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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O "bispo vermelho" e o "Papa herege"

Morreu D. Manuel Martins, o “bispo vermelho”, voz constante na defesa dos pobres e na denúncia da fome e das injustiças. Não faltam as homenagens e recordações. Podem encontrar tudo aqui.

Conheça aqui a história do bispo da Papua Nova Guiné que pensava que ia ser repreendido quando lhe disseram que ia ser elevado ao cardinalato.

Um grupo de dezenas de teólogos entregou ao Papa uma “correcção fraterna” em que lhe acusam de divulgar heresias. João Paulo II chegou a ser acusado de 101 heresias, por isso Francisco parece estar em boa companhia. No mesmo dia em que foi acusado, o Papa disse que “Deus não exclui ninguém”.

Na sexta-feira passada foi lançado o novo livro do padre Tolentino Mendonça. Saiba como correu.

D. Jorge Ortiga critica as propostas de lei de “autodeterminação de género” e diz que está na altura de ripostar. Se ainda não conhece a proposta de lei do BE, leia aqui a minha análise.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Papa tira do tesouro coisas antigas e coisas novas

A saga da procura da reconciliação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (vulgos lefebvrianos) continua. O Vaticano deu mais um passo, tomando medidas para que os casamentos celebrados no contexto da Fraternidade sejam considerados lícitos.

Neste mesmo dia o Papa sublinhou a importância do documento Populorum Progressio, de Paulo VI, um marco no campo da justiça social e do desenvolvimento.


António Costa esteve na Renascença esta terça-feira para ser entrevistado. Sobre a eutanásia diz que não sabe como votaria se fosse deputado. Da minha parte insurgi-me em artigo de opinião no blogue contra frases do género “é preciso um debate sério e sereno” ou “ainda não é tempo de discutir isto, há questões económicas mais importantes”, etc. Leiam e discutam.

Um convite, antes que se metam as férias da Páscoa, Thereza Ameal vai apresentar o seu livro “Querido Deus” no dia 19 de Abril às 17h30, na Obra Social Paulo VI, no Campo Grande. Apareçam e divulguem, que a autora certamente agradece!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Actualidade Religiosa: Francisco e SSPX? FIAT voluntas tua!

Poderá haver uma solução à vista para a integração dos tradicionalistas da Sociedade de São Pio X (vulgo Lefèbvrianos)? Não há ainda informação concreta, mas os sinais são, surpreendentemente, promissores.

O Fiat 500 em que o Papa Francisco viajou quando visitou Nova Iorque (ver imagem) foi vendido em leilão por mais de 400 mil euros. O dinheiro vai para instituições sociais.

Há muitas formas de fazer obras de misericórdia, mas poucas são tão desinteressadas e discretas como a de sepultar os mortos que não têm mais ninguém. É um trabalho que merece a minha mais profunda admiração e que podem conhecer melhor aqui.

Interessante notícia da Síria, onde os alauitas – a minoria islâmica que inclui a família de Assad – publicaram um raro manifesto em que se distanciam do regime, algo muito significativo tendo em conta a realidade daquela região.

Alerta para todos os interessados! O próximo encontro da Conferência Nacional de Apostolado dos Leigos já tem data, 7 de Maio; local, Évora; tema, “Nada nos é indiferente entre a Terra e o Céu” e programa, aqui. Marquem já na agenda.

terça-feira, 17 de março de 2015

Atentado no Paquistão e "O Williamson ordena amigos"

"Negando o holocausto num dia, ordenando os amigos no seguinte"
A vida difícil de um bispo ultra-tradicionalista
Domingo foi mais um mau dia para os cristãos perseguidos. Morreram 14 pessoas no Paquistão, num duplo atentado que o Papa lamentou e pela qual a Igreja local culpa em parte o Governo.

Já esta segunda-feira surgiu o relato na primeira pessoa de um espanhol que foi refém do Estado Islâmico durante vários meses, isto no mesmo dia em que os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia disseram-se dispostos a recorrer a todos os meios para travar o grupo. O Vaticano também já disse que aceita o uso da força para travar o Estado Islâmico.

Outra história terrível, mas da Índia, onde uma freira de 71 anos foi violada no decorrer de um assalto.

Há muito tempo que não ouvíamos falar dele, mas parece que o bispo que se mostrou demasiado tradicionalista até para os lefebvrianos da SSPX, vai ordenar pelo menos mais um bispo entre os seus seguidores. Ao fazê-lo entrará para a história como uma das poucas pessoas a ser excomungada duas vezes…

E terminemos com uma coisa mais alegre. Durante a Quaresma a Renascença tem feito reportagem com pessoas que ajuda outras. Desta vez damos a conhecer o trabalho dos ministros extraordinários da comunhão que levam Jesus aos doentes e acamados.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

2º Colóquio Tradição e Revolução

Local: Palácio da Independência, Lisboa, Sábado, 13 de Dezembro de 2014.


14:30 – Abertura

15:00 – Marcos EscobarA Tradição em Maurras

15:30 – Carlos Maria BoboneA Tradição em Montesquieu

15:45 – Ibsen NoronhaTradição, Direito e Religião

16:00 – Debate

16:30 – Clarence Protin Perenidade e continuidade da Tradição Platónico-Augustiniana

16:45 – Francisco FelizolTradição à Traição

17:00 – José Maria Pereira CoutinhoA Tradição como garantia de continuidade

17:15 – Debate

17:45 – Café

18:15 – Carlos BoboneO tradicionalismo e os seus involuntários teorizadores

18:30 – José Carlos Sepúlveda da Fonseca A Tradição em Plinio Corrêa de Oliveira: um princípio de acção

18:45 – Debate

19:30 – Encerramento 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um Concílio Pastoral e Dogmático

Randall Smith
Todos temos as nossas embirrações. Uma das minhas é quando ouço alguém a descrever o Vaticano II como um concílio “pastoral e não dogmático”. Apetece-me responder: “Então nunca chegou a ler os documentos, calculo”.

