Thursday, 26 January 2023

Congresso Nacional de Pueri Cantores

Nos próximos dias 10 a 12 de Fevereiro, em Santarém, vai realizar-se o 2.º Congresso Nacional de Pueri Cantores, com a direção executiva e artística do David Paccetti Correia.

O evento, com o objetivo de congregar os coros e estimular o movimento de Pueri Cantores em Portugal, é promovido e organizado pela Federação Portuguesa de Pueri Cantores em parceria com o coro anfitrião, a Schola Cantorum da Catedral de Santarém.

Vão estar presentes Matthias Balzer, vice-presidente da Federação Internacional de Pueri Cantores e Josep Maria Torrents, presidente honorário da mesma federação. A Comissão de Honra do Congresso é liderada pelo bispo D. José Manuel Garcia Cordeiro, Presidente da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade.

Com o lema Confiteor tibi, Pater (Bendito sejais, ó Pai), extraído da liturgia do dia, o programa Congresso desdobra-se em várias atividades participativas:


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Palestra O Canto como instrumento para enaltecer o culto (Christopher Bochmann)

·  Masterclass A técnica de direcção de um coro de igreja (Christopher Bochmann)

·  Cerimónia de Abertura

·  Visita com Música ao Museu Diocesano de Santarém

·  Oração pela Paz

·  Concerto de Esperança

·  Missa de Encerramento

·  Concerto de Gala (Christopher Bochmann)

A formação com o Maestro Christopher Bochmann é aberta a maestros, directores de coros e coralistas adultos, mediante inscrição por email ou por telefone 928143939.

 Federação Portuguesa de PueriCantores e a página do Facebook.




Wednesday, 25 January 2023

O palco da JMJ: O que sabemos e o que está por explicar

Desde que o texto original foi publicado, fiz alguns acrescentos que estão a negrito. 

Adenda no dia 27/01
O D. Américo Aguiar deu ontem uma longa conferência de imprensa sobre este assunto. Para mim, o essencial que se tira dessa conferência de imprensa foi que a Igreja não tinha noção do preço desta obra em particular, que os organizadores da JMJ ficaram chocados com o valor e que da parte da Igreja fica o compromisso de ver se há alguma exigência da JMJ que esteja a encarecer a obra e que possa ser dispensada, descendo assim o preço. 
Veremos o que sai dessa análise, mas este parece-me um bom compromisso da Igreja e uma boa posição para assumir. 
E acho que isto mostra também que nós, católicos, não temos de sair sempre em defesa da instituição quando surgem casos destes, muito menos queixarmo-nos de que tudo não passa de um ataque à Igreja, defendendo-a cegamente. Ontem ficou visto que até aos bispos este valor chocou e que se vai fazer os possíveis para diminuir o valor. 
De resto, claro que o palco vai custar dinheiro, mas isso é em grande parte porque a Câmara quer - e se Deus quiser o tempo lhe dará razão - aproveitar a obra para valorizar o espaço e rentabilizá-la ao longo dos anos. 

Já todos ouvimos a notícia. O palco que vai acolher o Papa Francisco para a celebração da missa final da JMJ vai custar 4,2 milhões de euros, mais IVA.

Há várias coisas a sublinhar nesta questão, e algumas perguntas que me parecem estar por responder.

