sexta-feira, 20 de julho de 2018

Santidade em Fátima e lixo em São Tomé

Santificação em acção em Fátima
Ontem estive em Fátima no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. O ambiente é, de facto, muito especial!

Pude entrevistar o bispo iraquiano Georges Casmoussa, que falou da necessidade de perdão mesmo em casos de perseguição extrema e disse que a reconciliação no Iraque tem de ser liderada por leigos.

Hoje publicamos uma entrevista com o presidente da Conferência Episcopal do Brasil, que também está no encontro. D. Sérgio Rocha elogia o papel das Equipas para redescobrir a alegria do casamento e, noutro tema, diz que é cedo para se saber o sínodo da Amazónia, no próximo ano, irá aprovar a ordenação de homens casados.

Cabinda tem um novo bispo. Saiba porque é que isso é mais interessante do que possa parecer à primeira vista…


E saiba aqui como é que pode ajudar os Leigos pelo Desenvolvimento a comprar um carro de recolha de lixo para São Tomé!


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Henri Caffarel, rogai por nós

Continua a decorrer em Fátima o Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora, que hoje recebeu a visita do cardeal Peter Turkson, que explicou aos presentes porque é que a nossa dignidade não advém das Nações Unidas, mas sim de Deus.

E também hoje ficámos a saber que embora várias graças tenham sido já atribuídas à intercessão do fundador das ENS, Henri Caffarel, ainda falta um milagre cientificamente verificável para avançar com a sua beatificação. Por isso já sabem, tudo a rezar por intercessão dele e, caso não conheçam o seu legado, investiguem e leiam, que vale bem a pena.

Se é como eu, então por vezes deve-se sentir cansado de um clima social, político e até eclesial que parece ser de constante conflito e onde, sobretudo, parecemos estar sempre à defesa e em recuo. Robert Royal, fundador e editor do The Catholic Thing também compreende esse sentimento e é sobre isso, nomeadamente sobre a necessidade de não deixar que as nossas vidas sejam sufocadas por esse ambiente, que ele escreve hoje. O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é para ser lido ao som de música clássica.

Noli impedire musicam

Lenine – que deu ao mundo a máquina de extermínio socialista conhecida por União Soviética – era um amante de música enquanto esteve no exílio. Quando regressou à Rússia, para dar início à Revolução Bolchevique, disse que já não era capaz de ouvir música. “Afecta-nos os nervos, faz-nos querer dizer coisas parvas e simpáticas e fazer festinhas na cabeça de pessoas capazes de criar tanta beleza enquanto vivem neste vil inferno”.

Sempre houve, e sempre haverá, aquele tipo de amante radical da humanidade que está disposto a sacrificar “dizer coisas parvas”, ou mesmo sacrificar pessoas, em nome de algum esquema marado que acabará por tornar o nosso mundo decaído ainda mais vil. Mas há aqui uma lição para nós, sobretudo os que vivem em sociedades ricas e ultra-tolerantes, que podem sucumbir à tentação de pensar que todas as suas vidas devem ser consumidas por guerras culturais, políticas ou espirituais.

Esta tentação é particularmente forte para pessoas em posições como a minha, pelo que é necessário sempre tomar medidas activas, de outra natureza. Da minha parte, tento tocar piano todas as manhãs pelo menos meia-hora, pois isso recorda-me – ainda que não tenha esse efeito sobre quem me ouve – de que a Criação de Deus é harmonia, uma harmonia discordante, por certo, mas definitivamente uma concórdia de criaturas e não um estado de guerra perpétua.

Muitas pessoas enviam-me livros, livros bons, sobre o estado de confusão actual em que vivemos. Agradeço, mas como estou sempre envolvido em leituras pesadas para vários projectos de escrita, muitas vezes não consigo chegar a estes livros, nem agradecer as ofertas. Esta semana, contudo, recebi um livro de um generoso mecenas do The Catholic Thing que me chamou a atenção: Spiritual Lives of the Great Composers [A Vida Espiritual dos Grandes Compositore] de Patrick Kavanaugh, um compositor que é também director do Christian Perfoming Arts Fellowship.

Trata-se de um relato claro e sucinto das crenças religiosas de vinte compositores clássicos de renome, desde Bach a Messiaen, passando por muitos outros grandes nomes. É um registo maravilhoso de como o espírito e a música andaram tão próximos na cultura ocidental, até há bem pouco tempo.

O grande Johann Sebastian Bach, por exemplo, não teve qualquer dificuldade em ver uma interligação entre Deus e a música, tendo dito: “O único propósito da Música deve ser para a glória de Deus e a recreação do espírito humano”. Músico humilde, embora prodigioso (chegou a caminhar 200 milhas para ouvir o então famoso organista Dieterich Buxtehude), costumava assinalar as suas folhas com J.J. (Jesus Juva – “Jesus ajuda”), antes de compor.

Há exemplos semelhantes do mesmo período. Certa vez um criado interrompeu Georg Friedrich Handel enquanto terminava o refrão do Aleluia, para o Messias, e encontrou-o em lágrimas: “Acredito que vi todo o Céu à minha frente, e o próprio Senhor”. (Incrivelmente, se descontarmos a inspiração divina, Handel produziu toda esta obra de evangelização sonora em apenas 24 dias).

Georg Friedrich Handel
Estes músicos viviam em paz e confiantes na sua fé cristã. Kavanaugh não elabora muito sobre a época em que viveram, mas é significativo que eles podiam atribuir a sua obra aos dons de Deus, apesar do facto de muitos deles terem vivido ao mesmo tempo que grandes figuras anticristãs do Iluminismo, como Diderot, Hume e Voltaire. É o género de coisa que não encontramos na maioria dos textos sobre as nossas raízes no Iluminismo do século dezoito.