Os números falam por si. Dos 15 documentos oficiais do Concílio Vaticano II, três são “Constituições”. Duas destas são “Constituições dogmáticas”, uma sobre a Igreja (Lumen Gentium) e outra sobre a Revelação Divina (Dei Verbum). Depois há três “declarações”: Uma sobre educação religiosa, (Gravissimum Educationis), uma sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs (Nostra Aetate) e uma sobre liberdade religiosa (Dignitatis Humanae). Acrescem oito “decretos” sobre: (1) a actividade missionária da Igreja, (2) o ministério e a vida Religiosa, (6) o múnus pastoral dos bispos, (7) o ecumenismo e (8), as Igrejas Católicas de Rito Oriental.

É de salientar que apenas dois destes quinze documentos contêm a palavra “pastoral” nos títulos: A Constituição Pastoral Sobre a Igreja no Mundo Moderno (Gaudium et Spes) e o Decreto Sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja (Christus Dominus). E tanto um como o outro são inteiramente “doutrinais”.

Atenção, não quero ser mal entendido. Não estou a dizer que o Concílio não foi pastoral em muitos sentidos importantes. Pelo contrário, o problema é a dicotomia que algumas pessoas gostam de criar – coisa que não se encontra no concílio – entre “pastoral” por um lado e “dogmático” por outro, como se fossem duas formas diferentes de ser “religioso”. Esta dicotomia não só viola a “hermenêutica da continuidade” com a tradição multi-secular, em que Bento XVI tanto insistiu, mas coloca o Concílio numa ruptura com a “hermenêutica da continuidade” consigo mesmo.

Num ensaio, o historiador intellectual A.H. Armstrong exorta os seus leitores a “apreciar a dimensão original e inauditamente estranha do fenómeno da Igreja Cristã primitiva, quando vista da perspectiva da observância e da piedade das religiões tradicionais helénicas... A religião helénica enfatizava o culto, não o credo. O que era realmente importante era o cumprimento correcto de sacrifícios e ritos secretos de acordo com o que se considerava ser a tradição imemorial”.

Na maioria das religiões do mundo antigo, os “ensinamentos doutrinais e as instruções morais” simplesmente não diziam respeito ao clero.

“O contraste com a Igreja Cristã é evidente”, diz Armstrong. “Aqui o culto desenvolveu-se de forma bastante casual e apenas atingiu um alto grau de elaboração bastante mais tarde”. Embora os sacramentos e o culto público “tenham sido sempre centrais na vida cristã”, todavia, “aquilo que se ensina dentro e fora da Igreja, sobre a adoração e o Deus a quem esta se dirige e a forma como os fiéis devem viver, sempre interessou aos cristãos de uma forma que não tem paralelo no antigo mundo helénico.”

Outra diferença fulcral, diz Armstrong, é esta: “Toda a pregação e ensinamento de religião ou moral que era praticada na antiguidade era levada a cabo por filósofos, que tinham tanto a ver com a celebração do culto como quaisquer outros e nunca representaram nada que se parecesse com o estatuto nem a autoridade dos pregadores numa comunidade eclesial”.


Aquilo que a Igreja alcançou – especialmente no que diz respeito ao ministério do bispo e dos seus irmãos padres – foi uma integração fantástica destas duas funções: o papel do filósofo, por um lado, de pregar e ensinar a verdade e, por outro lado, o papel do sacerdote no templo, que exerciam os ritos sagrados.

Há muitos católicos, tanto de um lado com do outro da divisão tradicional entre “conservadores e liberais”, que preferiam que os nossos padres fossem do género pré-cristão, para quem “o que era realmente importante era o cumprimento correcto de sacrifícios e ritos secretos de acordo com o que se considerava ser a tradição imemorial”. A diferença é que os “conservadores” tendem a acreditar que estão a demonstrar fidelidade para com uma tradição medieval (mas que geralmente é sobretudo renascentista e do barroco tardio) enquanto os “liberais” julgam que estão a ir à raiz das práticas patrísticas iniciais (mas que, na realidade, tendem a ser reconstruções imaginativas, produzida por liturgistas de meados do século XX, que têm sido reveladas em larga medida como falsas por estudos mais recentes).

Seja como for, em ambos os lados da barricada há muitos que preferiam deixar todas as discussões filosóficas e intelectuais sobre “o Deus a quem o culto se dirige e a forma como os seus verdadeiros fiéis devem viver” (do género protagonizado pelo Papa João Paulo II e Bento XVI), de fora da igreja – a única diferença entre os dois está em saber o que é que o liberal ou o conservador preferiam ouvir em vez de doutrina. Para alguns o melhor são exortações piedosas, para outros, recomendações vagas sobre “ajudar os pobres”.

Queremos mesmo que o nosso padre nos fale e ensine sobre a Trindade, a Incarnação, a Ressurreição do Corpo, Salvação, Justificação, Santificação e os nossos deveres morais para com o nosso próximo? Queremos mesmo instrução profunda que nos leve a crescer na compreensão da fé? Queremos verdadeiramente que o padre nos desafie moralmente, tanto em termos da nossa vida interior e pessoal como em termos das nossas obrigações e responsabilidades para com os outros membros da sociedade?

Deixemo-nos de ilusões: Se vivesse na Igreja primitiva e o seu bispo fosse Ambrósio, ou Agostinho, ou Basílio de Cesareia, seria isso mesmo que ouviria – às pazadas.  

O Vaticano II foi um grande Concílio pastoral precisamente porque foi um grande concílio dogmático. Pensar que se pode dar cuidados pastorais correctos sem uma formação doutrinal sólida é como pensar que se consegue fazer uma cirurgia ao coração sem os conhecimentos adquiridos no curso de medicina.


Randall Smith é professor na Universidade de St. Thomas, Houston, onde recentemente foi nomeado para a Cátedra Scanlon em Teologia.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 19 de Julho de 2014 em 
The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Um Quarto de Século de Cisma

Austin Ruse
Mais um vez, bispos cismáticos fizeram um ultimato à Igreja Católica. Reneguem os vossos ensinamentos, ou nunca mais voltamos.

A recente declaração dos três bispos restantes dos tradicionalistas da Sociedade Sacedotal de São Pio X afasta ainda mais qualquer esperança de que a Igreja se reconcilie com algum deles nos próximos tempos. Reparem que digo a Igreja reconciliar-se com eles, e não eles reconciliarem-se com a Igreja, porque para eles a reconciliação é toda de sentido único.

