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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Padres casados não, eutanásia muito menos...

Longe da floresta tropical!
A notícia quente do dia é que afinal não vai haver padres casados na floresta tropical, nem diaconisas. Mas polémicas à parte, vale a pena ler sobre os “quatro sonhos do Papa para a Amazónia”.

O outro assunto é a eutanásia. Vão-se juntando vozes a pedir referendo. Os bispos tomaram posição, Cavaco Silva e Ramalho Eanes também, bem como Fernando Santos.

A minha posição sobre um eventual referendo foi expressa há mais tempo e está aqui. Sem margem para dúvidas e sem pretensões democráticas.

Mas porque há vida para além da eutanásia e dos padres casados, leiam também o artigo do The Catholic Thing desta semana em que Randall Smith usa o exemplo da viúva pobre para nos dizer, essencialmente: façam o que puderem, deixem Deus fazer o resto.

Uma lição que serve para tudo, incluindo para debates como o da eutanásia. Que cada um faça o que puder!

As Moedas da Viúva

Randall Smith
Conta-se que quando estavam a restaurar a Estátua da Liberdade, no início dos anos 80, e para o efeito estava-se a recolher fundos em todo o país, apareceu um envelope com duas moedas de dez cêntimos, e um bilhete de um rapazinho, que dizia: “Isto é o meu dinheiro para o almoço de hoje, mas estou a enviá-lo para a Estátua da Liberdade. Por favor usam-no com juízo”.

Se for verdade, então é uma versão moderna da história das moedas da viúva (Marcos, 12, 41-44 e Lucas 21, 1-4), em que uma viúva pobre doou duas moedinhas, as mais baixas em circulação, ao tesouro do Templo. “Chamando a si os discípulos”, diz Marcos, “Jesus disse-lhes. ‘Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.’”

É uma história maravilhosa, no geral toda a gente gosta dela. Às vezes preocupo-me que gostamos muito dela porque é uma daquelas parábolas em que os ricos parecem ser denunciados e os pobres (que associamos a nós mesmos, apesar de vivermos no país mais rico do mundo) são elogiados. “Sim, os pobres como eu é que vão para o Céu e aqueles arrogantes ricos idiotas vão finalmente levar com o que merecem.”

Talvez não seja essa a melhor lição a tirar desta história, uma vez que somos um povo rico, a quem muito foi dado, e de quem muito se esperará. E que, se formos honestos connosco mesmos, normalmente contribuímos do que temos a mais e não do nosso sustento. Por isso talvez seja melhor deixar de parte os nossos ressentimentos financeiros por enquanto e considerar outras duas lições que a Igreja pode aprender com a história desta viúva e do jovem que enviou o seu dinheiro do almoço com a recomendação de que fosse usado com juízo.

A primeira lição, que deve ser aprendida por certos bispos, é de que o dinheiro do “tesouro do Templo” não é vosso. O dinheiro é da viúva e ela confiou-o à Igreja e ao vosso cuidado. O vosso dever passa por usá-lo sábia e dignamente.

Com cada despesa o bispo deve perguntar: O uso deste dinheiro é digno da pobreza e do amor da pessoa que o doou? Aquela viúva deixou as duas moedas no cesto da colecta para que pudesse voar em primeira classe para Roma? Doou para que pudesse oferecer presentes caros àqueles de quem espera obter favores?  

Poucas coisas metem mais nojo do que prelados que tratam o dinheiro doado como se fosse sua propriedade, para disporem como quiserem. Talvez esta não seja a melhor altura para referir que no seu último encontro os bispos americanos votaram para aumentar as contribuições das dioceses do país em 3% para financiar as diversas atividades da conferência episcopal. Acredito que as usem com juízo.

Mas a segunda lição é para todos nós e é sem dúvida mais importante, uma vez que é menos diretamente “financeira”. Seja qual for o nosso talento, é o suficiente que o ofereçamos a Deus. Especialmente em tempos difíceis como estes, quando as grandes movimentações no mundo e na Igreja parecem estar fora do nosso alcance, é tentador dizer: “Eu? O que é que eu posso fazer? Como é que posso contribuir?” Se Deus to deu, então chega.

Lembram-se da história da multiplicação dos pães e dos peixes? (João 6, 1-14). Vendo a multidão de “cerca de cinco mil”, Jesus disse a Filipe: “Onde é que podemos comprar pão para eles comerem?” Filipe responde. “Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho”. Outro dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, falou, dizendo: “Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes.” O resto, como dizem, é história. Jesus tomou os dois pães e os peixes e deu de comer a toda a multidão. E depois de se terem saciado, ainda sobraram 12 cestos com os restos.

Esta história também é famosa, e com razão. Mas não queremos perder de vista a importância de uma das personagens menores: o rapazito. Os cinco pães e os dois peixes eram tudo o que ele tinha para comer o dia todo. Quando os apóstolos lhos pediram, podemos imaginá-lo a responder. “Isto? Não. É tudo o que tenho. Procurem um rico com muito pão”. Mas não o fez. Deu o pouco que tinha. Não era muito, mas era o suficiente.

Imaginem ser este rapaz e virem ter consigo as pessoas que perguntam: “Foste tu que deste os cinco pães e os dois peixes que alimentaram os cinco mil?” O que diria? “Bem, sim. Mas não é como se eu tivesse alimentado aquelas pessoas todas”. “Não, mas se não tivesses sido tu não tinha acontecido nada. Foi como Maria. Fizeste a tua parte, deste o teu ‘Sim’, e isso fez toda a diferença”.

Por isso, caro amigo, só tens é que dar os teus míseros cinco pães e dois peixes, de forma altruísta, de graça, sem qualquer desejo de lucro ou de promoção, e depois confiar que Deus consiga alimentar milhares com os dons que Ele te deu. É a estranha matemática do amor, multiplica-se. O dom altruísta do amor entre duas pessoas cria uma terceira, e depois outra, e outra, até que há trinta-e-cinco netos. Um pequeno grupo de amigos pode produzir bons efeitos que se expandem de forma exponencial, sozinhos, sem os mecanismos do poder, da propaganda e do controlo social.

