terça-feira, 18 de setembro de 2018

Conversas metropolitanas

Hoje entrevistei o Metropolita Hilário, número dois da Igreja Ortodoxa da Rússia. Da longa conversa surgiram três textos. No primeiro ele fala sobre a importância de se preservar o Cristianismo na Europa, avisando que a Europa ocidental deve aprender com os erros cometidos na Rússia.

Num segundo texto ele fala sobre a necessidade de católicos e ortodoxos aprofundarem o diálogo, nomeadamente sobre questões como casamento e ruptura familiar. Mas ao mesmo tempo critica a Igreja Greco-Católica da Ucrânia, um espinho cravado na Igreja Russa há já muitos anos.

E por fim um texto muito mais virado para dentro, com o metropolita a criticar duramente o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, pondo a nu o conflito aberto que existe no seio da Igreja Ortodoxa.

O metropolita profere amanhã uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa, às 18h30, caso queiram ouvi-lo falar da relação entre a sua Igreja e os cristãos do Médio Oriente.


E aqui podem ler sobre como a Igreja de Angola está a atravessar um momento de grande entusiasmo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Monges mártires beatificados e bispos europeus com o Papa

Rogai por nós
Os bispos da Europa estão “completamente com o Papa”, diz D. Manuel Clemente, referindo-se à questão do combate aos abusos sexuais.

Ainda sobre o assunto dos abusos, publiquei na Renascença um artigo de opinião que me parece importante. O choque, horror e revolta são legítimos, mas há um dado importante a ter em conta: as directrizes nos EUA têm estado a funcionar. Isso não é um facto acessório!

O presidente da Conferência Episcopal da Hungria critica o processo que a União Europeia está a mover contra o seu país.

E uma excelente notícia, sobretudo nestes tempos de confusão e incerteza. Os monges de Tibhirine – sobre os quais foi feito o filme “Dos Deuses e dos Homens” – vão ser beatificados ainda este ano!

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Os sofrimentos da Igreja e novo vice-reitor da UCP

Novo vice-reitor da Universidade Católica
No contexto da crise de abusos sexuais na Igreja, o Papa recebeu hoje os principais líderes da Conferência Episcopal americana, embora não se saiba ainda que medidas saíram, ou sairão, da reunião. Mas rolou mais uma mitra, com um bispo acusado de abusos há vários anos a resignar e o Papa a autorizar uma investigação sobre as alegações.

Como se não bastasse tudo isto, o coro da Capela Sistina está também a ser investigado, mas desta feita por alegadas irregularidades financeiras.

Hoje, dia 13 de Setembro, D. António Marto recordou os “sofrimentos da Igreja”. Bem pode.

Com a nomeação de D. Tolentino Mendonça para Roma, ficaram vagos os cargos de vice-reitor da Universidade Católica e de director da Faculdade de Teologia da mesma universidade. O primeiro desses cargos foi hoje preenchido com a nomeação do padre José Manuel Pereira de Almeida.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Voltei de férias, posso-me ir embora outra vez?

Antes de ir de férias falei várias vezes do caso McCarrick, nos EUA. O que para muitos parecia ser apenas uma crise localizada nos EUA revelou-se, como eu já imaginava, uma crise para a Igreja Global que hoje levou o Papa a convocar todos os presidentes de Conferências Episcopais para uma cimeira sobre abusos, em Fevereiro.

Isto no mesmo dia em que o sucessor de McCarrick anunciou que vai a Roma discutir a sua resignação e um relatório na Alemanha, revelado pela imprensa, mostra que houve pelo menos 3.700 casos de abusos sexuais naquele país nas últimas sete décadas.

Neste momento os bispos americanos preparam-se para viajar para Roma para discutir estes assuntos mais directamente com o Papa também e o secretário pessoal de Bento XVI disse ontem, numa data apropriada, que os abusos são o 11 de Setembro da Igreja.

Por cá, os bispos continuam a confiar que as directrizes já aprovadas chegam para lidar com eventuais casos de abusos. Esperemos que tenham razão.

O tema dos abusos continua a merecer atenção por parte dos autores dos artigos do The Catholic Thing. Anthony Esolen dá um murro na mesa neste artigo e o padre Vaverek considera que o que está verdadeiramente em causa é uma crise de abuso de autoridade.

Temos também dois artigos do jovem Casey Chalk. No primeiro ele aconselha-nos a, no meio da tempestade, rezar mais e com mais força e, no de hoje, adverte para o perigo de, no meio dos pedidos de responsabilização, não “protestantizar” a Igreja.