Numa declaração emitida no 25º aniversário do seu cisma, os três bispos insistem que o problema não tem nada a ver com a interpretação dos documentos do Concílio Vaticano II, mas com os documentos em si. Consideram que estes são perfeitamente claros e e perfeitamente heréticos.

Um dos trabalhos mais importantes dos últimos dois pontificados foi precisamente o esforço de determinar a interpretação correcta do Concílio, contra os mais loucos, e a colocação dos documentos na perspectiva da tradição da Igreja. Bento XVI insistiu que o Concílio devia ser lido através daquilo a que chamou uma “hermenêutica da continuidade”.

A SSPX entende o Concílio através de uma “hermenêutica da ruptura”. Eles dizem que o Concílio marcou o início de um “novo tipo de Magistério, até então desconhecido na Igreja, sem raizes na Tradição”. Aponta baterias, como fez sempre desde o início da sua revolta em 1988, à “liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade e a Nova Missa”.

A SSPX insiste que a liberdade religiosa equivale a insistir que Deus renuncie ao Seu reino sobre o homem e que isso equivale à “dissolução de Cristo”.

O Ecumenismo e o diálogo inter-religioso levaram a um ponto em que “uma grande parte do clero e dos fiéis já não vê em Nosso Senhor e na Igreja Católica o único caminho da Salvação”.

A SSPX também odeia aquilo a que chama a “Nova Missa”, que “diminui a afirmação do Reino de Cristo através da Cruz. O próprio rito encurta e obscurece a natureza sacrificial e propiciatória do Sacrifício Eucarístico”. A declaração da SSPX diz que a missa destrói a “Espiritualidade Católica”.

Há alguma verdade nas críticas à forma como as coisas evoluíram desde o fim do Vaticano II. O Ecumenismo tem sido um fracasso excepto nas questões em que tem sido posto em prática por católicos fiéis a trabalhar com Evangélicos em questões sociais.

E para mim não há qualquer dúvida que a Missa Tridentina é mais  bonita que a nova em quase tudo. Também é verdade que muitos católicos acreditam hoje que todos os caminhos levam a Deus, e que por isso a evangelização não é mesmo necessária.

Mas nem todos estes problemas são culpa do Concílio Vaticano II. Em vários aspectos, o Concílio tornou a Igreja suficientemente resistente para poder sobreviver aos golpes culturais que em larga medida já destruíram o Protestantismo mainstream.

Há mais de dois anos escrevi neste site que as conversações entre a Sociedade e a Igreja nunca chegariam a bom porto, por duas razões. Primeiro porque a Sociedade está a exigir demasiado. Eles querem mais do que a aprovação universal da Missa Tradicional. Eles querem que a Igreja renuncie aos ensinamentos de de um Concílio Ecuménico. Mas como disse o Cardeal Ratzinger, no “Relatório Ratzinger”, se rejeitarmos o Vaticano II, então também rejeitamos Trento, porque estamos a rejeitar a autoridade de ambos, isto é, a os ensinamentos dos bispos de todo o mundo, em Comunhão com o Papa.
 
Arcebispo Marcel Lefebvre
A segunda razão pela qual a SSPX provavelmente nunca vai voltar é mais complexa que a primeira. É mais do que simples rejeição do ensinamentos católico. Há também o orgulho: orgulho entrincheirado, orgulho que não aceitará a reconciliação, aconteça o que acontecer.

Mesmo que a Igreja renunciasse ao Concílio Vaticano II e impusesse a Missa Tridentina de forma universal, é provavel que o núcleo duro dos SSPX nunca regressem. Agora já se habituaram à sua própria autoridade e uma das coisas mais difíceis é a verdadeira obediência.

O regresso é improvável, mas não é impossível. Há poucas semanas um grupo previamente cismático viu os seus seminaristas prostrados no chão de uma Igreja em Roma, a serem ordenados ao sacerdócio por um arcebispo do Vaticano.

Os Filhos do Santíssimo Redentor chegaram a ser aliados próximos do Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Sociedade de São Pio X. De facto, quando foram fundados em 1987 foram pedir a bênção a Lefebvre.

Até 2007 viveram no deserto eclesial até 2007, quando o Papa Bento XVI emitiu o motu proprio “Summorum Pontificum”, que permite a celebração universal da Missa Tradicional. Então o grupo pediu a Roma para se fazer uma reconciliação. Houve visitações. O Cardeal Levada da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei esteve envolvido. E o ano passado o Papa concedeu a regularização.

Mas como seria de esperar, apesar de o grupo ter regressado a Roma, alguns membros individuais escolheram manter-se separados em cisma, com a Sociedade de São Pio X.

Para aqueles que insistem que a Sociedade não é cismática, considerem o seguinte: No documento que regulariza este grupo o texto oficial menciona mesmo o fim da sua “condição cismática”.

Os católicos tradicionalistas não são seres estranhos de outro planeta. São os nossos irmãos e irmãs que, em larga medida, são tão fiéis à Igreja como outros católicos – excepto na obediência eclesial . A sua energia, tanto física como intelectual, é algo a contemplar e a admirar, e fazem muita falta à Igreja hoje.

Se ao menos eles direccionassem essa energia a outros alvos que não a Igreja Católica.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 12 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O regresso dos judeus, bebés e beijinhos papais


Os judeus descendentes daqueles que fugiram ou foram expulsos da península ibérica no século XVI poderão vir a receber cidadania portuguesa. O assunto está a ser discutido hoje no Parlamento, mas mesmo se for aprovado ainda não há detalhes sobre como funcionará.

Bento XVI não beijava bebés… até chegar a Portugal. O Papa Francisco sempre beijou bebés, mas adivinhem qual a nacionalidade da primeira criancinha a receber essa honra? Pois é… podemos concluir que os bebés portugueses são mais queridos que os outros?

Os bispos portugueses estiveram reunidos por estes dias em Fátima. Prometem ser uma presença activa quanto aos problemas do país nesta fase e confirmaram que o pontificado de Francisco vai ser consagrado a Nossa Senhora de Fátima.

Em mais uma prova de que as religiões são irracionais e temem a ciência, o Vaticano está a organizar a segunda conferência internacional sobre células estaminais adultas. (Para quem não notou, isto é para ler com ironia…)

Surgiu ontem a notícia de que Bento XVI estaria gravemente doente. A Santa Sé nega.


