quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Palavras de Graça

Pe. Paul Scalia
Uma das vítimas do Pecado Original foi o dom da fala. Sabemos, através do relato da Torre de Babel, que Deus semeou a confusão das línguas como castigo pelo pecado do orgulho. Mas esse castigo em particular apenas realça os danos que já existiam desde início.

Deus concedeu ao homem o dom da fala como uma espécie de prerrogativa divina. Confiou ao homem a autoridade de poder falar em seu lugar. Deus conduziu-o a todos os animais “para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome” (Gen. 2,19). Também havia uma dimensão sacerdotal neste dom da fala. Nas palavras do homem toda a criação encontraria a voz para louvar o seu criador. De facto, as primeiras palavras conhecidas de Adão são um hino de graças pela ajudante que lhe foi dada:

Esta, por fim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne;
Chamar-se-á mulher,
porque foi retirada do homem. (Gen. 2,23)

Depois de o homem se revoltar contra o seu criador, a sua palavra fica ferida e passa a desviar-se facilmente do seu propósito. Logo depois da queda, Adão usa palavras não para louvar, mas para culpar essa mesma ajudante culpando, por extensão, o seu Criador: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.” (Gen. 3:12).

No mundo decaído o poder do homem para articular a verdade e louvar o Criador torna-se também um meio de decepção e manipulação. Vemo-lo ao longo das Escrituras, desde a desculpa de Caim – “Sou eu guardador do meu irmão?” (Gen. 4,9) – à insinceridade de Judas: “Salvé, Rabi” (Mt. 26,49). Vemo-lo à nossa volta, na constante distorção das palavras para servir a ganância e o lucro e vez da verdade e o louvor. O mais triste é que vemo-lo até em nós, na forma como usamos as nossas palavras para manipular, culpar e enganar.   

Todas as coisas serão restauradas em Cristo, incluindo a palavra humana. Na Encarnação, a Palavra de Deus redime as nossas palavras. Ao assumir a nossa natureza humana, Ele assume para si o discurso humano. Redime a nossa palavra ao torná-la não apenas sua, mas fazendo dela um veículo da Sua verdade. A fala sempre foi uma coisa sagrada. Mas agora que o próprio Deus falou como nós falamos, carrega consigo um significado divino.

A Santíssima Virgem Maria, enquanto aurora que anuncia a vinda do Senhor, saúda a restauração que Ele traz. Ela “entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc. 1,39). Não sabemos o que é que ela disse, mas sabemos que pelas suas palavras João é santificado no seio de Isabel, que lhe diz: “Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre” Lc. 1,44. Em Maria já vemos as palavras humanas redimidas e tornadas veículo de graça.

Nossa Senhora antecipa-se às instruções de São Paulo, dadas a todos os seguidores de Cristo: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Ef. 4,29). Devemos seguir o seu exemplo, porque aquilo que se aplica a Nossa Senhora de forma particular, deve-se tornar verdade para nós também à medida que crescemos na graça. As nossas palavras devem ser também graça, tanto na forma como são ditas como no efeito que produzem.

Maria pode dirigir palavras de graça a Isabel e levar João a regozijar, porque antes dirigiu palavras de fé ao Arcanjo Gabriel: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”, (Lc. 1:38). Esta sua resposta está em claro contraste com as palavras de dúvida expressas por Zacarias: “Como saberei isto?” (Lc. 1,18). Ele ficou mudo, o que é significativo, pois sem fé ficamos sem nada para dizer.

Depois de elogiar a sua saudação, Isabel também reconhece a fé de Maria: “Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas” (Lc. 1,45). Maria profere palavras de fé e, por isso, torna-se portadora da Palavra e de palavras de graça.

Para falar de uma forma que promove a edificação devemos primeiro acreditar no Construtor. É a fé nele que nos permite proferir palavras de verdade, esperança e encorajamento. A confiança nele traz força e gentileza às nossas palavras. Força, porque falamos como filhos do Todo Poderoso. Gentileza, porque sabemos que esse poder radica na sua verdade e não nas nossas próprias ideias. Não temos de recorrer à força, nem cair na brusquidão, porque a sua verdade pode fazer muito com pouco.

Se não confiarmos nas suas palavras e na sua palavra, então as nossas palavras ficam confinadas aos nossos pensamentos e dependem do nosso poder. Rapidamente o medo leva-nos ao silêncio ou a insegurança à brusquidão.

Mas acima de tudo Nossa Senhora revela-nos que as palavras de graça requerem humildade. O orgulho de Adão confundiu o seu falar. A insistência de Zacarias no seu próprio conhecimento roubou-lhe a voz. Maria é a serva do Senhor, disposta a ser encoberta pelo Espírito. Não está cheia de si. O seu auto-esquecimento perfeito revela que há espaço no seu coração e na sua mente para a palavra de Deus.

E por isso ela tem algo para partilhar. Nós, por outro lado, não gostamos de ser encobertos. Estamos cheios de nós e deixamos pouco espaço para que a sua palavra actue em nós, temos pouco para partilhar com os outros.

Na sua visita a Isabel, as palavras de Maria levaram a graça a quem a escutou. Nas nossas visitas, sobretudo nesta quadra, peçamos que a Verdade de Deus e a nossa humildade nos ajudem a fazer o mesmo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

D. Manuel Linda e a virgindade de Nossa Senhora

Adenda II

No dia 27 O Observador publicou um novo artigo em que pede desculpa ao bispo por ter deturpado as suas palavras e lhe dá voz para esclarecer a sua posição. O artigo explica ainda por que é que seria grave que um bispo - ou qualquer católico, já agora - negasse a virgindade de Nossa Senhora. 

O que é interessante sobre este segundo artigo é que é assinado pela mesma jornalista que assina o primeiro, mais um colega dela que se tem especializado em religião nos últimos tempos e ainda o director executivo do Observador... É pelo menos indicativo da dimensão que a coisa assumiu lá dentro.

