quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Pedi resultados concretos, e dár-se-vos-ão

Vítima de abusos, ouvido pela Renascença
Como devem calcular, hoje – e pelo menos até domingo – o tema é quase só um: Abusos.

Começou a cimeira no Vaticano, o Papa introduziu, pedindo aos participantes para “escutar o grito dos que pedem justiça”. Francisco também deu a cada participante uma lista de 21 pontos de reflexão que, sendo apenas pontos de reflexão, não deixam de ser pontos de reflexão dados pelo Papa. Traduzi-os para português. Vale muito a pena ler!

Depois viu-se um vídeo com testemunhos gravados de vítimas de abusos, que causou um grande impacto. Aqui podem ler alguns dos testemunhos. Custa, mas leiam.

Entretanto a Renascença falou diretamente com uma vítima que se encontra em Roma nestes dias. Mais uma vez, um testemunho duro, mas que deve ser lido.

Os primeiros oradores hoje foram o arcebispo Scicluna e o cardeal Tagle, sendo que ambos falaram da importância de se respeitar a dor das vítimas e mais tarde, no briefing, o especialista Hans Zollner deixou claro que sim, este encontro vai traduzir-se em resultados concretos.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Parte do problema e parte da solução? É do melhor que há


D. Manuel Clemente partiu hoje para Roma para participar na cimeira sobre abusos sexuais. Diz que os bispos foram parte do problema, agora querem ser parte da solução.

Há quem não saiba (incluindo os autores do kit de imprensa da Santa Sé. Ver imagem) mas Portugal já tem directrizes para lidar com estes casos desde 2012 e, segundo um especialista, “são do melhor que há”. Outras diretrizes que são consideradas um modelo a seguir são as inglesas, que são até mais duras do que a lei vigente no Reino Unido, mas não impedem que continue a haver problemas.

Esta é uma boa oportunidade para recordar que no blog vou mantendo uma cronologia de casos de abusos em Portugal. Podem consultar aqui.

A cimeira termina no domingo e logo na segunda haverá uma reunião entre a comissão organizadora e todos os dicastérios aos quais este assunto interessa.

E o dia hoje começou com notícia de uma carta dos cardeais Burke e Brandmüller a tecer comentários sobre a cimeira, para a qual não foram convocados.

Mudando de assunto (sim, há outros assuntos), o artigo desta semana do The Catholic Thing em português fala de escalada, mais especificamente dos maluquinhos que fazem escalada em modo “livre solo”, isto é, sozinhos e sem cabos de segurança, para tecer algumas conclusões sobre a nossa sociedade. Leitura interessante para todos, incluindo os que, como eu, não são particularmente fãs de escalada.

O Modo de Vida Livre e a Solo

Michael Pakaluk
Os adeptos da escalada costumam trabalhar em pares. Ambos estão equipados com um cabo, que está fixo em intervalos regulares à face da rocha. O que vai à frente costuma ter um bocado de cabo livre, mas nunca de tal forma que se magoaria muito se caísse.

Uma vez que a escalada exige confiança máxima, é natural os atletas formarem das mais próximas amizades humanas. Dizem que só a irmandade sentida por soldados em batalha é que se compara. Se virmos a vida como um desafio parecido com a difícil subida de uma montanha, então os parceiros de escalada podem representar a verdadeira amizade. Não admira que tantos cristãos se sintam atraídos pela escalada, ou por histórias de escalada.

Existe uma modalidade que se chama “livre solo” em que um atleta sobe “livre”, isto é, sem a proteção dos cabos, e “solo”, isto é, sem a ajuda de um parceiro. Nestes casos a colaboração não só se torna desnecessária como seria mesmo um obstáculo. Um amador que se faz a um muro de escalada no ginásio está a fazer “livro solo”, mas em segurança, a baixa altitude e por cima de colchões.

Mas alguns escaladores verdadeiramente dotados praticam o solo livre a alturas perigosas, onde um erro é morte certa. O melhor de todos é o Alex Honnold, conhecido por ter subido em livre solo a Dawn Wall e o El Capitan, em Yosemite. O “National Geographic” fez um documentário sobre a segunda destas subidas.

