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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dérbis há muitos, nenhum é como este

A Renascença estreia hoje uma nova grelha e foi para mim uma grande honra ser o autor da primeira grande reportagem a passar no dia da inauguração. Numa semana em que tanto se fala de dérbi, convido-vos a conhecer o dérbi mais improvável do mundo. Opõe cristãos de tradição siríaca/assíria, oriundos do Médio Oriente, mas que vivem na Suécia… Só visto, e lido. Espero que gostem, pois deu-me imenso prazer fazer.

Por falar em Médio Oriente, o Papa Francisco encontra-se em Abu Dhabi. Ainda agora acabou de falar num encontro inter-religioso, em que disse que ou se constrói o futuro em conjunto,ou não haverá futuro de todo. Ontem, antes de partir, rezou de forma especial pela paz no Iémen, um conflito esquecido por muitos, em que quem mais sofre continuam a ser as crianças.

Na Holanda chegou finalmente ao fim a maratona religiosa em defesa da família Tamrazyan. Batei e abrir-se-vos-á… Os cristãos holandeses bem bateram, e a família viu abrir-se a porta.

Nota ainda para o facto de o Papa ter enviado flores às religiosas do Vaticano e para a descoberta de uma capela quinhentista em Cabo Verde.

Em anexo mando o convite para a Caminhada de Namorados e Casais Novos promovida pela Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa e deixo-vos com o convite para ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a importância do latim para a civilização ocidental.



quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Red wednesday

Já viu as imagens do menino autista e mudo que se tornou a estrela da audiência geral do Papa Francisco, hoje?

O Presidente das Filipinas quer que os cristãos deixem de frequentar as igrejas. Nós gostaríamos que ele deixasse de assassinar toxicodependentes. São escolhas…

Quatro finlandeses foram expulsos da Malásia por distribuir material cristão e nos Camarões um padre foi assassinado por soldados e dois outros raptados no espaço de três dias. Na República Centro-Africana os bispos convidam os fiéis a um dia de oração e luto pelo regresso da violência.

É por esta e por outras que hoje é Red Wednesday, para recordar os cristãos perseguidos. Em Portugal, se viver por perto, pode ver o Cristo Rei, os Jerónimos, os Clérigos e a Basílica dois Congregados iluminados de encarnado.

É possível construir igrejas modernas e bonitas? Sim. Aqui está a prova.

O bispo D. José Ornelas está solidário com os estivadores do Porto de Setúbal.

E hoje é quarta-feira, por isso trago-lhe mais um artigo do The Catholic Thing, com Randall Smith a perguntar se o Antigo Testamento é uma história de progresso ou de contínuos falhanços por parte do povo de Deus. A resposta? “Ambas as duas”.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Hackathon no Vaticano, Billy Graham no Céu

Agora têm todo o tempo para pôr a conversa em dia
Depois de mais de uma semana de ausência não são poucas as novidades, mas começo pela morte de Billy Graham, um gigante do Cristianismo evangélico. Podem ler aqui o seu obituário, com comentários do pastor português Tiago Cavaco.

Estamos na Quaresma e como de costume as dioceses escolheram causas para as suas renúncias quaresmais. Este ano são várias, incluindo projectos em Portugal, em África, na Ásia e no Médio Oriente. As vítimas dos incêndios não foram esquecidas.

O Vaticano vai acolher pela primeira vez um “hackathon”. Está com medo? Eu também fiquei… Mas leia, não é o que parece.

Um arcebispo iraquiano desafia os países muçulmanos a contribuir para a reconstrução de aldeias cristãs danificadas pelo Estado Islâmico. “Não basta dizer que o EI não representa o Islão”, diz Bashar Warda.

O Papa aceitou a resignação de um bispo nigeriano. Parece desinteressante? Longe disso…

Convido-vos ainda a ler esta crónica do padre Tolentino, sobre o tema do retiro que ele está a orientar para o Papa Francisco.

E esta semana temos artigo do The Catholic Thing em dose dupla. Mary Eberstadt fala sobre os paradoxos da revolução sexual. É um artigo substancialmente maior que o habitual, mas que merece mesmo ser lido com atenção.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Papa no Chile com vergonha de abusos

O Papa chegou ontem à noite ao Chile, mas só hoje é que houve agenda oficial. Francisco foi recebido pela presidente do Chile e, no seu discurso, manifestou novamente vergonha e pesar pelos abusos sexuais cometidos por padres ou outros representantes da Igreja.

Depois, celebrou missa perante 400 mil pessoas num parque da cidade, elogiando a tenacidade dos chilenos, peritos em levantarem-se “depois de tantas derrocadas”.

Antes, a caminho do Chile, Francisco manifestou aos jornalistas a sua preocupação com os riscos de uma guerra nuclear.

Mais uma história triste que nos chega do Egipto. Esta é de um jovem que foi assassinado por ter uma tatuagem cristã. O seu irmão sobreviveu por milagre… Conheça a história aqui.

Na China continua a tensão entre os cristãos e o Governo, com mais uma igreja demolida. São três só nas últimas semanas. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

22 missionários no Afeganistão executados?

Fake news
Nos últimos dias várias pessoas me perguntaram sobre a veracidade de uma mensagem que anda a circular, a pedir orações para 22 missionários cristãos no Afeganistão que vão ser executados "amanhã".

Não, não é verdade. Graças a Deus.

Eu não sei quem é que inventa estas mensagens, nem percebo quem ganha com isso, mas tal como esta mensagem e esta, a dos 22 missionários também é falsa.

Rezem, isso sim, pelos cristãos perseguidos no mundo. Eles não faltam. Mas não espalhem, por amor de Deus, mensagens sobre situações concretas sem estarem certos da sua veracidade.

Eu não sou o sabichão, mas dado a minha profissão, conhecimento e acesso a fontes terei todo o gosto em poder confirmar ou despistar as informações que vos cheguem. Basta que me contactem, pode ser até pela caixa de comentários deste post.

Obrigado!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Actualidade Religiosa: Cardeal Law, perseguição na Índia e focas chamadas Amália

Morreu o cardeal americano Bernard Law. O seu legado fica tristemente associado ao escândalo de abusos sexuais da diocese de Boston, mas como nos recorda o cardeal Sean O’Malley, ele era muito mais do que os seus pecados e as suas falhas que conduziram ao encobrimento de dezenas de casos de abusos.

Os cristãos na Índia temem um aumento de casos de perseguição, agora por altura do Natal, e apontam para uma situação recente que levou à detenção de um grupo de 32 seminaristas.

