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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Que Pensamos Importa

Robert Royal

Recentemente escrevi sobre os Thomistic Institutes, uma iniciativa da Dominican House of Studies em Washington D.C., que organiza palestras e conferências proferidas por católicos ortodoxos de primeira categoria em quase cinquenta (e cada vez mais) das mais prestigiosas universidades e faculdades da América. E a organização está em expansão. Muitos leitores escreveram-me para expressar a sua apreciação por esta rede tão valiosa, mas também para perguntar o que podem fazer se não houver nada do género na sua zona.

Agora temos uma resposta.

No dia 26 de Agosto foi para o ar o Aquinas 101 – um site criado pelos mesmos dominicanos. Cliquem e preparem-se para uma experiência fascinante. Quando estiver completa, esta série terá oitenta e seis breves palestras, cuidadosamente preparadas e dirigidas a qualquer pessoa com um nível de capacidade e de interesse comum.

Este curso é aberto a todos, e é gratuito!

Estamos a falar de uma introdução bem construída e acessível a um dos maiores de todos os pensadores dominicanos, São Tomás de Aquino, que não só nos coloca em contacto com o homem que mais fez para formar o pensamento católico ao longo dos séculos, mas também nos ajuda a ver como essa enorme obra de pensamento tem grande relevância para algumas das questões nevrálgicas que hoje enfrentamos.

Por exemplo, muitas pessoas hoje, incluindo cristãos e até católicos, caíram em algumas confusões básicas sobre a natureza da Fé e da Razão. Conforme explica uma das primeiras palestras desta série, isto leva, por um lado, ao cepticismo – não podemos saber verdadeiramente nada sobre Deus – mas também, por outro, ao que tem sido apelidado de “fideísmo”, a ideia de que cremos sem saber em quê.

Ambas são reações naturais numa era de pós-verdade, mas um católico curioso não quererá deixar que o seu pensamento se mantenha preso neste lamaçal actual. Há ideias melhores e mais “verdadeiras” sobre a verdade, que Aquino e outros nos podem fornecer.

Talvez já tenham visto a sondagem recente que mostra quão poucas pessoas, até entre católicos praticantes, acreditam na Presença Real de Cristo na Eucaristia. Muitos acham que não passa de um mero símbolo. No final de contas, a Eucaristia é um profundo mistério, mas homens santos e dotados como Aquino recorreram às várias ferramentas da tradição e da razão humana para fornecer abordagens racionais e sérias àquilo que no fundo nos transcende a nós e a toda a Criação.

Recentemente o jesuíta Thomas Reese comentou essa sondagem dizendo que não acredita em termos como “substância”, “acidente”, “matéria” e “forma” que Aquino utilizou para explicar a Eucaristia. Mas sem uma qualquer forma de explicação e descrição sólida, não admira que a Eucaristia pareça simplesmente simbólica e que a crença na mesma se torne “fideísta”.

Muitos rejeitam estes conceitos porque acham que as ciências modernas as desacreditaram. Na verdade a ciência não o fez, nem o pode fazer, precisamente porque os pensadores escolásticos usaram esses termos de forma filosófica. Não pode contradizer a ciência – nem antiga, nem moderna, nem pós-moderna, nem nada que ainda aí venha. Mas seria necessário estudar e perceber como os termos Fé e Razão se relacionam para o compreender.

A principal razão pela qual os jovens de hoje abandonam a verdadeira religião e adoptam a descrição “espiritual e não religioso” é porque acreditam que a ciência tornou a religião tradicional inviável.

Podemos simplesmente cruzar os braços e lamentar que tantos tenham caído nesta falácia simplista. (“Ex-católicos” são o segundo maior grupo religioso na América e os “Nenhuns”, i.e., pessoas que dizem que não têm qualquer forma de filiação religiosa, são provavelmente a categoria religiosa que mais cresce na nossa sociedade.) Ou então podemos decidir fazer alguma coisa sobre o assunto, a começar por nós mesmos.

Estudar São Tomás não é pera doce e o próprio admite, em vários pontos da sua vasta obra, que nem toda a gente tem capacidade para estudar filosofia e teologia. Mas esta série foi montada por pessoas perfeitamente cientes destas dificuldades. Como o próprio site explica: “Não é tão difícil como pensa. Na verdade, quando nos habituamos, o pensamento de Aquino ilumina algumas das questões mais importantes. Perceberá até que ele se tornou seu amigo e guia nos caminhos da sabedoria”.

Imagine poder falar de sabedoria nos nossos dias e afirmar que “o que pensamos importa”, tal como a Igreja sempre ensinou.

Católicos e protestantes, por exemplo, diferem sobre muitas coisas. Mas, classicamente, podemos dizer que tudo se resume à fórmula central de Lutero: Sola Scriptura – Só a Escritura é que constitui a fé, por oposição à Tradição e à Escritura, ou à Bíblia e a Igreja, ou à Fé e a Razão.

Neste último departamento tem havido filósofos protestantes sérios, claro, e teólogos protestantes como João Calvino ou Karl Barth, que empreenderam reflexões racionais profundas. Ainda assim não seria um exagero dizer que de todas as formas de Cristianismo, a que cultivou quer a fé quer a razão de forma mais consistente ao longo dos séculos é o Catolicismo.

E entre os Católicos o grupo intelectualmente mais fértil, ao longo de quase mil anos, tem sido a Ordem Dominicana. A lista de santos intelectuais e místicos é longa: O próprio São Domingos, Mateus de Paris, Raimundo de Peñafort, Alberto Magno, Tomás Aquino, Mestre Eckhart, Catarina de Sena, Fra Angelico, Bartolomeu de las Casas, Francisco de Vitória, Cardeal Cajetan, Rosa de Lima, Martim de Porres, Pio V (cujo longo pontificado legou aos Papas o seu traje branco), Louis de Montfort, Lacordaire, A. G. Sertillanges, Reginald Garrigou-Lagrange, Vincent McNabb, Aidan Nichols e muitos outros nos tempos modernos.

Claro que há outras escolas de pensamento católico para além do Tomista e do Dominicano. Mas ao familiarizar-se com qualquer uma das figuras citadas acima, já ficará com uma formação valiosa em pensamento e prática católicos – bem como uma perspectiva poderosa sobre muitas questões perenes e controvérsias actuais.

Mas a Dominican House tornou mais fácil para todos estudar Aquino, agora. Vá até ao site e inscreva-se. É grátis; pode estudar ao seu próprio ritmo, a partir de casa; não há notas. O que é que tem a perder? E pense só no que tem a ganhar.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Música portuguesa para o Papa

No sábado vão ser beatificadas 14 monjas concepcionistas, mártires da Guerra Civil de Espanha. Conheça as suas histórias aqui.

O Papa Francisco recebeu esta quarta-feira dois presentes para ouvir em português. Trata-se de uma “missa de Santo António” do maestro Vitorino d’Almeida e do disco “Encontro(s)”, de Luís Zagalo

Lembram-se do Suíço que foi multado por combater o Estado Islâmico? Publiquei agora a transcrição integral da entrevista que lhe fiz, que podem ler aqui.

