quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Médicos a escolher quem vive e quem morre é mau, menos quando é bom

Quando regressei, há uns meses, disse que ia tentar voltar a mandar estes mails com regularidade. Ao longo do último mês isso foi completamente impossível, por várias razões, e por isso peço desculpa. Agora vai assim, dia-a-dia, a ver o que se consegue fazer.

Os bispos voltaram a suspender as missas com presença de fiéis, numa altura em que a Covid atingiu dimensões nunca vistas em Portugal. A maioria das comunidades religiosas minoritárias já tinha tomado decisão igual antes.

E numa altura em que morrem centenas de pessoas por dia de coronavírus e os médicos choram, literalmente, por se encontrarem na posição de ter de decidir quem vive e quem morre, o nosso Parlamento não achou melhor ideia do que aprovar uma lei que permite aos médicos matar os seus doentes. A lei da Eutanásia segue agora para Belém, veremos o que acontece a seguir.

Biden foi empossado ontem. A cerimónia teve muita simbologia e linguagem religiosa e o Papa mandou uma mensagem. O presidente da Conferência Episcopal Americana também o fez, mas essa não caiu tão bem, causando até divisões dentro do episcopado. A relação entre Biden e os bispos promete dar que falar e foi tema do artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

O tribunal do Vaticano condenou hoje a penas pesadas dois ex-dirigentes do Banco do Vaticano, um com 81 anos e outro com 97 e ainda confiscou dezenas de milhões de euros das suas contas!

Como sabem estive a coordenar a publicação no site da Renascença de uma série de Postais de Quarentena. Hoje publicámos o 100º, mas um dos mais recentes foi um postal da clausura, escrito pelas monjas de Campo Maior, que podem ler aqui.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Biden e os Bispos

Stephen P. White
Enquanto pai eu sou responsável pela formação moral de muitas pessoas pequenas, cada uma das quais com uma forte inclinação para a tirania ou, pelo menos, para a anarquia. O cumprimento destes deveres tem-me tornado, ao longo dos anos, mais cuidadoso no que diz respeito aos meus juízos sobre como os outros devem disciplinar as suas ninhadas.

Saber disciplinar uma criança de uma forma que não só preserva a paz no lar, mas também contribui para o crescimento e a maturidade da mesma não é fácil. Às vezes uma criança responde melhor à misericórdia e ao carinho; noutras é preciso uma mão mais firme. Depende das circunstâncias. Depende do filho. Navegar entre o legalismo e a laxidão requer prudência e bastante humildade.

Como em todas as coisas, o guia mais seguro é o amor.

Tudo isto serve de prelúdio à questão de se políticos pró-aborto como Joe Biden devem ou não ser admitidos à comunhão. Russell Shaw escreveu de forma interessante sobre o assunto recentemente, não pretendo duplicar o seu esforço, mas recomendo a leitura.

Desde então também o arcebispo Chaput tomou posição contra a comunhão para Biden. A Conferência Episcopal dos Estados Unidos já juntou uma comissão para considerar o assunto. O cardeal Gregory, na qualidade de arcebispo de Washington DC, já indicou que vai manter a prática pastoral que está em curso desde os tempos em que Biden era vice-Presidente, dizendo que não lhe será negada a comunhão.

O cardeal está no seu direito de tomar uma decisão pastoral nesse sentido. Devemos partir do pressuposto de que foi tomada tanto para o bem do fiel em questão como da igreja local, uma vez que a politização de discussões sobre a receção dos sacramentos é tudo menos favorável ao sentido de unidade e de cura necessários numa arquidiocese que ainda está a sofrer com o escândalo do cardeal McCarrick e a resignação do cardeal Wuerl.

E, claro, há muitos católicos – pelos quais os nossos bispos são também responsáveis – que consideram pura hipocrisia ver a hierarquia a julgar os políticos quando os próprios bispos se mostraram tão inefectivos a lidar com a crise dos abusos sexuais. A prudência exige que compreendamos que o exercício da autoridade legal está fortemente ligado à autoridade moral e aqueles a quem esta escasseia devem ter cautela em parecer ter demasiada vontade em exercer aquela.

Pondo de lado os detalhes particulares do caso de Biden, os pastores que agem com grande solicitude por causa de um só pecador podem às vezes não dar atenção suficiente aos que foram prejudicados por esse mesmo pecador, nem à comunidade eclesial como um todo. (Há aqui um paralelo com a forma como alguns bispos reagiram à situação de padres abusadores com grande solicitude para com o pecador mas sem preocupação suficiente para com quem sofreu diretamente com os seus crimes, ou pelo bem da comunidade no seu todo).