Por fim dois avisos, ambos para amanhã. O lançamento do livro do meu bom amigo Frei Bernardo Corrêa d'Almeida. Escrito antes da eleição de um sucessor de São Pedro jesuíta que adoptou o nome Francisco, o livro é sobre São Pedro, escrito por um franciscano, com prefácio de um jesuíta. O lançamento é às 21h30 (ver anexo)

Também amanhã, mas mais cedo, pelas 15h00, realiza-se um debate sobre o perdão, que tem por base o livro “Incondicional? - O apelo de Jesus ao perdão radical”, editado em Portugal pela Letras d’Ouro”. Quem me conhece sabe como este tema é importante para mim, recomendo vivamente a participação, no auditório Lusitania - Rua do Prior, nº 6, à Lapa, Lisboa.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Odiar o Papa?

Austin Ruse
Que coisa terrível que é um suposto católico odiar o Papa. Ódio é uma palavra muito forte? Que coisa terrível que é não gostar do Papa, ficar enraivecido com o Papa, ou desconfiar sequer do Papa. Mas lendo alguns blogues tradicionalistas nos tempos mais recentes vê-se tudo isto.

Claro que muitos de nós ficámos um bocado preocupados ou até desiludidos quando foi anunciado o nome de Bergoglio. Quase nunca tínhamos ouvido falar dele. Da Argentina? Interessante, mas essa não é uma das terras da teologia da libertação? E ele não tinha sido o candidato progressista contra Ratzinger em 2005? Afinal esta última acusação era simultaneamente verdade e mentira. Verdade que era o candidato dos progressistas, mentira no sentido em que ele não o queria.

Eu estava nas Nações Unidas quando saiu o fumo branco, num painel convocado pela Santa Sé para discutir a violência contra as mulheres. A sala de conferências estava cheia de feministas radicais que adoram ir a estes eventos para poder atacar a Igreja. Quando saiu o fumo branco os telefones de católicos fiéis começaram a tocar em todo o mundo. Também naquela pequena sala na ONU se podiam ver algumas caras felizes, incluindo o núncio, radiante.

Muitos de nós encontramo-nos no bar da ONU, ligámos os computadores e esperamos pelo “Habemus Papam”. Foi uma espera agonizante. Estava com um grupo grande de estudantes de Steubenville e quando foi anunciado Bergoglio o nosso entusiasmo esmoreceu significativamente. A confusão era palpável. Bergoglio quem?

Então começámos a receber emails de amigos com citações sobre as lutas que Bergoglio tinha travado em defesa da vida e da família na Argentina. Eram muito fortes. Ninguém espera que o Bispo de Roma seja heterodoxo nos assuntos mais importantes do dia, mas falará abertamente deles? Claramente este novo Papa fá-lo-á.

Quando Francisco baixou a cabeça e pediu a nossa bênção os estudantes com quem eu estava choraram e rezaram por ele ali mesmo. As feministas radicais que estavam à nossa volta percebiam o que se estava a passar – e estavam horrorizadas.

Mas imediatamente os nossos amigos tradicionalistas e os seus blogues começaram a encher-se de queixas. Um amigo meu no Facebook alertou que Bergoglio “não é amigo da missa tridentina”, o sine qua non do Tradicionalismo. Esta suposta frieza de Francisco pela missa tradicional tem sido repetida vezes sem conta desde a sua eleição.

Para além da missa tridentina, os tradicionalistas estão sempre alerta para detectar qualquer coisa que lhes pareça modernismo. Será que o turíbulo foi abanado o número certo de vezes tanto à esquerda como à direita?

Taylor Marshall - Uma voz sensata no meio da raiva
Taylor Marshall – um ex-padre anglicano convertido ao Catolicismo que trabalhou durante uns tempos na Catholic Information Center em Washington D.C. – é chanceler do Fisher More College no Texas e um autor influente nos meios tradicionalistas, mas com um estilo sensato. No dia 14 de Março, meras horas depois da eleição de Francisco, postou isto no seu blogue:

O Papa Francisco ainda não tinha sido eleito há duas horas e o sarcasmo começou a ser cuspido nas caixas de vários blogs. Muitos do grupo tradicional reagiram contra o Papa Francisco com palavras que eram francamente ofensivas. Se um dos meus filhos falasse assim de um padre (ou de qualquer pessoa mais velha, já agora), o rapaz levava uma palmada no rabo e uma longa estadia num quarto escuro.

Em poucos minutos do aparecimento de Sua Santidade na varanda, alguns "trads" começaram uma campanha online afirmando que ele era um perseguidor dos padres ortodoxos na Argentina. Depois disseram que proibiu a Missa Tradicional na sua diocese. Depois estavam a gozar com ele por não usar a mozeta papal encarnada. Também exprimiram desagrado sobre o facto de Sua Santidade ter rezado em italiano e não em latim. Depois, mostraram-se alarmados por ele ter tirado a estola imediatamente depois da bênção. A seguir fizeram um grande alvoroço sobre o facto de a tapeçaria que se desenrolou sobre a varanda não ser a do predecessor de Sua Santidade. E estes comentários não são sequer os piores. E nem sequer quero enumerar algumas das outras coisas que têm escrito online. [Em português aqui]

Marshall tinha razão; os blogues e as suas caixas de comentários estavam cheios de pânico, fúria, até ódio, e não eram só os habitués dos comentários que se estavam a passar. Horas depois do anúncio a Remnant TV entrevistou John Rao, um comentador frequente, que é também um dos mais proeminentes líderes dos círculos tradicionalistas raivosos. Rao afirmou: “As perspectivas não são boas. Parece que a eleição resultou de maquinações políticas por parte de um ou outro elemento daquela facção do Colégio dos Cardeais que está associado ao suposto espírito do Concílio, seja como for que interpretam isso, e que não quer saber se a Igreja morre, desde que esse espírito se mantenha.”

Príncipes da Igreja que não querem saber se a Igreja morre? Pensem bem no que estas pessoas estão a dizer. Que arrogância, que falta de fé. Que atitude de dissensão em reclamar a autoridade de se pronunciar sobre o que é verdadeiramente católico ou não.

