Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

Ayatollahs, Chechenos e crianças santas

Novamente Paris?...
O Papa disse hoje que é blasfémia dizer-se que se mata em nome de Deus. Francisco também pediu orações pelos católicos na China.


Motins na Suécia a fazer lembrar os de Paris há alguns anos. As motivações não são religiosas, mas estão a decorrer num bairro que é 80% muçulmano.

E nos EUA as autoridades interrogaram e acabaram por matar a tiro um homem suspeito de ter sido cúmplice dos irmãos Tsarnaev num triplo homicídio que decorreu em 2011. O homem foi morto depois de atacar o agente do FBI. Tal como os Tsarnaev é checheno e estaria a preparar-se para voltar para o seu país.

Dois eventos interessantes nos próximos dias. Uma conferência sobre João XXIII e outra sobre a importância da família. Esta última decorre em Madrid e é particularmente dirigido aos profissionais de comunicação social, portanto divulguem pelos vossos conhecidos que possam estar interessados.

Próximos eventos...

Uma vez que vou novamente de férias nos próximos dias, e o mailing list será por isso interrompido, aproveito para divulgar alguns eventos que vão decorrer entretanto.

Já no dia 25 de Maio há uma conferência sobre o Papa João XXIII, que é organizado pelo movimento Nós Somos Igreja e que decorre no Convento de São Domingos, em Lisboa. Começa às 15h30, inclui dois painéis de debate, e acaba com missa às 18h15.

Na segunda-feira seguinte decorre em Madrid um encontro dedicado à família. Este é especialmente dedicado a jornalistas e profissionais da comunicação social e o título é: "Comunicamos bem a importância da Família?", um tema cada vez mais importante!

Podem ver mais detalhes clicando na imagem acima e os eventuais interessados em participar devem contactar a parceira portuguesa da organização, Be Family, por e-mail: info@befamily.pt

As Pequenas Almas Sofredoras: Audrey Stevenson de Paris

Austin Ruse
O argumento mais forte dos ateus é aquele sobre o sofrimento. É quase um cliché. Se Deus nos ama, porque é que permite o sofrimento? Não estamos a falar de uma dor de dentes, mas de dor incessante e dilacerante, dor de morte. Permitiu-o para o seu próprio filho.

Este tipo de sofrimento em qualquer pessoa é um mistério, mas muito mais quando se trata de crianças. Suspeito que isto seja algo que já tenha afastado muita gente da fé. E quando a dor se abate sobre uma criança que tem uma familiaridade precoce com Deus, é menos misterioso por isso? Certamente não o é para o ateu, nem para um mórmon ou para um judeu, que não partilham a compreensão que os católicos têm do sofrimento.

Acreditamos que o sofrimento, bem entendido, nos aproxima de Deus, ajuda-nos a aliviar o sofrimento de Cristo e contribui para a salvação de outros. Mas trata-se de uma ideia monstruosa para aqueles que não a compreendem.

Vivemos numa era de grandes santos. João Paulo Magno, Josemaria Escrivá. Madre Teresa. Padre Pio. Gianna Molla. Brendan Kelly. Margaret Leo. Audrey Stevenson.

Não conhece estes últimos três? São os mais pequenos dos santos sofredores. Há muitos outros pelo mundo fora, crianças com um sentido apurado de Deus, mesmo em bebés, que sofreram doenças e maleitas terríveis mas que ofereceram o seu sofrimento para o benefício de outros, para Cristo, e que morreram novos.

Audrey Stevenson nasceu em 1983 numa família que era católica mas na qual nem se rezava antes das refeições. Quando tinha três anos a família visitou a casa de Santa Teresa de Lisieux e depois o convento onde a Pequena Flor viveu e morreu. Aí a Audrey exclamou: “Quero entrar para o Carmelo”.

Pouco depois a família mudou-se para um apartamento novo. Audrey desenhou um crucifixo amarelo e colocou-o na parede. Tinha colocado crucifixos idênticos em cada quarto da casa, onde permaneceram durante muito tempo.

Certo dia Liliane, a sua mãe, reparou que Audrey estava a coxear. Tinha colocado lápis dentro dos sapatos para “poder resistir”, uma compreensão bastante sofisticada da mortificação, para uma criança, e algo que ninguém lhe tinha ensinado.

