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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Absolutismos

Michael Nnadi, assassinado na Nigéria
Uma absoluta vergonha o que se passou esta segunda-feira no Paquistão, onde um tribunal decretou que o casamento de uma rapariga raptada, forçada a converter-se ao Islão e forçada a casar-se com um muçulmano é válido. Qual foi o critério? Pasme-se, não foi a lei nacional, mas sim a Sharia.

Uma absoluta tristeza a notícia que nos chega da Nigéria, da morte de um dos quatro seminaristas que foram raptados por bandidos a 8 de janeiro. Os outros três foram todos libertados.

Uma absoluta desgraça o que se passa no norte de Moçambique, onde o bispo de Pemba calcula que já tenham morrido 500 pessoas às mãos de jihadistas.

Domingo foi o dia da vida consagrada. A Aura Miguel entrevistou para o efeito uma monja concepcionista, numa conversa que vale bem a pena ouvir. Da minha parte, convido-vos a ler o artigo que escrevi para o Ponto SJ e que foi publicado no sábado.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Para estar atento em 2020 - Fim da guerra na Síria

Uma das maiores tragédias da última década tem sido a guerra civil na Síria, uma realidade que apenas é agravada pelo facto de, ao que tudo indica, a guerra ter servido para absolutamente nada, para além de enriquecer os traficantes de armas e dar à Rússia ainda mais influência na região. Este ano, acredito, a guerra pode finalmente chegar ao fim.

Quando os protestos da “Primavera Árabe” varreram o Médio Oriente em 2011 assistimos a tudo com um misto de apreensão e esperança. A queda do regime na Tunísia e no Egipto foram boas notícias, embora só o primeiro caso, onde o movimento começou, tenha comprovado ter pernas para andar. No Egipto a democracia levou à vitória da Irmandade Islâmica, uma péssima notícia, sobretudo para a grande comunidade cristã.

Mas quando começaram protestos na Síria eu, pelo menos, não reagi com esperança alguma, só com medo. A Síria era uma realidade muito instável. Um regime férreo, mas secular, onde não existia liberdade mas pelo menos as minorias religiosas estavam a salvo de perseguição e se vivia em paz e segurança. Dominado pela minoria xiita (alauita) o Governo tinha todo o interesse em manter os grupos sunitas fundamentalistas à distância. Não o regime ideal mas, tendo em conta o contexto regional, do melhorzinho que se podia arranjar.

Mal os protestos – e a resposta do Governo – se tornaram violentos temi o pior e o medo só se agravou com o entusiasmado apoio que os países ocidentais começaram a dar a uma oposição que muito previsivelmente se deixou dominar por grupos jihadistas.

Seguiram-se nove anos de terror, com o expoente máximo no Estado Islâmico, até que a Rússia entrou em cena para dar ao regime o apoio necessário para finalmente começar a recuperar o país, cidade a cidade, quilómetro a quilómetro. Os russos bem podem agradecer a Barack Obama por esse brinde que lhes deu ao ameaçar invadir 

No seu auge havia quatro grandes fações na guerra. O regime, que contava com o apoio das minorias religiosas e de muitos sunitas também, sobretudo nos grandes centros urbanos; o Estado Islâmico, uma força niilista que espalhou sofrimento e morte por todo o lado e conseguiu avanços impressionantes em pouco tempo, lançando o terror nas almas das suas vítimas; a dita oposição “moderada”, que de moderada só tem o facto de não ser tão niilista como o Estado Islâmico, porque era igualmente dada a decapitações e ao fundamentalismo islâmico e, no nordeste do país, a região autónoma constituída por curdos, árabes, cristãos siríacos/assírios e outras minorias étnicas e religiosas.

Este último grupo era particularmente interessante. Com um projeto verdadeiramente democrático, que apostava em realçar, proteger e preservar as identidades de cada grupo, promovendo a colaboração, ao contrário do que faz o Governo que tenta impor uma identidade comum. Esta região conseguiu obter o apoio do ocidente na sua luta contra o Estado Islâmico, tendo sido as suas Forças Democráticas da Síria as principais responsáveis por derrotar militarmente o grupo terrorista. Infelizmente, e depois de tudo isto, foram traídos pela decisão de Donald Trump de retirar e viram-se invadidos pela Turquia. Para evitar um genocídio fizeram um acordo com o regime e, assim, o projecto democrático parece agora uma utopia.

Entretanto o regime foi chegando a acordo com os diferentes grupos de rebeldes que, vendo-se em situações impossíveis, optavam por ser retiradas das suas zonas e enviadas para a região de Idlib, junto da fronteira com a Turquia, que sempre as protegeu e apoiou. Até que aos rebeldes já só restava mesmo a região de Idlib.

O último ano tem visto o regime sírio, sempre com o apoio da Rússia, a avançar lentamente sobre Idlib. De vez em quando são anunciados cessar-fogo, mas duram sempre pouco tempo e os militares do regime retomam a sua rotina de bombardeamento.

A situação em Idlib torna-se insustentável. O regime não tem qualquer motivação para negociar, nada a ganhar em adiar a conquista final e sabe que enquanto Moscovo permanecer com ele tem as costas quentes.

Já recomeçaram as ondas de refugiados de Idlib para a Turquia, que com o apoio que tem dado aos rebeldes só tem que se culpar a si mesma pela situação. Quando Idlib for recuperada pelo regime o país pode começar a ser reconstruído. Goste-se ou não de Assad, parece evidente que este é o melhor caminho para o futuro da Síria.

Na melhor das hipóteses, reestabelecida a paz, poderá haver algumas cedências por parte do regime, nomeadamente para os grupos étnicos e religiosos minoritários, especialmente no nordeste, mas até isso parece difícil agora que perderam os seus maiores aliados.

Milhares de mortes, cidades inteiras destruídas, relações entre comunidades envenenadas, uma geração perdida, tudo por nada. É essa a realidade da Síria. Que venha rapidamente a paz para pôr fim a esta loucura.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Integralistas contra Porta dos Fundos

Antes de passar ao apanhado de notícias de hoje queria avisar que a partir de 2020 vou deixar de fazer o email neste formato. A verdade é que não tenho conseguido manter o ritmo deste serviço, que no início se queria diário, e não faz sentido fazê-lo apenas de forma esporádica.

Assim sendo, vou passar apenas a mandar emails quando publicar artigos de opinião ou de análise, incluindo os artigos traduzidos do Catholic Thing e, em contrapartida, irei esforçar-me mais por fazer essa análise e opinião de forma mais regular.

Por hoje, contudo, ainda mando as notícias destes últimos dias.

Não leu a mensagem de Natal do seu bispo? Estão todas reunidas aqui. Ainda vai a tempo, porque o Natal são 12 dias.

O Papa recordou esta quinta-feira os cristãos perseguidos, num Natal que até agora tem sido relativamente pacífico… Mas não vamos lançar foguetes para já.

O que acontece quando se mistura religião e futebol? Pode acontecer de tudo um pouco, mas é sempre fascinante. Foi esse o tema de conversa do podcast “O Brinco do Baptista”, em que participei como convidado recentemente. Podem ouvir tudo aqui

O grupo brasileiro Porta dos Fundos tem sido criticado pelo seu “Especial de Natal” que muitos consideram ofensivo. A contestação chegou ao extremo com o ataque aos escritórios do grupo, na noite de 24 para 25. Esse ataque foi agora reivindicado por um grupo integralista, que no seu comunicado alega ter motivações cristãs. No artigo explica-se um pouco o que é o integralismo.

Temos ainda artigo do Catholic Thing da semana passada em que Michael Pakaluk parte de uma revelação da biologia para tirar ilações teológicas sobre a maternidade de Nossa Senhora. Muitíssimo interessante!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Padre Américo, o herói

A grande notícia do dia é o reconhecimento das “virtudes heroicas” do padre Américo Aguiar, que fundou a Obra da Rua e as Casas do Gaiato. O bispo do Porto diz que este reconhecimento deve ser também um “espinho na nossa consciência” e a Conferência Episcopal manifestou “profunda alegria”.

O Papa denunciou ontem a perseguição aos cristãos e nem de propósito, hoje é notícia a crescente preocupação dos católicos nigerianos com uma vaga de sequestros de padres naquele país.

Se é de Lisboa e vai para os lados do Chiado, não deixe de visitar o “Presépio na Cidade”.

O Advento é um tempo de alegria e esperança mas a manjedoura de Belém está sempre à sombra da Cruz. Saiba porque é que isso é motivo de alegria para nós, no artigo de Stephen P. White, para o Catholic Thing em português desta semana.

Estamos a duas semanas do Natal. Se está sem ideias então o meu mais recente livro “Rumo ao Jamor” é um presente ideal para quem gosta de futebol, seja qual for o clube! Pode ser comprado nas principais livrarias e online através do site da editora (não paga portes!). Mas se vive na zona de Lisboa e quiser um exemplar autografado é só falar comigo que tentamos combinar isso.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Secularismo Militante e Repressão Religiosa na América Latina

Eric Patterson
Quando pensamos em locais do mundo onde a expressão de fé é restringida, não se costuma pensar no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma população religiosamente ativa. A América Latina está adornada com a arte e a arquitectura do Catolicismo. Mas olhando mais de perto vemos tendências antirreligiosas – ou mesmo casos de perseguição aberta – em várias cidades da América Latina.

