quinta-feira, 12 de julho de 2018

Casais aproximam-se de Fátima, SSPX afastam-se Roma

O Papa Francisco escreveu pessoalmente ao Patriarca de Lisboa para agradecer a sua nota a propósito da aplicação do Amoris Laetitia, no que diz respeito ao acesso aos sacramentos por parte de casais em situação irregular. Tanto quanto sei é apenas a segunda vez que o Papa tem um gesto destes.

Começa já na próxima segunda-feira o encontro internacional das Equipas de Nossa Senhora, em Fátima. Esperam-se cerca de 10 mil pessoas. Saiba tudo aqui.

Faz este ano 60 anos que D. António Ferreira Gomes fez frente a Salazar, acabando por ser exilado. O Cónego Arnaldo de Pinho considera que o bispo teve razão no seu tempo. Uma entrevista a ler.

E a Sociedade de São Pio X dá mais um passo para longe de Roma, com a escolha surpreendente de um novo superior geral da ala dura, que se opõe às negociações com a Santa Sé.


Pope Francis' letter of thanks to Patriarch of Lisbon on Amoris Laetitia note

The Patriarchate of Lisbon made public a letter, this Thursday, from Pope Francis to Patriarch D. Manuel Clemente. This follows the publication by the Patriarch of Lisbon, last February, of a note on the application of chapter VIII of Amoris Laetitia

Beloved Brother Cardinal
D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente
Patriarch of Lisbon

I am writing to thank you for having sent me, during the past Lent, the Note you addressed to the priests of the Patriarchate concerning the application of the VIII Chapter of the Apostolic Exhortation Amoris Laetitia.

This deep reflection of yours filled me with joy, as I recognised in it the effort of a pastor and father who, aware of the duty to accompany his faithful, wished to begin with his priests so that they can better fulfil their ministry.

Today, the reality of married life is one of the fields where this accompaniment is most delicate and necessary. That is why I wished to call the Bishops to a long synodal path which might prove propitious – despite the inevitable difficulties – to the maturing of shared guidelines which would benefit the entire People of God.

Therefore, in expressing my gratitude, I would like to take advantage of the opportunity to encourage my Brother Cardinal and his collaborators in the pastoral ministry – in primis the priest – to carry on, with wisdom and patience, in their commitment to accompany, discern and integrate the fragility which shows itself in many forms in couples and their ties. A commitment which, on one hand, requires considerable effort on the part of us pastors, but which , on the other, regenerates us and sanctifies us, as everything is animated by the grace of the Holy Spirit which the Risen Lord bestowed on his apostles, for the remission of sins and the solicitous caring of all wounds.

While joyfully sharing with you, beloved Brother, this sweet and demanding mission, I assure you of your presence in my prayers and, asking that you pray for me also, bless you from my heart, together with your priests and the entire diocesan community of the Patriarchate of Lisbon.

Vatican, 26th June 2018
Franciscus

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Arrupe ao altar e Aga Khan a festejar

Vem aí mais um santo jesuíta? Soube-se hoje que a causa de canonização de Pedro Arrupe foi aberta.

Vila Viçosa acolhe, a partir de amanhã, o “Instituto da Padroeira de Portugal”. Saiba tudo aqui.

Lisboa acolhe, por estes dias, os festejos do jubileu de prata do Aga Khan. A Renascença falou sobre este assunto com a investigadora Faranaz Keshavjee.

E estamos todos muito satisfeitos com o resgate das 12 crianças tailandesas! E bem. Mas o que é que esta operação diz sobre a natureza humana? Mais do que possa imaginar. Tudo aqui, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português, não perca.

Farei de vós Pescadores de Javalis

Michael Pakaluk
Que todos os javalis se salvem! – Esta minha oração, a que se juntam as de muitos outros, terá obtido, se Deus quiser, resposta quando ler estas linhas.

Os Javalis são a equipa de 12 rapazes e o seu treinador, que ficaram presos pelas águas das monções numa pequena câmara, quatro quilómetros no interior de uma rede de grutas no norte da Tailândia. É preciso alguma imaginação para apreciar o drama da coisa.

As grutas são escuras como o breu, sem pinga de luz. As passagens não foram limpas nem polidas para poderem receber turistas, assemelham-se mais a caminhos rigorosos ao longo de escarpas. 

Não é raro encontrar pequenas fendas pelas quais só se consegue passar se dobrar o corpo exactamente da forma correcta. Agora imaginem tudo isso, mas debaixo de água fria, com correntes fortes. Pense na sua caminhada favorita junto a uma falésia, e agora imagine-se a percorrer essa mesma distância, mas nadando, em escuridão total, através de caminhos estreitos, contra a corrente. Porque é isso que é preciso para os tirar de lá. Entretanto têm estado aninhados numa pequena saliência daquela pequena câmara, com o oxigénio a esgotar-se.

Poderia ter sido um grupo de rapazes qualquer, mas são uma equipa de futebol. Este facto pode não significar muito para si, mas não se esqueça que 40% da população mundial tem estado a acompanhar, nos últimos dias, o maior evento desportivo do planeta, o campeonato do mundo de futebol.

Os rapazes entraram para a gruta quase em simultâneo com o primeiro jogo do campeonato. O presidente da FIFA já convidou os Javalis para assistirem à final em Moscovo, no domingo, se estiverem bem de saúde. Não haveria melhor forma de chamar a atenção do mundo para tudo o que têm passado.

O conceito cristão de providência diz-nos que este tipo de provação pública não acontece apenas por acidente, mas são desígnios do plano de Deus que servem para nos ensinar algo. É por isso que podem servir de inspiração para arte de boa qualidade (ou de menor qualidade) como “O Naufrágio do Deutschland”, “No Ar Rarefeito”, “Titanic” e “O Endurance”.

Nosso Senhor dá-nos um exemplo disto: “E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” (Lucas 13:4,5)

Então o que podemos aprender da provação dos Javalis, para além da necessidade de arrependimento?

Aqui temos alguma liberdade criativa. Enquanto filósofo, gosto particularmente da combinação de imagens – uma gruta, debaixo de água. Muitos têm sentido que a vida envolve algum tipo de contenda, ou de teste. Platão concebeu-a na forma de caverna e desde então os filósofos têm apreciado a imagem.