É uma Igreja grande, um mundo enorme, com milhares de milhões de pessoas. “Que posso eu fazer?” Dá as tuas duas moedas. Dá os teus pães e um par de peixes. Depois deixa que Deus faça a cena dele.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020)


© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Coronavírus e ecumenismo

Estamos satisfeitos com a educação que damos nas nossas universidades? Nomeadamente na área das artes liberais? São cada vez mais as pessoas que questionam o modelo de ensino. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o professor universitário Randall Smith sugere que toda a gente aprenda um ofício, como por exemplo canalizador ou electricista, ao mesmo tempo que tira o curso.


O Patriarcado de Lisboa recebeu centenas de candidaturas para o concurso de hino e logotipo das JMJ 2022.

No sábado passado viveu-se o final do oitavário de oração pela unidade dos cristãos. Como é que se vive o diálogo ecuménico num país em que os cristãos são apenas 1,2% da população total? Foi esse o tema da minha conversa com Sebastian Shaw, arcebispo de Lahore, no Paquistão.


Um Novo Paradigma para a Educação nas Artes Liberais?

Randall Smith
Tenho um amigo que acha que a maioria dos alunos contemporâneos estão de tal forma afastado da natureza que teriam de ser reintroduzidos a ela antes de se poder pensar sequer em ensinar-lhes sobre o direito natural e as virtudes.

A Wyoming Catholic College resolve este problema obrigando os alunos a montar a cavalo. Montar não é uma capacidade virtual em que nos possamos desenrascar. Os cavalos têm uma mente própria e para os conseguir montar é preciso ter a capacidade e a sensibilidade para as disposições do cavalo naquele dia. Montar um cavalo não é como brincar com números numa folha de cálculo e por isso é exatamente o género de coisa que os alunos deviam aprender a fazer.

Agora, talvez nem toda a gente possa ou deva aprender a montar a cavalo, nem que seja para poupar os cavalos à tortura de serem sujeitos a cavaleiros incompetentes. Os cavalos precisam de muitos cuidados e de espaço para poderem andar, e nem todas as universidades têm esses recursos. Mas podemos ensinar outras competências que requerem ingenuidade e atenção à realidade do mundo, e não apenas às vontades e aos desejos?

Tenho uma proposta radical. Todos os alunos deviam aprender um ofício com um mestre. Podia ser na área da canalização, electricidade, construção, agricultura, mecânica, carpintaria, mobília, ou outros. O objectivo principal seria ensinar os alunos uma prática que requer disciplina e excelência e onde os resultados são concretos e evidentes.  

Se não ligar correctamente os cabos eléctricos, a luz não acende. Se não colocar correctamente os tijolos, o muro cai. Se a canalização não for bem feita, aparecem fugas. Não há muito espaço para “individualismo criativo” e “voluntariedade autocentrada” quando se está a aprender tais ofícios. Se não o fizermos bem, a coisa não funciona.

E torna-se claro para toda a gente porque é que o mestre é “mestre” e porque o novato não é. Isto, como eu disse, seria o objectivo principal. Aprender um ofício para compreender que existem padrões de exigência e para poder depois aplicar isso ao desenvolvimento das virtudes.

Claro que a proposta é absurda, uma daquelas fantasias que os professores universitários inventam nos seus tempos livres.

Mas será assim tão absurdo? Não é propriamente uma coisa impossível de se fazer. Contratamos electricistas e canalizadores nas universidades a toda a hora. Será mais complicado contratar um mestre electricista que possa ensinar do que um académico de história que possa ensinar?

E pensem no que poderíamos dizer aos pais. Vamos treinar o seu filho segundo as melhores tradições das artes liberais. Mas está preocupado que não consigam arranjar um emprego para se sustentarem? (E sim, muitos temem isso mesmo), pois bem, mesmo que tudo o resto falhe, terá sempre uma forma de ganhar dinheiro como canalizador, electricista, mecânico ou alfaiate. Terá sempre um plano B.

Wyoming Catholic College
E, já que estamos nessa, todos sabemos que um bom canalizador ou electricista ganha mais do que a maioria dos miúdos que metemos a fazer trabalhos de seca num escritório. E se decidirem prosseguir os estudos podem sempre exercer esse ofício em part-time, de forma a conseguir pagar as contas.

Poderão esquecer-se do que aprenderam sobre história ou sobre química orgânica, e os conhecimentos sobre Shakespeare e Freud hão de mudar ao longo dos anos, mas tudo indica que, tal como andar de bicicleta, jamais se esqueçam de como ligar os cabos de um interruptor ou como construir uma cadeira. A tecnologia disponível pode mudar, mas com um bocadinho de tempo e formação hão de conseguir voltar aos eixos.

Como vêem, é uma proposta prática com potencial para aumentar as candidaturas ao ensino superior. Então porque é que não deve gerar grande interesse? Porque requer uma mudança de paradigma na forma como entendemos o ensino universitário. De acordo com a nossa forma de pensar, desenvolvida ao longo dos últimos oitenta e tal anos, as universidades são para trabalhadores administrativos. Os canalizadores não vão para a universidade – pelo menos não para aprender canalização – porque são operários.

Quero que fique bem claro que hoje, como sempre, de uma perspetiva cristã isto é uma valente treta. Os gregos antigos podem ter olhado com desdém para o trabalho manual, mas os cristãos não o podem fazer. Cristo trabalhou como carpinteiro durante a maior parte da sua vida. Todos os beneditinos, franciscanos e dominicanos que fundaram a educação cristã e as primeiras universidades trabalhavam, não eram aristocratas de Oxbridge.

Para além disso, os canalizadores têm tanto direito a uma educação nas artes liberais como qualquer outro. Algumas das melhores conversas que já tive sobre fé e filosofia foram com canalizadores, electricistas e muitos outros que passaram pela minha casa para arranjar coisas. São pessoas interessantes. Tentem discutir o problema do mal com uma mulher polícia que já foi baleada por traficantes. Tem uma perspectiva que falta à maior parte dos licenciados.

E para ser sincero, a maioria dos trabalhos de escritório requerem tanto uma educação universitária como a canalização. Eu rejeito a ideia de que um trabalhador não consiga subir na vida se não tiver acabado o curso. Quem é que fez das universidades os porteiros do sucesso empresarial? Não é essa a nossa função nem o nosso objectivo. É, isso sim, o que dizemos às pessoas, para nos mantermos em funções, mas mais tarde ou mais cedo o mundo vai perceber.