Em nenhum lado a tendência individualista do catolicismo americano se revela mais profundamente do que na crença de que a recepção da Santa Eucaristia é um assunto privado entre mim e Deus. A recepção da Comunhão é um assunto profundamente pessoal, mas é um acto fundamentalmente eclesial, e não privado. Este facto informa todos os debates correntes sobre políticos católicos e comunhão, e explica porque é que os argumentos antecedem longamente a eleição de Joe Biden e vão certamente continuar muito depois de ele ter abandonado o cargo.


Mais, não é difícil perceber porque é que tratar actos eclesiais pela lente dos actos privados tem implicações que vão muito além da disciplina dos sacramentos.

A Igreja fala frequentemente e consistentemente sobre a ideia de pecado social e estrutural. Como escrevi em 2020, “a noção de responsabilidade coletiva – de ‘pecado social’, para usar um termo muito criticado – não deve ser estranha a ninguém que esteja familiarizado com as escrituras. Deus julga-nos como indivíduos, sim, mas também como membros de povos, atribuindo culpa e julgando agravos tanto pessoal como corporativamente”.

Mas aqui nos Estados Unidos o ensinamento da Igreja sobre o “pecado social” costuma ser (erradamente) descartado como um esquema político de esquerda. Porquê? Uma das razões é porque, durante décadas, políticos católicos têm defendido e expandido o direito ao aborto, subsidiando-o tanto internamente como no estrangeiro, com quase total impunidade. Entretanto o leigo e a leiga comuns são chamados a sentirem-se pessoalmente responsáveis por todo um leque de assuntos estruturais – das mudanças climáticas ao racismo e o alojamento de refugiados – que estão muito para além do seu controlo direto.

Fica-se claramente com a impressão de que existe um padrão de expetativa e de comportamento para os católicos comuns e outro para católicos influentes e bem relacionados: que a nossa fé deve ter consequências para a nossa política, mas que a nossa política não tem qualquer influência na nossa fé. Se os bispos querem mesmo lidar com a questão do pecado social, então porque é que continuam a tolerar – sem quaisquer consequências eclesiais – o apoio direto e claro da expansão de uma injustiça sistémica (o aborto) que custa milhões de vidas?

Se os bispos não conseguem agir como se o apoio direto de alguém a um mal tão grave tivesse consequências eclesiais diretas, então porque é que alguém há de levar a sério a suposta urgência de assuntos sobre os quais os católicos individuais têm muito, muito menos influência? O desafio pastoral em causa vai muito para além da comunhão e do aborto. Estende-se à credibilidade do testemunho público da Igreja.

Já disse muitas vezes antes que nada é mais contrário a uma ética consistente da vida do que o apoio à erradicação em escala industrial de vidas inocentes através do aborto. É precisamente por isso que os bispos afirmaram que o aborto é a sua principal preocupação política. E é precisamente por isso que os bispos formaram uma comissão para coordenar a sua resposta aos desafios colocados por terem agora um Presidente católico pró-aborto.

A linha de acção que melhor serve o bem da Igreja e das almas é matéria sobre a qual bons homens podem discordar. Não invejo aos bispos essa tarefa. Rezemos pelos nossos bispos e pela Igreja. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2020)

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Martírio “nas Mãos de Deus”

Ines A. Murzaku
Já visitei várias vezes o Vale dos Templos em Akragas – hoje Agrigento, na Sicília. É um dos locais mais arrebatadores da Magna Graecia, que remonta ao Século V antes de Cristo, a era dourada dos gregos na Sicília, antes da chegada dos cartaginenses e dos romanos.

Mas desde 1993 esse vale não tem sido o mesmo para mim. Nesse ano cobri para a Rádio Vaticano a viagem de São João Paulo II, no dia 9 de maio. Todos os presentes ficaram pasmados quando o Papa decidiu improvisar, denunciando enfaticamente a máfia siciliana durante uma homilia diante do Templo da Concórdia.

Foi um discurso histórico: João Paulo II tornou-se o primeiro Papa a pronunciar a palavra máfia. A partir desse discurso a relação ambígua entre La Cosa Nostra e a Igreja tornou-se mais clara (algo que nem sempre tinha sido no Sul de Itália): a máfia e a Igreja estavam em lados opostos. E aqueles que lutam para expor a máfia, incluindo clero e heróis leigos como o juiz Rosario Livatino, são aliados da Igreja, combatendo juntos na mesma trincheira pela justiça:

Deus disse: Não matarás! O homem não pode, nenhum homem, nenhum grupo… a máfia não pode mudar e espezinhar esta mais sagrada lei de Deus!... Este povo, o povo siciliano, ligado à vida, pessoas que amam a vida, que dão a vida, não podem viver para sempre debaixo da pressão de uma civilização contraditória, uma civilização da morte!... Em nome deste Cristo crucificado e ressuscitado, do Cristo que é vida, caminho, verdade e vida. Digo-o aos responsáveis: Convertam-se! Um dia chegará o juízo de Deus!

