quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Recordando – e aprendendo com – Solzhenitsyn

Douglas Kries
Hoje [ontem, terça-feira 11 de Dezembro] assinala-se o centenário do nascimento de Aleksandr Solzhenitsyn, o escritor russo que, apesar de ser o autor mais importante do último século, já não é bem conhecido, muito menos compreendido, pelos cristãos dos Estados Unidos.

A sua mãe enviuvou antes de ele nascer e os Bolsheviks confiscaram-lhe as terras de família. Mudou-se para Rostov, em busca de emprego, mas grande parte da vida inicial de Solzhenitsyn foi passada a partilhar a sua pobreza. Contudo, nascer na Rússia em 1918 significava pertencer à primeira geração da gloriosa revolução comunista e as escolas marxistas ensinavam ao jovem Solzhenitsyn que os princípios do comunismo em breve conduziriam ao estabelecimento de uma época da História da humanidade totalmente nova e livre do mal.

Quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial, Solzhenitsyn saiu da universidade em Rostov para servir nas Forças Armadas soviéticas. Em 1945 foi detido por comentários numa carta privada para um amigo que foram considerados críticas de Stalin. Foi condenado a oito anos no sistema dos campos soviéticos; mais tarde foi libertado para um exílio perpétuo no Cazaquistão. Foi então que começou a escrever, sobretudo recorrendo às 12 mil linhas de poesia que tinha composto em segredo nos campos, e memorizado.

Em 1962, Solzhenitsyn pôde regressar à Rússia, mas não se atreveu a publicar ou sequer a submeter os seus manuscritos aos editores. Sob a liderança de Krushchev começaram a surgir sinais de um degelo cultural e Solzhenitsyn arriscou enviar – de forma anónima – um longo conto sobre um único dia na vida de um prisioneiro dos campos para um jornal literário chamado Novy Mir. O editor do jornal reconheceu imediatamente o valor da história e levou-a directamente a Krushschev, que autorizou a publicação de “Um dia na vida de Ivan Denisovich”.

A aceitação foi incrível. Uma testemunha escreve: “só o facto de passear por Moscovo naqueles tempos era entusiasmante, havia multidões de pessoas em cada quiosque, todos a pedir o mesmo jornal esgotado. Nunca me esquecerei de um homem que não se conseguia lembrar do nome do jornal e pedia ‘aquele, sabe, aquele em que está publicada toda a verdade’. E a dona do quiosque percebeu imediatamente do que é que estava a falar”.

A identidade do autor foi rapidamente conhecida e chegaram centenas de cartas de antigos presos que, como Solzhenitsyn, tinham desafiado as probabilidades e sobrevivido. Solzhenitsyn teve a ideia de usar as suas histórias e memórias para escrever uma obra mais aprofundada sobre os campos. Mas o “degelo” cultural rapidamente se transformou num “congelamento” e a polícia secreta soviética começou a persegui-lo incessantemente.

Ainda assim, sentia o dever moral de escrever aquilo que eventualmente viria a ser conhecido como “O Arquipélago Gulag”. Solzhenitsyn teve de trabalhar em segredo e ia passando partes do seu enorme manuscrito de uma secretária clandestina para outra, por forma a preservá-lo. Eventualmente foi contrabandeado para fora do país e publicado em França. Daí foi rapidamente traduzido para várias línguas e o mundo inteiro aprendeu a verdade sobre a enormidade dos crimes soviéticos.

É fácil olhar para Solzhenitsyn apenas como o autor de uma poderosa exposição política. Contudo, esse ponto de vista passa por cima do verdadeiro poder e significância da sua escrita, porque ele não se limitou a dizer-nos o quão terrível era o sistema de campos da União Soviética, mas explicou porque é que era tão terrivelmente errado.

Durante o tempo que passou no arquipélago, Solzhenitsyn tinha vindo lenta, mas firmemente, a rejeitar o marxismo da sua juventude e abraçado a fé cristã. Esta conversão, todavia, não foi alcançada sem um enorme sofrimento pessoal e um grau ainda maior de reflexão pessoal.

O marxismo afirma que há grupos e classes de seres humanos que são bons e outros que são maus. Para se aperfeiçoar, a humanidade deve isolar e eliminar as pessoas más. Solzhenitsyn viria a perceber que, pelo contrário, a linha que separa o bem do mal vive dentro de cada coração humano individual.

A posição marxista argumenta, por isso, que a humanidade seria aperfeiçoada através do inevitável progresso da história do mundo. Mas se a linha divisória está dentro de cada coração humano, então só é possível uma melhoria limitada nesta vida, na mesma medida em que é possível alguma degeneração. A posição marxista deve ser rejeitada, por isso, porque ignora a realidade do pecado original.

Mais, a consciência cristã obriga os seres humanos a tentar justificar os seus atos e persegue-os, ou chega mesmo a devorá-los, se tal justificação não puder ser encontrada. Os marxistas, porém, forneciam os seus adeptos não uma consciência, mas uma ideologia que justificava atos malévolos em nome de um fim inatingível. Esta justificação ideológica levava os marxistas para além dos limites normais da maldade e tonou possível que a destruição de milhões não fosse vista como aberrante ou impensável, mas sim como necessária e aceitável.