Não é preciso uma educação universitária para conseguir um emprego ou avançar para o próximo grau de liderança numa empresa. Devia querer uma educação nas artes liberais porque ela expande a mente e a alma. Se o ajudar a ganhar dinheiro também, então força!

Só não se esqueça de doar um bocadinho desse dinheiros aos seus pobres e esforçados professores, na universidade onde tirou o curso, está bem?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Porque não a Excelência?

Randall Smith

Está à procura de uma boa catequese para um amigo? “Oh não. Onde é que o podemos mandar sem que perca a fé?” Preparação para o matrimónio? “Epá, vão ter de aguentar, mas não liguem a grande parte das coisas que vão ouvir.” E acontece o mesmo aos bispos que querem mandar seminaristas para formação. “Oh não, onde é que os podemos mandar que não sejam corrompidos e fiquem com a fé minada?”

Porque é que estamos constantemente neste estado absurdo de procurar a opção menos má? Porque é que as instituições de educação católicas não são as melhores do país? E até do mundo?

Tenho uma amiga que trabalha com seminaristas. Ano após ano ela lida com candidatos ao sacerdócio que não sabem escrever nem lêem. Queixa-se ao responsável pelos estudos. “Sim”, diz ele, abanando a cabeça, “temos de fazer melhor”. Mas nunca fazem. Não se preocupam o suficiente para fazer a diferença. Vemos o mesmo a acontecer na educação a toda hora. Este tipo de “preocupação” é um mero sentimento, não uma intenção viva de fazer algo de concreto. Mais tempo fora da sala de aula. Mais tutoria. Mais esforço dedicado a assuntos difíceis.

Em vez disso levamos constantemente com “reorganizações” em que nada de substancial acontece. Acabamos por ver repetições do mesmo, com diferentes categorias e pessoas mudadas de um lado para o outro, com novos títulos. Depois os responsáveis dizem: “Temos uma nova e importante iniciativa”, mas de novo e importante não tem nada. Esta “importante nova iniciativa” é, de facto, praticamente igual na sua falta de profundidade às últimas cinco “novas iniciativas importantes” que não resolveram os problemas.

E para dizer a verdade, ninguém se preocupou o suficiente depois desses anúncios para garantir que estavam a resolver os problemas. Foram anunciados. Isso deixou-nos satisfeitos. O novo programa, disseram-nos, resultou de horas e horas de “trabalho árduo” – o que significa reuniões sem fim com diferentes “grupos de interesse” que era preciso apaziguar. O resultado é que acordavam no denominador comum mais baixo. Não o melhor, nem o pior, apenas o menos mau.

A minha amiga que faz tutoria a seminaristas tem de ler os seus trabalhos de “Homilética Avançada”. Um terço deles são claramente plagiados. Ela informa o seminário. Nada acontece. Já pensou porque é que as homilias são tão fracas? É porque temos seminaristas que não lêem e não sabem escrever, e raramente são obrigados a fazer uma coisa ou outra. Como é que podemos esperar que um seminarista que nunca leu e que não sabe escrever construa uma homilia sensata e entusiasmante? Que mais podemos esperar de homens tão mal treinados do que platitudes piedosas ou frases feitas ideológicas?

Futuros padres são apanhados a fazer batota numa cadeira de homilética avançada e os seus superiores limitam-se a olhar para o lado? Porquê? A resposta: “Precisamos de padres!” Mas não, do que precisamos é de bons padres. E não os teremos, não os conseguiremos desenvolver, se não deixarmos de aceitar a mediocridade e a opção menos má, insistindo antes na excelência.

Um seminarista foi ter com a minha amiga no final do ano lectivo e disse-lhe que precisava de ler mais. Queria saber o que é que devia ler. Ela recomendou as Confissões de Santo Agostinho. Quando regressou, no final do Verão, tinha lido esse e todo o Kristin Lavransdatter (mil páginas). Disse que lhe tinha mudado a vida.

Se aguentam com Rowling, aguentam com Agostinho
Estou neste momento a escrever um manual de introdução à teologia moral. Toda a gente me pergunta a que nível é que me dirijo. Respondo que estou a dirigir-me a alunos de final de liceu e universitários. “Escrevi ao mesmo nível dos meus artigos do ‘Catholic Thing’, mas cada capítulo tem umas vinte páginas”. Abanam logo a cabeça. “Não consegues meter miúdos a ler tanto, nem a um nível tão avançado. Não são capazes. Não podes esperar que leiam mais do que cinco a dez páginas de prosa simples.”

A sério? Estamos a falar de miúdos que leram os sete volumes da série Harry Potter e toda a trilogia do Senhor dos Anéis, memorizando blocos inteiros, e não podemos esperar que leiam vinte páginas do nível de escrita do “Catholic Thing” porque é “demasiado difícil” e “complicado”? Acho isso insultuoso. Recuso-me a acreditar. Porque é que temos de ser sempre arrastados por este peso da mediocridade? Porque é que não estamos constantemente a desafiá-los a ir mais longe, a procurar a excelência?

Os atletas olímpicos treinam incansavelmente, como bem nos diz São Paulo. Tenho miúdos na minha sala que treinam tanto que mal conseguem subir um lance de escadas. Mas estamos aterrorizados de os assustar, tão envergonhados pela nossa fé, que não nos atrevemos a pedir-lhes que leiam vinte ou trinta páginas que lhes possam mudar a vida?

Esperamos qualidade de excelência olímpica no desporto, mas quando chega à teologia damos-lhes papinhas de bebé? É desprezível. E acreditem no que vos digo, com isso só aprendem a desprezar-nos. Eu converti-me em adulto e lembro-me bem de me terem tentado impingir essas mesmas papinhas quando tinha a idade deles. Não me interessei pelo Cristianismo até ler as Confissões de Agostinho e o "Tratado da Lei" de São Tomás de Aquino na universidade. “Caramba”, pensei, “estes tipos são de outro nível. A religião afinal não é um conjunto de pieguices. Há aqui substância. Agora sim, estou interessado”.

Não fiquei totalmente convencido, mas tinham conseguido a minha atenção. Nada do que normalmente se destinava “aos adolescentes” tinha merecido o meu respeito ou conseguido grande parte da minha atenção. “Voltem quando tiverem algo de interessante para me dizer”, pensei – qualquer coisa séria como as pessoas que fundaram empresas, ou foram à guerra, ou amararam um jato sem motores no Rio Hudson.

