quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Não há pão para Malukkal

Freiras enfurecidas
Mais um bispo suspenso por abusos sexuais. Desta vez é na Índia e a vítima é uma freira. O bispo Franco Malukkal nega.

O Vaticano continua a tentar colocar-se na linha da frente da prevenção de abusos e anunciou hoje a realização de um mestrado sobre proteção de menores, em Roma.

Um missionário italiano foi raptado por jihadistas no Níger, e na Nigéria o Boko Haram ameaça matar a jovem que foi raptada em fevereiro e que não foi libertada por que se recusa a converter ao Islão.

Quem explora ou rejeita migrantes e refugiados acabará por “prestar contas” a Deus, garante o Papa.

Anthony Esolen constrói aqui um texto muito forte, e interessante, com base na obra clássica “O Paraíso Perdido” de John Milton, em que pergunta se os padres que abusam de crianças acreditam ou não em Deus e pede que venha rapidamente um “novo Samuel” para limpar a casa.

E deixo-vos ainda o convite para irem a Cascais, este fim-de-semana, ao Family Land, organizado pela Associação das Famílias Numerosas. É no hipódromo, promete diversão para toda a família e os bilhetes estão à venda na Blue Ticket, ou então no recinto, no próprio dia. As portas abrem às 10 e encerram às 19.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quando o Padre se Torna Ateu

Anthony Esolen
Quando John Milton, no seu poema épico “Paraíso Perdido”, identifica e descreve os piores dos anjos caídos, diz-nos em que parte do mundo mediterrânico e do Levante eles se estabeleceram, quais falsos deuses, para serem adorados. Quanto mais perto de Sião, pior o demónio. Nesse sentido Moloch, que é o primeiro a ser referido, é o pior de todos, depois de Satanás e Belzebub.

Não bastava que fosse adorado pelos vizinhos amonitas:

Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egregio
(Salomão, o mais sábio d’entre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinom o vale ameno
Que ficou desde então, sob outro nome
De Tofete e Geena, emblema do Orco.[1]

Consegue imaginar algo pior do que seduzir o construtor do templo de Deus, Rei Salomão, a construir um templo para si, colado ao verdadeiro? Pode-se estar mais próximo que isso?

Sim, pode. É aí que Milton quer chegar. O último demónio que ele nomeia, supostamente o oposto do sanguinário e guerreiro Moloch, é o lascivo, efeminado Belial, amante do vício pelo vício.

E onde é que Belial é adorado? A resposta é preocupante:

Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais frequenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Eli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
                                
Belial não precisa que lhe construam templos ou altares. Ele já ali está, quando o padre se torna um verdadeiro ateu. Não que isso sirva de desculpa para os leigos, porque Belial também se instalou nas sedes de governo e nos costumes lascivos do povo:

Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram,
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial n’elas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos.

O vício específico de que disfrutam os filhos de Belial é perverso:

Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gaba quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Temos então de um lado Moloch, o devorador de crianças, brutal e sangrento, de templo encostado ao de Deus, e do outro lado o mal sexual e antinatural de Belial, que penetra tanto templos como cortes e que toma conta das ruas pela noite, determinando o estilo de vida das pessoas ou levando-as a esconder-se em casa, se puderem.

Moloch e Belial; infanticídio e sodomia; sangue derramado em vão e semente espalhada em vão; guerra pela guerra, lascívia pela lascívia; um deus da fertilidade que come a sua prole e um deus da esterilidade, cujo vício nem prole chega a conceder.

Como dizia o pregador, não há nada de novo debaixo do Sol.

As pessoas têm perguntado se é possível que os padres que tiveram relações sexuais com jovens, consensuais ou não, acreditavam em Deus. Eu tenho tentado recordar a capacidade ilimitada do homem para o fingimento e autoengano, para não falar de mera contradição. Mas talvez devêssemos olhar a questão de outra perspetiva. Milton não disse que Finéias e Hofni, filhos de Eli, eram ateus quando assumiram o seu cargo em Siló. Ele diz que eles se tornaram ateus.

Algumas pessoas perdem a sua fé em Deus por causa das tribulações que sofrem. Desesperam, sucumbindo à sensação de abandono. Outros perdem a fé em Deus por causa dos sucessos de que gozam. Presunçosos, são seduzidos pelo sentimento de invencibilidade. Qual é o caso do padre?

Não estou a estabelecer uma regra universal. Cada padre é um homem, como qualquer um de nós, e pode sofrer aquilo que qualquer um de nós sofre. Mas se perguntarmos quais as ameaças específicas para a fé dos padres, teremos de concluir que no nosso mundo elas vivem do lado do poder, do conforto e do prestígio, e não do lado da fraqueza, privação física e humilhação.

Isto não é uma acusação. Não estou a sugerir que os padres devam viver a pão e água, e que devem ser agredidos em via pública. Estou apenas a constatar um facto. Não é a perseguição que leva os nossos padres a perder a fé, é a complacência.

A Justa Ana com o Profeta Samuel
E o que acontece se perdem mesmo a fé? Mais uma vez, devemos ter o cuidado de recordar o enlear e as contradições do coração humano. Fugimos das verdades difíceis. Talvez o desgraçado cardeal McCarrick acreditasse que acreditava. Mas o que é que você faria se estivesse a tornar-se ateu e toda a sua vida tivesse sido orientada para uma só coisa, o ministério de Deus?

Não pode voltar à sua antiga profissão, porque não existe. Não pode vender os seus serviços, porque não existem. Não tem recursos para voltar à escola, mesmo que pudesse aguentar a vergonha. Não está preparado para trabalho físico, por isso as obras não são uma opção. Então fica quieto.

Se for sincero, reza, reza e mortifica-se, arranja um bom director espiritual e tenta sobreviver à tempestade. Se for fraco e insincero, deixa a sua fé enfraquecer cada vez mais enquanto tenta robustecer a sua imagem, convencendo-se de que é o arauto de uma nova fé, uma nova forma de crença. Só você sabe o que pertence verdadeiramente à fé e o que não pertence. Destrói. Tem ciúmes de pessoas que têm devoções que não o movem. Secretamente, regozija com o falhanço dos outros.