  • O palco vai ser pago pela Câmara Municipal de Lisboa. Não estou com isto a dizer que a Igreja não tem nada a ver com o assunto, claro que tem, mas não faz sentido, como já vi, comentar que o dinheiro fazia mesmo falta era às obras sociais da Igreja Católica, porque se a Câmara não gastasse esta soma aqui, certamente que não a iria doar. Ou seja, não é dinheiro que está a ser tirado da boca dos pobres, pelo menos não dos pobres de quem a Igreja cuida.
  • O evento vai custar muito dinheiro, incluindo muito dinheiro dos contribuintes. Mas espera-se que dê retorno. A vida é assim. Claro que isso não significa que não se deva pedir contas e responsabilizar as pessoas pelas decisões tomadas.
  • Em defesa da obra alguns estão a sublinhar que esta poderá ser aproveitada para eventos futuros. Convém esclarecer, porém, que tanto quanto me foi dado perceber, o que será aproveitado é a pala, e não o palco, ou pelo menos não o palco no formato que terá para a missa. Por isso importaria discriminar o valor da obra. Quanto custa o palco para a missa? E quanto custa a pala? E no meio disto tudo há outros custos? Comissões? Seria importante perceber isto em mais detalhe, porque se a Câmara insiste em gastar 3 milhões de euros numa pala que vai rentabilizar no futuro, isso é um problema da Câmara, mas se o grosso do custo tem a ver com as especificações dadas pela Igreja para o palco, por exemplo, isso já coloca o problema mais do lado da Igreja. Sem saber, não adianta estar a atirar opiniões para o ar. [Já existem algumas respostas a esta questão. Segundo a ECO, pouco mais de um milhão de euros serão gastos na pala, pelo que o restante será, presumo, para o palco. Também a Câmara explicou que o palco também vai ser aproveitado para o futuro, mas "muito redimensionado", ou seja, não se aproveita tudo o que lá está, mas aproveita-se alguma coisa].
  • A Câmara diz que a obra respeita as especificações mandadas pela Igreja. Isso é importante, mas carece de algumas explicações. As especificações eram para a obra toda, ou incluíam a pala, que tudo indica ser a parte mais dispendiosa? Seria possível fazer uma obra respeitando as mesmas especificações, mas mais barato?
  • Uma das especificações que imagino que tenha sido colocada pela Igreja tem a ver com a dimensão do palco. O palco tem de ser alto, para poder ser visto do recinto todo, mas tem de ter aquele tamanho? Ao que consta, o tamanho deve-se ao facto de terem de lá caber todos os bispos esperados. Confirma-se? E não podem os senhores bispos, ou a maior parte deles, ficar uns metros mais abaixo e assim o palco não ter de ser tão grande? É só uma ideia. [Segundo um comunicado feito quarta-feira pela fundação JMJ, o palco tem de suportar 2000 pessoas, mil das quais são bispos. Penso que é legítimo perguntar se seria mesmo necessário os mil bispos estarem no palco? É que certamente permitiria fazer uma obra de uma dimensão muito mais reduzida].
  • Não obstante tudo o que foi dito acima, 4,2 milhões de euros é uma autêntica barbaridade. Claro que eu, como 99% das pessoas que comentam este assunto, não sabia nada sobre palcos e preços de palcos até hoje. Por isso, antes de comentar falei com quem sabe. A opinião dessas pessoas é de que seria possível fazer melhor (no sentido de mais bonito) por muito, muito menos. Foi-me dito ainda que nem este arquitecto, que é funcionário da Câmara, seria o mais adequado para desenhar este tipo de obra, nem a Mota Engil é a empresa mais adequada para a construir. [A Câmara diz que consultou sete empresas e optou pela mais barata. Seria interessante saber quais as outras empresas e se foi consultada alguma empresa especializada em fabricar palcos.]
  • Há uma outra questão que carece de resposta. Num evento que beneficiou de quatro anos de planeamento, porque é que se esperou até tão tarde para avançar com o projecto e adjudicação da obra do palco? Talvez haja razões legítimas. Se calhar não se podia avançar sem ter uma vaga ideia do número de participantes, mas a verdade é que desde o início que se fala de cerca de um milhão. Isto devia ser explicado também, porque a pressa em concluir a obra e a falta de concurso público podem também ter contribuído para o alto preço

Não me parece que estas questões sejam de impossível resposta. A Câmara tem feito algum esforço para vir esclarecer, mas parece-me que há mais para se explicar. A Igreja tem estado em silêncio, o que é mais difícil de compreender, mas deve-se pôr a hipótese de a Igreja não ter dados à mão para vir prestar esclarecimentos, uma vez que o projecto é da Câmara e a despesa é da Câmara. Em todo o caso, politicamente, o silêncio está a tornar-se pesado e convém que alguém diga, rapidamente, alguma coisa em nome da organização da JMJ. [Entretanto surgiu o comunicado da fundação JMJ, acima mencionado e na quinta-feira o D. Américo fez uma longa conferência de imprensa sobre o assunto].

