quarta-feira, 26 de setembro de 2018

China - Longa marcha rumo à unidade

O acordo entre a China e a Santa Sé continua a dar que falar. Hoje o Papa escreveu uma longa mensagem ao povo chinês, apelando à reconciliação e pedindo aos chineses que sejam bons cidadãos.

O padre Peter Stilwell, que conhece bem a realidade chinesa, diz que será muito difícil unir a Igreja chinesa. É um projecto para longos anos, considera.

Já o Governo chinês diz que quer “sinceramente” avançar no diálogo com Roma.

Ontem, no avião de regresso dos bálticos, o Papa falou sobre a questão dos abusos e garantiu que nunca assinou qualquer indulto após uma condenação.

O que é que sonha para os seus filhos? Preocupa-se que tenham uma educação que abra portas para uma vida de sucesso, ou que tenham uma educação de valores sólidos cristãos? Randall Smith escreve sobre o trabalho, no artigo desta semana do The Catholic Thing.

O Valor do Trabalho

Randall Smith
“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,
Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?” (Tiago 2, 1-4)

Na semana passada assistimos à humilhação pública do ator Geoffrey Owens, ex-estrela do “Cosby Show”. Owens, que desempenhava o papel do genro de Cosby no programa, viu serem publicadas fotografias suas a empacotar compras no supermercado onde trabalha atualmente. Quando as fotografias se tornaram virais foi inundado com comentários insultuosos.

Mas outros saíram em sua defesa. O antigo jogador de futebol americano, e agora actor, Terry Crews, escreveu no Twitter: “Eu trabalhei em limpezas já depois de ter jogado. Se fosse preciso, voltava a fazê-lo. Não há qualquer vergonha em fazer trabalho honesto.”

As reacções iniciais às fotografias sugerem, porém, que muitas pessoas julgam o valor do trabalho de acordo com o dinheiro que rende. Segundo esta visão, a prostituição de luxo vale mais do que limpar quartos num hotel.

No “Laborem Exercens”, a sua encíclica sobre o trabalho humano, o Papa João Paulo II critica a ideia, comum no mundo antigo, de que o trabalho físico é indigno de homens livres, sendo por isso reservado aos escravos. O Cristianismo introduziu uma mudança fundamental a esta perspectiva, porque Cristo, Deus incarnado, passou “a maior parte dos anos da vida sobre a terra junto de um banco de carpinteiro, dedicando-se ao trabalho manual.”

“Em tal concepção quase desaparece o próprio fundamento da antiga diferenciação dos homens em grupos, segundo o género de trabalho que eles faziam”, escreve o Papa. “Em última análise, a finalidade do trabalho, de todo e qualquer trabalho realizado pelo homem — ainda que seja o trabalho mais humilde de um ‘serviço’ e o mais monótono na escala do modo comum de apreciação e até o mais marginalizador — permanece sempre o mesmo homem.”

Seria de esperar que os católicos se distinguissem por abraçar esta visão da nobreza do trabalho bom e honesto. Mas será assim? Quantos pais católicos sentem orgulho quando os seus filhos ou filhas aceitam empregos de salário baixo? Quantos não preferiam que o seu filho ou filha fosse um executivo bem remunerado em vez de professor num liceu católico?

Quando eu era novo o estereótipo do católico era operário. Agora parece que muitos valorizam tanto os trabalhos de executivo como o meu pai, que era um típico protestante anglo-saxónico.

Quantos pais católicos não preferem enviar os seus filhos para as universidades de topo em vez de uma escola católica qualquer, porque querem tanto ver os seus filhos a ter “sucesso” segundo os padrões normais de sucesso financeiro e estatuto social?

Por mim, todas as universidades católicas obrigariam os seus alunos a ter formação em alvenaria ou canalização. Não porque acho que deviam todos tornar-se canalizadores ou trabalhar nas obras, mas simplesmente porque todos os alunos tirariam proveito em trabalhar com materiais reais, em vez de simplesmente mudar imagens de um lado para o outro em realidades “virtuais”. 

