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quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Ditadura do Horror

Há meses que temos ouvido elogios à biografia do Cardeal Robert Sarah “Deus ou Nada”. E com razão. É um texto belíssimo. Uma longa conversa entre o jornalista francês Nicholas Diat e um homem belo e santo. Recorda com grande detalhe a sua infância em África; a santidade dos seus pais, da família e da aldeia e a profunda influência que os europeus que vieram evangelizar a Guiné tiveram sobre ele e sobre tantos outros.

Por estranho que pareça, fez-me lembrar o retrato igualmente gentil que Bento XVI pinta da sua infância numa aldeia bávara, permeada por festas católicas e uma fé comum, no seu livro “O Sal da Terra”. Lidos em conjunto – e se ainda não o fez, deve ler ambos – fornecem uma bela imagem da vida católica em ambientes muito diferentes, simultaneamente intensamente particular e transculturalmente universal.

Em ambas as figuras podemos ver que a bondade que encontraram na sua juventude não os cegou à realidade do pecado e do mal. Ratzinger sentiu-se repelido pelos esforços nazis de impor o culto do Volk no lugar das festas cristãs tradicionais. E Sarah teve a sua quota-parte de dificuldades com homens fortes e pequenos tiranos em África. Mas tanto num caso como no outro o facto de terem tido contacto bem cedo com o bem permitiu que enfrentassem – e avaliassem correctamente – o mal.

Essa sanidade básica faz com que seja ainda mais pertinente quando alguém como Sarah resume grande parte daquilo a que assistimos hoje, dizendo que “a destruição da vida humana já não é só um acto bárbaro, mas um sinal do progresso da civilização… Já não é uma forma de decadência, mas, antes, uma ditadura do horror, um genocídio programado de que são culpadas as potências ocidentais. Esta campanha incansável contra a vida é uma fase nova e definitiva de uma campanha incansável contra o plano de Deus.”

A semana passada disse coisas semelhantes no National Catholic Prayer Breakfast, em Washington. Trata-se de mais do que uma variação do famoso aviso de Bento XVI sobre a “ditadura do relativismo”, uma vez que aponta para algo que o mundo se esforça por não ver, ao mesmo tempo que se congratula por combater males selectivos. A Fundação Gates, por exemplo, gasta milhões em contraceptivos, alegadamente para promover a dignidade das mulheres. Mas Sarah questiona se o verdadeiro propósito não será eliminar africanos pobres. A promoção mundial do aborto e da eutanásia é, também ela, uma forma de insensibilidade mascarada de compaixão.

Mas não é só no estrangeiro. Nos Estados Unidos temos estado a tentar expor a Planned Parenthood como aquilo que é: o maior matadouro de crianças nascituras – por vezes vendendo os seus restos mortais – através de 300,000 abortos por ano. Trata-se do equivalente às melhores estimativas de civis mortos na guerra civil da Síria. Com a Síria assistimos à revolta internacional, mas os dados do aborto são só mais uma estatística, neste caso anual.

As organizações de socorro calculam que já morreram 14,000 crianças no conflito sírio. É horrível mas, fazendo as contas, são apenas algumas semanas de trabalho na Planned Parenthood.

Barack Obama acaba de visitar Hiroshima, recordando as duas bombas atómicas que os americanos largaram sobre o Japão e encorajando o mundo a nunca mais usar este tipo de armamento. Em Hiroshima e Nagasaki morreram 130,000 mil pessoas.

Mas vamos a mais números. A China relata 13 milhões de abortos por ano. Os peritos dizem, contudo, que muitos casos são escondidos por razões políticas e que o verdadeiro número pode ser o dobro. Todas as ofensas à vida humana interessam e os meros números nunca contam a história toda. Mas mesmo esse dado oficial significa que a China comunista é responsável (em muitos casos através de abortos forçados) por 100 vezes mais mortes por ano do que houve vítimas dos ataques nucleares ao Japão – cerca de metade dos mortos em batalha durante a II Guerra Mundial. Estamos a falar de dados anuais, todos os anos, durante décadas. Em todo o mundo, ao longo dos últimos trinta anos, houve provavelmente uns 1,2 mil milhões de abortos.