Conheça a foca chamada “Amália” que foi comprada pelas Irmãs Hospitaleiras para melhorar o bem-estar de pessoas com demência…

Convido-vos também a ver esta grande reportagem multimédia da Renascença sobre a vida dos refugiados sírios na Turquia. Não tem directamente a ver com religião, mas penso que não se vão arrepender de o ver e ler até ao fim.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Num mundo que é cada vez mais dominado pelos sentimentos e as emoções do que pela razão, é urgente ler e compreender este artigo do padre James V. Schall, que fala dos riscos que esta tendência apresenta para a nossa civilização. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Jihadi Judge e Estado Islâmico prefere Messi a Ronaldo

ISIS prefere Messi a Ronaldo
Nos últimos dias um juiz no Porto lembrou-se de citar a Bíblia num acórdão sobre violência doméstica. Isso em si não tem mal. O problema é a forma como a cita e aparente enormidade da decisão, como explica Graça Franco nesta carta aberta, que vale a pena ler. Até os bispos tiveram de vir a público lamentar o sucedido.

Morreu o padre Noronha Galvão, que foi aluno de Ratzinger e um teólogo influente em Portugal.


No Médio Oriente aconteceu precisamente aquilo que, infelizmente, eu tinha previsto no Verão. Após o referendo no Curdistão iraquiano abriu-se um conflito entre Bagdad e os curdos e quem está a levar com os combates à porta de casa são os… Cristãos, claro.

O Estado Islâmico pegou numa imagem de Lionel Messi para ameaçar o mundial de 2018.

Mesmo as pessoas que cometem os crimes mais horríveis terão feito algum bem ao longo da vida. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o diácono James Toner recorda o seu antigo pároco, que teve sobre ele uma grande influência, mas que afinal revelou-se mais tarde como um violador e abusador de rapazes. Um artigo duro, mas que todos devemos ler.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Reconstruir o Cristianismo no Iraque: Agora ou Nunca

Brad Miner
O início de Setembro marca o regresso às aulas para milhões de crianças. Este ano, Graças a Deus, será marcado também pelo regresso às aulas de crianças cristãs iraquianas que, juntamente com as suas famílias, estão a regressar à planície de Nínive para reclamar as suas casas e as suas vidas, tão brutalmente afectadas pelo terrorismo e pela guerra. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e em particular o seu ramo americano, têm sido instrumentais em ajudar a tornar isto possível. (Nota: Eu faço parte da direcção a AIS nos Estados Unidos e o nosso colega aqui no The Catholic Thing, George J. Marlin, é presidente.)

Num artigo anterior eu escrevi sobre um discurso do Sr. Marlin em que ele pedia um novo Plano Marshall para o Médio Oriente. É com alegria que anuncio que já se estão a dar os primeiros passos para a implementação de tal plano no Iraque.

Estamos felicíssimos por saber que este mês a AIS espera repatriar 15 mil pessoas na cidade cristã de Qaraqosh, no Iraq. São três mil famílias.

Esta planta, com as casas danificadas a amarelo, mostra quão extensivos foram os danos.



Ao todo, na Planície de Nínive, mais de 1200 casas foram destruídas pelo Estado Islâmico. Mais de 3000 foram danificadas pelo fogo e ainda mais de 8000 foram danificadas de outras formas e precisam de ser reparadas. O número de igrejas nas mesmas situações é respectivamente 34, 132 e 197. É aquilo a que se pode chamar um desastre não natural.

Mas como eu escrevi anteriormente, a repatriação dos cristãos para as suas terras ancestrais depende da existência de paz. E embora o Estado Islâmico tenha sido expulso de Nínive, resta saber se é possível garantir o regresso dos cristãos em segurança para Nínive e outros lados.

A história é esta:

Quando o mais recente problema de refugiados começou a aparecer nas notícias costumava ser em termos de combates entre o Estado Islâmico e várias milícias e exércitos nacionais, na maioria no Iraque e na Síria. A maioria de nós já viu fotografias de longas filas de deslocados internos, a fugir dos combates ou dos ultimatos que o Estado Islâmico fez aos cristãos: Converter-se ao Islão, abandonar as suas terras, ou morrer. Muito poucos cristãos optaram por converter-se e alguns foram mortos. Mas a maioria – juntamente com muitos, muitos muçulmanos – simplesmente fugiu, ou para países estrangeiros, ou para campos de refugiados.

As manchetes costumam referir-se ao influxo de Muçulmanos para a Europa, e em muitas situações lidam com a infiltração de militantes do Estado Islâmico, ou outros terroristas, que desde o 11 de Setembro de 2001 já mataram, pelo menos, 20,000 pessoas no mundo, com muitos milhares de feridos.

Mas estes são apenas assassinatos em ataques terroristas. A guerra – em larga medida islamita – na Síria, quase 400 mil pessoas morreram. Dezanove mil civis morreram no Iraque desde 2014 (acima de 60 mil combatentes perderam a vida), mas número mais devastador diz respeito ao número de deslocados internos no Médio Oriente: 4,525,968.

A Ajuda à Igreja que Sofre tem trabalhado em prole destes refugiados desde o início da crise, e sempre tivemos dois objectivos mente.

Temos procurado fornecer ajuda humanitária imediata a todos aqueles que foram expulsos das suas casas: água, comida, roupa e medicina – os essenciais – mas também educação para as crianças, ajudando a garantir que não se perde uma geração inteira de crianças.

E sempre acreditámos que um dia – tal como aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial – estes deslocados voltariam para retomar as suas casas, empregos e herança antiga. Os eventos mais recentes provam que tínhamos razão – e estamo-nos a preparar para enfrentar o desafio.

Recentemente o jornalista John L. Allen Jr. escreveu na revista “Columbia”, dos Knights of Columbus, que desde 2011 que a Ajuda à Igreja que Sofre “gastou 35.5 milhões de dólares a ajudar refugiados cristãos no Iraque e na Síria, em particular os que se encontram em Erbil e noutros pontos do Curdistão. O ramo americano da AIS têm contribuído de forma decisiva para este esforço.”

Allen encontrou um termo maravilhoso para este trabalho que estamos agora a começar: Dunkirk ao contrário.

Regresso a casa, aos olhos de uma criança cristã do Iraque
Tendo passado os últimos seis anos a ajudar as pessoas que fogem das suas casas, a AIS está agora, juntamente com outros grupos, entre os quais os Knights of Columbus, a Catholic Near East Welfare Association e a Catholic Relief Services, a ajudar os refugiados a regressar. Este esforço colectivo tem sido apelidado de Comité de Reconstrução de Nínive (CRN).

O objectivo da CRN é, de forma simples: “Ajudar os Cristãos Iraquianos que queiram regressar às suas aldeias na Planície de Nínive, onde vivem há séculos, e a fazê-lo de forma digna e em segurança”.

Como é evidente estas pessoas (na maioria católicas e ortodoxas) carregam com elas a sua dignidade, que nunca perderam, não obstante os sofrimentos e perigos que enfrentaram. Uma ajuda a essa dignidade passa pela reconstrução e renovação urgente das suas casas, escolas e meios económicos.

Claro que a segurança é uma preocupação constante e algo que a AIS/CRN não podem fornecer. Para isso é necessária a colaboração entre oficiais locais e nacionais do Iraque bem como de terceiros interessados. Na medida em que há paz na área, cabe a esses governos e aos terceiros (isto é, outras nações que têm interesses no Iraque e que têm consciência moral) desenvolver formas de proteger os cidadãos recém regressados, sejam católicos, ortodoxos, yazidis ou muçulmanos.