A caverna de Platão era profunda e acidentada, não totalmente escura, mas iluminada por um fogo que lançava sombras. Em princípio era possível sair dela por si. Mas com um guia seria mais fácil e era preciso ser libertado por ele para poder sequer começar a viagem.

Cristo poderia ter usado a imagem da caverna, uma vez que estas abundam na Terra Santa. Mas em vez disso ele imaginou a salvação como um resgate da água, sendo o homem retirado de lá como um peixe. Isto é, em si, interessante.

As cavernas são, por natureza, lugares inóspitos à vida; a água é uma fonte de vida: assim, um homem que se afoga na água não está num lugar onde nenhum ser vivo deve estar, mas simplesmente onde nenhum ser humano deve estar. Mais, a sua salvação pode ser instantânea: basta retirá-lo da água. Aí poderá respirar, ficará ao sol. A ascensão através da água é secundária, uma vez que basta uma poça para se poder afogar. Para além disso, o tempo é limitado. Logo, a principal tarefa de um homem que se está a afogar não é esforçar-se por subir, mas deixar de esbracejar e aceitar a ajuda do Pescador de Homens.

E, no entanto, muitos dos nossos contemporâneos têm mais em comum com esta equipa de futebol. Precisam de ser pescados da água, sim, mas ao mesmo tempo vão-se colocando cada vez mais fundo na caverna. O seu resgate, nesse caso, requer uma combinação hábil de fé e de razão: um testemunho sacrificial de fé, ao ponto da morte, mas também as capacidades necessárias para encontrar passagens através das grutas escuras.

Esta é, para mim, a mais importante lição deste evento. Imaginem o homem abandonado numa saliência, dentro de uma caverna parcialmente inundada. A Igreja deve ir em seu auxílio. Mas será que ela já anteviu a necessidade de ter uma equipa de mergulhadores especialistas para o fazer? Será capaz de identificar os peritos “amadores” que verdadeiramente sabem como lidar com estas circunstâncias, ou aceitará a sua ajuda se eles se apresentarem como voluntários? Já teve apóstolos com essas características, mas precisa de mais.

Há muitas outras lições a retirar, que deixarei ao leitor, com uma excepção. A cooperação internacional que envolveu o resgate destes rapazes permite-nos retirar alguma ilação sobre a natureza humana?

Se a natureza da humanidade fosse de estado de guerra de todos contra todos, quando uma equipa de elite da marinha tailandesa nadasse quatro quilómetros através das águas escuras de uma caverna não para eliminar, mas para salvar, o grupo que lá se encontra, estaria a agir contra a natureza humana. O seu aparente heroísmo resultaria apenas da convenção e da ameaça de punição por incumprimento.

Mas claramente não é esse o caso, e gostamos de nos lembrar que assim é. Gostamos de histórias como esta, do resgate da caverna, porque nos mostra que os militares são, fundamentalmente, agentes de paz e porque a humanidade, não obstante o pecado e a morte, está enfim, em paz.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 10 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Kavanaugh e Nicarágua

A Igreja da Nicarágua suspendeu o seu papel de mediadora na crise política, depois de dois bispos e o núncio apostólico terem sido agredidos por paramilitares.

No Japão o número de mortos devido às cheias não pára de subir. O Papa enviou ontem um telegrama de solidariedade com aquele país.

Donald Trump nomeou ontem um candidato para suceder ao resignatário Anthony Kennedy, no Supremo Tribunal. Trata-se de Brett Kavanaugh.

E o que é que isso tem a ver com actualidade religiosa? Tudo, como se explica aqui.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Preconceito Anticristão Despercebido

Hoje em dia quando pensamos em cristãos perseguidos a maior parte de nós pensa em locais como a China, o Médio Oriente, ou estados pária como a Coreia do Norte, Venezuela ou Cuba. São casos apontados ocasionalmente, mas que recebem pouca publicidade nos media seculares. Normalmente são os meios de comunicação religiosos, católicos e protestantes, que se ocupam de nos manter informados sobre as dificuldades dos nossos correligionários no mundo moderno.

Mas existe toda uma outra dimensão de ameaças aos cristãos que passa praticamente despercebida. Sabemos que existe pressão sobre organizações religiosas e igrejas na América – bem como crentes isolados como floristas ou pasteleiros – para se acomodarem às tentativas do Estado ou das agências federais para impor uma nova ética sexual, ou para aplicar as leis que regulam o “discurso de ódio” ou o preconceito contra crentes.

Até agora o Supremo Tribunal tem sido bastante bom a proteger a liberdade religiosa. E se o Presidente Trump – como é provável – conseguir nomear para o tribunal mais um juiz (ou dois?) que seja sensível à importância das defesas constitucionais da liberdade religiosa, poderemos ter protecção a longo prazo do constante ruído anticristão nas universidades, nos media e em Hollywood.

Há anos que tenho conhecimento da existência de problemas semelhantes na Europa, onde normalmente não existem as mesmas protecções ou recursos jurídicos que nós temos ao abrigo da Primeira Emenda. Mas não tinha noção da verdadeira extensão dos problemas que lá existem – e penso que poucos terão – embora agora tenhamos um excelente instrumento com o qual os podemos medir.

O Observatório de Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa publicou um relatório de 74 páginas, relativo a 2018, que nos abre verdadeiramente os olhos (podem lê-lo online, aqui). Não se trata simplesmente de uma compilação de queixas ou de reacções exageradas aos choques típicos de sociedades pluralistas. Fornece um retrato de um problema extensivo que deve interessar a toda a gente que se importa com a liberdade, incluindo a liberdade religiosa.

Uma das coisas mais marcantes do relatório é o cuidado com que foi elaborado, a começar pelos termos que o definem: “O termo ‘intolerância’ refere-se à dimensão social ou cultural e, no pior caso, inclui crimes de ódio contra cristãos; o termo ‘discriminação’ refere-se à dimensão legal e inclui interferências com a liberdade de expressão, religião, consciência, livre associação e reunião, direitos paternais, liberdade contratual, remoção de símbolos cristãos pelo Governo, leis que afectam os cristãos de forma negativa e acesso desigual à justiça”.

Ao ler este parágrafo ficamos espantados por saber que estas coisas estão a acontecer na Europa, hoje. O observatório cita o Papa Francisco que diz que existem dois tipos de perseguição anticristã. A primeira é aberta, como se vê em locais como o Paquistão, e é clara, explícita e inegável. A segunda é “perseguição bem-educada (…) disfarçada de cultura, de modernidade ou de progresso”.