Segue o mundo, porque tem de seguir alguma coisa. Todos os seres humanos seguem uma bandeira, os ateus não são excepção. Mas o dia do pequeno Samuel está para chegar, e não será para si qualquer conforto. Senhor Deus, que seja em breve!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 16 de Setembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



[1] Na versão portuguesa baseei-me nesta edição, modernizando apenas alguma da ortografia

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Conversas metropolitanas

Hoje entrevistei o Metropolita Hilário, número dois da Igreja Ortodoxa da Rússia. Da longa conversa surgiram três textos. No primeiro ele fala sobre a importância de se preservar o Cristianismo na Europa, avisando que a Europa ocidental deve aprender com os erros cometidos na Rússia.

Num segundo texto ele fala sobre a necessidade de católicos e ortodoxos aprofundarem o diálogo, nomeadamente sobre questões como casamento e ruptura familiar. Mas ao mesmo tempo critica a Igreja Greco-Católica da Ucrânia, um espinho cravado na Igreja Russa há já muitos anos.

E por fim um texto muito mais virado para dentro, com o metropolita a criticar duramente o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, pondo a nu o conflito aberto que existe no seio da Igreja Ortodoxa.

O metropolita profere amanhã uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa, às 18h30, caso queiram ouvi-lo falar da relação entre a sua Igreja e os cristãos do Médio Oriente.


E aqui podem ler sobre como a Igreja de Angola está a atravessar um momento de grande entusiasmo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Monges mártires beatificados e bispos europeus com o Papa

Rogai por nós
Os bispos da Europa estão “completamente com o Papa”, diz D. Manuel Clemente, referindo-se à questão do combate aos abusos sexuais.

Ainda sobre o assunto dos abusos, publiquei na Renascença um artigo de opinião que me parece importante. O choque, horror e revolta são legítimos, mas há um dado importante a ter em conta: as directrizes nos EUA têm estado a funcionar. Isso não é um facto acessório!

O presidente da Conferência Episcopal da Hungria critica o processo que a União Europeia está a mover contra o seu país.

E uma excelente notícia, sobretudo nestes tempos de confusão e incerteza. Os monges de Tibhirine – sobre os quais foi feito o filme “Dos Deuses e dos Homens” – vão ser beatificados ainda este ano!

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Os sofrimentos da Igreja e novo vice-reitor da UCP

Novo vice-reitor da Universidade Católica
No contexto da crise de abusos sexuais na Igreja, o Papa recebeu hoje os principais líderes da Conferência Episcopal americana, embora não se saiba ainda que medidas saíram, ou sairão, da reunião. Mas rolou mais uma mitra, com um bispo acusado de abusos há vários anos a resignar e o Papa a autorizar uma investigação sobre as alegações.

Como se não bastasse tudo isto, o coro da Capela Sistina está também a ser investigado, mas desta feita por alegadas irregularidades financeiras.

Hoje, dia 13 de Setembro, D. António Marto recordou os “sofrimentos da Igreja”. Bem pode.

Com a nomeação de D. Tolentino Mendonça para Roma, ficaram vagos os cargos de vice-reitor da Universidade Católica e de director da Faculdade de Teologia da mesma universidade. O primeiro desses cargos foi hoje preenchido com a nomeação do padre José Manuel Pereira de Almeida.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Voltei de férias, posso-me ir embora outra vez?

Antes de ir de férias falei várias vezes do caso McCarrick, nos EUA. O que para muitos parecia ser apenas uma crise localizada nos EUA revelou-se, como eu já imaginava, uma crise para a Igreja Global que hoje levou o Papa a convocar todos os presidentes de Conferências Episcopais para uma cimeira sobre abusos, em Fevereiro.

Isto no mesmo dia em que o sucessor de McCarrick anunciou que vai a Roma discutir a sua resignação e um relatório na Alemanha, revelado pela imprensa, mostra que houve pelo menos 3.700 casos de abusos sexuais naquele país nas últimas sete décadas.

Neste momento os bispos americanos preparam-se para viajar para Roma para discutir estes assuntos mais directamente com o Papa também e o secretário pessoal de Bento XVI disse ontem, numa data apropriada, que os abusos são o 11 de Setembro da Igreja.

Por cá, os bispos continuam a confiar que as directrizes já aprovadas chegam para lidar com eventuais casos de abusos. Esperemos que tenham razão.

O tema dos abusos continua a merecer atenção por parte dos autores dos artigos do The Catholic Thing. Anthony Esolen dá um murro na mesa neste artigo e o padre Vaverek considera que o que está verdadeiramente em causa é uma crise de abuso de autoridade.

Temos também dois artigos do jovem Casey Chalk. No primeiro ele aconselha-nos a, no meio da tempestade, rezar mais e com mais força e, no de hoje, adverte para o perigo de, no meio dos pedidos de responsabilização, não “protestantizar” a Igreja.

Não Protestantizem a Igreja

Casey Chalk
O actual escândalo de abusos sexuais está a motivar muitos comentários sobre a estrutura do Catolicismo. Num artigo no “The Federalist”, Robert Tracinski afirma que um modelo baseado na ideia de certos homens estarem dotados de uma autoridade de origem divina “entra em conflito com a natureza humana” porque o Catolicismo exige que rejeitemos a possibilidade de “ajuizar por nós mesmos”. Outro artigo da Angela Bonavoglia argumenta que “aqueles que conduzem a obra de Cristo devem ser… mulheres, homens, homossexuais, heterossexuais, trans, jovens e velhos. Devem reflectir a visão dos reformadores de um ‘sacerdócio de todos os crentes’”.

Afirmações destas reflectem nada menos que uma exigência para que a Igreja Católica se protestantize, e têm as suas raízes na afirmação da Reforma de que todos os cristãos possuem a autoridade para determinar a verdade sobre Deus e sobre a Sua Igreja por si.

Martinho Lutero atacou a hierarquia da Igreja Católica com base no sacerdócio universal. No seu livro “Do Cativeiro Babilónico da Igreja”, explica-o da seguinte maneira:

Então, são forçados a admitir que somos todos igualmente sacerdotes, uma vez que muitos de nós somos baptizados, e por isso verdadeiramente o somos; enquanto a eles é confiado apenas o Ministério (ministerium) pelo nosso consentimento (nostro consensu)? Se eles reconhecessem isto saberiam que não têm direito a exercer sobre nós poder (ius imperii, fora daquele que lhes foi confiado) excepto na medida em que nós o tenhamos concedido.