Não Protestantizem a Igreja

Casey Chalk
O actual escândalo de abusos sexuais está a motivar muitos comentários sobre a estrutura do Catolicismo. Num artigo no “The Federalist”, Robert Tracinski afirma que um modelo baseado na ideia de certos homens estarem dotados de uma autoridade de origem divina “entra em conflito com a natureza humana” porque o Catolicismo exige que rejeitemos a possibilidade de “ajuizar por nós mesmos”. Outro artigo da Angela Bonavoglia argumenta que “aqueles que conduzem a obra de Cristo devem ser… mulheres, homens, homossexuais, heterossexuais, trans, jovens e velhos. Devem reflectir a visão dos reformadores de um ‘sacerdócio de todos os crentes’”.

Afirmações destas reflectem nada menos que uma exigência para que a Igreja Católica se protestantize, e têm as suas raízes na afirmação da Reforma de que todos os cristãos possuem a autoridade para determinar a verdade sobre Deus e sobre a Sua Igreja por si.

Martinho Lutero atacou a hierarquia da Igreja Católica com base no sacerdócio universal. No seu livro “Do Cativeiro Babilónico da Igreja”, explica-o da seguinte maneira:

Então, são forçados a admitir que somos todos igualmente sacerdotes, uma vez que muitos de nós somos baptizados, e por isso verdadeiramente o somos; enquanto a eles é confiado apenas o Ministério (ministerium) pelo nosso consentimento (nostro consensu)? Se eles reconhecessem isto saberiam que não têm direito a exercer sobre nós poder (ius imperii, fora daquele que lhes foi confiado) excepto na medida em que nós o tenhamos concedido.

De igual forma, Calvino viu no sacerdócio universal de todos os crentes uma forma de minar a hierarquia católica, apelidando o sacerdócio de “uma infâmia nefasta e blasfémia incomportável, tanto contra Cristo como contra o sacrifício que fez por nós através da sua morte na cruz”. Ele pôs em prática as ideias de Lutero, formulando uma eclesiologia em que os membros da Igreja elegem líderes leigos para governarem os seus pares.

A ideia do “sacerdócio universal de todos os crentes” tem, de facto, raízes bíblicas. É por isso que os Reformadores apelam a ela. São Pedro convida a Igreja a aceitar este chamamento. “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2, 5-9).

O próprio Catecismo da Igreja Católica afirma que: “Toda a comunidade dos crentes, como tal, é uma comunidade sacerdotal. Os fiéis exercem o seu sacerdócio baptismal através da participação, cada qual segundo a sua vocação própria, na missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei. É pelos sacramentos do Baptismo e da Confirmação que os fiéis são «consagrados para serem [...] um sacerdócio santo»”. (CIC 1546)

Porém, esta ideia deve ser aceite à luz do reconhecimento de que Deus, de facto, instalou líderes para o seu povo, cuja autoridade não pode simplesmente ser negada através da referência ao sacerdócio universal. Há até uma passagem do Antigo Testamento que fornece um exemplo pertinente, impressionantemente semelhante à linguagem invocada pela teologia protestante e pelos católicos anti-episcopais:

E Coré, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben. E levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembleia, homens de posição.
E congregaram-se contra Moisés e contra Arão, e disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor? (Números 16, 1-3)

Moisés, de Miguel Ângelo
Coré e a sua laia argumentam que Deus fez de todo Israel um povo santo e que por isso Moisés e Aarão não têm qualquer direito a exercer autoridade sobre eles. Trata-se de uma autêntica rebelião, não apenas contra os líderes divinamente instituídos, mas contra o próprio Senhor. Moisés diz mesmo aos rebeldes: “Assim tu e todo o teu grupo estais contra o Senhor” (Números 16, 11)

A resposta de Deus a esta traição é rápida e dramática:

E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava debaixo deles se fendeu.
E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram vivos ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação. (Números 16:31-33)

Eis o que acontece a quem procura destruir as instituições estabelecidas pelo próprio Deus, são consumidos, segundo as escrituras.

A liderança da Igreja Católica ocupa uma posição de autoridade divinamente ordenada, tal como a de Moisés. Jesus, aliás, fala mesmo dos líderes judeus como estando sentados “sob a cátedra de Moisés”, o que lhes confere a autoridade de governarem o Povo de Deus.

Os nossos bispos (e o nosso Papa), não obstante os erros, juízos errados e pecados que possam ter cometido, continuam firmemente sentados nessa cátedra. Em várias passagens do Novo Testamento lemos que os líderes da Igreja gozam de autoridade apostólica. São Paulo, por exemplo, fala do episcopado como sendo conferido pela imposição das mãos (1 Timóteo 1,6 e 4,14).