Existem pelo menos dois tipos de perseguição religiosa. A primeira é levada a cabo por pessoas que reclamam uma justificação religiosa para fazer mal a outros, como no Irão. A segunda acontece em países como na China, onde indivíduos ou comunidades são perseguidos por causa da sua religião. O Estado Islâmico exemplifica o pior do pior: um cabal que assenta a sua autoridade em justificações explicitamente religiosas para poder praticar a violência, ao mesmo tempo que persegue comunidades com base na sua identidade religiosa.

Felizmente a maior parte da América Latina não tem de lidar com conflitos ou perseguição religiosa como vemos noutras partes do mundo. Porém, olhando para a paisagem atual da América Latina, existem exemplos de perseguição explícita. Esta repressão é normalmente da responsabilidade dos velhos secularistas: autoritários movidos pelo dogma materialista, secular, anti-fé da esquerda dura do Século XX.

Nalguns sítios, sobretudo em Cuba, existem restrições legais pesadas que foram desenhadas para colocar os crentes sempre em risco de violar a lei. Depois vemos esses cidadãos a serem perseguidos pela polícia, multados e detidos. Por exemplo, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos o gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano e o Ministro da Justiça recorrem a “ameaças, restrições às viagens internacionais e internas, detenções e violência contra alguns líderes religiosos e seus seguidores, restringindo ainda os direitos dos reclusos de praticar livremente a sua religião. Os líderes religiosos e dos media dizem que o governo continua a assediar ou deter membros de grupos religiosos que lutam por mais liberdade política e religiosa.”

É extremamente difícil registar uma igreja, arrendar propriedades, abrir uma nova igreja, renovar edifícios que já existem ou construir uma igreja nova em Cuba, seja protestante ou católica.

Hugo Chavez e os seus sucessores têm sido muito críticos da Igreja Católica quando isso lhes convém. A Venezuela também tem assistido a um aumento grande de anti-semitismo, em larga medida devido a propaganda antijudaica e anti-Israel por parte do Governo. Tanto na Venezuela como na Nicarágua figuras religiosas, tanto clericais como leigas, têm sido investigadas, assediadas e nalguns casos acusadas e condenadas por tomarem posições públicas contra a corrupção.

Hoje o México é um local religiosamente diverso e vibrante, mas também existem casos de perseguição. Alguma desta é um legado da revolução (1910-1920) e das políticas secularistas de partidos do Século XX, tal como o PRI, que governou o país anos e anos, e o PRD socialista. De acordo com pelo menos um relatório contemporâneo o México é o local mais perigoso do mundo para padres católicos e para leigos, sobretudo por se oporem aos cartéis de droga e à sua violência e corrupção.

Melhor filme estrangeiro nos óscares de 2018
À parte disso, ainda existem no México sítios onde as autoridades locais punem – com espancamentos e prisão, entre outros – quem se converte do Catolicismo a outra fé. Infelizmente isto é um problema global: o uso de violência governamental para inibir ou punir o direito fundamental de tomar decisões religiosas, incluindo de mudar de religião, que sejam consistentes com as suas consciências.

Mais a norte vemos perseguição menos violenta, mas há uma tendência para o secularismo violento que procura empurrar as pessoas, instituições e ideias religiosas para fora da praça pública. Normalmente isto é feito com expedientes jurídicos, usando como armas novas regulações de forma a retirar aos crentes o seu ganha pão e os seus direitos religiosos.

No Canadá, por exemplo, o Quebec passou recentemente uma lei que impede os funcionários públicos de usar símbolos religiosos em serviço. Trata-se de uma clara violação da Constituição do Canadá, uma vez que impede um cristão de usar um pequeno crucifixo ao pescoço, um judeu de usar um quipá e uma muçulmana de cobrir o cabelo no local de trabalho.

Nos Estados Unidos temos visto leis e processos semelhantes, forçando empresas privadas, organizações religiosas e instituições privadas de solidariedade social a violar as suas convicções mais profundas ao obrigá-las a pagar por contracetivos ou sobre se os empregados têm ou não a obrigação de cumprir com os valores religiosos dos seus empregadores.

Veremos a mesma coisa na América Latina num futuro próximo? Infelizmente, parece que sim. O primeiro sinal é o aumento do secularismo das populações urbanas e das elites. Segundo organizações como a Pew, e outras, há dados que apontam para níveis muito baixos de prática religiosa entre católicos, sobretudo em cidades influentes como Buenos Aires, Rio de Janeiro e La Paz. As sondagens mostram números cada vez maiores de pessoas que nem sequer fingem identificar-se culturalmente como católicas, preferindo o termo “secular”: Uruguai (42%), Cuba (25%), Chile (25%), Argentina (21%), e quase 10% no Haiti, Brasil, Venezuela, Equador e Suriname.

Em segundo lugar, estamos a assistir uma campanha jurídica agressiva em muitas capitais, sobretudo no que diz respeito a questões de vida, casamento e orientação sexual/identidade de género. Só em 2018 o Uruguai e o Chile aprovaram leis que tornam mais fácil aos transgéneros mudar as suas identidades nos documentos oficiais; tribunais em Costa Rica e no Equador declaram inconstitucionais proibições de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e um tribunal nas Bermudas declarou a inconstitucionalidade de uma lei que restringia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os media estão a desempenhar o seu papel: o melhor filme estrangeiros dos óscares o ano passado foi para um filme chileno sobre rejeição e triunfo de transgéneros que se tornou uma sensação na região.

Num artigo em que documenta orgulhosamente todos estes avanços progressistas, o autor avisa que “estão a surgir sinais de uma contramaré conservadora. Liderada por evangélicos e católicos conservadores, os cidadãos estão a organizar-se para exigir o fim de políticas progressistas sobre diversidade de género, sexualidade e direitos reprodutivos”. O próximo passo será, logicamente, catalogar os ensinamentos religiosos sobre sexualidade como “discurso de ódio”. As primeiras tentativas já chegaram aos tribunais.

Os defensores da liberdade religiosa apoiam o direito fundamental de todos os cidadãos, incluindo aqueles com quem alguns discordam, apresentarem argumentos inspirados na sua fé na praça pública. Isto devia estar acima de posições religiosas ou partidárias, sejam elas conservadoras ou progressistas. Contudo, os novos secularistas da América Latina, tal como os antigos, estão a tentar usar o poder coercivo do Governo para impor uma nova ideologia à população, uma que ameaça claramente uma visão de fé da vida, da família e das instituições fundamentais da sociedade.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Eric Patterson, é vice-presidente executivo da Religious Freedom Institute, em Washington, D.C. Entre os 14 livros que já escreveu incluem-se “Latin America’s Neo-Reformation: Religion’s Influence onContemporary Politics” e “Politics in a Religious World: Building a ReligiouslyInformed U.S. Foreign Policy”.


© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Caminhada Pela Vida com enfoque na Eutanásia

Peço desculpa pela longa ausência, que só não se prolonga porque urge avisar-vos sobre a importância de participarem na Caminhada Pela Vida, que se realiza amanhã em várias cidades (ver abaixo).

O Bloco de Esquerda, mostrando claramente as suas prioridades, já anunciou um projecto de lei no primeiro dia da nova legislatura. Sabendo que a lei passa quase de certeza no Parlamento, a Federação Pela Vida quer que o tema seja posto a referendo.

Ontem foi detido no Algarve um ex-padre abusador em série, que já tinha sido condenado na Califórnia e na Irlanda por abusos e posse de pornografia infantil. Porque este é um problema que diz respeito a todos, o artigo do The Catholic Thing desta semana fala do novo filme francês “Graças a Deus”, sobre o caso do abusador Bernard Preynat, de Lyon. A ler.

Por fim, chamo a vossa atenção para o relatório da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, sobre a perseguição aos cristãos. Se a situação no Médio Oriente melhorou um pouco – já que pior seria difícil – a área que mais preocupa agora é a Ásia Meridional. O termo correcto, segundo Paulo Portas, é genocídio. Catarina Martins Bettencourt diz que o Ocidente ignora a perseguição na China porque o dinheiro fala sempre mais alto.


Pontos de partida da caminhada marcada as para 15h00 de sábado:
Lisboa – Praça Luis Camões
Porto – Sé
Aveiro – Largo do Mercado Manuel Firmino
Braga – Avenida central (Arcada)
Viseu- Campo de Viriato

Veja também


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Asias há muitas, infelizmente

O Papa emitiu hoje um documento com novas orientações e normas – com força de lei canónica – para se lidar com casos de abusos. Os especialistas – até alguns críticos do Papa – parecem concordar que é um documento muito bom. Ainda bem!