De igual forma, Calvino viu no sacerdócio universal de todos os crentes uma forma de minar a hierarquia católica, apelidando o sacerdócio de “uma infâmia nefasta e blasfémia incomportável, tanto contra Cristo como contra o sacrifício que fez por nós através da sua morte na cruz”. Ele pôs em prática as ideias de Lutero, formulando uma eclesiologia em que os membros da Igreja elegem líderes leigos para governarem os seus pares.

A ideia do “sacerdócio universal de todos os crentes” tem, de facto, raízes bíblicas. É por isso que os Reformadores apelam a ela. São Pedro convida a Igreja a aceitar este chamamento. “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2, 5-9).

O próprio Catecismo da Igreja Católica afirma que: “Toda a comunidade dos crentes, como tal, é uma comunidade sacerdotal. Os fiéis exercem o seu sacerdócio baptismal através da participação, cada qual segundo a sua vocação própria, na missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei. É pelos sacramentos do Baptismo e da Confirmação que os fiéis são «consagrados para serem [...] um sacerdócio santo»”. (CIC 1546)

Porém, esta ideia deve ser aceite à luz do reconhecimento de que Deus, de facto, instalou líderes para o seu povo, cuja autoridade não pode simplesmente ser negada através da referência ao sacerdócio universal. Há até uma passagem do Antigo Testamento que fornece um exemplo pertinente, impressionantemente semelhante à linguagem invocada pela teologia protestante e pelos católicos anti-episcopais:

E Coré, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben. E levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembleia, homens de posição.
E congregaram-se contra Moisés e contra Arão, e disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor? (Números 16, 1-3)

Moisés, de Miguel Ângelo
Coré e a sua laia argumentam que Deus fez de todo Israel um povo santo e que por isso Moisés e Aarão não têm qualquer direito a exercer autoridade sobre eles. Trata-se de uma autêntica rebelião, não apenas contra os líderes divinamente instituídos, mas contra o próprio Senhor. Moisés diz mesmo aos rebeldes: “Assim tu e todo o teu grupo estais contra o Senhor” (Números 16, 11)

A resposta de Deus a esta traição é rápida e dramática:

E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava debaixo deles se fendeu.
E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram vivos ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação. (Números 16:31-33)

Eis o que acontece a quem procura destruir as instituições estabelecidas pelo próprio Deus, são consumidos, segundo as escrituras.

A liderança da Igreja Católica ocupa uma posição de autoridade divinamente ordenada, tal como a de Moisés. Jesus, aliás, fala mesmo dos líderes judeus como estando sentados “sob a cátedra de Moisés”, o que lhes confere a autoridade de governarem o Povo de Deus.

Os nossos bispos (e o nosso Papa), não obstante os erros, juízos errados e pecados que possam ter cometido, continuam firmemente sentados nessa cátedra. Em várias passagens do Novo Testamento lemos que os líderes da Igreja gozam de autoridade apostólica. São Paulo, por exemplo, fala do episcopado como sendo conferido pela imposição das mãos (1 Timóteo 1,6 e 4,14).

Reconhecer a mão de Deus na contínua liderança da Igreja não é, claro, um cheque em branco para os nossos líderes – eles serão julgados por Deus pelos seus pecados e nós temos todo o direito em exigir que assumam os seus erros e que sejam disciplinados quando esses erros forem particularmente gravosos. Por vezes há até bispos e cardeais que devem ser removidos – não por nós (lamento Lutero), mas por outros que tenham autoridade para tal.

Sejam quais forem as medidas tomadas contra os líderes eclesiais que nos falharam, talvez um bom conselho neste tempo de crise seja aquele dado por Jesus logo depois de se ter referido à “cátedra de Moisés”. Nosso Senhor ordena: “Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” (Mateus 23,3).


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 9 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Abuso de Autoridade: A Crise Mais Profunda

Pe. Timothy Vaverek
São incontáveis as vozes que se erguem entre bispos, padres e leigos, pedindo uma investigação credível sobre o escândalo de abusos sexuais e encobrimentos espoletados pelo caso McCarrick, bem como a crise de moral sexual, sobretudo relacionada com actividade homossexual entre o clero. São assuntos que merecem uma análise pormenorizada, sobretudo à luz do Novo Paradigma moral promovida por altos clérigos, que abre as portas à contracepção, actividade homossexual e extraconjugal e recasamento.

As incríveis alegações do arcebispo Viganó, porém, apontam-nos para uma crise muito mais profunda do que pecados sexuais e falsa teologia: o abuso da autoridade pastoral, tanto por parte dos clérigos abusadores como dos bispos que não protegem o seu rebanho.

Dizer que o abuso por parte de clero tem a ver mais com autoridade do que com luxúria não exclui o papel desempenhado pela sexualidade, mas liga essa gratificação ao exercício de poder. Para o clero a autoridade está enraizada no seu ofício sacramental de pastores do rebanho de Jesus. Padres predadores e os bispos que não defenderam as vítimas são, por isso, culpados não só de falhar no seu ministério, mas de abuso de uma relação espiritual. São pais e irmãos, imagens de Cristo, que violaram a confiança que o povo de Deus, procurando apoio e protecção, depositou neles.

É importante saber se os abusadores e os padres agiram de forma pecaminosa, isto é, com inteira liberdade e conhecimento. Mas o mais importante é que as suas acções provocaram feridas graves nos membros do Corpo de Cristo. A justiça e a caridade exigem que esses danos sejam investigados e remediados, na medida do possível, e não apenas perdoados. Isto pode implicar a remoção do ministério por parte dos culpados.

Em muitos casos os abusos por parte de padres e as falhas episcopais não foram casos isolados, que se podem ultrapassar dizendo “todos pecamos e cometemos erros”. Estamos, antes, a falar de padrões de comportamento destrutivo que se tinham tornado segunda natureza para os abusadores ou para o bispo. Chamamos a isso vícios. São disposições profundamente enraizadas para contínuo mau comportamento que indicam um estado de corrupção ou disfunção.