Reconhecer a mão de Deus na contínua liderança da Igreja não é, claro, um cheque em branco para os nossos líderes – eles serão julgados por Deus pelos seus pecados e nós temos todo o direito em exigir que assumam os seus erros e que sejam disciplinados quando esses erros forem particularmente gravosos. Por vezes há até bispos e cardeais que devem ser removidos – não por nós (lamento Lutero), mas por outros que tenham autoridade para tal.

Sejam quais forem as medidas tomadas contra os líderes eclesiais que nos falharam, talvez um bom conselho neste tempo de crise seja aquele dado por Jesus logo depois de se ter referido à “cátedra de Moisés”. Nosso Senhor ordena: “Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem” (Mateus 23,3).


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 9 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Abuso de Autoridade: A Crise Mais Profunda

Pe. Timothy Vaverek
São incontáveis as vozes que se erguem entre bispos, padres e leigos, pedindo uma investigação credível sobre o escândalo de abusos sexuais e encobrimentos espoletados pelo caso McCarrick, bem como a crise de moral sexual, sobretudo relacionada com actividade homossexual entre o clero. São assuntos que merecem uma análise pormenorizada, sobretudo à luz do Novo Paradigma moral promovida por altos clérigos, que abre as portas à contracepção, actividade homossexual e extraconjugal e recasamento.

As incríveis alegações do arcebispo Viganó, porém, apontam-nos para uma crise muito mais profunda do que pecados sexuais e falsa teologia: o abuso da autoridade pastoral, tanto por parte dos clérigos abusadores como dos bispos que não protegem o seu rebanho.

Dizer que o abuso por parte de clero tem a ver mais com autoridade do que com luxúria não exclui o papel desempenhado pela sexualidade, mas liga essa gratificação ao exercício de poder. Para o clero a autoridade está enraizada no seu ofício sacramental de pastores do rebanho de Jesus. Padres predadores e os bispos que não defenderam as vítimas são, por isso, culpados não só de falhar no seu ministério, mas de abuso de uma relação espiritual. São pais e irmãos, imagens de Cristo, que violaram a confiança que o povo de Deus, procurando apoio e protecção, depositou neles.

É importante saber se os abusadores e os padres agiram de forma pecaminosa, isto é, com inteira liberdade e conhecimento. Mas o mais importante é que as suas acções provocaram feridas graves nos membros do Corpo de Cristo. A justiça e a caridade exigem que esses danos sejam investigados e remediados, na medida do possível, e não apenas perdoados. Isto pode implicar a remoção do ministério por parte dos culpados.

Em muitos casos os abusos por parte de padres e as falhas episcopais não foram casos isolados, que se podem ultrapassar dizendo “todos pecamos e cometemos erros”. Estamos, antes, a falar de padrões de comportamento destrutivo que se tinham tornado segunda natureza para os abusadores ou para o bispo. Chamamos a isso vícios. São disposições profundamente enraizadas para contínuo mau comportamento que indicam um estado de corrupção ou disfunção.

Os abusadores repetentes ou não querem, ou não podem, alterar o comportamento de forma a abdicar do poder que usam para se gratificarem a si mesmos. Assim, até que as suas disposições corruptas mudem, não tomarão medidas para restaurar a justiça e a caridade. Poderão até vociferar actos de contrição e de emenda de vida, mas só o fazem para recuperar o seu estatuto.

É por isso que o papel do bispo é tão importante. Cabe-lhe a ele encontrar uma forma efectiva de providenciar um final justo e caritativo para a vítima e, neste contexto, também para o abusador. Foi aqui que demasiados bispos revelaram a sua própria corrupção ou disfunção, agravando as feridas já abertas pelo mau uso da sua autoridade episcopal.

Alguns dos bispos que falharam repetidamente afirmam que, há décadas, tratavam o abuso apenas como um pecado. Mas isso não é verdade. Se o tivessem tratado como um pecado teriam exigido que o culpado reconhecesse o seu erro e fizesse restituição à vítima (financeiramente e de outras formas), bem como penitência, e que emendasse a vida. Teriam então percebido que a repetição não é era um “lapso”, mas sinal de um hábito vicioso, compulsivo ou desejado. Tanto num caso como no outro, a preocupação pelo bem-estar dos fiéis e do padre teria impedido novas nomeações.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo
Outros bispos dizem que, mais recentemente, tratavam os abusos como se fossem uma doença. Não é provável. Os planos de tratamento tendem a exigir supervisão e cuidados continuados. Em casos de abusos repetidos, frequentemente os bispos não garantiram que esses passos fossem seguidos de forma rigorosa.