Os defensores da ideologia do género invocam frequentemente o argumento da liberdade individual. No artigo desta semana do The Catholic Thing, Robert Royal explica porque é que esse conceito é, na verdade, o exacto oposto de verdadeira liberdade. É um assunto urgente, não deixem de ler!

Transgénero e Liberdade Perfeita

Não faltam razões para ler a Divina Comédia de Dante, nem que seja pelo prazer de um encontro com o génio da imaginação. Mas no final de contas a razão mais importante é aquela que o próprio identifica numa carta a um mecenas, Can Grande Della Scala: “o assunto é o homem na medida em que, com os seus méritos e deméritos, no exercício da sua livre vontade, é merecedor de ser premiado ou punido pela justiça”.

Esta escolha torna-se clara no destino de Lúcifer. Podemos discutir longamente como é que certos pecadores vieram a merecer castigos específicos no Inferno de Dante, mas Satanás representa uma escolha principal.

O Satanás de Dante não é o rebelde romântico do “Paraíso Perdido” de Milton, nem um tentador engenhoso como o Escritope de C. S. Lewis. Trata-se aqui do ser que – de forma radical, pura e eterna – rejeitou Deus e toda a ordem do universo que Ele criou. Satanás pensa que se lançou no caminho da liberdade total em relação a tudo isso, mas não podia, literalmente, estar mais errado. 

Dante mostra-nos isto numa imagem inesquecível. Satanás está envolto em gelo no fundo do universo, nos recantos mais longínquos do Inferno. Dá às suas asas de morcego, procurando libertar-se, mas o vento que as asas criam apenas serve para o congelar ainda mais. É como as algemas chinesas com que brincávamos quando éramos miúdos. Mete-se os dedos de cada lado de uma espécie de tubo, mas quanto mais força fazemos para os tirar, mais apertado fica.

Não há outra saída para quem se revolta contra Deus. Satanás foge de Deus e da sua ordem cósmica, mas não há para onde fugir. Apenas existe um Deus, um universo, uma realidade. Rejeite-se isso e rejeita-se tudo, incluindo a fonte do nosso próprio ser – e a liberdade. Pode-se esforçar freneticamente, e cada vez mais, para ser “livre” segundo os próprios termos, mas está a pedir aquilo que é literalmente impossível – uma liberdade perfeita desligada de realidade. E assim se encerra, cada vez mais, em si mesmo.

Na sua “Utopia”, Tomás Moro incluiu um epígrafo: “O demónio, espírito orgulhoso, não aguenta ser gozado”. Pois aqui está um caso de gozo, gozo de si mesmo, em enorme escala.

Tudo isto pode parecer muito distante das nossas vidas diárias. Mas para um Católico na América de hoje a liberdade coloca-nos uma questão crucial. A liberdade está no topo da lista daquilo que a maioria dos americanos diria que o país representa. Os Pais Fundadores preocupavam-se com a possibilidade de a liberdade degenerar em “licença”. Tal como os pensadores antigos e medievais, eles sabiam que a liberdade podia autodestruir-se se fosse isolada da virtude e da verdade. 

A Congregação para a Educação acaba de lançar um documento sobre os transgénero (“Homem e mulher Ele os Criou”), que reconhece a fora como este movimento ideológico se desligou radicalmente não só da biologia mas da ordem cósmica. “Segundo esta visão das coisas, a visão tanto da identidade sexual como da família tornam-se sujeitos à mesma ‘liquidez’ e ‘fluidez’ que caracteriza outros aspetos da cultura pós-moderna, baseadas frequentemente em nada mais do que um conceito confuso de liberdade no campo dos sentimentos e desejos, ou nos desejos momentâneos provocados por impulsos emocionais e a vontade do indivíduo, por oposição a qualquer coisa baseada nas verdades da existência.”

Quando me constou que também convidava ao “diálogo” – o que para alguns é um tipo de tapete mágico que nos permite fugir sem ter de dizer sim nem não – temi que o documento cedesse no que é essencial. Surpreendentemente ele afirma que o diálogo significa reconhecer que algumas pessoas estão a debater-se com emoções fortes e que devem ser respeitadas enquanto seres humanos, mas ao mesmo tempo devem-lhes ser apresentadas as verdades básicas da sexualidade.

Há muito mais a dizer – e talvez venha a sê-lo. A Congregação para a Doutrina da Fé está a preparar um comentário mais puramente teológico sobre os mesmos assuntos. Mas este documento é um guia para instituições educativas e por isso é deliberadamente mais prático que teórico.

O nosso amigo Robbie George já comentou sobre a reação previsível de pessoas como o padre James Martin, S.J., que afirma que a sociologia e a psicologia modernas rebentam com as compreensões tradicionais de género. Afirmações desse género reciclam uma antiga heresia gnóstica segundo a qual alguma realidade interior, desligada do corpo físico, define a sua própria identidade. Trata-se de uma contradição da fé católica, bem como a judaica a islâmica e mesmo o bom pensamento secular. É tudo menos científico obliterar o papel de estruturas observáveis como são os genes masculinos e femininos, que existem em cada célula do corpo humano, apenas com base no que alguém diz ser.

O Dr. Paul McHugh, antigo diretor de psiquiatria na Universidade Johns Hopkins, estudou pessoas que foram sujeitas a “mudança de sexo” e concluiu que na maior parte dos casos não são mais felizes do que eram antes. “No cerne da questão está a confusão sobre a natureza dos transgénero. A ‘mudança de sexo’ é uma impossibilidade biológica.”

Santo Agostinho resumiu da seguinte forma toda a tradição bíblica: “Deus eterno, que és a luz das mentes que te conhecem, a alegria dos corações que te amam e a força das vontades que te servem; concede-nos que te conheçamos para verdadeiramente te amar, e assim amar-te para servir inteiramente a ti, a quem servir é a perfeita liberdade, em Jesus Cristo, Nosso Senhor.” (Oração para Conhecer a Deus)

A verdade reside onde o temporal e o eterno, a liberdade e a ordem e outras coisas aparentemente opostas se encontram e misturam. O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores é também o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. O Altíssimo nasce como bebé humilde numa manjedoura. Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros. E viver em harmonia com a verdadeira ordem do mundo é a única liberdade possível.

Poucos de nós compreendemos isso hoje. As nossas noções de liberdade chegam-nos por via de ‘entertainers’ autoindulgentes, políticos interesseiros, académicos excêntricos e egocêntricos e meios de comunicação autorreferenciais. Mas apesar de toda a celebração de identidade, individualismo, diversidade e singularidade, o resultado não é um tecido social rico, harmonioso e livre, mas o caos privado e público que está à vista de todos os que têm olhos para ver.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 17 de Junho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Também o Servem

Conheço uma mulher inteligente, que estudou iconografia com outra mulher inteligente (que por acaso é minha mulher), que esteve recentemente em Florença. Sendo historiadora, estava a dar palestras sobre as antigas obras primas católicas que lá se encontram, objectos estimados há muito, aproveitando também para os rever. Muitas destas obras de arte foram produzidas durante o Renascimento e a contra-reforma, para reforçar as crenças católicas e combater a revolta protestante. (A Elizabeth Lev tem um excelente livro, “How Catholic Art Saved the Faith”, sobre este assunto).

