema, a começar por nós, para não empurrem mais os problemas com a barriga.

Talvez devêssemos fazer disso a nossa resolução de Ano Novo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Resignação em Viseu, sismo no México e fantasias no Bloco

Rezar pelo México, com o Papa
Certamente já sabem que há diplomas no Parlamento sobre mudança de sexo. Sabe quais as implicações do que lá está escrito? Estive a ler o projecto do Bloco de Esquerda. Há coisas hilariantes, há coisas assustadoras. Há que saber o que nos querem impor.

O Papa aceitou o pedido de resignação do bispo de Viseu, por motivos de saúde.

O Parlamento aprovou por unanimidade um voto de pesar pela morte de D. António Francisco dos Santos



Deus Estava lá, os Socorristas Também

Randall Smith
Há uma piada antiga que começa com uma cheia. A água tinha passado o primeiro andar da casa de um homem quando passou um barco. “Entra”, disseram. “Não”, respondeu o homem. “Deus vai salvar-me”. A água já tinha subido até ao segundo andar quando passou outro barco que o instou a entrar. “Não”, disse o homem, “Deus vai salvar-me”. A água subiu mais até que o homem estava no telhado e passou um helicóptero que baixou uma escada. Mas o homem recusou, dizendo que Deus o salvaria. O homem morreu afogado e quando chegou a Céu questionou Deus: “Porque é que não me salvaste?” Ao que Deus respondeu: “Enviei-te dois barcos e um helicóptero. Que mais é que querias?”

Conto esta piada aos meus alunos quando falamos sobre a noção metafísica da criação, de São Tomás de Aquino. Para São Tomás, a criação é a dádiva completa e contínua de “ser” a tudo o que existe. Se Deus deixasse de “criar” uma coisa, deixaria completamente de existir. E porém, as coisas existem. A obra de Deus enquanto criador e a existência de uma coisa não são mutuamente exclusivas; pelo contrário, esta depende daquela. É o mesmo com a acção de Deus no mundo: Deus pode, e costuma, trabalhar em e através de causas naturais. A causalidade natural no universo e a causalidade divina não são mutuamente exclusivas. A primeira depende da segunda, mas ambas operam às suas maneiras, tal como quando corto lenha com um machado, eu corto a lenha e o machado corta a lenha – eu, como causa primária e o machado como causa secundária. Não é “uma coisa ou outra”, é “uma coisa e a outra”.

Quase todos os cristãos compreendem esta verdade fundamental, e é por isso que saíram à rua para salvar pessoas em Houston na semana passada e para ajudar as pessoas a limpar os estragos do furacão Harvey. Não se limitaram a dizer: “Deus tomará conta disto, por isso não preciso de me preocupar”. Disseram “Deus tomará conta disto em e através de mim. Eu devo ser um instrumento da vontade de Deus. Sou chamado para ser as mãos e os pés de Cristo, agora”.

Se viu a cobertura mediática, foi esta a mensagem repetida várias vezes. Poderíamos responder à acusação de Marx de que “a religião é o ópio do povo” com base na experiência de Houston da semana passada – e de tantas outras situações na história – que, longe de ser um opiáceo, a religião parece ser um fortíssimo estimulante, sobretudo em tempos de crise. As massas estão agarradas ao ópio, sim, e em grande número, mas não tem nada a ver com o Cristianismo.

Alguns anti-teístas, porém, insistem em imaginar que todos os cristãos são como o homem ignorante da piada e não como os homens e as mulheres que saíram à rua em massa para ajudar os outros, inspirados pela sua fé em Deus. Um cartoon publicado recentemente no “Politico” mostra um texano provinciano com uma t-shirt com a bandeira confederada (naturalmente) a ser salvo por um helicóptero e a gritar: “Anjos, enviados por Deus!”. Ao que o socorrista sério responde, enquanto veste um colete à mulher que foi deixada para trás: “Er… Por acaso, Guarda Costeira… Enviada pelo Governo”.


Percebe a ideia. O burgesso tonto pensa que foi salvo por Deus, mas o guarda costeiro sério sabe melhor. É um caso clássico de uma coisa ou outra. Mas o cartoonista não conhece, evidentemente, muitos dos socorristas desta zona. Por razões que ele próprio conhece, gosta de pensar que partilham a mesma atitude que ele em relação à religião. Mas para a maioria não é assim. Os cristãos que acreditam na sacramentalidade de toda a criação não têm o menor problema em aceitar que Deus pode trabalhar em, e através de, causas naturais. Claro que não existem “provas” da existência de tal Deus que pudessem convencer um ateu, mas essa não é a questão. Ninguém está a tentar usar estes socorristas de Houston como arma de arremesso contra os ateus. É o ateu quem está a insistir que se há uma causa natural como um guarda costeiro envolvido no resgate, então Deus não pode estar presente.

Afinal quem é que está a revelar sinais de intolerância e mente fechada?

Mas o cartoon tem ainda outro claro exemplo da mentalidade de “uma coisa ou a outra”. Reparem que o guarda costeiro faz questão de dizer que vem “do Governo”, enquanto o campónio texano tem um cartaz na sua casa a proclamar “secessão” e uma bandeira que diz “Não me pises”. Este detalhe é peculiar, uma vez que a primeira vez que essa bandeira foi hasteada foi num barco de tropas colonialistas em1776 e continua a ser hasteada em navios da marinha em tempos de guerra.

A implicação do artista é clara: “Como é que pensas que te safarias, Sr. Campónio Texano, se o Governo não estivesse lá para te salvar?”

Só que na realidade não foi isso que aconteceu, pois não? O que salvou milhares de texanos de um destino parecido com o de Nova Orleãs no tempo da Katrina, foi precisamente o facto de ninguém ter esperado pela ajuda do Governo federal. Vizinhos entraram em acção para ajudar vizinhos: o “exército Cajun” veio da Luisiana e de outras partes do Texas e, sim, a cidade, o concelho, o Estado e o Governo federal desempenharam, cada um, o seu papel – em larga medida sem rancor, apontar de dedos ou procura de louros.

Não foi um caso de “uma coisa ou outra”, foi um caso de “uma coisa e outra”. Os católicos chamam a isto “subsidiariedade”. A fé cristã não levou as pessoas a esperar pela ajuda de Deus e bem sabemos que os resultados de depositar uma fé secular no Governo nem sempre são eficazes.

Há forças em acção na América hoje que beneficiam de, e por isso preferem, a mentalidade de “uma coisa ou outra”. Não será chegada a altura de falarmos dos benefícios do “uma coisa e outra”? Não é Deus ou causas naturais, são ambos, cada um à sua maneira. Não é o Governo federal ou os cidadãos privados, igrejas e governos locais, são todos, cada um a desempenhar o seu papel, trabalhando juntos para ajudar pessoas reais com necessidades reais.

A atitude “uma coisa ou outra” é o que costuma resultar quando a ideologia começa a ser mais importante do que as pessoas. Mas a mentalidade “uma coisa e outra” é necessária quando no coração das nossas crenças – sejam elas seculares ou religiosas – está o serviço às necessidades reais dos outros. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 14 de Setembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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