quarta-feira, 25 de março de 2020

Não Fazer Nada é Fazer Tudo

Helen Freeh
Confrontados com um ataque, um desastre natural ou um acto de guerra o Ser Humano sente uma vontade incontrolável de fazer algo. No Nebraska sofremos inundações históricas o ano passado e os nossos cidadãos uniram-se para construir barreiras com sacos de areia, limpar, doar comida e água. Havia algo para fazermos em resposta à catástrofe. Recentemente Nashville, no Tennessee foi atingido por tornados que mataram 25 pessoas e devastaram uma grande parte da baixa. Milhares de pessoas vieram ajudar nas operações de busca e na limpeza da cidade. Tantas, aliás, que as autoridades tiveram de mandar pessoas embora.

Está no nosso sistema fazer algo em reação ao sofrimento, perda, ataques e ameaças à comunidade.

Mas agora que enfrentamos a maior disrupção da vida global desde a Segunda Guerra Mundial, tudo o que somos chamados a fazer é – nada. Não nos podemos mobilizar para confrontar o assalto global do novo coronavírus. Não nos podemos alistar. Não podemos doar aço e borracha para o esforço de guerra. Nem sequer podemos marchar em protesto ou em solidariedade com as políticas do Governo.

A mobilização a que somos chamados é a mobilização do isolamento.

Fazer algo, agora, é ficar em casa, não ir trabalhar, nem à escola, a festas, eventos desportivos, concertos ou – infelizmente, para muitos de nós – à missa. O nosso dever cívico e até moral é de nada fazer. Agora, em plena Quaresma, a três semanas do grande Tríduo e das celebrações pascais da Igreja, fomos chamados pelo nosso Governo a entrar numa vida enclausurada e monástica nas nossas próprias casas. Não devemos menosprezar o significado disto.

No seu livro “Deus ou Nada” o cardeal Sarah alerta para a “heresia do activismo”, um indício de que nos esquecemos de que o coração da nossa vida encontra-se apenas em Deus. O ritmo da vida contemporânea cria uma cegueira e surdez para a realidade da nossa dependência de Deus. Somos peregrinos neste mundo e a maior parte da nossa vida foge ao nosso controlo.

Esta situação do coronavírus revela a realidade como ela sempre foi. O vírus, tal como outros desastres naturais, foge ao nosso controlo. O que podemos controlar são as nossas reações à situação. O nosso falso sentido de poder foi-nos retirado e estamos desnudos. Este despir do poder revela a beleza da vida escondida debaixo destas exterioridades. Como lemos em Colossenses 3,14 e em 1 Pedro 4,8, a caridade liga todas as outras virtudes domina sobre elas como rainha.

A nossa situação está repleta de paradoxos com um profundo significado simbólico espiritual. Para fazer algo contra este contágio, devemos fazer nada. Para fortalecer a nossa aliança global, cada nação deve fechar as suas fronteiras aos outros. Nunca estivemos tão ligados uns aos outros em espírito por nos desligarmos uns dos outros fisicamente. Por amor aos nossos vizinhos, não os devemos visitar. Para manter as nossas comunidades fortes, devemos quebrá-las. A própria sociedade é composta agora por lares isolados. E espiritualmente aproximamo-nos de Deus e do seu corpo mantendo-nos afastados da sua presença sacramental.

A vida de clausura tem desafios e benefícios. Um dos benefícios é que agora podemos todos andar descalços, mas fomos colocados nesta situação contra a nossa vontade e sem uma preperação adequada. Mesmo dentro das nossas celas, porém, ainda podemos “fazer” algo. A forma de nos mobilizarmos, de “fazermos” alguma coisa, é ajudar os nossos amigos e familiares a serem santos monges. Isto inclui o encorajamento de outros, conhecidos e desconhecidos, através das redes sociais. Agora é tempo de edificar o Corpo de Cristo, não de o despedaçar. Os nossos primeiros pensamentos para com os outros devem partir da caridade e ser vistos pela óptica da caridade.

Uma das verdades enfatizadas por este vírus é o isolamento da nossa população mais velha. Há soluções práticas que podemos implementar em reposta a isto. Estou a sugerir à minha paróquia que emparelhe jovens saudáveis com pessoas mais velhas e vulneráveis. Os saudáveis contactariam os idosos todos os dias para saber se precisam de alguma coisa, mesmo que apenas precisem de falar. [Veja aqui um exemplo bem sucedido disto em Portugal].

O isolamento já é difícil para uma família, imaginem agora o quão difícil é para aqueles que já viviam sozinhos. As nossas paróquias podem ajudar, iniciando programas para “adoptar um paroquiano”, chegando assim aos que neste momento estão em maior risco e com mais medo. É um acto de caridade que poderia salvar vidas.