Ontem tivemos a fabulosa notícia de que Asia Bibi já se encontra em segurança no Canadá. Foi quase uma década de sofrimento que para ela já acabou. Mas infelizmente o dela é apenas um de muitos casos que existem. Falei com dois paquistaneses cristãos que se encontram na Europa a tentar encontrar soluções para os jovens da sua comunidade poderem sair do país para estudar, porque mesmo nas universidades são vítimas de discriminação.

A Conferência Episcopal quer mais católicos a intervir para ajudar casais a superar as suas crises conjugais e a Cáritas quer tudo a votar nas europeias de dia 26!

Ontem publiquei mais um artigo do The Catholic Thing em português. Matthew Hanley sublinha algumas das contradições inerentes ao movimento que nos quer impor a fantasia de que se possa mudar de sexo e mostra como estamos já numa era em que dizer a verdade pode ser considerado crime.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Não, não foi um. Foram dezenas

São José Vaz, apóstolo do Sri Lanka
Mais uma vez, o Domingo de Páscoa tornou-se uma sangrenta Sexta-feira Santa para muitos cristãos. Desta vez foi no Sri Lanka, nos últimos anos tem sido noutros lugares, incluindo o Paquistão, o Egipto e a Nigéria. Já se percebeu que isto não vai acabar tão cedo. Para o ano será noutro lugar qualquer.

Admito que me irrita um bocado quando os cristãos começam a lamentar-se de que a imprensa não liga nada a estas tragédias. Irrita-me sobretudo quando se entra no jogo de comparar a atenção dada à perseguição aos cristãos e a que se dá a perseguições a muçulmanos, como aconteceu recentemente em Christchurch. Isto não é um concurso e não é verdade que a imprensa não liga à perseguição aos cristãos. Pode acontecer que as pessoas não estejam é atentas aos canais, rádios ou jornais certos. Mas isso é outra conversa.

Nesta tragédia do Sri Lanka, como é aliás normal, as atenções da imprensa portuguesa concentraram-se muito no português que morreu num dos hotéis atacados. A história do Rui Lucas é terrivelmente triste. Morto em lua-de-mel num atentado terrorista num destino paradisíaco. Nenhuma mulher merece voltar viúva da lua-de-mel.

Não tenho uma crítica a fazer ao facto de a imprensa ter focado o casal Lucas. Mas a verdade é que o Rui não foi o único português a morrer naqueles atentados. Atrevo-me a dizer que, a seguir a cingaleses, a maioria dos mortos eram portugueses.

Se houvesse – se há não encontrei – uma lista completa com o nome de todas as vítimas deste atentado, estou certo que encontraríamos dezenas, se não centenas de apelidos portugueses.

É que muitos, se não mesmo a maioria, dos católicos naquele país são descendentes de portugueses e, tal como a maioria dos luso-descendentes cristãos no sudeste asiático, orgulham-se dessa sua identidade. Mesmo que não se orgulhassem, mesmo que não ligassem nada, nós não podemos ignorar esse facto.

Só se cairmos no erro de pensar que só é português quem tem cartão de cidadão da República Portuguesa – que ideia tão pobre! – é que podemos descartar a nossa ligação a esta gente. Agora, na sua hora de perseguição e tragédia, tínhamos a obrigação de a recordar e de fazer mais por eles nos diferentes planos em que agimos, seja através da caridade, seja da oração, seja na diplomacia internacional.

Que São José Vaz, o apóstolo do Sri Lanka, guarde estes nossos irmãos na fé e na portugalidade.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dérbis há muitos, nenhum é como este

A Renascença estreia hoje uma nova grelha e foi para mim uma grande honra ser o autor da primeira grande reportagem a passar no dia da inauguração. Numa semana em que tanto se fala de dérbi, convido-vos a conhecer o dérbi mais improvável do mundo. Opõe cristãos de tradição siríaca/assíria, oriundos do Médio Oriente, mas que vivem na Suécia… Só visto, e lido. Espero que gostem, pois deu-me imenso prazer fazer.

Por falar em Médio Oriente, o Papa Francisco encontra-se em Abu Dhabi. Ainda agora acabou de falar num encontro inter-religioso, em que disse que ou se constrói o futuro em conjunto,ou não haverá futuro de todo. Ontem, antes de partir, rezou de forma especial pela paz no Iémen, um conflito esquecido por muitos, em que quem mais sofre continuam a ser as crianças.

Na Holanda chegou finalmente ao fim a maratona religiosa em defesa da família Tamrazyan. Batei e abrir-se-vos-á… Os cristãos holandeses bem bateram, e a família viu abrir-se a porta.

Nota ainda para o facto de o Papa ter enviado flores às religiosas do Vaticano e para a descoberta de uma capela quinhentista em Cabo Verde.

Em anexo mando o convite para a Caminhada de Namorados e Casais Novos promovida pela Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa e deixo-vos com o convite para ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a importância do latim para a civilização ocidental.



quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Red wednesday

Já viu as imagens do menino autista e mudo que se tornou a estrela da audiência geral do Papa Francisco, hoje?

O Presidente das Filipinas quer que os cristãos deixem de frequentar as igrejas. Nós gostaríamos que ele deixasse de assassinar toxicodependentes. São escolhas…

Quatro finlandeses foram expulsos da Malásia por distribuir material cristão e nos Camarões um padre foi assassinado por soldados e dois outros raptados no espaço de três dias. Na República Centro-Africana os bispos convidam os fiéis a um dia de oração e luto pelo regresso da violência.

É por esta e por outras que hoje é Red Wednesday, para recordar os cristãos perseguidos. Em Portugal, se viver por perto, pode ver o Cristo Rei, os Jerónimos, os Clérigos e a Basílica dois Congregados iluminados de encarnado.

É possível construir igrejas modernas e bonitas? Sim. Aqui está a prova.

O bispo D. José Ornelas está solidário com os estivadores do Porto de Setúbal.

E hoje é quarta-feira, por isso trago-lhe mais um artigo do The Catholic Thing, com Randall Smith a perguntar se o Antigo Testamento é uma história de progresso ou de contínuos falhanços por parte do povo de Deus. A resposta? “Ambas as duas”.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Hackathon no Vaticano, Billy Graham no Céu

Agora têm todo o tempo para pôr a conversa em dia
Depois de mais de uma semana de ausência não são poucas as novidades, mas começo pela morte de Billy Graham, um gigante do Cristianismo evangélico. Podem ler aqui o seu obituário, com comentários do pastor português Tiago Cavaco.

Estamos na Quaresma e como de costume as dioceses escolheram causas para as suas renúncias quaresmais. Este ano são várias, incluindo projectos em Portugal, em África, na Ásia e no Médio Oriente. As vítimas dos incêndios não foram esquecidas.

O Vaticano vai acolher pela primeira vez um “hackathon”. Está com medo? Eu também fiquei… Mas leia, não é o que parece.

Um arcebispo iraquiano desafia os países muçulmanos a contribuir para a reconstrução de aldeias cristãs danificadas pelo Estado Islâmico. “Não basta dizer que o EI não representa o Islão”, diz Bashar Warda.

O Papa aceitou a resignação de um bispo nigeriano. Parece desinteressante? Longe disso…

Convido-vos ainda a ler esta crónica do padre Tolentino, sobre o tema do retiro que ele está a orientar para o Papa Francisco.

E esta semana temos artigo do The Catholic Thing em dose dupla. Mary Eberstadt fala sobre os paradoxos da revolução sexual. É um artigo substancialmente maior que o habitual, mas que merece mesmo ser lido com atenção.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Papa no Chile com vergonha de abusos

O Papa chegou ontem à noite ao Chile, mas só hoje é que houve agenda oficial. Francisco foi recebido pela presidente do Chile e, no seu discurso, manifestou novamente vergonha e pesar pelos abusos sexuais cometidos por padres ou outros representantes da Igreja.

Depois, celebrou missa perante 400 mil pessoas num parque da cidade, elogiando a tenacidade dos chilenos, peritos em levantarem-se “depois de tantas derrocadas”.

Antes, a caminho do Chile, Francisco manifestou aos jornalistas a sua preocupação com os riscos de uma guerra nuclear.

Mais uma história triste que nos chega do Egipto. Esta é de um jovem que foi assassinado por ter uma tatuagem cristã. O seu irmão sobreviveu por milagre… Conheça a história aqui.

Na China continua a tensão entre os cristãos e o Governo, com mais uma igreja demolida. São três só nas últimas semanas. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

22 missionários no Afeganistão executados?

Fake news
Nos últimos dias várias pessoas me perguntaram sobre a veracidade de uma mensagem que anda a circular, a pedir orações para 22 missionários cristãos no Afeganistão que vão ser executados "amanhã".

Não, não é verdade. Graças a Deus.

Eu não sei quem é que inventa estas mensagens, nem percebo quem ganha com isso, mas tal como esta mensagem e esta, a dos 22 missionários também é falsa.

Rezem, isso sim, pelos cristãos perseguidos no mundo. Eles não faltam. Mas não espalhem, por amor de Deus, mensagens sobre situações concretas sem estarem certos da sua veracidade.

