quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Beleza de uma Mãe na Missa

Randall Smith
Já vi as Montanhas Amarelas na China, e são muito belas. Já olhei através do Vale de Jackson Hole, Wyoming, ao cair da noite, para os picos nevados dos Grand Tetons, e são muito belos. Mas poucas coisas no mundo são tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu bebé durante a missa.

A beleza é uma coisa surpreendente. Aparece de forma inesperada. Olhamos e de repente somos atingidos por esta beleza inexplicável, algo inefável mas real, como quando se dobra uma curva nas montanhas e se dá com uma vista inesperada.

Tive essa experiência há dias na missa. Umas filas à frente uma mãe estava a embalar o seu filho de dois anos, para a frente e para trás, enquanto cantava baixinho o Agnus Dei. Cantava aquelas palavras e olhava-o nos olhos, como se estivesse a cantar para ele e para Deus ao mesmo tempo. No meio do que pode ser, mesmo na melhor das missas, a azáfama da liturgia – que oração? Que livro? De pé, sentados ou ajoelhados? – ali estava paz: uma mãe e o seu filho “um ponto fixo num mundo em movimento”.

Não me entendam mal; tenho perfeita noção de que este tipo de paz divina não é o estado mais comum quando os pais estão a lidar com os seus filhos pequenos. Não devemos pintar uma imagem demasiado romântica da mãe e do filho, como fazem algumas pinturas barrocas de Maria e do menino Jesus. Também não quero criticar em demasia essas pinturas, embora tende a preferir as representações mais antigas, é só que não quero dar uma imagem falsa do tipo de caos que a parentalidade costuma envolver.

Mas é precisamente por isso, ao que me parece, que achamos esses momentos de paz e calma partilhados entre mãe e filho tão confortantes e tão belos. No ponto fixo de um mundo em movimento, aí está o amor. O amor pode ser expressado de uma variedade potencialmente infinita de formas, mas quando o vemos, palpavelmente presente e inegável, são momentos de pura beleza que merecem ser saboreados.

Quando disse que há poucas coisas na vida tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu filho na missa, não queria estar a fazer uma comparação enviesada. Não é um concurso. Todas estas coisas belas foram criadas pelo amor. Mas entre as muitas coisas belas que encontramos no mundo se nos dermos ao trabalho de procurar – montanhas, praias, oceanos – só os seres humanos é que conseguem olhar de volta com amor para a face do seu Criador.

O que não nos deve deixar de encher de espanto em relação à parentalidade é que enquanto seres humanos é-nos permitido participar como cocriadores com Deus de uma forma especial. Outros animais procriam, mas quantos têm o privilégio de o fazer livremente, e não apenas como ato meramente instintivo ou impulso primário, mas de compreensão e amor?

Não é raro sentirmos o coração a amolecer quando vemos imagens de mães e seus filhos, mesmo quando se trata de outras espécies, seja uma cadela a amamentar as suas crias ou uma égua a encorajar o potro recém-nascido a dar os primeiros passos. É o milagre da vida nova.  
Mas as crianças humanas têm o privilégio de ir mais além. Podem olhar de volta para as suas mães com amor. E desta forma se preparam para olhar com amor para a face de Deus. Não os criamos para cantar como pássaros, mas para cantar com amor a Deus. Daí a beleza em ver uma mãe a cantar suavemente orações enquanto olha para os olhos do seu filho durante a missa.

O parto implica dor, tal como é um desafio constante criar filhos no meio do nosso mundo caótico em que o mal, seja interno ou externo, está constantemente à espreita. Mas quando todo esse barulho se acalma, o que vemos é um vislumbre do amor primordial que criou o universo e continua a mantê-lo intacto através das gerações.

Eu ensino os meus alunos sobre a Trindade e a comunhão eterna de amor partilhada entre Pai, Filho e Espírito Santo. O que eu faço é falar sobre a Trindade. Mas para a conhecer vão ter de a experimentar. E por isso a maior parte deles só perceberá do que fala a Igreja quando se unirem a outra pessoa naquela doação completa de si a que chamamos casamento, e através dessa união produzirem um terceiro, que é uma encarnação do seu dom mútuo de amor.

Claro que poderão já ter visto esta doação altruísta dos esposos um pelo outro e a um filho durante as suas vidas. Talvez até entendam a sua própria existência desta forma, vendo a sua vida como uma encarnação do amor mútuo dos seus pais, embora esta experiência se tenha vindo a tornar cada vez mais rara na nossa sociedade.

“O sacramento do matrimónio é mais largo que a família”, diz o grande teólogo ortodoxo Alexander Schmemann. “É o sacramento do amor divino, o mistério todo abrangente do próprio ser, e é por isso que diz respeito a toda a Igreja e – através da Igreja – a todo o mundo.” O pecado da humanidade não está apenas em ter desobedecido a Deus, mas no facto de já não ver “toda a sua vida como dependente do mundo inteiro, como um sacramento de comunhão com Deus”. Assim, a verdadeira tragédia humana, diz Schmemann, está em viver “uma vida não-eucarística num mundo não-eucarístico”.

A maternidade faz-nos lembrar a Encarnação e o facto de a nossa origem ser uma encarnação do amor de Deus, destinado a viver uma vida sacramental e eucarística num mundo sacramental e eucarístico. Devemos dar graças a Deus pelas mães. Deus poderia ter-nos gerado a partir de um casulo. Seria mais fácil para as mulheres, mas pior para o mundo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Maio de 2019)

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