Claro que Bach e Handel eram protestantes, mas é interessante, e pouco conhecido, que muitos dos maiores compositores clássicos ao longo dos séculos tenham sido católicos (em diferentes graus): Haydn (o mais firme e ortodoxo de todos), mas também Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Chopin, Bruckner, Gounod, Dvorak, Elgar e Messiaen. Stravinsky, talvez o melhor compositor do Século XX, era ortodoxo russo, mas compôs uma missa e outras músicas sacras. Apesar das suas diferenças, estavam praticamente todos unidos na crença de que a inspiração derivava de, e regressava a, o próprio Criador.

O poeta católico moderno Paul Claudel gostava de usar a frase noli impedire musicam (“Não interrompas a música”), uma referência a Eclesiástico 32,3 sobre a importância de não falar durante um festim, enquanto se toca música.  Ele sugeria que o sentido era mais lato: que frequentemente estragamos a música natural do mundo com as nossas arrogantes preocupações.

Fala-se muito, nestes dias, daquela misteriosa frase de Dostoyevsky, “A beleza salvará o mundo”. São João Paulo II e Alexander Solzhenitsyn já forneceram umas importantes reflexões sobre este tema. E de Bento XVI temos isto:

O encontro com a beleza pode tornar-se a ferida da seta que nos atinge no coração e, dessa forma, nos abre os olhos, de modo a que depois, com base nesta experiência, adoptamos os critérios para ajuizar e conseguimos avaliar correctamente os argumentos. Lembro-me de um concerto de música de Johann Sebastian Bach, em Munique, dirigido por Leonard Bernstein, depois da morte inesperada de Karl Rahner. Ao meu lado estava o bispo luterano Hanselmann. Enquanto se dissipava, triunfantemente, a última nota de uma das grandes Cantatas-Thomas-Kantor, olhámos um para o outro e dissemos espontaneamente: "Quem tenha ouvido isto sabe que a fé é verdadeira”.

Não estou inteiramente convencido. Bernstein e muitos outros músicos modernos parecem transformar a própria da música num ídolo, e duvidam do próprio Deus por detrás da música em quem tantos dos grandes compositores acreditavam.

Mas numa coisa Bento XVI tem razão, nomeadamente na importância da “ferida” que a beleza inflige ao coração e a importância que estas feridas têm em abrir-nos a realidades com as quais os nossos argumentos e a nossa lógica frequentemente lidam mal, ou ignoram.

Sempre que eu escrevo sobre este tipo de assunto, normalmente durante o Verão, ou noutras alturas em que conseguimos respirar um pouco mais fundo e pôr os olhos em reinos mais alargados, há alguém que me escreve a dizer que devia deixar-me destas mariquices, porque o que precisamos mesmo é de um partido político militante. De certa forma é verdade, precisamos de facto de uma Igreja Militante.

Mas também me lembro de Lenine, e da importância de dizer “coisas parvas e simpáticas” e do perigo de deixar que os bolcheviques interrompam a música e ditem toda a agenda para as nossas vidas.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 16 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Equipistas aos milhares em Fátima

Está a decorrer, desde ontem, o encontro das Equipas de Nossa Senhora.

O Papa enviou uma mensagem aos participantes, que salvo erro não existe publicada em lado nenhum, se não aqui no meu blog, tanto em português como numa tradução minha para inglês.

Entre os participantes há milhares de casais como o Luís e a Waleska Silva e todos os dias começam com uma reflexão conduzida pelo padre Tolentino Mendonça, recém-nomeado arcebispo.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre aprovou 40 projetos para ajudar os cristãos na Síria, no valor de cerca de três milhões de euros.

E ontem saíram as nomeações de padres para Lisboa, sendo que a principal surpresa é o facto de os jesuítas assumirem a paróquia da Encarnação.


Mensagem do Papa para o Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora

O Papa Francisco escreveu uma mensagem aos participantes no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. A mensagem foi lida em português, durante a cerimónia de abertura, pelo núncio apostólico Rino Passigato. O texto não foi divulgado, pelo que isto é uma transcrição da mensagem lida, com base na filmagem feita pela organização. Caso exista algum erro, fruto da má qualidade do som em algumas partes do vídeo, peço desculpa.

Acolhendo de bom grado o pedido de bênção para os participantes do 12º Encontro Internacional das ENS que se realiza em Fátima, sobre o tema “O Filho Pródigo”, o Papa Francisco saúda-vos fraternalmente, recordando a todos e cada um que a Igreja condena o pecado, porque deve dizer a verdade, mas ao mesmo tempo agraça o pecador que se reconhece como tal, aproxima-se dele, fala-lhe da Misericórdia infinita de Deus.

Que grande alegria e esperança nos dá a parábola do Filho Pródigo. Nela não se fala apenas de acolhimento e de perdão, mas também da festa pelo filho que regressa. O Santo Padre convida todos e cada um a rever-se naquele filho extraviado que voltou e a quem o pai não se cansa de abraçar e repor na sua grandeza de filho.

Comovidos por tão grande benevolência, deixem o coração falar: “É verdade, Senhor, sou um pecador, uma pecadora. Sinto-me tal e tenho a certeza de o ser. Deixei-me enganar de mil maneiras, fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de vós. Resgatai-me de novo Senhor. Aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores".

Aqueles braços abertos na Cruz provam que ninguém é excluído do amor do pai e da sua misericórdia. Ele não quer, nem se resigna a, perder ninguém. Marido, esposa, pais e filhos, bem sabem que aos olhos de Jesus não há pessoas definitivamente perdidas, mas apenas pessoas que devem ser reencontradas, e ele impele-nos a sair à procura delas. Porque se queremos encontrar o Senhor, temos de o procurar não onde nós pretendemos encontrá-lo, mas onde ele nos quer encontrar, e o pastor só pode ser encontrado onde está a ovelha perdida. Fazendo saber que vai à procura da ovelha perdida, ele provoca as outras 99 para que participem na reunificação do rebanho e, se assim procederem, não só a ovelha trazida aos ombros, mas todo o rebanho acompanhará o pastor até casa para fazer a festa com os amigos e os vizinhos.

Então, “tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor. Podemos dizer-Lhe: A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração.”*

Assim consagrados aos corações misericordiosos de Jesus e Maria, podem contar com a sua graça, a mesma graça que há cento e um anos, na pessoa da Virgem Mãe de Deus, refugia os olhos dos três pastorinhos e mudou as suas vidas, para salvarem os pecadores.