Queria só dizer ainda que, da mesma forma que comecei este artigo a dar o benefício da dúvida ao bispo, porque conheço os jornalistas, também não garanto que a jornalista original tenha toda a culpa do que se passou e também hesitaria muito antes de a crucificar a ela. Se D. Manuel Linda não foi claro da primeira vez que falou, então também tem culpas e convém lembrar que antes de um artigo ser publicado passa sempre por editores e nem sempre o jornalista pode ser responsabilizado pelo resultado final.

Lição? Cuidado a tratar assuntos de religião. Cuidado a falar com jornalistas. E já agora mais vale não crucificar ninguém, mesmo.



Adenda I

Desde que escrevi este texto, no dia 24, D. Manuel Linda proferiu a seguinte frase, na homilia da missa de Natal:
"Evidentemente, não haveria Natal sem a Virgem Santa Maria, Aquela que, de acordo com a fé da Igreja -que é também a minha fé!-, é proclamada “virgem antes, durante e depois do parto”, de maneira expressa a partir do Sínodo de Milão (ano 390), ou “Mater intacta”, como dizemos na ladainha. Saudamo-la e agradecemos-lhe profundamente o seu insubstituível contributo para a história da nossa salvação."




Este não é um texto a crucificar D. Manuel Linda. Este é um texto escrito por um jornalista de religião, que sabe bem como é que se costuma escrever sobre religião na imprensa, e que por isso quer dar a D. Manuel Linda o benefício da dúvida.

Há aí muita gente preocupada com um artigo que saiu hojeno Observador. É mais um daqueles artigos a “desmistificar” o Natal, que explica que provavelmente não foi neste dia que Jesus nasceu, que se calhar nem nasceu em Belém, que os cristãos adaptaram a festa da Saturnália… Enfim, nada de novo, e até pode ser interessante para algumas pessoas que não o tenham lido já em artigos idênticos, publicados todos os anos. Mas eu, que sou jornalista, sei melhor que ninguém que por vezes temos de escrever peças destas. Aqui, portanto, nada contra ninguém.

O problema surge nesta frase. «Jesus não é filho de uma mulher virgem, explicam quer o padre Anselmo Borges quer o bispo D. Manuel Linda. Ele foi concebido por Maria e José como qualquer outra pessoa e é “verdadeiramente homem”. A virgindade só é associada a Maria como metáfora para provar que Jesus era uma pessoa muito especial.» 

Que o padre Anselmo Borges pense isto e o tenha dito, não tenho grandes dúvidas. Mas se D. Manuel Linda o pensa e o diz, então é grave. É grave porque contraria um dogma de fé, de que Maria era virgem quando concebeu Jesus e que assim permaneceu.

Mas será que D. Manuel Linda disse mesmo aquilo que o jornal diz que ele disse? É aqui que lhe dou o benefício da dúvida. Que citações é que há?

«O bispo do Porto refere ao Observador que “nunca devemos referir a virgindade física de Virgem Maria”: “O Antigo Testamento diz muitas vezes que Jesus iria nascer de uma donzela, filha de Israel, que fosse simples, pobre e humilde. Mas na verdade isso é apenas uma referência à devoção plena dessa mulher a Deus. O dom de ser mãe de Deus foi dado a Maria por ela ter um coração indiviso. O que importa é a plena doação“, explica D. Manuel Linda. E acrescenta: “Há com certeza mulheres com o hímen rompido [que é associado ao sinal físico da perda da virgindade por uma mulher] que são mais virgens no sentido da plena devoção a Deus do que algumas com o hímen intacto”.»

Neste trecho é claro que D. Manuel Linda se está a referir à virgindade no sentido estritamente anatómico, de ter o hímen íntegro. Não há nada aqui que justifique o que O Observador escreve antes, que o bispo terá dito que Jesus foi concebido através de uma relação sexual entre Nossa Senhora e São José. Se o disse, então, não há citação, e eu sei demais sobre estas coisas para simplesmente confiar na interpretação feita pelos autores da peça.

A questão da integridade do hímen como condição de virgindade é algo que o nosso tempo não compreende, mas que noutros tempos já foi considerado fundamental. A dificuldade biológica é que, salvo intervenção milagrosa, Jesus não poderia ter nascido de forma normal sem romper o hímen de Nossa Senhora de qualquer maneira. Mas isso significa que ela deixava de ser virgem?
Santo Agostinho, salvo erro, aborda esta questão e fala mesmo em intervenção milagrosa, dizendo que Jesus passou através do hímen como a luz através de uma janela. A mim, francamente, a questão nem aquece nem arrefece.

Certamente o espírito tanto do texto como da doutrina da Igreja é que Jesus não foi concebido através de uma relação sexual, mas sim por intervenção divina. Há várias formas de se romper o hímen e não nos passa pela cabeça, hoje, questionar a virgindade de uma mulher que nunca tenha tido relações sexuais por ela ter, ou não, essa membrana intacta.

A questão que se põe é: D. Manuel Linda acredita que Jesus foi concebido sem que Nossa Senhora tivesse tido relações sexuais com nenhum homem? Eu não quero acreditar que a resposta seja negativa e sugiro aos indignados que dêem o benefício da dúvida, até que o próprio possa esclarecer a questão.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Kismet, o muçulmano que ressuscitou neste Natal

Santo Natal para todos!
O Papa Francisco fez hoje o seu discurso à Curia Romana. Ao longo destes anos tem sido neste evento que ele aproveita para mandar recados internos, criticando os defeitos na própria igreja. Hoje não foi excepção e Francisco proferiu algumas das mais duras palavras contra os abusos sexuais até hoje.


D. Jorge Ortiga pede que as comunidades sejam mais acolhedoras neste Natal.

Nesta altura do Natal, aproveitem para conhecer Kismet, Homem do Destino, o primeiro super-herói muçulmano, que foi agora ressuscitado por um artista americano.

E olhos postos na Síria, onde a Turquia ameaça invadir para “limpar” o território das milícias curdas que combatem contra o Estado Islâmico.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, em que David Carlin critica os católicos “protestantes”.