Mas nesta viagem ela esteve particularmente atenta a obras ainda mais antigas que existem na cidade, como os ícones orientais pré-Renascimento e outras em que não tinha reparado durante visitas anteriores. Há aqui uma lição para aqueles de entre nós que se vêem envolvidos em polémicas e activismo que, aliás, são muito importantes. Ganharíamos muito em ter uma maior ligação às nossas ricas tradições. É preciso remediar essa limitação, a bem da acção prática, porque qualquer católico deve compreender que não estamos envolvidos numa luta sobre práticas eclesiais e políticas públicas; estamos em guerra – para citar São Paulo – com principados e potestades diabólicas.

No domingo, antes da missa, estive no restaurante de um hotel, onde vários ecrãs mostravam os programas de debate de domingo de manhã. Há vinte e cinco anos que estou envolvido em muitas das controvérsias sobre os quais falavam, mas subitamente percebi que actualmente existem pessoas – sobretudo em sectores da sociedade que formam a cultura – para quem o domingo de manhã se resume a isto. Este é o momento que consideram mais importante, ou mesmo sagrado (se é que usam termos tão arcaicos).

De vez em quando encorajo as pessoas a afastarem-se, por uns tempos, das guerras culturais na Igreja e no mundo, e a politização de tudo, sugerindo que leiam um livro, ou observem ou escutem alguma coisa que ajude a expandir a alma. Normalmente recebo uma de duas respostas.

Da parte dos tradicionalistas informam-me – quem diria – que “estamos em guerra” e que parar para ler Platão, ou Agostinho, ou dedicar tempo a ler música ou poesia não passa de uma distração. Penso nestes críticos como o Partido Jansenista.

Do lado dos progressistas também me dão lições de moral – sobre intelectualismo e torres de marfim – como se o interesse pela verdade significasse que nunca fazemos, ou nos interessamos por, mais nada. Vai alimentar os pobres, vestir os nus, dar tecto aos sem-abrigo e, hoje em dia, acolher os LGBTs, dizem-me. É evidente, mas sem fazer disso – como o Senhor ordenou – um espectáculo público. Este é o partido da Justiça Social.

Mas se vamos ser melhores a lidar com as forças anti-cristãs, ou a praticar obras de misericórdia espirituais e corporais, então a maioria de nós tem de abrir os olhos a novas formas de ser e de agir – a não ser que queiramos continuar a repetir os mesmos combates de pugilismo na internet, nos debates televisivos e na rádio, obtendo a mesma escassez de resultados.

Na Quaresma, a oração, o jejum e a esmola são forma tradicionais de afastar o enfoque de nós mesmos e virá-lo para os outros, sobretudo para o próprio Deus – só Ele pode evitar que os nossos esforços para fazer o bem se tornem apenas mais uma forma de auto-absorção.

Se é o tipo de pessoa que passa a maior parte do seu tempo a fazer trabalho intelectual, talvez seja boa ideia dedicar-se a outras coisas durante os próximos 40 dias. Se a sua paixão é o ativismo, seja de que tipo for, então talvez esta seja uma boa altura para maior reflexão, ou até contemplação regular. Faz parte dos fundamentos do Catolicismo reconhecer que o que Deus quer num dado momento depende das circunstâncias e do estado das nossas almas individuais.

Os americanos em particular são adeptos da acção, e isso tem dado frutos fantásticos para o mundo inteiro. Mas, sobretudo durante a Quaresma, muitos de nós têm de ser mais passivos – e receptivos – durante uns tempos. O próprio Cristo passou 40 dias no deserto antes de começar o seu ministério público.   

O demónio tentou-o com base nas necessidades físicas, domínio político, exigindo até que Deus revelasse o seu poder. Jesus resistiu e, pelo contrário, manteve-se focado na vontade do Pai. Depois disso não se saiu nada mal – os efeitos continuam a ser sentidos no mundo inteiro.

John Milton ficou cego quando estava na casa dos 40 anos e sentiu-se frustrado por não poder servir a Deus e ao homem de forma mais activa. Mas encontrou algum consolo nestas palavras:

“El´ não precisa
Dos dons de um só em cada humana esfera.

Se El´ convoca os seus fiéis, e com ardência
Que milhar´s correm para onde Ele pisa.
Também O serve aquel´ que fica e espera.”
[Tradução de Jorge de Sena]

Aquele que fica e espera, isto é, se for isso que Ele pede.

Estas tentações, e outras, surgem quando nos tentamos afastar das desordens do mundo. O livro do cardeal Sarah “A Força do Silêncio: Contra a ditadura do barulho”, foi publicado há apenas dois anos, mas parece que já precisamos de nos recordar dessa obra singular, por entre tentações de nos apressarmos ao próximo livro ou controvérsia.

Deixo aqui apenas uma das suas reflexões tão importantes: “Se nos dermos a coisas efémeras e insignificantes, entender-nos-emos como efémeros e insignificantes. Se nos dermos às coisas belas e eternas, então entender-nos-emos como belos e eternos”.

A cultura do barulho domina de tal forma as nossas vidas – mais até do que a cultura do relativismo, seu aliado natural – que ao referir sabedoria deste calibre, quase que nos sentimos obrigados a justificar que isso não significa que nos vamos retirar, deixando o mundo à sua sorte.

Não é bem pelo mundo que abraçamos o silêncio profundo. Fazemo-lo porque o nosso destino final não é o mundo.  

Mas é por nos focarmos naquilo que verdadeiramente interessa, a Realidade (o Reino) que as outras coisas nos serão dadas – não há outra forma de as receber. É dolorosamente evidente neste momento que, apesar de todo o nosso trabalho, estamos a falhar porque nos falta algo de crucial – algo que tem de vir de outro lugar. Caso contrário, não passamos de pelagianos, tal como muitos ativistas modernos, que pensam que tudo depende de nós.  

“Quando nos retiramos em silêncio do barulho do mundo, ganhamos uma nova perspetiva sobre o barulho do mundo… Ao nos retirarmos para o silêncio conhecemo-nos, conhecemos a nossa dignidade.”

Esta é a única perspetiva que produzirá verdadeira revolução, em nós e no mundo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 13 de Março de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fé, Razão, Vida

A 46ª Caminhada Pela Vida que se realiza hoje [sexta-feira, 18 de Janeiro] em Washington não é um evento católico. Ao longo dos últimos anos tem sido muito gratificante ver um aumento no número de evangélicos, outros protestantes e judeus – como não adorar o som do Shofar a ser soprado do palco, antes de a multidão arrancar –, mórmones, muçulmanos e ainda outros a participar. Todos os que se têm vindo a aperceber que matar os mais pequenos e vulneráveis da espécie humana não tem nada de humano nem ajuda em nada as mulheres, que são mortas através do aborto às dezenas de milhões, em todo o mundo, simplesmente pelo facto de serem do sexo feminino.