Os jovens adultos gostam de se divertir, mas quando vão a uma conferência ou a uma aula querem algo sério e com substância, ou então sentem que estamos a desperdiçar o seu tempo. Já os seminaristas, se não os conseguimos convencer a levar a sério a sua vocação ao ponto de ler livros e não fazer batota, então não devemos deixar que desperdicem o tempo dos outros.




Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Novembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Síria num explicador e livro Rumo ao Jamor

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Tragicamente, a invasão da Síria por parte da Turquia já começou. Está confuso com tudo o que se passa naquela parte do mundo? Não se preocupe, temos um explicador.

O Papa Francisco aceitou esta quinta-feira a resignação de um bispo americano acusado de abusos.

O processo de canonização do Padre Cruz conheceu recentemente um “novo fôlego”, saiba mais aqui.


Trabalha em saúde, ou conhece quem o faça? Então leia e partilhe este artigo sobre como até o mais pequeno gesto pode fazer a diferença na vida de quem está a passar por um momento de aflição e de doença. Mais um artigo do grande Randall Smith, do The Catholic Thing.

Deixo-vos por fim, com um convite. É para o lançamento do meu mais recente livro. O tema não é religioso, mas se gostam mesmo de futebol, e não das polémicas estéreis que andam à volta do desporto, gostaria muito de vos ver por lá!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Precisamos de Hospitais Católicos?

Fiquei profundamente tocado, e até bastante perturbado, com o artigo de Brad Miner da passada segunda-feira em que reflecte sobre o exame oncológico que se prepara para fazer. Para nós que já estivemos na mesma situação estas histórias trazem de volta memórias desconfortáveis e por vezes traumáticas. Faz-me lembrar a letra da música de Tom Petty: “The waiting is the hardest part” [o mais difícil é a espera].

Every day you see one more card
You take it on faith, you take it to the heart
The waiting is the hardest part

Com base na minha experiência, diria que o melhor que as pessoas podem fazer é rezar. Há alturas em que as pessoas dizem: “rezo por ti” e soa-nos a “adeus e bom dia”. Mas quando enfrentamos um futuro escuro, potencialmente fatal e desconhecido, na certeza apenas de que, seja o que for, o que nos espera é algo diferente do que tínhamos planeado, há poucas coisas mais reconfortantes do que ouvir alguém dizer, de forma sincera, “rezo por ti”, ou “estamos todos a rezar por ti”.

Por mais que não queira recordar esses dias terríveis, permitam-me contar uma breve história pessoal para ilustrar um ponto mais importante. Tenho memórias claras de estar deitado numa daquelas macas de hospital, num daqueles cubículos, atrás de uma cortina, enquanto esperava pela minha biópsia cirúrgica. Tinha esfregado o meu corpo todo com toalhitas Hepa enquanto aguardava de pé, nu e cheio de frio, no chão de linóleo. Tinha vestido aquela bata ridícula que nos dão e as meias antiderrapantes. Tinha respondido à longa lista de perguntas medico-jurídicas (Data de nascimento? Sabe o que lhe vão fazer hoje? Alguma vez teve uma reação alérgica a anestesia? Está acompanhado?). E agora estava sentado, sozinho – nunca me senti tão só na vida – simplesmente à espera.

E pensava: Quando é que me deixam ver a minha mulher? Quando é que me vêm buscar? O que é que o futuro me guarda? E mil outros pensamentos que surgiam, sem que eu quisesse, na minha mente. E foi precisamente nesse momento que olhei para cima e vi uma enfermeira com uma mancha preta na testa, e lembrei-me que era Quarta-feira de Cinzas.

É difícil explicar o quão reconfortante foi, para mim, ver essa mancha preta. Poderão pensar que seria o contrário, afinal de contas, a frase que escutamos na Quarta-feira de Cinzas é “lembra-te que és pó, e ao pó retornarás”. Mas aquele símbolo de fé, aquela recordação de que há algo mais profundo e englobante que todo o aparato estéril da medicina moderna (que sendo importante, não deixa de ser alienante e desumanizante), foi o suficiente para elevar o meu espírito, como um abraço caloroso de uma esposa amada.

E depois, num daqueles momentos em que a graça de Deus nos submerge, apareceu outra enfermeira com cinzas na testa, depois outra, e ainda outra, até que praticamente todas as enfermeiras na unidade pré-operatória tinham as cinzas.

“Recebeste as cinzas?”, perguntou uma delas à colega. Um padre católico tinha passado por lá e estava a distribuir as cinzas a quem lhe pedisse. Nada do que se passou naquele dia, para além da presença da minha mulher, teve tanto poder nem me confortou tanto como a visão daquelas cinzas. As enfermeiras não fizeram nada diferente nem disseram nada de diferente, mas elas estavam diferentes, como estava diferente a enfermaria em que me encontrava deitado.

Alguns anos mais tarde estava sentado com um amigo num cubículo igualmente frio e estéril, enquanto ele esperava desconfortavelmente por uma colonoscopia. Não se trata de uma grande operação, não é preciso internamento e os resultados costumam ser bons. “Tudo ok!” Viva.

Mas só estar ali à espera pode ser cansativo. Contei-lhe a história das cinzas. “Ena”, disse ele, “aí está uma boa história. Devias escrever sobre isso naquela tua coluna no Catholic Thing”. (Será que o seu tom de voz sugeriu que as minhas outras colunas ficavam aquém? Tipo, finalmente uma boa história?)

Então discutimos como seria se naquele preciso momento uma religiosa, com hábito e tudo, entrasse para o tratar. Não como capelã, com uma linguagem religiosa, mas como enfermeira. E se, por detrás de nós, houvesse um crucifixo na parede e toda a volta ícones de Maria e de santos, em vez das cores estéreis e pinturas modernistas de nada, como se vê em escritórios em todo o lado? Como é que isso afectaria a experiência de estar naquele hospital?

Será chegada a hora dos hospitais católicos? Não me refiro a hospitais que sirvam apenas católicos, como é evidente, mas de hospitais que sirvam as pessoas de uma forma católica. Se as pessoas tiverem alguma objecção quanto a ver crucifixos e religiosas e outros símbolos de fé, então não há falta de alternativas a que podem ir. E que Deus os abençoe.