O livre solo é eticamente controverso, mas antes de mais consideremos a sua atratividade. O escalador pode mover-se mais depressa, logo conserva melhor a sua força. E é uma coisa muito pura: rocha, céu e homem. Um escalada bem-sucedida é um hino à perfeição: que demonstração de mestria poderia ser mais suprema do que alguém que tem tanta confiança no seu controlo que mal considera que a sua vida está em risco?

Do ponto de vista ético, o espírito do praticante de livre solo parece altamente admirável. É a velha escolha de Aquiles: preferia morrer em busca da perfeição, do que manter-se vivo mas a fazer algo que lhe parece medíocre. Não foi Aristóteles quem disse que devíamos preferir uma “vida boa” a “simplesmente viver”? Enquanto cristãos nós admiramos as pessoas que arriscam tudo. O cardeal Newman ensinava que não estamos verdadeiramente a viver como cristãos se não estivermos a arriscar todos os dias a nossa vida inteira na premissa do Cristianismo ser verdade. (Ver a sua homilia “Ventures of Faith”)

Podemos ainda olhar para as conquistas de Alex Honnold com orgulho pela nossa humanidade partilhada. Ele parece colocar a raça humana no cume da natureza. Nem uma cabra-montês conseguiria subir a Dawn Wall em Yosemite. (Um insecto conseguiria, mas jamais o faria.) Chegado ao topo da subida Honnold poderia afirmar, com razão “este é um salto de gigante para a humanidade…” Agora, mais do que nunca, precisamos dessas fontes de orgulho. Os ecologistas não o admitem, mas essa é a verdadeira razão por detrás da popularidade de Honnold.

E por fim, entre a raça humana, o praticante de solo livre parece provar a realidade daquilo a que Aristóteles e São Tomás chamaram a virtude sobre-humana – uma virtude de tal maneira poderosa que excede os limites normais da humanidade (tal como existe uma bestialidade no pecado). A imagem de Honnold a ultrapassar uma Saliência particularmente difícil perto do topo do El Capitan, suspenso mil metros por cima do vale, parece reveladora de uma coragem sobre-humana.

Mas a modalidade de livre solo é também vista como eticamente questionável. A escalada, dizem alguns, não é uma atividade “séria” como é o combate, mas “recreativa” como o desporto e o entretenimento. Não vale a pena arriscarmos a vida por ela, consideram. Desse ponto de vista praticar o livre solo é tão insensato como tentar acabar um jogo de golfe no meio de uma tempestade. E mesmo que os maiores feitos de livre solo mereçam esse risco, outras tentativas claramente não valem a pena e nesse sentido celebrar os feitos de homens como Honnold apenas encoraja outros a tentar o mesmo.

Se está a pensar em ver o documentário “Free Solo” do “National Geographic”, então devo avisá-lo que só os últimos 15 minutos é que mostram a famosa subida. O grosso do filme lida com a sua relação com a namorada, que vive com ele na sua carrinha. Ele trata-a como uma fã monogâmica ligeiramente irritante, enquanto que ela claramente gostaria que ele deixasse a escalada para se casarem. O “National Geographic” viu-se obrigado a transformar este documentário sobre escalada num “reality show” porque descobriu, ironicamente, que Honnold simplesmente não se conseguia concentrar totalmente com uma equipa de sete homens armados com câmaras a segui-lo escarpa acima. Por isso acabaram por ter muito poucas imagens da própria subida, todas captadas a grande distância, através de teleobjetivas.

Mas para os sábios a presença da namorada revela umas verdades profundas sobre o amor e o casamento. Por exemplo: Ele não a ama a ela mais do que à escalada (isto é, mais do que se ama a si mesmo). Ou, ele comprometer-se a casar com ela implicaria comprometer-se a deixar de escalar, mostrando que o casamento é uma instituição que nos eleva do egoísmo. Ou então, se queremos ver a coisa pelo lado positivo, o celibato é necessário para um modo de vida comparável ao de Honnold (basta pensar no sacerdócio).

Mas a sua presença revela ainda outra coisa verdadeiramente perturbadora sobre a atração pelo livre solo. Se a escalada em equipa representa a amizade, então o livre solo deve ser visto como representando um tipo de autonomia que quase toca o autismo. Honnold, que foi criado pela mãe divorciada, numa casa onde, segundo ele, não se falava em amor, tem de bloquear, deliberadamente, toda a afetividade pela sua namorada para ter sucesso. Ao ponto de lhe pedir que abandone a carrinha onde vivem nos dias antes da escalada.