Mas a caminhada – e a causa pró-vida – também não são, verdadeiramente, um tema religioso. É sempre bom ver na caminhada os Ateus pela Vida, mas também é uma recordação importante. Não somos contra o aborto por se opor a um qualquer dogma religioso. Se fosse esse o caso – como muitos defensores do aborto afirmam, erradamente – seria difícil evitar a acusação de estarmos a tentar “impor a nossa religião” aos outros. Pelo contrário, estamos a tentar evitar que as pessoas pratiquem uma forma irracional, falsa e sangrenta de idolatria.

É a razão, e não a revelação, que nos diz que, caso acreditemos que é errado matar, então matar crianças ainda na barriga das mães também é errado. E com cada ano que passa essa posição moral torna-se ainda mais clara. Quando a decisão Roe v. Wade, que legalizou o aborto em todo o país, foi anunciada, em 1973, a medicina estava a anos-luz do que está agora. Hoje sabemos, por exemplo, que o coração de uma criança começa a bater cerca de quatro semanas depois da concepção e que já acontecem muitas outras coisas que tornam claro que aquilo que se está a desenvolver e a crescer é um ser humano vivo (com o seu próprio ADN), rapaz ou rapariga desde o começo. Segue-se, racionalmente, que quem decidir pôr fim a essa vida, mesmo no seu estado mais incipiente, está a cometer um erro moral grave.  

E fazemos bem tanto em argumentar racionalmente como em caminhar pelo fim do aborto. Aliás, é mesmo uma obrigação moral. Confrontar-nos uns aos outros, em busca da verdade, é uma forma de demonstrar a nossa convicção de que aqueles com quem discordamos são, como nós, seres racionais. Eu sei que é pedir muito que a razão prevaleça, quando há tantas paixões e interesses em jogo. Mas é por isso que as caminhadas, manifestações e o exemplo pessoal devem também ser usados, nem que seja para criar oportunidades de fazer-se ouvir o lado científico e os bons argumentos.

Cerca de dez anos depois da decisão judicial de Row, estava a conversar com um filósofo, que entretanto se tornou mundialmente conhecido, sobre o aborto. Ele previu que, apesar de se tornar cada vez mais claro, através da ciência e da razão, o que estamos a fazer quando abortamos os nossos filhos, nada disso importaria. “Chegará o dia em que serão forçados a admitir a verdade. E então dirão, ‘Sim, é um bebé que se está a matar, e depois?’”

Na altura tive as minhas dúvidas, hoje já não tenho. Há anos que se muda o assunto do estatuto moral da vida intrauterina para tudo, desde o respeito pela liberdade das mulheres, o preconceito religioso e o combate à pobreza e aos danos ambientais. E também já nos disseram que, sim, é uma escolha difícil. Mas difícil porquê? Talvez porque esteja um bebé em causa? Sim, mas insistem que a mulher continua a ter aquele direito. Num acesso de paixão moral o Papa Francisco acertou no ponto quando disse que fazer um aborto é como contratar um assassino para nos resolver um problema. E a verdade é que esse assassino está a receber muitas chamadas: 42 milhões em todo o mundo só no último ano, de acordo com uma estimativa, fazendo do aborto a principal causa de morte.  

Os católicos americanos têm tido um papel central e louvável, claro, em manter viva a causa pró-vida. E por isso não é surpresa nenhuma que outros, que acreditam que é a verdade que nos liberta, se tenham juntado a nós. E não apenas neste país. O nosso exemplo tem espoletado outros esforços parecidos em vários países e, recentemente, até em Roma, embora a Igreja italiana e o Vaticano se tenham mantido distantes, por razões políticas aparentemente más, da Marcia per la Vita.

Desde esta segunda vaga da crise de abusos, os bispos americanos – e por implicação a Igreja como um todo – têm levado com críticas severas, algumas injustas, mas na maior parte justas. Tudo isso tem danificado a força do nosso testemunho público em várias frentes. Nestes últimos dias o Cardeal Wuerl até teve de abandonar os seus planos para celebrar a missa pró-vida que antecede a Caminhada. Foi substituído pelo núncio apostólico, o arcebispo Christophe Pierre. Mas nós, os americanos, conseguimos lidar com mais do que um problema de cada vez. Eventualmente vamos conseguir lidar com a crise de abusos enquanto continuamos com o nosso testemunho pró-vida e pró-família.

Mas não será um caminho fácil. Foram precisos quase cem anos – e uma Guerra Civil – desde os primeiros textos de John Wesley contra a escravatura até à Proclamação da Emancipação. Talvez leve tanto tempo, ou ainda mais, para anular o Roe v. Wade e mudar atitudes culturais para com o aborto. Mas, por mais tempo que leve, quando chegarem dias melhores as pessoas vão olhar para trás, para este tempo de trevas, e perguntar como é possível que uma população a gozar a maior prosperidade que o mundo alguma vez conheceu pôde ser cega para este massacre dos inocentes.

Muitos têm criticado a Igreja e outras organizações cristãs pelas suas falhas no combate à escravatura durante os séculos XVIII e XIX e é verdade que isso permanece como uma nódoa no registo de muitos seguidores de Cristo que tinham obrigação de saber melhor.

Mas naquele grande dia em que o aborto for visto novamente como o terrível mal moral que é, as pessoas também poderão ver que foi em primeiro lugar a Igreja, apesar de tantas críticas e muitas vezes sozinha, que defendeu a sacralidade de toda a vida humana. Numa altura em que pairam dúvidas sobre tanta coisa, isso é algo que merece ser festejado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Tocando lira enquanto a América – e Roma – ardem?

O conhecido filósofo político Leo Strauss terá dito certa vez que os teoristas políticos modernos são piores que o imperador Nero, de Roma. Porque ao contrário deste, eles não sabem que estão a tocar lira, nem que Roma está a arder.

Há poucas semanas, em Junho, os bispos americanos tiveram a sua reunião anual em Fort Lauderdale e, segundo os relatos, passaram grande parte do tempo a discutir política contemporânea e as alterações a fazer ao guia para as eleições do Outono.

Entretanto em Roma, na semana passada, o padre Antonio Spadaro, S.J., editor da revista semi-oficial do Vaticano, La Civiltá Cattolica, publicou em conjunto com Marcelo Figueroa, o presbiteriano escolhido pessoalmente pelo Papa Francisco para ser editor da edição argentina do L’Osservatore Romano, um longo ensaio que ataca um fenómeno religioso americano: “O Evangelho da Prosperidade: Perigoso e Diferente”.

Ao contrário do seu anterior esforço conjunto, que argumentava que a colaboração entre evangélicos e católicos conservadores era uma forma de “ecumenismo de ódio”, este artigo atraiu pouca atenção. O que não é surpreendente.

Embora os promotores do Evangelho da Prosperidade tenham ligações ao Presidente Trump – que parece ser o verdadeiro alvo deste ensaio – poucos dos que conhecem a religião nos Estados Unidos diriam que este fenómeno é de alguma forma importante. Na verdade, a maioria dos religiosos, tanto à Esquerda como à Direita, encaram-nos como uma excêntrica seita cristã.