Dia 24 ainda estarei por cá, mas tentarei não vos maçar. Desejo por isso um Santo Natal a todos!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Enfermeiros longe de mais? Essa é Linda...

"Aqui vou eu"
O Vaticano quer que os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo se encontrem com as vítimas dos abusos sexuais antes de viajarem para Roma, em Fevereiro, para uma cimeira sobre o tema.

Esteve em Portugal o jesuíta Pedro Lamet, biógrafo do padre Pedro Arrupe, que foi geral da ordem. Conversou com a Aura Miguel.

D. Nuno Brás publicou um livro que junta 180 dos seus textos publicados no jornal “A Voz da Verdade”.

E na entrevista desta semana conjunta entre a Renascença e o jornal Público, D. Manuel Linda, novo bispo do Porto, pergunta se a greve dos enfermeiros “não está a ir longe demais”.

Ontem publiquei novo artigo do The Catholic Thing, com David Carlin a queixar-se dos católicos “protestantes”, que se arrogam o direito de julgar por si mesmos a doutrina da Igreja Católica.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Os Católicos “Protestantes”

David Carlin
O meu autor favorito – em assuntos de religião – é John Henry Newman (1801-1890), que descobri pela primeira vez quando li “A Ideia da Universidade”, tinha eu vinte e poucos anos. De vez em quando regresso a ele e leio-o intensamente durante algumas semanas. Estou neste momento a meio de uma dessas fases.

Newman escreveu e proferiu um enorme número de homilias tanto na metade protestante da sua vida, como na metade católica. Há dias calhou ler uma das homilias católicas sob o título: “A Fé e o Juízo Privado”. Aí ele argumenta que os protestantes não têm fé, no mesmo sentido em que os católicos.

Os católicos, escreve, são dóceis. Aceitam como verdadeiras as doutrinas da Igreja, sem se reservarem ao direito de as julgar; sem se reservarem o direito de decidir por si se são, ou não, verdadeiras.

Isso não significa que os católicos não exerçam a capacidade de julgar. Pelo contrário, têm de decidir por si se a Igreja Católica é a verdadeira Igreja, criada originalmente por Cristo, há dois mil anos. Mas depois de decidir, como Newman fez quando tinha quarenta e tal anos, renunciam o direito de julgar as doutrinas da Igreja. A partir desse ponto escutam e aceitam.

Já os protestantes, por outro lado, acreditam possuir o direito de julgar as doutrinas do Cristianismo; o direito a decidir se são falsas ou verdadeiras. Trata-se do importante princípio protestante do juízo privado, que surgiu no Cristianismo no tempo da Reforma.

O protestantismo tinha rejeitado a autoridade do Papa e dos bispos para ensinar, substituindo-o pela autoridade da Bíblia – “A Bíblia, toda a Bíblia e nada para além da Bíblia”, como alguém viria a dizer mais tarde. Mas isso deu aso a uma nova dificuldade. A Bíblia como infalível, certo, mas quem pode decidir com autoridade o que é que a Bíblia diz verdadeiramente?

Não podem ser o Papa e os bispos, como acreditam os católicos, porque os protestantes já os tinham rejeitado.

Teoricamente, poderia ser um future concílio, mas na prática nunca mais haveria um concílio aceitável para os protestantes. Houve um católico, sem a presença de qualquer protestante, mas nunca houve um concílio protestante, nem poderia haver, dada a fragmentação do protestantismo.

Talvez os reis, ou outros governantes? Mas isso era obviamente absurdo e por isso ninguém poderia acreditar. Como é que um Rei haveria de conhecer melhor o sentido da Bíblia do que um ministro sincero ou um leigo?

No final de contas o protestantismo não teve outra escolha que não permitir às pessoas que decidem por si o que a Bíblia quer dizer. Os críticos católicos apontam para um problema óbvio neste princípio de juízo privado: se vinte pessoas lerem a Bíblia, podem bem retirar dela vinte interpretações diferentes. O princípio de Juízo Privado levaria à fragmentação do Cristianismo, e foi isso mesmo que aconteceu.

Ao longo dos séculos os protestantes utilizaram três estratégias para tentar impedir, mitigar ou corrigir esta fragmentação.

Miguel Servet
Perseguição: Calvino mandou queimar Miguel Servet em Genebra. Em Inglaterra a rainha Isabel I perseguiu os católicos e os puritanos. Na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, os puritanos de Massachusetts Bay perseguiram Roger Williams, Ann Hutchinson e os Quakers.

Ecumenismo: As denominações moderaram a sua hostilidade umas para com as outras ou colaboraram de diversas formas, ou então fundiram-se mesmo.

Moralidade cristã: A doutrina foi minimizada para enfatizar tudo aquilo sobre o qual os protestantes concordam moralmente. Depois defendeu-se que a moralidade constituía o essencial do Cristianismo, e que a doutrina era apenas de importância secundária, ou meramente ornamental.

Nenhuma destas estratégias resultou, incuindo a última, a cujo colapso temos assistido no nosso tempo. No mundo protestante dos Estados Unidos, hoje, existe algum consenso universal sobre moralidade, mas não muito.

Por exemplo, todos os protestantes concordam que é errado assaltar bancos, ou bater na avó com um taco de baseball. Mas no que diz respeito à moralidade sexual e ao aborto, os protestantes liberais e conservadores estão em desacordo total. Não podiam estar mais distantes.

Os conservadores ainda aderem ao ensinamento antigo do Crisianismo de que a fornicação, coabitação antes do casamento, actos homossexuais e aborto são pecados graves. Mas os liberais, pelo contrário, argumentam que (pelo menos em muitas circunstâncias) nenhuma destas coisas é pecado.
  