Eu fico maravilhado com pessoas como o Honnold. Mas isso preocupa-me. Preocupa-me que nos maravilhamos – a nossa cultura maravilha-se – com o livre solo, em vez de o achar desprezível. E isto porque nos atrai a ideia da autonomia, mesmo que seja uma autonomia temerária, que arrisca tudo por ambições que não têm qualquer valor para além da criação da vontade.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Igrejas restauradas e montanhas fumegantes

Nestes próximos dias vamos olhando para alguns dos principais países que já foram afetados pela crise dos abusos sexuais. Começamos pelos Estados Unidos, o pais onde a montanha pariu um vulcão

Mas nem tudo são notícias dramáticas! Hoje temos três artigos sobre o melhor que se faz em termos de nova evangelização, ainda por cima feita por jovens. Temos por um lado a Missão País. Aqui pode ler a entrevista de um dos responsáveis, Manuel Azevedo Mendes, à minha colega Ângela Roque, e aqui a reportagem de outra colega, a Olímpia Mairos, sobre uma missão em Santa Marta de Penaguião.

O outro tema é o Faith’s Night Out, de que já falei aqui há dias. Pois esta grande iniciativa das Equipas de Jovens de Nossa Senhora já tem seis anos e julgando-se crescida até quer ir ao estrangeiro. Leiam que vale a pena.

E por fim, um convite para conhecerem melhor a Igreja da Misericórdia, em Évora, que reabriu ao culto depois de obras de restauro .

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Actualidade Religiosa: Omertà No More

Começa esta semana a cimeira sobre abusos sexuais, no Vaticano. Hoje foi a conferência de imprensa de apresentação, com o arcebispo Scicluna a dizer que “o silêncio já não dá”. Aqui podem ver as respostas para as vossas perguntas. Se tiverem mais perguntas que não estão no artigo, não deixem de me dizer, porque se forem relevantes pode-se acrescentar.

Durante o fim-de-semana aconteceu, como já se esperava, a redução do ex-cardeal McCarrick ao estado laical. Aqui explico como o outrora influente clérigo passou do Colégio dos Cardeais à desgraça.

O próximo dia 20 de fevereiro vai ser feriado municipal em Jurandá! Porquê? Porque é o dia dos Pastorinhos e Jurandá é a terra do menino que foi curado por sua intercessão.

O Papa deixou-se fotografar hoje com um crachá a pedir a abertura dos portos a barcos com migrantes.

D. Nuno Brás foi apresentado na Madeira, recordando que a riqueza “não é o sentido último da existência dos cristãos”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Na Guarda falta gente, na Venezuela falta liberdade

A menos de uma semana do início da cimeira sobre abusos sexuais, em Roma, soube-se hoje que o núncio apostólico em França está a ser investigado por assédio sexual.

Curioso sobre o que se passa na Venezuela? Leia a visão do padre Pablo Lima, nascido e criado no país sul-americano, mas em Portugal desde os 18 anos.

Há um novo Camerlengo no Vaticano. É o homem que anunciou as JMJ para Lisboa.

Faltam sacerdotes na Guarda, mas segundo o bispo D. Manuel Felício, também falta gente.


No sábado dia 23 de fevereiro temos nova edição do Faith’s Night Out. Eu sou fã incondicional do formato desta iniciativa das EJNS. Na próxima semana haverá entrevista com a organização, mas até lá não se deixem dormir e comprem bilhetes aqui.

Fiquem também com um convite para uma interessante conferência sobre o Amoris Laetitia, chamado “Quando nem só a morte nos separa”, que se realiza na próxima sexta-feira.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Tão Maduro que Desilude

O Papa tem sido acusado de ter mão leve em relação a Nicolas Maduro. Pois hoje foi revelada uma carta escrita por Francisco em que se manifesta “desiludido” com o líder venezuelano, a quem nem sequer trata por Presidente.

O Vaticano aliou-se à Microsoft para promover a Ética na Inteligência Artificial. Vai haver um prémio internacional e tudo!

Foi aprovado o milagre que permite canonizar o cardeal John Henry Newman. São excelentes notícias.