Os muçulmanos que anteriormente viviam em relativa paz com os seus vizinhos cristãos não podem se não agradecer os esforços dos cristãos para reconstruir Nínive, porque também eles serão beneficiários da renovada actividade económica e, sobretudo, da paz.

Aquilo que a NRC está a estabelecer em Nínive é uma espécie de lança em África – uma prova de que é possível reestabelecer comunidades multireligiosas onde diferentes fés podem coexistir de forma amigável.

Se for possível aqui, pode ser possível noutros lados. Seja como for, é agora ou nunca. 


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Bernie Sanders: Cristófobo e (Indirectamente) Islamófobo

Pe. Mark A. Pilon
Nota prévia: Este artigo do Pe. Mark A. Pilon é importante na medida em que realça uma questão crucial do nosso tempo, nomeadamente a ideia crescente de que os cristãos são indignos de exercerem cargos públicos de responsabilidade simplesmente porque professam certas crenças, mesmo que elas em nada afectem o seu trabalho. O exemplo do interrogatório do senador Bernie Sanders a Russ Vought, aqui descrita, é claro a esse respeito.

Dito isso, o facto de ter escolhido este artigo para traduzir não significa que eu concorde nem com a posição de Vought nem com a posição que o autor parece defender, de que os cristãos e os muçulmanos não adoram o mesmo Deus. Que o fazem já foi repetido não só pelos últimos Papas mas por outros na história da Igreja e está escrito preto no branco em documentos do Concílio Vaticano II.

Filipe


Quando ouvimos falar na perseguição aos cristãos pensamos normalmente nos cada vez mais frequentes ataques levados a cabo por extremistas islâmicos radicais em países de maioria muçulmana no mundo. Mas estas perseguições também acontecem em países ocidentais, embora não assumam a forma de violência física que vemos noutras partes. É mais subtil e acontece ao nível do Governo e de empresas privadas, normalmente sem atenção mediática.

Mas recentemente um exemplo desta perseguição foi filmado durante uma audiência de confirmação no Senado americano. Só causou uma pequena polémica, porque os grandes meios de comunicação não se interessam e não é natural que o Senado faça alguma coisa sobre o assunto. Isto porque o autor das palavras é um menino bonito dos media e de muitos senadores: Bernie Sanders. E para muitos é impensável comparar Sanders a um qualquer Joe McCarthy – ainda que o seu ataque a um candidato cristão, que não é cristão ao modo que Sanders aprova, tenha sido desprezível segundo os padrões do próprio Senado.

O alvo do seu ataque foi Russell Vought, nomeado pelo Presidente Trump para ocupar o cargo de Vice-director do Gabinete de Gestão e do Orçamento. Vought tem ocupado vários cargos no aparelho do Partido Republicano e foi assessor do senador Phil Gramm, o democrata vira-casacas que não é muito popular entre políticos como Sanders. Só isso já teria sido o suficiente para o desclassificar aos olhos de Sanders, mas ele optou por perseguir Vought por causa das suas convicções religiosas, expressas num blog chamado The Resurgent. Um dos assessores de Sanders deve ter desenterrado a informação e entendido que seria um dado capaz de descarrilar a sua nomeação.

Nesse texto Vought defendia a decisão da universidade em que se formou, Wheaton College, uma instituição abertamente cristã, de suspender a professora assistente de ciências políticas Larycia Hawkins, que postou uma fotografia de si mesma no Facebook com um véu islâmico dizendo que o iria usar no trabalho, em aviões e eventos sociais durante as semanas do Advento em solidariedade com os muçulmanos que enfrentavam discriminação religiosa.

Na altura escreveu: “Estou solidária com os muçulmanos porque eles, como eu, que sou cristã, são povos do livro… E como o Papa Francisco afirmou a semana passada, adoramos o mesmo Deus.”

Ainda que o Papa Francisco “pense” que cristãos e muçulmanos adorem exactamente o mesmo Deus, há literalmente milhões de outros cristãos e católicos que “pensam” o contrário, com base nas suas crenças num Deus que é uma trindade de pessoas e de que Jesus Cristo é o único mediador da salvação da humanidade. Francisco não fala em nome de todos os católicos nesta matéria, menos ainda em nome dos milhões de protestantes evangélicos – incluindo a Wheaton College.

Em relação a isto Vought escreveu simplesmente: “Os muçulmanos não têm apenas uma teologia deficiente. Eles não conhecem Deus porque rejeitaram o seu Filho, Jesus Cristo, e por isso estão condenados”.

Sanders revoltou-se: “Do meu ponto de vista a afirmação feita pelo Sr. Vought é indefensável, é odiosa, é islamofóbica e um insulto a mais de mil milhões de muçulmanos em todo o mundo”. Tentou provocar Vought a negar a sua fé. Vought tentou responder, dizendo, “Senador, eu sou cristão.” Mas Sanders interrompeu: “Acha que os não-cristãos vão ser condenados?” e mais tarde perguntou “está a sugerir que todas estas pessoas estão condenadas?” e, enfurecido, “e os judeus? Eles também estão condenados?”

Vought limitou-se a reafirmar a sua crença cristã de que a salvação vem apenas por Jesus Cristo. Mas Sanders concluiu que esta crença era incompatível com uma função pública. “Diria, senhor presidente, que este candidato não tem nada a ver com aquilo que este país representa”.

Incrível é pouco… Vought nunca sugeriu que as suas opiniões religiosas o levariam a negar aos muçulmanos os seus direitos humanos ou sociais e Sanders nem lhe perguntou. Aliás, Vought disse acreditar que “todas as pessoas são criadas à imagem de Deus e são dignas de respeito, independentemente das suas crenças religiosas”. Mas isso não chegou para Bernie, que argumentou que devia ser chumbado precisamente por causa dessa sua fé.

Sanders não é uma pessoa particularmente bem informada no que diz respeito a religiões mundiais e não é muito perspicaz quando sai da redoma da guerrilha política. O que ele não percebe é que ao excluir cristãos como Vought deve, logicamente, excluir a maioria dos muçulmanos também. Para os muçulmanos ortodoxos todos os não-muçulmanos são infiéis, mushrikun (politeístas, idólatras, pagãos, etc.), e como tal não podem entrar no Paraíso. Quase todos os muçulmanos acreditam que todos os infiéis são condenados.

Sobre os infiéis, por exemplo, o Alcorão diz, “São aqueles, cujas obras se tornaram sem efeito, e que morarão eternamente no fogo infernal” (9:17). Quando Hussain Nadim, professor da Universidade Quaid-e-Azam em Islamabad, Paquistão, perguntou aos seus alunos se a Madre Teresa de Calcutá iria para o Céu, “para minha grande surpresa, mais de 80% desta elite académica respondeu claramente que não. Todos os que responderam assim explicaram que embora a Madre Teresa fosse uma mulher nobre, não era muçulmana e, por isso, não podia entrar no Céu”.