A todos é pedido que experimentemos um jejum severo. Recordem-se que não jejuamos de coisas pecaminosas, mas das coisas boas, para nos unirmos mais a Deus, a fonte de toda a nossa vida. Agora devemos jejuar do bem que é a vida comunitária. Mas os jejuns não são para sempre. Pensem no quanto vamos festejar, enquanto comunidade global, quando terminar este jejum!

Damos por adquirida a nossa comunhão com outras pessoas e damos por adquirida a comunhão sacramental na missa. Mas o significado desta comunhão quotidiana revelou-se agora através do mal da separação. O livro do Genesis tem uma frase belíssima em que José diz aos seus irmãos: “A vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem”. O coronavírus e os seus efeitos são um mal e a nossa resposta pode prolongar ou piorar os seus efeitos, ou então podemos colaborar com Deus e transformar este mal em bem.

O isolamento social é a cruz que todos somos chamados a tomar agora. Mas se abraçarmos a nossa cruz ela conduzirá a uma plenitude de vida que de outra forma não poderíamos conhecer.

Esta experiência histórica de sofrimento comunitário é um grande dom que nos foi dado – o dom do tempo para rezar, para refletir e – se conseguirmos encará-lo dessa forma – de lazer. Abracemos aquilo que não podemos escapar e aceitemos que neste momento o nosso “nada fazer” é precisamente o que todos devemos fazer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 23 de Março de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com oconsentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 24 de março de 2020

A Igreja Católica no combate ao coronavírus

Por mais do que uma vez tenho visto, nas redes sociais, pessoas a questionar o que a Igreja está a fazer para colaborar no combate ao coronavírus. Desde pessoas a perguntar quantos ventiladores a Igreja ofereceu ao SNS a outros que questionam o silêncio do Vaticano, há um pouco de tudo.

Eu bem sei que não é um concurso. Mas por uma questão de transparência, de verdade e de memória futura, decidi abrir este artigo para ir juntando referências fundamentadas de todas as contribuições da Igreja nesta luta.

Aqui vou apenas contabilizar iniciativas da Igreja institucional. Simplesmente não é possível juntar iniciativas individuais de pessoas que são movidas pela fé e que, como sabemos, são inúmeras, entre profissionais de saúde que estão na linha da frente, a voluntários que ajudam a alimentar os sem-abrigo ou a fazer companhia aos idosos em isolamento ou que simplesmente estão a cuidar das suas famílias o melhor que podem.

Eu não sei tudo. Conto por isso com a ajuda de todos os meus leitores para me manterem informado e adicionarem, nos comentários do post ou das publicações nas redes, as iniciativas que conhecem. Vejam é se não estão já incluídas sff.

Vamos a isso…

Portugal
O Santuário de Fátima anunciou na terça-feira, dia 24 de março, a oferta de três ventiladores ao SNS. No mesmo dia a diocese de Viana do Castelo iniciou uma recolha de fundos para adquirir ventiladores para o hospital local. A mesma diocese de Viana do Castelo já tinha, na véspera, colocado todos os seus serviços logísticos ao dispor dos médicos e restantes profissionais que estão na linha da frente do combate ao coronavírus.

Em entrevista à Renascença, D. António Marto falou ainda de casos nas dioceses de Braga, Leiria e Aveiro: “a arquidiocese de Braga pôs à disposição um hotel no Bom Jesus, para os profissionais de saúde, a diocese de Aveiro também pôs à disposição uma ala do seminário, e aqui na diocese de Leiria também disponibilizámos uma casa de retiros, em resposta ao que nos foi solicitado, sobretudo pelos profissionais de saúde, pelos agentes sanitários”.

A diocese de Santarém disponibilizou um edifício para as autoridades e pediu ainda aos seus fiéis que seguissem o exemplo

Estas ofertas de ajuda das dioceses portuguesas devem ser lidas à luz da garantia dada por D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal de disponibilidade total para ajudar as autoridades no combate à covid-19. A Igreja foi ainda das primeiras instituições a implementar o isolamento profilático, suspendendo as missas comunitárias.

Em Bragança as instituições de solidariedade social da Igreja mobilizaram-se para ajudar os idosos e mais vulneráveis a ultrapassar este período de isolamento social. Em Lisboa também há vários casos, como o do Centro Social e Paroquial São Francisco de Paula, que por ter de fechar o centro de dia arranjou voluntários para telefonar todos os dias aos idosos para fazer companhia e saber se está tudo bem.

Na paróquia de Santa Cecília, na Madeira, o grupo de acólitos disponibilizou-se para ajudar os idosos que ficam em isolamento.