Para além disso, os construtores e os canalizadores são cidadãos desta democracia e também merecem todos os benefícios de uma educação católica que respeite a sua vocação. Como é que os católicos deixaram que a cultura protestante os convencesse de que o objectivo de uma educação católica em artes liberais serve apenas para preparar futuros executivos?

Geoffrey Owens - nada de que se envergonhar
Ontem fui com a minha mulher ao sapateiro local. O homem não só domina a sua profissão, como é honesto. Consegue arranjar praticamente tudo, incluindo carteiras ou fivelas de cabedal, e não hesita em avisar se algo não vai ficar tão bem como queremos. É um homem que fornece valor real.

Podia dizer o mesmo sobre o nosso mecânico. Os advogados caros da universidade onde trabalho só parecem dar conselhos maus, mas um mecânico honesto e capaz é uma dádiva do céu. O meu mecânico não só consegue arranjar praticamente tudo, como o faz de forma honesta. A primeira vez que o procurei foi porque um limpa-vidros tinha enlouquecido. Nas outras oficinas tinham-me dito que seria preciso mudar o mecanismo inteiro, e que custaria mais de 400 dólares. Mas o Jim desmontou-o e apontou para uma bucha partida. “Quanto?” perguntei. “Se conseguirmos encontrar uma igual, cerca de um dólar e meio”, respondeu. Noutra ocasião arranjou o meu carro na véspera do meu casamento. É o meu herói.

Temos ainda um homem que arranja coisas cá por casa. Nunca deixo de me espantar com todas as coisas de que ele é capaz. Tem um valor inestimável e já nos poupou centenas de dólares em reparações. Provavelmente até salvou a casa mais do que uma vez. Também ele é o meu herói.

Recentemente um escritor católico expressou preocupação pelo futuro do trabalho, dizendo que “alguns especialistas até prevêem que dentro em breve todo o trabalho de que precisamos será feito por uma pequena elite cognitiva, em colaboração com máquinas geniais”. Serão estes os mesmos especialistas que previram que por esta altura estaríamos todos a morrer à fome por causa da explosão demográfica, e que seríamos substituídos por computadores inteligentes?

Não acreditem em nada disso. Há trabalhos que simplesmente não podem ser transferidos para países em desenvolvimento ou dados a um robot. Tomar conta do seu bebé, por exemplo, ou assentar tijolos para fazer uma parede. Arranjar os seus canos ou ainda instalar uma tomada em sua casa. Mais uma? Fazer a cama no seu quarto de hotel. Todos os executivos do mundo podem ser substituídos antes de substituirmos as pessoas que fazem esses trabalhos.

Pensem por momentos em todas as pessoas que fazem esses trabalhos – trabalhos que fornecem valor real para as pessoas, empregos que melhoram tanto a sua qualidade de vida – e dê graças a Deus.

As pessoas dizem para sermos como Cristo. Muito bem. Ele começou como carpinteiro. Começemos, então, em casa. Ou melhor, no trabalho.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Sintonia sino-latina e Papa báltico

Fiéis aguardam o Papa na Letónia
O Papa está a visitar os países bálticos. Depois de uma passagem pela Lituânia, encontra-se agora na Letónia e vai amanhã para a Estónia. Na Letónia esteve numa cerimónia ecuménica, em que disse que sim, os tempos são difíceis, mas se não fossem não seriam para nós. Depois foi para um santuário mariano onde falou dos excluídos, com claras indiretas para o mundo ocidental.

A outra grande notícia do fim-de-semana é o acordo entre Roma e a China. Não se sabem os detalhes, apenas que existe um acordo e que este é o início e não o fim de um processo. É uma novidade que tem tido os seus críticos, mas cuja importância não pode ser desvalorizada e que é enquadrada aqui pelo padre Peter Stilwell, que vive e trabalha em Macau.

Uma aparente disputa de terrenos deixou uma comunidade em Moçambique sem igreja. Conheça aqui a história e vejas as fotografias da igreja antes e depois do incêndio. Muito triste.

