quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Pedi resultados concretos, e dár-se-vos-ão

Vítima de abusos, ouvido pela Renascença
Como devem calcular, hoje – e pelo menos até domingo – o tema é quase só um: Abusos.

Começou a cimeira no Vaticano, o Papa introduziu, pedindo aos participantes para “escutar o grito dos que pedem justiça”. Francisco também deu a cada participante uma lista de 21 pontos de reflexão que, sendo apenas pontos de reflexão, não deixam de ser pontos de reflexão dados pelo Papa. Traduzi-os para português. Vale muito a pena ler!

Depois viu-se um vídeo com testemunhos gravados de vítimas de abusos, que causou um grande impacto. Aqui podem ler alguns dos testemunhos. Custa, mas leiam.

Entretanto a Renascença falou diretamente com uma vítima que se encontra em Roma nestes dias. Mais uma vez, um testemunho duro, mas que deve ser lido.

Os primeiros oradores hoje foram o arcebispo Scicluna e o cardeal Tagle, sendo que ambos falaram da importância de se respeitar a dor das vítimas e mais tarde, no briefing, o especialista Hans Zollner deixou claro que sim, este encontro vai traduzir-se em resultados concretos.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Parte do problema e parte da solução? É do melhor que há


D. Manuel Clemente partiu hoje para Roma para participar na cimeira sobre abusos sexuais. Diz que os bispos foram parte do problema, agora querem ser parte da solução.

Há quem não saiba (incluindo os autores do kit de imprensa da Santa Sé. Ver imagem) mas Portugal já tem directrizes para lidar com estes casos desde 2012 e, segundo um especialista, “são do melhor que há”. Outras diretrizes que são consideradas um modelo a seguir são as inglesas, que são até mais duras do que a lei vigente no Reino Unido, mas não impedem que continue a haver problemas.

Esta é uma boa oportunidade para recordar que no blog vou mantendo uma cronologia de casos de abusos em Portugal. Podem consultar aqui.

A cimeira termina no domingo e logo na segunda haverá uma reunião entre a comissão organizadora e todos os dicastérios aos quais este assunto interessa.

E o dia hoje começou com notícia de uma carta dos cardeais Burke e Brandmüller a tecer comentários sobre a cimeira, para a qual não foram convocados.

Mudando de assunto (sim, há outros assuntos), o artigo desta semana do The Catholic Thing em português fala de escalada, mais especificamente dos maluquinhos que fazem escalada em modo “livre solo”, isto é, sozinhos e sem cabos de segurança, para tecer algumas conclusões sobre a nossa sociedade. Leitura interessante para todos, incluindo os que, como eu, não são particularmente fãs de escalada.

O Modo de Vida Livre e a Solo

Michael Pakaluk
Os adeptos da escalada costumam trabalhar em pares. Ambos estão equipados com um cabo, que está fixo em intervalos regulares à face da rocha. O que vai à frente costuma ter um bocado de cabo livre, mas nunca de tal forma que se magoaria muito se caísse.

Uma vez que a escalada exige confiança máxima, é natural os atletas formarem das mais próximas amizades humanas. Dizem que só a irmandade sentida por soldados em batalha é que se compara. Se virmos a vida como um desafio parecido com a difícil subida de uma montanha, então os parceiros de escalada podem representar a verdadeira amizade. Não admira que tantos cristãos se sintam atraídos pela escalada, ou por histórias de escalada.

Existe uma modalidade que se chama “livre solo” em que um atleta sobe “livre”, isto é, sem a proteção dos cabos, e “solo”, isto é, sem a ajuda de um parceiro. Nestes casos a colaboração não só se torna desnecessária como seria mesmo um obstáculo. Um amador que se faz a um muro de escalada no ginásio está a fazer “livro solo”, mas em segurança, a baixa altitude e por cima de colchões.

Mas alguns escaladores verdadeiramente dotados praticam o solo livre a alturas perigosas, onde um erro é morte certa. O melhor de todos é o Alex Honnold, conhecido por ter subido em livre solo a Dawn Wall e o El Capitan, em Yosemite. O “National Geographic” fez um documentário sobre a segunda destas subidas.

O livre solo é eticamente controverso, mas antes de mais consideremos a sua atratividade. O escalador pode mover-se mais depressa, logo conserva melhor a sua força. E é uma coisa muito pura: rocha, céu e homem. Um escalada bem-sucedida é um hino à perfeição: que demonstração de mestria poderia ser mais suprema do que alguém que tem tanta confiança no seu controlo que mal considera que a sua vida está em risco?