Os abusadores repetentes ou não querem, ou não podem, alterar o comportamento de forma a abdicar do poder que usam para se gratificarem a si mesmos. Assim, até que as suas disposições corruptas mudem, não tomarão medidas para restaurar a justiça e a caridade. Poderão até vociferar actos de contrição e de emenda de vida, mas só o fazem para recuperar o seu estatuto.

É por isso que o papel do bispo é tão importante. Cabe-lhe a ele encontrar uma forma efectiva de providenciar um final justo e caritativo para a vítima e, neste contexto, também para o abusador. Foi aqui que demasiados bispos revelaram a sua própria corrupção ou disfunção, agravando as feridas já abertas pelo mau uso da sua autoridade episcopal.

Alguns dos bispos que falharam repetidamente afirmam que, há décadas, tratavam o abuso apenas como um pecado. Mas isso não é verdade. Se o tivessem tratado como um pecado teriam exigido que o culpado reconhecesse o seu erro e fizesse restituição à vítima (financeiramente e de outras formas), bem como penitência, e que emendasse a vida. Teriam então percebido que a repetição não é era um “lapso”, mas sinal de um hábito vicioso, compulsivo ou desejado. Tanto num caso como no outro, a preocupação pelo bem-estar dos fiéis e do padre teria impedido novas nomeações.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo
Outros bispos dizem que, mais recentemente, tratavam os abusos como se fossem uma doença. Não é provável. Os planos de tratamento tendem a exigir supervisão e cuidados continuados. Em casos de abusos repetidos, frequentemente os bispos não garantiram que esses passos fossem seguidos de forma rigorosa.

Um número bem maior de bispos falhou ao não cultivar um ambiente em que o clero ou os leigos os pudessem procurar para partilhar preocupações. É verdade que isto mudou depois de 2002, de forma que as alegações de abusos sobre menores foram recebidos. Mas salvo raras excepções, como na diocese de Tyler, não existem políticas em curso que obriguem a relatar outras violações da fé e da moral cristã por parte de clero, tal como falsos ensinamentos, relações sexuais com homens ou mulheres, abusos financeiros na paróquia ou em relação a paroquianos individuais, vício de álcool ou pornografia, etc..

Deve-se reconhecer, portanto, que os bispos diocesanos ou do Vaticano que repetidamente falharam para com as vítimas das diversas formas de abusos por parte do clero, revelaram níveis de corrupção ou disfunção que, em si, constituem abuso de poder. Estes falhanços são muito mais que meros erros. É um comportamento que se tornou segunda natureza para estes bispos e para o exercício administrativo do seu cargo.

Durante as décadas desta crise de abusos, nem os bispos nem a Santa Sé têm prestado contas de forma transparente sobre bispos corruptos ou disfuncionais. Alguns dizem que falta autoridade aos bispos neste campo, mas nada os impede de apresentar orientações a Roma. Também esta passividade representa um abuso de poder que nega ao povo de Deus a justiça e a caridade. Cria uma situação tal que torna difícil até a uma investigação do Vaticano ser considerada credível.

No escândalo McCarrick, os bispos de Newark e de Metuchen conheciam as alegações e esconderam as indemnizações que já tinham sido pagas. Mas o Cardeal Wuerl insiste que ninguém o tinha avisado – o que, a ser verdade, significa que o Vaticano também se manteve no silêncio. Se assim for, o seu encobrimento impediu que se procurassem e ajudassem outros seminaristas e padres abusados pelo agora ex-cardeal. Também permitiu que McCarrick continuasse a confraternizar com seminaristas, já depois de reformado. Por isso, e de forma indirecta, a versão do cardeal Wuerl dá a entender um abuso de poder por parte dos bispos americanos e em Roma tão preocupante como as acusações feitas por Viganò.

Os abusadores como McCarrick e a crise de moral sexual associada ao Novo Paradigma, bem como os bispos que permitiram estes e outros ultrajes contra o povo de Deus, devem ser investigados de forma credível. As alegações feitas por Wuerl e por Viganò exigem que examinemos os núncios e a cúria, mas devemos ir mais longe. Para confrontar o abuso de autoridade pastoral, devemos estabelecer formas eficientes de denunciar, investigar e corrigir violações da fé e da moral por parte de funcionários da Igreja, desde voluntários a bispos. A justiça e a caridade exigem que assim seja. E Jesus também o exige, ele que é simultaneamente a maior vítima e o último juiz de todos estes abusos.


O padre Timothy V. Vaverek, STD, é sacerdote na Diocese de Austin desde 1985 e actualmente tem a seu cargo as paróquias de Gatesville e Hamilton. Os seus estudos doutorais foram na área de Dogmática, com enfoque em Eclesiologia, Ministério Apostólico, Newman e Ecumenismo.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Rezar Mais e com Mais Força

Casey Chalk
As últimas semanas têm sido muito complicadas para apologistas católicos. O escândalo McCarrick causou muitos danos, afectando gravemente um dos cargos mais elevados da Igreja. Seguiu-se a anunciada revisão do Catecismo da Igreja Católica sobre a pena de morte e por fim abriram-se as comportas das notícias de encobrimentos, já com décadas, de abusos sexuais numa série de dioceses em todo o país. Os críticos do Catolicismo têm material para vários anos. O que é que um apologista deve fazer?

A minha sugestão? Calar-se e rezar.

Esta ideia ocorreu-me depois de uma recente conversa com um amigo – também ele apologista leigo – que lê o que escrevo em várias publicações católicas. Pediu-me a minha opinião sobre como fazer sentido das mudanças em relação à pena de morte – bem como em relação ao pontificado do Papa Francisco em geral.

Senti-me muito humilde, e um pouco preocupado, com o facto de alguém querer saber a minha opinião sobre assuntos tão complexos. Mas o meu amigo, apesar de ter pouca formação formal, percebe bastante de teologia, das Escrituras e da apologética católica. Ainda assim estava a ter dificuldades, sobretudo em relação ao Papa. Pensando em práticas católicas comuns que incluem rezar pelas intenções do Santo Padre, perguntei-lhe com que frequência reza o terço. Respondeu que o faz cerca de uma vez por semana.