Quando eu era tradicionalista tínhamos um grande desprezo por João Paulo II. Quase passei ao lado do seu pontificado inteiro – até sair dessas fileiras. Eles gostavam mais do Bento XVI por causa da bênção que ele deu à missa tridentina e as suas práticas mais tradicionais em geral. Mas agora dizem que Bento XVI frustrou o Espírito Santo ao resignar e que a elevação do Papa Francisco é o castigo.

Que bênção que foi, naquele dia, poder estar com estudantes católicos fiéis que choraram de alegria ao ver o nosso novo Santo Padre, e que dor de alma são aqueles que ficam zangados só de o ver, que ainda estão zangados e que sempre estarão.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta-feira, 05 de Abril de 2013)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 28 de março de 2013

No mesmo dia Papa envia sinais contraditórios para tradicionalistas

"There aren't any women here, are there?"
Como já tive oportunidade de referir aqui, logo depois da eleição, a escolha do Papa Francisco não foi particularmente bem aceite por alguns católicos tradicionalistas.

O seu historial de não implementação do “Sumorum Pontificum” em Buenos Aires não ajudou, e o facto de nas primeiras semanas ter abandonado muitos dos sinais exteriores que Bento XVI cultivava no campo litúrgico, agravou a preocupação.

Hoje, contudo, surgem dois sinais contraditórios mas que poderão ajudar a compreender melhor o Papa.

Na missa crismal, de manhã, numa homilia dirigida de forma especial aos padres, o Papa disse o seguinte:

As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam as ombreiras do efod, do qual provém a nossa casula actual: seis sobre a pedra do ombro direito e seis na do ombro esquerdo (cf. Ex 28, 6-14). Também no peitoral estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo.

Depois da beleza de tudo o que é litúrgico – que não se reduz ao adorno e bom gosto dos paramentos, mas é presença da glória do nosso Deus que resplandece no seu povo vivo e consolado –, fixemos agora o olhar na acção…

Ora isto é precisamente o género de coisa que muitos tradicionalistas estavam à espera de ouvir da boca do Papa, um claro sinal de que no seu entender pobreza e humildade não são para confundir com miserabilismo e que a riqueza litúrgica em nada ofende a pobreza de espírito, como aliás São Francisco tão bem demonstrou com a sua vida e os seus escritos.

Contudo, horas mais tarde, surge a notícia de que esta tarde na prisão juvenil o Papa vai lavar os pés não só a jovens rapazes institucionalizados, mas também a pelo menos uma rapariga. Salvo erro será mesmo a primeira vez que um Papa o faz, embora, alegadamente, Bergoglio já o fizesse em Buenos Aires.

E então? Bom… então muito! É que se há coisa que enerva os tradicionalistas (e não estou a ser sarcástico, pois incluo-me, moderadamente, neste lote), é o desprezo pelas rubricas e a mania que muitos padres têm de “inventar” e celebrar missas não como manda a Igreja mas como lhes apetece.

E o que dizem as rubricas? Indicam claramente que neste gesto, que é opcional, mas que é uma parte tão importante da simbologia da Ceia do Senhor, o sacerdote deve lavar os pés a 12 homens. Em latim o termo é “Viris”, que significa mesmo “homens” no sentido masculino e não no sentido geral de “seres humanos”.

Vejamos como serão as reacções. Para muitos estas preocupações podem parecer absurdas, mas para muitos outros não são.

A presença de mulheres... uma preocupação antiga...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A situação actual das relações com a SSPX

Menos razões para sorrir actualmente...
Neste blogue tenho feito os possíveis por acompanhar a questão da Sociedade Sacerdotal de São Pio X, o grupo tradicionalista que se encontra em ruptura com Roma e que é constituído por seguidores do falecido Arcebispo Marcel Lefebvre.

Durante o ano de 2012 chegou-se a pensar que uma reunificação com Roma estaria iminente, mas em cima da hora isso não se concretizou. Muitos deram então o processo de diálogo por concluído e, de facto, durante muitos meses não se ouviu nada de positivo, apenas silêncio da parte do Vaticano e bocas e insinuações menos simpáticas da parte da SSPX.

Desde então, contudo, deram-se dois desenvolvimentos dignos de nota.

Em primeiro lugar correu o boato, por enquanto não confirmado, de que o bispo tradicionalista Richard Williamson, expulso da SSPX por insistente desobediência ao superior geral Bernard Fellay, estaria a planear viajar para os Estados Unidos para participar num encontro da Sociedade de São Pio X da Estrita Observância, um grupo que se separou da SSPX pela “traição” de Fellay se ter atrevido a entrar em diálogo com Roma e a considerar a possibilidade de reunificar.

Mais, de acordo com este boato, Williamson estará mesmo a planear consagrar um novo bispo para estes tradicionalistas, nomeadamente o padre Joseph Pfeiffer, que tem sido particularmente crítico de Fellay.

Recordo que segundo a doutrina católica um bispo validamente consagrado pode ordenar outros bispos validamente. O facto de o fazer sem autorização do Papa faz com que a ordenação seja ilícita, mas não inválida. Por isso, a confirmar-se este desenvolvimento veremos provavelmente a multiplicação de bispos tradicionalistas ordenados por Williamson e Pfeiffer.

Tradicionalistas há muitos... nesta foto o "Papa"
Miguel I, dos EUA, residente no Kansas.
Será este o futuro da SSPX?
Este efeito de fragmentação da SSPX é tudo menos surpreendente. Quando se abraça a ideia da rebelião contra o poder instituído por não se concordar com o rumo, é apenas natural que o mesmo aconteça no seio do novo grupo. É assim com os protestantes e é assim com os mais diversos grupos tradicionalistas. Se a SSPX não se reunificasse com Roma um desenvolvimento destes seria uma questão de tempo, como eu alertei já em Dezembro de 2011 quando parecia certo que as negociações com Roma iam falhar.

Tomás de Aquino como arma
O outro desenvolvimento recente já não pertence ao mundo das especulações.

O ano passado, quando se percebeu que afinal a reunificação tinha caído por terra, o Papa substituiu o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Para o lugar foi um homem da confiança de Bento XVI mas que tinha um historial de conflitos com a SSPX, que na Alemanha operava um seminário na sua diocese.