A crença de que só os muçulmanos podem entrar no Céu não é professada propriamente por uma minoria de muçulmanos educados, mas é a opinião geral, o que significa que de acordo com o Bernieismo a maioria dos muçulmanos nos Estados Unidos não estão em condições de ocupar um cargo público.

Será que ele os apelidaria de cristófobos que insultam mais de mil milhões de cristãos? Duvido, seria perigoso.

Não, pessoas como Bernie Sanders vêem os cristãos que defendem posições impopulares como “o aborto é homicídio” e “o casamento é apenas entre um homem e uma mulher” como a única verdadeira ameaça ao paraíso secular que quer edificar. Há demasiados poucos muçulmanos neste país para serem uma verdadeira ameaça, mesmo que defendam as mesmas posições. Contudo, servem perfeitamente como instrumentos para classificar os cristãos como inimigos do sistema político americano.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Junho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não há palavras. Só cinza

A tragédia de Pedrógão Grande deixa-nos sem palavras, mas não nos deixa sem possibilidade de ajudar. Várias instituições, incluindo da Igreja, já prometeram ajuda e abriram contas para que se possa contribuir.


Ontem houve um ataque terrorista em Londres, mas contra a comunidade muçulmana. O condutor da carrinha usada foi salvo pelo imã da comunidade que atingiu.

Dos últimos dias destaque também para uma notícia que passou despercebida por cá. O líder do partido Democrata Liberal do Reino Unido demitiu-se depois de ter sido criticado pelas suas convicções cristãs e nos EUA as autoridades reuniram uns 200 cristãos originários do Iraque para serem deportados de volta para o país de origem, algo que a comunidade nem quer crer ser possível.

D. António Barroso, antigo bispo do Porto, está mais perto da beatificação.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Silêncio não é sobre apostasia, mas sobre inculturação

Transcrição integral da entrevista que fiz ao padre e missionário Adelino Ascenso, que passou mais de uma década no Japão e fez a sua tese de doutoramento sobre a teologia da obra literária de Shusaku Endo. As reportagens podem ser lidas aqui e aqui. A minha visão pessoal do filme pode ser lida aqui e podem ainda ler as transcrições das entrevistas ao jesuíta José Maria Brito e a Brad Miner.


Tem havido várias críticas a dizer que o filme, e por conseguinte o livro, Silêncio é um exercício de justificação da apostasia. Era essa a intenção de Endo?
Não, de forma nenhuma.

Endo foi acusado precisamente de defender a apostasia, quando publicou o livro em 1966. E houve até algumas dioceses onde os prelados não permitiram a leitura desse livro aos católicos, ou aconselharam a que não lessem. Eu creio que foi uma interpretação errada da mensagem que o Endo quis transmitir.

O Shusaku Endo tinha uma grande preocupação. Naturalmente a maior preocupação era a sua própria fé. Ter aquele “fato” ocidental que não se adaptava bem ao seu corpo japonês, como ele o define, mas tendo esse problema com a sua fé, que é sempre uma busca, uma luta. Ele em relação aos “Kakure Kirishitan”, os cristãos ocultos, tinha uma simpatia muito grande. Estes Kakure, que renunciaram à sua fé, apostataram visivelmente, mesmo que fosse só um pró-forma, muitos deles mantiveram-se fiéis ao Cristianismo ao longo de 250 anos, durante as perseguições e em total isolamento, sem sacerdotes, sem nada. Eram os leigos que os orientavam, que baptizavam os filhos e que passavam as orações de geração em geração, ao longo de 250 anos.

Shusaku Endo tinha uma grande simpatia pelos descendentes desses cristãos ocultos e achava que havia aqui um silêncio, o “silêncio” do título do livro.

Mas o título do livro não é só o silêncio de Deus, porque quase sempre se fala só no silêncio de Deus, o Rodrigues que se interroga porque é que aqueles cristãos estão a ser martirizados e Deus está de braços cruzados em silêncio e não age. Claro que aí está o problema da teodiceia, portanto o problema da existência de Deus omnipotente e do mal no mundo, aí está um problema, sim, mas não é só esse silêncio, ele preocupava-se com o silêncio da Igreja-instituição, relativamente a esses cristãos ocultos, que tinha renunciado à sua fé, que tinham apostatado, mas que no seu coração continuavam a acreditar e continuavam com os seus ritos, com as suas orações, e a transmitir essas orações. Shusaku Endo tinha uma grande preocupação relativamente a este silêncio.

Ele quis, com esse livro, realçar não só o forte, porque o forte é o mártir, aquele que não renuncia à sua fé, não apostata e que é martirizado, mas também defender o fraco, o cobarde, o débil, aquele que, não aguentando a dor, ou por compaixão pelos outros, acaba por apostatar. Digamos que há uma dicotomia. A Igreja-instituição, valorizou sempre muito os mártires, mas esqueceu-se desses pobres que, tendo apostatado, eram escorraçados pelos outros e eram desprezados pelos outros.

Por um lado, em “Silêncio” vemos exemplos de tremenda fé por parte dos japoneses, mas também críticas de que o Cristianismo não pode lançar raízes no Japão. O termo usado é “pântano”. Acredita que é essa a opinião de Endo?
Não era a convicção de Endo, era a preocupação do Endo.

Desde que ele foi baptizado aos 10 anos, e principalmente depois, passados cinco ou dez anos, em que ele começou a reflectir sobre a sua fé e o que significava ser cristão e ser japonês, que ele notou que havia um abismo entre o Ocidente e o Oriente. O Cristianismo era a religião do ocidente, e ele era um oriental, japonês. Então ele tentou sempre, desde o início, procurar um caminho de conciliar esses dois mundos, o Oriente e o Ocidente.

Com Silêncio ele conseguiu, não totalmente, mas o facto de o próprio Rodrigues, e já lá iremos, o próprio ter apostatado – e sobre a apostasia podemos falar depois – ter sido um estrangeiro no Japão a apostatar nesse pântano que é o Japão, significa que houve uma aproximação à mentalidade japonesa, houve uma tentativa de inculturação por parte do Rodrigues. Digamos que houve uma conversão do Rodrigues depois da sua apostasia. O apostatar, para o Rodrigues, tem a ver com a inculturação, com um processo de inculturação. Nesse sentido, Endo conseguiu uma aproximação entre o Oriente e o Ocidente, que ele depois desenvolveria mais tarde noutras obras de ficção.

Como é que caracteriza o Catolicismo de Endo? Pode-se dizer que ele é típico de um católico japonês?
Penso que o Catolicismo de Endo, a fé de Endo, é referência para os cristãos que buscam e que pensam e que sentem a luta da fé no dia-a-dia.