Eis a raiz do problema. Não quero apontar o dedo especificamente ao meu amigo, pelo menos ele foi honesto. Devo reconhecer publicamente que, apesar de escrever publicamente sobre vários assuntos católicos, sei que não rezo o suficiente. Às vezes, embora não neste preciso momento, sinto uma forte vontade de deixar de lado os meus trabalhos académicos ou a minha escrita e simplesmente rezar. Para minha vergonha, reconheço que quase sempre ignoro essa voz suave.

Mas aqueles de nós que procuram defender a fé católica negligenciam a oração à nossa conta e risco. Os apologistas adoram citar 1 Pedro 3,15, o nosso lema: “Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” Aliás, esse versículo é usado para justificar toda uma indústria, tanto no Catolicismo como no Cristianismo em geral.

Mas se lermos as escrituras por inteiro, esta passagem é uma raridade. Outros versículos e histórias – como passagens sobre São Paulo, nos Actos dos Apóstolos – também apontam para a importância da apologética. Mas estes estão em minoria quando comparadas com a insistência da Bíblia em relação à oração.

Nas Escrituras encontramos cerca de 650 orações e aproximadamente 450 respostas a orações. Jesus reza cerca de 25 vezes diferentes durante o seu ministério terreno. Paulo refere-se à oração, incluindo relatórios de oração, pedidos de oração e exortações à oração, 41 vezes. A primeira vez que se menciona a oração na Bíblia em Génesis 4,26 – muito tempo antes de qualquer referência à apologética!

Os católicos expendem muita energia mental e emocional em debates sobre a nossa fé. As editoras católicas e os ministérios de leigos dedicam enormes recursos a livros, programas de rádio, panfletos e sites apologéticos. Claro que falo só com base na minha experiência, mas posso dizer com alguma segurança que devem existir dezenas de sites com as mesmas respostas às objecções mais comuns à fé católica. Claro que a redundância pode ser útil – quanto mais divulgarmos isto pela internet, mais provável é que alguém o leia. Mas devemos ser tão diligentes, se não mais ainda, em espalhar as nossas orações pelo mundo, bem como pela internet.

Se estamos dispostos a entrar em discussões públicas, ou defesa, sobre a nossa fé, então no mínimo devemos estar a incorporar a leitura do Evangelho, o terço e oração livre na nossa rotina diária. A missa diária, para quem isso é possível, é também um arma potente no nosso arsenal de apologética. Nestes tempos de confusão na Igreja, precisamos cada vez mais dessas armas de combate espiritual.

Ainda para mais, em muito do nosso trabalho apologético está implícito um certo semi-pelagianismo. Embora todos os apologistas, tanto leigos como clericais, devam ser elogiados por despender tempo e energia em defesa da Igreja, por vezes questiono-me se não estará reflectido nestes esforços uma falta de vontade de simplesmente confiar as coisas a Deus.

Insistimos e pressionamos, escrevemos, debatemos, discutimos, na esperança de que, eventualmente, algo resulte que possa persuadir os nossos interlocutores de que a Igreja é aquilo que afirma ser, o depósito da totalidade da fé, onde Cristo habita na Eucaristia. Será que por vezes não estamos dispostos a deixar Deus tomar a dianteira, regressando a ele em oração, unindo-nos a Cristo, procurando a sua face e pedindo-lhe que seja Ele a edificar a sua Igreja?

Há uma história famosa sobre a Santa Madre Teresa de Calcutá. Uma freira estava com dificuldade em gerir a sua agenda complexa e ocupada. Sentia-se assoberbada e procurou orientação junto da superiora. Talvez estivesse à espera que a madre Teresa lhe ajudasse a planear melhor a agenda, ou talvez esperasse que a santa lhe concedesse férias.

Seja como for, a resposta da Madre Teresa foi aquela de que todos precisamos: disse à freira para passar mais tempo em oração. A verdade é que haverá sempre mais debates, mais ataques à Igreja, mais pessoas a precisar de ouvir argumentos fortes e convincentes para o Catolicismo. Mas fomos feitos para Deus, e se tentarmos fazer a sua obra sem a sua presença, o nosso ministério sofrerá.

Por isso, para todos os que andam com a cabeça às voltas devido às muitas crises que estão a abalar a nossa amada Igreja, vou oferecer apenas um conselho, e depois vou adoptá-lo eu: rezar mais, e com mais força.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 26 de Agosto de 2018)

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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Vida e Morte na Terra Roxa da Argentina

Carlos Caso-Rosendi
“Chamarei ao meu livro A Terra Roxa. Que outro nome se poderia dar a uma terra tão manchada pelo sangue dos seus filhos?” – William Henry Hudson

Nas altas horas do dia 9 de Agosto, 2018, os senadores da Argentina rejeitaram a legalização do aborto: 38 votos contra, 31 a favor. Dois senadores abstiveram-se. A proposta de lei incluiu desde o início várias contradições claras. Por exemplo, o texto votado no senado classificava o aborto como um “direito” – na verdade, um direito exclusivo e absoluto da mulher – apesar de a Constituição reconhecer claramente que a vida de todos os seres humanos está protegida desde o momento de concepção até à morte natural.

O movimento para legalizar o aborto na Argentina tem sido financiado na maior parte por organizações estrangeiras baseadas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o apoio adicional de fundos públicos fornecidos pelas autoridades locais, a vários níveis. Também tem chegado apoio substancial dos media, detidos em larguíssima medida por corporações estrangeiras. É fácil perceber que se trata apenas de mais um tijolo no muro anti-vida que os globalistas estão a erguer um pouco por todo o mundo.

Desde o fim do domínio colonial espanhol, grupos de argentinos têm passado o tempo a odiar-se furiosamente. As desavenças sobrevivem durante décadas, dividindo irmãos em guerras amargas que escandalizariam os Hatfield e os McCoy.

A recente campanha para legalizar o aborto não foi excepção. Os católicos e outros grupos cristãos opuseram-se, na maioria, à nova lei. Do outro lado havia alguns grupos pequenos mas barulhentos e, claro, os media generalistas. Ambos financiados por grandes corporações globalistas na Europa e na América.

Os adversários do aborto organizaram várias marchas e eventos, incluindo uma manifestação gigante, em todo o país, organizada por grupos de acção católica. Pessoas de todos os meios marcharam contra a proposta de lei na capital, Buenos Aires, e também noutra marcha organizada por cristãos não-católicos, com o apoio e a participação de simpatizantes católicos pró-vida. Essas manifestações foram ordeiras e limpas, pacíficas e de grandes dimensões.