Nunca houve uma guerra, holocausto ou praga natural que se aproximasse sequer desta escala.

A “ditadura do horror” de Sarah mostra claramente como adoramos lamentar-nos de coisas de que é fácil não gostar, mas fazemos por não reparar nos massacres muito maiores que se passam diária e anualmente não só aqui e na China mas na Europa, na América Latina e na Ásia.

Cardeal Robert Sarah
Longe de tentar impedir que estas coisas continuem, as organizações internacionais como a ONU, a União Europeia e, infelizmente, o Governo Americano sub regno Obamae, estão activamente a promover o massacre moderno de inocentes sob o disfarce de um direito humano.

Recentemente o Papa Francisco sublinhou outro horror que até há muito pouco tempo era invisível: a tragédia de milhões de refugiados e migrantes – só esta semana dúzias de cadáveres de refugiados e migrantes que tentavam atravessar o Mediterrâneo deram à costa. Centenas de outros morreram só este ano a tentar fazer a travessia. Estas são verdadeiras tragédias humanas, que devem ser levadas a sério, sem que deixemos de recordar os outros massacres que o mundo prefere ignorar.

Sendo africano, o Cardeal Sarah repara nestas coisas e noutras ainda, que nos passam despercebidas. Muitas vezes é ignorado por essa mesma razão. Mas é difícil ignorar passagens como esta: “Os europeus não compreendem como os africanos ficam chocados com a falta de atenção que é dada aos idosos nos países ocidentais. Esta tendência para esconder e marginalizar a velhice é sinal de um egoísmo preocupante, de falta de coração ou, mais precisamente, de dureza de coração. Sim, as pessoas têm todo o conforto e o acompanhamento físico de que precisam. Mas falta-lhes o calor, a proximidade e o afecto humano dos seus parentes e amigos, que estão demasiado ocupados com as suas obrigações profissionais, tempos livres e férias.”

O desejo por conforto também está associado à dependência global pelo aborto e uma atracção crescente pela eutanásia. O cardeal Sarah foi educado de forma diferente: “Eu aprendi dos meus pais a dar. Estávamos habituados a receber visitas, o que me ensinou a importância da generosidade e da hospitalidade. Para os meus pais, e para todos os habitantes da minha aldeia, no acto de receber convidados estava implícita a ideia de que os queríamos agradar. A harmonia familiar pode ser um reflexo da harmonia celeste.”

Os valores da família podem ser pervertidos e transformados em falso tribalismo, diz ainda o Cardeal, mas a ausência de relações próximas poderá ser hoje o mais comum de todos os horrores, porque toca na raiz da nossa humanidade: “A batalha para preservar as raízes da humanidade é talvez o maior desafio que o nosso mundo enfrenta desde que foi criado”.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 28 de Maio de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Na Nigéria, mais 100 "real bodies" do Boko Haram

Forças Armadas dos Camarões
O Papa esteve esta manhã na audiência geral em Roma, mas ainda com o coração em África, lamentou as desigualdades que testemunhou e disse que a República Centro-Africana era o país que mais queria visitar.

Esta manhã os Camarões anunciaram terem morto 100 elementos do Boko Haram numa operação, libertando nada menos que 900 pessoas!

Em França continua a operação de “limpeza” depois dos ataques de Paris. Já foram encerradas quatro mesquitas e encontradas 330 armas, algumas das quais são consideradas de guerra.

Recentemente uma amiga perguntou-me se podia levar o meu filho a ver a exposição Real Bodies. Respondi que não e aqui explico porquê. Admito que a questão é debatível, deixe a sua opinião.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing. David Carlin pergunta qual será o Islão do futuro, argumentando que é urgente eliminar o Estado Islâmico antes de a maioria dos muçulmanos se convencerem que é esse o tipo de religião que tem sucesso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Freiras e jornalistas em tribunal

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Continua a saga das freiras que não são bem freiras que terão abusado psicologicamente de noviças que não são bem noviças, num convento que não é bem um convento. Hoje foram presentes a tribunal, juntamente com um padre que, esse pelo menos, ninguém parece duvidar que é padre.