Um dia foi ao parque com o avô. Atravessou avenidas, pontes e grandes cruzamentos, numa zona muito movimentada de Paris. Perdeu-se. Alarmado, o avô ligou para casa e descobriu que Audrey já lá estava. Disse que tinha sido conduzida por Jesus.

Tudo isto aconteceu com uma menina de três anos numa família que não era particularmente devota.

Em casa introduziu o conceito de dar graças antes de comer. Uma vez na casa de verão, na Bretanha, insistiu nas orações. O seu tio americano, Alexander Cummings, provocou-a: “Mas Audrey, se temos de dar graças a Deus cada vez que comemos, então devíamos dar graças a toda a hora, por tudo”. Ao que a Audrey respondeu: “Sim, isso mesmo”.

As histórias da sua devoção são infindáveis. Vivia uma fé profunda, tanto interior como exteriormente, como raramente se encontra nesta vida. A sua mãe disse: “A Audrey espanta-nos. Está para além de nós”. Conhecia o catecismo sem ter sido ensinada. O padre disse-lhes que não fizessem nada, que apenas a seguissem. E assim fizeram.

Aos cinco anos a Audrey pediu autorização à Igreja para poder comungar. Tipicamente, uma criança em França fazia a primeira comunhão aos nove ou dez anos. Questionaram-na exaustivamente, primeiro pelo seu prior, depois por outro e depois por outro ainda. Determinaram que a menina estava pronta e por isso a família viajou até Lourdes, onde  ela comungou pela primeira vez.

O que se nota da sua vida é que não só estava próxima de Cristo, como também aproximava Cristo dos outros. Primeiro da sua família, depois de um grupo cada vez maior.

Audrey com o Papa João Paulo II

A Estrada que acabou por levar a fé de Audrey aos outros, muito para além da família, foi a doença. Os seus pais tinham tido um pressentimento de que algo iria acontecer para os testar a eles e a ela. Aos seis anos contraiu pneumonia e teve de passar muito tempo sozinha enquanto a mãe e o pai cuidavam dos outros filhos. Passou o tempo em oração e a cantar. A sua mãe começou a questionar se a doença faria parte da missão de Audrey.

A doença mortal surgiu aos sete. Leucemia. Foram muitos meses de tratamento, incluindo radioterapia, quimioterapia, punções lombares e transplantes de medula. E assim começou a sua missão de ensino, uma missão que atravessou as fronteiras de França e chegou a outros países.

Entre família e amigos começou-se a rezar um terço todas as terças-feiras pelas suas melhoras. Começou por ser uma coisa pequena, mas cresceu. Aconteceram milagres nesses encontros. Meninas pequenas ensinaram os seus pais a rezar o terço. Famílias inteiras regressaram à fé. Uma pagela da Audrey começou a espalhar-se pelo país.

O seu sofrimento no hospital foi intenso. A quimioterapia deixou-a sem saliva, as pálpebras colavam-se aos olhos e todos os seus ossos doíam. Dizia repetidamente: “Estou na cruz. Estou na cruz”. Durante as dolorosas punções lombares repetia: “Pelo tio Mick, pelo pai, pelas vocações”. Durante um dos tratamentos dolorosos os médicos ouviram-na a cantar músicas a Nossa Senhora.

Depois de um transplante de medula falhado soube-se que tinha apenas três semanas de vida. Os pais levaram-na a Lourdes; levaram-na também a conhecer o Papa, com quem teve uma intensa conversa privada. Perto do final vieram pessoas de todo o país, pedindo que ela rezasse pelas suas intenções, coisa que ela fez, apesar da dor, uma após outra.

Por fim morreu. O seu pai, que é padrinho da minha filha Gianna-Marie, diz que certa vez receberam a visita de um padre mexicano. O padre disse: “Devo a minha vocação a uma menina francesa que rezava pelas vocações e morreu de leucemia.” Ao que o seu pai, Jerome, respondeu: “Está sentado no quarto dela”.

A causa da canonização de Audrey começou em Paris há poucos anos.

Audrey Stevenson, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta-feira, 17 de Maio de 2013)

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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Exorcismos e Bashar al-Assad

Tem-se falado muito de um exorcismo atribuído ao Papa Francisco no passado Domingo, em plena Praça de São Pedro.