O marxismo não compreendeu a origem do mal nem percebeu o que fazer com os seus efeitos, isto é, o sofrimento. Solzhenitsyn veio a perceber que embora não existisse correlação entre aquilo de que ele, e outros presos políticos, eram acusados e aquilo a que foram sujeitados, os cristãos no arquipélago – ou pelo menos os melhores de entre eles – aprendiam a tornar o sofrimento redentor. Isto é, sabiam como tornar o seu sofrimento uma penitência contínua, que radicava numa confissão contínua.

A partir daí podiam alcançar a ascensão espiritual através daquilo a que Solzhenitsyn apelidava “autolimitação”. Mais tarde ele viria a avisar o Ocidente – na sua palestra em Harvard e no discurso de aceitação do Prémio Nobel – que o “mundo livre” estava a abraçar a sua própria escravidão materialista. Esse processo está hoje muito mais avançado do que estava durante a vida de Solzhenitsyn.

Esta autolimitação assemelha-se muito à autolimitação de Cristo, que não procurou equiparar-se ao ilimitado, mas limitou-se de livre vontade e se tornou homem, aceitando a forma humana e o sofrimento humano, oferecendo-nos assim a divina misericórdia.

Há aqui uma lição importante para nós, porque estas verdades profundas que Solzhenitsyn revelou devem governar todos os regimes, e todas as vidas.


Douglas Kries é professor de filosofia na Universidade Gonzaga, em Spokane, Washington. É co-autor, com Brian Clayton, de Two Wings: Integrating Faith and Reason (Ignatius Press, 2018).

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 11 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Papa nos Emirados e Big Bang

O Papa Francisco vai visitar os Emirados Árabes Unidos em Fevereiro. A notícia saiu hoje e apanhou os principais especialistas de surpresa. Isto quer dizer que as muitas pessoas que obviamente estavam envolvidas na organização não andaram a dizer nada antes da divulgação oficial, não fossem estragar tudo. E mais não digo.

A Área Metropolitana de Lisboa é um laboratório da diversidade religiosa em Portugal, e como tal foi alvo de um interessante estudo coordenado pela Universidade Católica. Veja aqui os resultados, alguns dos quais surpreendentes.


Se não vai na conversa de que a religião e a ciência são incompatíveis, então este artigo do The Catholic Thing é para si. Michael Baruzzini escreve sobre o crescente reconhecimento que está a ser dado ao padre Lemaître, que desenvolveu a teoria do Big Bang, e como os seus primeiros críticos diziam que a teoria cheirava demais a religião… Como os tempos mudam!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Apresentando a Lei de Hubble-Lemaître

Michael Baruzzini
No passado dia 29 de Outubro a União Astronómica Internacional anunciou a sua recomendação de que se passasse a referir à “Lei Hubble” como a “Lei Hubble-Lemaître”. Esta lei relaciona a distância das galáxias com o seu afastamento da Terra. Entre outras provas, as suas extrapolações sugerem que todo o cosmos teve origem num único ponto que, no passado mais remoto, se expandiu até ao que temos agora. Atualmente conhecemos essa teoria como o “Big Bang”.

Há muito tempo que o astrónomo americano Edwin Hubble, que mediu os redshifts de galáxias distantes – o que tem a ver com a velocidade a que se distanciam da Terra – tem o seu nome associado a esta descoberta. Mas na verdade o primeiro a derivar as leis sobre a expansão do cosmos, propondo que o universo tenha tido a sua origem num único e antigo ponto, foi o padre belga Georges Lemaître. Esta sua contribuição para a ciência tem estado a ser mais reconhecida ao longo dos últimos anos, incluindo através de gestos como esta mais recente recomendação da União Astronómica.

Diz-se tantas vezes que a fé e a ciência se opõem que é bom ver um padre, sobretudo um padre moderno, a ser reconhecido por um contributo importante no domínio científico. Mas mais do que meramente provar que os católicos também têm o seu lugar no mundo das ciências, esta ligação entre um clérigo católico e a teoria do Big Bang é significativa de uma perspetiva especial e irónica.

A teoria do Big Bang é uma cosmologia que fornece um pano de fundo para toda a nossa compreensão atual do cosmos como uma coisa histórica e em evolução. Se podemos dizer que a cosmologia clássica, com as suas esferas ordenadas e arrumação geométrica, ressoava na mente católica pela forma como sublinhava a ordem hierárquica, então também é verdade que a cosmologia moderna tem a ver mais com o instinto católico para a narrativa.

Segundo a ciência moderna, tal como na visão católica, o cosmos não é composto por uma homogeneidade eterna e imutável (tal como formulado na teoria do “Estado Estacionário”, que rivalizava com a do Big Bang no início do Século XX); mas também não é um lugar de caos confuso, com seres complicados a surgir, aparentemente de lado algum, como nas cosmogonias pagãs. Antes, a ciência moderna apresenta-nos uma imagem na qual a complexidade rica do universo moderno radica numa singularidade causal, da qual surgem as forças físicas básicas que, interagindo, florescem no cosmos como o conhecemos atualmente.