Entretanto, em simultâneo em vários países, está a emergir uma nova ameaça à Igreja, uma crise de confiança na liderança católica e na Igreja em si, que poderá fazer com que estas outras preocupações, que são todas bastante periféricas à vida e missão da Igreja, pareçam mera música.

Na América são muitos os que se têm sentido chocados com revelações de que o Cardeal Theodore McCarrick, um dos prelados mais importantes da Igreja Católica americana ao longo das últimas décadas e a face pública da Igreja depois da revelação, em 2002, da crise de abusos sexuais por parte de padres, era ele próprio um abusador.

Inicialmente surgiram histórias da sua relação com homens adultos, dois dos quais receberam indemnizações das dioceses de Metuchen e de Newark, onde McCarrick tinha servido enquanto bispo e arcebispo. Essas histórias confirmavam o que se dizia em rumores há muitos anos, que o “Tio Ted” tinha o hábito de pressionar jovens seminaristas e outros para encontros sexuais.

Mas agora surgiu um homem com histórias de abusos praticados por McCarrick quando aquele tinha apenas 11 anos. E, tendo em conta o que já sabemos, não há dúvidas que mais escândalos estão para vir.

Tudo isto tem levado a mais revelações por parte de pessoas que foram abusadas por padres e bispos, alguns de forma chocante, bem como o facto doentio de praticamente ninguém em posição de autoridade ter agido, sobretudo quando havia bispos envolvidos. Se aguentar os detalhes, alguns dos quais são blasfemos e verdadeiramente diabólicos, poderá ficar com uma ideia da natureza do problema aqui, aqui, aqui e, sobretudo, aqui.

Perante isto, não admira que estejamos a assistir a uma onda de revolta na América, mesmo entre católicos fiéis. A julgar pelas muitas pessoas com quem estou em contacto regularmente e que conhecem bem esta matéria, poderemos estar à beira de mais uma profunda interrogação na Igreja, desta feita não devido a queixas sobre padres, mas sim sobre bispos que deveriam ter feito algo sobre outros bispos e pessoas em posição de autoridade.

Já vimos como este assunto azedou a viagem do Papa ao Chile no início deste ano. Dois cardeais chilenos, incluindo um dos que pertence ao grupo de nove conselheiros do Papa Francisco, estão implicados em encobrimento e possivelmente no envio de desinformação ao Papa Francisco. Ainda ontem as autoridades chilenas anunciaram que estão a investigar 158 membros da Igreja que são suspeitos de ter abusado, ou de ter encoberto abusos.

Outro dos principais conselheiros do Papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, das Honduras, foi acusado de corrupção financeira. Mas potencialmente mais sério é o caso do seu subordinado, o bispo Juan José Pineda Fasquelle, que gere a arquidiocese durante as longas ausências de Maradiaga, que teve de resignar depois de várias revelações de abuso sexual de seminaristas, numa situação em tudo semelhante à de McCarrick.

Mas o que é pouco usual no caso de McCarrick é que se trata de um cardeal em exercício que agora foi julgado pelas autoridades competentes por ter cometido ofensas ao longo de muitos anos, mas que continua a ser cardeal. O Papa Francisco tem de fazer algo sobre isto, bem como sobre aqueles que permitiram que a situação se mantivesse.

Porque apesar de o negarem, muitos bispos americanos receberam queixas sobre McCarrick e nada fizeram para o impedir. Mesmo Roma teve de ser informada sobre as indemnizações devido a abusos cometidos mais cedo e sabemos que uma delegação de leigos esteve em Roma para tentar impedir a nomeação de McCarrick para Washington, precisamente por causa das suas inclinações sexuais.

Mesmo o “The Washington Post”, que anteriormente não tinha mostrado qualquer interesse nos boatos sobre McCarrick, observou: “Muitos comentadores na Igreja acham que este é um momento crucial para o pontificado de Francisco, devido à estatura de McCarrick e o facto de estarem a rebentar escândalos de abusos sexuais no Chile e nas Honduras.”

O nosso amigo Phil Lawler escreveu um ensaio de leitura obrigatória, que foi publicado ontem no site da First Things. Saber como é que McCarrick conseguiu abusar de crianças e adultos durante tanto tempo, diz ele, é uma questão importante para a protecção de futuras vítimas, mas: “é menos importante do que saber como é que a sua ascensão pela hierarquia eclesial continuou, apesar de já existirem rumores sobre as suas actividades homossexuais. Porque é que McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington e feito cardeal? Porque é que o deixaram promover os seus protegidos, que depois desempenharam missões diplomáticas para o Vaticano? Como é que pôde influenciar a nomeação de bispos e até de um Papa, depois das suas aventuras na casa da praia se terem tornado conhecimento comum?

Descobrir a resposta a estas perguntas exige um autoexame muito doloroso, tanto nos Estados Unidos como em Roma. Mas a alternativa é continuar como se nada fosse, e isso está a tornar-se impossível.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 25 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Henri Caffarel, rogai por nós

Continua a decorrer em Fátima o Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora, que hoje recebeu a visita do cardeal Peter Turkson, que explicou aos presentes porque é que a nossa dignidade não advém das Nações Unidas, mas sim de Deus.

E também hoje ficámos a saber que embora várias graças tenham sido já atribuídas à intercessão do fundador das ENS, Henri Caffarel, ainda falta um milagre cientificamente verificável para avançar com a sua beatificação. Por isso já sabem, tudo a rezar por intercessão dele e, caso não conheçam o seu legado, investiguem e leiam, que vale bem a pena.

Se é como eu, então por vezes deve-se sentir cansado de um clima social, político e até eclesial que parece ser de constante conflito e onde, sobretudo, parecemos estar sempre à defesa e em recuo. Robert Royal, fundador e editor do The Catholic Thing também compreende esse sentimento e é sobre isso, nomeadamente sobre a necessidade de não deixar que as nossas vidas sejam sufocadas por esse ambiente, que ele escreve hoje. O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é para ser lido ao som de música clássica.

Noli impedire musicam

Lenine – que deu ao mundo a máquina de extermínio socialista conhecida por União Soviética – era um amante de música enquanto esteve no exílio. Quando regressou à Rússia, para dar início à Revolução Bolchevique, disse que já não era capaz de ouvir música. “Afecta-nos os nervos, faz-nos querer dizer coisas parvas e simpáticas e fazer festinhas na cabeça de pessoas capazes de criar tanta beleza enquanto vivem neste vil inferno”.

Sempre houve, e sempre haverá, aquele tipo de amante radical da humanidade que está disposto a sacrificar “dizer coisas parvas”, ou mesmo sacrificar pessoas, em nome de algum esquema marado que acabará por tornar o nosso mundo decaído ainda mais vil. Mas há aqui uma lição para nós, sobretudo os que vivem em sociedades ricas e ultra-tolerantes, que podem sucumbir à tentação de pensar que todas as suas vidas devem ser consumidas por guerras culturais, políticas ou espirituais.