O relatório também divide a perseguição na Europa em duas categorias com nomes mais coloquiais: “Apertar” e “esmagar”. Os apertos estão a transformar-se num fenómeno internacional, como se vê por estas discrições, que têm paralelos na América: “Em França, um farmacêutico foi sancionado por se recusar a vender um DIU, um aparelho abortivo. Parteiras suecas que se recusam a participar em abortos perderam os recursos por despedimento injustificado e tiveram de pagar custas de tribunal. Um lar católico na Bélgica foi multado por impedir que os médicos administrassem uma injecção letal e outro na Suíça foi ordenado a permitir o suicídio assistido nas suas instalações, sob pena de perder os apoios estaduais”.

Isto já é mau em si. Mas os casos de esmagamento são ainda mais preocupantes. Muitos envolvem ataques por parte de muçulmanos a membros do clero ou a pessoas que ostentam cruzes ou outros artefactos religiosos. Se apenas ouve as notícias dos media generalistas, dificilmente saberia que estas coisas acontecem, a não ser que surja um caso impossível de ignorar, como o assassinato, em 2016, do padre Jacques Hamel, em França, às mãos de dois extremistas muçulmanos.

Mas não são apenas os muçulmanos. A maior parte do relatório do Observatório descreve mais de 500 casos de intolerância e discriminação, acompanhados de links que lhe permitem ver o que se passou em maior detalhe.

Um dos sinais da seriedade de tudo isto é que o Observatório não se contenta meramente em relatar estes abusos, mas faz sugestões concretas sobre o que poderá ajudar a contrariar aquilo que parece ser uma moda em crescimento. Duas dessas sugestões chamaram-me a atenção e são cruciais para sociedades onde se tornam cada vez mais aceitáveis atitudes anticristãs: “Os líderes de opinião devem ter noção da sua responsabilidade em formar um discurso público tolerante, e devem evitar estereotipar negativamente os cristãos ou o cristianismo. Os artistas devem respeitar os locais e os símbolos religiosos, tendo em conta que o objecto da sua arte poderá ser muito sagrado para os fiéis”.

Isto já seria muito bom, claro, embora os nossos intelectuais antirreligiosos não devam levar tais conselhos muito a peito. No fim das contas, porém, são as autoridades públicas, a todos os níveis, que devem ser confrontadas com as provas dos seus próprios preconceitos e erros. E devem ser obrigados a não os esquecer.

No caso americano da Masterpiece Cakeshop o nosso Supremo Tribunal notou, correctamente, a hostilidade aberta revelada pelo comissários dos direitos civis do Colorado para com o pasteleiro que se recusou a criar um bolo especial para um casamento gay. Desde então algumas pessoas comentaram que a decisão do tribunal não representou propriamente uma vitória, porque deu a entender que o tribunal só agirá quando existirem provas de preconceito anticristão aberto.

É bom que tenhamos isso em conta, uma vez que vão surgir outros casos parecidos. Mas os nossos amigos europeus fizeram bem em denunciar governos, a todos os níveis, por permitir discriminação subtil e – como temos visto nos Estados Unidos – o abuso de leis contra a discriminação para discriminar os cristãos.

Não vai ser uma batalha fácil. Mas quanto mais nós fizermos em termos de registar e denunciar o tipo de abusos identificados pelo Observatório, mais difícil será para os preconceituosos anticristãos.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Carícias para D. António e falta de Confiança na ONU

Três dos novos padres
Portugal já tem um novo cardeal.

Ontem D. António Marto foi elevado ao cardinalato pelo Papa Francisco, dizendo-lhe que o cardinalato era uma “carícia” de Nossa Senhora para o bispo de Fátima.

D. António aproveitou o momento para exortar os portugueses a “prestar mais atenção aos esquecidos” e esta sexta-feira, na missa com os novos cardeais, o Papa alertou para os “triunfalismos vazios” na Igreja. Marcelo Rebelo de Sousa enviou um telegrama de parabéns.

O Parlamento aprovou um voto de louvor à nomeação do Padre Tolentino para bibliotecário do Vaticano. O Bloco e o PCP abstiveram-se, porque pelos vistos é contra os seus princípios dar os parabéns a padres.

Por falar em padres, esteve cá um iraquiano, envolvido na reconstrução das casas dos cristãos que foram perseguidos pelo Estado Islâmico. O padre Thabet lamenta a inacção da ONU naquela região.

Ser padre não lhes passava pela cabeça, agora andam de cabeção. Conheça os padres que vão ser ordenados no domingo, em Lisboa.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

De Tronco para o Trono?

(Clique para aumentar)
É já amanhã que Portugal “ganha” mais um cardeal. D. António Marto junta-se a D. Manuel Clemente, D. Manuel Monteiro de Castro e D. José Saraiva Martins. Destes apenas os primeiros dois são – ou serão – eleitores. Toda a cobertura, já sabe, na Renascença.

Em Tronco, aldeia natal D. António Marto, já se sonha com voos mais altos

Entretanto vão chegando reacções sobre outra nomeação importante, a do padre Tolentino a arcebispo e bibliotecário do Vaticano. D. Manuel Clemente revela-se “muito feliz” com o facto.

O Rei da Jordânia é o vencedor do Prémio Templeton deste ano.

A linha aérea nacional de Israel vai deixar de pedir a mulheres que mudem de lugar nos seus aviões para acomodar judeus ultraortodoxos que não queiram estar sentados ao lado de passageiras.

O movimento pró-vida precisa de se colocar acima das divisões confessionais e políticas se quer ter alguma esperança de obter vitórias duradoras. É a conclusão do artigo desta semana do The Catholic Thing, que todos devem ler.
                          
Termino com um convite a todos os que vivem na zona do Porto, para participarem na procissão do Triunfo, no próximo dia 14 de Julho. O convite está na imagem.

Tempo de Pregar aos Não Convertidos sobre o Aborto

Filip Mazurczak
Aqueles que acreditam no direito fundamental à vida tiveram duas grandes derrotas, em dois continentes diferentes, no espaço de menos de um mês. No dia 25 de Maio dois terços da população votou para revogar uma emenda constitucional que protege o direito à vida, abrindo caminho para aquilo que o Governo irlandês promete que vai ser uma das leis pró-aborto mais agressivas da Europa. Uma semana mais tarde o Congresso argentino votou por 129-125 a legalização do aborto até às 14 semanas de gravidez (para o diploma ganhar força de lei precisa de ser aprovado pela Câmara dos Deputados e ser promulgada pelo Presidente).