A diocese de Angra, nos Açores, ofereceu às autoridades a Clínica do Bom Jesus, como meio complementar.

Os padres da diocese da Guarda, com a aprovação do seu bispo, juntaram-se a uma iniciativa de angariação de fundos para adquirir um ventilador para a Unidade de Saúde Local da Guarda.

O padre Sandro Vasconcelos, em Braga, lançou a iniciativa "Uma mão amiga" e vai ele fazer compras pelos idosos que não podem sair de casa. Também em Braga a Pastoral da Saúde lançou uma linha de escuta e apoio espiritual e a arquidiocese lançou uma bolsa de recursos humanos para ajudar a socorrer os lares que precisam.

A arquidiocese de Évora disponibilizou 25 camas no seu seminário para uso de médicos e demais profissionais de saúde do Hospital do Espírito Santo, daquela cidade

A Cáritas de Lisboa fez donativos para reforçar a capacidade de ajuda de três instituições: A Comunidade Vida e Paz (40 mil euros), o Banco Alimentar Contra a Fome (40 mil euros) e a ReFood (25 mil euros). A informação consta de uma nota enviada pelo Patriarcado de Lisboa. A mesma nota informa ainda que foram entregues mais de 40 mil euros a cinco paróquias que diariamente oferecem refeições a mais de 1.300 pessoas. Quem quiser contribuir para a Cáritas pode fazê-lo através de transferência para este NIB 0033.0000.5005.7111.7070.5

De Viseu chega a notícia de que a diocese ofereceu 50 camas para funcionários de saúde e que há casas paroquiais a preparar mais.

A crise pôs também à prova as instituições de solidariedade que em muitos casos ficaram sem voluntários. A Comunidade Vida e Paz, porém, esforçou-se para garantir o apoio continuado aos sem-abrigo, tal como fez a Associação João 13.

Iniciativa diferente tiveram os alunos do curso Técnico de Desenho Digital 3, do Instituto Nun'Alvares, dos jesuítas, que estão a aproveitar o seu conhecimento para produzir material de proteção pessoal para o Centro Hospitalar do Médio Ave. As monjas concepcionistas, de Campo Maior, estão a convidar os profissionais de saúde a inscreverem-se para que do convento possam rezar por eles.

Em várias partes do país os escuteiros estão mobilizados. É o caso de um agrupamento de Tavira, no Algarve, que está a ajudar a distribuir refeições a pessoas vulneráveis, para não terem de sair de casa.

A diocese do Porto já disponibilizou vários espaços para uso das autoridades no combate à pandemia e está a fazer um levantamento para saber que outras se podem ceder, inclusivamente a idosos que tenham de ser retirados dos lares. O bispo do Porto lançou um apelo a que as empresas demonstrem ética e não aproveitem o momento para despedir funcionários. Duas paróquias da Trofa decidiram doar os 80 mil euros que tinham destinado a obras, para ajudar o hospital de São João a enfrentar esta crise e D. Manuel Linda disponibilizou 150 camas para isolamento após rastreio. O anúncio foi feito pelo próprio bispo na sua conta do Twitter.

Na diocese de Bragança-Miranda os serviços da Igreja estão abertos para acolher e cuidar dos filhos dos profissionais de saúde, para dar dormida aos que estão envolvidos no combate à covid-19 e para ajudar os mais idosos através da compra de alimentos.

O Grupo Renascença, emissora católica portuguesa, também fez um donativo de material médico a dois hospitais para ajudar na luta contra a covid-19.

A Ordem de Malta tem mais de 200 voluntários no terreno e cedeu meios logísticos, como tendas de campanha, ao combate à covid-19.

Nem vou listar aqui as palavras dos bispos portugueses de apoio moral às autoridades e espiritual aos fiéis. Duvido que haja um único que não o tenha feito.

Vaticano
O Papel do Papa nesta crise tem sido de pastor, encorajando os seus fiéis e não só e dando apoio espiritual. A acusação de silêncio por parte do Vaticano é absurda.

Desde que a crise começou o Papa:

Antes de a crise chegar a Itália a Santa Sé ofereceu mais de 600 mil máscaras à China para ajudar a combater a propagação da doença. O Papa fez um donativo pessoal de 100 mil euros à Cáritas italiana para ajudar os pobres e sem-abrigo de Roma, e o Vaticano continua a doar comida para ajudar na sua alimentação. Este artigo ilustra bem a atitude do Papa e da Curia romana diante desta crise. 
O Vaticano tomou a iniciativa de fechar os seus espaços aos turistas antes da declaração de quarentena do Governo italiano e o Papa cancelou as suas aparições públicas.
O Cardeal Peter Turkson emitiu uma reflexão em que comparaas vítimas do coronavírus a Cristo que sofre.
No dia 26 de março foi notícia que o Papa ofereceu 30 ventiladores aos hospitais das zonas mais duramente afetadas pela pandemia. 