Poucos sabem que este apelo de São João Paulo foi feito depois de uma reunião privada com os pais do juiz assassinado Rosario Livatino, que será beatificado em breve. Mas o pontífice foi mais longe, descrevendo o juiz de 38 anos morto pela Stidda (a Estrela), um grupo criminoso do Sul de Itália, como: “um mártir da justiça e indirectamente da fé”.

Quando Livatino foi assassinado quase ninguém conhecia este jovem juiz talentoso e exemplar, que trabalhava nas periferias de Itália. O seu trabalho estava ligado à apreensão e confisco de propriedade de origem ilícita adquirida pela mafia siciliana. Fazia-o em total respeito pelos direitos dos acusados, com grande profissionalismo e com resultados concretos. E, também, por compromisso com a sua Fé Católica.

Em 2019 o Papa Francisco reflectiu sobre o que o juiz Livatino tinha escrito acerca da relação entre Fé, Direito e Caridade:

“Decidir é escolher [...]; e escolher é uma das coisas mais difíceis que o homem é chamado a fazer. [...] E é precisamente nesta escolha para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma relação com Deus. Uma relação direta, porque fazer justiça é realização de si mesmo, é oração, é dedicação a Deus. Uma relação indireta, através do amor pela pessoa julgada. [...] E esta tarefa será tanto mais leve quanto mais o magistrado sentir humildemente as suas próprias fraquezas, quanto mais ele se reapresentar à sociedade disposto e inclinado a compreender o homem que está na sua frente e a julgá-lo sem a atitude de um super-homem, mas com contrição construtiva.”

A luta da Igreja contra a Máfia continuaria durante o pontificado de Bento XVI e do Papa Francisco que, em 2014, declarou que “aqueles que na sua vida percorrem este caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados!”. Em 2020 Francisco promulgou os “decretos sobre o martírio do Servo de Deus Rosario Angelo Livatino, leigo.” O caminho está por isso aberto para a beatificação do Juiz Livatino, que será o primeiro caso de um juiz-mártir morto pela mafia a ser declarado beato.

Teologicamente, o martírio do Juiz Livatino é um martírio indireto de fé. É mais um exemplo daquilo a que João Paulo II chamou os “novos mártires”, outro modelo de martírio que surgiu durante o Século XX, quando muitos morreram em condições de ataque ideológico ou de violência social em larga escala, ainda que muitas vezes a relação com a fé fosse indireta.

Desde o Século IV que a Igreja reconhece dois caminhos tradicionais para a canonização: a via martyrii (o caminho do martírio) e a via virtutum (o caminho das virtudes). Em 2017, baseando-se na referência de João Paulo II a “um mártir da justiça e indirectamente da fé”, o Papa Francisco introduziu um terceiro caminho para a canonização com um Motu Proprio que especifica que “A oferta da vida é um novo caso no processo de beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre a heroicidade das virtudes.”

Existem cinco critérios para avaliar uma “oferta de vida”:

a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter caritatem de uma morte certa e a curto prazo;

b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;

c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;

d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos depois da morte;

e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.

Aquele jovem e bravo juiz siciliano ofereceu a sua vida, preenchendo abundantemente os cinco critérios: ofereceu a sua vida pela sua vocação de ser um juiz exemplar, combatendo um mal público – a máfia – sabendo que isso poderia conduzir a uma morta iminente; sendo um juiz cristão que aplicava as virtudes cristãs ao exercício do direito; demonstrando como juiz que a Fé e o Direito ou o Evangelho e o Código Civil podem coexistir se forem conduzidos pela virtude teológica da caridade; sendo um juiz que colocou a sua vida e vocação para combater a máfia Sub Tutela Dei (nas mãos de Deus), para usar a expressão que Livatino usava frequentemente no seu diário.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2020 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Catolicismo e a Plenitude da Verdade

Casey Chalk
“Se tivermos de escolher entre abdicar da religião ou da educação”, afirmou o fundamentalista cristão e populista William Jennings Bryan, “então abdicaremos da educação”. É fácil rirmo-nos hoje de tamanho absurdo, embora Bryan, por mais falhas que tivesse, estivesse a defender o Cristianismo daquilo que considerava serem ataques modernistas e antirreligiosos da escola pública americana. Embora muitos protestantes tenham vergonha, hoje, do anti-intelectualismo de Bryan eu, como católico convertido do protestantismo, detecto uma perspectiva muito problemática na sua visão absolutista que contrapõe a fé á razão.