A Sala de Imprensa da Santa Sé já veio negar que se tenha tratado de um exorcismo, dizendo que o Papa simplesmente rezou pela pessoa que lhe foi apresentada. Penso que quem vê as imagens percebe facilmente que alguma coisa se passou ali. Caso não tenha visto, aqui fica o vídeo, decida por si (é às 2 horas e 37 minutos).


Ainda assim, o meu momento favorito continua a ser às 2 horas, 35 minutos e 20 segundos.

Está em Portugal um bispo auxiliar de El Salvador que vem falar de Oscar Romero, o arcebispo assassinado pelo regime salvadorenho que pode estar a caminho da beatificação.

Guerrilheiros do Hezbollah estão a combater ao lado das forças do regime de Bashar al-Assad, na Síria. A situação preocupa muito o resto do país, que não se quer ver arrastado para um conflito cada vez mais inter-religioso.

Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Projecto Família e Patriarca de Lisboa

Claro que a notícia dos últimos dias é a confirmação da nomeação de D. Manuel Clemente para o Patriarcado de Lisboa.


Resta agora saber quem será o novo bispo do Porto. Mas há mais nomeações na calha…

Numa altura em que as famílias estão cada vez mais desestruturadas, que bom saber que há quem se dedique a mantê-las unidas apesar das dificuldades! É o caso do “Projecto Famílias”, do Movimento de Defesa da Vida, que vale a pena conhecer melhor.

No Iraque a tensão entre xiitas e sunitas está no ponto mais alto desde os últimos cinco anos. Só hoje contabilizaram-se mais de 50 mortos.

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Novo Patriarca de Lisboa

Vários órgãos de informação estão a avançar que o próximo Patriarca de Lisboa é D. Manuel Clemente, e que a decisão será anunciada oficialmente amanhã.

Esta notícia coloca-me numa posição complicada uma vez que o órgão de informação para a qual trabalho está sujeita a um embargo em relação à divulgação do próximo Patriarca, que apenas termina amanhã, às 11h00, altura em que a notícia será avançada oficialmente pelo Vaticano.

Contudo, hoje a Renascença divulgou uma notícia dando conta de que a agência Lusa está a avançar que o próximo Patriarca é D. Manuel Clemente, mas que ainda não é oficial. Sendo assim, julgo que já posso fazer o mesmo através deste e-mail para o benefício dos meus leitores.

Este serviço existe para vos fazer chegar informação variada e, sempre que possível, em primeira mão. Contudo, não violarei embargos para o fazer. A jornalista que avançou com esta notícia em primeira mão, Rosa Ramos, do jornal “i”, explica que não violou qualquer embargo porque transmitiu a informação às 18h00, recebida de fontes que não estão sujeitas a embargo, e que apenas recebeu a informação embargada às 19h.

Amanhã, portanto, às 11h00 será conhecida a notícia oficial do próximo Patriarca de Lisboa. Tudo indica, por enquanto, que D. Manuel regressa a casa. Vale a pena estarem atentos ao site da Renascença, que terá certamente muita informação, segunda-feira enviarei mail com um apanhado do mais importante.

Cumprimentos,
Filipe

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Um de Sete

Brad Miner
Eric Metaxas é autor de alguns livros religiosos para crianças e duas biografias muito bem recebidas de William Wilberforce (2007) e Dietrich Bonhoeffer (2011), e o seu mais recente livro “7 Men – and the Secretsof Their Greatness”, inclui breves perfis tanto do abolicionista inglês como do pastor evangélico alemão martirizado. Os outros cinco são George Washington, o velocista Eric Liddell, o grande jogador dos Dodgers Jackie Robinson, o falecido amigo de Metaxas, Charles W. Colson, e – mais importante para os nossos leitores – o Papa João Paulo II.

Embora escrito para um público adulto, “7 Men” pode ser lido por adolescentes, sendo aliás muito recomendado para estes. Estes perfis devem ser inspiradores, e são-no, embora me aborreça que o autor use o termo “herói” como sinónimo de “modelo” [Role Model]. Jackie Robinson foi heróico e por isso, suponho, talvez sirva de modelo para miúdos, mas o carácter é uma realidade tão complexa que duvido.