Fica o desafio para todos os que lêem este artigo para contribuírem para estes esclarecimentos, mas com opiniões fundados e factos, porque os achismos não acrescentam nada nesta fase.

Papa Francisco sobre a homossexualidade: pecado, mas não crime

O Papa Francisco deu uma entrevista à Associated Press em que foi questionado sobre as leis que criminalizam a homossexualidade. 

Respondeu que embora os actos homossexuais sejam pecado, não são crime nem devem ser tratados como tal. 

O Observador pediu-me para comentar estas declarações.


Como transformar 4 em 145 - Uma história de fake news

Fala-se muito em “fake news” hoje em dia, e na maior parte das vezes imaginamos notícias propositadamente deturpadas, enganosas ou simplesmente inventadas, para alcançar algum fim malévolo.

Mas na minha experiência a maior parte das “fake news” que existem devem-se a erros básicos, ignorância e falta de rigor jornalístico por parte de quem as escreve.

Hoje tive um exemplo perfeito disso mesmo.

Esta notícia publicada pela Aciprensa Africa, um respeitável órgão católico, explica que em 2022 foram assassinados 39 padres na Nigéria.

Todos sabemos que a Nigéria está a atravessar um período muito difícil em termos de conflitos inter-religiosos e perseguição dos cristãos, mas um dos meus trabalhos para a fundação Ajuda à Igreja que Sofre ao longo de 2022 foi precisamente de ir mantendo uma tabela com todos os casos de membros do clero ou freiras assassinados, raptados ou detidos em contexto de perseguição, ao longo do ano. E para a Nigéria o número total de assassinados que pudemos confirmar foi 4. Ou seja, menos 35 do que a notícia da Aciprensa. Aliás, 35 é bastante mais do que todos os padres católicos assassinados em 2022 no mundo inteiro! Estranho, no mínimo, mesmo que admitamos que tenha havido mais do que 4, e que tenha havido casos que nos passaram despercebidos.

A notícia da Aciprensa indica como fonte um relatório de um respeitado organismo nigeriano, o SB Morgen Intel. Clicando no link, contudo, percebemos que não existe um relatório, mas um infográfico, intitulado “gráfico da semana”, que pretende mostrar a perseguição sofrida por padres católicos na Nigéria em 2022.


Claramente o problema está aqui. O gráfico, como podem ver, fala em 39 “incidentes”, dos quais resultaram 145 vítimas. Repare-se que “casualties” não significa necessariamente mortes, mas vítimas, que podem ser mortos ou feridos.

Contudo, no canto superior direito existe de facto uma tabela mais pequena que diz indicar o número de “mortes por zona geopolítica” e a soma dessas “mortes” dá de facto 39.

Estou a aguardar uma explicação da SBM Intel, mas sinceramente acho que a explicação mais fácil para isto é de que alguém na organização reciclou um gráfico e se esqueceu de trocar a palavra “mortes” por “incidentes”. Um erro básico e até compreensível.

O problema é que, como se não bastasse alguns estarem a fazer eco dos supostos 39 mortos, já apareceram outros órgãos a expandir ainda mais o número. Assim, o Sahara Reporters conseguiu chegar a 145 padres mortos na Nigéria no espaço de um ano. É só 36 vezes o número real!

E obviamente esse número já foi replicado por incontáveis outros órgãos de informação, blogs, e posts nas redes sociais, por pessoas que não estranharam nem foram capazes de ir verificar.

Isto é fake news, como a conferência episcopal nigeriana já veio confirmar. E é assim que um erro, multiplicado várias vezes, acaba por desvalorizar um número que já por si nos devia chocar, que é a morte de quatro padres, em contexto violento, no espaço de apenas um ano, por tentarem ser fiéis à sua vocação.

Alhos, bugalhos e abusos

Em Agosto de 2018 o Procurador Geral da Pensilvânia, nos EUA, publicou um relatório sobre os abusos sexuais na Igreja na maior parte das dioceses daquele Estado. Não foi o primeiro relatório do género a ser publicado, e vários anos antes tinha sido publicado um relatório semelhante sobre a Arquidiocese de Philadelphia e a Diocese de Altoona-Johnstown, mas o relatório de 2018 foi divulgado apenas algumas semanas depois das revelações bombásticas sobre o ex-Cardeal Theodore McCarrick e o falhanço da Igreja em lidar com décadas de abusos por ele praticados.