Há quem tenha honras de capa, e há quem tenha capa de honras. O Papa conjuga os dois factores e diz que os “Portugueses são muito fortes”.

Os bispos dizem que desde 2001 os tribunais eclesiásticos analisaram cerca de uma dezena de casos de abusos. Recordo que podem ver aqui uma cronologia rigorosa de todos os casos que tem havido em Portugal nos últimos anos.

Um artigo de leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema do aborto. Nos Estados Unidos torna-se cada vez mais claro que o direito ao aborto se estende até aos bebés que acabam por nascer vivos. Não se esqueçam que o que se passa lá, mais cedo ou mais tarde vem cá parar. Leiam e divulguem.

Redescobrindo o Born-Alive Act

O Governador da Virgínia, Ralph Northam, conseguiu, na semana passada, expressar abertamente a posição do Partido Democrata sobre o aborto: que não existe qualquer obrigação de proteger a vida de uma criança que tenha o desplante de sobreviver a um aborto quando, claramente, não é “desejada”.

Isso foi o suficiente para estimular o senador Ben Sasse, do Nebraska – que nunca perde a oportunidade de fazer gestos de grande paixão moral, mesmo quando não está disposto a fazer o trabalho necessário para os levar a bom porto. Sasse já tinha introduzido no Senado o “Born-Alive Abortion Survivors Protection Act” [Lei de Protecção de Nados Vivos Sobreviventes ao Aborto] e então pediu imediatamente um voto para segunda-feira à noite, para ver se a lei poderia ser aprovada “sem objecções”.

Claro que não pôde. O objectivo da lei é de restaurar as penas que foram removidas da lei original, a “Born-Alive Infants’ Protection Act” de 2002. Essa lei inicial tinha como objectivo colocar estabelecer no direito esta premissa chave: que uma criança que sobreviva a um aborto e nasça viva tem o mesmo direito que qualquer outro Ser Humano à protecção da lei.

Alguns dos leitores saberão que eu tive um papel em redigir estas propostas de lei e em defendê-las. É uma história que remonta a 30 anos atrás. Num caso em particular, nos anos 70, uma criança sobreviveu a um aborto durante 20 dias, foi sujeito a cirurgia e acabou por morrer. A questão estava em saber se existia a obrigação de fornecer apoio médico àquela criança e a resposta, segundo o juiz Clement Haynsworth, foi que não.

Ele “explicou” que a partir do momento em que uma mulher grávida optava por um aborto “o feto neste caso não é uma pessoa cuja lei estadual pode proteger”. Por outras palavras, o direito ao aborto corresponde ao direito a um “aborto efectivo”, ou seja, uma criança morta.

Alguns de nós pensámos que poderíamos começar por aí, para testar os limites desse “direito ao aborto”. Sugerimos então o “primeiro passo mais modesto”: a proposta de simplesmente proteger a criança que tenha sobrevivido ao aborto. [A história dessa lei, as razões que lhe eram subjacentes e a forma como passou, são narradas no meu livro “Natural Rights and the Right to Choose”.]

Mas essa era uma proposta inaceitável para os defensores do aborto, porque perceberam que assim toda a sua posição se desenvencilhava. Se aceitassem que o nado-vivo era uma criança humana, com direito a protecção da lei, nós poderíamos perguntar o que é que a mesma criança tinha de diferente cinco minutos, ou cinco dias, ou cinco meses antes?

Ben Sasse
E foi por isso que os nossos aliados ficaram tão admirados quando a lei foi finalmente apresentada no ano 2000 e promulgada em 2002. O já falecido Henry Hyde ficou estupefacto quando a National Organization of Women se opôs a esta modesta lei para proteger os nados-vivos. A ironia é que os nossos adversários compreenderam a lei melhor que os nossos amigos, porque entenderam o princípio no coração da coisa.

Decidiu-se, contudo, retirar à lei as penalizações, tanto civis como criminais, para evitar que o Presidente Clinton a vetasse. Ficaríamos contentes com uma “lei pedagógica” que transmitisse informações que chocariam o grande público: que o direito ao aborto, proclamado em Roe v. Wade, abrangia a totalidade da gravidez, podendo mesmo chegar ao direito de matar a criança depois de nascer.