Internacional
A Conferência Episcopal de Itália, o país mais duramente atingido pelo Coronavírus neste momento, fez um donativo de 10 milhões de euros à Cáritas italiana para ajudar no combate ao Coronavírus. Este valor foi reforçado em 3 milhões, mais tarde, dados diretamente ao Estado. 
A diocese de Milão juntou-se à Câmara Municipal e juntos criaram o Fundo de São José, no valor de 4 milhões de euros, para ajudar os que perderam os empregos por causa da crise. 
Notícia mais sombria a que vem de Bérgamo, onde as Igrejas vazias foram cedidas para servir de morgues improvisadas.

Este artigo explica, sem grandes detalhes, que várias dioceses e ordens religiosas em Itália se comprometeram com o combate à pandemia, oferecendo espaços para profissionais de saúde poderem ir dormir ou transformando os seus ateliês em fábricas de material de proteção individual.

Uma diocese chinesa ofereceu 24 mil máscaras a Itália, depois de o epicentro da pandemia ter passado da China para Itália.

As diferentes Cáritas do mundo têm-se desdobrado em iniciativas, relatadas aqui.

Outros cristãos
Se é verdade que o objetivo deste post era focar a Igreja Católica, havendo dados não há razão para ignorar outras iniciativas de cristãos. É o caso do grupo evangélico Samaritan's Purse, do Canadá, que abriu um hospital de campanha em Itália.


Actualizado às 00h56 de 4 de Abril

quarta-feira, 18 de março de 2020

Abusos Sexuais: Trauma e Tabu

Stephen P. White

Às vezes a Igreja lida melhor com os pecadores do que com aqueles que foram feridos e magoados pelo pecado.

Se passar tempo suficiente a estudar a crise dos abusos na Igreja Católica – ou seja, se ler muitos artigos antigos e ouvir muitos testemunhos de vítimas – começam a emergir padrões. Alguns desses padrões deixam-nos perplexos, outros enfurecem-nos: alegações que não foram levadas a sério; uma tendência para subestimar o trauma causado pelo abuso infantil; um instinto fortíssimo para proteger a reputação e os bens da instituição, mesmo que isso signifique prejudicar as vítimas e deixar outros expostos ao risco; a vontade de confiar em peritos que davam maus conselhos, sobretudo quanto à segurança de colocar abusadores “reabilitados” de novo no ministério.

Tal como muitas das vítimas de abusos sabem, muitas vezes a Igreja tem sido mais solícita para com os padres – mesmo quando são abusadores confessos – do que com as suas vítimas. Durante décadas o normal era o padre abusador – salvo em casos de laicização ou cadeia – poder esperar que a sua diocese ou ordem religiosa o enviasse para receber tratamento, terapia e – dependendo do tipo de ofensas cometidas – reabilitação. Resumindo, o homem até podia ser retirado do ministério, ou ver o seu ministério restringido, mas as suas necessidades físicas, mentais e espirituais seriam asseguradas de todas as formas possíveis. Já o seu acusador tinha apenas o direito a comunicar com um advogado.

É verdade que isto começou a mudar há muito tempo. Desde 2002 as dioceses têm sido muito mais eficazes no que diz respeito a oferecer serviços de aconselhamento e terapia àqueles que se apresentaram como vítimas de abusos. A Carta de Dallas diz de forma muito clara que “A primeira obrigação da Igreja para com as vítimas é de cura e reconciliação”. Todas as dioceses nos Estados Unidos devem ter um Coordenador de Assistência às Vítimas para garantir que estas não se perdem no meio da máquina burocrática que é posta em marcha quando são feitas alegações de abusos.

A Igreja está a aprender a tratar as vítimas como pessoas que foram magoadas, e não apenas como fontes de prejuízo. Muitas dioceses estão a abraçar um modelo de interação menos conflituosa com aqueles que foram abusados.

Na Primavera passada o Papa Francisco disse explicitamente que as autoridades da Igreja têm de tratar os que foram magoados com “dignidade e respeito” e que estes devem ser alvo de “acolhimento, escuta e acompanhamento, inclusive através de serviços específicos; assistência espiritual; assistência médica, terapêutica e psicológica de acordo com o caso específico.”

Ouvimos falar frequentemente da necessidade de dar prioridade às vítimas, ou de garantir que a Igreja as está a escutar. Penso que para a maioria dos católicos isto é uma evidência. De tal forma é evidente que por vezes a repetição destes chavões – em determinadas alturas e por determinadas pessoas – parece uma tentativa de distrair de outros assuntos importantes ou embaraçosos. Há alturas em que “temos de pensar nas vítimas” parece o equivalente eclesiástico de “circular, aqui não há nada para ver”.