E também na Sexta-feira passada o Papa Francisco aceitou a resignação de mais dois bispos chilenos por causa da crise de encobrimento de abusos sexuais naquele país.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Não há pão para Malukkal

Freiras enfurecidas
Mais um bispo suspenso por abusos sexuais. Desta vez é na Índia e a vítima é uma freira. O bispo Franco Malukkal nega.

O Vaticano continua a tentar colocar-se na linha da frente da prevenção de abusos e anunciou hoje a realização de um mestrado sobre proteção de menores, em Roma.

Um missionário italiano foi raptado por jihadistas no Níger, e na Nigéria o Boko Haram ameaça matar a jovem que foi raptada em fevereiro e que não foi libertada por que se recusa a converter ao Islão.

Quem explora ou rejeita migrantes e refugiados acabará por “prestar contas” a Deus, garante o Papa.

Anthony Esolen constrói aqui um texto muito forte, e interessante, com base na obra clássica “O Paraíso Perdido” de John Milton, em que pergunta se os padres que abusam de crianças acreditam ou não em Deus e pede que venha rapidamente um “novo Samuel” para limpar a casa.

E deixo-vos ainda o convite para irem a Cascais, este fim-de-semana, ao Family Land, organizado pela Associação das Famílias Numerosas. É no hipódromo, promete diversão para toda a família e os bilhetes estão à venda na Blue Ticket, ou então no recinto, no próprio dia. As portas abrem às 10 e encerram às 19.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quando o Padre se Torna Ateu

Anthony Esolen
Quando John Milton, no seu poema épico “Paraíso Perdido”, identifica e descreve os piores dos anjos caídos, diz-nos em que parte do mundo mediterrânico e do Levante eles se estabeleceram, quais falsos deuses, para serem adorados. Quanto mais perto de Sião, pior o demónio. Nesse sentido Moloch, que é o primeiro a ser referido, é o pior de todos, depois de Satanás e Belzebub.

Não bastava que fosse adorado pelos vizinhos amonitas:

Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egregio
(Salomão, o mais sábio d’entre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinom o vale ameno
Que ficou desde então, sob outro nome
De Tofete e Geena, emblema do Orco.[1]

Consegue imaginar algo pior do que seduzir o construtor do templo de Deus, Rei Salomão, a construir um templo para si, colado ao verdadeiro? Pode-se estar mais próximo que isso?

Sim, pode. É aí que Milton quer chegar. O último demónio que ele nomeia, supostamente o oposto do sanguinário e guerreiro Moloch, é o lascivo, efeminado Belial, amante do vício pelo vício.

E onde é que Belial é adorado? A resposta é preocupante:

Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais frequenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Eli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
                                
Belial não precisa que lhe construam templos ou altares. Ele já ali está, quando o padre se torna um verdadeiro ateu. Não que isso sirva de desculpa para os leigos, porque Belial também se instalou nas sedes de governo e nos costumes lascivos do povo:

Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram,
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial n’elas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos.

O vício específico de que disfrutam os filhos de Belial é perverso:

Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gaba quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Temos então de um lado Moloch, o devorador de crianças, brutal e sangrento, de templo encostado ao de Deus, e do outro lado o mal sexual e antinatural de Belial, que penetra tanto templos como cortes e que toma conta das ruas pela noite, determinando o estilo de vida das pessoas ou levando-as a esconder-se em casa, se puderem.

Moloch e Belial; infanticídio e sodomia; sangue derramado em vão e semente espalhada em vão; guerra pela guerra, lascívia pela lascívia; um deus da fertilidade que come a sua prole e um deus da esterilidade, cujo vício nem prole chega a conceder.

Como dizia o pregador, não há nada de novo debaixo do Sol.