O Papa prepara-se para ir a África numa viagem de alto risco. Hoje enviou uma vídeo-mensagem aos países que vai visitar, dizendo que vai em nome da paz, perdão e reconciliação. Quarta-feira Francisco parte para o Quénia, daí visita o Uganda e depois a muito instável República Centro-Africana.

Quando partir para África, já terá começado o julgamento do caso Vatileaks II. Entre os acusados estão dois jornalistas italianos que são acusados no Vaticano de um crime que em Itália não o é, o que levanta toda uma série de questões e levou a OSCE a pedir o arquivamento do seu processo.

Há um novo bispo em Portugal. Durante o fim-de-semana, o Papa nomeou o padre Nuno Almeida, de Fornos de Algodres, para auxiliar de Braga. Conheça-o melhor aqui.

Por fim, durante o fim-de-semana vários líderes religiosos e figuras da sociedade civil e política encontraram-se na Mesquita de Lisboa para rezar pela paz, na sequência dos atentados de Paris.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

“Problema do Cristianismo europeu é ter perdido a transcendência”

Transcrição integral da entrevista com Helena Vilaça sobre o colóquio “Da Evangelização de África à África Evangelizadora – Mediações Evangelizadoras em África e a Partir de África”. Notícia aqui.

Qual o objectivo do colóquio?
É reflectir sobre as diferentes modalidades da evangelização em África, desde os seus frágeis inícios até ao forte incremento verificado a partir do século XIX e deste até à actualidade pós-colonial, e globalizada, e tentar perceber a respectiva interacção com outros domínios da realidade africana.

Nós sabemos que desde os primeiros contactos que a presença europeia em África se fez acompanhar por campanhas missionárias assegurada num primeiro momento pelas ordens e congregações religiosas católicas, e essa acção missionária vai lentamente obtendo resultados que se traduzem de uma forma mais estável e institucionalizada nas dioceses que vão sendo criadas e instaladas. Isso é um indicador importante.

Este congresso tem um registo que é bastante histórico, até porque o que se tenciona é evidenciar o conjunto de produções e de pesquisas realizadas a partir dos arquivos missionários e será também um ponto de partida para ir à descoberta de arquivos que não foram ainda explorados e estabelecer, por exemplo, um protocolo entre as congregações religiosas e a academia, e a universidade. E quando digo a universidade não estou a pensar unicamente nos investigadores portugueses, o Brasil está a manifestar um grande interesse por este congresso e por toda a documentação que existe nesta área das missões.

Mas também, ao mesmo tempo, queremos perceber as transformações mais recentes que se estão a operar em África. Ao entrar no século XX apenas 10% de África era cristã, hoje podemos dizer que cerca de metade de África é cristã. Esse sucesso de expansão, curiosamente, resultou de muitos africanos convertidos se terem transformado em missionários.

O cristianismo é uma religião muito plástica, no sentido em que se adapta às culturas, o que não significa abdicar da ortodoxia do ponto de vista doutrinário, às vezes sim, mas grande parte das vezes não, mas do ponto de vista cultural e formal o Cristianismo é profundamente plástico e curiosamente um dos factores que contribuiu para isto foi a primeira guerra mundial e o retorno de muitos missionários à Europa durante esse período. Isso fez com que o Cristianismo africano crescesse e mais recentemente a forte expansão pentecostal e neopentecostal que se foi sentindo desde finais do século XX. Já desde o século XIX que a par das missões católicas, as mais antigas, houve trabalho missionário protestante.