Dar prioridade às vítimas pode ser fácil e óbvio em abstrato, mas na realidade pode ser bastante difícil. Ainda que fosse possível eliminar os obstáculos institucionais que ainda estão no caminho da relação entre a Igreja e as vítimas – como o clericalismo persistente, a inércia burocrática, a autoproteção eclesiástica, etc., – há verdadeiras barreiras que permanecem.

Para começar, é muito mais fácil à Igreja condescender (no melhor sentido da palavra) com pecadores – até abusadores – do que encontrar-se com os que sofreram às mãos da Igreja. Não é só uma questão de psicologia. A Igreja tem muita experiência a lidar com pecadores. As Escrituras estão cheias de parábolas e de exemplos dados diretamente por Cristo: o Bom Pastor, o filho pródigo, a samaritana no poço, a mulher adúltera, o chamamento de Zaqueu, a ordem para perdoar 70x7.

Temos todo um sacramento dedicado ao perdão dos pecados e à reconciliação do pecador com Cristo e com o Seu Corpo. Mas em cada um destes casos é a Igreja que perdoa, a Igreja é que é o veículo da misericórdia, a Igreja que se comporta como Cristo. Jesus nunca teve de pedir perdão.

E depois há o facto incontornável de que alguém que experimentou um trauma severo é, por via do mesmo trauma, colocado à parte. Pense no soldado que volta para casa depois dos horrores da guerra, dos pais que precisam de recompor a vida depois de sepultar uma criança. Frequentemente aqueles que não tiveram de ultrapassar provas terríveis como estas têm dificuldade em perceber como interagir com quem teve.

Não adianta nada fingir que o trauma não aconteceu, nem podemos fingir que compreendemos a profundidade do que viveram. Não lhes podemos explicar o que aconteceu, nem porquê. Não os podemos consertar.

Para muitos, tudo o que podemos oferecer é uma palavra desajeitada de empatia – uma palavra que, se tudo correr bem, não pior a situação – seguida de silêncio.

O trauma pode abrir um fosso social entre o que o experimentou e os que não. Não é fácil reduzir esse fosso, mesmo para aqueles que têm a boa vontade e o desejo de o fazer. No caso das vítimas do abuso, o trauma pode criar um tabu. Não falo de um tabu de repugnância, mas de reverência e temor isoladores.

A Igreja deve continuar a aprender a escutar as vítimas – fazer-se presente para as vítimas e ter paciência com as vítimas – e isso não é fácil, porque até a nossa solicitude para com eles pode ser isoladora.

As feridas imerecidas dos inocentes podem ser incompreensíveis para nós. São um obstáculo, um sinal de contradição. Nesta época de Quaresma, enquanto contemplamos a Cruz, vale a pena pensar no que o pecado tem feito ao Corpo de Cristo. Olhemos para aquele que trespassámos. Conseguimos reconhecer a face do nosso Salvador? Conseguimos reconhecer a sua face nas feridas de outras faces?

Não é fácil, mas temos de tentar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Março de 2020)

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sexta-feira, 13 de março de 2020

Notas de quarentena quaresmal

Ainda custa a compreender o que se está a passar. Duvido que haja memória viva de uma situação em que boa parte da Europa suspendeu as missas públicas e há tanta gente de quarentena. Não é o fim do mundo, obviamente, mas deixa-nos com uma sensação estranha e aliviados por não ser tão sério quanto poderia ser.

Em relação às missas, já ouvi críticas à decisão dos bispos, como se a suspensão das missas fosse uma demonstração de falta de fé. A todos os que andam a dizer isso, talvez convenha recordar que na Coreia do Sul, por exemplo, uma das maiores correntes de transmissão foi entre membros de uma igreja cristã. Em França aconteceu a mesma coisa com uma igreja evangélica.

É bom sinal que os sacramentos nos façam falta, mas Deus não nos pede uma fé que o ponha constantemente à prova e, graças a Deus e à tecnologia que Ele nos inspira a ir descobrindo, é possível seguir missas e outras devoções através da televisão, rádio e internet. Há aqui uma listagem bastante extensa e a Renascença, por exemplo, passará a transmitir diariamente a missa, às 12h.

Longe de mim estar a dizer-vos como devem passar o vosso período de isolamento, mas muitos quererão certamente ler. Há muita coisa online, aproveitem, e têm também os artigos do The Catholic Thing no blog.