Porque estamos a falar de um país em que os cristãos são 1% da população, onde os católicos são cerca de 0,3% da população. Onde muitas vezes numa única família de muitos membros há uma única pessoa católica ou protestante. E isto implica um diálogo permanente com os outros membros da família, uma luta permanente, um luta permanente na tentativa de inculturar esses elementos cristãos dessa religião estrangeira, de forma a que a pessoa não seja colocada num mundo diferente daquele do resto da família. E nesse sentido Endo é o ponto de referência para os cristãos que buscam, reflectem e que procuram um caminho de entrosamento. Um caminho de diálogo e encontro.

Quando diz que há famílias com apenas um cristão, estamos a falar de conversões mais recentes. Entre os descendentes dos Kakure Kirishitan que sobreviveram há famílias inteiras que se mantiveram fiéis, que vivem integradas no Japão, ou formam uma sociedade à parte?
Por aquilo que me foi proporcionado ver há algumas comunidades descendentes precisamente desses Kakure, sobretudo na região de Nagasaki. Há uma região a Norte de Nagasaki, que se chama Sotome, que é onde está o monumento ao silêncio, e onde está também o museu literário de Shusaku Endo, e que foi o palco do “Silêncio”.

Há aí umas ilhas que se denominam Goto, onde a população ainda orienta toda a sua vida de acordo com a Igreja. Isto é, a igreja ainda é o ponto aglutinador. As crianças vão para a escola, mas a caminho passam pela igreja. Aí sim, essas comunidades mantêm essa tradição religiosa cristã, desde esses tempos, século XVI e XVII.

Mas por exemplo em Osaka, onde eu estive, há umas montanhas, perto da paróquia onde estive a trabalhar os últimos anos, onde se refugiaram alguns Kakure que vieram de Nagasaki, e aí ainda há alguns sinais, mas muito diluídos. Depois, na própria cidade de Osaka e no resto do Japão, o Cristianismo está muito diluído na sociedade.

Agora, há um aspecto interessante... Uma vez encontrei um japonês em Coimbra, ainda eu não estava no Japão, e eu perguntei como era o Cristianismo no Japão. E ele disse que o Cristianismo no Japão compreendia cerca de 30% da população. Fiquei muito surpreendido e lembrei-me que devia haver um erro de cálculo.

Mas é curioso que cerca de 30% da população japonesa, não digo 30%, tem valores que nós podemos considerar cristãos. O cristianismo – Igreja Católica, protestante e ortodoxa – têm escolas, universidades, jardins-de-infância, hospitais, lares de terceira idade, etc. Têm muitas instituições onde transmitem esses valores. Por exemplo, nos jardins-de-infância as crianças são ensinadas a rezar. Esses valores ficam com a criança mesmo que não se converta ao cristianismo. Portanto o cristianismo é uma percentagem mínima, está muito entrosado na cultura e na sociedade japonesa e, penso eu, que há muitos valores que podemos considerar cristãos e que estão alicerçados no próprio contexto japonês.

Então não concorda com essa frase, de que o Japão é um pântano para o cristianismo...
Não concordo, mas concordo com a expressão do Endo. Aí está, precisamente. O cristianismo, como tinha sido, ou como foi ao longo dos tempos, transportado para o Japão como uma religião estrangeira, com esse Cristo estereotipado, um Cristo ocidental, que se transporta simplesmente para o Japão, dessa forma, cai num pântano. E nesse sentido eu estou de acordo.

Mas não estou de acordo que o cristianismo no Japão tenha que cair nesse pântano. Se não, não tinha estado no Japão. Tem de haver esse processo, esse exercício permanente de inculturação. E foi o que o Endo tentou fazer.

As missões actuais, a Igreja actual no Japão, tem feito essa inculturação? Ou ainda há caminho por fazer?
Há muito caminho por fazer. Há muito caminho por fazer e eu creio que o sucesso aqui, principalmente no Japão, não se mede por números. Porque basta dizer que os cristãos japoneses, ou os católicos japoneses da actualidade, são cerca de 400 mil, e isto é um número irrisório, e não há um aumento progressivo dos convertidos ao cristianismo. Portanto há um longo caminho a fazer. Mas eu penso que o caminho mais importante a fazer é esse do exercício constante, permanente, da inculturação.

Saiu um livro muito interessante e muito importante, publicado pela Conferência Episcopal Japonesa, aliás, pela secção de Diálogo Inter-religioso, que foi depois traduzido para inglês e para português, que é um compêndio sobre como um cristão, católico, deve agir perante situações numa sociedade que não é católica.

Por exemplo, se um católico é o único elemento da família e se há um membro da família que morre e que tem um funeral budista, se o católico pode participar no funeral; se participa, como deve participar?. Isto é muito importante. Os funerais são muito importantes não é propriamente o culto dos antepassados, mas há uma influência do confucionismo, que valoriza precisamente o culto dos antepassados.

Quando diz participar presumo que não seja só marcar presença, mas ter uma parte activa...
Pois, exactamente, aí está a parte mais delicada. Porque se um católico vai participar num funeral de uma celebração budista, não pode participar activamente. Quero dizer, se participar activamente na recitação dos sutras, usando o rosário budista, então está a fazer algo que é uma fachada, porque quando há um funeral de um católico numa Igreja e vêm budistas familiares a esse funeral, é evidente que eles não trazem o nosso rosário, trazem o rosário budista, porque se trouxessem o nosso, seria uma fachada, uma mentira. Portanto isso são aspectos muito delicados, que estão muito bem tratados nesse livro, um livro muito interessante.

A sua tese é precisamente uma leitura teológica da obra de Endo, nomeadamente da perspectiva do entendimento do sofrimento. Podemos então concluir que este não é só um tema que aparece em Silêncio, mas também noutras partes da sua obra?
Aparece no resto da obra. Silêncio é como que o eixo axiológico, onde se condensa a teologia do Endo. E depois há um outro romance que condensa de uma forma talvez mais abrangente e não tão profunda, a teologia do Endo, o Rio Profundo, o último romance.

Mas, por exemplo, um romance que também está traduzido para português e que eu aconselho vivamente é o Samurai. O Samurai é considerado um romance autobiográfico, ou seja, um "eu romance". Um romance autobiográfico de Shusaku Endo, mas autobiográfico do percurso espiritual de Shusaku Endo. O Samurai que vai para o México e depois para a Europa e que se vai encontrando com esse Cristo esquelético, cravado na Cruz, que está sempre presente nos quartos onde ele fica, nos mosteiros por onde passa... De certa maneira esse companheiro que nunca o abandona e, quando ele se sente abandonado por todos, especialmente pelo senhor feudal que ele servia, sente que o único que não o abandonou foi esse Cristo esquelético, e acaba por morrer como mártir por esse Cristo esquelético que nunca o abandonou. É um romance impressionante.

Depois tem outras obras, mais cristológicas, como "Uma Vida de Jesus", traduzido para português; depois tem também "Nas Margens do Mar Morto", que não está traduzido sequer para inglês;  E tem ainda "O Nascimento de Cristo", que também não está traduzido. E aí ele dedica-se mais ao seu estudo cristológico.