Com votos de que a paixão com que estes o fizeram se apodere dos esposos, pais, filhos membros das Equipas de Nossa Senhora, semeadas pelo mundo inteiro, o Papa Francisco concede a sua bênção, extensiva aos assistentes espirituais e orientadores de retiros e encontros.


*Da oração do Papa Francisco na Capelinha das Aparições, durante a sua visita pastoral de 2017.

Pope Francis’ Message to the International Meeting of the Teams of Our Lady

Núncio Rino Passigato, reading the Pope's message
This is my own translation of the Pope's message to the participants of the International Meeting of the Teams of Our Lady. The message was read out during the opening ceremony by Papal Núncio to Portugal, Rino Passigato. It was read out in Portuguese, and the text has not been made available, so this translation is based on the audio as read out by the Núncio and filmed by the organisation of the meeting. I appologise for any error that it might therefore contain.

Having received the request for a blessing for the participants of the 12th International Meeting of the Teams of Our Lady, which is taking place in Fátima, under the theme: “The Prodigal Child”, Pope Francis sends you brotherly greetings, reminding all of you that the Church condemns the sin, because it must speak the truth, but at the same time graces the sinner who recognizes himself as such, draws close to him and speaks to him of the infinite mercy of God.

What joy and hope we find in the parable of the Prodigal Child. It speaks not only of welcoming and forgiveness, but also of the celebration for the child who returns. The Holy Father invites all of us to see themselves in that lost child who returned and whom the father does not tire of embracing and returning to his position of son.

Moved by such goodness, let the heart speak: “It is true, Lord, I am a sinner. I feel myself as such, and am sure of it. I let myself be fooled in thousands of different ways, I ran from your love, but here I am again to renew my covenant with you. I need you. Rescue me again, Lord. Receive me once more into your redeeming arms”.

The open arms on the Cross prove that none are excluded from the love of the father and His mercy. He neither wants, nor resigns himself, to losing anybody. Husband, wife, parents and children, know well that in the eyes of Jesus there is no such thing as people who are definitely lost, only people who need to be found once more, and He encourages us to go in search of them. Because if we want to find the Lord we must search out not in the places where He is, but where He wishes to find us, and the shepherd can only be found by the lost sheep. By letting them know that He is going to search for the lost sheep, he provokes the other 99 into participating in the reunification of the flock and, if they do so, not only the sheep carried back, but the whole flock can follow the shepherd home to celebrate with friends and neighbors.

Hand in hand with the Virgin Mother, and under her watchful gaze, may we come to sing with joy the mercies of the Lord, and cry out: “My soul sings to you, Lord!” The mercy you have shown to all your saints and all your faithful people, you have also shown to me. Out of the pride of my heart, I went astray, following my own ambitions and interests, without gaining any crown of glory! My one hope of glory, Lord, is this: that your Mother will take me in her arms, shelter me beneath her mantle, and set me close to your heart."*

Thus consecrated to the merciful hearts of Jesus and Mary, you can count on His grace, that same grace which one hundred and one years ago, through the Virgin Mary, was reflected in the eyes of the three shepherd children and changed their lives, for the salvation of sinners.

In the hope that the passion with which they did so should fill all the couples, parents, children and members of the Teams of Our Lady spread out through the whole world, Pope Francis bestows on you his blessing.

*From the Pope's prayer in the chapel of the apparitions, in Fátima, during his pastoral visit, in 2017.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Casais aproximam-se de Fátima, SSPX afastam-se Roma

O Papa Francisco escreveu pessoalmente ao Patriarca de Lisboa para agradecer a sua nota a propósito da aplicação do Amoris Laetitia, no que diz respeito ao acesso aos sacramentos por parte de casais em situação irregular. Tanto quanto sei é apenas a segunda vez que o Papa tem um gesto destes.

Começa já na próxima segunda-feira o encontro internacional das Equipas de Nossa Senhora, em Fátima. Esperam-se cerca de 10 mil pessoas. Saiba tudo aqui.

Faz este ano 60 anos que D. António Ferreira Gomes fez frente a Salazar, acabando por ser exilado. O Cónego Arnaldo de Pinho considera que o bispo teve razão no seu tempo. Uma entrevista a ler.

E a Sociedade de São Pio X dá mais um passo para longe de Roma, com a escolha surpreendente de um novo superior geral da ala dura, que se opõe às negociações com a Santa Sé.


Pope Francis' letter of thanks to Patriarch of Lisbon on Amoris Laetitia note

The Patriarchate of Lisbon made public a letter, this Thursday, from Pope Francis to Patriarch D. Manuel Clemente. This follows the publication by the Patriarch of Lisbon, last February, of a note on the application of chapter VIII of Amoris Laetitia

Beloved Brother Cardinal
D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente
Patriarch of Lisbon

I am writing to thank you for having sent me, during the past Lent, the Note you addressed to the priests of the Patriarchate concerning the application of the VIII Chapter of the Apostolic Exhortation Amoris Laetitia.

This deep reflection of yours filled me with joy, as I recognised in it the effort of a pastor and father who, aware of the duty to accompany his faithful, wished to begin with his priests so that they can better fulfil their ministry.

Today, the reality of married life is one of the fields where this accompaniment is most delicate and necessary. That is why I wished to call the Bishops to a long synodal path which might prove propitious – despite the inevitable difficulties – to the maturing of shared guidelines which would benefit the entire People of God.

Therefore, in expressing my gratitude, I would like to take advantage of the opportunity to encourage my Brother Cardinal and his collaborators in the pastoral ministry – in primis the priest – to carry on, with wisdom and patience, in their commitment to accompany, discern and integrate the fragility which shows itself in many forms in couples and their ties. A commitment which, on one hand, requires considerable effort on the part of us pastors, but which , on the other, regenerates us and sanctifies us, as everything is animated by the grace of the Holy Spirit which the Risen Lord bestowed on his apostles, for the remission of sins and the solicitous caring of all wounds.