Mas numa nação que não fala de outra coisa senão de “diversidade”, haverá lugares onde católicos e outros cristãos podem obter cuidados tanto para o espírito como para o corpo? Não será tempo de um florescimento de ordens religiosas para treinar homens e mulheres para servirem, não como docentes universitários, onde não faltam candidatos, mas em hospitais onde a sua presença é tão necessária? Onde as tendências estéreis e desumanizantes da modernidade podem afundar as pessoas, mesmo as mais saudáveis, nas profundezas da solidão e do desespero?

Para aqueles que são chamados a “escrutinar os sinais dos tempos à luz do Evangelho”, a resposta a estas perguntas não é evidente? Se alguma vez esteve numa daquelas macas, com uma daquelas batas, numa daquelas salas brancas e estéreis, sozinho e à espera, então sim, é.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 2 de Outubro de 2019)


© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Aqui Lidam Bem com a Morte

Randall Smith
Há uns anos um amigo disse-me durante uma cerimónia fúnebre que “aqui lidam bem a morte”. E era verdade. Tudo, desde a colocação do caixão aberto, os cumprimentos à família e o terço, até ao próprio funeral, teve lugar na Igreja. Tudo foi feito à vista do altar, do crucifixo e de Cristo presente no sacrário. Reinava um ambiente de oração e respeito profundo.

Nunca compreendi o conceito de “casa funerária”. São locais perturbadores e o mais distante de uma “casa” que se possa imaginar. A mobília nunca é caseira, parece mais a mobília de casa de uma senhora velha e rica, em que não devíamos tocar nem sentar. O ar é parado, normalmente estagnado e as pessoas andam de um lado para a outro a sussurrar. Às vezes, se repararmos, há música a tocar no fundo, do género que mal se ouve, mas que depois de darmos conta não nos sai da cabeça. Qualquer elevador tem uma oferta musical mais alegre. E nem vou falar do problema dos caixões metálicos enormes e dos cadáveres embalsamados.

Esquecemo-nos de como enterrar os mortos. Quando uma igreja lida bem com a morte existe um sentido de memória, sem ter de passar a pente fino todos os detalhes da vida de uma pessoa. Há um sentido claro de que a pessoa pertencia, que ele ou ela era uma parte importante da comunidade; que agora há algo que faz falta, mas que a vida continua, apesar de tudo, porque a vida deles era dedicada à comunidade. Por isso quando nós damos seguimento ao seu trabalho (e não nos preocupamos apenas com as nossas tarefas) e dedicamos as nossas vidas à mesma comunidade que ele ou ela servia, cuidando dos seus filhos ou netos, do jardim, edificando as instituições com o mesmo espírito e com a mesma visão, permanecemos unidos a eles e eles a nós.

Este sentimento de ligação alimenta-se (e tem de ter as suas raízes) na crença na comunhão dos santos. Quando aqueles que amamos morrem, não nos limitamos a perdê-los, mas ganhamos com eles uma comunhão ainda mais profunda. A ressurreição de Cristo e a doutrina da ressurreição geral comprovam que as nossas acções, experiências e relações não se perdem nem são negadas quando morremos. Pelo contrário, são glorificadas. Podemos estar presentes de forma ainda mais dramática com as pessoas e as comunidades que amamos, sem limitações de tempo e de espaço.

Mas a ressurreição que pregamos é a ressurreição do corpo, não a libertação de um espírito gnóstico preso dentro do corpo. Os judeus ortodoxos e os muçulmanos partilham com os cristãos a crença na ressurreição do corpo. É por isso que eles insistem em sepultar os seus mortos. Não os queimam, para depois meter as cinzas numa caixa, na prateleira, dizendo às visitas: “Ainda não decidimos o que fazer com elas”. Nós esquecemo-nos de como sepultar os nossos mortos e saber como sepultar os mortos não é uma coisa menor.

Se a Igreja quiser recuperar o seu lugar na comunidade deve voltar a responsabilizar-se pela sepultura dos mortos. Deve estar pronta a tomar conta dos acontecimentos. Todas as coisas difíceis e melindrosas que as pessoas têm de passar para sepultar os seus entes queridos quando estão de luto devem ser tratadas pela igreja.

Tudo o que se passa naquelas sinistras “casas mortuárias” deve acontecer na igreja. O velório, o terço, os cumprimentos aos amigos e parentes, talvez até a refeição partilhada.

O Cardeal Ratzinger no enterro do Papa João Paulo II
A Igreja devia fornecer os serviços e ter um espaço para a sepultura perto. Devemos restaurar a prática, que se perdeu no Século XIX, de sepultar os nossos mortos no adro da Igreja. As pessoas não deviam ter de viajar vários quilómetros em ocasiões especiais para visitar as sepulturas dos seus familiares algures num lugar impessoal; deviam poder passar pelos sinais visíveis da sua presença continuada a caminho da missa. E assim os membros da comunidade devem estar unidos aos seus antecessores, todos os dias, consolando-se com o facto de também eles, um dia, virem a descansar com os que os antecederam.

Conheço um cemitério perto de um campus universitário onde a maioria dos membros de uma ordem religiosa estão sepultados debaixo de simples cruzes. Conheço várias pessoas, novas e velhas, que visitam esse lugar regularmente porque lá encontram conforto espiritual e sentem que os ajuda a colocar as coisas em perspetiva, recordando-os daquilo que é verdadeiramente importante na vida.

Claro que me vão responder: “Não podemos sepultar os nossos mortos no adro da Igreja, porque a lei não o permite”. Eu sei. Mas se já muitos advogados conseguiram dar a volta a estas regras antiquadas – que só faziam sentido quando as cidades não tinham forma de preservar corpos em decomposição – nós também conseguimos! Lutemos pelo direito a fazer aquilo que as igrejas fazem há séculos.

E continuaria a haver trabalho para as agências funerárias, claro. Não seria preciso as igrejas irem buscar cadáveres à morgue, embalsamar os corpos ou fornecer caixões – embora algumas forneçam caixões baratos de madeira, sobretudo a famílias pobres. E na verdade ninguém precisa de ser embalsamado (10 mil euros para enterrar alguém? Neste país é preciso ser rico para viver e para morrer).