Claramente os pró-vida estão a perder a batalha de defesa da vida dos nascituros. Para ganharmos no longo prazo precisamos de criar um consenso social de que os nascituros merecem o direito à vida, um consenso que transcende as divisões políticas e religiosas.

O desastre irlandês tem sido apresentado como prova do recuo da Irlanda das suas raízes católicas, desde os anos 90. Na Argentina ainda há esperança de que a Câmara dos Deputados, que é mais conservadora que o Congresso, possa impedir a legalização do aborto. Mas mesmo que isso aconteça, há uma forte probabilidade de que seja uma vitória efémera: as sondagens mostram que 60% dos argentinos apoiam a lei do aborto, quase duas vezes os que se opõem (34%).

Mais, na Argentina, como na Europa e na América do Norte, as forças pró-vida estão muito proximamente ligadas ao catolicismo. E a Argentina é um dos países menos religiosos da América Latina, pelo que uma revolta popular anti-vida, e anti-católica, à irlandesa, parece ser provável num futuro próximo.

Internacionalmente, a maior fraqueza da causa pró-vida é a sua proximidade com o Cristianismo e a direita política. Claro que não é mau que as Igrejas – Católica, Ortodoxa e algumas protestantes (tal como judeus ortodoxos e alguns muçulmanos) – estejam na linha da frente na batalha pela vida. Pelo contrário, o Cristianismo volta a mostrar provas de que rejeita o Zeitgeist em nome de valores intemporais, tal como fez em 1537 quando a escravatura era uma prática comum, durante a colonização europeia das Américas e o Papa Paulo III emitiu uma bula a prescrever excomunhão para os responsáveis por essa prática odiosa.

O problema está no facto de que numa democracia pluralista nenhum líder ou partido irá governar para sempre. Helmut Kohl foi chanceler da Alemanha Ocidental durante 16 anos, mas mesmo esse seu domínio acabou eventualmente. Eu fiquei contente quando o Presidente Trump rescindiu a política da Cidade do México e promulgou outras políticas pró-vida. Mas o Trump também não vai durar para sempre.

Nos Estados Unidos e em muitos outros países a posição das pessoas sobre o aborto está fortemente ligada à sua filiação política e religiosa. Nas últimas décadas isto acentuou-se ainda mais. O número de democratas pró-vida no Congresso actualmente, por exemplo, conta-se pelos dedos de uma mão, em comparação com mais de 100 nos anos 70. Para que a legislação pró-vida seja irreversível é necessário criar um certo consenso.

Para o fazer é preciso estendermos a mão às pessoas de boa vontade. Temos de começar pela base e explicar aos nossos amigos e familiares não conservadores e não cristãos porque é que somos pró-vida. O movimento pró-vida pode não ter a influência política e o financiamento generoso de que gozam a Planned Parenthood ou a Open Society Foundation de George Soros. Mas temos uma arma muito mais poderosa: A verdade.

Com os avanços na ciência, tecnologia e medicina, agora sabemos que o nascituro não é um aglomerado de células. As ondas cerebrais de um embrião são detetáveis às seis semanas após a concepção, bem dentro dos prazos legais para o aborto em quase todos os países ocidentais.

Pessoas intelectualmente honestas, que aderem aos conselhos de Sócrates de seguir as provas, seja para onde for que elas conduzem, serão levados pela lógica irresistível de que um nascituro é humano e, por isso, merecedor de protecção legal, independentemente do lado da barricada política em que se encontram ou do Deus, ou deuses, em que acreditam ou não acreditam.

O Hinduísmo pode não se opor ao aborto em termos absolutos (como comprova a legislação extremamente permissiva, que permite a prática até às 24 semanas nalgumas circunstâncias), mas Mahatma Gandhi, um hindu revoltado com a hipocrisia dos cristãos que colonizaram o seu país, disse que para ele era “claro como a luz do dia que o aborto é um crime”.

O falecido Nat Hentoff, crítico de música para o Village Voice – tudo menos um polo de conservadorismo social – era um judeu ateu libertário. Mas, sendo intelectualmente honesto, ele via que o aborto era um mal e opunha-se-lhe activamente. Há muitas mentes que, tal como Gandhi ou Hentoff, encontram-se em campos diferentes dos cristãos em termos políticos ou religiosos, mas têm a capacidade de ver o aborto como aquilo que é – se os informarmos.

Quanto mais pessoas dessas houver, mais pressão haverá sobre os políticos e a sociedade para condenar o aborto como uma violação dos direitos humanos mais básicos.

Imaginem que alguém vos dizia: “Pessoalmente, oponho-me ao tráfico de seres humanos, mas mais vale regulamentar a prática do que deixá-la acontecer de forma ilegal e insegura. E o Governo não tem nada que se meter nos assuntos privados dos traficantes. Devem deixá-los tomar as suas próprias decisões”.

O mais provável é que nunca tenha ouvido ninguém proferir sofismos deste calibre. Mas a maior parte das pessoas diz coisas muito semelhantes sobre a matança de humanos nascituros – humanos com cérebros, coluna vertebral e impressões digitais, que são capazes de sentir dor e, nalguns casos, de sobreviver fora dos úteros das suas mães.

A recente catástrofe na Irlanda e a tragédia em curso na Argentina mostram que devemos trabalhar para criar uma sociedade em que o aborto é visto como sendo tão inaceitável como o tráfico humano, e devemos pregar não aos convertidos, mas àqueles que, por causa das suas ideias sobre política ou religião, são nossos companheiros inesperados.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Dois novos arcebispos, um Tolentino e um Coelho

O bibliotecário...
Foi um dia de grandes novidades para a Igreja em Portugal, com duas nomeações episcopais.


E numa notícia ainda mais surpreendente, o Papa nomeou o padre José Tolentino Mendonça bibliotecário e arquivista do Vaticano, elevando-o a arcebispo. O agora D. José Tolentino diz que quer continuar a servir a Igreja na Cultura e o próprio Presidente Marcelo já o congratulou.

Entretanto em Roma o Papa recebeu a visita de Emmanuel Macron, que tomou posse como “proto-cónego de honra” da Basílica de São João de Latrão.