While joyfully sharing with you, beloved Brother, this sweet and demanding mission, I assure you of your presence in my prayers and, asking that you pray for me also, bless you from my heart, together with your priests and the entire diocesan community of the Patriarchate of Lisbon.

Vatican, 26th June 2018
Franciscus

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Arrupe ao altar e Aga Khan a festejar

Vem aí mais um santo jesuíta? Soube-se hoje que a causa de canonização de Pedro Arrupe foi aberta.

Vila Viçosa acolhe, a partir de amanhã, o “Instituto da Padroeira de Portugal”. Saiba tudo aqui.

Lisboa acolhe, por estes dias, os festejos do jubileu de prata do Aga Khan. A Renascença falou sobre este assunto com a investigadora Faranaz Keshavjee.

E estamos todos muito satisfeitos com o resgate das 12 crianças tailandesas! E bem. Mas o que é que esta operação diz sobre a natureza humana? Mais do que possa imaginar. Tudo aqui, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português, não perca.

Farei de vós Pescadores de Javalis

Michael Pakaluk
Que todos os javalis se salvem! – Esta minha oração, a que se juntam as de muitos outros, terá obtido, se Deus quiser, resposta quando ler estas linhas.

Os Javalis são a equipa de 12 rapazes e o seu treinador, que ficaram presos pelas águas das monções numa pequena câmara, quatro quilómetros no interior de uma rede de grutas no norte da Tailândia. É preciso alguma imaginação para apreciar o drama da coisa.

As grutas são escuras como o breu, sem pinga de luz. As passagens não foram limpas nem polidas para poderem receber turistas, assemelham-se mais a caminhos rigorosos ao longo de escarpas. 

Não é raro encontrar pequenas fendas pelas quais só se consegue passar se dobrar o corpo exactamente da forma correcta. Agora imaginem tudo isso, mas debaixo de água fria, com correntes fortes. Pense na sua caminhada favorita junto a uma falésia, e agora imagine-se a percorrer essa mesma distância, mas nadando, em escuridão total, através de caminhos estreitos, contra a corrente. Porque é isso que é preciso para os tirar de lá. Entretanto têm estado aninhados numa pequena saliência daquela pequena câmara, com o oxigénio a esgotar-se.

Poderia ter sido um grupo de rapazes qualquer, mas são uma equipa de futebol. Este facto pode não significar muito para si, mas não se esqueça que 40% da população mundial tem estado a acompanhar, nos últimos dias, o maior evento desportivo do planeta, o campeonato do mundo de futebol.

Os rapazes entraram para a gruta quase em simultâneo com o primeiro jogo do campeonato. O presidente da FIFA já convidou os Javalis para assistirem à final em Moscovo, no domingo, se estiverem bem de saúde. Não haveria melhor forma de chamar a atenção do mundo para tudo o que têm passado.

O conceito cristão de providência diz-nos que este tipo de provação pública não acontece apenas por acidente, mas são desígnios do plano de Deus que servem para nos ensinar algo. É por isso que podem servir de inspiração para arte de boa qualidade (ou de menor qualidade) como “O Naufrágio do Deutschland”, “No Ar Rarefeito”, “Titanic” e “O Endurance”.

Nosso Senhor dá-nos um exemplo disto: “E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” (Lucas 13:4,5)

Então o que podemos aprender da provação dos Javalis, para além da necessidade de arrependimento?

Aqui temos alguma liberdade criativa. Enquanto filósofo, gosto particularmente da combinação de imagens – uma gruta, debaixo de água. Muitos têm sentido que a vida envolve algum tipo de contenda, ou de teste. Platão concebeu-a na forma de caverna e desde então os filósofos têm apreciado a imagem.

A caverna de Platão era profunda e acidentada, não totalmente escura, mas iluminada por um fogo que lançava sombras. Em princípio era possível sair dela por si. Mas com um guia seria mais fácil e era preciso ser libertado por ele para poder sequer começar a viagem.

Cristo poderia ter usado a imagem da caverna, uma vez que estas abundam na Terra Santa. Mas em vez disso ele imaginou a salvação como um resgate da água, sendo o homem retirado de lá como um peixe. Isto é, em si, interessante.

As cavernas são, por natureza, lugares inóspitos à vida; a água é uma fonte de vida: assim, um homem que se afoga na água não está num lugar onde nenhum ser vivo deve estar, mas simplesmente onde nenhum ser humano deve estar. Mais, a sua salvação pode ser instantânea: basta retirá-lo da água. Aí poderá respirar, ficará ao sol. A ascensão através da água é secundária, uma vez que basta uma poça para se poder afogar. Para além disso, o tempo é limitado. Logo, a principal tarefa de um homem que se está a afogar não é esforçar-se por subir, mas deixar de esbracejar e aceitar a ajuda do Pescador de Homens.

E, no entanto, muitos dos nossos contemporâneos têm mais em comum com esta equipa de futebol. Precisam de ser pescados da água, sim, mas ao mesmo tempo vão-se colocando cada vez mais fundo na caverna. O seu resgate, nesse caso, requer uma combinação hábil de fé e de razão: um testemunho sacrificial de fé, ao ponto da morte, mas também as capacidades necessárias para encontrar passagens através das grutas escuras.

Esta é, para mim, a mais importante lição deste evento. Imaginem o homem abandonado numa saliência, dentro de uma caverna parcialmente inundada. A Igreja deve ir em seu auxílio. Mas será que ela já anteviu a necessidade de ter uma equipa de mergulhadores especialistas para o fazer? Será capaz de identificar os peritos “amadores” que verdadeiramente sabem como lidar com estas circunstâncias, ou aceitará a sua ajuda se eles se apresentarem como voluntários? Já teve apóstolos com essas características, mas precisa de mais.

Há muitas outras lições a retirar, que deixarei ao leitor, com uma excepção. A cooperação internacional que envolveu o resgate destes rapazes permite-nos retirar alguma ilação sobre a natureza humana?