Com detalhes de denuncias feitas por mais de 1.000 vítimas, sobre mais de 300 alegados abusadores em seis dioceses, o relatório da Pensilvânia lançou um camião cheio de combustível sobre um incêndio que já estava bem vivo. O resultado abalou a Igreja Católica nos Estados Unidos, provocando danos eclesiais e institucionais com as quais a Igreja terá de lidar, cá e a nível global, durante uma geração ou mais.

Alguns meses depois de ter saído este relatório, Peter Steinfels escreveu um artigo na revista Commonweal para colocar e responder a uma questão que a maioria das pessoas não estava sequer a contemplar. Os crimes descritos no relatório eram terríveis, os números assustadores. Mas a indignação gerada em 2018 tinha tanto a ver com encobrimento como com os crimes originais. Seria mesmo verdade, perguntou Steinfels, que enquanto “padres estavam a violar rapazes e raparigas, os homens de Deus responsáveis por eles não só não faziam nada, como escondiam tudo?”

A Igreja tinha mesmo passado décadas a investir a sua energia e esforços em esconder a verdade em vez de resolver o problema? A conclusão de Steinfels, cuidadosamente sustentada nas próprias conclusões do relatório, foi um claro “não”. Nas suas palavras:

No caso da Pensilvânia, quer se olhe para a forma como se lidaram com denúncias antigas ou para a prevenção de novos casos, a conclusão que surge de uma leitura cuidadosa e isenta do relatório é esta: A Carta de Dallas funcionou. Não funcionou na perfeição, e carece de melhorias regulares e constante atenção. Mas funcionou.

O fogo destrói, mas também pode purificar.

A crise de 2002 conduziu à Carta de Dallas, uma ferramenta imperfeita mas em larga medida eficiente que tornou as paróquias americanas muito mais seguras para crianças e permitiu responsabilizar centenas de abusadores. O novo escândalo de 2018 incentivou a Igreja – não só nos EUA, mas também em Roma – a fazer mudanças significativas na forma como lida com alegações de abusos, em particular as que dizem respeito a bispos e alto clero.

Ninguém deve supor que a conta – material e espiritual – da crise dos abusos já foi inteiramente paga. Nem de longe nem de perto. Nem devemos imaginar que o processo lento de purificação já terminou. Basta um olhar rápido pelas notícias (veja-se os recentes casos envolvendo o Pe Rupnik e D. Ximenes Belo) para se perceber que estamos ainda longe de onde gostaríamos de estar.

A forma como a Igreja lida com alegações de abusos sexuais clericais já progrediu muito, ainda que, duas décadas depois da Carta de Dallas, haja trabalho por fazer. Mas como podemos medir esse progresso? A Igreja está a progredir na protecção de menores em relação a quê? Melhorou muito na promoção da transparência em comparação com o quê?

Consideremos o seguinte.

No início deste ano o Gabinete do Inspector-Geral da Secretaria de Educação de Chicago publicou o seu próprio relatório, abrangendo o período entre 1 de Julho de 2021 e 30 de Junho de 2022. O relatório revela que houve mais de 600 denúncias de abusos praticados por adultos contra estudantes nas Escolas Públicas de Chicago só em 2021-2022. Destas, mais de metade foram consideradas fundamentadas e em 16 casos foram deduzidas acusações criminais.

Chicago é a terceira maior administração escolar dos Estados Unidos e é a única que tem uma unidade inteira de investigação dedicada a lidar com alegações de abusos sexuais nas escolas, uma iniciativa que começou em 2018. (Se é encorajador ou totalmente deprimente que exista sequer uma Unidade de Alegações Sexuais para escolas é uma questão de perspectiva.)

A comparação entre as dioceses católicas da Pensilvânia e as Escolas Públicas de Chicago não é propriamente uma questão de alhos e bugalhos, mas pode ajudar a compreender alguns dos avanços feitos pela Igreja neste país.