O teólogo italiano Mauro Gagliardi argumenta no seu livro “A Verdade é Sintética: Teologia Dogmática Católica”, que o Protestantismo opera segundo um modelo de “ou-ou” que vê a verdade como um conjunto de binários simplistas. Já a teologia católica emprega um princípio de “não só, mas também” que sintetiza diferentes realidades.

Gagliardi identifica dois princípios fundacionais do Protestantismo. O primeiro é biblicismo, a crença de que a Bíblia é auto-interpretativa. Mas “quando Lutero diz que a Bíblia se interpreta a si mesma ele quer dizer, de facto, que é o leitor individual que o interpreta. O leitor das Escrituras não precisa… da Tradição, do Magistério, dos Padres nem dos Doutores da Igreja”.

Os protestantes costumam responder que isso confunde a noção de “sola scriptura” de alguns evangélicos com a noção de “sola scriptura” do Protestantismo histórico. Esta última, afirmam, aprecia a necessidade de se interpretar a Bíblia à luz da tradição eclesial.

É verdade que alguns protestantes falam favoravelmente da tradição. Porém, como os filósofos católicos Bryan Cross e Neal Judisch argumentam, acaba sempre por ser o protestante como indivíduo quem decide quais são as tradições que devem ser normativas. Os protestantes adoram citar Santo Agostinho sobre a soteriologia, por exemplo, já não tanto sobre a eclesiologia ou a mariologia. Sem outro princípio unificador para além da Bíblia, o Protestantismo é inerentemente instável e frágil. “É por isso que, desde o início, o Protestantismo se dividiu em centenas de diferentes denominações, todas obviamente convencidas de que são os intérpretes corretos da palavra de Deus”, refere Gagliardi.

O segundo princípio fundamental do Protestantismo é a justificação, nomeadamente a crença de que o cristão se salva unicamente pela Graça de Deus, através da fé – daí os credos reformados da “sola gratia” e da “sola fide”. Gagliardi refere-se a isto como uma conceção de soteriologia totalmente passiva: “mesmo em relação à fé, a pessoa não é um agente positivo; é Deus quem dá o dom e também é Ele quem está activo no dom”.

Isto é ainda mais evidente na famosa doutrina teológica luterana de “simul justus et peccator” (simultaneamente justo e pecador), que ensina que mesmo depois do momento salvífico o cristão retém quer o pecado original quer todos os seus pecados pessoais.

Gagliardi argumenta que a doutrina protestante da justificação reflete a manifestação do princípio “ou-ou” na forma como opõe a humanidade e Deus. A salvação é ou uma obra humana ou divina, e por isso “é preciso escolher”. Uma vez que no homem não existe nada de bom, o agente inteiro e exclusivo na salvação é Deus. Vemos algo de semelhante nos ensinamentos luterano e calvinista sobre a predestinação: uma vez que o homem é impotente em relação ao seu destino eterno, é só Deus quem escolhe. De facto, Calvino popularizou a noção da “dupla predestinação”: em toda a eternidade é Deus quem determina quem será salvo e quem será condenado, independentemente da escolha.

Esta dinâmica é visível também na cristologia protestante, especificamente no que diz respeito à humanidade de Cristo. Gagliardi escreve: “se Cristo é o Salvador, e se nele falamos de mérito, então é devido ao facto de que a divindade do Logos habita na sua humanidade. Pode-se dizer que mesmo para Jesus é verdade que é Deus quem faz tudo, que o ser humano não faz nada”.

Segundo este sistema, a humanidade de Cristo não é um instrumento junto com a sua divindade que colabora verdadeiramente na redenção do homem, mas um tipo de recipiente em que Deus se revela. Isto conduz a uma antropologia muito diferente daquela que encontramos no Catolicismo.


Consideremos, por exemplo, a própria ideia de um santo. Ou, em alternativa, pensemos na diferença entre uma soteriologia protestante em que a fúria divina cai sobre um Cristo que se “faz pecado” por nós e uma soteriologia católica em que o Deus-homem se oferece a si mesmo como sacrifício perfeito de expiação.

O paradigma do “ou-ou” vê-se também na doutrina protestante de “soli deo gloria”. Uma vez que só Deus é digno de glória, não só se proíbe a veneração de santos, mas também a devoção mariana. A veneração de humanos, dizem os protestantes, detrai necessariamente da adoração devida a Deus. Os iconoclastas da Reforma acreditavam que as imagens, ícones e relíquias eram blasfemos e que deviam ser destruídos para bem da pureza litúrgica e eclesial. Os huguenotes franceses, por exemplo, destruíram as relíquias de Santo Ireneu de Lyon, um dos maiores padres da Igreja.