Era claro que Gerhard Muller não era o homem indicado para representar a Santa Sé nestas conversações. Contudo, Bento XVI não dorme e ao mesmo tempo nomeou para vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei (sendo que o presidente é sempre o prefeito da CDF, neste caso Muller), o arcebispo Di Noia, ele sim uma figura encarada com muito menos suspeição pelos tradicionalistas. Tornava-se claro quem é que na verdade iria conduzir eventuais diálogos.

Este mês de Janeiro, farto de ver os tradicionalistas a contar apenas a sua versão dos acontecimentos que levaram ao fracassar da última ronda de conversações, Di Noia escreveu uma carta fortíssima endereçada a todos os padres da SSPX.

Nesta carta ele repudia muito claramente o emprego de linguagem e tons críticos por parte dos tradicionalistas, chamando ainda atenção para a carta que Bento XVI escreveu aos seus próprios bispos católicos a lamentar a falta de solidariedade que sentiu quando iniciou esta reaproximação.

Di Noia cita muito São Tomás de Aquino que identificou quatro grandes obstáculos à unidade: Orgulho, ira, impaciência e zelo desordenado. Estes obstáculos apenas podem ser ultrapassados com recurso às virtudes de humildade, mansidão, paciência e caridade.

O arcebispo reconhece que as barreiras que separam Roma da SSPX, apesar de anos de conversações, têm-se mantido basicamente iguais e que por isso torna-se necessário injectar no debate novas perspectivas e uma abordagem mais espiritual e teológica.

Não é fácil resumir a carta e recomenda-se a sua leitura na íntegra, pois é de facto muito boa e forte. Pode ser lida aqui em português do Brasil, numa tradução pela qual evidentemente não me responsabilizo, e aqui em inglês, a versão que eu próprio consultei.

Quanto ao futuro, a Deus cabe. De facto, neste momento se tivesse que apostar não seria na reunificação mas sim numa acelerada auto-destruição da SSPX... contudo, em Dezembro de 2011 estava no mesmo estado de espírito e apenas sete meses mais tarde estava preparado para anunciar uma reviravolta a qualquer momento. Por isso prefiro não arriscar. Em todo o caso, humanamente, diria que as coisas estão neste momento muito difíceis.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

3 - A Sociedade de São Pio X e os 360º

O líder da SSPX e o Papa Bento XVI
Todos conhecem a famosa (e provavelmente apócrifa) história do futebolista que se alegra por a sua vida ter dado uma volta de 360º…

Pois foi mais ou menos isso que se passou, até agora pelo menos, nas conversações entre o Vaticano e a Sociedade de São Pio X, que reúne os tradicionalistas que seguiram o Arcebispo Marcel Lefebvre e estão em situação de ruptura com Roma.

Durante a primeira metade do ano de 2012 falou-se e escreveu-se muito sobre a iminência da reunificação. Foi uma verdadeira montanha russa que começou com aproximação, depois aparente afastamento, depois aproximação tão grande que importantes vaticanistas e comentadores chegaram a dar o acordo por certo e, finalmente, o balde de água fria que foi a certeza de que não se tinha chegado a acordo.

Os documentos são confidenciais mas o que se sabe é que o Vaticano estava disposto a oferecer aos SSPX uma prelatura pessoal que lhes daria autonomia para se governarem, em comunhão plena com a Santa Sé. Mas ao que parece a exigência de que o grupo aceitasse que o Concílio Vaticano II não representava qualquer ruptura na doutrina da Igreja parece ter sido demais para o Bispo Fellay, actual líder do grupo, e os seus seguidores.

Muitos foram os que vaticinaram que este diálogo “ou ia ou rachava”, por assim dizer. A confirmar-se essas previsões, então rachou e os tradicionalistas poderão estar agora a sair definitivamente da órbita de Roma.

Se isso se confirmar, então é pena. Por um lado porque esta era uma reunificação muito desejada por Bento XVI, que investiu nela a grande custo pessoal. Por outro, porque assim aumenta a probabilidade de a SSPX começar a entrar na espiral de loucura que costuma caracterizar estes grupos cismáticos.

Apesar do fracasso do diálogo, pelo menos aparentemente e até agora, os efeitos não deixaram de se fazer sentir. Um dos quatro bispos tradicionalistas, o anti-semita e ferozmente anti-romano Williamson, foi afastado da sociedade e alguns padres saíram também para formar um novo grupo (acção típica da espiral de loucura de que falava).

É claro que o diálogo continua mas neste momento, e ao contrário do que pensava há seis meses, julgo que a reconciliação será bastante pouco provável.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Depois dos tradicionalistas, um gesto para os liberais?


Arcebispo Gerhard Ludwig Müller
Bento XVI nomeou hoje um novo prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. O agora arcebispo Gerhard Ludwig Müller era bispo de Ratisbona e sucede ao cardeal William Levada num dos mais importantes postos da Igreja, ocupado pelo próprio Papa até à sua eleição em 2005.

Confesso que fiquei surpreendido com a esta troca. Levada já tinha idade para resignar, mas o Papa também o podia ter mantido no lugar. A mudança vem numa altura em que o americano tinha acabado de ver frustrada, pelo menos temporariamente, a reconciliação com os tradicionalistas da SSPX. Surge também depois da “condenação” às freiras americanas, um acto que no meu entender era perfeitamente justo, mas que poderá não ter sido tratado da forma mais delicada. Pode mesmo ter sido esse episódio que levou a que finalmente o Vaticano contratasse um especialistas para regular as relações com a imprensa.

A saída de Levada será um castigo? Foi o que pensei inicialmente, mas vozes mais entendidas que eu garantem que não, foi mesmo só por limite de idade… talvez. Talvez eu esteja a cair na tentação de procurar conspirações em todo o lado.

O que dizer de Müller? Ao que parece, ele é um daqueles casos peculiares, considerado liberal pelos tradicionalistas e conservador pelos liberais. Os sites e blogues de pendor mais tradicionalista (católicos ou não), estão a alertar para o facto de Müller ser defensor da teologia da libertação, a corrente que fez tanto furor na América Latina nas últimas décadas e que ainda tem muitos proponentes, mas que até agora o Vaticano tinha condenado de forma bastante clara. Não deixa de ser estranho ter na CDF um pessoa que vê o movimento com bons olhos e que o tem defendido publicamente diversas vezes.