Basta as igrejas reaprenderem a fazer bem esta coisa tão simples e passarão a merecer a mais profunda gratidão e admiração não só dos seus membros, mas mesmo dos ateus mais empedernidos, pela atenção revelada durante a sua hora mais negra. Se, por outro lado, as Igrejas não conseguirem fazer esta única coisa – estar presente com as pessoas quando mais precisam – então não se devem surpreender com o facto de se tornarem cada vez mais irrelevantes para a sociedade, e desprezadas pelo seu aparente desinteresse em levar a cabo um dos seus deveres mais básicos.


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Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 30 de Maio de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Europa sem passado é Europa sem futuro

A Associação dos Juristas Católicos encoraja os eleitores a votar no domingo, mas deixa também recados aos partidos e críticas a uma Europa que, caso se esqueça de onde vem, não saberá para onde vai.


A reitora da Universidade Católica Portuguesa foi homenageada nos Estados Unidos e pede mais mulheres em posições de liderança.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é muito belo, e fala de grande beleza. Randall Smith reflecte sobre como ter visto uma mulher a embalar o seu bebé na missa despertou nele pensamentos sobreos mistérios do amor divino e da encarnação. Leiam, mesmo!

A Beleza de uma Mãe na Missa

Randall Smith
Já vi as Montanhas Amarelas na China, e são muito belas. Já olhei através do Vale de Jackson Hole, Wyoming, ao cair da noite, para os picos nevados dos Grand Tetons, e são muito belos. Mas poucas coisas no mundo são tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu bebé durante a missa.

A beleza é uma coisa surpreendente. Aparece de forma inesperada. Olhamos e de repente somos atingidos por esta beleza inexplicável, algo inefável mas real, como quando se dobra uma curva nas montanhas e se dá com uma vista inesperada.

Tive essa experiência há dias na missa. Umas filas à frente uma mãe estava a embalar o seu filho de dois anos, para a frente e para trás, enquanto cantava baixinho o Agnus Dei. Cantava aquelas palavras e olhava-o nos olhos, como se estivesse a cantar para ele e para Deus ao mesmo tempo. No meio do que pode ser, mesmo na melhor das missas, a azáfama da liturgia – que oração? Que livro? De pé, sentados ou ajoelhados? – ali estava paz: uma mãe e o seu filho “um ponto fixo num mundo em movimento”.

Não me entendam mal; tenho perfeita noção de que este tipo de paz divina não é o estado mais comum quando os pais estão a lidar com os seus filhos pequenos. Não devemos pintar uma imagem demasiado romântica da mãe e do filho, como fazem algumas pinturas barrocas de Maria e do menino Jesus. Também não quero criticar em demasia essas pinturas, embora tende a preferir as representações mais antigas, é só que não quero dar uma imagem falsa do tipo de caos que a parentalidade costuma envolver.

Mas é precisamente por isso, ao que me parece, que achamos esses momentos de paz e calma partilhados entre mãe e filho tão confortantes e tão belos. No ponto fixo de um mundo em movimento, aí está o amor. O amor pode ser expressado de uma variedade potencialmente infinita de formas, mas quando o vemos, palpavelmente presente e inegável, são momentos de pura beleza que merecem ser saboreados.

Quando disse que há poucas coisas na vida tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu filho na missa, não queria estar a fazer uma comparação enviesada. Não é um concurso. Todas estas coisas belas foram criadas pelo amor. Mas entre as muitas coisas belas que encontramos no mundo se nos dermos ao trabalho de procurar – montanhas, praias, oceanos – só os seres humanos é que conseguem olhar de volta com amor para a face do seu Criador.

O que não nos deve deixar de encher de espanto em relação à parentalidade é que enquanto seres humanos é-nos permitido participar como cocriadores com Deus de uma forma especial. Outros animais procriam, mas quantos têm o privilégio de o fazer livremente, e não apenas como ato meramente instintivo ou impulso primário, mas de compreensão e amor?

Não é raro sentirmos o coração a amolecer quando vemos imagens de mães e seus filhos, mesmo quando se trata de outras espécies, seja uma cadela a amamentar as suas crias ou uma égua a encorajar o potro recém-nascido a dar os primeiros passos. É o milagre da vida nova.  
Mas as crianças humanas têm o privilégio de ir mais além. Podem olhar de volta para as suas mães com amor. E desta forma se preparam para olhar com amor para a face de Deus. Não os criamos para cantar como pássaros, mas para cantar com amor a Deus. Daí a beleza em ver uma mãe a cantar suavemente orações enquanto olha para os olhos do seu filho durante a missa.

O parto implica dor, tal como é um desafio constante criar filhos no meio do nosso mundo caótico em que o mal, seja interno ou externo, está constantemente à espreita. Mas quando todo esse barulho se acalma, o que vemos é um vislumbre do amor primordial que criou o universo e continua a mantê-lo intacto através das gerações.

Eu ensino os meus alunos sobre a Trindade e a comunhão eterna de amor partilhada entre Pai, Filho e Espírito Santo. O que eu faço é falar sobre a Trindade. Mas para a conhecer vão ter de a experimentar. E por isso a maior parte deles só perceberá do que fala a Igreja quando se unirem a outra pessoa naquela doação completa de si a que chamamos casamento, e através dessa união produzirem um terceiro, que é uma encarnação do seu dom mútuo de amor.

Claro que poderão já ter visto esta doação altruísta dos esposos um pelo outro e a um filho durante as suas vidas. Talvez até entendam a sua própria existência desta forma, vendo a sua vida como uma encarnação do amor mútuo dos seus pais, embora esta experiência se tenha vindo a tornar cada vez mais rara na nossa sociedade.

“O sacramento do matrimónio é mais largo que a família”, diz o grande teólogo ortodoxo Alexander Schmemann. “É o sacramento do amor divino, o mistério todo abrangente do próprio ser, e é por isso que diz respeito a toda a Igreja e – através da Igreja – a todo o mundo.” O pecado da humanidade não está apenas em ter desobedecido a Deus, mas no facto de já não ver “toda a sua vida como dependente do mundo inteiro, como um sacramento de comunhão com Deus”. Assim, a verdadeira tragédia humana, diz Schmemann, está em viver “uma vida não-eucarística num mundo não-eucarístico”.