Eu quando li pela primeira vez "Uma Vida de Jesus", quando foi traduzido para português, há muitos anos, eu fiquei com a sensação que o Cristo ali tratado era excessivamente humano, por isso o livro não me cativou, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano. Mas depois de estudar Endo, de ver o seu percurso e analisar o seu percurso, cheguei à conclusão que não é um Cristo, excessivamente humano, é um Cristo profundamente humano. É o Cristo "companheiro", aquele que acompanha o sofredor sempre, em cada momento, como fez com o Rodrigues em Silêncio e só no final o Rodrigues percebe isso.

No livro, Ferreira argumenta que a fé praticada pelos Kirishitan não é sequer o Cristianismo como Rodrigues os entende. Tinha alguma razão?
Talvez ele tivesse uma certa razão.

O povo japonês, por natureza, é muito sincretista. Eles têm um panteão de Deuses, ou de divindades, os Kami, e este Deus que veio do Ocidente, que foi pregado pelo Francisco Xavier, era mais um Deus que entrava no seu panteão.

Penso que nessa altura, séculos XVI, XVII, certamente muitos japoneses ficaram com essa imagem, de um Deus que é mais um Deus, faz parte do panteão.

Mas há um aspecto curioso, e esse é que é o contraste... Como é que os japoneses, por exemplo aqueles que decidiram não apostatar, e que foram até ao fim, que são milhares e milhares, desconhecidos. Muitos foram beatificados, mas há muitos milhares que são totalmente desconhecidos. O que é que os levava a dar a vida por esse Deus?

Se fosse considerado como mais um Deus desse mesmo panteão, então não teriam coragem de dar a vida por esse Deus. Penso que o Ferreira poderá ter razão até certo ponto. Digamos, numa parte da população japonesa da época, talvez ele tivesse razão. Noutra parte não.

No livro há uma cena em que Rodrigues ouve a voz de Cristo a dizer-lhe para pisar o Fumie. Na sua leitura, essa é mesmo a voz de Jesus, ou pelo contrário, é a voz da tentação, ou mesmo do demónio?
É uma boa pergunta. Pois... Eu penso que é a voz de Jesus, mas há aqui dois aspectos importantes a ter em conta.

O primeiro é o significado da apostasia em si. O que é que o Rodrigues apostatou? Foi o verdadeiro Cristo? Ou foi a imagem estereotipada de Cristo que ele levava do Ocidente? Repare que no início Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso... Depois, quando estava na prisão em Nagasaki, esse Cristo começou a ser um Cristo sofredor, de olhos tristes, e finalmente, quando está para pisar a imagem, olha para o Cristo e é um Cristo desfeito, de sofrimento.

Ao longo da sua peregrinação ele foi-se libertando dessa imagem estereotipada de um Cristo ocidental. Então ele, dizendo assim de uma forma sintética, ele apostatou um Cristo poderoso, que tinha trazido da Europa, um Cristo ocidental, e aceitou no seu coração o Cristo misericordioso. É aí que Cristo lhe diz, “podes pisar”.

Há um pormenor, e isso é o segundo ponto, que pode parecer insignificante, mas tem muita importância a nível teológico. O original japonês não é uma forma de imperativo “pisa”. Mas quando foi traduzido para inglês, em 1969, por William Johnston, ele traduziu pela forma imperativa.

Se Cristo, essa imagem da fumie de Cristo, lhe diz “pisa”, então o próprio Rodrigues não tem liberdade de decisão, é o Cristo que está a dizer para eu lhe pisar, eu piso porque Cristo me diz “pisa”, já não é responsabilidade dele.

Mas se Cristo lhe diz “podes pisar” a decisão é dele. Ele tem a liberdade para decidir. Ou pisa ou não pisa. Isto é um pormenor, pode parecer uma nuance, mas acho que tem muita importância ao nível teológico.

E eu creio que não é por acaso que Shusaku Endo não pôs aí de forma categórica uma forma verbal de imperativo.

Como disse, Rodrigues apostatou aquele Cristo estereotipado. É evidente que Cristo é sempre o mesmo, mas aquela imagem que ele trazia consigo, porque a imagem que temos de Cristo nunca é o Cristo completo, o verdadeiro, o verdadeiro ultrapassa muito a imagem que temos. É como Deus. Não podemos definir Deus. Porque se definíssemos ele cabia na nossa cabeça, na nossa capacidade de raciocínio. Então ele, uma vez mais, apostatou essa imagem que tinha levado e adoptou esse Cristo maternal, sofredor, débil, esse Cristo companheiro. Esse Cristo que tem a ver com a sua inculturação nesse pântano japonês.

Mas os que deram a vida por Cristo, como disse, certamente não a davam por um Deus entre muitos... Eles teriam essa imagem de Deus já inculturado?
Talvez ainda não tivessem totalmente...

No entanto eram japoneses e tinham-se apaixonado por esse Jesus... Ocidental.
Exactamente! Aí é algo misterioso...

Porque se compararmos a história do cristianismo no Japão e na Coreia, é completamente diferente. Na Coreia foram os coreanos que foram à China buscar o cristianismo. Fizeram do cristianismo uma coisa sua. No caso do Japão, foi do Ocidente que chegou ao Japão.

O japonês, como disse, é muito sincretista e é muito – a palavra tem uma conotação negativa – mas o japonês é muito utilitarista. Absorvem tudo. Tudo o que é útil, eles absorvem, acarinham e incluem na sua cultura. Aquilo que não lhes interessa, abandonam. Por isso é que eles têm muitos elementos da China... Aliás, os caracteres são chineses, com algumas modificações, o budismo chegou através da China, e têm muitos elementos da Europa e dos Estados Unidos.

Eles absorvem aquilo que lhes interessa e deitam fora aquilo que não lhes interessa.

Esses cristãos, no início, quando morriam por esse Deus desconhecido, que no fundo era um Deus desconhecido, que eles conheciam principalmente através dos missionários, eu não sei... Intelectualmente talvez esse Cristo não estivesse integrado na sua fé. Mas houve ali um encontro. Isto é o mistério do encontro. E o mistério do encontro, que é o mistério da fé, não pode ser explicado. E isso continuará a ser mistério. Porque é que tantos milhares deram a vida por esse Cristo!

Num seu artigo fala do livro como um protesto contra a imagem de Deus-juiz…
Naturalmente Deus é Pai, mas como o Papa Francisco tem referido, e acho que muito bem, Deus é Pai e Mãe, ou seja, Deus é Pai, mas com sentimentos maternais.

Heinrich Fromm, no seu livro “A Arte de Amar”, fazia a distinção entre o amor de Pai e o amor de Mãe. O amor de Pai exige sempre alguma coisa em troca. O amor de mãe é aquele amor que não exige nada em troca. Não sei se será bem assim, mas ele definia isto assim.

Eu acho que o Deus Pai, que foi naturalmente transmitido aos japoneses, eles sentiam-no como um juiz. Um juiz que estava ali – eles sentiam-no, não quer dizer que fosse – sentiam que estava ali para apontar as suas faltas.