Eu não sou o sabichão, mas dado a minha profissão, conhecimento e acesso a fontes terei todo o gosto em poder confirmar ou despistar as informações que vos cheguem. Basta que me contactem, pode ser até pela caixa de comentários deste post.

Obrigado!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Actualidade Religiosa: Cardeal Law, perseguição na Índia e focas chamadas Amália

Morreu o cardeal americano Bernard Law. O seu legado fica tristemente associado ao escândalo de abusos sexuais da diocese de Boston, mas como nos recorda o cardeal Sean O’Malley, ele era muito mais do que os seus pecados e as suas falhas que conduziram ao encobrimento de dezenas de casos de abusos.

Os cristãos na Índia temem um aumento de casos de perseguição, agora por altura do Natal, e apontam para uma situação recente que levou à detenção de um grupo de 32 seminaristas.

Conheça a foca chamada “Amália” que foi comprada pelas Irmãs Hospitaleiras para melhorar o bem-estar de pessoas com demência…

Convido-vos também a ver esta grande reportagem multimédia da Renascença sobre a vida dos refugiados sírios na Turquia. Não tem directamente a ver com religião, mas penso que não se vão arrepender de o ver e ler até ao fim.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Num mundo que é cada vez mais dominado pelos sentimentos e as emoções do que pela razão, é urgente ler e compreender este artigo do padre James V. Schall, que fala dos riscos que esta tendência apresenta para a nossa civilização. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Jihadi Judge e Estado Islâmico prefere Messi a Ronaldo

ISIS prefere Messi a Ronaldo
Nos últimos dias um juiz no Porto lembrou-se de citar a Bíblia num acórdão sobre violência doméstica. Isso em si não tem mal. O problema é a forma como a cita e aparente enormidade da decisão, como explica Graça Franco nesta carta aberta, que vale a pena ler. Até os bispos tiveram de vir a público lamentar o sucedido.

Morreu o padre Noronha Galvão, que foi aluno de Ratzinger e um teólogo influente em Portugal.


No Médio Oriente aconteceu precisamente aquilo que, infelizmente, eu tinha previsto no Verão. Após o referendo no Curdistão iraquiano abriu-se um conflito entre Bagdad e os curdos e quem está a levar com os combates à porta de casa são os… Cristãos, claro.

O Estado Islâmico pegou numa imagem de Lionel Messi para ameaçar o mundial de 2018.

Mesmo as pessoas que cometem os crimes mais horríveis terão feito algum bem ao longo da vida. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o diácono James Toner recorda o seu antigo pároco, que teve sobre ele uma grande influência, mas que afinal revelou-se mais tarde como um violador e abusador de rapazes. Um artigo duro, mas que todos devemos ler.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Reconstruir o Cristianismo no Iraque: Agora ou Nunca

Brad Miner
O início de Setembro marca o regresso às aulas para milhões de crianças. Este ano, Graças a Deus, será marcado também pelo regresso às aulas de crianças cristãs iraquianas que, juntamente com as suas famílias, estão a regressar à planície de Nínive para reclamar as suas casas e as suas vidas, tão brutalmente afectadas pelo terrorismo e pela guerra. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e em particular o seu ramo americano, têm sido instrumentais em ajudar a tornar isto possível. (Nota: Eu faço parte da direcção a AIS nos Estados Unidos e o nosso colega aqui no The Catholic Thing, George J. Marlin, é presidente.)

Num artigo anterior eu escrevi sobre um discurso do Sr. Marlin em que ele pedia um novo Plano Marshall para o Médio Oriente. É com alegria que anuncio que já se estão a dar os primeiros passos para a implementação de tal plano no Iraque.

Estamos felicíssimos por saber que este mês a AIS espera repatriar 15 mil pessoas na cidade cristã de Qaraqosh, no Iraq. São três mil famílias.

Esta planta, com as casas danificadas a amarelo, mostra quão extensivos foram os danos.



Ao todo, na Planície de Nínive, mais de 1200 casas foram destruídas pelo Estado Islâmico. Mais de 3000 foram danificadas pelo fogo e ainda mais de 8000 foram danificadas de outras formas e precisam de ser reparadas. O número de igrejas nas mesmas situações é respectivamente 34, 132 e 197. É aquilo a que se pode chamar um desastre não natural.

Mas como eu escrevi anteriormente, a repatriação dos cristãos para as suas terras ancestrais depende da existência de paz. E embora o Estado Islâmico tenha sido expulso de Nínive, resta saber se é possível garantir o regresso dos cristãos em segurança para Nínive e outros lados.

A história é esta:

Quando o mais recente problema de refugiados começou a aparecer nas notícias costumava ser em termos de combates entre o Estado Islâmico e várias milícias e exércitos nacionais, na maioria no Iraque e na Síria. A maioria de nós já viu fotografias de longas filas de deslocados internos, a fugir dos combates ou dos ultimatos que o Estado Islâmico fez aos cristãos: Converter-se ao Islão, abandonar as suas terras, ou morrer. Muito poucos cristãos optaram por converter-se e alguns foram mortos. Mas a maioria – juntamente com muitos, muitos muçulmanos – simplesmente fugiu, ou para países estrangeiros, ou para campos de refugiados.

As manchetes costumam referir-se ao influxo de Muçulmanos para a Europa, e em muitas situações lidam com a infiltração de militantes do Estado Islâmico, ou outros terroristas, que desde o 11 de Setembro de 2001 já mataram, pelo menos, 20,000 pessoas no mundo, com muitos milhares de feridos.

Mas estes são apenas assassinatos em ataques terroristas. A guerra – em larga medida islamita – na Síria, quase 400 mil pessoas morreram. Dezanove mil civis morreram no Iraque desde 2014 (acima de 60 mil combatentes perderam a vida), mas número mais devastador diz respeito ao número de deslocados internos no Médio Oriente: 4,525,968.

A Ajuda à Igreja que Sofre tem trabalhado em prole destes refugiados desde o início da crise, e sempre tivemos dois objectivos mente.

Temos procurado fornecer ajuda humanitária imediata a todos aqueles que foram expulsos das suas casas: água, comida, roupa e medicina – os essenciais – mas também educação para as crianças, ajudando a garantir que não se perde uma geração inteira de crianças.

E sempre acreditámos que um dia – tal como aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial – estes deslocados voltariam para retomar as suas casas, empregos e herança antiga. Os eventos mais recentes provam que tínhamos razão – e estamo-nos a preparar para enfrentar o desafio.

Recentemente o jornalista John L. Allen Jr. escreveu na revista “Columbia”, dos Knights of Columbus, que desde 2011 que a Ajuda à Igreja que Sofre “gastou 35.5 milhões de dólares a ajudar refugiados cristãos no Iraque e na Síria, em particular os que se encontram em Erbil e noutros pontos do Curdistão. O ramo americano da AIS têm contribuído de forma decisiva para este esforço.”

Allen encontrou um termo maravilhoso para este trabalho que estamos agora a começar: Dunkirk ao contrário.

Regresso a casa, aos olhos de uma criança cristã do Iraque
Tendo passado os últimos seis anos a ajudar as pessoas que fogem das suas casas, a AIS está agora, juntamente com outros grupos, entre os quais os Knights of Columbus, a Catholic Near East Welfare Association e a Catholic Relief Services, a ajudar os refugiados a regressar. Este esforço colectivo tem sido apelidado de Comité de Reconstrução de Nínive (CRN).

O objectivo da CRN é, de forma simples: “Ajudar os Cristãos Iraquianos que queiram regressar às suas aldeias na Planície de Nínive, onde vivem há séculos, e a fazê-lo de forma digna e em segurança”.

Como é evidente estas pessoas (na maioria católicas e ortodoxas) carregam com elas a sua dignidade, que nunca perderam, não obstante os sofrimentos e perigos que enfrentaram. Uma ajuda a essa dignidade passa pela reconstrução e renovação urgente das suas casas, escolas e meios económicos.

Claro que a segurança é uma preocupação constante e algo que a AIS/CRN não podem fornecer. Para isso é necessária a colaboração entre oficiais locais e nacionais do Iraque bem como de terceiros interessados. Na medida em que há paz na área, cabe a esses governos e aos terceiros (isto é, outras nações que têm interesses no Iraque e que têm consciência moral) desenvolver formas de proteger os cidadãos recém regressados, sejam católicos, ortodoxos, yazidis ou muçulmanos.

Os muçulmanos que anteriormente viviam em relativa paz com os seus vizinhos cristãos não podem se não agradecer os esforços dos cristãos para reconstruir Nínive, porque também eles serão beneficiários da renovada actividade económica e, sobretudo, da paz.

Aquilo que a NRC está a estabelecer em Nínive é uma espécie de lança em África – uma prova de que é possível reestabelecer comunidades multireligiosas onde diferentes fés podem coexistir de forma amigável.

Se for possível aqui, pode ser possível noutros lados. Seja como for, é agora ou nunca. 