Um número bem maior de bispos falhou ao não cultivar um ambiente em que o clero ou os leigos os pudessem procurar para partilhar preocupações. É verdade que isto mudou depois de 2002, de forma que as alegações de abusos sobre menores foram recebidos. Mas salvo raras excepções, como na diocese de Tyler, não existem políticas em curso que obriguem a relatar outras violações da fé e da moral cristã por parte de clero, tal como falsos ensinamentos, relações sexuais com homens ou mulheres, abusos financeiros na paróquia ou em relação a paroquianos individuais, vício de álcool ou pornografia, etc..

Deve-se reconhecer, portanto, que os bispos diocesanos ou do Vaticano que repetidamente falharam para com as vítimas das diversas formas de abusos por parte do clero, revelaram níveis de corrupção ou disfunção que, em si, constituem abuso de poder. Estes falhanços são muito mais que meros erros. É um comportamento que se tornou segunda natureza para estes bispos e para o exercício administrativo do seu cargo.

Durante as décadas desta crise de abusos, nem os bispos nem a Santa Sé têm prestado contas de forma transparente sobre bispos corruptos ou disfuncionais. Alguns dizem que falta autoridade aos bispos neste campo, mas nada os impede de apresentar orientações a Roma. Também esta passividade representa um abuso de poder que nega ao povo de Deus a justiça e a caridade. Cria uma situação tal que torna difícil até a uma investigação do Vaticano ser considerada credível.

No escândalo McCarrick, os bispos de Newark e de Metuchen conheciam as alegações e esconderam as indemnizações que já tinham sido pagas. Mas o Cardeal Wuerl insiste que ninguém o tinha avisado – o que, a ser verdade, significa que o Vaticano também se manteve no silêncio. Se assim for, o seu encobrimento impediu que se procurassem e ajudassem outros seminaristas e padres abusados pelo agora ex-cardeal. Também permitiu que McCarrick continuasse a confraternizar com seminaristas, já depois de reformado. Por isso, e de forma indirecta, a versão do cardeal Wuerl dá a entender um abuso de poder por parte dos bispos americanos e em Roma tão preocupante como as acusações feitas por Viganò.

Os abusadores como McCarrick e a crise de moral sexual associada ao Novo Paradigma, bem como os bispos que permitiram estes e outros ultrajes contra o povo de Deus, devem ser investigados de forma credível. As alegações feitas por Wuerl e por Viganò exigem que examinemos os núncios e a cúria, mas devemos ir mais longe. Para confrontar o abuso de autoridade pastoral, devemos estabelecer formas eficientes de denunciar, investigar e corrigir violações da fé e da moral por parte de funcionários da Igreja, desde voluntários a bispos. A justiça e a caridade exigem que assim seja. E Jesus também o exige, ele que é simultaneamente a maior vítima e o último juiz de todos estes abusos.


O padre Timothy V. Vaverek, STD, é sacerdote na Diocese de Austin desde 1985 e actualmente tem a seu cargo as paróquias de Gatesville e Hamilton. Os seus estudos doutorais foram na área de Dogmática, com enfoque em Eclesiologia, Ministério Apostólico, Newman e Ecumenismo.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Rezar Mais e com Mais Força

Casey Chalk
As últimas semanas têm sido muito complicadas para apologistas católicos. O escândalo McCarrick causou muitos danos, afectando gravemente um dos cargos mais elevados da Igreja. Seguiu-se a anunciada revisão do Catecismo da Igreja Católica sobre a pena de morte e por fim abriram-se as comportas das notícias de encobrimentos, já com décadas, de abusos sexuais numa série de dioceses em todo o país. Os críticos do Catolicismo têm material para vários anos. O que é que um apologista deve fazer?

A minha sugestão? Calar-se e rezar.

Esta ideia ocorreu-me depois de uma recente conversa com um amigo – também ele apologista leigo – que lê o que escrevo em várias publicações católicas. Pediu-me a minha opinião sobre como fazer sentido das mudanças em relação à pena de morte – bem como em relação ao pontificado do Papa Francisco em geral.

Senti-me muito humilde, e um pouco preocupado, com o facto de alguém querer saber a minha opinião sobre assuntos tão complexos. Mas o meu amigo, apesar de ter pouca formação formal, percebe bastante de teologia, das Escrituras e da apologética católica. Ainda assim estava a ter dificuldades, sobretudo em relação ao Papa. Pensando em práticas católicas comuns que incluem rezar pelas intenções do Santo Padre, perguntei-lhe com que frequência reza o terço. Respondeu que o faz cerca de uma vez por semana.