Os defensores do aborto recorreram ao vandalismo, agressão física e verbal, blasfémia,
nudez e ataques a locais de culto católicos, especialmente em Buenos Aires. Tudo com o apoio dos principais programas de rádio e televisão, em que os argumentos da oposição eram descritos pelos “cognoscenti” como superstições medievais, indignos de uma sociedade do século XXI.

Na semana que precedeu a votação final no Senado, a Igreja Católica cumpriu o seu dever de recolher assinaturas, expressar preocupação e propor soluções razoáveis (embora o silêncio de Roma tenha sido ensurdecedor). Um padre católico que conheço lamentou que a maioria dos seus colegas padres e bispos estavam mais preocupados em não criar ondas do que em defender a verdade e a vida – o que não me espanta nada.

Embora os chamados “pró-escolha” tenham culpado a “poderosa hierarquia católica” pela sua derrota estrondosa, a verdadeira oposição do lado católico veio dos leigos que rapidamente se organizaram para defender a vida em várias frentes e estavam já prontos para desafiar a constitucionalidade da lei, caso passasse. Os bispos mostraram o seu apoio depois de o movimento ter chegado a uma certa massa crítica, umas semanas antes da votação no senado.
 
O debate no Senado decorreu ao mesmo tempo que procuradores federais e juízes prenderam uma dúzia de empresários de topo, ligados a uma vasta rede de lavagem de dinheiro e subornos que, de acordo com os primeiros cálculos, saqueou as finanças públicas em cerca de 100 mil milhões de dólares durante a última década. O escândalo tem ramificações internacionais que serão reveladas nas semanas e meses que vêm.

Um dos efeitos secundários desse esquema gigante tem sido o crescimento exponencial da percentagem – agora próxima dos 50% – de argentinos a viver abaixo da linha de pobreza. O aumento da pobreza e a tentativa de legalizar o aborto representa uma mistura muito peculiar. Porquê? Porque os mesmos políticos que criaram estas condições miseráveis, roubando aos pobres, argumentam agora que as mulheres grávidas devem ter o “direito” a abortar se forem tão pobres que não podem educar a criança.

Chamar cínico a esse argumento é pouco, mas num espaço familiar como este não tenho outros termos que possa usar.

Para a Argentina, este é o final de um século de declínio. O que é mais decadente do que um grupo de legisladores reunir-se para dar a certos cidadãos licença para matar os mais fracos e indefesos? Como é que o mundo reagiria se fosse uma lei para descriminalizar a escravatura, a matança de judeus ou a violação de mulheres? Há alguma diferença substancial entre essas e o aborto?

A República Argentina, em tempos orgulhosa e rica, bateu no fundo. O clube fechado de aldrabões que passam por líderes empresariais conseguiu destruir o que restava da economia, com a ajuda de políticos imorais, um sistema judicial corrupto e uma população que se mantém hipnotizada pelo canto da sirene do peronismo e as palavras de ordem esgotadas da Esquerda política dos anos 70.

No meio deste total desastre, fico contente por ver que os católicos normais tiveram a coragem de sair à rua e mostrar aos seus corruptos líderes políticos, empresariais e eclesiásticos que não vão permitir que os globalistas exterminem a nossa população.

A “ordem” social que temos aturado durante tanto tempo está a chegar ao fim. Afinal de contas, está na natureza da cultura da morte, eventualmente, morrer. Os poderosos não esperavam que isto acontecesse. Pelo que isto é também um apelo aos católicos em todo o mundo para ouvirem as palavras do nosso Papa: hagan lío (“façam barulho”) porque temos uma igreja para limpar e um mundo cheio de almas por salvar.


Carlos Caso-Rosendi é um autor argentino-americano. Converteu-se ao catolicismo em 2001. Fundou o site de língua espanhola Primera Luz e tem o seu próprio blog em inglês, Carlos Caso-Rosendi. Entre os seus livros incluem-se Guadalupe: A River of Light e Ark of Grace – Our Blessed Mother in Holy Scripture. Vive em Buenos Aires.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 18 de Agosto de 2018 em TheCatholic Thing)

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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Basta!

Anthony Esolen
Que não ouçamos mais vozes de padres, prelados e autores católicos, a dissentir da verdade – da razão, da Escritura, do constante e claro ensinamento da Igreja no que diz respeito à criação da humanidade, homem e mulher; da união carnal desejada por Deus desde o princípio; da educação de rapazes para serem homens e de meninas para serem mulheres, criadas um para o outro; da bondade e da realidade do sexo e das suas expressões naturais na cultura humana; da natureza criada do casamento que era tão óbvia para os pagãos como é para os cristãos; da inadmissibilidade de separar a dimensão de prazer do acto sexual do seu propósito biológico e do seu sentido corporal; da indissolubilidade do casamento e dos avisos dos mais recentes Papas; da solidão, confusão e tristeza que resultam de todos os géneros de caricatura de casamento, incluindo a fornicação habitual e consensual.

Que não ouçamos mais palavras a menorizar a perversão dos actos que violam a própria estrutura dos sexos. Que cesse a denigração ingrata da masculinidade e feminidade verdadeiras e a submissão cobarde a todas as mentiras nojentas do entretenimento e da educação de massas, para as quais uma escola católica está apenas um ou dois anos atrás dos tempos – New York Times.  

Não queremos ouvir mais sobre pronomes da parte de padres, prelados e autores católicos, que praticaram ultrajes sobre as almas e os corpos de jovens padres e seminaristas, nem de quem os encobriu, por razões que só vocês conhecem, mas que não servirão para vos desculpar nem para evitar que façam o que é digno. Se está numa posição de autoridade, e nada fez, deve demitir-se. Pode ser substituído, não é indispensável. Basta.

Há vários anos o bispo da diocese canadiana onde vivemos no verão foi apanhado numa inspeção de rotina no aeroporto. Tinha na sua posse imagens pornográficas com crianças. A imprensa canadiana não foi mais específica do que isso. Resignou em desgraça e cumpriu uma curta pena na prisão. Agora, segundo ouvi dizer de um padre respeitável, vive com outro homem. Nada que nos surpreenda. Ele tinha o hábito de viajar para destinos peculiares no mundo, que nada tinham a ver com as características étnicas ou culturais da sua diocese, maioritariamente rural. Lugares onde a carne é barata.