O Japão no século XVI era um país miserável, feudal, a esmagadora maioria da população vivia na miséria. E o que eles necessitavam era como que o instinto maternal que os amparasse, que os acompanhasse, que lhes perdoasse as faltas. “Eu cometi um pecado, mas vem esse Deus com um instinto maternal que me perdoa”. O que eles necessitavam era disso, precisamente. A “conversão” do Rodrigues tem a ver precisamente com essa passagem da imagem de Deus Pai para o Deus de compaixão maternal. Aliás, é um Cristo que Shusaku Endo introduz nas suas obras desde “Obaka San, o Idiota Maravilhoso” – que ao que parece foi traduzido no Brasil, mas eu não li nessa tradução –, mas já ele tinha começado aí precisamente a estruturar esse Cristo, que depois, no Silêncio, está mais fortemente estruturado, e depois acaba por ser também, numa outra dimensão, mais bem estruturado nas suas três obras que referi à pouco da sua cristologia, e também no “Samurai”.

Quais são as características deste Cristo? É um Cristo que tem fundamentalmente as características de ser débil, não é um Cristo constantiniano, porque esse Cristo triunfalista já não atrai, nem sequer atrai na nossa época, portanto era um Cristo não triunfalista, mas um Cristo débil. Um Cristo que não está longe, perdido na transcendência, mas um Cristo que entra no lodo da nossa vida, um Cristo que está na trivialidade da nossa vida, como nosso companheiro, e é um Cristo que perdoa as nossas falhas, os nossos pecados, as nossas faltas, por muito graves que elas sejam, como uma mãe que abraça. E o japonês necessitava desse afecto. Todos nós necessitamos. Uma mãe que perdoasse as suas faltas. Principalmente esses que pisavam a imagem.

A pergunta que fazia Shusaku Endo, antes de escrever esse livro, quando viu a fumie no museu, em Nagasaki, era “Se eu tivesse vivido nessa altura, não teria eu também pisado a imagem?” Ele dizia que certamente que um preguiçoso como ele teria pisado a imagem. Depois, perguntava, que tipo de pessoas eram essas que tinham pisado a imagem? E uma outra pergunta: O que terão sentido ao pisar a imagem?

Ele tinha estas três perguntas em mente quando viu a fumie. Foi aí que ele pensou que tinha de escrever um romance sobre isto.

Portanto o Cristo é este Cristo destas três dimensões, e uma dessas dimensões é esse da compaixão maternal.

Afinal há uma grande carga de Cristianismo em vários dos livros de Endo. Como é que isto é recebido num Japão em que só 1% da população é cristã? Se um dos nossos grandes autores de referência escrevesse livros com uma forte componente hindu, dificilmente teria grande popularidade...
Ele é muito admirado no Japão, é muito famoso. Fez muitos programas na televisão.

Os romances dele são muito densos, muito dramáticos, normalmente muito intensos. Então ele precisava de algo que contrabalançasse com a intensidade dos seus romances e começou a fazer uns programas na televisão, o professor Korian - Korian Sensei. Escreveu muitos livros também sobre essa personagem, que são livros cómicos.

Mas a partir desses programas que ele fez na televisão, passou a ser famosíssimo em todo o Japão. Portanto é muito famoso no Japão. Poucas pessoas não o conhecerão, não terão lido algum livro dele. Agora, as pessoas quando lêem um livro dele, se não estudarem a teologia, acaba por ser um romance que se lê assim, superficialmente. Eu quando li “Silêncio” da primeira vez, era muito dramático, mas pronto, não aprofundei. Ou, como já referi há pouco, quando li “Uma Vida de Jesus” não fique muito contente, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano, próximo de mim.

Ele é muito admirado, e isto é um aspecto muito positivo para o Cristianismo no Japão.

E que tem dado frutos, em termos práticos?
Sim. Eu conheci alguns fiéis, na paróquia onde estive, que decidiram ser cristãos a partir da leitura do livro de Shusaku Endo.

Em vida teve esse reconhecimento?
Sim. Teve até uma audiência com o Papa Paulo VI, que lhe dizia para continuar, por favor, o seu trabalho de evangelização no Japão. Não foi uma audiência privada, foi uma audiência geral, há fotografias.

Mas mesmo no Japão ele foi reconhecido mais tarde, não no tempo. Na altura da publicação de “Silêncio” houve algumas vozes discordantes. Houve ali, quanto a mim, uma interpretação incorrecta da mensagem que ele quis transmitir. Mas hoje é reconhecido pela hierarquia da Igreja.

Haverá o perigo, por assim dizer, de quem ver o filme, ou ler o livro, sem esse conhecimento todo, ser levado ao engano, ter uma ideia diferente daquilo que ele está a tentar transmitir. Que conselhos deixa a quem vai ver o filme pela primeira vez?
Que não tire conclusões precipitadas, que reflicta. Porque o livro deve levar-nos a reflectir.

Depois de fazer este estudo sobre Shusaku Endo, li “Silêncio” muitas vezes, tinha que ler, e ainda hoje continuo a reflectir sobre “Silêncio” e sobre a mensagem do “Silêncio”, porque se nós vamos ver o filme – principalmente ver o filme – e vemos o Rodrigues a pisar a imagem, a apostatar, e se chegamos à conclusão que ele apostatou, por isso é um fraco, o outro não apostatou, por isso é um forte, isto é uma precipitação.

Se nós analisarmos a apostasia de Rodrigues como um acto de compaixão para com os cristãos que estão a passar pelo martírio, para os libertar, não é um incorrecto pensar assim, é correcto. Ele decidiu apostatar para salvar os cristãos que estavam a ser martirizados, porque as autoridades tinham dito que se ele apostatasse, mesmo que fosse um pró-forma – porque eles queriam um padre, para dar o exemplo – seria libertado e os cristãos que estavam a sofrer seriam libertados. Por isso é que o próprio inquisidor lhe dizia que ele estava a fazer com que os japoneses sofram, través da tua teimosia, de não quereres apostatar.

Portanto, se nós virmos que ele apostatou por compaixão, aí está, por compaixão por aqueles que estão a sofrer, é uma interpretação correcta. Se a pessoa quiser aprofundar mais, e deve aprofundar mais, deve reflectir o que significou essa apostasia, o que é que ele apostatou, e porque é que ele, depois de ter apostatado, diz que a instituição e os seus irmãos jesuítas irão condená-lo, mas que ele continua a sentir-se o último padre no Japão, porque a partir do momento em que apostatou começou a amar Cristo de uma forma diferente, mas de uma forma mais intensa.

Se nós reflectirmos sobre o significado de tudo isto, então isso levar-nos-á muito longe. O que eu gostaria, de facto, era que todos nós cristãos reflectíssemos a partir daí, sem tomar decisões precipitadas, sem conclusões precipitadas, porque se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície.