Seja como for, sem as penalizações a lei tornou-se quase impossível de aplicar. E viríamos a descobrir que estas coisas aconteciam muito mais do que tínhamos pensado em 2002. Enfermeiras começaram a contar histórias de bebés nados-vivos e colocados em salas para morrer.

Mas depois veio o choque do caso de Kermit Gosnell, na Filadélfia. Era o momento ideal para regressar à lei original e restaurar as penalizações, civis e criminais, que lhe tinham sido retiradas. A lei foi aprovada duas vezes na Câmara dos Representantes, em Setembro de 2015, com 248 votos a favor e 177 contra, e em Janeiro de 2018, com 241 a favor e 183 contra.

Todos os republicanos apoiaram a lei, e todos os votos contra foram dos democratas. Este foi o voto que revelou a grande verdade, que de acordo com o entendimento do partido à esquerda no nosso quadro político, o direito ao aborto não se limitava à gravidez, aplicando-se também ao direito a matar o bebé sobrevivente.

Esse dado poderia ter ganho contornos enormes na eleiçãopresidencial de 2016, mas ninguém parecia consciente disso, incluindo católicos influentes nos media como Bret Baier, que tinham à sua disposição os vastos recursos das redes à sua disposição.

Quando, há anos, nos contentámos com uma “lei pedagógica” pensámos que esta seria uma forma dramática de fazer esta informação chegar ao grande público. O que não contávamos era que os media simplesmente ignorassem a história, não lhe dando qualquer cobertura.

Este poderia ter sido o momento de redenção para Ben Sasse. A energia que o possui agora teria sido mais útil o ano passado, obrigando a uma votação da lei no Senado, depois de ter passado na Câmara Baixa. Ou se aprovava a lei, ou então os democratas seriam obrigados a tomar posição sobre o assunto antes das eleições.

A sua desatenção levou-nos a perder essa vantagem. A questão agora está em saber se, desta vez, ele será capaz de levar a coisa até ao fim. Conseguirá romper com o blackout dos media e colocar este assunto onde merce estar, isto é, no centro do debate público e na eleição de 2020?

Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Proibido rezar, permitido abortar

Perigosíssimos criminosos
Sabia que em Londres há duas zonas em que é proibido rezar? Os defensores do aborto não olham a meios para fazer avançar a sua agenda…


Mantém-se a situação de crise na Venezuela. Muitos têm estranhado a posição do Vaticano, mas o cardeal Pietro Parolin veio esta sexta-feira defender o que chama “neutralidade positiva”, que tem por objectivo “superar o conflito”.

O bispo de Setúbal foi entrevistado em conjunto pela Renascença e pela Ecclesia. D. José Ornelas falou do “processo de purificação” que a Igreja está a viver por causa dos abusos sexuais e referiu-se ainda à situação do Bairro da Jamaica, que muita tinta tem feito correr ultimamente.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Francisco preparado para mediar crise na Venezuela

O Papa regressou ontem dos Emirados Árabes Unidos. No último dia lá celebrou missa com os católicos, a quem pediu que trabalhassem pela paz.


Por falar em Venezuela, a missão católica portuguesa no país diz que urge travar, de todas as formas, uma intervenção militar dos EUA no país.

Conhece o “Gabinete de Escuta”? Se não conhece, leia isto. Pode ser o que falta para ajudar uma pessoa que conhece.

Porque hoje é quarta-feira trago-vos um artigo do The Catholic Thing em português, desta vez sobre um tema muito atual, a importância do estabelecimento de uma Igreja Ortodoxa da Ucrânia independente de Moscovo e como isso pode afectar o Cristianismo global. Não deixem de ler.

E deixo-vos novamente o convite para ler a minha grande reportagem sobre o dérbi mais improvável do mundo, que se joga na língua de Cristo. Muitos dos adeptos neste jogo peculiar são naturais da Síria, onde já só 2% da população é cristã.