E quando os conservadores acusam os liberais de ignorar a Bíblia, os liberais respondem: “De todo. Como bons protestantes que somos, temos direito ao juízo privado, tanto quanto Lutero, Calvino, João Knox e Cotton Mather tinham. E, segundo a nossa interpretação da Bíblia, os mandamentos do Novo Testamento para “amar o próximo” e “não julgar” anulam todos os antigos tabús. Jesus está-nos a dizer que os cristãos de hoje devem aceitar o aborto e o casamento homossexual. Jesus está em sintonia com os tempos modernos, e nós também. Vocês, pobres conservadores, é que não.”

Se o juízo privado é a característica marcante do protestante, então a maioria dos católicos americanos, hoje, são de facto protestantes. É cada vez mais raro encontrar católicos que acolham os ensinamentos da Igreja como Newman dizia ser correcto, de acordo com a fé, de forma dócil.

Tal como os americanos não-católicos, os católicos arrogam-se o direito de pensar por eles sobre todas as coisas – incluindo as verdades religiosas. Logo, dezenas de milhares de católicos americanos utilizam aquele antigo recurso protestante, o juízo privado, para discordarem da Igreja no que diz respeito à contracepção, o sexo antes do casamento, aborto e casamento homossexual – e (calculo, embora não saiba ao certo) a divindade de cristo, a presença real na Eucaristia, o nascimento virginal e a Ressurreição.

Em grande medida o catolicismo americano tornou-se uma forma de protestantismo. E, pior, uma forma de protestantismo liberal.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Papa aos ortodoxos e Teologia Relevante

Pell. Condenado? Quem sabe...
A nova diretora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica quer dar à Teologia o “relevo que merece ter”. Ana Jorge é a primeira mulher a desempenhar este cargo em Portugal.

Centenas de cristãos egípcios protestaram ontem o assassinato de um pai e um filho por um… polícia.

O Papa tem mais uma viagem confirmada para 2018. Desta vez vai à Bulgária e à Macedónia, países de maioria ortodoxa.

Têm circulado várias notícias sobre a alegada condenação do Cardeal Pell, na Austrália, por abusos sexuais. Acontece que o tribunal australiano proíbe a divulgação de qualquer detalhe sobre o processo enquanto não terminar outro caso que envolve o cardeal e que será julgado dentro de poucos meses. As notícias que existem citam fontes anónimas próximas do processo. Se eu tivesse fontes seguras, seria uma coisa, mas não tendo acho que seria irresponsável da minha parte estar a dar uma notícia dessa importância com base em fontes desconhecidas. O meu silêncio sobre o assunto explica-se por isso e não por qualquer vontade de esconder ou disfarçar a realidade.

Se não conhece Solzhenitsyn, então devia conhecer Solzhenitsyn… Pode começar por ler este artigo do The Catholic Thing sobre o grande herói anticomunista.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A fé que moveu o autor na Rússia move agora o médico no Sudão

Apresento-vos o Dr. Tom Catena. Um herói dos nossos tempos, que atende cerca de 400 doentes por dia e faz mil cirurgias por ano. No Sudão. Como? Com muita fé.  


Donald Trump aprovou uma lei destinada a ajudar as vítimas do genocídio do Médio Oriente.

Na passada segunda-feira assinalaram-se os 70 anos da declaração universal dos Direitos do Homem. Podem esses direitos ser mudados? Se sim, valerá a pena sequer existir uma carta dos Direitos do Homem? O Papa Francisco pede aos líderes mundiais que ponham esses direitos no centro de todas as políticas.

E ontem assinalou-se outra efeméride importante, mas que passou despercebida à maioria. Aleksandr Solzhenitsyn foi dos maiores heróis do Século XX na luta contra o comunismo, juntamente com João Paulo II. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, Douglas Skries escreve sobre o autor e o homem que sofreu na pele os horrores do comunismo e o ajudou a desmascarar.

Recordando – e aprendendo com – Solzhenitsyn

Douglas Kries
Hoje [ontem, terça-feira 11 de Dezembro] assinala-se o centenário do nascimento de Aleksandr Solzhenitsyn, o escritor russo que, apesar de ser o autor mais importante do último século, já não é bem conhecido, muito menos compreendido, pelos cristãos dos Estados Unidos.

A sua mãe enviuvou antes de ele nascer e os Bolsheviks confiscaram-lhe as terras de família. Mudou-se para Rostov, em busca de emprego, mas grande parte da vida inicial de Solzhenitsyn foi passada a partilhar a sua pobreza. Contudo, nascer na Rússia em 1918 significava pertencer à primeira geração da gloriosa revolução comunista e as escolas marxistas ensinavam ao jovem Solzhenitsyn que os princípios do comunismo em breve conduziriam ao estabelecimento de uma época da História da humanidade totalmente nova e livre do mal.

Quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial, Solzhenitsyn saiu da universidade em Rostov para servir nas Forças Armadas soviéticas. Em 1945 foi detido por comentários numa carta privada para um amigo que foram considerados críticas de Stalin. Foi condenado a oito anos no sistema dos campos soviéticos; mais tarde foi libertado para um exílio perpétuo no Cazaquistão. Foi então que começou a escrever, sobretudo recorrendo às 12 mil linhas de poesia que tinha composto em segredo nos campos, e memorizado.

Em 1962, Solzhenitsyn pôde regressar à Rússia, mas não se atreveu a publicar ou sequer a submeter os seus manuscritos aos editores. Sob a liderança de Krushchev começaram a surgir sinais de um degelo cultural e Solzhenitsyn arriscou enviar – de forma anónima – um longo conto sobre um único dia na vida de um prisioneiro dos campos para um jornal literário chamado Novy Mir. O editor do jornal reconheceu imediatamente o valor da história e levou-a directamente a Krushschev, que autorizou a publicação de “Um dia na vida de Ivan Denisovich”.

A aceitação foi incrível. Uma testemunha escreve: “só o facto de passear por Moscovo naqueles tempos era entusiasmante, havia multidões de pessoas em cada quiosque, todos a pedir o mesmo jornal esgotado. Nunca me esquecerei de um homem que não se conseguia lembrar do nome do jornal e pedia ‘aquele, sabe, aquele em que está publicada toda a verdade’. E a dona do quiosque percebeu imediatamente do que é que estava a falar”.