E alegrem-se que ainda podemos rezar! É mais do que podem dizer os que gostariam de o fazer diante de duas clínicas de aborto em Londres, onde continua a ser proibido rezar, mesmo que em silêncio.

Estes são tempos difíceis que nos exigem solidariedade e disciplina. Fugindo à dimensão religiosa, peço-vos encarecidamente que não se deixem tornar veículos de notícias falsas e alarmantes. Estou farto de ler e ouvir “testemunhos” de médicos que há dois dias já garantiam que havia mortos. Melhor ou pior, as autoridades que temos estão a tentar lidar com o assunto. Ouçamos, respeitemos e ajudemos na medida do possível.

Deus nos guarde e nos fortaleça nesta que é uma Quaresma que ninguém vai esquecer tão cedo! E que o pior já tenha passado quando chegar a altura de celebrar a Ressurreição do Senhor.

quarta-feira, 11 de março de 2020

A Carta da Nova Aliança da Virtude

Kent R. Hill
Em Dezembro de 2019 foi apresentada a Carta da NovaAliança da Virtude em Abu Dhabi. O documento pretende ser uma nova versão da Carta de Medina do Profeta Maomé, do Sétimo Século, que teve por objetivo levar a paz às tribos em guerra.

O objetivo desta nova Carta é de juntar judeus, cristãos, muçulmanos, representantes de outras religiões e outras pessoas de boa-vontade numa declaração comum de que as virtudes são essenciais para viver em paz.

A Carta é o resultado dos esforços do Shaykh Abdallah Bin Bayyah, uma autoridade respeitadíssima de jurisprudência islâmica e fundador e presidente do Fórum para a Promoção da Paz em Sociedades Islâmicas.

A Religious Freedom Institute, uma organização sem fins lucrativos sedeada em Washington DC, com o qual colaboro, desenvolveu um papel na formação do texto final da Carta. Entre as nossas contribuições conta-se uma afirmação dos direitos naturais, definidos como “direitos que antecedem o Estado e que são inerentes a cada ser humano por virtude da sua existência”. Mais, os direitos criados pelos governos “têm mais valor quando aplicados a todos, reflectindo as normas da dignidade e da justiça humana”. A Carta reconhece ainda a importância do Dignitatis Humanae.

Entre outras afirmações louváveis da Carta: “Todas as pessoas, independentemente das suas diversas raças, religiões, línguas e etnias, por virtude da alma divina que lhes foi insuflada, são dotadas de dignidade pelo seu Criador Omnipotente”. Citando o Alcorão: “Não há compulsão na religião” (Sura 2: 256); e, “O Estado tem a responsabilidade de proteger a liberdade religiosa, incluindo a diversidade de religiões, que garante a justiça e a igualdade entre todos os membros da sociedade”.

Na RFI debatemos muito se uma declaração destas nos pode ajudar a alcançar o nosso objectivo para esta e outras regiões, isto é, promover a liberdade religiosa no terreno. Muitos documentos semelhantes, inspirados no Islão, têm aparecido nos últimos anos, incluindo a Mensagem de Amã (2004), Uma Palavra em Comum (2007), a Declaração de Marraquexe (2016) e a Declaração de Fraternidade Humana (2019). Esta última foi assinada pelo Papa Francisco e por Ahmad al-Tayyeb, grande imã de Al-Azhar. Existe algum indício de que estas declarações fizeram alguma diferença nas regiões do mundo de maioria islâmica?

Infelizmente, as provas até agora não são muito encorajadoras. De acordo com a “World Watch List” da Open Doors, de 2019, mais de 80% dos vinte países que mais oprimem as religiões no mundo são de maioria muçulmana, a maioria delas no Médio Oriente. Mais de 70% dos piores cinquenta países no mundo são de maioria muçulmana.

A realidade no terreno que estas estatísticas representam pode levar até o maior defensor da liberdade religiosa a temer que declarações destas são, na melhor das hipóteses, exercícios de retórica, meras boas intenções. Os cínicos dizem que têm mesmo por objectivo enganar os incautos.

Então porque é que investimos tempo e energia com a Carta da Virtude? Foi por duas razões. A primeira é histórica e sugere que declarações não-vinculativas de princípios, quando apresentadas com autoridade e no momento certo, podem contribuir para o bem a longo prazo, mesmo que os seus autores sejam marcados por fraquezas profundas, ou aparentemente ingénuos. Um exemplo é a Declaração de Independência dos Estados Unidos, cuja audaz declaração de verdade religiosa – “todos os homens são criados iguais” – se tornou o motor e o sustento da democracia americana, não obstante a aparente hipocrisia de alguns dos seus arquitectos esclavagistas.