As pessoas têm perguntado se é possível que os padres que tiveram relações sexuais com jovens, consensuais ou não, acreditavam em Deus. Eu tenho tentado recordar a capacidade ilimitada do homem para o fingimento e autoengano, para não falar de mera contradição. Mas talvez devêssemos olhar a questão de outra perspetiva. Milton não disse que Finéias e Hofni, filhos de Eli, eram ateus quando assumiram o seu cargo em Siló. Ele diz que eles se tornaram ateus.

Algumas pessoas perdem a sua fé em Deus por causa das tribulações que sofrem. Desesperam, sucumbindo à sensação de abandono. Outros perdem a fé em Deus por causa dos sucessos de que gozam. Presunçosos, são seduzidos pelo sentimento de invencibilidade. Qual é o caso do padre?

Não estou a estabelecer uma regra universal. Cada padre é um homem, como qualquer um de nós, e pode sofrer aquilo que qualquer um de nós sofre. Mas se perguntarmos quais as ameaças específicas para a fé dos padres, teremos de concluir que no nosso mundo elas vivem do lado do poder, do conforto e do prestígio, e não do lado da fraqueza, privação física e humilhação.

Isto não é uma acusação. Não estou a sugerir que os padres devam viver a pão e água, e que devem ser agredidos em via pública. Estou apenas a constatar um facto. Não é a perseguição que leva os nossos padres a perder a fé, é a complacência.

A Justa Ana com o Profeta Samuel
E o que acontece se perdem mesmo a fé? Mais uma vez, devemos ter o cuidado de recordar o enlear e as contradições do coração humano. Fugimos das verdades difíceis. Talvez o desgraçado cardeal McCarrick acreditasse que acreditava. Mas o que é que você faria se estivesse a tornar-se ateu e toda a sua vida tivesse sido orientada para uma só coisa, o ministério de Deus?

Não pode voltar à sua antiga profissão, porque não existe. Não pode vender os seus serviços, porque não existem. Não tem recursos para voltar à escola, mesmo que pudesse aguentar a vergonha. Não está preparado para trabalho físico, por isso as obras não são uma opção. Então fica quieto.

Se for sincero, reza, reza e mortifica-se, arranja um bom director espiritual e tenta sobreviver à tempestade. Se for fraco e insincero, deixa a sua fé enfraquecer cada vez mais enquanto tenta robustecer a sua imagem, convencendo-se de que é o arauto de uma nova fé, uma nova forma de crença. Só você sabe o que pertence verdadeiramente à fé e o que não pertence. Destrói. Tem ciúmes de pessoas que têm devoções que não o movem. Secretamente, regozija com o falhanço dos outros.

Segue o mundo, porque tem de seguir alguma coisa. Todos os seres humanos seguem uma bandeira, os ateus não são excepção. Mas o dia do pequeno Samuel está para chegar, e não será para si qualquer conforto. Senhor Deus, que seja em breve!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 16 de Setembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



[1] Na versão portuguesa baseei-me nesta edição, modernizando apenas alguma da ortografia

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Conversas metropolitanas

Hoje entrevistei o Metropolita Hilário, número dois da Igreja Ortodoxa da Rússia. Da longa conversa surgiram três textos. No primeiro ele fala sobre a importância de se preservar o Cristianismo na Europa, avisando que a Europa ocidental deve aprender com os erros cometidos na Rússia.

Num segundo texto ele fala sobre a necessidade de católicos e ortodoxos aprofundarem o diálogo, nomeadamente sobre questões como casamento e ruptura familiar. Mas ao mesmo tempo critica a Igreja Greco-Católica da Ucrânia, um espinho cravado na Igreja Russa há já muitos anos.

E por fim um texto muito mais virado para dentro, com o metropolita a criticar duramente o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, pondo a nu o conflito aberto que existe no seio da Igreja Ortodoxa.

O metropolita profere amanhã uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa, às 18h30, caso queiram ouvi-lo falar da relação entre a sua Igreja e os cristãos do Médio Oriente.