Esta tentação é particularmente forte para pessoas em posições como a minha, pelo que é necessário sempre tomar medidas activas, de outra natureza. Da minha parte, tento tocar piano todas as manhãs pelo menos meia-hora, pois isso recorda-me – ainda que não tenha esse efeito sobre quem me ouve – de que a Criação de Deus é harmonia, uma harmonia discordante, por certo, mas definitivamente uma concórdia de criaturas e não um estado de guerra perpétua.

Muitas pessoas enviam-me livros, livros bons, sobre o estado de confusão actual em que vivemos. Agradeço, mas como estou sempre envolvido em leituras pesadas para vários projectos de escrita, muitas vezes não consigo chegar a estes livros, nem agradecer as ofertas. Esta semana, contudo, recebi um livro de um generoso mecenas do The Catholic Thing que me chamou a atenção: Spiritual Lives of the Great Composers [A Vida Espiritual dos Grandes Compositore] de Patrick Kavanaugh, um compositor que é também director do Christian Perfoming Arts Fellowship.

Trata-se de um relato claro e sucinto das crenças religiosas de vinte compositores clássicos de renome, desde Bach a Messiaen, passando por muitos outros grandes nomes. É um registo maravilhoso de como o espírito e a música andaram tão próximos na cultura ocidental, até há bem pouco tempo.

O grande Johann Sebastian Bach, por exemplo, não teve qualquer dificuldade em ver uma interligação entre Deus e a música, tendo dito: “O único propósito da Música deve ser para a glória de Deus e a recreação do espírito humano”. Músico humilde, embora prodigioso (chegou a caminhar 200 milhas para ouvir o então famoso organista Dieterich Buxtehude), costumava assinalar as suas folhas com J.J. (Jesus Juva – “Jesus ajuda”), antes de compor.

Há exemplos semelhantes do mesmo período. Certa vez um criado interrompeu Georg Friedrich Handel enquanto terminava o refrão do Aleluia, para o Messias, e encontrou-o em lágrimas: “Acredito que vi todo o Céu à minha frente, e o próprio Senhor”. (Incrivelmente, se descontarmos a inspiração divina, Handel produziu toda esta obra de evangelização sonora em apenas 24 dias).

Georg Friedrich Handel
Estes músicos viviam em paz e confiantes na sua fé cristã. Kavanaugh não elabora muito sobre a época em que viveram, mas é significativo que eles podiam atribuir a sua obra aos dons de Deus, apesar do facto de muitos deles terem vivido ao mesmo tempo que grandes figuras anticristãs do Iluminismo, como Diderot, Hume e Voltaire. É o género de coisa que não encontramos na maioria dos textos sobre as nossas raízes no Iluminismo do século dezoito.

Claro que Bach e Handel eram protestantes, mas é interessante, e pouco conhecido, que muitos dos maiores compositores clássicos ao longo dos séculos tenham sido católicos (em diferentes graus): Haydn (o mais firme e ortodoxo de todos), mas também Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Chopin, Bruckner, Gounod, Dvorak, Elgar e Messiaen. Stravinsky, talvez o melhor compositor do Século XX, era ortodoxo russo, mas compôs uma missa e outras músicas sacras. Apesar das suas diferenças, estavam praticamente todos unidos na crença de que a inspiração derivava de, e regressava a, o próprio Criador.

O poeta católico moderno Paul Claudel gostava de usar a frase noli impedire musicam (“Não interrompas a música”), uma referência a Eclesiástico 32,3 sobre a importância de não falar durante um festim, enquanto se toca música.  Ele sugeria que o sentido era mais lato: que frequentemente estragamos a música natural do mundo com as nossas arrogantes preocupações.

Fala-se muito, nestes dias, daquela misteriosa frase de Dostoyevsky, “A beleza salvará o mundo”. São João Paulo II e Alexander Solzhenitsyn já forneceram umas importantes reflexões sobre este tema. E de Bento XVI temos isto:

O encontro com a beleza pode tornar-se a ferida da seta que nos atinge no coração e, dessa forma, nos abre os olhos, de modo a que depois, com base nesta experiência, adoptamos os critérios para ajuizar e conseguimos avaliar correctamente os argumentos. Lembro-me de um concerto de música de Johann Sebastian Bach, em Munique, dirigido por Leonard Bernstein, depois da morte inesperada de Karl Rahner. Ao meu lado estava o bispo luterano Hanselmann. Enquanto se dissipava, triunfantemente, a última nota de uma das grandes Cantatas-Thomas-Kantor, olhámos um para o outro e dissemos espontaneamente: "Quem tenha ouvido isto sabe que a fé é verdadeira”.

Não estou inteiramente convencido. Bernstein e muitos outros músicos modernos parecem transformar a própria da música num ídolo, e duvidam do próprio Deus por detrás da música em quem tantos dos grandes compositores acreditavam.

Mas numa coisa Bento XVI tem razão, nomeadamente na importância da “ferida” que a beleza inflige ao coração e a importância que estas feridas têm em abrir-nos a realidades com as quais os nossos argumentos e a nossa lógica frequentemente lidam mal, ou ignoram.

Sempre que eu escrevo sobre este tipo de assunto, normalmente durante o Verão, ou noutras alturas em que conseguimos respirar um pouco mais fundo e pôr os olhos em reinos mais alargados, há alguém que me escreve a dizer que devia deixar-me destas mariquices, porque o que precisamos mesmo é de um partido político militante. De certa forma é verdade, precisamos de facto de uma Igreja Militante.

Mas também me lembro de Lenine, e da importância de dizer “coisas parvas e simpáticas” e do perigo de deixar que os bolcheviques interrompam a música e ditem toda a agenda para as nossas vidas.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 16 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Preconceito Anticristão Despercebido

Hoje em dia quando pensamos em cristãos perseguidos a maior parte de nós pensa em locais como a China, o Médio Oriente, ou estados pária como a Coreia do Norte, Venezuela ou Cuba. São casos apontados ocasionalmente, mas que recebem pouca publicidade nos media seculares. Normalmente são os meios de comunicação religiosos, católicos e protestantes, que se ocupam de nos manter informados sobre as dificuldades dos nossos correligionários no mundo moderno.

Mas existe toda uma outra dimensão de ameaças aos cristãos que passa praticamente despercebida. Sabemos que existe pressão sobre organizações religiosas e igrejas na América – bem como crentes isolados como floristas ou pasteleiros – para se acomodarem às tentativas do Estado ou das agências federais para impor uma nova ética sexual, ou para aplicar as leis que regulam o “discurso de ódio” ou o preconceito contra crentes.

Até agora o Supremo Tribunal tem sido bastante bom a proteger a liberdade religiosa. E se o Presidente Trump – como é provável – conseguir nomear para o tribunal mais um juiz (ou dois?) que seja sensível à importância das defesas constitucionais da liberdade religiosa, poderemos ter protecção a longo prazo do constante ruído anticristão nas universidades, nos media e em Hollywood.