Se é verdade que agora está a viver uma velhice confortável de pecado, não é tanto um exemplo de arrependimento, mas de contumácia e de desafio. Não há vergonha? Não estamos a falar de uma diocese recheada de padres homossexuais atrás de rapazes adolescentes, embora houvesse alguns, e as paróquias, que já não eram propriamente ricas, foram reduzidas à penúria pelo custo das indemnizações. Ele já sabia que assim era, e ainda sabe. Uma senhora idosa da nossa aldeia ofereceu 165 mil dólares para ajudar a manter aberta a igreja local e os paroquianos fartaram-se de trabalhar para restaurar o edifício, em vez de contratar um empreiteiro. Todo esse dinheiro foi esbanjado. 

As paróquias faliram todas e o seminário diocesano está vazio, e mesmo assim não vemos vergonha na chancelaria.

Não quero insinuar que os fiéis não têm também pecados. Em parte, recebemos líderes e pastores muito piores do que merecíamos, mas não merecíamos grande coisa. Toda a gente tem sido queimada e conspurcada pela devolução sexual. Todos tinham o hábito de piscar o olho e virar a cara. Não há quem não tenha culpa. “A Igreja está este bordel porque eu contribuí para que assim fosse”, é o que todos os cristãos deviam dizer, por ser a verdade.

Mas alguns cristãos, alguns católicos romanos, têm estado a combater uma luta desigual não só para se arrependerem do que fizeram mal, mas para sarar aquilo que feriram e reconstruir o que ajudaram a demolir.

É agora que precisamos de pastores que possam liderar-nos nesse combate e não que nos repreendam a cada passo e que nos carreguem com o peso da sua verborreia burocrática, não para sorrirem para aqueles que sabem o que se passa, assegurando-lhes calmamente que nada vai mudar. Não estou em luta contra o episcopado, que em larga medida tem culpa pelos escândalos dos últimos quinze anos e que não se sujeitou a qualquer sanção, preferindo cobrir as suas almas episcopais colectivas de elogios.

Eu quero acreditar nos bispos. Deus sabe que aceito a autoridade dos seus cargos. Mas digo-vos que se não querem travar o combate que temos pela frente, então é melhor que saiam da frente e deixar passar quem esteja disposto a fazê-lo. Chega de brandura e de chazinho. Todos os bispos, padres e autores católicos que sabiam sobre o incesto espiritual e as perversões macabras do anterior bispo da nossa capital, agora caído em desgraça, e que nada fizeram, têm a obrigação de, pelo menos desta vez, admitir o seu falhanço e partir.

Por favor, vão-se embora. Resignem, rezem, leiam, pensem, façam o que entenderem e que seja agradável ao Senhor, mas não continuem a obrigar a Igreja a carregar o vosso peso morto. São uma vergonha tanto para o crente como para o infiel. Vão-se embora.

E dêmos uma chance aos verdadeiros, bons e jovens sacerdotes de Deus, suficientemente novos para não terem qualquer ilusão sobre o que se passou na geração anterior à deles. Será possível serem piores do que os seus eternamente infantis superiores?



Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de Agosto de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Suecos contra escolas religiosas e boas férias!

Ameaça perigosíssima ao bem-estar sueco
Ontem e hoje publiquei os últimos dois artigos sobre liberdade religiosa. Ontem vimos como um pastor baptista foi perseguido e expulso da Rússia, com a aparente conivência da Igreja Ortodoxa Russa e hoje vemos como o partido do Governo na Suécia quer acabar com todas as escolas religiosas no país.

Para a reportagem de hoje falei com Daniel Szirányi, da administração de uma das únicas três escolas católicas na Suécia, e a transcrição integral pode ser lida aqui.

Publiquei também as transcrições das conversas com o padre Jakob Rolland, sobre tentativas de proibir a circuncisão na Islândia, e com o Lorde David Alton, sobre a liberdade religiosa em geral, e no Reino Unido.

Já ouviu falar do Pálio de Cidadelhe? Não vai querer perder este tesouro escondido da Igreja portuguesa!


O Actualidade Religiosa vai de férias e volta apenas em Setembro. Claro que, se houver alguma notícia urgente, podem continuar a contar comigo e estarei também pelo Facebook e pelo Twitter.

“If this goes through, it’s equivalent to North Korea”

This is a full transcript, in the original English, of my interview with Daniel Szirányi, member of the board of the Catholic school of Notre Dame, in Gothenburg, Sweden, regarding the Social Democrat Party’s proposal to close all religious schools in Sweden.

Esta é uma transcrição complete, no inglês original, da minha entrevista a Daniel Szirányi, do Conselho de Administração da escola católica de Notre Dame, em Gotemburgo, Suécia, sobre a proposta do Partido Social Democrata sueco de fechar todas as escolas religiosa naquele país. A reportagem pode ser lida aqui.


What is going on exactly?
The current situation is that Sweden organizes its school system mainly based on state schools and there are 71 confessional schools. 59 of these are Christian, 11 are Muslim and there is one Jewish school. Three of them are Catholic schools. The one I represent has been present in Sweden for approximately 150 years and it is the biggest in the Nordic countries.

We have a very good relationship with society and it has been ongoing for a long time, and the current government, which consists of the Social Democrat Party and the Greens... On the 9th of September we have elections in Sweden, so there is a heated political debate. The Social Democrat Party, which is the major party in the Government have made a new proposal which means they want to close down confessional schools altogether. The reason behind that is mostly because in recent years we have had major immigration into Sweden and there are different issues with Muslim immigrants, and maybe also from other confessions, and there is a party called the Sweden Democrats, which opposes immigration, and they are taking loads of voters from the Social Democrat Party, which has been the traditional big party in Sweden. This is a typical move to try and gain back some of the voters.

Unfortunately, this affects all confessions and religions, and the Christian schools would all be hit by it. If the law goes through we would cease to exist. This is the major problem.