E aqui podem ler sobre como a Igreja de Angola está a atravessar um momento de grande entusiasmo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Monges mártires beatificados e bispos europeus com o Papa

Rogai por nós
Os bispos da Europa estão “completamente com o Papa”, diz D. Manuel Clemente, referindo-se à questão do combate aos abusos sexuais.

Ainda sobre o assunto dos abusos, publiquei na Renascença um artigo de opinião que me parece importante. O choque, horror e revolta são legítimos, mas há um dado importante a ter em conta: as directrizes nos EUA têm estado a funcionar. Isso não é um facto acessório!

O presidente da Conferência Episcopal da Hungria critica o processo que a União Europeia está a mover contra o seu país.

E uma excelente notícia, sobretudo nestes tempos de confusão e incerteza. Os monges de Tibhirine – sobre os quais foi feito o filme “Dos Deuses e dos Homens” – vão ser beatificados ainda este ano!

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Os sofrimentos da Igreja e novo vice-reitor da UCP

Novo vice-reitor da Universidade Católica
No contexto da crise de abusos sexuais na Igreja, o Papa recebeu hoje os principais líderes da Conferência Episcopal americana, embora não se saiba ainda que medidas saíram, ou sairão, da reunião. Mas rolou mais uma mitra, com um bispo acusado de abusos há vários anos a resignar e o Papa a autorizar uma investigação sobre as alegações.

Como se não bastasse tudo isto, o coro da Capela Sistina está também a ser investigado, mas desta feita por alegadas irregularidades financeiras.

Hoje, dia 13 de Setembro, D. António Marto recordou os “sofrimentos da Igreja”. Bem pode.

Com a nomeação de D. Tolentino Mendonça para Roma, ficaram vagos os cargos de vice-reitor da Universidade Católica e de director da Faculdade de Teologia da mesma universidade. O primeiro desses cargos foi hoje preenchido com a nomeação do padre José Manuel Pereira de Almeida.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Voltei de férias, posso-me ir embora outra vez?

Antes de ir de férias falei várias vezes do caso McCarrick, nos EUA. O que para muitos parecia ser apenas uma crise localizada nos EUA revelou-se, como eu já imaginava, uma crise para a Igreja Global que hoje levou o Papa a convocar todos os presidentes de Conferências Episcopais para uma cimeira sobre abusos, em Fevereiro.

Isto no mesmo dia em que o sucessor de McCarrick anunciou que vai a Roma discutir a sua resignação e um relatório na Alemanha, revelado pela imprensa, mostra que houve pelo menos 3.700 casos de abusos sexuais naquele país nas últimas sete décadas.

Neste momento os bispos americanos preparam-se para viajar para Roma para discutir estes assuntos mais directamente com o Papa também e o secretário pessoal de Bento XVI disse ontem, numa data apropriada, que os abusos são o 11 de Setembro da Igreja.

Por cá, os bispos continuam a confiar que as directrizes já aprovadas chegam para lidar com eventuais casos de abusos. Esperemos que tenham razão.

O tema dos abusos continua a merecer atenção por parte dos autores dos artigos do The Catholic Thing. Anthony Esolen dá um murro na mesa neste artigo e o padre Vaverek considera que o que está verdadeiramente em causa é uma crise de abuso de autoridade.

Temos também dois artigos do jovem Casey Chalk. No primeiro ele aconselha-nos a, no meio da tempestade, rezar mais e com mais força e, no de hoje, adverte para o perigo de, no meio dos pedidos de responsabilização, não “protestantizar” a Igreja.

Não Protestantizem a Igreja

Casey Chalk
O actual escândalo de abusos sexuais está a motivar muitos comentários sobre a estrutura do Catolicismo. Num artigo no “The Federalist”, Robert Tracinski afirma que um modelo baseado na ideia de certos homens estarem dotados de uma autoridade de origem divina “entra em conflito com a natureza humana” porque o Catolicismo exige que rejeitemos a possibilidade de “ajuizar por nós mesmos”. Outro artigo da Angela Bonavoglia argumenta que “aqueles que conduzem a obra de Cristo devem ser… mulheres, homens, homossexuais, heterossexuais, trans, jovens e velhos. Devem reflectir a visão dos reformadores de um ‘sacerdócio de todos os crentes’”.