Eis a raiz do problema. Não quero apontar o dedo especificamente ao meu amigo, pelo menos ele foi honesto. Devo reconhecer publicamente que, apesar de escrever publicamente sobre vários assuntos católicos, sei que não rezo o suficiente. Às vezes, embora não neste preciso momento, sinto uma forte vontade de deixar de lado os meus trabalhos académicos ou a minha escrita e simplesmente rezar. Para minha vergonha, reconheço que quase sempre ignoro essa voz suave.

Mas aqueles de nós que procuram defender a fé católica negligenciam a oração à nossa conta e risco. Os apologistas adoram citar 1 Pedro 3,15, o nosso lema: “Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” Aliás, esse versículo é usado para justificar toda uma indústria, tanto no Catolicismo como no Cristianismo em geral.

Mas se lermos as escrituras por inteiro, esta passagem é uma raridade. Outros versículos e histórias – como passagens sobre São Paulo, nos Actos dos Apóstolos – também apontam para a importância da apologética. Mas estes estão em minoria quando comparadas com a insistência da Bíblia em relação à oração.

Nas Escrituras encontramos cerca de 650 orações e aproximadamente 450 respostas a orações. Jesus reza cerca de 25 vezes diferentes durante o seu ministério terreno. Paulo refere-se à oração, incluindo relatórios de oração, pedidos de oração e exortações à oração, 41 vezes. A primeira vez que se menciona a oração na Bíblia em Génesis 4,26 – muito tempo antes de qualquer referência à apologética!

Os católicos expendem muita energia mental e emocional em debates sobre a nossa fé. As editoras católicas e os ministérios de leigos dedicam enormes recursos a livros, programas de rádio, panfletos e sites apologéticos. Claro que falo só com base na minha experiência, mas posso dizer com alguma segurança que devem existir dezenas de sites com as mesmas respostas às objecções mais comuns à fé católica. Claro que a redundância pode ser útil – quanto mais divulgarmos isto pela internet, mais provável é que alguém o leia. Mas devemos ser tão diligentes, se não mais ainda, em espalhar as nossas orações pelo mundo, bem como pela internet.

Se estamos dispostos a entrar em discussões públicas, ou defesa, sobre a nossa fé, então no mínimo devemos estar a incorporar a leitura do Evangelho, o terço e oração livre na nossa rotina diária. A missa diária, para quem isso é possível, é também um arma potente no nosso arsenal de apologética. Nestes tempos de confusão na Igreja, precisamos cada vez mais dessas armas de combate espiritual.

Ainda para mais, em muito do nosso trabalho apologético está implícito um certo semi-pelagianismo. Embora todos os apologistas, tanto leigos como clericais, devam ser elogiados por despender tempo e energia em defesa da Igreja, por vezes questiono-me se não estará reflectido nestes esforços uma falta de vontade de simplesmente confiar as coisas a Deus.

Insistimos e pressionamos, escrevemos, debatemos, discutimos, na esperança de que, eventualmente, algo resulte que possa persuadir os nossos interlocutores de que a Igreja é aquilo que afirma ser, o depósito da totalidade da fé, onde Cristo habita na Eucaristia. Será que por vezes não estamos dispostos a deixar Deus tomar a dianteira, regressando a ele em oração, unindo-nos a Cristo, procurando a sua face e pedindo-lhe que seja Ele a edificar a sua Igreja?

Há uma história famosa sobre a Santa Madre Teresa de Calcutá. Uma freira estava com dificuldade em gerir a sua agenda complexa e ocupada. Sentia-se assoberbada e procurou orientação junto da superiora. Talvez estivesse à espera que a madre Teresa lhe ajudasse a planear melhor a agenda, ou talvez esperasse que a santa lhe concedesse férias.

Seja como for, a resposta da Madre Teresa foi aquela de que todos precisamos: disse à freira para passar mais tempo em oração. A verdade é que haverá sempre mais debates, mais ataques à Igreja, mais pessoas a precisar de ouvir argumentos fortes e convincentes para o Catolicismo. Mas fomos feitos para Deus, e se tentarmos fazer a sua obra sem a sua presença, o nosso ministério sofrerá.

Por isso, para todos os que andam com a cabeça às voltas devido às muitas crises que estão a abalar a nossa amada Igreja, vou oferecer apenas um conselho, e depois vou adoptá-lo eu: rezar mais, e com mais força.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 26 de Agosto de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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