E o Faith’s Night Out, que tanto sucesso tem feito nas cinco edições que já decorreram em Lisboa, vai estrear-se no próximo fim-de-semana no Porto.

E enquanto isto, na Holanda proibiram o véu islâmico nos edifícios públicos e nos EUA o Supremo Tribunal validou a proibição de Trump à entrada de cidadãos de cinco países de esmagadora maioria muçulmana.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Fé e Liberdade, pelos vistos, é em Portugal

Magalhães Crespo
O Papa esteve ontem em Genebra para um importante encontro ecuménico em que pediu às igrejas que “as distâncias não sejam desculpa” para não dialogar e pediu um novo ímpeto de evangelização para unir ainda mais os cristãos.

Portugal é dos países com menos restrições à liberdade religiosa, segundo a Pew Research Center.

foram escolhidos os bispos que vão estar no sínodo dos jovens, em Outubro e a Igreja portuguesa garante que está atenta aos mais novos.

O antigo vice-presidente da Renascença vai receber o Prémio Fé e Liberdade, dado pelo Instituto de Estudos Políticos, da Universidade Católica, este ano.


quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Consciência Existe?

David Carlin
Há poucos dias o Supremo Tribunal dos Estados Unidos chegou a uma decisão no caso de um pasteleiro do Colorado que se recusou, por objecção de consciência, a fazer um bolo para o casamento homossexual de dois homens. Infelizmente, o tribunal não decidiu sobre o facto de o pasteleiro, ou qualquer outra pessoa numa posição parecida, ter direito, ao abrigo da Primeira Emenda, de seguir a sua consciência num caso como este.

O tribunal limitou-se a declarar que o tribunal dos direitos civis do Colorado, que tinha decidido punir o pasteleiro, tinha revelado um preconceito antirreligioso indevido ao chegar à sua decisão. Podemos esperar, por isso, que esta questão apareça novamente diante do Tribunal num futuro não muito distante, a saber, se a cláusula de “livre exercício” da Primeira Emenda protege lojistas que se recusem a fornecer bens ou serviços porque estão honestamente convencidos de que seria pecaminoso, ou imoral, fazê-lo.

No mundo anglófono a questão dos direitos de consciência religiosa data de há muitos séculos, remontando talvez aos Lollardos (seguidores do padre revoltoso John Wycliffe) no Século XIV. Foi formulado de forma clara no Século XVII quando, entre outros, Roger Williams e o seu amigo John Milton argumentaram que os indivíduos, desde que em tudo o resto sejam cumpridores da lei, têm direito a obedecer às suas consciências, ainda que essas consciências estejam erradas. Na geração depois da independência essa visão tornar-se-ia quase universal nos recém-fundados Estados Unidos.

Na América existe uma longa tradição de permitir que os fiéis de confissões religiosas pacifistas (como os quakers, por exemplo) obedeçam às suas consciências quando estas lhes pedem que evitem o serviço militar. Durante a guerra do Vietname o estatuto de objector de consciência era frequentemente atribuído mesmo a pessoas que não pertenciam a uma religião pacifista – como por exemplo católicos ou secularistas rigorosos – desde que apresentassem argumentos convincentes de que tinham uma convicção sincera de que seria para elas imoral participar nesta guerra em particular.

De tal forma acreditamos na importância da consciência, ainda que esta esteja errada, que temos estado dispostos a tolerar objectores de consciência, mesmo quando está em causa o destino da nação.

Mas essa atitude de tolerância parece ter mudado. Muitos americanos acreditam hoje que a lei deve obrigar pessoas como o pasteleiro do Colorado a violar as suas consciências. E não é por o destino da nação estar em perigo. Nem é porque de outra forma este casal homossexual teria de passar sem bolo de casamento, uma vez que podiam facilmente ter obtido o que queriam noutra pastelaria ou podiam até ter comprado um bolo não personalizado nesta pastelaria em particular.

Fico pasmado com esta falta de noção sobre a importância da consciência. Estas pessoas não compreendem que o direito a obedecer à consciência é um direito humano fundamental? Talvez o mais fundamental de todos? Estas são geralmente as mesmas pessoas que pensam que o aborto e as relações homossexuais são direitos humanos fundamentais. Mas não pensam que exista um direito fundamental a obedecer sinceramente à consciência? Incrível. Em que mundo estamos a viver?

Mais me espanta que esta gente não compreenda que a consciência é um importante bem social. Todos ficamos mais bem servidos quando os nossos amigos, vizinhos e concidadãos prestam atenção à voz das suas consciências. Claro que existem consciências demasiado rigorosas, e isso não é algo a encorajar, mas o mal social causado por uma consciência demasiado rigorosa não é nada comparado com o mal provocado por consciências demasiado lassas. Uma sociedade desencorajar a liberdade de consciência é uma loucura. Mas há dezenas de milhões de americanos dispostos a fazer precisamente isso para tornar o mundo mais seguro para bolos personalizados para casamentos homossexuais.

Jack Phillips, detentor de consciência
Porque é que alguém chegaria ao ponto de desvalorizar a consciência?

Vejamos, o que é a consciência? No sentido tradicional do termo (uma tradição que remonta alguns séculos na língua inglesa) é vista como uma faculdade de conhecimento moral. Não conseguimos conhecer o bem e o mal da mesma maneira que conhecemos coisas do mundo material, isto é, através dos nossos sentidos (vista, audição, toque, etc.). Mas não se preocupem, para além destas faculdades sensoriais, temos a faculdade de conhecimento moral. Normalmente chamamos a isto consciência (embora também tenha sido conhecido como sentido moral).

Muitos secularistas humanistas (ou pós-cristãos, como também podem ser chamados), não acreditam que exista um sentido não-sensorial que nos forneça conhecimento moral. Todo o conhecimento, alegam, vem dos sentidos. As convicções que não vêm dos sentidos não são, por isso, conhecimento, mas sim sentimentos, preconceitos ou caprichos. Quando as pessoas dizem, “a minha consciência dita que devo fazer isto, ou aquilo”, o que estão mesmo a dizer – deste ponto de vista – é “os meus sentimentos, preconceitos ou caprichos ditam que devo fazer isto, ou aquilo”.

Mas se a consciência não passa disto, então não há grandes razões para que seja reverenciada. Se é possível alcançar algum bem social obrigando as pessoas a ignorar as suas consciências, então que se obrigue.