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Bernie Sanders: Cristófobo e (Indirectamente) Islamófobo

Pe. Mark A. Pilon
Nota prévia: Este artigo do Pe. Mark A. Pilon é importante na medida em que realça uma questão crucial do nosso tempo, nomeadamente a ideia crescente de que os cristãos são indignos de exercerem cargos públicos de responsabilidade simplesmente porque professam certas crenças, mesmo que elas em nada afectem o seu trabalho. O exemplo do interrogatório do senador Bernie Sanders a Russ Vought, aqui descrita, é claro a esse respeito.

Dito isso, o facto de ter escolhido este artigo para traduzir não significa que eu concorde nem com a posição de Vought nem com a posição que o autor parece defender, de que os cristãos e os muçulmanos não adoram o mesmo Deus. Que o fazem já foi repetido não só pelos últimos Papas mas por outros na história da Igreja e está escrito preto no branco em documentos do Concílio Vaticano II.

Filipe


Quando ouvimos falar na perseguição aos cristãos pensamos normalmente nos cada vez mais frequentes ataques levados a cabo por extremistas islâmicos radicais em países de maioria muçulmana no mundo. Mas estas perseguições também acontecem em países ocidentais, embora não assumam a forma de violência física que vemos noutras partes. É mais subtil e acontece ao nível do Governo e de empresas privadas, normalmente sem atenção mediática.

Mas recentemente um exemplo desta perseguição foi filmado durante uma audiência de confirmação no Senado americano. Só causou uma pequena polémica, porque os grandes meios de comunicação não se interessam e não é natural que o Senado faça alguma coisa sobre o assunto. Isto porque o autor das palavras é um menino bonito dos media e de muitos senadores: Bernie Sanders. E para muitos é impensável comparar Sanders a um qualquer Joe McCarthy – ainda que o seu ataque a um candidato cristão, que não é cristão ao modo que Sanders aprova, tenha sido desprezível segundo os padrões do próprio Senado.

O alvo do seu ataque foi Russell Vought, nomeado pelo Presidente Trump para ocupar o cargo de Vice-director do Gabinete de Gestão e do Orçamento. Vought tem ocupado vários cargos no aparelho do Partido Republicano e foi assessor do senador Phil Gramm, o democrata vira-casacas que não é muito popular entre políticos como Sanders. Só isso já teria sido o suficiente para o desclassificar aos olhos de Sanders, mas ele optou por perseguir Vought por causa das suas convicções religiosas, expressas num blog chamado The Resurgent. Um dos assessores de Sanders deve ter desenterrado a informação e entendido que seria um dado capaz de descarrilar a sua nomeação.

Nesse texto Vought defendia a decisão da universidade em que se formou, Wheaton College, uma instituição abertamente cristã, de suspender a professora assistente de ciências políticas Larycia Hawkins, que postou uma fotografia de si mesma no Facebook com um véu islâmico dizendo que o iria usar no trabalho, em aviões e eventos sociais durante as semanas do Advento em solidariedade com os muçulmanos que enfrentavam discriminação religiosa.

Na altura escreveu: “Estou solidária com os muçulmanos porque eles, como eu, que sou cristã, são povos do livro… E como o Papa Francisco afirmou a semana passada, adoramos o mesmo Deus.”

Ainda que o Papa Francisco “pense” que cristãos e muçulmanos adorem exactamente o mesmo Deus, há literalmente milhões de outros cristãos e católicos que “pensam” o contrário, com base nas suas crenças num Deus que é uma trindade de pessoas e de que Jesus Cristo é o único mediador da salvação da humanidade. Francisco não fala em nome de todos os católicos nesta matéria, menos ainda em nome dos milhões de protestantes evangélicos – incluindo a Wheaton College.

Em relação a isto Vought escreveu simplesmente: “Os muçulmanos não têm apenas uma teologia deficiente. Eles não conhecem Deus porque rejeitaram o seu Filho, Jesus Cristo, e por isso estão condenados”.

Sanders revoltou-se: “Do meu ponto de vista a afirmação feita pelo Sr. Vought é indefensável, é odiosa, é islamofóbica e um insulto a mais de mil milhões de muçulmanos em todo o mundo”. Tentou provocar Vought a negar a sua fé. Vought tentou responder, dizendo, “Senador, eu sou cristão.” Mas Sanders interrompeu: “Acha que os não-cristãos vão ser condenados?” e mais tarde perguntou “está a sugerir que todas estas pessoas estão condenadas?” e, enfurecido, “e os judeus? Eles também estão condenados?”

Vought limitou-se a reafirmar a sua crença cristã de que a salvação vem apenas por Jesus Cristo. Mas Sanders concluiu que esta crença era incompatível com uma função pública. “Diria, senhor presidente, que este candidato não tem nada a ver com aquilo que este país representa”.

Incrível é pouco… Vought nunca sugeriu que as suas opiniões religiosas o levariam a negar aos muçulmanos os seus direitos humanos ou sociais e Sanders nem lhe perguntou. Aliás, Vought disse acreditar que “todas as pessoas são criadas à imagem de Deus e são dignas de respeito, independentemente das suas crenças religiosas”. Mas isso não chegou para Bernie, que argumentou que devia ser chumbado precisamente por causa dessa sua fé.

Sanders não é uma pessoa particularmente bem informada no que diz respeito a religiões mundiais e não é muito perspicaz quando sai da redoma da guerrilha política. O que ele não percebe é que ao excluir cristãos como Vought deve, logicamente, excluir a maioria dos muçulmanos também. Para os muçulmanos ortodoxos todos os não-muçulmanos são infiéis, mushrikun (politeístas, idólatras, pagãos, etc.), e como tal não podem entrar no Paraíso. Quase todos os muçulmanos acreditam que todos os infiéis são condenados.

Sobre os infiéis, por exemplo, o Alcorão diz, “São aqueles, cujas obras se tornaram sem efeito, e que morarão eternamente no fogo infernal” (9:17). Quando Hussain Nadim, professor da Universidade Quaid-e-Azam em Islamabad, Paquistão, perguntou aos seus alunos se a Madre Teresa de Calcutá iria para o Céu, “para minha grande surpresa, mais de 80% desta elite académica respondeu claramente que não. Todos os que responderam assim explicaram que embora a Madre Teresa fosse uma mulher nobre, não era muçulmana e, por isso, não podia entrar no Céu”.

A crença de que só os muçulmanos podem entrar no Céu não é professada propriamente por uma minoria de muçulmanos educados, mas é a opinião geral, o que significa que de acordo com o Bernieismo a maioria dos muçulmanos nos Estados Unidos não estão em condições de ocupar um cargo público.

Será que ele os apelidaria de cristófobos que insultam mais de mil milhões de cristãos? Duvido, seria perigoso.

Não, pessoas como Bernie Sanders vêem os cristãos que defendem posições impopulares como “o aborto é homicídio” e “o casamento é apenas entre um homem e uma mulher” como a única verdadeira ameaça ao paraíso secular que quer edificar. Há demasiados poucos muçulmanos neste país para serem uma verdadeira ameaça, mesmo que defendam as mesmas posições. Contudo, servem perfeitamente como instrumentos para classificar os cristãos como inimigos do sistema político americano.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Junho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não há palavras. Só cinza

A tragédia de Pedrógão Grande deixa-nos sem palavras, mas não nos deixa sem possibilidade de ajudar. Várias instituições, incluindo da Igreja, já prometeram ajuda e abriram contas para que se possa contribuir.


Ontem houve um ataque terrorista em Londres, mas contra a comunidade muçulmana. O condutor da carrinha usada foi salvo pelo imã da comunidade que atingiu.

Dos últimos dias destaque também para uma notícia que passou despercebida por cá. O líder do partido Democrata Liberal do Reino Unido demitiu-se depois de ter sido criticado pelas suas convicções cristãs e nos EUA as autoridades reuniram uns 200 cristãos originários do Iraque para serem deportados de volta para o país de origem, algo que a comunidade nem quer crer ser possível.

D. António Barroso, antigo bispo do Porto, está mais perto da beatificação.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Silêncio não é sobre apostasia, mas sobre inculturação

Transcrição integral da entrevista que fiz ao padre e missionário Adelino Ascenso, que passou mais de uma década no Japão e fez a sua tese de doutoramento sobre a teologia da obra literária de Shusaku Endo. As reportagens podem ser lidas aqui e aqui. A minha visão pessoal do filme pode ser lida aqui e podem ainda ler as transcrições das entrevistas ao jesuíta José Maria Brito e a Brad Miner.


Tem havido várias críticas a dizer que o filme, e por conseguinte o livro, Silêncio é um exercício de justificação da apostasia. Era essa a intenção de Endo?
Não, de forma nenhuma.

Endo foi acusado precisamente de defender a apostasia, quando publicou o livro em 1966. E houve até algumas dioceses onde os prelados não permitiram a leitura desse livro aos católicos, ou aconselharam a que não lessem. Eu creio que foi uma interpretação errada da mensagem que o Endo quis transmitir.