Afirmações destas reflectem nada menos que uma exigência para que a Igreja Católica se protestantize, e têm as suas raízes na afirmação da Reforma de que todos os cristãos possuem a autoridade para determinar a verdade sobre Deus e sobre a Sua Igreja por si.

Martinho Lutero atacou a hierarquia da Igreja Católica com base no sacerdócio universal. No seu livro “Do Cativeiro Babilónico da Igreja”, explica-o da seguinte maneira:

Então, são forçados a admitir que somos todos igualmente sacerdotes, uma vez que muitos de nós somos baptizados, e por isso verdadeiramente o somos; enquanto a eles é confiado apenas o Ministério (ministerium) pelo nosso consentimento (nostro consensu)? Se eles reconhecessem isto saberiam que não têm direito a exercer sobre nós poder (ius imperii, fora daquele que lhes foi confiado) excepto na medida em que nós o tenhamos concedido.

De igual forma, Calvino viu no sacerdócio universal de todos os crentes uma forma de minar a hierarquia católica, apelidando o sacerdócio de “uma infâmia nefasta e blasfémia incomportável, tanto contra Cristo como contra o sacrifício que fez por nós através da sua morte na cruz”. Ele pôs em prática as ideias de Lutero, formulando uma eclesiologia em que os membros da Igreja elegem líderes leigos para governarem os seus pares.

A ideia do “sacerdócio universal de todos os crentes” tem, de facto, raízes bíblicas. É por isso que os Reformadores apelam a ela. São Pedro convida a Igreja a aceitar este chamamento. “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2, 5-9).

O próprio Catecismo da Igreja Católica afirma que: “Toda a comunidade dos crentes, como tal, é uma comunidade sacerdotal. Os fiéis exercem o seu sacerdócio baptismal através da participação, cada qual segundo a sua vocação própria, na missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei. É pelos sacramentos do Baptismo e da Confirmação que os fiéis são «consagrados para serem [...] um sacerdócio santo»”. (CIC 1546)

Porém, esta ideia deve ser aceite à luz do reconhecimento de que Deus, de facto, instalou líderes para o seu povo, cuja autoridade não pode simplesmente ser negada através da referência ao sacerdócio universal. Há até uma passagem do Antigo Testamento que fornece um exemplo pertinente, impressionantemente semelhante à linguagem invocada pela teologia protestante e pelos católicos anti-episcopais:

E Coré, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben. E levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembleia, homens de posição.
E congregaram-se contra Moisés e contra Arão, e disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor? (Números 16, 1-3)

Moisés, de Miguel Ângelo
Coré e a sua laia argumentam que Deus fez de todo Israel um povo santo e que por isso Moisés e Aarão não têm qualquer direito a exercer autoridade sobre eles. Trata-se de uma autêntica rebelião, não apenas contra os líderes divinamente instituídos, mas contra o próprio Senhor. Moisés diz mesmo aos rebeldes: “Assim tu e todo o teu grupo estais contra o Senhor” (Números 16, 11)

A resposta de Deus a esta traição é rápida e dramática:

E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava debaixo deles se fendeu.
E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram vivos ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação. (Números 16:31-33)

Eis o que acontece a quem procura destruir as instituições estabelecidas pelo próprio Deus, são consumidos, segundo as escrituras.

A liderança da Igreja Católica ocupa uma posição de autoridade divinamente ordenada, tal como a de Moisés. Jesus, aliás, fala mesmo dos líderes judeus como estando sentados “sob a cátedra de Moisés”, o que lhes confere a autoridade de governarem o Povo de Deus.

Os nossos bispos (e o nosso Papa), não obstante os erros, juízos errados e pecados que possam ter cometido, continuam firmemente sentados nessa cátedra. Em várias passagens do Novo Testamento lemos que os líderes da Igreja gozam de autoridade apostólica. São Paulo, por exemplo, fala do episcopado como sendo conferido pela imposição das mãos (1 Timóteo 1,6 e 4,14).