A Transformação do “Pulmão Oriental”

Myroslav Marynovych

Embora quase ninguém no mundo ocidental tenha reparado, houve recentemente um desenvolvimento importante para o Cristianismo global. Durante o Sínodo da Igreja Ortodoxa de Kyiv, no dia 15 de Novembro de 2018, foi criada uma nova Igreja Autocéfala da Ucrânia. A medida foi saudada pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Estaremos perante mais um caso de “nacionalismo ucraniano” numa altura em que a Rússia se tem tornado cada vez mais ativa? Ou será este o resultado da rivalidade entre Constantinopla e Moscovo por influência sobre a Ucrânia? E o que é que isto representa para os Ortodoxos e para a Igreja Católica?

Na realidade, estamos perante uma mudança gigantesca na Igreja. O Papa João Paulo II convidou a Europa a respirar com dois “pulmões” – o Ocidental e o Oriental. Normalmente sabemos bem o que é o “pulmão ocidental”, mas o que é o oriental?

Entre os séculos XI e XIV a resposta era inequívoca: O oriente cristão estava organizado em torno de dois centros: a Igreja de Constantinopla (incluindo a Grécia e Atenas) e a sua Igreja “filha”, a Igreja de Kyiv, de onde o Cristianismo se espalhou para outras terras orientais.

Entre os séculos XV e XVIII aconteceu uma “deriva continental” tremenda e Moscovo acabou por substituir Kyiv (Kiev). A partir de então o Oriente Cristão passou a estar centrado em Constantinopla e Moscovo. Muscovy absorveu em si mesmo tanto o território da antiga Rus’ de Kyiv como a Metropoly eclesiástica de Kyiv, tornando-se o Império Russo.

As características distintivas da antiga espiritualidade de Kyiv foram rigorosamente limitadas para se conformarem com os interesses do modelo russo de Cesaropapismo. Livros eclesiais “suspeitos” foram queimados. Figuras dissidentes da Igreja foram reprimidas.

Kyiv passou a estar submetida à “Terceira Roma” (Moscovo) tanto debaixo do Czar como das ditaduras comunistas. Foi só com o colapso da União Soviética que o glaciar estalinista descongelou. O que a propaganda do Kremlin classificava de nacionalismos locais, que alegadamente destruíam a unidade cristã, era a libertação dos povos e das suas comunidades eclesiásticas da influência monopolista do mais poderoso dos nacionalismos, o chauvinismo russo.

Na Ucrânia voltou a nascer a ideia de uma Igreja Ortodoxa autocéfala. O Kremlin, e a Igreja Ortodoxa Russa que lhe era subserviente, responderam de duas formas.

A primeira foi uma descriminação metódica contra os desenvolvimentos eclesiais e políticos na Ucrânia. Nas palavras de um observador ucraniano, a propaganda russa usava terminologia aparentemente retirada do “dicionário ocidental de ‘valores humanitários’, mas na verdade operava com ideias-lobisomem, ideias-parasita e ideias-fantasma” (Andriy Baumeister). O mundo ocidental não deu por esta manipulação e, pelo menos até recentemente, aceitou-a de forma acrítica.

O segundo método consistia em propagar o conceito do “mundo russo” avançado por Cirilo, o Patriarca de Moscovo, que na verdade é uma doutrina imperial quasi-religiosa que proclama a “unidade espiritual” de todos os russófonos e povos ortodoxos. 

Isto tornou-se uma forma de legitimar a guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, alegadamente em nome da defesa da população russófona. Agora a propaganda do Kremlin está a preparar o mundo para um possível novo ataque contra a Ucrânia, para “proteger” a população ortodoxa.

Assim, hoje estamos a assistir a uma profunda transformação do “pulmão oriental”. O Patriarcado Ecuménico de Constantinopla pressentiu para onde as coisas estavam encaminhadas e tomou a medida pouco comum de intensificar as suas atividades no mundo ortodoxo. Apesar de o Patriarcado Ecuménico ser apenas um “primeiro entre iguais” – e não o líder solitário da Igreja (como acontece com o Papa no Ocidente) – ele assumiu a responsabilidade pelo destino da Igreja ucraniana, que tinha sido separada de Constantinopla.

Há vários sinais de que o Oriente Eslavo do “pulmão Oriental” é ainda largamente disfuncional. O comunismo foi um profundo trauma do qual os povos das antigas repúblicas soviéticas ainda não recuperaram inteiramente. Em muitos lugares as pessoas perderam a cultura cristã e a compreensão do verdadeiro significado da fé cristã. Por isso, ainda poderemos vir a ter notícias preocupantes – tanto políticas como religiosas – de Kyiv. Mas, apesar de tudo, está em curso uma importante reorganização e as mudanças futuras afetarão o mundo cristão por inteiro.