Outro aspecto contemporâneo é que a missão europeia em África hoje encontrou novas estratégias, que reflectem o que a Europa e o Ocidente são. Estão menos centradas na evangelização do ponto de vista de anunciar a mensagem e mais em obras sociais enquadrando isso em ONGs. Muitos dos leigos que vão para África fazem um trabalho social, menos preocupados com a missionação. O que é interessante é que o que está a vir de África para cá é um espírito profundamente evangelizador. Muitos cristãos que vêm para a Europa, sejam católicos ou evangélicos, sentem que têm a obrigação de actuar num meio que está descristianizado.

Isto pode sentir-se no mundo católico, por exemplo nos movimentos carismáticos, mas também na presença de padres que têm vindo para cá e o seu trabalho em paróquias normais. Ao mesmo tempo temos as igrejas africanas, de língua portuguesa ou de língua inglesa, a Nigéria tem uma grande igreja evangélica, pentecostal, em Londres. Eles sentem a necessidade de contribuir para esta Europa que está secularizada.
Arcebispo John Sentamu, à esquerda,
número 2 da Igreja Anglicana

O Papa Francisco falou no perigo de se confundir a Igreja com uma ONG, precisamente. Essa nova dimensão da missão cristã ocidental enfraquece a mensagem?
Sem dúvida. No fundo esse tipo de estratégia reflecte aquilo que as próprias igrejas fizeram na Europa. Grande parte das igrejas na Europa, incluindo a católica, abdicaram de uma certa intervenção na esfera pública, no sentido de anunciar a mensagem claramente, cingindo-se ao trabalho social, que é fundamental, sem dúvida, mas em muitos sítios o discurso foi muito imanente. Um dos problemas do Cristianismo europeu é ter perdido a transcendência, ou ter abdicado de anunciar uma mensagem que tem a ver com a transcendência.

Sabe-se que na Igreja Católica há muitos padres e missionários que estão agora a vir para a Europa, invertendo a lógica missionária. Aplica-se o mesmo noutras confissões cristãs?
Sim, isso começa a notar-se. Entra-se em igrejas protestantes, e falo de protestantes históricos, ligados à reforma, ou a Igreja anglicana, e nota-se que se estão a tornar pluriétnicas e isso tem contribuído em muito para a vitalidade de algumas igrejas que até estavam bastante amorfas, e por outro lado até temos as igrejas evangélicas, dentro do protestantismo evangélico, as chamadas igrejas livres, que crescem por todos os lados, e que têm uma componente étnica, mas também de missionação dos portugueses, que é um trabalho que não é feito pelos portugueses, porque os europeus cristãos conformaram-se com a ideia de que a religião tinha de ficar apenas na esfera privada, e esse discurso continua, mesmo que Bento XVI tenha chamado a atenção para a nova evangelização.

Qual é a estratégia da nova evangelização? Vê-se pouco, em termos práticos. A Igreja em Portugal tem feito um trabalho com algum sucesso junto das elites culturais, por exemplo a questão do Pátio dos Gentios, mas ainda não percebi, tanto quanto tenho pesquisado, qual é a agenda de uma evangelização para as pessoas comuns.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

7 – Boko Haram e o espectro da guerra religiosa na Nigéria

Cristãs aterrorizadas fogem do local de um atentado
Uma das coisas mais deprimentes que há é quando tragédias começam a ser tão comuns que deixam de ser notícia.

Há o sério risco de isso acontecer na Nigéria. Já perdi a conta às vezes que fiz notícias sobre ataques a alvos cristãos naquele país, ao ponto de ter de puxar pela cabeça para inventar títulos, porque “Igreja atacada na Nigéria” ou mesmo “Mais um ataque a cristãos na Nigéria” simplesmente não diz nada.

Todos os dias em África morrem pessoas vítimas de terrorismo, assassinadas por um dos milhentos grupos armados que lá opera ou então mesmo pelas Forças Armadas oficiais que por vezes pouco mais são que bandos armados também. Mas os ataques na Nigéria são particularmente importantes pelo potencial explosivo que têm. Para o compreender temos que ver o contexto do país.