Se a natureza da humanidade fosse de estado de guerra de todos contra todos, quando uma equipa de elite da marinha tailandesa nadasse quatro quilómetros através das águas escuras de uma caverna não para eliminar, mas para salvar, o grupo que lá se encontra, estaria a agir contra a natureza humana. O seu aparente heroísmo resultaria apenas da convenção e da ameaça de punição por incumprimento.

Mas claramente não é esse o caso, e gostamos de nos lembrar que assim é. Gostamos de histórias como esta, do resgate da caverna, porque nos mostra que os militares são, fundamentalmente, agentes de paz e porque a humanidade, não obstante o pecado e a morte, está enfim, em paz.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 10 de Julho de 2018)

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terça-feira, 10 de julho de 2018

Kavanaugh e Nicarágua

A Igreja da Nicarágua suspendeu o seu papel de mediadora na crise política, depois de dois bispos e o núncio apostólico terem sido agredidos por paramilitares.

No Japão o número de mortos devido às cheias não pára de subir. O Papa enviou ontem um telegrama de solidariedade com aquele país.

Donald Trump nomeou ontem um candidato para suceder ao resignatário Anthony Kennedy, no Supremo Tribunal. Trata-se de Brett Kavanaugh.

E o que é que isso tem a ver com actualidade religiosa? Tudo, como se explica aqui.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Preconceito Anticristão Despercebido

Hoje em dia quando pensamos em cristãos perseguidos a maior parte de nós pensa em locais como a China, o Médio Oriente, ou estados pária como a Coreia do Norte, Venezuela ou Cuba. São casos apontados ocasionalmente, mas que recebem pouca publicidade nos media seculares. Normalmente são os meios de comunicação religiosos, católicos e protestantes, que se ocupam de nos manter informados sobre as dificuldades dos nossos correligionários no mundo moderno.

Mas existe toda uma outra dimensão de ameaças aos cristãos que passa praticamente despercebida. Sabemos que existe pressão sobre organizações religiosas e igrejas na América – bem como crentes isolados como floristas ou pasteleiros – para se acomodarem às tentativas do Estado ou das agências federais para impor uma nova ética sexual, ou para aplicar as leis que regulam o “discurso de ódio” ou o preconceito contra crentes.

Até agora o Supremo Tribunal tem sido bastante bom a proteger a liberdade religiosa. E se o Presidente Trump – como é provável – conseguir nomear para o tribunal mais um juiz (ou dois?) que seja sensível à importância das defesas constitucionais da liberdade religiosa, poderemos ter protecção a longo prazo do constante ruído anticristão nas universidades, nos media e em Hollywood.

Há anos que tenho conhecimento da existência de problemas semelhantes na Europa, onde normalmente não existem as mesmas protecções ou recursos jurídicos que nós temos ao abrigo da Primeira Emenda. Mas não tinha noção da verdadeira extensão dos problemas que lá existem – e penso que poucos terão – embora agora tenhamos um excelente instrumento com o qual os podemos medir.

O Observatório de Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa publicou um relatório de 74 páginas, relativo a 2018, que nos abre verdadeiramente os olhos (podem lê-lo online, aqui). Não se trata simplesmente de uma compilação de queixas ou de reacções exageradas aos choques típicos de sociedades pluralistas. Fornece um retrato de um problema extensivo que deve interessar a toda a gente que se importa com a liberdade, incluindo a liberdade religiosa.

Uma das coisas mais marcantes do relatório é o cuidado com que foi elaborado, a começar pelos termos que o definem: “O termo ‘intolerância’ refere-se à dimensão social ou cultural e, no pior caso, inclui crimes de ódio contra cristãos; o termo ‘discriminação’ refere-se à dimensão legal e inclui interferências com a liberdade de expressão, religião, consciência, livre associação e reunião, direitos paternais, liberdade contratual, remoção de símbolos cristãos pelo Governo, leis que afectam os cristãos de forma negativa e acesso desigual à justiça”.

Ao ler este parágrafo ficamos espantados por saber que estas coisas estão a acontecer na Europa, hoje. O observatório cita o Papa Francisco que diz que existem dois tipos de perseguição anticristã. A primeira é aberta, como se vê em locais como o Paquistão, e é clara, explícita e inegável. A segunda é “perseguição bem-educada (…) disfarçada de cultura, de modernidade ou de progresso”.

O relatório também divide a perseguição na Europa em duas categorias com nomes mais coloquiais: “Apertar” e “esmagar”. Os apertos estão a transformar-se num fenómeno internacional, como se vê por estas discrições, que têm paralelos na América: “Em França, um farmacêutico foi sancionado por se recusar a vender um DIU, um aparelho abortivo. Parteiras suecas que se recusam a participar em abortos perderam os recursos por despedimento injustificado e tiveram de pagar custas de tribunal. Um lar católico na Bélgica foi multado por impedir que os médicos administrassem uma injecção letal e outro na Suíça foi ordenado a permitir o suicídio assistido nas suas instalações, sob pena de perder os apoios estaduais”.

Isto já é mau em si. Mas os casos de esmagamento são ainda mais preocupantes. Muitos envolvem ataques por parte de muçulmanos a membros do clero ou a pessoas que ostentam cruzes ou outros artefactos religiosos. Se apenas ouve as notícias dos media generalistas, dificilmente saberia que estas coisas acontecem, a não ser que surja um caso impossível de ignorar, como o assassinato, em 2016, do padre Jacques Hamel, em França, às mãos de dois extremistas muçulmanos.

Mas não são apenas os muçulmanos. A maior parte do relatório do Observatório descreve mais de 500 casos de intolerância e discriminação, acompanhados de links que lhe permitem ver o que se passou em maior detalhe.