A maternidade faz-nos lembrar a Encarnação e o facto de a nossa origem ser uma encarnação do amor de Deus, destinado a viver uma vida sacramental e eucarística num mundo sacramental e eucarístico. Devemos dar graças a Deus pelas mães. Deus poderia ter-nos gerado a partir de um casulo. Seria mais fácil para as mulheres, mas pior para o mundo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Maio de 2019)

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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Os Guardas de Auschwitz

Randall Smith
Quando visitamos Cracóvia e Auschwitz em dias seguidos, sentimos uma espécie de chicotada psicológica. Experimentamos de perto um dos mais belos feitos culturais da humanidade e a cena de um dos seus maiores crimes.

Em Cracóvia vemos a glória de que são capazes a natureza e o génio do homem. Em Auschwitz vemos o horror de que essa natureza e esse génio o tornam capazes. Ambas são lições importantes e é um grave erro afirmar um sem o outro.

Sobre Auschwitz tenho muito pouco a dizer – e nada em particular sobre os presos, sobre cujo sofrimento não tenho nem a sabedoria nem os dons para escrever. Os horrores desta magnitude requerem um certo silêncio da parte daqueles que observam a partir de uma distância segura. Só quem lá esteve é que pode falar com autoridade. Eu não tenho essa presunção.

Mas espero que me sejam permitidas duas observações, não sobre o sofrimento dos prisioneiros, mas sobre os guardas. Aliás, uma das coisas que falta no que é de resto uma apresentação excelente sobre Auschwitz é qualquer informação sobre os guardas. Esta falha está a ser corrigida, dizem-me, para uma exposição futura.

Por agora existe um livro interessante recomendado pelo nosso guia – A Vida Privada dos SS de Auschwitz – que inclui relatos escritos por criados polacos que trabalharam nas casas de família dos guardas nazis.

Antes da guerra havia uma pequena vila rural no local onde se ergueu o campo. Foi limpo dos seus cidadãos polacos e rebatizado “Auschwitz” pelos alemães. As casas foram atribuídas aos oficiais alemães que depois de saírem dos seus empregos – que envolviam a sistemática desumanização e extermínio de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes – iam para casa à noite para passar tempo em família com as mulheres e os filhos.

Lendo os relatos das “Vidas Privadas” compreendemos que longe de serem os psicopatas que tantas vezes imaginamos, na realidade a maioria destes homens iam para casa e faziam o mesmo que a maior parte dos homens de família. Conversavam com as mulheres, brincavam com os filhos, passeavam o cão e ocupavam-se a fazer compras, a tratar das contas e a lidar com a ama e com a cozinheira.

Não pude deixar de perguntar o que se poderia passar pela cabeça e pela alma de alguém que ia à missa ou à igreja todos os domingos, lia fielmente a Bíblia e depois saía de casa na manhã seguinte para fazer as coisas que os guardas faziam em Auschwitz. O potencial humano para cegueira moral é de cortar a respiração e devia servir de aviso constante.

Auschwitz mostra que podemos confundir o pior mal com o bem de “cumprir o nosso dever”. Quando deixamos de ver a realidade como Deus a vê e passamos a olhar apenas pela lente burocrática ou ideológica, ela fica completamente deturpada. Deixamos de ver o que está mesmo à nossa frente – uma pessoa, feita à imagem de Deus – e passamos a ver apenas o que achamos que essa pessoa representa.

Aprendi duas lições em Auschwitz das quais até então não me tinha apercebido.

Primeiro, tornou-se claro que à medida que se tornava claro aos alemães que estavam a perder a guerra, as matanças nos campos não abrandaram, aceleraram. Mais e mais recursos foram desviados do esforço de guerra para matar o maior número de judeus possível – como se a única consideração fosse: “Será que conseguimos acabar o trabalho antes de sermos obrigados a render-nos?”

Segundo, quando os russos estavam a avançar sobre o campo os alemães rebentaram com os crematórios e queimaram dois armazéns que continham montanhas de sapatos, óculos, malas, artigos de cozinha e mantas de oração que tinham retirado aos judeus quando saíam dos comboios.

Poucas coisas nos fazem compreender a dimensão da chacina em Auschwitz-Birkenau do que a visão daquela montanha de sapatos e de malas – as malas todas marcadas com o nome e data de nascimento do dono, como se fossem fazer uma viagem ou para um campo de férias (tinha-lhes sido dito que iam ser relocalizados). Alguns dos sapatos eram apenas de bebé.

Por vezes, quando os meus alunos tentam defender o seu relativismo moral, dizem coisas como “os nazis deviam ter as suas razões” (e tinham. Más.) Ou perguntam, “Mas e se aquilo lhes parecia estar certo?” (Bom, então estavam errados, certo?)

Mas eis a questão sobre o facto de os alemães terem queimado aqueles armazéns ou dinamitado os crematórios. Significa que os próprios alemães sabiam muito bem que aquilo que estavam a fazer estava errado. Se estivessem orgulhosos das suas acções, esperaríamos que cantassem os seus feitos ao mundo – como que dizendo, na face de qualquer oposição: “Vocês eram contra isto. Eram demasiado tímidos para fazer o que precisava de ser feito. Mas nós não”.

Mas pelo contrário, tentaram escondê-lo. É por isso que as matanças ocorreram em locais vazios na Polónia e não nas principais cidades da Alemanha. É por isso que os esconderam por detrás de eufemismos verbais.

Os oficiais alemães viviam com as suas famílias como se estivesse tudo bem: Era apenas mais um dia no escritório. Mas no fundo, no fundo, sabiam.

Devemos procurar compreender que tipo de distorção do coração e da alma do homem pode tornar possível uma psicose destas.

Cuidado com as pessoas que dizem “estamos empenhados numa tarefa nobre” mas depois escondem o que estão a fazer do escrutínio, ou por detrás de eufemismos verbais. O que será que estão a esconder, talvez de si mesmos?

A nossa primeira obrigação enquanto seres humanos livres é ver a realidade de forma clara, dizer a verdade de forma simples e agir de acordo com a verdade plena da dignidade humana. A cegueira moral dos guardas de Auschwitz deve mostrar-nos do que somos capazes quando fazemos o contrário.  


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de Abril de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Insegurança dos “Lugares Seguros”

Randall Smith
Há dias passei por um gabinete com um sinal à porta que dizia “Lugar Seguro”. Senti-me imediatamente inseguro.