Reconhecer a mão de Deus na contínua liderança da Igreja não é, claro, um cheque em branco para os nossos líderes – eles serão julgados por Deus pelos seus pecados e nós temos todo o direito em exigir que assumam os seus erros e que sejam disciplinados quando esses erros forem particularmente gravosos. Por vezes há até bispos e cardeais que devem ser removidos – não por nós (lamento Lutero), mas por outros que tenham autoridade para tal.

Sejam quais forem as medidas tomadas contra os líderes eclesiais que nos falharam, talvez um bom conselho neste tempo de crise seja aquele dado por Jesus logo depois de se ter referido à “cátedra de Moisés”. Nosso Senhor ordena: “Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” (Mateus 23,3).


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 9 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Abuso de Autoridade: A Crise Mais Profunda

Pe. Timothy Vaverek
São incontáveis as vozes que se erguem entre bispos, padres e leigos, pedindo uma investigação credível sobre o escândalo de abusos sexuais e encobrimentos espoletados pelo caso McCarrick, bem como a crise de moral sexual, sobretudo relacionada com actividade homossexual entre o clero. São assuntos que merecem uma análise pormenorizada, sobretudo à luz do Novo Paradigma moral promovida por altos clérigos, que abre as portas à contracepção, actividade homossexual e extraconjugal e recasamento.

As incríveis alegações do arcebispo Viganó, porém, apontam-nos para uma crise muito mais profunda do que pecados sexuais e falsa teologia: o abuso da autoridade pastoral, tanto por parte dos clérigos abusadores como dos bispos que não protegem o seu rebanho.

Dizer que o abuso por parte de clero tem a ver mais com autoridade do que com luxúria não exclui o papel desempenhado pela sexualidade, mas liga essa gratificação ao exercício de poder. Para o clero a autoridade está enraizada no seu ofício sacramental de pastores do rebanho de Jesus. Padres predadores e os bispos que não defenderam as vítimas são, por isso, culpados não só de falhar no seu ministério, mas de abuso de uma relação espiritual. São pais e irmãos, imagens de Cristo, que violaram a confiança que o povo de Deus, procurando apoio e protecção, depositou neles.

É importante saber se os abusadores e os padres agiram de forma pecaminosa, isto é, com inteira liberdade e conhecimento. Mas o mais importante é que as suas acções provocaram feridas graves nos membros do Corpo de Cristo. A justiça e a caridade exigem que esses danos sejam investigados e remediados, na medida do possível, e não apenas perdoados. Isto pode implicar a remoção do ministério por parte dos culpados.

Em muitos casos os abusos por parte de padres e as falhas episcopais não foram casos isolados, que se podem ultrapassar dizendo “todos pecamos e cometemos erros”. Estamos, antes, a falar de padrões de comportamento destrutivo que se tinham tornado segunda natureza para os abusadores ou para o bispo. Chamamos a isso vícios. São disposições profundamente enraizadas para contínuo mau comportamento que indicam um estado de corrupção ou disfunção.

Os abusadores repetentes ou não querem, ou não podem, alterar o comportamento de forma a abdicar do poder que usam para se gratificarem a si mesmos. Assim, até que as suas disposições corruptas mudem, não tomarão medidas para restaurar a justiça e a caridade. Poderão até vociferar actos de contrição e de emenda de vida, mas só o fazem para recuperar o seu estatuto.

É por isso que o papel do bispo é tão importante. Cabe-lhe a ele encontrar uma forma efectiva de providenciar um final justo e caritativo para a vítima e, neste contexto, também para o abusador. Foi aqui que demasiados bispos revelaram a sua própria corrupção ou disfunção, agravando as feridas já abertas pelo mau uso da sua autoridade episcopal.