A maior parte dos que acreditam apaixonadamente no casamento entre pessoas do mesmo sexo serão provavelmente humanistas seculares ou pós-cristãos, que por sua vez tenderão a acreditar que não existe nada que se pareça com uma faculdade especial de conhecimento moral, isto é, qualquer consciência que mereça respeito e protecção legal. Quem é que pode ficar surpreendido, então, com o facto de os grandes defensores do casamento homossexual não se sentirem incomodados com a ideia de impor castigos legais a pasteleiros que, por razões de consciência, recusem fazer bolos para estes casamentos?

Trata-se de um ponto de vista comum, mas é um ponto de vista comum que ameaça directamente o núcleo moral de cada um de nós.


David Carlin é professor de Sociologia e de Filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 15 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Aquarius e honoris

Após um fim-de-semana que ficou marcado pelo caso do “Aquarius”, as comissões de Justiça e Paz das dioceses portuguesas assinaram um documento conjunto em que deixam votos de que “as correntes de hostilidade ao acolhimento de refugiados e migrantes” não tenham expressão em Portugal. O Papa falou deste assunto no domingo, defendendo “a responsabilidade e a humanidade” no acolhimento aos refugiados.

O novo bispo de Viseu tomou posse no fim-de-semana. D. António Luciano Costa, ex-enfermeiro, diz que as prioridades são estar com as pessoas e rezar (na foto).

Já passou um ano dos incêndios de Pedrógão. O bispo de Coimbra enaltece a força da esperança da população afectada. Sobre isto, não deixem de ver a grande reportagem da Renascença

Na sexta-feira a Universidade Católica concedeu um doutoramento Honoris Causa ao cardeal Sean O’Malley. No seu discurso, o cardeal americano enalteceu a educação católica como remédio para a cultura das celebridades.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Falta um para a selecção da AIS

Não dá para fugir ao assunto, começou o mundial!

Quem já entrou no espírito é a fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que apresenta a sua selecção. Têm uma freira à baliza e um cardeal na defesa. Só lhes falta um ponta-de-lança, que pode ser você!

Está suspensa a construção do museu judaico que estava previsto para Alfama, mas em contrapartida o museu de Leiria vai expor as Rosas de Ouro oferecidas pelos Papas ao Santuário de Fátima.

Falámos com o novo bispo de Viseu. D. António Costa mostra-se “optimista e confiante”.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Irlanda não perdoa a hospitais católicos

A Irlanda prepara legislação para legalizar o aborto e o primeiro-ministro Leo Varadkar já avisou que todos os hospitais que recebem fundos públicos vão ter de “fornecer” este “serviço”. Os hospitais católicos não são excepção.

O Papa diz que a crise dos migrantes exige uma “mudança de mentalidade” e uma resposta humanitária internacional.

Começou o Mundial! Francisco pede que este seja uma “ocasião de encontro” entre culturas e religiões.

Esta quarta-feira há artigo do The Catholic Thing em português. Perante as acusações de neo-gnosticismo na Igreja actual o padre Weinandy dá uma contextualização histórica sobre esta heresia e diz que se ela existe não será onde muitos pensam.

Mas há mais no The Catholic Thing esta semana. Depois de vários anos a colaborar com este site, traduzindo centenas de artigos de qualidade, ontem vi publicado pela primeira vez um artigo da minha autoria. É sobre a recente votação da eutanásia, no Parlamento. Espero que gostem!

Decorre nos dias 20 e 21 de junho o colóquio “A Religião nas Multiplas Modernidades”, cujo programa podem ver aqui. Para os que se interessam por esta área académica, fica o convite.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Gnosticismo nos Nossos Dias

Thomas G. Weinandy, OFM, Cap.
Fala-se muito, hoje em dia, da presença de um novo gnosticismo na Igreja Católica. Algumas das coisas que se têm escrito são úteis, mas muito daquilo que se tem descrito como sendo um reavivar desta heresia tem pouco a ver com o antecedente histórico. Mais, as atribuições desta antiga heresia a várias facções no seio do Catolicismo contemporâneo tendem a ser mal direccionadas. Mas para que haja alguma claridade nesta discussão sobre o neo-gnosticismo, primeiro temos de compreender a forma antiga.

O gnosticismo antigo tinha várias formas e expressões, muitas vezes confusas, mas é possível discernir alguns princípios essenciais:

Primeiro, o gnosticismo defende um dualismo radical: a “matéria” é a fonte de todo o mal e o “espírito” é a origem divina de tudo o que é bom.

Segundo, os seres humanos são compostos de matéria (corpo) e de espírito (que dá acesso ao divino).

Terceiro, a “salvação”, consiste em obter o verdadeiro conhecimento (gnosis), uma iluminação que permite progredir do mundo material do mal para o reino espiritual e, por fim, até à comunhão com a divindade suprema imaterial.

Quarto, surgiram diversos “redentores gnósticos”, cada um afirmando possuir estes conhecimentos e a capacidade de fornecer o acesso a esta iluminação “salvífica”.

Neste contexto, os seres humanos encaixam-se em três categorias diferentes: 1) os sarkikos, ou carnais, estão de tal forma presos ao mundo corporal do mal que são incapazes de acolher o “conhecimento salvífico”; 2) os psíquicos, ou da alma, parcialmente confinados ao reino da carne e parcialmente iniciados no domínio espiritual. (No que diz respeito ao “gnosticismo cristão”, estes são os que vivem meramente pela “fé”, pois não possuem a totalidade do conhecimento divino. Não estão inteiramente iluminados e por isso dependem daquilo em que “acreditam”.) 3) por fim, aqueles que são capazes de verdadeira iluminação, os gnósticos, pois esses possuem a totalidade do conhecimento divino. Através do seu conhecimento salvífico conseguem extrair-se do mal do mundo material e ascender ao divino.

Vivem, e salvam-se, não através da “fé” mas do “conhecimento”.

Comparado com o gnosticismo antigo, aquilo que hoje está a ser proposto como sendo neo-gnosticismo no seio do catolicismo contemporâneo aparece como confuso e ambíguo, para além de mal direccionado. Alguns católicos são acusados de neo-gnosticismo alegadamente por acreditarem que são salvos por aderir a “doutrinas” inflexíveis e inertes e por acreditarem num “código moral” rígido e impiedoso. Afirmam “saber” a verdade e, por isso, exigem que esta deve ser defendida e, mais importantemente, obedecida. Supostamente, estes “católicos neo-gnósticos” não estão abertos ao movimento fresco do Espírito na Igreja Contemporânea, conhecido como o “novo paradigma”.