Um dos sinais da seriedade de tudo isto é que o Observatório não se contenta meramente em relatar estes abusos, mas faz sugestões concretas sobre o que poderá ajudar a contrariar aquilo que parece ser uma moda em crescimento. Duas dessas sugestões chamaram-me a atenção e são cruciais para sociedades onde se tornam cada vez mais aceitáveis atitudes anticristãs: “Os líderes de opinião devem ter noção da sua responsabilidade em formar um discurso público tolerante, e devem evitar estereotipar negativamente os cristãos ou o cristianismo. Os artistas devem respeitar os locais e os símbolos religiosos, tendo em conta que o objecto da sua arte poderá ser muito sagrado para os fiéis”.

Isto já seria muito bom, claro, embora os nossos intelectuais antirreligiosos não devam levar tais conselhos muito a peito. No fim das contas, porém, são as autoridades públicas, a todos os níveis, que devem ser confrontadas com as provas dos seus próprios preconceitos e erros. E devem ser obrigados a não os esquecer.

No caso americano da Masterpiece Cakeshop o nosso Supremo Tribunal notou, correctamente, a hostilidade aberta revelada pelo comissários dos direitos civis do Colorado para com o pasteleiro que se recusou a criar um bolo especial para um casamento gay. Desde então algumas pessoas comentaram que a decisão do tribunal não representou propriamente uma vitória, porque deu a entender que o tribunal só agirá quando existirem provas de preconceito anticristão aberto.

É bom que tenhamos isso em conta, uma vez que vão surgir outros casos parecidos. Mas os nossos amigos europeus fizeram bem em denunciar governos, a todos os níveis, por permitir discriminação subtil e – como temos visto nos Estados Unidos – o abuso de leis contra a discriminação para discriminar os cristãos.

Não vai ser uma batalha fácil. Mas quanto mais nós fizermos em termos de registar e denunciar o tipo de abusos identificados pelo Observatório, mais difícil será para os preconceituosos anticristãos.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Carícias para D. António e falta de Confiança na ONU

Três dos novos padres
Portugal já tem um novo cardeal.

Ontem D. António Marto foi elevado ao cardinalato pelo Papa Francisco, dizendo-lhe que o cardinalato era uma “carícia” de Nossa Senhora para o bispo de Fátima.

D. António aproveitou o momento para exortar os portugueses a “prestar mais atenção aos esquecidos” e esta sexta-feira, na missa com os novos cardeais, o Papa alertou para os “triunfalismos vazios” na Igreja. Marcelo Rebelo de Sousa enviou um telegrama de parabéns.

O Parlamento aprovou um voto de louvor à nomeação do Padre Tolentino para bibliotecário do Vaticano. O Bloco e o PCP abstiveram-se, porque pelos vistos é contra os seus princípios dar os parabéns a padres.

Por falar em padres, esteve cá um iraquiano, envolvido na reconstrução das casas dos cristãos que foram perseguidos pelo Estado Islâmico. O padre Thabet lamenta a inacção da ONU naquela região.

Ser padre não lhes passava pela cabeça, agora andam de cabeção. Conheça os padres que vão ser ordenados no domingo, em Lisboa.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

De Tronco para o Trono?

(Clique para aumentar)
É já amanhã que Portugal “ganha” mais um cardeal. D. António Marto junta-se a D. Manuel Clemente, D. Manuel Monteiro de Castro e D. José Saraiva Martins. Destes apenas os primeiros dois são – ou serão – eleitores. Toda a cobertura, já sabe, na Renascença.

Em Tronco, aldeia natal D. António Marto, já se sonha com voos mais altos

Entretanto vão chegando reacções sobre outra nomeação importante, a do padre Tolentino a arcebispo e bibliotecário do Vaticano. D. Manuel Clemente revela-se “muito feliz” com o facto.

O Rei da Jordânia é o vencedor do Prémio Templeton deste ano.

A linha aérea nacional de Israel vai deixar de pedir a mulheres que mudem de lugar nos seus aviões para acomodar judeus ultraortodoxos que não queiram estar sentados ao lado de passageiras.

O movimento pró-vida precisa de se colocar acima das divisões confessionais e políticas se quer ter alguma esperança de obter vitórias duradoras. É a conclusão do artigo desta semana do The Catholic Thing, que todos devem ler.
                          
Termino com um convite a todos os que vivem na zona do Porto, para participarem na procissão do Triunfo, no próximo dia 14 de Julho. O convite está na imagem.

Tempo de Pregar aos Não Convertidos sobre o Aborto

Filip Mazurczak
Aqueles que acreditam no direito fundamental à vida tiveram duas grandes derrotas, em dois continentes diferentes, no espaço de menos de um mês. No dia 25 de Maio dois terços da população votou para revogar uma emenda constitucional que protege o direito à vida, abrindo caminho para aquilo que o Governo irlandês promete que vai ser uma das leis pró-aborto mais agressivas da Europa. Uma semana mais tarde o Congresso argentino votou por 129-125 a legalização do aborto até às 14 semanas de gravidez (para o diploma ganhar força de lei precisa de ser aprovado pela Câmara dos Deputados e ser promulgada pelo Presidente).

Claramente os pró-vida estão a perder a batalha de defesa da vida dos nascituros. Para ganharmos no longo prazo precisamos de criar um consenso social de que os nascituros merecem o direito à vida, um consenso que transcende as divisões políticas e religiosas.

O desastre irlandês tem sido apresentado como prova do recuo da Irlanda das suas raízes católicas, desde os anos 90. Na Argentina ainda há esperança de que a Câmara dos Deputados, que é mais conservadora que o Congresso, possa impedir a legalização do aborto. Mas mesmo que isso aconteça, há uma forte probabilidade de que seja uma vitória efémera: as sondagens mostram que 60% dos argentinos apoiam a lei do aborto, quase duas vezes os que se opõem (34%).

Mais, na Argentina, como na Europa e na América do Norte, as forças pró-vida estão muito proximamente ligadas ao catolicismo. E a Argentina é um dos países menos religiosos da América Latina, pelo que uma revolta popular anti-vida, e anti-católica, à irlandesa, parece ser provável num futuro próximo.