A Nigéria é, em termos demográficos, o maior país de África, com cerca de 170 milhões de habitantes. Ainda em termos demográficos é quase um modelo do continente em si, dividido mais ou menos ao meio entre cristãos, no Sul, e muçulmanos, no Norte.

É neste contexto que nasce o grupo armado Boko Haram, simplesmente como expressão mais extrema de uma tendência já existente no Norte da Nigéria de islamização e imposição da Sharia nos Estados de maioria islâmica. São vários os Estados que já têm leis islâmicas e os membros do Boko Haram simplesmente querem aprofundar isso e aplicar a lei a todo o país, incluindo ao Sul maioritariamente cristão.

Houve vários incidentes antes de 2010, muitos nem foram levados a cabo pelo Boko Haram, mas um dos piores ataques foi no dia de Natal de 2010, com ataques concertados a Igrejas cristãs. Em 2011 repetiu-se a dose e, a duas semanas do Natal, veremos se não acontece este ano o mesmo. Mas parece que para este grupo terrorista o Natal é mesmo quando o homem quer e portanto todos os domingos qualquer Igreja no Norte ou centro do país torna-se um potencial alvo. Só este ano foram dezenas de ataques e centenas de mortos.
Comunicação do líder do Boko Haram
Provavelmente sobre paz e amor...

Em abono da verdade, o Boko Haram não ataca só cristãos. Já mataram polícias, militares, políticos e até muçulmanos que não partilhem da sua visão. Atacaram a sede da ONU em Abuja e são responsáveis, ao todo, por centenas, se não milhares de mortos.

A violência perpetrada pelo Boko Haram é interessante do ponto de vista religioso, então, por três motivos. Em primeiro lugar porque se insere no quadro mais geral do aumento do Islão político fundamentalista no Norte da Nigéria, em segundo lugar porque os terroristas agem motivados sobretudo por razões religiosas e em terceiro lugar pelo potencial que existe de se motivar uma guerra civil entre o Norte muçulmano e o Sul cristão que poderiam ter ramificações absolutamente terríveis a nível de todo o continente.

Foi sobre isto que falei com um padre nigeriano em Setembro deste ano. O padre Michael disse-me que os bispos católicos e outros líderes cristãos estão a fazer grandes esforços para evitar que os seus fiéis entrem na lógica da retaliação. É verdade que tem havido alguns incidentes, sobretudo em cidades onde a mistura de populações é mais equilibrada e onde tem havido também massacres de muçulmanos por cristãos, normalmente em resposta a ataques prévios. Mas não existe do lado cristão um equivalente ao Boko Haram nem existe no Sul do país um movimento equivalente ao islamista no Norte, que queira impor um modo de vida e leis religiosas ao resto do país. Mas o facto de isso não ter acontecido ainda não significa que não venha a acontecer. Esperemos que não.

É que uma guerra civil na Nigéria dificilmente deixaria de se tornar logo um conflito de âmbito continental, com efeitos imediatos noutros países com população mista.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Mais notas romanas


Biblioteca do Vaticano, onde há um decreto perpétuo
que ameaça de excomunhão quem roubar livros...
Temos tido dias muito cheios aqui em Roma. Ontem entre trabalho e o texto sobre a visita do Papa ao Líbano que fiz para o blogue, acabei por dormir só umas cinco horas, mas tem valido bem a pena.

Ontem foi dia de visita à Signatura Apostólica, o mais alto tribunal da Santa Sé, onde fomos recebidos pelo Cardeal Burke. Foi interessante vê-lo descrever os processos judiciais do Vaticano, e a existência de tribunais, como uma forma de garantir aos fiéis o acesso aos seus direitos. Facilmente imaginamos estas instituições como sendo unicamente repressivas, mas a lógica não é essa, ou pelo menos não deveria ser.