Eu espero que toda a gente que entra no meu gabinete se sinta segura. Mas não deviam ser elas a dizer-me se se sentem seguras, e não ao contrário?

Seja como for, a questão não se põe, porque normalmente eu encontro-me com os meus alunos em cafés, alguns dos quais são mais “seguros” que outros. Certa vez um aluno, um jovem veterano das Forças Armadas, disse-me que tinha passado pelo café onde sabia que eu costumava estar à noite, mas não me tinha encontrado. “A que horas chegaste?”, perguntei “Cerca das 21h20”, respondeu. “Eu cheguei uns cinco ou dez depois. Porque é que não esperaste?” “Não, não”, disse ele, “aquilo estava cheio de hipsters (está sempre), e eu conseguia senti-los a olhar para mim e a julgar-me, por isso tive de sair”.

Não tenho a menor dúvida de que a maior parte das pessoas naquele café devem ter uma imagem muito acolhedora e aberta de si mesmas, mas é curioso como estas coisas podem ser relativas. O que parece “aberto” e “acolhedor” para um grupo de hipsters que se consideram muito progressistas, pode alienar uma multidão de outras pessoas que se sentem “julgadas” por ser demasiado “normais”, ou não serem suficientemente “fixes”.

Deve ter sido este mesmo medo instintivo de ser “observado” ou “julgado” que senti quando vi o sinal de “Lugar Seguro”. Será que o meu olhar tinha sido suficientemente aprovador? E a minha linguagem corporal, foi a correcta? Se alguém visse a curiosidade estampada na minha cara talvez pensasse que estava a expressar desaprovação, o que não era de todo a minha intenção.

Se a dona do gabinete tivesse posto a cabeça de for a e perguntasse: “Está a olhar para o meu sinal. Algum problema?”, o que é que eu teria respondido? “Não, não, não… De todo. Estava a só a ler… o seu… errr… sinal”. Teria acreditado em mim? Ou teria continuado desconfiada? Teria feito queixa?

E se ela adivinhasse que sou católico? O que é que teria pensado acerca das coisas horríveis que supostamente penso sobre homossexuais? Teria conseguido convencê-la de que não penso essas coisas? Nunca consegui convencer os meus pais protestantes de que os católicos não acreditam nas coisas em que eles pensavam saber que os católicos acreditavam.

Talvez o que me tenha feito sentir desconfortável com o sinal de “Lugar Seguro” seja o facto de o passatempo mais popular na América, agora, ser uma versão do que um autor de outra geração chamou “upmanship”, a superação do outro. Por exemplo, se você disser “a semana passada conheci o presidente da Câmara de Londres” e o seu amigo responder: “O presidente da Câmara de Londres? É um tipo encantador! Almoçou em minha casa a semana passada”, fazendo com que o seu encontro pareça muito menos impressionante, supera-o.

Nos Estados Unidos há cada vez mais pessoas apostadas em jogar uma versão ligeiramente diferente a que se pode chamar “ultrapassar pela esquerda”, cujo objetivo é mostrar-se mais à esquerda que o outro. Você diz: “Mandei a minha filha para uma escola muito liberal e progressista, só para meninas” e o seu amigo responde, com um desprezo mal disfarçado, “ainda se chamam meninas? Quero dizer, tantas dessas escolas só para meninas não percebem como o termo ‘menina’ pode ser ofensivo para os transgéneros”. E eis que a escola muito progressista em que orgulhosamente matriculou a sua filha, de repente parece bastante menos progressista, ou até mesmo discriminatória.

Você sente-se muito pequeno, o que era precisamente o objetivo.

As pessoas podem fazer como entenderem, mas para mim é tudo menos claro que estas guerras linguísticas que travamos nos confins refinados do mundo académico estejam de facto a ajudar as pessoas que dizemos querer ajudar. Depois de décadas a patrulhar obsessivamente o discurso, os miúdos pobres estão a obter uma melhor educação? E os homossexuais sofrem de menos ansiedade? As minorias estão a ser tratadas com maior respeito nos seus locais de trabalho, habitação e educação? As mulheres estão a ser mais respeitadas?

Porque se a resposta for não, e se tudo o que estamos a fazer é jogar o jogo da linguagem para que nós mesmos nos sintamos melhor, como se estivéssemos a resolver os problemas, mostrando que nos preocupamos, ao contrário das outras pessoas que não estão tão despertas como nós, então, para dizer a verdade, prefiro não fingir.

Quando vemos tantas pessoas a esforçar-se para não serem apanhadas nas armadilhas deixadas por todas as pessoas que jogam o jogo da ultrapassagem pela esquerda, dificilmente alguém se sente “seguro”. Lugares que deixam de fora as pessoas que têm as opiniões e atitudes “incorrectas” tendem a ser o oposto de seguras.

Agora, por exemplo, temos um grupo de pressão que lançou uma petição para apresentar à Universidade de Oxford no sentido de remover John Finnis, que é católico, do seu cargo, por este revelar “pontos de vista extremamente discriminatórios contra grupos de pessoas vulneráveis” (i.e., por não concordar com a visão dos signatários em relação a actividades homossexuais ou cirurgias de mudança de sexo). Eles insistem que a Universidade “clarifique a sua política em relação a professores que discriminam”, porque, atualmente, “os estudantes e corpo docente têm de esperar que haja um momento de assédio pessoal ou de vitimização, antes de se poderem queixar sobre o ambiente de intolerância e de intimidação que os professores criam através dos seus artigos escritos”. Não é preciso tratarem mal alguém, basta terem as opiniões erradas.

Por agora a Universidade está a recusar-se a agir. Mas que mensagem é que esta petição transmite a outros membros do corpo docente em relação à sua “segurança” caso não aceitem expressar as opiniões “aprovadas” sobre um grupo ou outro, quer tenha a ver com o casamento gay, com a forma como os muçulmanos tratam as mulheres, ou a questão israelo-palestiniana?

Essa é uma questão. Mas outra é esta: Será que as manobras tácticas das pessoas envolvidas neste jogo de “ultrapassagem pela esquerda” está mesmo a ajudar as minorias e as pessoas vulneráveis, como se alega?

Será seguro sequer fazer a pergunta?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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