Metropolita Epifânio, da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia
A influência de Constantinopla poderá acabar por ser extremamente importante. Isto já foi manifestado através da promulgação do Estatuto da recém-constituída Igreja Ucraniana, que alterou substancialmente os procedimentos administrativos, democratizando-os.

Até aqui os cristãos ocidentais têm-se preocupado sobretudo com a preservação do status quo com Moscovo, como se o oriente cristão se resumisse à Igreja Ortodoxa Russa. Aos olhos ocidentais isto parecia ser essencial para a paz cristã e o diálogo ecuménico. A diplomacia do Vaticano tem sido cuidadosa em não intervir nos assuntos internos dos ortodoxos.

Mas a situação atual apresenta um desafio claro para a Igreja Católica. Nas palavras do cardeal Christoph Schönborn, de Viena: “Como é que o Vaticano deve relacionar-se com a nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia? Se a reconhecer, isso levará a um conflito com o Patriarcado de Moscovo. Se não a reconhecer, isso conduzirá a um conflito com o Patriarcado Ecuménico.”

As Igrejas Ocidentais têm de compreender que o antigo status quo já não é sustentável. A situação exige uma mudança radical das posições atuais, incluindo a reconsideração dos atuais modelos de ecumenismo.

Os cristãos conscientes não podem continuar a considerar aceitável a linguagem de ultimatos e de exclusões usada pela Rússia. Os crentes ortodoxos da Ucrânia são uma parte legítima da oikumene cristã e estão, atualmente, sob cerco.  

Eles podem tornar-se um catalisador para uma transformação civilizada de todo o espaço pós-soviético, a começar pela Rússia. Os ocidentais devem compreender as novas realidades na Europa Oriental e perceber que a inclusão das Igrejas Ucranianas no diálogo com o mundo pode trazer mais benefícios do que o isolamento continuado.

Depois da queda do comunismo muitos ocidentais esperavam que o mundo eslavo, silenciado durante tanto tempo, ficaria finalmente livre para contribuir corretamente para a cultura cristã e para todo o mundo. Hoje, com a criação de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana, pode ser que uma voz importante esteja finalmente a fazer-se escutar.



Myroslav Marynovych é vice-reitor para missão na Universidade Católica da Ucrânia, em Lviv, na Ucrânia, e president do Instituto de Religião e Sociedade da mesma universidade. Foi fundador do Ukraninian Helsinki Group e prisioneiro de consciência entre 1977 e 1987. Presidiu às estruturas da Amnistia Internacional na Ucrânia entre 1991 e 1996 e foi também president do Centro Ucraniano da PEN International.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 2 de Fevereiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dérbis há muitos, nenhum é como este

A Renascença estreia hoje uma nova grelha e foi para mim uma grande honra ser o autor da primeira grande reportagem a passar no dia da inauguração. Numa semana em que tanto se fala de dérbi, convido-vos a conhecer o dérbi mais improvável do mundo. Opõe cristãos de tradição siríaca/assíria, oriundos do Médio Oriente, mas que vivem na Suécia… Só visto, e lido. Espero que gostem, pois deu-me imenso prazer fazer.

Por falar em Médio Oriente, o Papa Francisco encontra-se em Abu Dhabi. Ainda agora acabou de falar num encontro inter-religioso, em que disse que ou se constrói o futuro em conjunto,ou não haverá futuro de todo. Ontem, antes de partir, rezou de forma especial pela paz no Iémen, um conflito esquecido por muitos, em que quem mais sofre continuam a ser as crianças.

Na Holanda chegou finalmente ao fim a maratona religiosa em defesa da família Tamrazyan. Batei e abrir-se-vos-á… Os cristãos holandeses bem bateram, e a família viu abrir-se a porta.

Nota ainda para o facto de o Papa ter enviado flores às religiosas do Vaticano e para a descoberta de uma capela quinhentista em Cabo Verde.

Em anexo mando o convite para a Caminhada de Namorados e Casais Novos promovida pela Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa e deixo-vos com o convite para ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a importância do latim para a civilização ocidental.



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