Ou ainda a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH), que proclamou de forma não-vinculativa “a dignidade inerente… e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana”, incluindo o direito à liberdade religiosa para todos, e que foi assinada por nações que não tinham a menor intenção de os proteger, nem na altura, nem agora. Todavia, a DUDH mantém-se hoje como uma afirmação contra a tirania e os seus princípios são repetidos nos acordos não vinculativos de Helsínquia que contribuíram para a queda da União Soviética.  

Em segundo lugar, acreditamos que os esforços actuais para travar a violência religiosa e o terrorismo no Médio Oriente não têm funcionado. A ausência de liberdade religiosa nas nações de maioria muçulmana no Médio Oriente e no Sul da Ásia, está a alimentar uma catástrofe de proporções civilizacionais. O cristianismo está sob ataque nas terras em que nasceu e se desenvolveu. No Iraque poderá simplesmente desaparecer dentro de uma década. A pressão para as minorias não-muçulmanas abandonarem a região está a aumentar, e com ela desaparecerá a força estabilizadora do pluralismo religioso.

No fundo o que se passa é o seguinte: A solução para estes problemas não passa pela força militar americana, nem pelas noções ocidentais de constitucionalismo, assentes em premissas independentes da religião. Ambos estão condenados porque lhes falta credibilidade no contexto muçulmano. A única solução possível encontra-se nas próprias nações de maioria muçulmana e tem de ir beber às suas próprias premissas religiosas. É por isso que decidimos arriscar identificar e apoiar os líderes muçulmanos como Shaykh Bin Bayyah que acreditam que os princípios sagrados da sua fé suportam a liberdade religiosa e a cidadania plena para todos.

Claro que sabemos que os líderes muçulmanos que assinaram a Carta da Nova Aliança da Virtude estão longe de serem perfeitos. Tal como os fundadores dos Estados Unidos e de nós todos, nem sempre agem de acordo com o que professam. Mas acreditamos que compreenderão que é a credibilidade mundial do Islão que está em causa, bem como a possibilidade de convivência em paz, apesar das nossas profundas diferenças.

E claro que sabemos perfeitamente que as declarações não bastam. Se existe alguma esperança de sucesso, então as palavras devem ser destiladas nestas sociedades através de caminhos concretos para poderem chegar aos jovens muçulmanos em todo o mundo. E mais, os imãs e outros líderes religiosos muçulmanos devem abraçar a validade, e até mesmo a necessidade, de apoiar os princípios da Carta.

Para que as palavras da Carta da Nova Aliança da Virtude não acabem por ser apenas retórica estéril, é necessário, no final de contas, que os signatários e seus apoiantes estejam prontos para insistir que as palavras nobres se transformem em nobres actos.


Kent Hill é um dos co-fundadores da Religious Freedom Institute (RFI) e primeiro diretor executivo. Atualmente é o responsável da RFI pela Eurásia, Médio Oriente e Islão. Antes, serviu como vice-presidente sénior da World Vision e administrador assistente da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Intrenacional.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 5 de março de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Vini, Covidi, Vinci

Covid-9
Numa altura em que só se fala do Covid-19 folgamos todos em saber que não é disso que sofre o Papa Francisco. O Santo Padre já não estava com grande voz quando fez uma magnífica homilia na Quarta-feira de Cinzas, e entretanto ficou pior, tendo de faltar ao retiro da cúria romana. Em princípio não é nada de grave.


O Igreja Católica tem apenas dois dias de jejum obrigatório, a Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. Mas o que é verdadeiramente o Jejum? Helen Freeh explicou no artigo da semana passada do The Catholic Thing.

No texto desta semana, Stephen P. White fala sobre o esforço que se tem feito para expurgar qualquer referência ao antigo cardeal McCarrick da catedral de Washington, e porque é que isso não é boa ideia.

Não Devemos Branquear o Legado de McCarrick

Stephen P. White
Há uma tradição, que ainda é observada nalguns lugares, segundo a qual o chapéu cerimonial de um cardeal – o galero encarnado – é pendurado do tecto da catedral quando ele morre. Ali fica, pendurado pelo seu cordel eclesiástico, até que sucumbe à corrupção do tempo e cai. Essa última desintegração do galero é entendido como um sinal – numa mostra de humor católico – que a alma do defunto saiu finalmente do purgatório.

Tendo sido despido do seu cargo de cardeal e laicizado, o galero de Theodore McCarrick não será pendurado com o dos seus antecessores na catedral de St. Matthew, em Washington. Mais, as suas armas foram removidas da parede da catedral, onde tinham estado entre as dos seus antecessores e sucessores.

Quem visitar hoje a Catedral de St. Matthew não encontrará qualquer referência a Theodore McCarrick enquanto Arcebispo de Washington.