Todos os heróis de “7 Men” foram, em mais do que um sentido, fortes, e Metaxas escreve que “a ideia de Deus de tornar os homens fortes era de que usassem essa força para proteger mulheres e crianças e mais quem precisasse”. Por outras palavras, tinham cavalheirismo, (um tema que me é caro). Este pode ser definido como força “posta ao serviço de Deus”. De que outra forma é que homens conseguem fundar uma nação (Washington), acabar com a escravatura (Wilberforce), voltar as costas à fama (Liddell), sacrificar tudo (Bonhoeffer), quebrar a barreira racial (Robinson), mudar o mundo (João Paulo II), e ultrapassar a humilhação pública (Colson)?

Cada um destes homens tinha uma firmeza quase preternatural para fazer a coisa certa. No caso de Washington não se tratava só de liderar os novos Estados Unidos, mas dar um exemplo de moderação ao abandonar o cargo público e retomar a vida privada. Wilberforce poderia ter sido primeiro-ministro, mas dedicou a sua vida a libertar os africanos da escravatura. Liddell opôs-se ao rei e à nação para poder honrar o sábado, depois abandonou o atltetismo para se dedicar às missões na China. Bonhoeffer enfrentou os nazis, abandonando a segurança dos Estados Unidos para regressar à Alemanha, e por isso foi enforcado. Robinson manteve a calma quando confrontado com o racismo mais selvagem, abdicando, nas palavras de Metaxas, de algo a que poucos abdicam, o direito à retaliação. Chuck Colson subiu, caiu e pôs-se de pé outra vez: “A sua fé era tão forte que sabia que a única coisa a fazer era confiar em Deus tão completamente que pareceria loucura para o mundo... Mas a ele não interessava o que pensassem os outros – apenas Deus”.

E depois há João Paulo II: “De todos os homens neste livro, apenas um passou a ser conhecido como ‘magno’”.

A informação biográfica sobre Karol Wojtyla incluída em “7 Men” é já do conhecimento de quem tenha lido a obra de George Weigel, mas o Sr. Metaxas, que é de tradição Ortodoxa, captura de forma clara a essência da sua vida extraordinária: “Cada incidente, cada pessoa que conheceu, cada talento que lhe foi dado o ajudou ao longo do caminho que Deus lhe tinha traçado”.
 
João Paulo "Magno"
Aqui estava um homem, mais até que os restantes seis, chamado por Deus, dirigido por Deus e protegido por Deus.

Dada a necessidade de descrever a vida do Papa Wojtyla em apenas vinte páginas, não sei o que é que incluiria (ou o que deixaria de fora), mas Metaxas foca-se, sabiamente, naqueles incidentes que sustentam a premissa de que o futuro Papa não só tinha sido chamado por Deus a desempenhar o papel histórico que desempenhou, mas também que era um homem que nunca hesitou em cumpri-lo. Durante a segunda Guerra Mundial, ele e os amigos estavam a esconder-se de alemães que faziam uma busca casa-a-casa. Enquanto os outros se apertavam, assustados, “Lolek” Wojtyla prostrou-se em oração. Os soldados passaram sem entrar.

Quando o pálio papal lhe foi passado, respondeu: “É a vontade de Deus. Aceito”.

A fé do Papa era de tal maneira forte – a palavra de Deus na sua mente e no seu coração era tão clara – que católicos de todas as facções o aceitaram como seu. Apoiou a Solidariedade, e também o mercado livre. Falou da beleza do amor e do sexo, mas nunca se desviou da ortodoxia da Humanae Vitae. E a sua capacidade de reconciliar vários interesses concorrentes dentro da Igreja ganhou-lhe muitas conversões.

Daí que Jennifer Bradley, do liberal New Republic, que apesar de não ter gostado muito dele, no início, não deixou de participar numa missa papal, escrevendo depois : “Agora o meu cepticismo terá de partilhar espaço com admiração e, estranhamente, gratidão”.

Uma aceitação da Cruz sem medo, escreve Metaxas, foi o verdadeiro segredo da grandeza de João Paulo II: “Ele não procurou a grandeza nem o poder, mas ambos vieram ter com ele na medida em que focava a sua atenção e a sua energia, tal como Deus tinha ensinado, naqueles que tinham menos capacidade de retribuir.”

Regressamos ao cavalheirismo. Omnia vincit amor.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 6 de Maio 2013 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador senior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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