Ao longo do mesmo ano tratado pelo relatório da Inspecção-Geral de Chicago (2021) a Igreja Católica em todo o país recebeu 30 denúncias actuais de abusos envolvendo crianças, seis das quais foram consideradas credíveis. Das 3,103 denúncias históricas recebidas por dioceses católicas em 2021, apenas 38 diziam respeito a ofensas alegadamente cometidas depois do ano 2000. Nas escolas públicas de Chicago, repito, houve mais de 600 denúncias, das quais metade foram consideradas fundamentadas. Num só distrito escolar. Num só ano.

Para avaliar o progresso da Igreja em lidar com a crise de abusos é necessário fazer comparações razoáveis com outras instituições que também têm de lidar com a mesma praga de abusos. E isso significa ter expectativas razoáveis sobre a forma como medimos o progresso e o sucesso.

Se quer encontrar listas de professores ou pessoal educativo credivelmente acusados de abusos sexuais, procurará em vão. Não existem políticas de tolerância zero que permitam afastar funcionários escolares por denúncias que nunca são provados em tribunal. Também ninguém defende o casamento dos professores para travar a onda de abusos nas escolas, e o relatório da inspecção-geral de Chicago nunca refere a palavra “clericalismo”.

É claro que a Igreja tem outras responsabilidades morais, precisamente por ser aquilo que alega ser. A conduta dos padres e bispos católicos deve ser medido segundo a bitola do Evangelho, e não dos padrões impostos pela lei civil.

A Igreja não merece nenhum prémio por ser melhor a prevenir e a relatar o abuso sexual de crianças do que o sistema de escolas públicas. Mas deve ser vista – e ver-se – como um modelo para todos os que querem combater a epidemia de abusos sexuais, que afecta toda a sociedade.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2023)

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Friday, 20 January 2023

Igreja "portuguesa" destruída na Birmânia e os telhados de vidro dos pecadores

Uma das coisas que mais amo sobre Portugal é o legado humano que os portugueses deixaram em várias partes do mundo. Nos mais recônditos lugares da Ásia, por exemplo, existem comunidades centenárias que se sentem e dizem portuguesas. É o caso dos Bayingyi, na Birmânia, que recentemente viram os soldados da ditadura militar destruir-lhes uma igreja centenária. Porque é que o Governo português não se manifesta contra estes abusos? Também não sei…

Recordo que o episódio do Hospital de Campanha da semana passada foi sobre o Papa Bento XVI. A conversa com o editor Henrique Mota, que conheceu pessoalmente o Papa alemão, foi daquelas que fluiu tão bem, e foi tão interessante, que praticamente nem foi preciso editar no final. Se já ouviram, espero que tenham gostado, se não, ouçam!

As pessoas envelhecem e morrem, é a lei da natureza, e o clero não é excepção. Mas não é todas as semanas que assistimos à morte de dois religiosos centenários. É o caso do Pe. João de Brito, de Lisboa, que morreu aos 100 anos depois de uma vida de notáveis contribuições para a Igreja em Portugal e da irmã André, de França, que aos 118 anos era a mulher mais velha do mundo.

Que tipo de enterro tiveram estas duas figuras? Não faço ideia. Mas suponho que tenha sido um enterro tradicional cristão. Sou capaz de garantir que não optaram pela “compostagem humana”, uma nova moda que ganha terreno entre pessoas que se acham muito sofisticadas, mas que não percebem o horror de tratar o corpo humano como lixo. David G. Bonagura explica porquê no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A guerra na Ucrânia fez mais vítimas inocentes quando a Rússia lançou mísseis contra um bloco de apartamentos. O líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia pede ao mundo que não deixe passar em branco o “massacre de Dnipro”.

Lembram-se do documento que Roma emitiu há vários anos a explicar porque é que homens homossexuais não deviam ser admitidos ao sacerdócio? Um dos principais autores desse documento acaba de ser suspenso do sacerdócio precisamente por ter abusado de jovens rapazes. Isto levanta, naturalmente, várias perguntas. Neste texto eu faço as perguntas e… não dou qualquer resposta. Mas convido-vos a meditar nelas como eu farei.