A identidade do autor foi rapidamente conhecida e chegaram centenas de cartas de antigos presos que, como Solzhenitsyn, tinham desafiado as probabilidades e sobrevivido. Solzhenitsyn teve a ideia de usar as suas histórias e memórias para escrever uma obra mais aprofundada sobre os campos. Mas o “degelo” cultural rapidamente se transformou num “congelamento” e a polícia secreta soviética começou a persegui-lo incessantemente.

Ainda assim, sentia o dever moral de escrever aquilo que eventualmente viria a ser conhecido como “O Arquipélago Gulag”. Solzhenitsyn teve de trabalhar em segredo e ia passando partes do seu enorme manuscrito de uma secretária clandestina para outra, por forma a preservá-lo. Eventualmente foi contrabandeado para fora do país e publicado em França. Daí foi rapidamente traduzido para várias línguas e o mundo inteiro aprendeu a verdade sobre a enormidade dos crimes soviéticos.

É fácil olhar para Solzhenitsyn apenas como o autor de uma poderosa exposição política. Contudo, esse ponto de vista passa por cima do verdadeiro poder e significância da sua escrita, porque ele não se limitou a dizer-nos o quão terrível era o sistema de campos da União Soviética, mas explicou porque é que era tão terrivelmente errado.

Durante o tempo que passou no arquipélago, Solzhenitsyn tinha vindo lenta, mas firmemente, a rejeitar o marxismo da sua juventude e abraçado a fé cristã. Esta conversão, todavia, não foi alcançada sem um enorme sofrimento pessoal e um grau ainda maior de reflexão pessoal.

O marxismo afirma que há grupos e classes de seres humanos que são bons e outros que são maus. Para se aperfeiçoar, a humanidade deve isolar e eliminar as pessoas más. Solzhenitsyn viria a perceber que, pelo contrário, a linha que separa o bem do mal vive dentro de cada coração humano individual.

A posição marxista argumenta, por isso, que a humanidade seria aperfeiçoada através do inevitável progresso da história do mundo. Mas se a linha divisória está dentro de cada coração humano, então só é possível uma melhoria limitada nesta vida, na mesma medida em que é possível alguma degeneração. A posição marxista deve ser rejeitada, por isso, porque ignora a realidade do pecado original.

Mais, a consciência cristã obriga os seres humanos a tentar justificar os seus atos e persegue-os, ou chega mesmo a devorá-los, se tal justificação não puder ser encontrada. Os marxistas, porém, forneciam os seus adeptos não uma consciência, mas uma ideologia que justificava atos malévolos em nome de um fim inatingível. Esta justificação ideológica levava os marxistas para além dos limites normais da maldade e tonou possível que a destruição de milhões não fosse vista como aberrante ou impensável, mas sim como necessária e aceitável.

O marxismo não compreendeu a origem do mal nem percebeu o que fazer com os seus efeitos, isto é, o sofrimento. Solzhenitsyn veio a perceber que embora não existisse correlação entre aquilo de que ele, e outros presos políticos, eram acusados e aquilo a que foram sujeitados, os cristãos no arquipélago – ou pelo menos os melhores de entre eles – aprendiam a tornar o sofrimento redentor. Isto é, sabiam como tornar o seu sofrimento uma penitência contínua, que radicava numa confissão contínua.

A partir daí podiam alcançar a ascensão espiritual através daquilo a que Solzhenitsyn apelidava “autolimitação”. Mais tarde ele viria a avisar o Ocidente – na sua palestra em Harvard e no discurso de aceitação do Prémio Nobel – que o “mundo livre” estava a abraçar a sua própria escravidão materialista. Esse processo está hoje muito mais avançado do que estava durante a vida de Solzhenitsyn.

Esta autolimitação assemelha-se muito à autolimitação de Cristo, que não procurou equiparar-se ao ilimitado, mas limitou-se de livre vontade e se tornou homem, aceitando a forma humana e o sofrimento humano, oferecendo-nos assim a divina misericórdia.

Há aqui uma lição importante para nós, porque estas verdades profundas que Solzhenitsyn revelou devem governar todos os regimes, e todas as vidas.


Douglas Kries é professor de filosofia na Universidade Gonzaga, em Spokane, Washington. É co-autor, com Brian Clayton, de Two Wings: Integrating Faith and Reason (Ignatius Press, 2018).

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 11 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Papa nos Emirados e Big Bang

O Papa Francisco vai visitar os Emirados Árabes Unidos em Fevereiro. A notícia saiu hoje e apanhou os principais especialistas de surpresa. Isto quer dizer que as muitas pessoas que obviamente estavam envolvidas na organização não andaram a dizer nada antes da divulgação oficial, não fossem estragar tudo. E mais não digo.

A Área Metropolitana de Lisboa é um laboratório da diversidade religiosa em Portugal, e como tal foi alvo de um interessante estudo coordenado pela Universidade Católica. Veja aqui os resultados, alguns dos quais surpreendentes.


Se não vai na conversa de que a religião e a ciência são incompatíveis, então este artigo do The Catholic Thing é para si. Michael Baruzzini escreve sobre o crescente reconhecimento que está a ser dado ao padre Lemaître, que desenvolveu a teoria do Big Bang, e como os seus primeiros críticos diziam que a teoria cheirava demais a religião… Como os tempos mudam!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Apresentando a Lei de Hubble-Lemaître

Michael Baruzzini
No passado dia 29 de Outubro a União Astronómica Internacional anunciou a sua recomendação de que se passasse a referir à “Lei Hubble” como a “Lei Hubble-Lemaître”. Esta lei relaciona a distância das galáxias com o seu afastamento da Terra. Entre outras provas, as suas extrapolações sugerem que todo o cosmos teve origem num único ponto que, no passado mais remoto, se expandiu até ao que temos agora. Atualmente conhecemos essa teoria como o “Big Bang”.