Tendo em conta estes exemplos (e outros), Gagliardi descreve o princípio “ou-ou” como “a assunção fundamental do Protestantismo” e explica:

A Palavra de Deus ou se encontra na Escritura ou na Tradição; logo, devemos escolher, e Lutero escolhe a Escritura, apagando a Tradição. A justificação acontece ou pela fé ou pelas obras humanas, por isso só a fé salva. A salvação é fruto ou da graça divina ou do mérito humano, por isso só a graça salva. Só se deve honrar a Cristo ou a Maria e aos santos, por isso, obviamente, escolhe-se Cristo. Por fim, a glória é devida a Deus ou a um ser humano.

O resultado desta oposição dialética é uma visão profundamente pessimista do homem, bem como a priorização do subjectivo sobre o objectivo.

Os católicos têm sido tentados frequentemente pelo mesmo pensamento dualista, quer isso se manifeste na importação de pensamento protestante, na nossa teologia ou na apresentação do pensamento e da prática católica como sendo uma coisa e não outra, ainda que não exista nenhum pronunciamento do magistério sobre o assunto. Porém, como argumenta Gagliardi, o Catolicismo é inerentemente sintético: a revelação é não só Escritura, mas também Tradição; a salvação requer não só acção divina, mas também humana; Deus é digno de adoração, mas os santos são dignos de veneração.  

O princípio de “não só, mas também” é o que mantém o Catolicismo católico, isto é, fiel à plenitude da Verdade.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 5 de janeiro, de 2021)

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

São José: O Pai de Quem Precisamos

Pe. Paul Scalia
A maior parte de nós conhece a cena do Evangelho do domingo passado (Lc. 2, 22-40) como o quarto mistério gozoso: a apresentação do menino Jesus no Templo. Mas é também uma das sete dores e alegrias de São José. O seu coração enche-se de dor perante a profecia de Simeão de que o pequeno Cristo “está destinado a causar a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição”. Mas ao mesmo tempo, José regozija ao ouvir o seu filho proclamado como “Salvação” de Deus e “luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel”.

Todos devemos sentir dor e alegria ao meditar esta cena, mas José experimenta essa dor e alegria de uma forma singular: enquanto pai de Jesus. De facto, o ponto de partida e de chegada na sua experiência deste evento é a realidade da sua paternidade.

Costumamos qualificar a paternidade de São José. Embora estejamos correctos, até certo ponto, essas qualificações podem dar a impressão de que a sua paternidade era uma ficção, ou faz de conta. O termo “Pai terreno” sugere uma relação pai/filho limitada a este mundo. “Pai adoptivo” implica que Jesus só se tornou filho de José a partir de certa altura. De facto, José e Maria eram casados aos olhos da lei quando Jesus foi concebido. Por isso não houve qualquer momento durante a vida de Nosso Senhor em que Ele não fosse filho de José.

Os Evangelhos não adjectivam. A passagem do Evangelho aqui referida identifica José e Maria simplesmente como “pai e mãe” de Jesus. Mais tarde, quando o encontram no Templo, Nossa Senhora diz “Teu pai e eu estávamos aflitos” (Lc 2, 48). São João refere-se duas vezes ao Senhor simplesmente como “filho de José” (Jo. 1,45 e 6,42). A única adjectivação usada nos Evangelhos é um parêntese, quando Lucas se refere a Jesus como “o filho (como se supunha) de José” (Lc. 3,23). Uma vez que isto surge imediatamente depois do Batismo do Senhor, a intenção é claramente de distinguir entre o Pai de Cristo revelado no Jordão e o seu pai conhecido em Nazaré.

É esta paternidade que o Papa Francisco enfatiza em Patris Corde, a carta em que anuncia o Ano de São José (8 de Dezembro de 2020 até 8 de Dezembro de 2021). E com boa razão. Como muitos já têm observado, na raiz dos problemas da nossa Igreja e da nossa nação está uma crise de paternidade. No cerne dos escândalos da Igreja está a traição de pais espirituais. As convulsões no nosso país são o resultado inevitável de décadas de pais ausentes. Mary Eberstadt chamou-o “a fúria dos sem-pai”.

A paternidade de José é um remédio necessário para estes males. Mas, primeiro, temos de a compreender correctamente. Falhamos na apreciação da paternidade de José porque não compreendemos a própria noção de paternidade. Limitamos a paternidade às suas dimensões física e terrena; a geração biológica de um bebé, ou a preparação de uma criança para poder ter sucesso neste mundo. De facto, a parte mais importante da paternidade não é a concepção nem a sua preparação ou formação para o sucesso mundano, é a partilha de sabedoria, de património e de identidade.  