Claro que todos conhecemos católicos que agem como se fossem superiores aos outros, que se gabam de compreender melhor a teologia dogmática ou moral e que acusam os outros de laxismo. Este tipo de julgamento presunçoso não tem nada de novo, mas é uma forma de superioridade pecaminosa que, todavia, tem tudo a ver com o orgulho e não é, em si mesmo, uma forma de gnosticismo.

Só faria sentido chamar a isto neo-gnosticismo se aqueles que dele fossem acusados estivessem a propor um “conhecimento salvífico novo”, uma iluminação nova que difere do Evangelho como este é tradicionalmente conhecido, e daquilo que é ensinado de forma autêntica pela tradição viva do magistério.

Verdade salvífica, ao alcance de todos
Mas esta acusação não se pode fazer contra “doutrinas” que, longe de serem verdades abstractas e mortiças, são expressões maravilhosas das realidades centrais da fé católica – a Trindade, a Encarnação, o Espírito Santo, a presença real substancial de Cristo na Eucaristia, o mandamento de Jesus de amor a Deus e ao próximo reflectido nos Dez Mandamentos, etc. Estas “doutrinas” definem o que a Igreja foi, é, e sempre será. São estas as doutrinas que fazem da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Mais, estas doutrinas e mandamentos não são uma espécie de forma de vida esotérica que nos torna escravos de leis irracionais e impiedosas, impostas de fora por uma autoridade tirânica. Pelo contrário, estes mesmos “mandamentos” foram-nos dados por Deus, no seu amor misericordioso, a toda a humanidade, para garantir uma vida santa e à imagem de Deus.

Jesus, o filho encarnado do Pai, revelou-nos ainda o tipo de vida que devemos viver na expectativa do seu reino. Quando Deus nos diz aquilo que não devemos nunca fazer, está a proteger-nos do mal, o mal que destrói as vidas humanas – vidas que ele criou à sua imagem e semelhança.

Jesus salvou-nos da devastação do pecado através da sua paixão, morte e ressurreição, e verteu sobre nós o seu Espírito Santo, precisamente para nos tornar capazes de viver vidas genuinamente humanas. Promover este estilo de vida não é propor um novo conhecimento salvífico. No antigo gnosticismo as pessoas de fé – bispos, padres, teólogos e leigos – eram chamados psíquicos. Os gnósticos olhavam-nos com sobranceria precisamente porque não reivindicavam possuir qualquer “conhecimento” único ou esotérico. Vêem-se obrigados a viver pela fé na revelação de Deus, como compreendido e transmitido fielmente pela Igreja.

Aqueles que erradamente acusam os outros de neo-gnosticismos propõem – quando confrontados com as miudezas de questões morais e doutrinais da vida real – a necessidade de discernir aquilo que Deus gostaria que fizessem. As pessoas são encorajadas a discernir, sozinhas, a melhor via de acção, tendo em conta o dilema moral que enfrentam no seu próprio contexto existencial – aquilo de que são capazes em determinado momento no tempo. Desta forma a consciência individual de cada um, a sua própria comunhão com o divino, determina quais são os requisitos morais nas circunstâncias individuais. Aquilo que a Escritura ensina, aquilo que Jesus afirmou e que a Igreja nos faz chegar através da sua tradição magisterial viva, é ultrapassado por um “conhecimento” mais alto, uma “iluminação” avançada.

Se existe de facto um novo paradigma gnóstico na Igreja actualmente, diria que é aqui que se encontra. Quem propõe este novo paradigma afirma ser um verdadeiro conhecedor, com especial acesso ao que Deus nos diz enquanto indivíduos aqui e agora, mesmo que isso ultrapasse ou possa mesmo contradizer aquilo que Ele revelou a todas as outras pessoas através da Escritura e da tradição.

As pessoas que afirmam ter este conhecimento não deviam, pelo menos, ridicularizar enquanto neo-gnósticos aqueles que se limitam a viver segundo a “fé” na revelação de Deus, que nos chega através da tradição da Igreja.

Espero com isto ter trazido alguma clareza para a actual discussão sobre o gnosticismo “católico” contemporâneo, colocando-o no seu contexto histórico adequado. O gnosticismo não pode ser usado como alcunha para os fiéis “não iluminados” que se limitam a agir, com a ajuda da graça de Deus, da forma como o ensinamento divinamente inspirado da Igreja os convida a agir.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 7 de Junho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Actualidade Religiosa: Papa pede vigor e Lavrador mostra agrado

O Papa vai receber 500 crianças, amanhã, a maioria dos quais de bairros problemáticos dos arredores de Milão.

Francisco convida ainda os sacerdotes a um “novo vigor” na missão de servir as suas comunidades.

Este fim-de-semana assinala-se o Dia de Portugal. As cerimónias oficiais vão ser nos Açores, o que muito agrada ao bispo de Angra.

Aproveito para partilhar convosco duas notícias minhas que foram publicadas a semana passada na imprensa britânica, sobre a rejeição da lei da eutanásia no Parlamento português. Uma foi no Catholic Herald e outra no The Tablet. Fui ainda citado pela BBC e esta semana deve sair uma análise para o Herald também. Se tiverem amigos anglófonos, partilhem! Claro que se a eutanásia tivesse sido aprovada seria notícia em todo o mundo, como foi rejeitada pouco se fala nisso.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Crise humanitária à vista em Moçambique

Ilha do Ibo, Moçambique
Continuamos a assistir a tragédias em Moçambique, onde alegados jihadistas lançam o pânico no distrito de Cabo Delgado. Muitos civis procuram fugir para as ilhas de Matemo e de Ibo, onde simplesmente não existem condições para os acolher a todos. Adivinha-se uma crise humanitária.

A crise de abusos sexuais no Chile continua a abalar a Igreja. Mais um padre foi suspenso. Recordo que este é o tema de um dos artigos do The Catholic Thing das últimas semanas.

D. Antonino Dias escreveu uma carta pastoral com “orientações positivas” de ajuda aos divorciados e o bispo da Guarda fala da importância do diálogo ecuménico.

De ontem, uma notícia triste. O padre de Maceira, em Leiria, foi encontrado morto numa praia. Tinha apenas 38 anos, não se sabe como morreu.