Há muito tempo que o astrónomo americano Edwin Hubble, que mediu os redshifts de galáxias distantes – o que tem a ver com a velocidade a que se distanciam da Terra – tem o seu nome associado a esta descoberta. Mas na verdade o primeiro a derivar as leis sobre a expansão do cosmos, propondo que o universo tenha tido a sua origem num único e antigo ponto, foi o padre belga Georges Lemaître. Esta sua contribuição para a ciência tem estado a ser mais reconhecida ao longo dos últimos anos, incluindo através de gestos como esta mais recente recomendação da União Astronómica.

Diz-se tantas vezes que a fé e a ciência se opõem que é bom ver um padre, sobretudo um padre moderno, a ser reconhecido por um contributo importante no domínio científico. Mas mais do que meramente provar que os católicos também têm o seu lugar no mundo das ciências, esta ligação entre um clérigo católico e a teoria do Big Bang é significativa de uma perspetiva especial e irónica.

A teoria do Big Bang é uma cosmologia que fornece um pano de fundo para toda a nossa compreensão atual do cosmos como uma coisa histórica e em evolução. Se podemos dizer que a cosmologia clássica, com as suas esferas ordenadas e arrumação geométrica, ressoava na mente católica pela forma como sublinhava a ordem hierárquica, então também é verdade que a cosmologia moderna tem a ver mais com o instinto católico para a narrativa.

Segundo a ciência moderna, tal como na visão católica, o cosmos não é composto por uma homogeneidade eterna e imutável (tal como formulado na teoria do “Estado Estacionário”, que rivalizava com a do Big Bang no início do Século XX); mas também não é um lugar de caos confuso, com seres complicados a surgir, aparentemente de lado algum, como nas cosmogonias pagãs. Antes, a ciência moderna apresenta-nos uma imagem na qual a complexidade rica do universo moderno radica numa singularidade causal, da qual surgem as forças físicas básicas que, interagindo, florescem no cosmos como o conhecemos atualmente.

O próprio Lemaître referiu-se a esta singularidade antiga como um “Ovo cósmico”. Utilizando uma analogia que já serviu propósitos maiores, podemos também invocar a ideia de uma semente minúscula que depois cresce e forma grandes ramos, nos quais os passarinhos pousam e fazem os seus ninhos.

De uma perspectiva material, a ciência atual afirma que desta semente cósmica surgiu a teia de galáxias, estrelas e planetas. Na formação e no final explosivo de ciclos de incontáveis estrelas, o universo enriqueceu-se com os elementos que tornam possível tudo quanto existe à nossa volta, incluindo a vida. O carismático Carl Sagan, que era céptico quanto à religião mas ajudou a popularizar a ciência moderna, gostava de dizer que “somos todos pó de estrela”. Mas o que ele, com todo o seu imaginário poético, nem imaginou foi que um dia, num pequeno planeta rochoso que gira em torno de um desses pontos de luz, o Autor de toda a história cósmica se revestiu desse mesmo pó de estrela e entrou na sua própria criação, em forma humana.

Pe. Georges Lemaître
As principais críticas ao Big Bang costumam vir do campo religioso: como é que este relato pode ser compatível com a apresentação bíblica da Criação? Mas no início a desconfiança vinha precisamente do campo oposto, por cheirar demais a religião. A Igreja proclamava uma criação “ex-nihilo” – um momento antes do qual não existiram momentos nem nada de material – e agora a ciência parecia confirmá-lo.

Em 1978 Arno Penzias e Robert Wilson ganharam o Prémio Nobel da Física pela sua observação da “radiação cósmica de fundo em micro-ondas”, que se tornou a primeira grande prova do evento a que chamamos Big Bang. Penzias viria a escrever sobre o Big Bang e o início do universo que “os melhores dados a que temos acesso conformam perfeitamente com o que eu teria previsto, caso não tivesse outro recurso que não o Pentateuco e os Salmos, ou a Bíblia completa”.

Mas cuidado. O próprio Lemaître avisou o Papa Pio XII para não tentar identificar o Big Bang com o acto da criação. Descobrir esse próprio acto é, na verdade, algo que fica para além dos propósitos da ciência. Até São Tomás de Aquino considerava que a razão pura não seria capaz de discernir se o Universo teve um começo; apenas a revelação o poderia dizer. Assim também a ciência, quando investiga as causas materiais, apenas as pode seguir até certo ponto, não pode ver para além delas.

O Big Bang pode ter sido o começo, ou talvez não. Independentemente disso, do ponto de vista científico, o Big Bang representa o evento histórico singular a partir do qual emergiu todo o mundo material, tal como o conhecemos agora, o único ponto através do qual passam todas as histórias físicas. E é na descoberta deste facto que encontramos o padre Lemaître, um padre a contribuir para a ciência, não apenas com uma perspetiva científica entre outras, mas descrevendo a teoria mais importante da história do cosmos físico.

A religião sempre teve a sua própria cosmologia, a sua história da Criação. Mas eis que descobrimos que quando a ciência usa os seus próprios instrumentos – perfeitamente legítimos – para descrever uma história compreensiva do mundo, que o primeiro a fazê-lo não foi um ateu, livre das amarras da “superstição”, mas sim um padre que não encontrou qualquer conflito entre a sua fé antiga e as descobertas revolucionárias da ciência de ponta.


Michael Baruzzini é um freelancer e editor da área científica que escreve para publicações científicas e católicas, incluindo a CrisisFirst ThingsTouchstoneSky & TelescopeAmerican Spectator e outras. É também o fundador de CatholicScience.com, que oferece currículos e recursos científicos online para estudantes católicos.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 29 de Novembro de 2018 em The Catholic Thing)

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Velas em Roma pela paz na Síria

O Papa acendeu ontem uma vela pela paz na Síria. Faz parte de uma campanha internacional lançada pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

Soube-se também por estes dias que o Papa deu uma longa entrevista a um padre espanhol, que será publicada em breve, em que diz que os padres homossexuais que não vivem de forma celibatária devem abandonar o sacerdócio.