O próprio Lemaître referiu-se a esta singularidade antiga como um “Ovo cósmico”. Utilizando uma analogia que já serviu propósitos maiores, podemos também invocar a ideia de uma semente minúscula que depois cresce e forma grandes ramos, nos quais os passarinhos pousam e fazem os seus ninhos.

De uma perspectiva material, a ciência atual afirma que desta semente cósmica surgiu a teia de galáxias, estrelas e planetas. Na formação e no final explosivo de ciclos de incontáveis estrelas, o universo enriqueceu-se com os elementos que tornam possível tudo quanto existe à nossa volta, incluindo a vida. O carismático Carl Sagan, que era céptico quanto à religião mas ajudou a popularizar a ciência moderna, gostava de dizer que “somos todos pó de estrela”. Mas o que ele, com todo o seu imaginário poético, nem imaginou foi que um dia, num pequeno planeta rochoso que gira em torno de um desses pontos de luz, o Autor de toda a história cósmica se revestiu desse mesmo pó de estrela e entrou na sua própria criação, em forma humana.

Pe. Georges Lemaître
As principais críticas ao Big Bang costumam vir do campo religioso: como é que este relato pode ser compatível com a apresentação bíblica da Criação? Mas no início a desconfiança vinha precisamente do campo oposto, por cheirar demais a religião. A Igreja proclamava uma criação “ex-nihilo” – um momento antes do qual não existiram momentos nem nada de material – e agora a ciência parecia confirmá-lo.

Em 1978 Arno Penzias e Robert Wilson ganharam o Prémio Nobel da Física pela sua observação da “radiação cósmica de fundo em micro-ondas”, que se tornou a primeira grande prova do evento a que chamamos Big Bang. Penzias viria a escrever sobre o Big Bang e o início do universo que “os melhores dados a que temos acesso conformam perfeitamente com o que eu teria previsto, caso não tivesse outro recurso que não o Pentateuco e os Salmos, ou a Bíblia completa”.

Mas cuidado. O próprio Lemaître avisou o Papa Pio XII para não tentar identificar o Big Bang com o acto da criação. Descobrir esse próprio acto é, na verdade, algo que fica para além dos propósitos da ciência. Até São Tomás de Aquino considerava que a razão pura não seria capaz de discernir se o Universo teve um começo; apenas a revelação o poderia dizer. Assim também a ciência, quando investiga as causas materiais, apenas as pode seguir até certo ponto, não pode ver para além delas.

O Big Bang pode ter sido o começo, ou talvez não. Independentemente disso, do ponto de vista científico, o Big Bang representa o evento histórico singular a partir do qual emergiu todo o mundo material, tal como o conhecemos agora, o único ponto através do qual passam todas as histórias físicas. E é na descoberta deste facto que encontramos o padre Lemaître, um padre a contribuir para a ciência, não apenas com uma perspetiva científica entre outras, mas descrevendo a teoria mais importante da história do cosmos físico.

A religião sempre teve a sua própria cosmologia, a sua história da Criação. Mas eis que descobrimos que quando a ciência usa os seus próprios instrumentos – perfeitamente legítimos – para descrever uma história compreensiva do mundo, que o primeiro a fazê-lo não foi um ateu, livre das amarras da “superstição”, mas sim um padre que não encontrou qualquer conflito entre a sua fé antiga e as descobertas revolucionárias da ciência de ponta.


Michael Baruzzini é um freelancer e editor da área científica que escreve para publicações científicas e católicas, incluindo a CrisisFirst ThingsTouchstoneSky & TelescopeAmerican Spectator e outras. É também o fundador de CatholicScience.com, que oferece currículos e recursos científicos online para estudantes católicos.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 29 de Novembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Velas em Roma pela paz na Síria

O Papa acendeu ontem uma vela pela paz na Síria. Faz parte de uma campanha internacional lançada pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

Soube-se também por estes dias que o Papa deu uma longa entrevista a um padre espanhol, que será publicada em breve, em que diz que os padres homossexuais que não vivem de forma celibatária devem abandonar o sacerdócio.

Conheça aqui a exposição “Capela Mundi”, sobre os 100 anos da Capelinha das Aparições.

Esta segunda-feira assinala-se o Dia Internacional dos Deficientes e Isabel do Vale, do Serviço Pastoral às Pessoas com Deficiência lamenta que ainda haja igrejas onde as pessoas com dificuldades de locomoção não conseguem entrar.


E termino com o convite, como tenho feito nos últimos anos, de se deslocarem, se possível, ao Chiado onde encontram no número 10 da rua Anchieta um espaço onde estão à venda artigos religiosos feitos pelos cristãos da Terra Santa, trazidos mais uma vez pelo Nicolas Ghobar (ver foto). Este ano o Nicolas esteve em directo na Renascença para falar sobre a sua experiência de cristão na terra onde Jesus nasceu.

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