Bento XVI tem sido criticado por só ter gestos de aproximação para uma certa ala da Igreja. Desde as conversações com os herdeiros de Lefebvre, passando pela criação de ordinariatos pessoais para ex-anglicanos, na vasta maioria conservadores, até à “censura” às freiras americanas. Esta nomeação pode então ser entendida como um gesto de boa vontade para com a ala liberal, dando um pequeno encorajamento a uma das suas causas preferidas, a teologia da libertação.

Aparentemente, contudo, seria um gesto destinado a rebentar completamente com qualquer possibilidade de reunificação com a SSPX. Ainda por cima, Müller e a SSPX já tiveram trocas de palavras bastante azedas no passado.

Arcebispo Di Noia
Será aí que entra outra nomeação feita a semana passada, a do Arcebispo Di Noia para vice-presidente da Ecclesia Dei, uma comissão criada precisamente para lidar com grupos tradicionalistas. Di Noia veio preencher um lugar que estava vago há anos, sendo que o presidente da Ecclesia Dei é sempre o prefeito da CDF.

Penso, portanto, que o esquema será este:
Müller na CDF para se dedicar às milhentas coisas que a CDF faz e tentar equilibrar a imagem de uma agência que muitos pensam que existe para perseguir apenas liberais, mas essencialmente fora das conversações com a SSPX, e Di Noia na Ecclesia Dei, como vice-presidente mas a agir com autonomia, para procurar selar o regresso da SSPX.

O tempo dirá se é esta a realidade ou não.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

D. Albino Cleto RIP, São João Baptista idem

São João Baptista


Na Nigéria, mais do mesmo… outro Domingo, outro ataque a igrejas, mais 35 mortos. Esta semana com um agravante, os cristãos retaliaram e mataram cerca de uma dúzia de muçulmanos.

Na Bulgária há quase dois anos foram descobertas umas relíquias, alegadamente de São João Baptista. Muitos torceram o nariz, como se costuma dizer, se todas as relíquias daquele santo fossem verdadeiras, ele teria 6 cabeças e 12 mãos. Mas neste caso a história é mais credível…

Desde a semana passada houve desenvolvimentos no diálogo entre Roma e os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X. Leia aqui um resumo do ponto da situação…

Roma e SSPX, em que pé estamos?


Persistência... e paciência!
Ao que parece enganaram-se todos os que esperavam uma solução para breve, e incluo-me a mim mesmo nesse lote. Só espero é que não se tenham enganado todos os que davam o acordo como certo... pelas últimas indicações as coisas ainda podem correr mal... esperemos que não, nem que seja por Bento XVI, que tanto investiu neste “reencontro” com os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X.

Recapitulando, Roma e a Sociedade têm estado em diálogo há alguns anos. Finda a fase de discussão, Roma propôs um “preâmbulo doutrinal” aos tradicionalistas, que estes deviam subscrever para serem reintegrados. Depois de uma primeira finta, acabaram por enviar o documento assinado, mas com algumas alterações.

As alterações foram vistas pela Congregação para a Doutrina da Fé, que submeteu a opinião ao Papa. Corre o rumor que o Papa já estaria a par do documento antes e que teria dado o seu beneplácito, indicando que a CDF não deveria levantar problemas. Tudo parecia muito bem encaminhado, mesmo nas entrevistas concedidas pelo bispo Bernard Fellay, superior-geral da SSPX, era isso que se entendia. Até já se falava da estrutura que iria ser proposta, uma prelatura pessoal do género que tem o Opus Dei.

Esta semana que passou, Bernard Fellay foi a Roma encontrar-se com a CDF; estaria iminente a assinatura final do acordo? Especulou-se que sim, mas algo se passou. Fellay saiu de Roma sem acordo assinado e com um documento alterado que deve agora ser novamente estudado pelos tradicionalistas antes de poderem assinar de vez. É verdade, todavia, que também saiu de Roma com uma proposta já detalhada de estrutura de prelatura pessoal, o que começa a dar consistência ao cenário pós-reentrada. Mas só há pós-reentrada se houver reentrada... haverá?

O que se passou na reunião? Que alterações foram feitas e a mando de quem? Claro que já correm muitos boatos e teorias, desde pressões da ala liberal da curia romana à omnipresente e conspirativa maçonaria, fala-se de tudo. Uma das teorias que parece credível é que Bento XVI terá rejeitado o termo “erros do concílio” que estava no documento assinado por Fellay, o que se compreende. Liberdade de interpretação é uma coisa, falar de erros é outra.

Entretanto a oposição a Fellay dentro da SSPX, por parte daqueles que estão decididamente contra uma reunificação, aumenta de tom. Um dos outros três bispos já estava colocado de parte à partida. Richard Williamson, o mesmo que duvida da existência das câmaras de gás no holocausto, é ferozmente contra uma reunificação. Mas Bernard Tissier de Mallerais também se colocou definitivamente de fora, chegando a acusar Bento XVI de ser herege. Um abaixo-assinado posto a circular entre os fiéis também ia nesse sentido, embora, na última vez que tenha visto, só tivesse umas 200 assinaturas.

Tissier de Mallerais "não gosta" disto
Por outro lado, não tem havido falta de golpes de teatro e de bluff em todo este processo. Será este prolongamento uma forma de dar a entender, tanto de um lado como do outro, que se espremeram as negociações ao máximo, para que no fim ambos possam dizer que conseguiram o melhor acordo possível? Talvez, é possível, era bom.

Agora, segundo algumas fontes, Fellay apenas tomará uma decisão depois do capítulo geral da SSPX, que tem lugar em meados de Julho. A decisão cabe-lhe sempre a ele, mas é verdade que essa reunião, que evidentemente será dominada por esta questão, poderá servir para colocar pressão sobre ele, tanto num sentido como no outro. Não sou de maneira nenhuma especialista quanto às dinâmicas internas da SSPX, mas pelo que vou depreendendo, apesar dos outros três bispos serem contra (dois de certeza, um parece tender para aí), uma grande parte dos superiores distritais, que são sacerdotes, estão com Fellay. Ou seja, o capítulo tanto pode dar força a Fellay como pode esvaziar a sua autoridade moral. Claro que seria melhor chegar lá com o facto consumado, mas não deve ser possível.