Conheça aqui a exposição “Capela Mundi”, sobre os 100 anos da Capelinha das Aparições.

Esta segunda-feira assinala-se o Dia Internacional dos Deficientes e Isabel do Vale, do Serviço Pastoral às Pessoas com Deficiência lamenta que ainda haja igrejas onde as pessoas com dificuldades de locomoção não conseguem entrar.


E termino com o convite, como tenho feito nos últimos anos, de se deslocarem, se possível, ao Chiado onde encontram no número 10 da rua Anchieta um espaço onde estão à venda artigos religiosos feitos pelos cristãos da Terra Santa, trazidos mais uma vez pelo Nicolas Ghobar (ver foto). Este ano o Nicolas esteve em directo na Renascença para falar sobre a sua experiência de cristão na terra onde Jesus nasceu.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Maratona religiosa pelos arménios


Hoje é dia de Santo André e o Papa, como é costume, escreveu uma carta ao Patriarca de Constantinopla em que volta a sublinhar o seu desejo de plena comunhão entre católicos e ortodoxos. A união entre os próprios ortodoxos é que está complicada por estes dias.

Na Holanda está a decorrer uma maratona de celebrações religiosas, de diferentes confissões, numa igreja protestante. O objetivo é impedir a deportação de uma família para a Arménia.

Foi descoberto um documento cristão no Japão que data dos tempos da pior perseguição naquele país.

Começa na segunda-feira um curso online sobre “A Missa Explicada”, que promete ser do maior interesse para quem gosta de aprofundar o seu conhecimento nestas áreas.

Publiquei esta sexta-feira no blogue a transcrição integral da minha conversa com o Pe. Tomás Halík. Aconselho a sua leitura!


E deixo-vos ainda com o link para um site chamado Livres para Amar, que pode ser de interesse para cristãos que procuram conciliar a sua fé com uma atração por pessoas do mesmo sexo. Não tenho nada a ver com o site, mas este é um assunto que me interessa, por isso se tiverem comentários a fazer agradeço que me os façam chegar.

"Pope Francis is starting a new era of the Church"

This is a full transcript, in the original English, of my interview with Fr. Tomás Halík. The published version can be found here, in Portuguese.

Esta é uma transcrição completa, no inglês original, da minha entrevista com o Pe. Tomás Halík. A notícia pode ser lida aqui.


Pope Francis has been a strong critic of what he calls self-referentialism. Is there anything more self-referential than an autobiography? Does this worry you?
I think my book is a testimony. It is inspired by St. Augustine's “Confessions”. It is the combination of a theological reflection and autobiography. It is not only an autobiography, it is not only about my life story, it is also about the history of the Church in our country, and not only in our country. There are many of my life experiences, from the time of the hard persecution of the Church and the transition, and there are some which I felt I should share with other people. 

You have become a very popular writer and spiritual reference. Your books are translated in many languages, you have won awards, you mingle with important and successful people. How do you keep from being affected by vanity and pride?
There is a nice story from the Desert Fathers. One told people to go to the cemetery and think very good things about the people there. They did so and when they returned the spiritual father asked them what the dead had replied. And they said: “nothing”. 

So, he said “Go again and think terrible things about the people there, blame them”, and so on. They did so and when they returned he asked them what they had answered. They said: “nothing”. 

So, the master told them they must be like this. If people are attacking you, if they are glorifying you, you must be like the dead people. 

I think that what God thinks about us is more important than what other people think about us. 

You say that the persecution in Czechoslovakia was worse than in the rest of the communist bloc. Why?
I think that the communists chose Czechoslovakia as a terrain for the total atheisation of a country, because of the very dramatic Czech religious history. Jan Hus, the reformer who was burned in Konstanz in 1415, then the Hussite wars, the crusades against the Czechs and the violent Catholicisation in the XVII Century, then the link between the Catholic Church and the Habsburg Monarchy. There are some wounds in the history of our country, and there were tensions between the Catholic identity and the national identity. 

It is the opposite of Poland. In Poland the Catholic Church was always an instrument of national identity, but not in our country, because of these tensions and these anti-Catholic feelings from before the Communist times. And the communists tried to use this, but the effect was rather the opposite, because Czech people are always sympathetic to the persecuted, so during the persecution the moral authority of the Church increased.

In the first few pages you mention several times the importance of Jan Hus for the Czech mentality. Who was he, why was he so important and why do so many Czech Catholics seem intent on restoring his standing as a Catholic? Would you like to see that happen?
Yes! When I first met John Paul II, in 1989, the day before the fall of the Berlin wall, one of his first questions was "what should we do with Jan Hus? I rehabilitated Galilei, perhaps it is time for the rehabilitation of Jan Hus. Remember that the Polish delegation was the only one which defended him in the Council of Konstanz”. 

So, I returned to Prague and I visited our Archbishop Cardinal Tomasic, and I told him about this, but the Cardinal was very reserved, because he spent his youth in the time of the first republic and at that time Jan Hus was a symbol of the anti-Catholic tensions. So, we had to wait. But when the Holy Father came to Czechoslovakia for the first time, I was in Rome to help him prepare, because it was his first visit to the post-communist world, he spoke about Jan Hus in a very positive way, and then, on the eve of the new millennium, there was a symposium in Rome about Jan Hus and the Pope made quite a remarkable speech there, and many other figures were present as well. 

Something happened there, because St. John Paul said a very important thing. "Hus was a sign of our division, between Catholics and Protestants, and now he may become a bridge between Catholics and Protestants", because he was a Catholic priest his whole life, and he didn't want to fight against Rome, he wanted to reform the Church, but many of his ideas were developed in a more radical way by Martin Luther and the German Reformation, but he was not in such tension as the German reformation. 