Precisamente por não ser o pai biológico de Jesus, José chama a nossa atenção para a dimensão mais profunda e importante da paternidade. Ele não gerou o Senhor, nem tem quaisquer bens terrenos para lhe conceder. Mas enquanto marido de Maria, José é de facto o pai legal de Jesus – uma designação com um significado muito maior em Israel naquele tempo do que na nossa cultura. Era seu dever criar o seu filho nas tradições e na fé de Israel, passar-lhe as práticas e a sabedoria do povo de Deus. Na medida em que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc. 2,52), cabia a José ensiná-lo a rezar, levá-lo à sinagoga e familiarizá-lo com as escrituras.


“Com os nossos próprios ouvidos ouvimos, ó Deus; os nossos antepassados nos contaram os feitos que realizaste no tempo deles, nos dias da antiguidade” (Salmo 44, 1). É maravilhoso contemplar José a ensinar este versículo a Nosso Senhor, introduzindo-o no património de Israel, ao que “os nossos antepassados nos contaram”. Esses antepassados tinham dotado os seus filhos de identidade, levaram-nos a saber quem eram – e quem não eram – no mundo e na história. A fidelidade desses pais significa que os Israelitas se conheciam como povo de Deus.

E é precisamente isso que os pais não têm feito na nossa cultura. Podem ter dotado os seus filhos de bens materiais e de conselhos sobre como ter sucesso neste mundo – ou pelo menos como atingir o conforto. Mas durante décadas os pais têm falhado em dar aos seus filhos a sua verdadeira identidade. Não transmitiram o património do Ocidente, da nossa nação e sobretudo do Cristianismo.

Isto deve-se em larga medida ao facto de esses pais terem, por sua vez, impiamente rejeitado a sua própria herança. A impiedade é estéril. Como o passado não significa nada para eles, agora também eles não têm nada para propor para o futuro. Pior, esta orfandade em relação ao passado deixa-nos vulneráveis no presente. Por isso, aquilo a que assistimos no “wokeismo” é uma geração órfã, desconectada do seu património de sabedoria e cultura e por isso presa fácil para qualquer nova teoria que aí venha.

Temos assistido ao mesmo fenómeno na Igreja. Padres impiedosos para quem o passado está desprovido de significado, que não transmitiram a gerações de católicos a sua herança legítima de ensinamentos e liturgia eclesial. Tanta da nossa atual maleita vem desta desconexão, deste esquecimento de quem somos – e de quem não somos – no mundo e na história.

Chegou então o momento de “ir ter com José” (Gen. 41,55). Com ele, pai de Jesus, aprendemos o verdadeiro significado da paternidade e o valor incomparável de um homem que cumpre fielmente essa missão.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de dezembro de 2020 em The Catholic Thing

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Arranjar Espaço na Estalagem

O Evangelho de Lucas é o único que narra os eventos que rodearam o nascimento de Jesus. É difícil pensar noutra passagem das escrituras que exerça uma influência tão grande sobre a imaginação, sobretudo das crianças, do que a Natividade. E como é que não havia de ser? É uma história que tem tudo aquilo com que as crianças se podem identificar: uma “viagem” de família, um bebé, anjos, pastores, animais.

É verdade que muitos dos detalhes que associamos à Natividade – vacas, camelos, burros e por aí fora – não são mencionados nos Evangelhos, mas isso só realça o que disse. Nenhum episódio na vida de Cristo, nem mesmo a Paixão, se adequa tanto à imaginação infantil.

O Natal é a mais humana das grandes festas da Igreja, a que é mais acessível para nós num nível natural. É no Natal que encontramos Deus no seu estado mais acessível e familiar: um recém-nascido.

Na sua homilia da Missa do Galo de 2012, o Papa Bento XVI resumiu-o da seguinte forma:  É como se Deus dissesse “Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar”.

Também isto explica a facilidade com que as crianças se apaixonam pela história de Natal e porque é que o seu poder permanece connosco mesmo quando ficamos mais velhos e mais ocupados. Para a maioria de nós não há festa que evoque mais as alegrias (e talvez as tristezas) da nossa juventude do que o Natal.

Quanto mais velho fico, mais reparo que a alegria do Natal traz consigo uma nota da mais doce tristeza. Que incrível que a alegria do Natal seja tão diferente da alegria pascal (sendo esta última muito mais mundana, no melhor sentido possível da palavra).

Uma das personagens da história da Natividade que mais me tem interessado à medida que vou ficando mais velho nem sequer é mencionado no Evangelho, tal como o camelo ou o burro. Estou a falar do pobre estalajadeiro.

Segundo o Evangelho de Lucas, a Sagrada Família chega à vila de Belém e descobre que não há lugar para eles na estalagem. O estalajadeiro anónimo costuma ser apresentado como uma lição para as pessoas que estão demasiado ocupadas e centradas em si mesmas para receber Cristo quando ele vem.