Qual é a relevância da personagem Kichigiro?
Kichigiro é uma das personagens mais importantes do livro. Ele representa, de forma geral, Judas. Shusaku Endo colocou ali o Kichigiro para tentar provar que Jesus também salvou Judas. Ele tinha esse problema, da salvação de Judas.

E porquê? Porque o próprio Shusaku Endo sentia em si remorsos por ter traído pelo menos duas vezes a sua mãe. Quando ele estava na Manchuria o pai levava-o e ao seu irmão a passearem no parque, e a mãe ficava em casa, a trabalhar. Aos 10 anos ele apercebeu-se que o pai os levava a passear no parque para se encontrar com uma mulher.

Então o pequeno Shusaku pensou: “Se vou dizer à minha mãe, vou trair o meu pai, se não digo, estou a trair a minha mãe”. Então ele vivia naquele dilema e acabou por não contar nada à sua mãe e sentiu que traiu a sua mãe.

Tinha esse sentimento de traição, assim como tinha ao seu cão, “Negro”, que ele tinha na Manchuria, que era o seu confidente, com quem conversava precisamente sobre esses problemas. Estamos a falar de uma criança de dez anos...

E quando ele deixou a Manchuria com a sua mãe, o cão foi a correr atrás do carro, mas depois cansou-se e teve de parar, por isso ele sentiu também esse sentimento de traição em relação ao cão.

Em relação à mãe, voltou a ter um sentimento de traição quando, já de volta ao Japão, ele foi viver com o seu pai, que entretanto tinha contraído segundas núpcias. E mais uma vez depois de a sua mãe morrer, numa altura em que ele não estava em casa.

Tudo isto fez com que ele se identificasse muito com judas, com aquele que trai, e ele sentia que se Judas não fosse salvo, isso significaria que havia uma altura em que a graça não tinha sido suficiente para o pecado, ao contrário do que diz na Bíblia “onde abundou o pecado, superabundou a Graça”, por isso é que ele sentia que era necessário que Jesus tivesse salvo judas e Kichigiro representa isso.

No fim do livro Kichigiro e Rodrigues passam a viver juntos, em comunidade, o que representa não só a reabilitação de Kichigiro, como também “conversão” de Rodrigues a este Cristo “japonês”.

"Shusaku Endo may have loved Christ, but he wasn’t fond of Christians"

This is a full transcript, in the original English, of my conversation with The Catholic Thing's Brad Miner on Martin Scorsese's "Silence". The news stories, in Portuguese, can be found here and here. My personal take on the film is here, also in Portuguese. Transcripts of my interview with  Jesuit Fr. José Maria Brito and with missionary and Shusaku Endo specialist Fr. Adelino Ascenso are also available, both in the original Portuguese.

Transcrição completa, no inglês original, da minha conversa com Brad Miner, do The Catholic Thing, sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese. As reportagens estão aqui e aqui. A minha visão pessoal sobre o filme pode ser lida aqui. Transcrições integrais das conversas com o padre jesuíta José Maria Brito e com o missionário e perito em Shusaku Endo padre Adelino Ascenso também estão disponíveis.


Some say this film is a justification for Apostasy. Is that something that you agree with?
Yes it is.

I wouldn't say that Martin Scorsese, particularly, is certain of that. I don't think he is out to take a particular position that apostasy is a virtue, but rather that he does not believe that martyrdom is a virtue. That martyrdom serves the cause of Christ.

So apostasy, as one character says, in the film and in the book, is actually an act of love. It is what Christ would do. And I think that, obviously, is belied by the history in which there were so many martyrs, in Japan and elsewhere, who did give up their lives for Christ, who felt that enduring in the faith, over the course of great suffering, was the way in which Christians manifested love of God.

You go so far as to cast doubt on the completeness of Endo’s conversion...
It’s a speculation on my part, but I do think that he may have loved Christ, but was not particularly fond of Christians. One of the themes of the book, and of the film, is that Japan is not a place in which Christianity flourishes. Or so Endo believed in the 1960's and certainly the interlocutors of the various Jesuit priests who are tortured and then apostatize, in the book and in the film. They call it a swamp, a fen, a place where Christianity couldn't flourish. Although it had, obviously, prior to the persecution that began and that didn't cease until the Meiji era, which was some 100 years or more after the events which take place in silence.

Imagem do filme de Shinoda
In the many reviews I have read, you are the only one who has mentioned Masahiro Shinoda’s 1971 “Chinmoku”. How do the two compare?
Well Scorsese’s film is more interesting and is cinematically more compelling. The cinematography is more advanced, as you would expect a film made some 50 years later. However, there are great similarities between the two, and Endo's story is there, the apostasy is certainly there.

I guess there is a sense, in the earlier film, made by Shinoda, that the apostasy is perhaps more superficial than comes across in Scorsese’s film. Shinoda's film is darker, visually, but it is essentially the same story. I think both directors did justice to Endo and his vision.

And the acting in the earlier film is strange, in that the man who plays Sebastião Rodrigues does an awful lot of shouting. It is a peculiar thing. But as I also mention, what is remarkable is that the two American actors in the earlier film, both appear to speak Japanese, and that was a more interesting thing to watch in watching the film, because you really did get a sense that they really had, these two missionaries, immersed themselves in Japanese culture and understood, and were able to communicate with people in a way that doesn't really come across in the Scorsese film.

You also drew a comparison with the Joseph Conrad’s “Heart of Darkness”. Would you care to elaborate on that a bit?
I think many people know the story of the Joseph Conrad novel, of a man who is sent on a mission to try and find a fellow named Kurtz who has, as they say, gone native.

It takes place in Africa, and was, as many people now, remade by Francis Ford Coppola in his film Apocalypse Now, and set in Vietnam. The same character, Kurtz, is the man being sought. And again, it is very much a story about going native. Kurtz is an Ivory Trader in one film, and an American military commander in the other, he has become a kind of God-like figure to the people, to the natives in Africa, to the Montaignard tribesmen in Vietnam, and it is very much what is going on here, because going native is what happens to the characters in both Shinoda's film, in the book, of course, and in Scorcese's film.

Marlon Brando em "Apocalypse Now"
I think it is simply a carrying forward of this idea that Japan is a swamp, that there were times when a westerner goes into a situation trying to understand the people, and they end up kind of overwhelming him. He no longer wishes to be someone who imposes this foreign culture on the people he finds and the country he has come to serve.

In “Heart of Darkness” Kurtz writes letters back and forth to an organization Conrad calls the International Society for the Suppression of Savage Customs. Well, that is exactly, really, what the Jesuits have gone to Japan to do. And either you believe that that is valid, because they are bringing not only a series of new customs to replace the savage ones, but they are bringing the one true God into the understanding of people [or you don’t]. And I think that there is an anti-imperialist sense both in Conrad and in Endo and finally now, in Scorsese.

But when you say Endo must have been impressed by this concept of the Society for the Suppression of Savage Customs, do you know for a fact that he may have been influenced by it?
I do not know that for a fact, it is speculation.

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