Internacionalmente, a maior fraqueza da causa pró-vida é a sua proximidade com o Cristianismo e a direita política. Claro que não é mau que as Igrejas – Católica, Ortodoxa e algumas protestantes (tal como judeus ortodoxos e alguns muçulmanos) – estejam na linha da frente na batalha pela vida. Pelo contrário, o Cristianismo volta a mostrar provas de que rejeita o Zeitgeist em nome de valores intemporais, tal como fez em 1537 quando a escravatura era uma prática comum, durante a colonização europeia das Américas e o Papa Paulo III emitiu uma bula a prescrever excomunhão para os responsáveis por essa prática odiosa.

O problema está no facto de que numa democracia pluralista nenhum líder ou partido irá governar para sempre. Helmut Kohl foi chanceler da Alemanha Ocidental durante 16 anos, mas mesmo esse seu domínio acabou eventualmente. Eu fiquei contente quando o Presidente Trump rescindiu a política da Cidade do México e promulgou outras políticas pró-vida. Mas o Trump também não vai durar para sempre.

Nos Estados Unidos e em muitos outros países a posição das pessoas sobre o aborto está fortemente ligada à sua filiação política e religiosa. Nas últimas décadas isto acentuou-se ainda mais. O número de democratas pró-vida no Congresso actualmente, por exemplo, conta-se pelos dedos de uma mão, em comparação com mais de 100 nos anos 70. Para que a legislação pró-vida seja irreversível é necessário criar um certo consenso.

Para o fazer é preciso estendermos a mão às pessoas de boa vontade. Temos de começar pela base e explicar aos nossos amigos e familiares não conservadores e não cristãos porque é que somos pró-vida. O movimento pró-vida pode não ter a influência política e o financiamento generoso de que gozam a Planned Parenthood ou a Open Society Foundation de George Soros. Mas temos uma arma muito mais poderosa: A verdade.

Com os avanços na ciência, tecnologia e medicina, agora sabemos que o nascituro não é um aglomerado de células. As ondas cerebrais de um embrião são detetáveis às seis semanas após a concepção, bem dentro dos prazos legais para o aborto em quase todos os países ocidentais.

Pessoas intelectualmente honestas, que aderem aos conselhos de Sócrates de seguir as provas, seja para onde for que elas conduzem, serão levados pela lógica irresistível de que um nascituro é humano e, por isso, merecedor de protecção legal, independentemente do lado da barricada política em que se encontram ou do Deus, ou deuses, em que acreditam ou não acreditam.

O Hinduísmo pode não se opor ao aborto em termos absolutos (como comprova a legislação extremamente permissiva, que permite a prática até às 24 semanas nalgumas circunstâncias), mas Mahatma Gandhi, um hindu revoltado com a hipocrisia dos cristãos que colonizaram o seu país, disse que para ele era “claro como a luz do dia que o aborto é um crime”.

O falecido Nat Hentoff, crítico de música para o Village Voice – tudo menos um polo de conservadorismo social – era um judeu ateu libertário. Mas, sendo intelectualmente honesto, ele via que o aborto era um mal e opunha-se-lhe activamente. Há muitas mentes que, tal como Gandhi ou Hentoff, encontram-se em campos diferentes dos cristãos em termos políticos ou religiosos, mas têm a capacidade de ver o aborto como aquilo que é – se os informarmos.

Quanto mais pessoas dessas houver, mais pressão haverá sobre os políticos e a sociedade para condenar o aborto como uma violação dos direitos humanos mais básicos.

Imaginem que alguém vos dizia: “Pessoalmente, oponho-me ao tráfico de seres humanos, mas mais vale regulamentar a prática do que deixá-la acontecer de forma ilegal e insegura. E o Governo não tem nada que se meter nos assuntos privados dos traficantes. Devem deixá-los tomar as suas próprias decisões”.

O mais provável é que nunca tenha ouvido ninguém proferir sofismos deste calibre. Mas a maior parte das pessoas diz coisas muito semelhantes sobre a matança de humanos nascituros – humanos com cérebros, coluna vertebral e impressões digitais, que são capazes de sentir dor e, nalguns casos, de sobreviver fora dos úteros das suas mães.

A recente catástrofe na Irlanda e a tragédia em curso na Argentina mostram que devemos trabalhar para criar uma sociedade em que o aborto é visto como sendo tão inaceitável como o tráfico humano, e devemos pregar não aos convertidos, mas àqueles que, por causa das suas ideias sobre política ou religião, são nossos companheiros inesperados.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Dois novos arcebispos, um Tolentino e um Coelho

O bibliotecário...
Foi um dia de grandes novidades para a Igreja em Portugal, com duas nomeações episcopais.


E numa notícia ainda mais surpreendente, o Papa nomeou o padre José Tolentino Mendonça bibliotecário e arquivista do Vaticano, elevando-o a arcebispo. O agora D. José Tolentino diz que quer continuar a servir a Igreja na Cultura e o próprio Presidente Marcelo já o congratulou.

Entretanto em Roma o Papa recebeu a visita de Emmanuel Macron, que tomou posse como “proto-cónego de honra” da Basílica de São João de Latrão.

E o Faith’s Night Out, que tanto sucesso tem feito nas cinco edições que já decorreram em Lisboa, vai estrear-se no próximo fim-de-semana no Porto.

E enquanto isto, na Holanda proibiram o véu islâmico nos edifícios públicos e nos EUA o Supremo Tribunal validou a proibição de Trump à entrada de cidadãos de cinco países de esmagadora maioria muçulmana.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Fé e Liberdade, pelos vistos, é em Portugal

Magalhães Crespo
O Papa esteve ontem em Genebra para um importante encontro ecuménico em que pediu às igrejas que “as distâncias não sejam desculpa” para não dialogar e pediu um novo ímpeto de evangelização para unir ainda mais os cristãos.

Portugal é dos países com menos restrições à liberdade religiosa, segundo a Pew Research Center.

foram escolhidos os bispos que vão estar no sínodo dos jovens, em Outubro e a Igreja portuguesa garante que está atenta aos mais novos.

O antigo vice-presidente da Renascença vai receber o Prémio Fé e Liberdade, dado pelo Instituto de Estudos Políticos, da Universidade Católica, este ano.


quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Consciência Existe?