Há anos que tenho conhecimento da existência de problemas semelhantes na Europa, onde normalmente não existem as mesmas protecções ou recursos jurídicos que nós temos ao abrigo da Primeira Emenda. Mas não tinha noção da verdadeira extensão dos problemas que lá existem – e penso que poucos terão – embora agora tenhamos um excelente instrumento com o qual os podemos medir.

O Observatório de Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa publicou um relatório de 74 páginas, relativo a 2018, que nos abre verdadeiramente os olhos (podem lê-lo online, aqui). Não se trata simplesmente de uma compilação de queixas ou de reacções exageradas aos choques típicos de sociedades pluralistas. Fornece um retrato de um problema extensivo que deve interessar a toda a gente que se importa com a liberdade, incluindo a liberdade religiosa.

Uma das coisas mais marcantes do relatório é o cuidado com que foi elaborado, a começar pelos termos que o definem: “O termo ‘intolerância’ refere-se à dimensão social ou cultural e, no pior caso, inclui crimes de ódio contra cristãos; o termo ‘discriminação’ refere-se à dimensão legal e inclui interferências com a liberdade de expressão, religião, consciência, livre associação e reunião, direitos paternais, liberdade contratual, remoção de símbolos cristãos pelo Governo, leis que afectam os cristãos de forma negativa e acesso desigual à justiça”.

Ao ler este parágrafo ficamos espantados por saber que estas coisas estão a acontecer na Europa, hoje. O observatório cita o Papa Francisco que diz que existem dois tipos de perseguição anticristã. A primeira é aberta, como se vê em locais como o Paquistão, e é clara, explícita e inegável. A segunda é “perseguição bem-educada (…) disfarçada de cultura, de modernidade ou de progresso”.

O relatório também divide a perseguição na Europa em duas categorias com nomes mais coloquiais: “Apertar” e “esmagar”. Os apertos estão a transformar-se num fenómeno internacional, como se vê por estas discrições, que têm paralelos na América: “Em França, um farmacêutico foi sancionado por se recusar a vender um DIU, um aparelho abortivo. Parteiras suecas que se recusam a participar em abortos perderam os recursos por despedimento injustificado e tiveram de pagar custas de tribunal. Um lar católico na Bélgica foi multado por impedir que os médicos administrassem uma injecção letal e outro na Suíça foi ordenado a permitir o suicídio assistido nas suas instalações, sob pena de perder os apoios estaduais”.

Isto já é mau em si. Mas os casos de esmagamento são ainda mais preocupantes. Muitos envolvem ataques por parte de muçulmanos a membros do clero ou a pessoas que ostentam cruzes ou outros artefactos religiosos. Se apenas ouve as notícias dos media generalistas, dificilmente saberia que estas coisas acontecem, a não ser que surja um caso impossível de ignorar, como o assassinato, em 2016, do padre Jacques Hamel, em França, às mãos de dois extremistas muçulmanos.

Mas não são apenas os muçulmanos. A maior parte do relatório do Observatório descreve mais de 500 casos de intolerância e discriminação, acompanhados de links que lhe permitem ver o que se passou em maior detalhe.

Um dos sinais da seriedade de tudo isto é que o Observatório não se contenta meramente em relatar estes abusos, mas faz sugestões concretas sobre o que poderá ajudar a contrariar aquilo que parece ser uma moda em crescimento. Duas dessas sugestões chamaram-me a atenção e são cruciais para sociedades onde se tornam cada vez mais aceitáveis atitudes anticristãs: “Os líderes de opinião devem ter noção da sua responsabilidade em formar um discurso público tolerante, e devem evitar estereotipar negativamente os cristãos ou o cristianismo. Os artistas devem respeitar os locais e os símbolos religiosos, tendo em conta que o objecto da sua arte poderá ser muito sagrado para os fiéis”.

Isto já seria muito bom, claro, embora os nossos intelectuais antirreligiosos não devam levar tais conselhos muito a peito. No fim das contas, porém, são as autoridades públicas, a todos os níveis, que devem ser confrontadas com as provas dos seus próprios preconceitos e erros. E devem ser obrigados a não os esquecer.

No caso americano da Masterpiece Cakeshop o nosso Supremo Tribunal notou, correctamente, a hostilidade aberta revelada pelo comissários dos direitos civis do Colorado para com o pasteleiro que se recusou a criar um bolo especial para um casamento gay. Desde então algumas pessoas comentaram que a decisão do tribunal não representou propriamente uma vitória, porque deu a entender que o tribunal só agirá quando existirem provas de preconceito anticristão aberto.

É bom que tenhamos isso em conta, uma vez que vão surgir outros casos parecidos. Mas os nossos amigos europeus fizeram bem em denunciar governos, a todos os níveis, por permitir discriminação subtil e – como temos visto nos Estados Unidos – o abuso de leis contra a discriminação para discriminar os cristãos.

Não vai ser uma batalha fácil. Mas quanto mais nós fizermos em termos de registar e denunciar o tipo de abusos identificados pelo Observatório, mais difícil será para os preconceituosos anticristãos.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Coelhos fora-da-lei e heróis dos nossos dias

Cabeça de coelho ilegal na Áustria
Morreu D. António Santos, bispo emérito da Guarda. O funeral foi hoje.

Foi homenageado o polícia francês que deu a vida pelos reféns no caso de terrorismo da semana passada. Conheça também a história da menina nigeriana que recusou converter-se ao Islão e por isso continua refém do Boko Haram. Heróis dos nossos dias.

Continuamos na expectativa de saber se vai, ou não, haver acordo entre a China e o Vaticano. Entretanto os sinais que chegam não são os mais positivos, com mais um caso de um bispo leal a Roma detido.

Uma portuguesa entregou esta quarta-feira um presente muito original ao Papa Francisco. Veja aqui as imagens.

A Áustria aprovou o ano passado uma lei anti-burqa. Até agora foram advertidos turistas asiáticos, esquiadores e até a mascote do Parlamento. Um fracasso total, diz a polícia.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Robert Royal reflecte sobre o encontro pré-sinodal que teve lugar em Roma a semana passada e pesa os prós e os contras desta forma de pastoral juvenil. Uma análise interessante que vale a pena ler.

Duas Juventudes

No passado Domingo de Ramos, 2.500 alunos de 150 universidades em todo o mundo reuniram-se em Roma para o UNIVFORUM 2018, um encontro de uma semana para aprofundar a compreensão do catolicismo e a sua relação com o futuro do mundo. O Opus Dei tem organizado encontros do género desde 1968. Os delegados participarão numa audiência papal a apresentarão ao Santo Padre dinheiro que angariaram para caridade, bem como um mosaico de Maria, Mãe da Igreja (para os cristãos na Síria). As suas deliberações terminam no Domingo de Páscoa.

Estes não são, convém deixar claro, os 305 jovens delegados convidados pelo Papa Francisco para o encontro pré-sinodal que decorreu no Vaticano na semana passada, que eu descrevi noutro artigo. Esses jovens concluíram as suas actividades no mesmo Domingo de Ramos, apresentando ao Papa um relatório nalguns pontos útil, noutros previsivelmente contraditório e heterodoxo, em particular na esperança de que a doutrina da Igreja se possa adaptar de certa forma – independentemente das Escrituras, da tradição e das próprias palavras de Jesus – aos actuais modos de vida, em claro contraste com o Cristianismo histórico.