O Shusaku Endo tinha uma grande preocupação. Naturalmente a maior preocupação era a sua própria fé. Ter aquele “fato” ocidental que não se adaptava bem ao seu corpo japonês, como ele o define, mas tendo esse problema com a sua fé, que é sempre uma busca, uma luta. Ele em relação aos “Kakure Kirishitan”, os cristãos ocultos, tinha uma simpatia muito grande. Estes Kakure, que renunciaram à sua fé, apostataram visivelmente, mesmo que fosse só um pró-forma, muitos deles mantiveram-se fiéis ao Cristianismo ao longo de 250 anos, durante as perseguições e em total isolamento, sem sacerdotes, sem nada. Eram os leigos que os orientavam, que baptizavam os filhos e que passavam as orações de geração em geração, ao longo de 250 anos.

Shusaku Endo tinha uma grande simpatia pelos descendentes desses cristãos ocultos e achava que havia aqui um silêncio, o “silêncio” do título do livro.

Mas o título do livro não é só o silêncio de Deus, porque quase sempre se fala só no silêncio de Deus, o Rodrigues que se interroga porque é que aqueles cristãos estão a ser martirizados e Deus está de braços cruzados em silêncio e não age. Claro que aí está o problema da teodiceia, portanto o problema da existência de Deus omnipotente e do mal no mundo, aí está um problema, sim, mas não é só esse silêncio, ele preocupava-se com o silêncio da Igreja-instituição, relativamente a esses cristãos ocultos, que tinha renunciado à sua fé, que tinham apostatado, mas que no seu coração continuavam a acreditar e continuavam com os seus ritos, com as suas orações, e a transmitir essas orações. Shusaku Endo tinha uma grande preocupação relativamente a este silêncio.

Ele quis, com esse livro, realçar não só o forte, porque o forte é o mártir, aquele que não renuncia à sua fé, não apostata e que é martirizado, mas também defender o fraco, o cobarde, o débil, aquele que, não aguentando a dor, ou por compaixão pelos outros, acaba por apostatar. Digamos que há uma dicotomia. A Igreja-instituição, valorizou sempre muito os mártires, mas esqueceu-se desses pobres que, tendo apostatado, eram escorraçados pelos outros e eram desprezados pelos outros.

Por um lado, em “Silêncio” vemos exemplos de tremenda fé por parte dos japoneses, mas também críticas de que o Cristianismo não pode lançar raízes no Japão. O termo usado é “pântano”. Acredita que é essa a opinião de Endo?
Não era a convicção de Endo, era a preocupação do Endo.

Desde que ele foi baptizado aos 10 anos, e principalmente depois, passados cinco ou dez anos, em que ele começou a reflectir sobre a sua fé e o que significava ser cristão e ser japonês, que ele notou que havia um abismo entre o Ocidente e o Oriente. O Cristianismo era a religião do ocidente, e ele era um oriental, japonês. Então ele tentou sempre, desde o início, procurar um caminho de conciliar esses dois mundos, o Oriente e o Ocidente.

Com Silêncio ele conseguiu, não totalmente, mas o facto de o próprio Rodrigues, e já lá iremos, o próprio ter apostatado – e sobre a apostasia podemos falar depois – ter sido um estrangeiro no Japão a apostatar nesse pântano que é o Japão, significa que houve uma aproximação à mentalidade japonesa, houve uma tentativa de inculturação por parte do Rodrigues. Digamos que houve uma conversão do Rodrigues depois da sua apostasia. O apostatar, para o Rodrigues, tem a ver com a inculturação, com um processo de inculturação. Nesse sentido, Endo conseguiu uma aproximação entre o Oriente e o Ocidente, que ele depois desenvolveria mais tarde noutras obras de ficção.

Como é que caracteriza o Catolicismo de Endo? Pode-se dizer que ele é típico de um católico japonês?
Penso que o Catolicismo de Endo, a fé de Endo, é referência para os cristãos que buscam e que pensam e que sentem a luta da fé no dia-a-dia.

Porque estamos a falar de um país em que os cristãos são 1% da população, onde os católicos são cerca de 0,3% da população. Onde muitas vezes numa única família de muitos membros há uma única pessoa católica ou protestante. E isto implica um diálogo permanente com os outros membros da família, uma luta permanente, um luta permanente na tentativa de inculturar esses elementos cristãos dessa religião estrangeira, de forma a que a pessoa não seja colocada num mundo diferente daquele do resto da família. E nesse sentido Endo é o ponto de referência para os cristãos que buscam, reflectem e que procuram um caminho de entrosamento. Um caminho de diálogo e encontro.

Quando diz que há famílias com apenas um cristão, estamos a falar de conversões mais recentes. Entre os descendentes dos Kakure Kirishitan que sobreviveram há famílias inteiras que se mantiveram fiéis, que vivem integradas no Japão, ou formam uma sociedade à parte?
Por aquilo que me foi proporcionado ver há algumas comunidades descendentes precisamente desses Kakure, sobretudo na região de Nagasaki. Há uma região a Norte de Nagasaki, que se chama Sotome, que é onde está o monumento ao silêncio, e onde está também o museu literário de Shusaku Endo, e que foi o palco do “Silêncio”.

Há aí umas ilhas que se denominam Goto, onde a população ainda orienta toda a sua vida de acordo com a Igreja. Isto é, a igreja ainda é o ponto aglutinador. As crianças vão para a escola, mas a caminho passam pela igreja. Aí sim, essas comunidades mantêm essa tradição religiosa cristã, desde esses tempos, século XVI e XVII.

Mas por exemplo em Osaka, onde eu estive, há umas montanhas, perto da paróquia onde estive a trabalhar os últimos anos, onde se refugiaram alguns Kakure que vieram de Nagasaki, e aí ainda há alguns sinais, mas muito diluídos. Depois, na própria cidade de Osaka e no resto do Japão, o Cristianismo está muito diluído na sociedade.

Agora, há um aspecto interessante... Uma vez encontrei um japonês em Coimbra, ainda eu não estava no Japão, e eu perguntei como era o Cristianismo no Japão. E ele disse que o Cristianismo no Japão compreendia cerca de 30% da população. Fiquei muito surpreendido e lembrei-me que devia haver um erro de cálculo.

Mas é curioso que cerca de 30% da população japonesa, não digo 30%, tem valores que nós podemos considerar cristãos. O cristianismo – Igreja Católica, protestante e ortodoxa – têm escolas, universidades, jardins-de-infância, hospitais, lares de terceira idade, etc. Têm muitas instituições onde transmitem esses valores. Por exemplo, nos jardins-de-infância as crianças são ensinadas a rezar. Esses valores ficam com a criança mesmo que não se converta ao cristianismo. Portanto o cristianismo é uma percentagem mínima, está muito entrosado na cultura e na sociedade japonesa e, penso eu, que há muitos valores que podemos considerar cristãos e que estão alicerçados no próprio contexto japonês.

Então não concorda com essa frase, de que o Japão é um pântano para o cristianismo...
Não concordo, mas concordo com a expressão do Endo. Aí está, precisamente. O cristianismo, como tinha sido, ou como foi ao longo dos tempos, transportado para o Japão como uma religião estrangeira, com esse Cristo estereotipado, um Cristo ocidental, que se transporta simplesmente para o Japão, dessa forma, cai num pântano. E nesse sentido eu estou de acordo.

Mas não estou de acordo que o cristianismo no Japão tenha que cair nesse pântano. Se não, não tinha estado no Japão. Tem de haver esse processo, esse exercício permanente de inculturação. E foi o que o Endo tentou fazer.

As missões actuais, a Igreja actual no Japão, tem feito essa inculturação? Ou ainda há caminho por fazer?
Há muito caminho por fazer. Há muito caminho por fazer e eu creio que o sucesso aqui, principalmente no Japão, não se mede por números. Porque basta dizer que os cristãos japoneses, ou os católicos japoneses da actualidade, são cerca de 400 mil, e isto é um número irrisório, e não há um aumento progressivo dos convertidos ao cristianismo. Portanto há um longo caminho a fazer. Mas eu penso que o caminho mais importante a fazer é esse do exercício constante, permanente, da inculturação.

Saiu um livro muito interessante e muito importante, publicado pela Conferência Episcopal Japonesa, aliás, pela secção de Diálogo Inter-religioso, que foi depois traduzido para inglês e para português, que é um compêndio sobre como um cristão, católico, deve agir perante situações numa sociedade que não é católica.

Por exemplo, se um católico é o único elemento da família e se há um membro da família que morre e que tem um funeral budista, se o católico pode participar no funeral; se participa, como deve participar?. Isto é muito importante. Os funerais são muito importantes não é propriamente o culto dos antepassados, mas há uma influência do confucionismo, que valoriza precisamente o culto dos antepassados.