Naquela mesma homilia do Natal de 2012, o Papa Bento usou este ponto para reflectir sobre o nosso estado de preparo para receber Cristo:


“Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles?”

E continua:

“A grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos?”

O Papa Bento propõe uma bela meditação sobre a humildade de Deus e os perigos das preocupações mundanas. Cada um de nós deve ultrapassar o nosso próprio egoísmo para que possamos receber não só o Bebé de Belém, mas também o pobre e o indigente com quem o Senhor se identifica tão estreitamente.

Mas voltando ao tal estalajadeiro…

Penso bastante se, ao imaginá-lo como insensível e preocupado, não estaremos a ser injustos.

É fácil partir do princípio que o pobre estalajadeiro rejeitou a Sagrada Família e lhes fechou a porta na cara. Mas porque havemos de o fazer? E se a única razão pela qual Maria tinha sequer uma estalagem para o seu recém-nascido era porque o estalajadeiro lhes ofereceu o pouco que tinha em termos de abrigo? Alguém deu guarida a José e a Maria, porque é que partimos do princípio que não foi ele? Porque é que devemos presumir que o seu humilde envolvente foi o resultado de malícia ou de indiferença?

O Natal é um tempo que se presta à imaginação, por isso imaginemos:

Imagine José a bater à porta da estalagem, já tarde. O estalajadeiro vai à porta. A estalagem está cheia, por causa do recenseamento. Mas o estalajadeiro consegue ver a preocupação estampada na cara de José. Consegue ver que a jovem Maria não podia estar mais grávida. Não tem quartos. Claro que não pode acordar os seus clientes e expulsá-los a meio da noite!

Então faz o que pode.

Oferece ao casal um estábulo. É humilde, mas pelo menos é quente. E oferece-o sem custos. Traz-lhes um pouco de comida, alguma coisa para beber. Traz cobertores e água para se lavarem. Talvez a sua mulher lhe tenha lançado um daqueles olhares, como que dizendo: “Estás doido? Quem são estas pessoas?” Mas ele ajuda na mesma. Ou talvez a sua mulher seja tão generosa como ele e também ajude. Vão visitando durante a noite, sem querer incomodar, para ver se os viajantes têm tudo o que precisam.

Talvez o estalajadeiro seja um homem honesto, compassivo, que dedicou toda a vida e a carreira à hospitalidade e tendo dado o pouco que tinha para oferecer, com o amor e o cuidado possíveis, obteve a graça de poder acolher o próprio Deus, sem nunca ter percebido quem é que estava a receber na sua morada – ou pelo menos no seu estábulo.

Talvez o estalajadeiro de Belém seja uma recordação de que, quando somos generosos para com aqueles que não podem retribuir a nossa simpatia, quando damos o que temos, por mais humilde que seja, Deus pode transformar os nossos esforços em algo maravilhoso, capaz até de mudar o mundo. Talvez.

Pelo menos eu gosto de pensar que sim.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2020)

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Memória e Gratidão

Francis X. Maier
Charles Péguy terá dito, alegadamente, que o problema dos cristãos é que não acreditam naquilo em que acreditam. É uma frase engraçada. Não faço a menor ideia se o disse de facto, mas não faz mal, porque seja como for, é verdade. Até sofrermos por aquilo em que acreditamos, ou o nosso coração for tocado pelo testemunho de quem sofre, a nossa fé continua por testar, nada mais é que uma aspiração, um conjunto de boas intenções. O que me traz ao meu melhor amigo, Joe.

Pai de oito filhos e ex-fuzileiro, o Joe tem uma personalidade clássica de líder: racional, organizado, motivado pelo desempenho. Passou as últimas décadas da sua carreira como diretor executivo de duas empresas multimilionárias, alicerçado nas capacidades que aprendeu nas Forças Armadas. Durante 13 meses, entre 1967-68, o Joe liderou uma companhia de infantaria de fuzileiros na zona de Dong Há, a sul da Zona Desmilitarizada (DMZ) e encostado à fronteira do Vietname do Norte. A atividade inimiga era intensa e por isso, juntamente com as patrulhas normais, o Joe tinha responsabilidades de ajudar e interagir com a população local. Acontece que muitos destes vietnamitas eram católicos, como ele. E foi assim que conheceu o padre Paul.