Do ponto de vista ético, o espírito do praticante de livre solo parece altamente admirável. É a velha escolha de Aquiles: preferia morrer em busca da perfeição, do que manter-se vivo mas a fazer algo que lhe parece medíocre. Não foi Aristóteles quem disse que devíamos preferir uma “vida boa” a “simplesmente viver”? Enquanto cristãos nós admiramos as pessoas que arriscam tudo. O cardeal Newman ensinava que não estamos verdadeiramente a viver como cristãos se não estivermos a arriscar todos os dias a nossa vida inteira na premissa do Cristianismo ser verdade. (Ver a sua homilia “Ventures of Faith”)

Podemos ainda olhar para as conquistas de Alex Honnold com orgulho pela nossa humanidade partilhada. Ele parece colocar a raça humana no cume da natureza. Nem uma cabra-montês conseguiria subir a Dawn Wall em Yosemite. (Um insecto conseguiria, mas jamais o faria.) Chegado ao topo da subida Honnold poderia afirmar, com razão “este é um salto de gigante para a humanidade…” Agora, mais do que nunca, precisamos dessas fontes de orgulho. Os ecologistas não o admitem, mas essa é a verdadeira razão por detrás da popularidade de Honnold.

E por fim, entre a raça humana, o praticante de solo livre parece provar a realidade daquilo a que Aristóteles e São Tomás chamaram a virtude sobre-humana – uma virtude de tal maneira poderosa que excede os limites normais da humanidade (tal como existe uma bestialidade no pecado). A imagem de Honnold a ultrapassar uma Saliência particularmente difícil perto do topo do El Capitan, suspenso mil metros por cima do vale, parece reveladora de uma coragem sobre-humana.

Mas a modalidade de livre solo é também vista como eticamente questionável. A escalada, dizem alguns, não é uma atividade “séria” como é o combate, mas “recreativa” como o desporto e o entretenimento. Não vale a pena arriscarmos a vida por ela, consideram. Desse ponto de vista praticar o livre solo é tão insensato como tentar acabar um jogo de golfe no meio de uma tempestade. E mesmo que os maiores feitos de livre solo mereçam esse risco, outras tentativas claramente não valem a pena e nesse sentido celebrar os feitos de homens como Honnold apenas encoraja outros a tentar o mesmo.

Se está a pensar em ver o documentário “Free Solo” do “National Geographic”, então devo avisá-lo que só os últimos 15 minutos é que mostram a famosa subida. O grosso do filme lida com a sua relação com a namorada, que vive com ele na sua carrinha. Ele trata-a como uma fã monogâmica ligeiramente irritante, enquanto que ela claramente gostaria que ele deixasse a escalada para se casarem. O “National Geographic” viu-se obrigado a transformar este documentário sobre escalada num “reality show” porque descobriu, ironicamente, que Honnold simplesmente não se conseguia concentrar totalmente com uma equipa de sete homens armados com câmaras a segui-lo escarpa acima. Por isso acabaram por ter muito poucas imagens da própria subida, todas captadas a grande distância, através de teleobjetivas.

Mas para os sábios a presença da namorada revela umas verdades profundas sobre o amor e o casamento. Por exemplo: Ele não a ama a ela mais do que à escalada (isto é, mais do que se ama a si mesmo). Ou, ele comprometer-se a casar com ela implicaria comprometer-se a deixar de escalar, mostrando que o casamento é uma instituição que nos eleva do egoísmo. Ou então, se queremos ver a coisa pelo lado positivo, o celibato é necessário para um modo de vida comparável ao de Honnold (basta pensar no sacerdócio).

Mas a sua presença revela ainda outra coisa verdadeiramente perturbadora sobre a atração pelo livre solo. Se a escalada em equipa representa a amizade, então o livre solo deve ser visto como representando um tipo de autonomia que quase toca o autismo. Honnold, que foi criado pela mãe divorciada, numa casa onde, segundo ele, não se falava em amor, tem de bloquear, deliberadamente, toda a afetividade pela sua namorada para ter sucesso. Ao ponto de lhe pedir que abandone a carrinha onde vivem nos dias antes da escalada.