Da parte da manhã fomos à audiência-geral do Papa. Estávamos num óptimo lugar, muito perto da frente, mas é preciso chegar cedo e tudo leva bastante tempo. Depois a catequese do Papa é em Italiano, e por isso difícil de seguir. É mais animado quando se começa a dizer os nomes dos grupos presentes e as pessoas gritam, ou cantam para mostrar onde estão. Ontem estavam presentes três bandas e por isso tivemos direito a muita música.

Cardeal Burke
O almoço foi de trabalho, com a presença de dois vaticanistas que nos explicaram as particularidades de cobrir a Santa Sé. Segundo eles, é muito difícil conseguir fontes entre a Cúria Romana e, quando finalmente se consegue, é ainda mais difícil conseguir uma entrevista “on the record”. Ambos são americanos e falaram de uma questão que também é muito interessante. Uma vez que é tão difícil arranjar informação fidedigna, muitas vezes os órgãos internacionais vão buscar a sua informação à imprensa italiana. Mas o estilo da imprensa italiana nada tem a ver com o estilo anglo-saxónico, ou mesmo o português. É muito mais comum publicar boatos, histórias sem fonte identificada etc. e se não forem verdadeiras, ao fim de poucos dias ninguém quer saber. Por isso os riscos para o resto do mundo de confiar na imprensa italiana são enormes, porque em muitos países não se pode escrever ou publicar dessa forma.

Ainda tive tempo ontem para visitar o museu judaico de Roma, que é muito giro e tem duas sinagogas belíssimas, mas infelizmente, por razões de segurança, é completamente proibido tirar fotografias.

Hoje: China, África e amor...
Penso que esta Quinta-feira foi, até agora, um dos dias mais interessantes.

Pe. Sergio Sergianni, especialista na China
O dia começou com uma conferência sobre a Igreja na China, dada por um padre italiano que trabalha na Propaganda Fidei e viveu 25 anos na China (especificamente Taiwan e Hong Kong, mas com muitas visitas à China e muitos contactos). Foi tudo “off the record”, mas serviu muito bem para compreender o que se passa naquele país em relação à Igreja e as relações entre a igreja oficial, controlada pelo Estado, e a Igreja subterrânea, que é fiel ao Papa.

Depois tivemos uma conferência do Arcebispo Fisichella, sobre o pensamento do Papa. Fisichella é um excelente orador, com um raciocínio extraordinariamente bem organizado e claro.

Dois pontos principais a reter. Primeiro, o Papa terá dito que o seu trabalho teológico tem por base o Concílio, e o primeiro documento do Concílio trata da liturgia. Por isso a liturgia, ou seja, a forma correcta de adorar a Deus, está no centro das preocupações do Papa, o que é evidente para quem o tem acompanhado desde que foi eleito.

Em segundo lugar, a centralidade do conceito de amor, sendo que o amor é a essência da teologia cristã, e a necessidade de perceber de que tipo de amor falam os cristãos quando usam o termo, que provavelmente não é o mesmo sentido que a sociedade hoje lhe dá.

Fisichella explicou também, a certo ponto, a diferença entre ética e valores. Enquanto os valores são próprios de cada religião, sendo por isso subjectivos, a ética é independente das religiões, porque depende exclusivamente da razão. Por isso pode-se falar de uma ética universal, porque a razão é igual para todos. Isto tem obviamente uma ligação ao conceito, caro aos cristãos mas que antecede o Cristianismo, da Lei Natural.

Faço aqui um parêntesis para dizer que uma das coisas que me tem impressionado no contacto próximo com estas figuras é a sua fé. Pode parecer uma parvoíce, porque estamos a falar de bispos e padres, mas quando estamos fora ficamos facilmente com a ideia de que em Roma tudo se resume a politiquices e intrigas. Há muito disso, claro, mas os homens que temos conhecido (sim, só homens...) são todos pessoas de grande fé e que estão claramente apaixonadas por Jesus Cristo e pela Igreja e isso é, para um católico, reconfortante.