O padre Paul vinha, juntamente com muitos dos seus paroquianos, do Norte. Tinham fugido para Sul quando acabou o regime colonial francês e os comunistas tomaram o poder em Hanói. O padre Paul, um homem pequeno e discreto, tinha sido pároco coadjutor até há pouco tempo e foi promovido, como acontece em zonas e guerra, quando os viet cong assassinaram o pároco enquanto ele levava os sacramentos a famílias nas zonas rurais. Enquanto o padre Paul preparava a sua motorizada para dar continuidade a esse trabalho, o Joe sugeriu que, tendo em conta os eventos recentes, essa talvez não fosse a estratégia mais avisada. O padre encolheu os ombros. As pessoas precisam dos sacramentos, disse, e partiu para o mato. Sabe-se lá porquê, mas o padre Paul não foi emboscado nesse dia, nem em qualquer outro.

A paróquia ficava dentro da zona de alcance da artilharia norte-vietnamita na DMZ. E por isso, a meio da missa das 10h, num domingo de manhã, as armas visaram a paróquia e dispararam sobre a igreja, destruindo grande parte do edifício e matando, ou ferindo, dezenas de paroquianos. O Joe partiu do princípio de que isso marcava o fim da paróquia.

Mas um ou dois dias mais tarde o padre Paul apareceu no bunker do Joe. Enquanto oficial para as relações com civis, ele tinha acesso a materiais de construção e o padre Paul pediu-lhe ajuda para reconstruir a igreja. O Joe deu-lhe a ver que uma vez que o local da igreja já tinha sido atingido de forma certeira pela artilharia inimiga, as mesmas armas podiam facilmente atingi-la outra vez, sempre que o inimigo assim quisesse. Mais uma vez, o padre encolheu os ombros. As pessoas precisam da missa, comentou. Por isso, algumas semanas mais tarde, enquanto convidado de honra, o Joe ajoelhou-se devotamente na primeira fila para uma liturgia de ação de graças. A música e os cânticos eram belíssimos e altos – tão altos, admite agora o Joe, que teriam abafado o som de artilharia caso o inimigo optasse por disparar naquele instante.

O padre Paul e o Joe tornaram-se bons amigos e ajudavam-se na medida do possível. Mas as missões de combate acabam e por isso, depois de 13 meses, o Joe voltou para casa para a sua mulher, Gail. Começaram uma família e uma nova vida. De tempos a tempos, com o passar dos anos, o Joe pensou no padre e noutros amigos que tinha conhecido no Vietname. Alguns tinham sobrevivido, outros não. Alguns regressaram com cicatrizes permanentes, outros não regressaram de todo. O que o Joe soube dos padres como o Paul foi que a maioria tinha acabado em valas comuns, mortos nas represálias depois da queda de Saigão.

O bispo Paul Nguyen Thanh Hoan

Passaram-se os anos, a vida continuou, as memórias tornaram-se mais escassas. Até que um dia, quase quatro décadas depois de ter saído do Vietname, o Joe recebeu um email de um amigo que tinha servido com ele. Pesquisando na internet, com o seu fraco vietnamita, tinha encontrado um artigo sobre o enterro de um “padre Paul” na província de Binh Thuân, do que tinha em tempos sido o Vietname do Sul. Parecia o padre que o Joe tinha conhecido, mas não era. Era o funeral de outro sacerdote, celebrado pelo agora bispo Paul Nguyen Thanh Hoan, pastor da diocese de Phan Thiêt.

O padre Paul, o jovem e discreto sacerdote que amava o seu povo, que se recusava a ser intimidado, que não se preocupava com a sua própria vida e que conseguia extrair sangue de uma pedra, tinha conseguido sobreviver à guerra e ao pós-guerra e tinha retomado o seu ministério. Nos anos que se tinham passado entretanto fundou uma comunidade de religiosas, um orfanato, uma leprosaria e um santuário mariano popular – tudo apesar da constante opressão e interferência do regime. O Joe entrou de novo em contacto com o “padre Paul” e visitou-o no Vietname e até à morte do bispo, em 2014, ele e a Gail apoiaram-no com dinheiro e contactos para o ajudar com a sua obra.

E tudo isto é uma história bonita, mas não é por isso que a conto. O ponto é este: O padre Paul acreditava naquilo em que acreditava. Provou-o com a sua vivência. E ao vivê-lo, tocou o coração dos outros.

O meu amigo Joe tem setentas e muitos agora e é um homem de carácter, de profunda fé e agora também de uma emoção intensa e inesperada, que é difícil de descrever. A idade leva-nos a recordar. Alguns homens são assombrados pelas suas memórias. Outros são conduzidos por elas por um rio de gratidão que se torna maior e mais profundo todos os dias, na medida em que se recordam do amor, da coragem e da fé que receberam de outros. Essa gratidão é o último dom da vida, uma antevisão da eternidade. Numa altura não muito diferente da nossa Dietrich Bonhoeffer terá dito que a gratidão é a o começo da alegria. Também é uma frase bonita. Se o disse, de facto, não sei. Mas não interessa. Não deixa de ser verdade.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2020)

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