David Carlin
Há poucos dias o Supremo Tribunal dos Estados Unidos chegou a uma decisão no caso de um pasteleiro do Colorado que se recusou, por objecção de consciência, a fazer um bolo para o casamento homossexual de dois homens. Infelizmente, o tribunal não decidiu sobre o facto de o pasteleiro, ou qualquer outra pessoa numa posição parecida, ter direito, ao abrigo da Primeira Emenda, de seguir a sua consciência num caso como este.

O tribunal limitou-se a declarar que o tribunal dos direitos civis do Colorado, que tinha decidido punir o pasteleiro, tinha revelado um preconceito antirreligioso indevido ao chegar à sua decisão. Podemos esperar, por isso, que esta questão apareça novamente diante do Tribunal num futuro não muito distante, a saber, se a cláusula de “livre exercício” da Primeira Emenda protege lojistas que se recusem a fornecer bens ou serviços porque estão honestamente convencidos de que seria pecaminoso, ou imoral, fazê-lo.

No mundo anglófono a questão dos direitos de consciência religiosa data de há muitos séculos, remontando talvez aos Lollardos (seguidores do padre revoltoso John Wycliffe) no Século XIV. Foi formulado de forma clara no Século XVII quando, entre outros, Roger Williams e o seu amigo John Milton argumentaram que os indivíduos, desde que em tudo o resto sejam cumpridores da lei, têm direito a obedecer às suas consciências, ainda que essas consciências estejam erradas. Na geração depois da independência essa visão tornar-se-ia quase universal nos recém-fundados Estados Unidos.

Na América existe uma longa tradição de permitir que os fiéis de confissões religiosas pacifistas (como os quakers, por exemplo) obedeçam às suas consciências quando estas lhes pedem que evitem o serviço militar. Durante a guerra do Vietname o estatuto de objector de consciência era frequentemente atribuído mesmo a pessoas que não pertenciam a uma religião pacifista – como por exemplo católicos ou secularistas rigorosos – desde que apresentassem argumentos convincentes de que tinham uma convicção sincera de que seria para elas imoral participar nesta guerra em particular.

De tal forma acreditamos na importância da consciência, ainda que esta esteja errada, que temos estado dispostos a tolerar objectores de consciência, mesmo quando está em causa o destino da nação.

Mas essa atitude de tolerância parece ter mudado. Muitos americanos acreditam hoje que a lei deve obrigar pessoas como o pasteleiro do Colorado a violar as suas consciências. E não é por o destino da nação estar em perigo. Nem é porque de outra forma este casal homossexual teria de passar sem bolo de casamento, uma vez que podiam facilmente ter obtido o que queriam noutra pastelaria ou podiam até ter comprado um bolo não personalizado nesta pastelaria em particular.

Fico pasmado com esta falta de noção sobre a importância da consciência. Estas pessoas não compreendem que o direito a obedecer à consciência é um direito humano fundamental? Talvez o mais fundamental de todos? Estas são geralmente as mesmas pessoas que pensam que o aborto e as relações homossexuais são direitos humanos fundamentais. Mas não pensam que exista um direito fundamental a obedecer sinceramente à consciência? Incrível. Em que mundo estamos a viver?

Mais me espanta que esta gente não compreenda que a consciência é um importante bem social. Todos ficamos mais bem servidos quando os nossos amigos, vizinhos e concidadãos prestam atenção à voz das suas consciências. Claro que existem consciências demasiado rigorosas, e isso não é algo a encorajar, mas o mal social causado por uma consciência demasiado rigorosa não é nada comparado com o mal provocado por consciências demasiado lassas. Uma sociedade desencorajar a liberdade de consciência é uma loucura. Mas há dezenas de milhões de americanos dispostos a fazer precisamente isso para tornar o mundo mais seguro para bolos personalizados para casamentos homossexuais.

Jack Phillips, detentor de consciência
Porque é que alguém chegaria ao ponto de desvalorizar a consciência?

Vejamos, o que é a consciência? No sentido tradicional do termo (uma tradição que remonta alguns séculos na língua inglesa) é vista como uma faculdade de conhecimento moral. Não conseguimos conhecer o bem e o mal da mesma maneira que conhecemos coisas do mundo material, isto é, através dos nossos sentidos (vista, audição, toque, etc.). Mas não se preocupem, para além destas faculdades sensoriais, temos a faculdade de conhecimento moral. Normalmente chamamos a isto consciência (embora também tenha sido conhecido como sentido moral).

Muitos secularistas humanistas (ou pós-cristãos, como também podem ser chamados), não acreditam que exista um sentido não-sensorial que nos forneça conhecimento moral. Todo o conhecimento, alegam, vem dos sentidos. As convicções que não vêm dos sentidos não são, por isso, conhecimento, mas sim sentimentos, preconceitos ou caprichos. Quando as pessoas dizem, “a minha consciência dita que devo fazer isto, ou aquilo”, o que estão mesmo a dizer – deste ponto de vista – é “os meus sentimentos, preconceitos ou caprichos ditam que devo fazer isto, ou aquilo”.

Mas se a consciência não passa disto, então não há grandes razões para que seja reverenciada. Se é possível alcançar algum bem social obrigando as pessoas a ignorar as suas consciências, então que se obrigue.

A maior parte dos que acreditam apaixonadamente no casamento entre pessoas do mesmo sexo serão provavelmente humanistas seculares ou pós-cristãos, que por sua vez tenderão a acreditar que não existe nada que se pareça com uma faculdade especial de conhecimento moral, isto é, qualquer consciência que mereça respeito e protecção legal. Quem é que pode ficar surpreendido, então, com o facto de os grandes defensores do casamento homossexual não se sentirem incomodados com a ideia de impor castigos legais a pasteleiros que, por razões de consciência, recusem fazer bolos para estes casamentos?

Trata-se de um ponto de vista comum, mas é um ponto de vista comum que ameaça directamente o núcleo moral de cada um de nós.


David Carlin é professor de Sociologia e de Filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 15 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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