Alguns dos bispos que falharam repetidamente afirmam que, há décadas, tratavam o abuso apenas como um pecado. Mas isso não é verdade. Se o tivessem tratado como um pecado teriam exigido que o culpado reconhecesse o seu erro e fizesse restituição à vítima (financeiramente e de outras formas), bem como penitência, e que emendasse a vida. Teriam então percebido que a repetição não é era um “lapso”, mas sinal de um hábito vicioso, compulsivo ou desejado. Tanto num caso como no outro, a preocupação pelo bem-estar dos fiéis e do padre teria impedido novas nomeações.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo
Outros bispos dizem que, mais recentemente, tratavam os abusos como se fossem uma doença. Não é provável. Os planos de tratamento tendem a exigir supervisão e cuidados continuados. Em casos de abusos repetidos, frequentemente os bispos não garantiram que esses passos fossem seguidos de forma rigorosa.

Um número bem maior de bispos falhou ao não cultivar um ambiente em que o clero ou os leigos os pudessem procurar para partilhar preocupações. É verdade que isto mudou depois de 2002, de forma que as alegações de abusos sobre menores foram recebidos. Mas salvo raras excepções, como na diocese de Tyler, não existem políticas em curso que obriguem a relatar outras violações da fé e da moral cristã por parte de clero, tal como falsos ensinamentos, relações sexuais com homens ou mulheres, abusos financeiros na paróquia ou em relação a paroquianos individuais, vício de álcool ou pornografia, etc..

Deve-se reconhecer, portanto, que os bispos diocesanos ou do Vaticano que repetidamente falharam para com as vítimas das diversas formas de abusos por parte do clero, revelaram níveis de corrupção ou disfunção que, em si, constituem abuso de poder. Estes falhanços são muito mais que meros erros. É um comportamento que se tornou segunda natureza para estes bispos e para o exercício administrativo do seu cargo.

Durante as décadas desta crise de abusos, nem os bispos nem a Santa Sé têm prestado contas de forma transparente sobre bispos corruptos ou disfuncionais. Alguns dizem que falta autoridade aos bispos neste campo, mas nada os impede de apresentar orientações a Roma. Também esta passividade representa um abuso de poder que nega ao povo de Deus a justiça e a caridade. Cria uma situação tal que torna difícil até a uma investigação do Vaticano ser considerada credível.

No escândalo McCarrick, os bispos de Newark e de Metuchen conheciam as alegações e esconderam as indemnizações que já tinham sido pagas. Mas o Cardeal Wuerl insiste que ninguém o tinha avisado – o que, a ser verdade, significa que o Vaticano também se manteve no silêncio. Se assim for, o seu encobrimento impediu que se procurassem e ajudassem outros seminaristas e padres abusados pelo agora ex-cardeal. Também permitiu que McCarrick continuasse a confraternizar com seminaristas, já depois de reformado. Por isso, e de forma indirecta, a versão do cardeal Wuerl dá a entender um abuso de poder por parte dos bispos americanos e em Roma tão preocupante como as acusações feitas por Viganò.

Os abusadores como McCarrick e a crise de moral sexual associada ao Novo Paradigma, bem como os bispos que permitiram estes e outros ultrajes contra o povo de Deus, devem ser investigados de forma credível. As alegações feitas por Wuerl e por Viganò exigem que examinemos os núncios e a cúria, mas devemos ir mais longe. Para confrontar o abuso de autoridade pastoral, devemos estabelecer formas eficientes de denunciar, investigar e corrigir violações da fé e da moral por parte de funcionários da Igreja, desde voluntários a bispos. A justiça e a caridade exigem que assim seja. E Jesus também o exige, ele que é simultaneamente a maior vítima e o último juiz de todos estes abusos.


O padre Timothy V. Vaverek, STD, é sacerdote na Diocese de Austin desde 1985 e actualmente tem a seu cargo as paróquias de Gatesville e Hamilton. Os seus estudos doutorais foram na área de Dogmática, com enfoque em Eclesiologia, Ministério Apostólico, Newman e Ecumenismo.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018)

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