Thursday, 19 January 2023

O caso Tony Anatrella. Perguntas para meditar...

Pe. Tony Anatrella

Há vários anos, em 2005, saiu um documento de Roma a explicar que pessoas com tendências homossexuais “profundamente radicadas” não devem ser aceites como candidatos para a ordenação sacerdotal. Causou alguma polémica, mas dentro da Igreja penso que muitos viram-no como uma medida necessária para acabar com uma certa subcultura gay entre o clero, sobretudo na Europa Ocidental, que estava a causar grandes problemas.

Em 2016 a instrução foi reafirmada num novo documento. Lembro-me que na altura falei com responsáveis dos seminários de Lisboa que defenderam o documento e que até já estavam, anteriormente, a rejeitar candidatos com atracções homossexuais.

Ao mesmo tempo iam-se conhecendo histórias de homens já ordenados que, sendo homossexuais, não deixavam por isso de ser bons padres, nem levavam vidas devassas, abraçando o celibato.

Julgo que, no fundo, cabia, e cabe, aos formadores nos seminários ajuizar bem entre aqueles que são capazes de controlar os seus impulsos sexuais – seja qual for a orientação – e os que se deixam controlar por eles. Mas isso é tema para outro texto.

A razão deste texto é que há alguns anos surgiram indicações de que um dos padres que contribuiu de forma mais importante para as orientações de 2005 era suspeito de ter abusado de jovens do mesmo sexo, ainda por cima utilizando para o efeito a sua prática clínica de psiquiatra.

Esta semana essas suspeitas foram confirmadas pela decisão de afastar o Pe. Tony Anatrella, que agora tem 81 anos, de qualquer ministério sacerdotal, remetendo-o para uma vida de oração e penitência. Uma revelação como estas leva-nos obviamente a questionar muita coisa e torna-se difícil defender um documento sobre um assunto desta natureza que tenha tido mão de um homem assim.

Cada vez mais, à medida que vão surgindo estes casos, teremos de nos questionar se os pecados dos homens envolvidos, ainda que sejam pecados desta gravidade (e notem que não estamos a falar apenas de homossexualidade, ou sequer de ephebofilia – a atracção por jovens rapazes pós-pubescentes – mas de aproveitamento de uma posição de confiança e de autoridade para manipular e abusar de pessoas vulneráveis) põem em causa todo o resto da sua obra de vida.

É certo que ninguém é a soma dos seus pecados, e isso inclui pedófilos e abusadores, mas haverá pecados que são tão graves que mancham por associação o resto do que fazemos? Uma boa homilia, um bom retiro que nos ajuda, uma obra social levada a cabo, deixam de ter valor porque descobrimos mais tarde que o padre envolvido afinal tinha uma vida escondida? Lembro-me bem do choque que senti quando vi as primeiras revelações sobre Jean Vanier, que sinceramente considerava um santo.

No caso do Pe. Rupnik, de que falei recentemente, as suas obras de arte – que são sem dúvida muito belas – devem ser retiradas das igrejas porque descobrimos os requintes de malvadez dos abusos que ele praticava sobre freiras que supostamente deveria estar a dirigir espiritualmente?

E agora, no caso do Pe. Anatrella, o documento sobre o acesso ao sacerdócio, que com certeza não foi obra de apenas um homem, deve ser totalmente descartado porque descobrimos que nem ele estava em linha com o que estava a recomendar?

Lembram-se do caso McCarrick? Ele foi o principal autor e promotor da Carta de Dallas, que tem revolucionado a forma como a Igreja americana lida com a questão dos abusos sexuais. No entanto, veio-se a descobrir coisas do pior sobre ele também. Devemos descartar a Carta de Dallas?

Eu não tenho as respostas para estas perguntas. Tenho algumas ideias, mas não são bandeiras pelas quais estou disposto a lutar ainda. Acho é que devemos todos – nós que levamos a Igreja a sério e a amamos – pensar a fundo sobre estas questões porque a verdade é que nenhum de nós está a salvo de descobrir que aquele que tanto nos inspirou no passado, ou mesmo agora, afinal tinha telhados de vidro.

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