Quando diz participar presumo que não seja só marcar presença, mas ter uma parte activa...
Pois, exactamente, aí está a parte mais delicada. Porque se um católico vai participar num funeral de uma celebração budista, não pode participar activamente. Quero dizer, se participar activamente na recitação dos sutras, usando o rosário budista, então está a fazer algo que é uma fachada, porque quando há um funeral de um católico numa Igreja e vêm budistas familiares a esse funeral, é evidente que eles não trazem o nosso rosário, trazem o rosário budista, porque se trouxessem o nosso, seria uma fachada, uma mentira. Portanto isso são aspectos muito delicados, que estão muito bem tratados nesse livro, um livro muito interessante.

A sua tese é precisamente uma leitura teológica da obra de Endo, nomeadamente da perspectiva do entendimento do sofrimento. Podemos então concluir que este não é só um tema que aparece em Silêncio, mas também noutras partes da sua obra?
Aparece no resto da obra. Silêncio é como que o eixo axiológico, onde se condensa a teologia do Endo. E depois há um outro romance que condensa de uma forma talvez mais abrangente e não tão profunda, a teologia do Endo, o Rio Profundo, o último romance.

Mas, por exemplo, um romance que também está traduzido para português e que eu aconselho vivamente é o Samurai. O Samurai é considerado um romance autobiográfico, ou seja, um "eu romance". Um romance autobiográfico de Shusaku Endo, mas autobiográfico do percurso espiritual de Shusaku Endo. O Samurai que vai para o México e depois para a Europa e que se vai encontrando com esse Cristo esquelético, cravado na Cruz, que está sempre presente nos quartos onde ele fica, nos mosteiros por onde passa... De certa maneira esse companheiro que nunca o abandona e, quando ele se sente abandonado por todos, especialmente pelo senhor feudal que ele servia, sente que o único que não o abandonou foi esse Cristo esquelético, e acaba por morrer como mártir por esse Cristo esquelético que nunca o abandonou. É um romance impressionante.

Depois tem outras obras, mais cristológicas, como "Uma Vida de Jesus", traduzido para português; depois tem também "Nas Margens do Mar Morto", que não está traduzido sequer para inglês;  E tem ainda "O Nascimento de Cristo", que também não está traduzido. E aí ele dedica-se mais ao seu estudo cristológico.

Eu quando li pela primeira vez "Uma Vida de Jesus", quando foi traduzido para português, há muitos anos, eu fiquei com a sensação que o Cristo ali tratado era excessivamente humano, por isso o livro não me cativou, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano. Mas depois de estudar Endo, de ver o seu percurso e analisar o seu percurso, cheguei à conclusão que não é um Cristo, excessivamente humano, é um Cristo profundamente humano. É o Cristo "companheiro", aquele que acompanha o sofredor sempre, em cada momento, como fez com o Rodrigues em Silêncio e só no final o Rodrigues percebe isso.

No livro, Ferreira argumenta que a fé praticada pelos Kirishitan não é sequer o Cristianismo como Rodrigues os entende. Tinha alguma razão?
Talvez ele tivesse uma certa razão.

O povo japonês, por natureza, é muito sincretista. Eles têm um panteão de Deuses, ou de divindades, os Kami, e este Deus que veio do Ocidente, que foi pregado pelo Francisco Xavier, era mais um Deus que entrava no seu panteão.

Penso que nessa altura, séculos XVI, XVII, certamente muitos japoneses ficaram com essa imagem, de um Deus que é mais um Deus, faz parte do panteão.

Mas há um aspecto curioso, e esse é que é o contraste... Como é que os japoneses, por exemplo aqueles que decidiram não apostatar, e que foram até ao fim, que são milhares e milhares, desconhecidos. Muitos foram beatificados, mas há muitos milhares que são totalmente desconhecidos. O que é que os levava a dar a vida por esse Deus?

Se fosse considerado como mais um Deus desse mesmo panteão, então não teriam coragem de dar a vida por esse Deus. Penso que o Ferreira poderá ter razão até certo ponto. Digamos, numa parte da população japonesa da época, talvez ele tivesse razão. Noutra parte não.

No livro há uma cena em que Rodrigues ouve a voz de Cristo a dizer-lhe para pisar o Fumie. Na sua leitura, essa é mesmo a voz de Jesus, ou pelo contrário, é a voz da tentação, ou mesmo do demónio?
É uma boa pergunta. Pois... Eu penso que é a voz de Jesus, mas há aqui dois aspectos importantes a ter em conta.

O primeiro é o significado da apostasia em si. O que é que o Rodrigues apostatou? Foi o verdadeiro Cristo? Ou foi a imagem estereotipada de Cristo que ele levava do Ocidente? Repare que no início Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso... Depois, quando estava na prisão em Nagasaki, esse Cristo começou a ser um Cristo sofredor, de olhos tristes, e finalmente, quando está para pisar a imagem, olha para o Cristo e é um Cristo desfeito, de sofrimento.

Ao longo da sua peregrinação ele foi-se libertando dessa imagem estereotipada de um Cristo ocidental. Então ele, dizendo assim de uma forma sintética, ele apostatou um Cristo poderoso, que tinha trazido da Europa, um Cristo ocidental, e aceitou no seu coração o Cristo misericordioso. É aí que Cristo lhe diz, “podes pisar”.

Há um pormenor, e isso é o segundo ponto, que pode parecer insignificante, mas tem muita importância a nível teológico. O original japonês não é uma forma de imperativo “pisa”. Mas quando foi traduzido para inglês, em 1969, por William Johnston, ele traduziu pela forma imperativa.

Se Cristo, essa imagem da fumie de Cristo, lhe diz “pisa”, então o próprio Rodrigues não tem liberdade de decisão, é o Cristo que está a dizer para eu lhe pisar, eu piso porque Cristo me diz “pisa”, já não é responsabilidade dele.

Mas se Cristo lhe diz “podes pisar” a decisão é dele. Ele tem a liberdade para decidir. Ou pisa ou não pisa. Isto é um pormenor, pode parecer uma nuance, mas acho que tem muita importância ao nível teológico.

E eu creio que não é por acaso que Shusaku Endo não pôs aí de forma categórica uma forma verbal de imperativo.

Como disse, Rodrigues apostatou aquele Cristo estereotipado. É evidente que Cristo é sempre o mesmo, mas aquela imagem que ele trazia consigo, porque a imagem que temos de Cristo nunca é o Cristo completo, o verdadeiro, o verdadeiro ultrapassa muito a imagem que temos. É como Deus. Não podemos definir Deus. Porque se definíssemos ele cabia na nossa cabeça, na nossa capacidade de raciocínio. Então ele, uma vez mais, apostatou essa imagem que tinha levado e adoptou esse Cristo maternal, sofredor, débil, esse Cristo companheiro. Esse Cristo que tem a ver com a sua inculturação nesse pântano japonês.

Mas os que deram a vida por Cristo, como disse, certamente não a davam por um Deus entre muitos... Eles teriam essa imagem de Deus já inculturado?
Talvez ainda não tivessem totalmente...

No entanto eram japoneses e tinham-se apaixonado por esse Jesus... Ocidental.
Exactamente! Aí é algo misterioso...

Porque se compararmos a história do cristianismo no Japão e na Coreia, é completamente diferente. Na Coreia foram os coreanos que foram à China buscar o cristianismo. Fizeram do cristianismo uma coisa sua. No caso do Japão, foi do Ocidente que chegou ao Japão.

O japonês, como disse, é muito sincretista e é muito – a palavra tem uma conotação negativa – mas o japonês é muito utilitarista. Absorvem tudo. Tudo o que é útil, eles absorvem, acarinham e incluem na sua cultura. Aquilo que não lhes interessa, abandonam. Por isso é que eles têm muitos elementos da China... Aliás, os caracteres são chineses, com algumas modificações, o budismo chegou através da China, e têm muitos elementos da Europa e dos Estados Unidos.

Eles absorvem aquilo que lhes interessa e deitam fora aquilo que não lhes interessa.

Esses cristãos, no início, quando morriam por esse Deus desconhecido, que no fundo era um Deus desconhecido, que eles conheciam principalmente através dos missionários, eu não sei... Intelectualmente talvez esse Cristo não estivesse integrado na sua fé. Mas houve ali um encontro. Isto é o mistério do encontro. E o mistério do encontro, que é o mistério da fé, não pode ser explicado. E isso continuará a ser mistério. Porque é que tantos milhares deram a vida por esse Cristo!

Num seu artigo fala do livro como um protesto contra a imagem de Deus-juiz…
Naturalmente Deus é Pai, mas como o Papa Francisco tem referido, e acho que muito bem, Deus é Pai e Mãe, ou seja, Deus é Pai, mas com sentimentos maternais.

Heinrich Fromm, no seu livro “A Arte de Amar”, fazia a distinção entre o amor de Pai e o amor de Mãe. O amor de Pai exige sempre alguma coisa em troca. O amor de mãe é aquele amor que não exige nada em troca. Não sei se será bem assim, mas ele definia isto assim.

Eu acho que o Deus Pai, que foi naturalmente transmitido aos japoneses, eles sentiam-no como um juiz. Um juiz que estava ali – eles sentiam-no, não quer dizer que fosse – sentiam que estava ali para apontar as suas faltas.