Eu fico maravilhado com pessoas como o Honnold. Mas isso preocupa-me. Preocupa-me que nos maravilhamos – a nossa cultura maravilha-se – com o livre solo, em vez de o achar desprezível. E isto porque nos atrai a ideia da autonomia, mesmo que seja uma autonomia temerária, que arrisca tudo por ambições que não têm qualquer valor para além da criação da vontade.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019)

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Igrejas restauradas e montanhas fumegantes

Nestes próximos dias vamos olhando para alguns dos principais países que já foram afetados pela crise dos abusos sexuais. Começamos pelos Estados Unidos, o pais onde a montanha pariu um vulcão

Mas nem tudo são notícias dramáticas! Hoje temos três artigos sobre o melhor que se faz em termos de nova evangelização, ainda por cima feita por jovens. Temos por um lado a Missão País. Aqui pode ler a entrevista de um dos responsáveis, Manuel Azevedo Mendes, à minha colega Ângela Roque, e aqui a reportagem de outra colega, a Olímpia Mairos, sobre uma missão em Santa Marta de Penaguião.

O outro tema é o Faith’s Night Out, de que já falei aqui há dias. Pois esta grande iniciativa das Equipas de Jovens de Nossa Senhora já tem seis anos e julgando-se crescida até quer ir ao estrangeiro. Leiam que vale a pena.

E por fim, um convite para conhecerem melhor a Igreja da Misericórdia, em Évora, que reabriu ao culto depois de obras de restauro .

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Actualidade Religiosa: Omertà No More

Começa esta semana a cimeira sobre abusos sexuais, no Vaticano. Hoje foi a conferência de imprensa de apresentação, com o arcebispo Scicluna a dizer que “o silêncio já não dá”. Aqui podem ver as respostas para as vossas perguntas. Se tiverem mais perguntas que não estão no artigo, não deixem de me dizer, porque se forem relevantes pode-se acrescentar.

Durante o fim-de-semana aconteceu, como já se esperava, a redução do ex-cardeal McCarrick ao estado laical. Aqui explico como o outrora influente clérigo passou do Colégio dos Cardeais à desgraça.

O próximo dia 20 de fevereiro vai ser feriado municipal em Jurandá! Porquê? Porque é o dia dos Pastorinhos e Jurandá é a terra do menino que foi curado por sua intercessão.

O Papa deixou-se fotografar hoje com um crachá a pedir a abertura dos portos a barcos com migrantes.

D. Nuno Brás foi apresentado na Madeira, recordando que a riqueza “não é o sentido último da existência dos cristãos”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Na Guarda falta gente, na Venezuela falta liberdade

A menos de uma semana do início da cimeira sobre abusos sexuais, em Roma, soube-se hoje que o núncio apostólico em França está a ser investigado por assédio sexual.

Curioso sobre o que se passa na Venezuela? Leia a visão do padre Pablo Lima, nascido e criado no país sul-americano, mas em Portugal desde os 18 anos.

Há um novo Camerlengo no Vaticano. É o homem que anunciou as JMJ para Lisboa.

Faltam sacerdotes na Guarda, mas segundo o bispo D. Manuel Felício, também falta gente.


No sábado dia 23 de fevereiro temos nova edição do Faith’s Night Out. Eu sou fã incondicional do formato desta iniciativa das EJNS. Na próxima semana haverá entrevista com a organização, mas até lá não se deixem dormir e comprem bilhetes aqui.

Fiquem também com um convite para uma interessante conferência sobre o Amoris Laetitia, chamado “Quando nem só a morte nos separa”, que se realiza na próxima sexta-feira.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Tão Maduro que Desilude

O Papa tem sido acusado de ter mão leve em relação a Nicolas Maduro. Pois hoje foi revelada uma carta escrita por Francisco em que se manifesta “desiludido” com o líder venezuelano, a quem nem sequer trata por Presidente.

O Vaticano aliou-se à Microsoft para promover a Ética na Inteligência Artificial. Vai haver um prémio internacional e tudo!

Foi aprovado o milagre que permite canonizar o cardeal John Henry Newman. São excelentes notícias.

Há quem tenha honras de capa, e há quem tenha capa de honras. O Papa conjuga os dois factores e diz que os “Portugueses são muito fortes”.

Os bispos dizem que desde 2001 os tribunais eclesiásticos analisaram cerca de uma dezena de casos de abusos. Recordo que podem ver aqui uma cronologia rigorosa de todos os casos que tem havido em Portugal nos últimos anos.

Um artigo de leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema do aborto. Nos Estados Unidos torna-se cada vez mais claro que o direito ao aborto se estende até aos bebés que acabam por nascer vivos. Não se esqueçam que o que se passa lá, mais cedo ou mais tarde vem cá parar. Leiam e divulguem.

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