O que resta? Rezar! Convém a ambos os lados compreender que esta reunificação beneficia da boa-vontade de Bento XVI e de Fellay, mas só terá hipóteses se Deus assim quiser. Rezar, rezar, rezar, para que seja feita a Sua vontade, seja ela qual for...

Nós por cá iremos acompanhando.

Filipe d’Avillez

terça-feira, 12 de junho de 2012

O que significa, e o que não significa, a reconciliação com a SSPX


por David G. Bonagura, Jr. 
Poucas coisas levam os católicos a esqucer o preceito da caridade mais rapidamente do que uma discussão sobre a Sociedade de São Pio X (SSPX), o grupo tradicionalista de padres e bispos que, devido à sua oposição ao Concílio Vaticano II e consequente turbulência, permanecem fora da estrutura canónica da Igreja.

O Papa Bento XVI, tendo tomado o leme no processo de restaurar a comunhão jurídica da SSPX ao longo do último quarto de século, tornou essa reconciliação uma prioridade do seu pontificado. Tudo indica que um anúncio formal de reconhecimento está próximo.

A reconciliação com a SSPX ficará entre as grandes conquistas do pontificado de Bento XVI, com implicações duradouras para a Igreja. Mas na histeria que certamente se seguirá ao anúncio formal, aquilo que é verdadeiramente importante ficará perdido por entre as polítiquices partidárias internas da Igreja.

À direita, alguns católicos tradicionalistas rejubilarão, declarando vitória: Roma modernista voltou a si e apoia o que resta da fé. À esquerda, onde se prefere sentar à mesma mesa que Lutero a partilhar uma Igreja com o líder da SSPX, Bernard Fellay, alguns acusarão Bento XVI de minar, ou desfazer, as reformas do Vaticano II. Ambas as perspectivas são falsas.

Antes de vermos o que significa a reconciliação, vale a pena analisar o que não significa.

Em primeiro lugar, Bento XVI não está a regredir em relação ao Vaticano II. Todo o seu pontificado está dedicado a avançar o Concílio (ver mais abaixo). De facto, como expliquei na altura em que o Papa revogou a excomunhão dos quatro bispos da SSPX, ele está a bater os progressistas no seu próprio terreno: está a fazer gestos concretos no sentido de reunir todos os cristãos, tal como o Vaticano pede no Unitatis Redintegratio (o que é duplamente irónico, pois é um dos documentos que a SSPX contesta). O que está a ser desfeito não é o Concílio em si, mas a ideologia que se agarra a um falso conceito de “espírito do concílio”.

Depois, alguns comentadores mais espertos poderão usar o trunfo do género: o Vaticano retrógrado está a aceitar um grupo de bispos e padres conservadores ao mesmo tempo que ataca as freiras indefesas da Leadership Conference of Women Religious (LCWR). Mas essa dicotomia ou jogo de poder misógeno não existe: Bento XVI está a trabalhar para trazer ambos os grupos afastados – a SSPX de iure, a LCWR de facto – de volta à plena comunhão com a Igreja; a abordagem diferente deve-se à diferença de estatuto de cada grupo.

Por fim, a reconciliação com a SSPX não significa a “vitória da Tradição” no sentido em que a Sociedade e os seus apoiantes a entendem: que o culto e a piedade tradicionais vão ser restaurados como sendo a expressão mais legítima da fé. A teologia e a prática católica tradicional já está a passar por um pequeno renascimento revitalizador um pouco por todo o mundo em comunidades religiosas, paróquias e escolas que se mantém leais ao Papa. Uma SSPX reconciliada trará mais crescimento e vigor a este movimento, mas não o criará de novo nem lhe dará um estatuto mais elevado.

Um jovem Marcel Lefebvre
Então o que significa a reconciliação com a SSPX?

Primeiro, o “Preâmbulo Doutrinário”, a declaração ainda secreta das crenças doutrinárias que a SSPX deve aceitar para ser reconciliada, deverá declarar – na forma mais oficial e autoritária até hoje – que todo o Vaticano II deve ser lido e interpretado à luz da Tradição. Se assim for, então não só moldará os futuros discursos da Sociedade sobre o Vaticano II, mas também o discurso de quem advoga o “espírito do Concílio”.

Os arautos da “hermenêutica de descontinuidade e rupture” não vão simplesmente baixar os braços, mas uma tal declaração retirará a pouca credibilidade que ainda lhes resta entre os leitores e alunos.

Segundo, como já foi referido, uma SSPX em comunhão plena como o Papa trará novo vigor para a prática e culto católico o que, por sua vez, ajudará a restaurar a identidade católica em locais onde já desmoronou. Ao que parece a prática religiosa nas capelas da Sociedade em França tem crescido à medida que as Igrejas regulares se têm esvaziado quase por completo.

Com as graças que decorrem da plena comunhão com Roma – e sem o tom que tem caracterizado muita da retórica contra Roma por parte da Sociedade – a SSPX poderá tornar-se uma peça chave na Nova Evangelização e a Igreja no seu todo deve valorizar o seu contributo.

Terceiro, a reconciliação diz muito sobre a natureza do pontificado de Bento XVI e o carácter dele enquanto homem. Desde o seu almoço em Castel Gandolfo com o bispo Fellay no primeiro Verão do seu pontificado até ao levantamento das excomunhões em 2009, passando pelas discussões formais com os teólogos da SSPX na Congregação para a Doutrina da Fé, e apesar de muitas vozes contrárias na Cúria, Bento XVI está a tornar a reconciliação uma realidade, ao seu ritmo e nas suas condições.

Como escreveu o próprio Fellay, “o Papa disse-nos que a preocupação por remediar a nossa situação, para o bem da Igreja, estava no coração do seu pontificado. Disse também que tinha noção de que tanto para ele como para nós teria sido mais fácil manter o status quo”. Bento XVI, como verdadeiro pastor, está mais que disposto a dar a sua própria vida e a sua reputação pelo bem do seu rebanho.

Permanecem uma série de questões sobre o estatuto da Sociedade; a sua organização futura, a possibilidade de haver uma cisão, com um grupo que rejeita a reconciliação. Mas quando chegar a altura será o próprio Bento XVI, não as facções da Igreja em guerra nem os media seculares, que providenciará a lente interpretativa para este incrível feito.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Junho de 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

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