Fortunately, currently there is no political majority in Parliament. The only parties which are interested in this type of radical legislation is the Social Democrats, supported by the former communist Left Party and also the Liberal Party, which is a smallish socialist-liberal party. But the three do not have a majority currently.

Nevertheless, it is a little problematic for us, currently, working with schools and children and education, being in the press, in the center of a political election campaign is not what we would like. Unfortunately, prejudices are up in the air, which we always have to, somehow, fight back against.

We do have the legislation on our side, so it would not be possible to close the school, nevertheless people, and our teachers and employees, are obviously nervous, and nobody knows what will happen.

So this decision seems to be a way to gain back voters from the Sweden Democrats, but this is not a cause espoused by the Sweden Democrats, is it?
When the Social Democrat congress decided this we began inviting politicians to our schools to show them that we are a normal school, with about 450 pupils, nothing to be afraid of. But they told us, unfortunately, that they wanted to close the school. So after that we called every party and had dialogue with every party to understand what position each party had. The Sweden Democrats are not planning to close any Christian or religious schools, what they told is that they would like to elaborate if there is a possibility to limit the creation of new religious schools. But it is a vague definition. After the elections they would like to see if that is possible, but that would not affect the current existing Christian or Catholic schools.

You said there have been concerns about immigration. Have there been any problems with Muslim schools?
I cannot tell you if there have been... I have not heard of that.

Obviously there are the classical problems that we see in other countries with segregation in the big cities, and of course people might be skeptical against schools where children are dressed in a certain way, but I cannot point out any specific incident.

But the background of what the socialist ministers are saying is that they want to avoid further segregation, they believe that when you have religion based schools people do not integrate into Swedish society, and that increases segregation. The problem is that we would, from our point of view, say the opposite. We are actually helping a large part of the Christian immigrant community to help them into Swedish society, so it is the exact opposite. For example, our Catholic School of Notre Dame, in Gothenburg, has about 80 to 90% immigrant families, from the Middle East, but also South America, Africa and Eastern Europe, from different nationalities, and this is a perfect way to understand how Swedish Society works and help them on their path into higher education.

We have been in the media several times now and our main point is that the main argument the socialist government has for this proposal does not make sense, because we actually help to defuse segregation. Our school is in the middle of the city, it is a wealthy area, and people from all around the city are coming to the school, so it is the exact opposite of segregation.

In our case we are helping society to diminish segregation.

Do you have non-Catholic students also at your school?
We have a small majority of Catholics and a large minority of Orthodox. Then we have a few Muslim families also.

We have very good relations with them. In many of these Muslim countries they have Christian schools which are considered to be strong schools, which is why they are happy to have their children with us, even though they are Muslims. So in our case we have a very mixed population.

Just to clarify... The Social Democrat Party is left of center, correct?
Yes. We have three parties to the left...

The Left Party is the Ex-Communist Party, which is out of Government, but they are supporting the government. The Government consists of the Social-democrats, which are around 30%, they are historically the largest party, classical socialists and members of the European Socialist movement, and then we have the Green Party, which is between the communists and the socialists. Those three are on the left side.

Then we have three small center-right parties, the Christian Democrats, the Center Party and the Liberal Party, and then we have the larger Conservative-Liberal Party, which is moderate and has about 25%.

Finally, we have the third group, which is the Sweden Democrats, which are difficult to position as left or right, and it looks, from the polls, like they are going to win the election.

The big question that everybody asks is who will dare to join them in a coalition if they win.

When they say they want to close down the school, does that mean to literally close it down, or just remove public funding?
The rhetoric in the media is that they don't want to allow us to exist.

And keep in mind that the Swedish legislation is already very tough on religion and schools already. It is a very secular society, and we are, for example not allowed to have any religious impact during school hours in our Catholic school. So the only time we are able to have a morning mass, is before or after school hours. This is very important to understand, if you compare to a Catholic country such as Portugal, for example.

Regarding Public funding, being on the board, and based on my conversations with the principal and the management, that is actually what we are afraid of, that this particular legislation might not go through, but we will have limitations on funding, this and that, or other restrictions, and that obviously could impact our activity in a negative way.

Sweden has a state religion, the Lutheran Church...
Yes.

Some years back once you were born you were automatically considered a member of the Church, but now that is not the case.

But there is a relationship. I imagine many of these schools are Lutheran, have they spoken out?
Yes, and we are collaborating very well with each other. And what is nice to see is that many of these Christian schools are really strong schools, top schools in Sweden, and it is difficult to argue that they should close down, when their performance is so strong. So the clergy from both sides have spoken out together and we, in the schools, have helped each other out.

Do you know about any other country in Europe which has no confessional schools?
We did some research; it might not be complete... My family is from Hungary and I suffered under a communist dictatorship, but the only countries we have found which have these sort of limitations, they are very few in the world, and these are all dictatorships. We have not found any European country which has a full prohibition against Christian or religious schools.

What is important for the Swedish public, regardless of your opinion on religion, is to understand that if this goes through it is a very radical decision, equivalent to North Korea. People need to understand how severe this topic is. And I am not sure people are aware of this.

You seem to be confident that you have legislation on your side. You mean European legislation as well, correct?
Yes. The European Convention grants the freedom of each family to choose the school and the education of the Children, based on their faith. That is written in law, and Sweden has signed this Convention also, so it is valid in Sweden.

Now obviously, as you know, the national legislation can always be twisted back and forth, and this is what we hope they will not do, but keep the hard line and keep the European legislation alive in Sweden too.

But we are not there yet. Now we have a political campaign in Sweden, and that is why this topic is heated. I am not sure... I really hope it will be less important later on, once the elections are done, but obviously, if we are still threatened, we definitely will need to take legal action and get legal help, jointly with other Christian schools.

Obviously this is a threat to religious freedom in Sweden. Is it one of many? Are there other acts of hostility, or is this a unique situation?
This is the major topic when it comes to issues against religion, nevertheless a few months ago there was an attempt against a Synagogue in Gothenburg... There are some negative activities going on, but I would not say that there is a significant religious threat, other than the discussion about the schools.

It is not so easy to be a religious person in Sweden, because it is a heavily secular and atheistic country, even though we have a State religion. It is difficult to defend the faith, but this is how we live, and this is why it is so important to have confessional schools that provide an alternative for families which are not convinced by atheistic education.

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