Se não tenho filhos, porque é que devo pagar as escolas? Se não uso o hospital público, porque é que devo pagar por eles? Esta e outras dúvidas respondidas pelo grande Randall Smith, do The Catholic Thing em português.

Normalmente evito traduzir os artigos mais doutrinais, mas Randall Smith tem um jeito especial para tornar mesmo os assuntos mais teóricos fáceis de compreender. Aproveitem!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

As Três Formas de Justiça

Randall Smith
Ainda consigo ouvir a sua voz suave e preocupada. “Mas professor Smith, isto soa muito a comunismo.”

Estávamos a estudar o maravilhoso livro de Josef Pieper “As Quatro Virtudes Cardinais” e a falar de justiça distributiva. O comentário foi feito por uma jovem mórmon, mãe de quatro, e a minha primeira reacção foi perguntar: “Josef Pieper, o devoto tomista, um comunista?”, mas quando uma mãe de quatro filhos nos faz uma pergunta sincera, temos de a levar a sério.  

Mas recuemos um pouco. “Quando é que se pode dizer que a justiça prevalece numa nação?”, pergunta Pieper. Na linha de São Tomás, Pieper responde que “a justiça predomina numa comunidade ou num estado sempre que as três relações básicas, as três estruturas fundamentais da vida comunal, estão dispostas pela sua ordem correcta”: as relações dos indivíduos uns com os outros (justiça comutativa); as relações do todo social com os indivíduos (justiça distributiva); e as relações dos indivíduos para com o todo social (justiça legal ou geral).

A justiça, enquanto virtude, situa-se sempre em indivíduos. Mesmo a justiça do Estado é confiada a agentes individuais: o primeiro-ministro, o Presidente, legisladores e juízes. Mas as relações entre indivíduos podem mudar, e não compreender isto pode conduzir a sérios problemas.

Um Presidente não deve tratar os cidadãos como se fossem seus filhos, nem uma mãe deve educar os seus filhos como se fossem cidadãos com direito de votar sobre as regras que os governam. De igual modo, a obrigação de pagar impostos difere da obrigação de pagar ao canalizador. E a protecção legal que me é devida pelo Estado é bastante diferente do dinheiro que o meu chefe me deve a mim.

As pessoas que não compreendem a diferença entre justiça comutativa e justiça distributiva dizem coisas do género: “Eu pago, e bem, por aquelas escolas (ou estradas, ou pontes, ou bibliotecas públicas), mas não beneficio delas. Quero o meu dinheiro de volta”. Mas quando pagamos ao canalizador, esperamos serviço. Se ele não arranjar os canos, não lhe pagamos. Mas não estamos a contratar um serviço ao Governo.

Os impostos que pagamos ao Governo servem para apoiar o bem comum, e os representantes do Estado distribuem-no da melhor forma que podem, para servir o bem comum. O facto de eu usar pessoalmente as escolas, as autoestradas ou as bibliotecas, é irrelevante. Posso não ter filhos, mas uma população educada é boa para todos. E talvez pague impostos mais altos do que a malta que vive do outro lado da cidade, mas a sua necessidade de boas escolas é tanta, ou talvez até maior, que a minha.

Também acontece ouvir certo tipo de pessoas privilegiadas a dizer algo deste género a um agente da polícia: “Eu pago o seu salário! Eu paguei por esta estrada. Devia poder conduzir nela como me apetecer.” Outras pessoas acham que merecem um serviço mais lesto por parte do Estado porque pagam mais em impostos.

Trata-se de confundir a justiça comutativa com justiça geral, ou legal. Quando pagamos ao homem que nos corta a sebe, podemos dizer-lhe para fazer o que nós quisermos, mas não estamos a “pagar” pela autoestrada ou pela polícia da mesma forma. O Código da Estrada existe para a segurança de todos e nós temos uma obrigação para com todos os outros nessa estrada pública. Os ricos não devem ser tratados melhor pela polícia, juízes, ou outras entidades públicas, e os estados que oferecem um tratamento diferenciado para quem paga mais estão a distorcer a relação com os seus cidadãos.

Os individualistas coerentes tendem a criticar a noção de justiça distributiva porque acreditam que os indivíduos estão sempre a lidar com outros indivíduos. Logo, cada forma de justiça é, desta perspectiva, apenas mais uma forma de justiça comutativa.

Josef Pieper
Às vezes as pessoas não reconhecem as suas obrigações para com o bem comum, preferindo concentrar-se nos “direitos” dos indivíduos. Para um individualista coerente, diz Pieper, “cada fase da vida comunal de um homem, tanto na família como no Estado, é um acordo de compromisso entre os interesses de indivíduos com direitos iguais”.

A crítica colectivista dos três tipos de justiça, por outro lado, é bastante diferente. Para o colectivista, diz Pieper, “não existe tal coisa como um indivíduo capaz de entrar numa relação por si. Acima de tudo, não existem relações entre indivíduos. A vida do homem é de caracter inteiramente pública, porque o indivíduo só pode ser definido através da sua pertença ao todo social, que é a única realidade”.

Daí que existam pessoas que nos querem negar o direito à propriedade privada, ou que pensam que cada relação, incluindo a sua relação com o canalizador, deve ser subordinada a preocupações étnicas ou políticas. Em vez de “o meu” amigo, ou “o meu” canalizador, agora somos ambos meros co-funcionários no seio do todo político.

O resultado é que “todas as relações humanas são (…) subordinadas ao critério do desempenho de uma função, e podem deixar abruptamente de existir quando eu não me conformar à norma estipulada”.

És “meu” amigo? Se tens as opiniões erradas ou votas nas pessoas erradas, não és. “Contrataste um canalizador que votou Trump? Como é possível?”. Talvez porque ele sempre trabalhou de forma honesta e boa, e nunca me engana. A minha relação com ele é governada pelos padrões da justiça comutativa, não pela justiça distributiva nem a geral.

A partir do momento em que pensamos que aquilo que é “legal” expressa por inteiro aquilo que devo à comunidade ou à minha família, ou quando achamos que a nossa relação com a comunidade é equivalente à que temos com uma empresa quando contratamos um serviço, estamos a cometer um erro. “A própria essência de justiça está ameaçada”, conclui Pieper, “no momento em que estas três estruturas fundamentais da vida comunal, e por isso as três formas básicas de justiça, simplesmente deixam de existir”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Junho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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