Há muitas razões pelas quais podemos querer apagar o legado de McCarrick da catedral. Certamente aqueles que foram traídos por ele – as suas vítimas, os seus amigos, os padres, o seu rebanho – não gostariam de ver o seu nome e as suas armas expostas publicamente, sobretudo, como era o caso, tão perto do sacrário.

Tal memorial ao McCarrick poderia tornar ainda mais difícil a alguns ultrapassar a revolta e a confusão dos últimos anos, rumo à cura e à restauração da confiança. É por isso, segundo nos dizem, que o actual arcebispo de Washington, Wilton Gregory, ordenou pessoalmente que a placa de McCarrick fosse retirada.

Com o devido respeito pelo arcebispo Gregory, porém, julgo que se tratou de um erro.

A remoção do nome e das armas de McCarrick da catedral poderá tornar as coisas menos dolorosas para nós no curto prazo, mas duvido que melhorem o que quer que seja a longo prazo. Nem para nós, nem para ele, nem para os fiéis que virão muito depois de todos nós termos partido.

Em primeiro lugar temos o simples facto de que Theodore McCarrick foi, na verdade, arcebispo de Washington. Foi nomeado para o cargo no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e manteve-se até à reforma em 2006. Toda a vergonha com que cobriu esse mandato, o mal que fez à arquidiocese, não será desfeito por ignorarmos essa realidade e as questões difíceis que levanta.

O escândalo do pecado é uma preocupação legítima e a obsessão lasciva com o pecado – sobretudo o pecado sexual – é moralmente perigosa. A tentativa de nos protegermos da dor e do escândalo do pecado – nosso ou dos outros – transforma-se, com demasiada facilidade, num exercício de autoilusão. Por demasiadas vezes a tentação de proteger os fiéis da realidade dos pecados do clero tornou uma situação má ainda pior.

Ninguém pode dizer, com seriedade, que nas últimas décadas a Igreja Católica americana tem sido demasiado transparente em relação às fraquezas dos seus padres e (sobretudo) dos seus bispos. Uma cultura eclesiástica que tentou branquear as falhas da Igreja acabou, sem dúvida, por tornar a crise dos abusos ainda pior. Haverá maior prova disso do que a carreira do próprio Theodore McCarrick?

Alguns poderão argumentar que apagar o nome de McCarrick da catedral é um castigo justo. Talvez a dor de ver o seu legado destruído desta forma seja uma certa forma de justiça, e talvez até lhe faça algum bem, espiritualmente. Talvez.

Mas também há algum valor em reconhecer os limites da justiça que podemos fazer. A justiça de Deus não vem apenas nesta vida, mas na plenitude dos tempos. Se nos esquecermos disto o impulso para tentar à força obter toda a justiça no espaço das nossas curtas vidas, e à nossa maneira, torna-se incomportável. Enganamo-nos se pensamos que tudo deve – ou pode – ser corrigido à medida das nossas expectativas.  

O que leva a outra razão pela qual me preocupa a decisão de apagar a ligação entre McCarrick e a catedral: o próprio Theodore McCarrick.

A velha tradição de a queda do galero significar que a alma de um prelado saiu do purgatório tem uma fundação séria. Os nossos pastores precisam das nossas orações, mesmo depois da morte. Não rezamos pelos nossos mortos porque temos a certeza da sua bondade, mas precisamente porque não temos. As lembranças do nosso pecado e da nossa fraqueza – e sobretudo do pecado e da fraqueza dos nossos pastores – são importantes porque nos recordam da necessidade de rezar fervorosamente pela salvação das almas.

Ao contrário daqueles homens cujos chapéus encarnados estão pendurados nas catedrais pelo mundo, Theodore McCarrick ainda está vivo. Quem somos nós para dizer que não existe esperança para a sua salvação? E se existe, então não devemos rezar por ele?

O Evangelho instrui-nos: “Ama o teu inimigo e reza por quem te persegue”. Parece um mandamento fácil de obedecer, no abstracto, mas eu, pelo menos, acho muito complicado fazê-lo com convicção quando estamos a falar de um homem como Theodore McCarrick. Rezar pelas suas vítimas? Claro. Pelo seu sucessor? Evidente. Pelo seu antigo rebanho? Sem dúvida. Mas pelo próprio “Uncle Ted”?

Mas algo me diz que eram precisamente de “casos difíceis” como este que o Senhor estava a pensar.

Quer queiramos, quer não, Theodore McCarrick continua a ser nosso irmão. Une-nos o nosso baptismo, em Cristo. Não é por ignorar as suas feridas, nem esquecendo-nos de como elas surgiram, que tornamos o Corpo de Cristo mais perfeito.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020)

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