O Japão no século XVI era um país miserável, feudal, a esmagadora maioria da população vivia na miséria. E o que eles necessitavam era como que o instinto maternal que os amparasse, que os acompanhasse, que lhes perdoasse as faltas. “Eu cometi um pecado, mas vem esse Deus com um instinto maternal que me perdoa”. O que eles necessitavam era disso, precisamente. A “conversão” do Rodrigues tem a ver precisamente com essa passagem da imagem de Deus Pai para o Deus de compaixão maternal. Aliás, é um Cristo que Shusaku Endo introduz nas suas obras desde “Obaka San, o Idiota Maravilhoso” – que ao que parece foi traduzido no Brasil, mas eu não li nessa tradução –, mas já ele tinha começado aí precisamente a estruturar esse Cristo, que depois, no Silêncio, está mais fortemente estruturado, e depois acaba por ser também, numa outra dimensão, mais bem estruturado nas suas três obras que referi à pouco da sua cristologia, e também no “Samurai”.

Quais são as características deste Cristo? É um Cristo que tem fundamentalmente as características de ser débil, não é um Cristo constantiniano, porque esse Cristo triunfalista já não atrai, nem sequer atrai na nossa época, portanto era um Cristo não triunfalista, mas um Cristo débil. Um Cristo que não está longe, perdido na transcendência, mas um Cristo que entra no lodo da nossa vida, um Cristo que está na trivialidade da nossa vida, como nosso companheiro, e é um Cristo que perdoa as nossas falhas, os nossos pecados, as nossas faltas, por muito graves que elas sejam, como uma mãe que abraça. E o japonês necessitava desse afecto. Todos nós necessitamos. Uma mãe que perdoasse as suas faltas. Principalmente esses que pisavam a imagem.

A pergunta que fazia Shusaku Endo, antes de escrever esse livro, quando viu a fumie no museu, em Nagasaki, era “Se eu tivesse vivido nessa altura, não teria eu também pisado a imagem?” Ele dizia que certamente que um preguiçoso como ele teria pisado a imagem. Depois, perguntava, que tipo de pessoas eram essas que tinham pisado a imagem? E uma outra pergunta: O que terão sentido ao pisar a imagem?

Ele tinha estas três perguntas em mente quando viu a fumie. Foi aí que ele pensou que tinha de escrever um romance sobre isto.

Portanto o Cristo é este Cristo destas três dimensões, e uma dessas dimensões é esse da compaixão maternal.

Afinal há uma grande carga de Cristianismo em vários dos livros de Endo. Como é que isto é recebido num Japão em que só 1% da população é cristã? Se um dos nossos grandes autores de referência escrevesse livros com uma forte componente hindu, dificilmente teria grande popularidade...
Ele é muito admirado no Japão, é muito famoso. Fez muitos programas na televisão.

Os romances dele são muito densos, muito dramáticos, normalmente muito intensos. Então ele precisava de algo que contrabalançasse com a intensidade dos seus romances e começou a fazer uns programas na televisão, o professor Korian - Korian Sensei. Escreveu muitos livros também sobre essa personagem, que são livros cómicos.

Mas a partir desses programas que ele fez na televisão, passou a ser famosíssimo em todo o Japão. Portanto é muito famoso no Japão. Poucas pessoas não o conhecerão, não terão lido algum livro dele. Agora, as pessoas quando lêem um livro dele, se não estudarem a teologia, acaba por ser um romance que se lê assim, superficialmente. Eu quando li “Silêncio” da primeira vez, era muito dramático, mas pronto, não aprofundei. Ou, como já referi há pouco, quando li “Uma Vida de Jesus” não fique muito contente, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano, próximo de mim.

Ele é muito admirado, e isto é um aspecto muito positivo para o Cristianismo no Japão.

E que tem dado frutos, em termos práticos?
Sim. Eu conheci alguns fiéis, na paróquia onde estive, que decidiram ser cristãos a partir da leitura do livro de Shusaku Endo.

Em vida teve esse reconhecimento?
Sim. Teve até uma audiência com o Papa Paulo VI, que lhe dizia para continuar, por favor, o seu trabalho de evangelização no Japão. Não foi uma audiência privada, foi uma audiência geral, há fotografias.

Mas mesmo no Japão ele foi reconhecido mais tarde, não no tempo. Na altura da publicação de “Silêncio” houve algumas vozes discordantes. Houve ali, quanto a mim, uma interpretação incorrecta da mensagem que ele quis transmitir. Mas hoje é reconhecido pela hierarquia da Igreja.

Haverá o perigo, por assim dizer, de quem ver o filme, ou ler o livro, sem esse conhecimento todo, ser levado ao engano, ter uma ideia diferente daquilo que ele está a tentar transmitir. Que conselhos deixa a quem vai ver o filme pela primeira vez?
Que não tire conclusões precipitadas, que reflicta. Porque o livro deve levar-nos a reflectir.

Depois de fazer este estudo sobre Shusaku Endo, li “Silêncio” muitas vezes, tinha que ler, e ainda hoje continuo a reflectir sobre “Silêncio” e sobre a mensagem do “Silêncio”, porque se nós vamos ver o filme – principalmente ver o filme – e vemos o Rodrigues a pisar a imagem, a apostatar, e se chegamos à conclusão que ele apostatou, por isso é um fraco, o outro não apostatou, por isso é um forte, isto é uma precipitação.

Se nós analisarmos a apostasia de Rodrigues como um acto de compaixão para com os cristãos que estão a passar pelo martírio, para os libertar, não é um incorrecto pensar assim, é correcto. Ele decidiu apostatar para salvar os cristãos que estavam a ser martirizados, porque as autoridades tinham dito que se ele apostatasse, mesmo que fosse um pró-forma – porque eles queriam um padre, para dar o exemplo – seria libertado e os cristãos que estavam a sofrer seriam libertados. Por isso é que o próprio inquisidor lhe dizia que ele estava a fazer com que os japoneses sofram, través da tua teimosia, de não quereres apostatar.

Portanto, se nós virmos que ele apostatou por compaixão, aí está, por compaixão por aqueles que estão a sofrer, é uma interpretação correcta. Se a pessoa quiser aprofundar mais, e deve aprofundar mais, deve reflectir o que significou essa apostasia, o que é que ele apostatou, e porque é que ele, depois de ter apostatado, diz que a instituição e os seus irmãos jesuítas irão condená-lo, mas que ele continua a sentir-se o último padre no Japão, porque a partir do momento em que apostatou começou a amar Cristo de uma forma diferente, mas de uma forma mais intensa.

Se nós reflectirmos sobre o significado de tudo isto, então isso levar-nos-á muito longe. O que eu gostaria, de facto, era que todos nós cristãos reflectíssemos a partir daí, sem tomar decisões precipitadas, sem conclusões precipitadas, porque se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície.

Qual é a relevância da personagem Kichigiro?
Kichigiro é uma das personagens mais importantes do livro. Ele representa, de forma geral, Judas. Shusaku Endo colocou ali o Kichigiro para tentar provar que Jesus também salvou Judas. Ele tinha esse problema, da salvação de Judas.

E porquê? Porque o próprio Shusaku Endo sentia em si remorsos por ter traído pelo menos duas vezes a sua mãe. Quando ele estava na Manchuria o pai levava-o e ao seu irmão a passearem no parque, e a mãe ficava em casa, a trabalhar. Aos 10 anos ele apercebeu-se que o pai os levava a passear no parque para se encontrar com uma mulher.

Então o pequeno Shusaku pensou: “Se vou dizer à minha mãe, vou trair o meu pai, se não digo, estou a trair a minha mãe”. Então ele vivia naquele dilema e acabou por não contar nada à sua mãe e sentiu que traiu a sua mãe.

Tinha esse sentimento de traição, assim como tinha ao seu cão, “Negro”, que ele tinha na Manchuria, que era o seu confidente, com quem conversava precisamente sobre esses problemas. Estamos a falar de uma criança de dez anos...

E quando ele deixou a Manchuria com a sua mãe, o cão foi a correr atrás do carro, mas depois cansou-se e teve de parar, por isso ele sentiu também esse sentimento de traição em relação ao cão.

Em relação à mãe, voltou a ter um sentimento de traição quando, já de volta ao Japão, ele foi viver com o seu pai, que entretanto tinha contraído segundas núpcias. E mais uma vez depois de a sua mãe morrer, numa altura em que ele não estava em casa.

Tudo isto fez com que ele se identificasse muito com judas, com aquele que trai, e ele sentia que se Judas não fosse salvo, isso significaria que havia uma altura em que a graça não tinha sido suficiente para o pecado, ao contrário do que diz na Bíblia “onde abundou o pecado, superabundou a Graça”, por isso é que ele sentia que era necessário que Jesus tivesse salvo judas e Kichigiro representa isso.

No fim do livro Kichigiro e Rodrigues passam a viver juntos, em comunidade, o que representa não só a reabilitação de Kichigiro, como também “conversão” de Rodrigues a este Cristo “japonês”.

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