A friend of the Holy Father, a Polish Theologian and Historian, wrote an article called "Jan Hus: Heretic or precursor of Vatican II?". He wrote about some of Jan Hus' ideas which were fulfilled by Vatican II, a poorer and more modest Church, without triumphalism. I think Pope Francis is the type of Pope Jan Hus would like very much. 

The Church is going through a period of division now, and it sometimes seems like those close to Pope Benedict XVI are against Pope Francis. But you have been a strong defender of Pope Francis and you were also close to Pope Benedict. How do you interpret this current division in the Church?
I think that John Paul II and Pope Benedict ended – with great honesty and in a very positive way – a long period of Church history. It was a long period where the main task was confrontation with modernity. I think the happy end of this confrontation was the famous interview of Cardinal Ratzinger, the year before he was elected Pope, with German philosopher Jurgen Habermas. They both agree with the statement that Secular Humanism and Christianity need each other to overcome one-sidedness.

Also, Pope Benedict had a wonderful speech during his flight to Portugal, I always say that his best speeches were in the airplane... Perhaps because he was so near to heaven! And this speech about the compatibility of secular culture and Christianity was very profound and very courageous. 

I think it marked the end of one long period of Christianity. But now modernity is over, we live in the post-modern global age, the age of internet, of radical plurality, and we need something different. And I think Pope Francis is starting this new era of the Church, and every time somebody starts something new, such as happened with many saints in History, they found trouble in the Church, they were attacked, but they keep the fidelity to the Church, and I think that the supporters of Pope Francis want, and have the sensitivity, to read the signs of the times, and I think Pope Francis really discovered in a new and profound way, the very heart of the Gospel, which is mercy, solidarity with the poor, the struggle for Social Justice and responsibility for nature.

I think this is a very important thing. These things have been a little bit overshadowed by things to do with sexual morality, which are important questions, but they are not the most important questions. The most important is solidarity, mercy, justice and this is the focus of the message of Pope Francis.

At one point you say that you would not be comfortable in a society which is overtly Christian. Is this just a question of personal sensitivity, or do you think there is something inherently wrong with more overt expressions of popular devotion, as we see in Latin or African countries, for example?
I think that sometimes people in the countries where religion is taken for granted have the temptation for superficial religiosity, conformism. But in the secular situation we must make a personal choice.

I think that in the countries where religion is very traditional, and is taken for granted, there is a temptation for religiosity to be superficial, just keeping the traditions, turning to the past, but in the secular society we must decide, our faith is our free choice, and we must think about faith, and rethink many things, so what I support is the idea, which is expressed for example by the American philosopher Richard Kearney of Irish origin, who speaks about “anatheism”, to believe again, not to return to the past, to pre-modern religiosity, to take seriously the criticism of religion by many modern thinkers.

After this criticism this could be a time of purification of faith, purification of idolatry, and then we can believe again, after the crisis, and believe deeper, not just return to the past. I think our faith is the faith of Easter, and Easter is the mystery of death and resurrection.

Sometimes our faith, in our personal history, but also in the history of the Church, must be crucified and withstand the “dark night of the Soul”, Must withstand the moment in which Christ was crying “My God, my God, why have you forsaken me”. And then after the Good Friday we can be open to the Easter morning. There is no resurrection without the Cross. 

I was struck by something… You were an only child, and although you had many uncles and aunts, it seems that most of them either never had children or had very few. Looking around the world one does seem to notice that countries that draw away from God seem to have fewer children. Does that explain what happened in the Czech Republic in your time? Does it have a deeper meaning?
I think this phenomenon is more recent, that people are not willing to have families and rear children. I think it was not like that in the generation of my parents, it is more now that the family is in crisis.

We should rethink many things. I am a little bit afraid of the Feast of the Holy Family, because I have heard many sermons for this feast and Holy Family was spoken of as an ideal patriarchal family from the XIX Century, a bourgeois family, and the family of Nazareth was not like that.

Our situation is also not like this. We cannot turn to this model of the traditional patriarchal family of the XIX Century. Now we live in another time, and it is not easy to find a proper model for the family of our time. I think we should think deeply about the spirituality of the family, about the role of women, the relation between the generations, we cannot just keep, or try to return to, the past.

There is something substantial about the family, the love between men and women, and procreation and education of children, but the history and the context is always changing. I admire the young people who, in this situation, have the courage to not only found a family, but I am digressing…

You explain conversion as a sunrise. This is a very profound image… Could you elaborate?
Faith is, for me, not just a worldview, some sort of philosophy. It is an existential orientation, and conversion is the transformation of the whole personality. I think that people who were brought up in the traditional family must also experience this sort of conversion, because the faith of children is nice, but there is always a time when that children's faith is in crisis. And I think that education in the Church, and pastoral work, is not prepared to work with this crisis, as a challenge to go deeper. For many people this crisis ended in atheism or a “apatheism”, where people are apathetic to the Church, and we need to accompany people through this crisis, not to push them back to the faith of their childhood, this is often a type of fundamentalism, this attempt to go back to the style of my faith as it was in my childhood, or in the past of the Church.

We must go through this crisis and discover the deeper dimension of the faith. It is a transformation, it is not just a situation where we add something to our worldview, but it is real, like a sunrise, and now we see everything in a new light, from a new perspective, and I think we all need this perpetual transition, this perpetual conversion.

The sign of the times today is to move from being Christian to becoming Christian, it is a long-life process.

You express the moment when you, yourself, went through this conversion. But is this something which happens only once? When was the last time you experienced a sunrise such as this, which changes the way you see reality?
I think it was at the beginning of the pontificate of Pope Francis. I realised that there was something new in the Church, a new way to read the Gospel and to take it and the radical challenges, the radical message of the Gospel very seriously. So, when I meditate, practically every day, on the preaching of the Holy Father in Santa Marta, which can be found on the Internet, which is sometimes very simple, but it has something new and fresh, the spirit of somebody who is deeply involved with the heart of the Gospel.

This was a wakeup call for me and led me to read the Gospel in a new and more radical way.


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