Resumindo, nestas duas semanas antes da Páscoa tivemos, em Roma, duas visões muito diferentes de como abordar os jovens. Admitamos, por uma questão de justiça, que ambas têm vantagens e desvantagens.

A UNIVFORUM 2018, como quase tudo o que é organizado pelo Opus Dei, é um evento bem pensado, com um enfoque claro. Inclui organizações e indivíduos que o meu colega George Weigel defende deviam estar presentes no sínodo de Outubro, pelas provas dadas em termos de sucesso de pastoral juvenil. O programa deste ano olha de forma particular para o Maio de 1968, com as suas expectativas utópicas, e pergunta se, meio-século mais tarde, as promessas de liberdade e felicidade humanas foram cumpridas.

Em contraste, a reunião pré-sinodal juntou um grupo heterogéneo (jovens católicos sérios, jovens católicos confusos, não crentes e até alguns muçulmanos). Alguns temas polémicos entraram na discussão, como por exemplo o apelo por mulheres cardeais, feito por defensores da ordenação feminina, mas em geral os delegados reflectiram os muitos temas que se esperaria ouvir de um encontro de jovens: um maior desejo por acompanhamento no desenvolvimento da fé (sem uma Igreja moralista ou julgadora), o papel das mulheres na Igreja, justiça social e alguma discordância quanto ao ensinamento da Igreja sobre sexo, casamento, homossexuais e celibato sacerdotal. Também houve questões sobre a própria existência de Deus e esperança de que a Igreja consiga explicar melhor a doutrina ou as escrituras. Alguns querem um acompanhamento mais próximo por parte da Igreja, outros temem que esse acompanhamento possa limitar a sua liberdade.

Temos aqui dois pontificados em operação. No evento do Opus Dei temos algo como a abordagem de João Paulo II no início de Veritatis Splendor, em que de evoca o “jovem rico” dos Evangelhos que pergunta a Jesus o que deve fazer para ter a vida eterna. A resposta, claro está, é deixar tudo e segui-lo. O enfoque principal é trabalhar sobretudo com jovens já comprometidos com a Igreja e ajudá-los a comprometer-se ainda mais para, só então, sair para convencer outros.

A segunda abordagem, do Papa Francisco, parte do princípio que muitos já abandonaram a Igreja porque também eles não gostam do que Jesus pede. Mas outros porque ainda ninguém lhes desafiou, ou porque não compreenderam bem. Ou então por causa de obstáculos colocados no seu caminho pela própria Igreja, que precisam de ser removidos.

Francisco costuma convidar as pessoas a falar sem medo e sem hesitações, pensando que “sempre se fez assim”. Esse convite ajuda-os a sentirem-se parte de um processo e traz assuntos à superfície. Mas também é um risco, pois ameaça virar as questões ao contrário. Uma boa parte dos participantes do encontro pré-sinodal – com pouca experiência de Deus ou do mundo – sentem-se menos chamados a mudar-se a si mesmos e mais a dizer; bem, se não é preciso fazer as coisas como sempre foram feitas, então é sobretudo a Igreja que deve mudar.

E deve, como devemos todos, se tenciona manter-se viva. A questão está em saber como. O grande Cardeal Newman costumava dizer que “a mudança é prova de vida e ser perfeito é ter mudado muito”. Mas há uma diferença entre uma mudança que conserva e enaltece fielmente e mudança que transforma em algo fundamentalmente diferente. Esse tipo de perspectiva desempenha um papel menor no relatório dos jovens. E não admira, porque da parte dos adultos houve pouco encorajamento por valores como a fidelidade e a verdade. A ênfase foi para que os jovens falassem na sua própria voz – uma categoria em tempos reservada a grandes poetas e romancistas, o que significou, como é costume com jovens, que a maioria dos delegados se limitou a ecoar aquilo que tem ouvido dos seus pares.

Papa Francisco com os jovens no encontro pré-sinodal
Há aqui muita coisa que não deve admirar os padres sinodais. Alguns jovens estão a sugerir que este documento mudará o rumo da Igreja. Um escreveu mesmo no Twitter que “Se este documento não resultar numa mudança sísmica em como ministramos a, e com, os jovens, então não está a ser lido correctamente”.

Mudanças sísmicas, mudanças de paradigma – na era das redes sociais há uma grande tentação de dramatizar, mesmo que se trate de um relatório de um comité de jovens, após um breve encontro com outros, previamente desconhecidos uns dos outros, e sugestões de 15 mil seguidores do Facebook. 

Mas o terreno não mudou e, recordemos, o objectivo não é simplesmente melhor pastoral juvenil. O que queremos sempre saber é se mais jovens vão ser conduzidos a Jesus Cristo – o verdadeiro, das Escrituras, preservado pelo Espírito Santo no seu Corpo Místico, a Igreja.

O acompanhamento costumava significar família, depois paróquia e comunidade. Os jovens reconhecem isto no seu relatório – bem como a crise das famílias, o futuro incerto de muitas paróquias e a hostilidade do Estado moderno para com a religião em geral e o Catolicismo em particular. Eles compreendem que algo tem de ser feito para compensar o desaparecimento de velhas formas de formar identidade, mas não sabem bem o quê.

E aqui está outro dilema: será que se pode beneficiar da força da Fé se rejeitar os necessários juízos não de pessoas, mas de verdade e falsidade, de coisas que exigem uma decisão? Coisas que podem restaurar a família, paróquia, sociedade, uma vez que estes não têm substitutos? Se a Igreja não der uma mão orientadora firme – se querem que ela lá esteja (como os pais) se falharem, mas não querem seguir os seus conselhos – então que utilidade terá para a maioria dos crentes?

O Papa Francisco publicou recentemente o livro “Deus é Jovem”, que reflecte, em parte a famosa fórmula de Santo Agostinho sobre a beleza de Deus: tam antiqua, tam nova, “sempre antiga, sempre nova”. Os jovens que vieram a Roma a semana passada alcançaram algo de valor real, embora parcial. Resta ver se os adultos, adultos responsáveis, conseguem retirar daí algo de bom em Outubro.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Março de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Freira apela ao Papa e Fátima estudada

Bispo banglo-português
Surgiu um vídeo de uma religiosa colombiana que foi sequestrada no Mali pela Al-Qaeda. A freira pede ao Papa que intervenha pela sua libertação.

Cumpre-se este ano meio milénio da evangelização do Bangladesh. Leia esta entrevista ao bispo D’Cruze, sobre a realidade daquela igreja.

O Santuário de Fátima firmou uma parceria com instituições de ensino superior para aprofundar o estudo do fenómeno.

A fundação Betânia vai dar resposta ao problema da demência, em Bragança.

As relações entre Roma e a China estão a dar que falar. Esta semana Robert Royal, do The Catholic Thing, escreve sobre esse assunto, com uma perspectiva que vale a pena conhecer. Não deixem de ler, porque isto ainda vai fazer correr muita tinta.

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