Padre Fortunatus ao centro, com dois africanos que
estão a participar no curso também.
Termino com aquele que foi um dos pontos mais altos do dia. O padre Fortunatus Nwachukwu, um nigeriano que é responsável pelo departamento do protocolo do Vaticano mas que nos veio falar sobre a Igreja em África. O nome dele pode ser complicado de pronunciar, mas fixem-no, porque acredito mesmo que ele há-de ir muito longe...

Falou de muita coisa, mas retive especialmente um tom de preocupação com a Igreja africana. Explicou que em África, no início do Cristianismo, havia uma Igreja fortíssima e muito rica no Norte de África, em Cartago. Mas mesmo essa Igreja tão vibrante, não resistiu ao Islão.

É verdade que o Cristianismo está em forte crescimento em África, disse, mas o Islão também. E se Cartago não resistiu ao Islão naquele época, como é que a Igreja africana, tão dividida por tribalismos, vai resistir? Disse que era um optimista, mas que isso o deixava preocupado.

Contou-nos uma história curiosa para ilustrar isso. Diz que uma vez comentou com um amigo nigeriano, padre também, que sonhava com uma Igreja na Nigéria em que um bispo do Norte pudesse ir para uma dioceses do Sul, e vice-versa. Nisso o amigo interrompeu-o e disse: “Fortunatus, para com essa conversa. Estás a sugerir que a minha tribo pudesse ter como bispo um homem da tribo X”, e estava verdadeiramente ofendido com a ideia. Sabem o que aconteceu a esse padre? Foi feito bispo... preocupante.

Outro grande problema é que em sociedades tribais, que têm reis e chefes locais, há uma forte pressão por parte dos fiéis de encararem o seu bispo como um chefe tribal. Se o bispo deixar que isso aconteceça, mesmo que não queira, é uma bota muito difícil de descalçar. E a verdade é que um chefe tribal tem como principal função defender a sua tribo, algo muito diferente de um pastor que tem de cuidar de todas as ovelhas, sejam de que cor ou ascendência forem.

Foi uma conversa muito franca e muito elucidativa e aquele homem brilhava com paixão pelo Evangelho. Uma surpresa muito agradável.

Amanhã também promete, com uma conferência sobre a Primavera Árabe.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Padres pedem sangue, china aposta na simpatia

"Olha mãe, daqui não consigo ver os meus irmãos!"
A Igreja portuguesa diz-se disponível para apelar às dádivas de sangue nas missas. O apelo é que será feito nas missas, as dádivas presume-se que não.

O Vaticano pede dádivas de outro género, desta feita para ajudar a salvar a vida das comunidades cristãs no Médio Oriente, sobretudo na Terra Santa.

A Santa Sé também está preocupada com a desertificação em África e está a investir na sua prevenção.

O ministro da Economia diz que o Turismo Religioso pode ser muito importante para combater a crise.

Finalmente, um assunto que não é explicitamente religioso mas que levanta todo o género de questões morais. A China quer promover a política do filho único de forma mais simpática. Parece que frases como “Se escapares [à esterilização], vamos encontrar-te. Se te quiseres enforcar, damos-te a corda” são consideradas demasiado agressivas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Papa no Benim, bispos novos em Portugal

As grandes notícias deste fim-de-semana foram sobre o Papa em Benim.


O Papa aproveitou a sua visita ao Benim para visitar a campa do Cardeal Gantin, que muito elogiou. Saiba quem era essa figura…

Por fim, o Papa falou da importância da esperança para o continente africano. Há muito mais, bastará seguir os links entre as notícias.

Por cá foi um fim-de-semana muito episcopal. Uma ordenação, de D. Nuno Brás, e uma nomeação, de D. António Couto para Lamego.

A crise faz com que haja dioceses onde a Cáritas já tenha ficado sem dinheiro. Por isso a organização lançou uma campanha por ocasião do Natal e convida-o a ser uma de dez milhões de estrelas.

E por falar em crise deixo-vos com esta reportagem video que nada tem a ver com religião, mas que é imperdível. A crise vista pelos olhos de crianças de 9 anos…

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