quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Brotéria estreia nova casa

Foto: Madalena Meneses
Lembra-se daquele caso do padre acusado de abusos em Cacilhas? Foi tudo arquivado. Uma boa lição para nos lembrarmos como é fácil pôr em causa a reputação de alguém. A tolerância zero é importante, mas tem os seus perigos.

Foi hoje inaugurada oficialmente o centro cultural “Brotéria”, no Bairro Alto, em Lisboa. Uma nova fase na vida para uma revista que já tem um longo percurso em Portugal.

Há duas semanas publiquei um artigo no The Catholic Thing sobre o regresso do antissemitismo. É uma realidade que infelizmente está a afetar também alguns setores da Igreja Católica. Por isso esta semana voltamos à carga, desta vez com Casey Chalk a explicar porque é que o antissemitismo equivale a declarar guerra a Deus.

Francisco Sarsfield Cabral também escreveu sobre o tema, citando até o artigo de há duas semanas.

Para minha grande surpresa o artigo que publiquei sobre levar crianças a funerais, em reação a um podcast que ouvi com o Eduardo Sá, tornou-se viral e tem motivado umas respostas muito emocionantes. Se ainda não leu, pode fazê-lo aqui.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Apenas Huma entre muitas

O Papa Francisco mandou uma mensagem para o Fórum Económico Mundial, que decorre em Davos, em que alerta para os perigos de não se colocar o homem no centro das políticas económicas. Vale a pena ler.

Esperança no Paquistão, onde pela primeira vez parece que um tribunal está de facto a fazer alguma coisa num caso de uma rapariga cristã raptada e forçada a converter-se ao Islão. Leiam e vejam o apelo dos seus pais. Rezem, pelo menos, pela Huma Younus.

O Papa Francisco reforçou a condenação ao antissemitismo nos 75 anos da libertação de Auschwitz. Este é um fenómeno que está de regresso e não é só entre a extrema-direita e a esquerda progressista. São cada vez mais católicos a abraçar teorias destas e não pode acontecer, como explicou Francis X. Maier no artigo de há umas semanas do The Catholic Thing.

Quem me segue há mais anos sabe que tenho opiniões fortes sobre a presença de crianças nos funerais a forma como lhes falamos da morte. Hoje ouvi um podcast que alertava para não levar as crianças aos enterros. É uma opinião que considero lamentável e por isso respondi aqui.

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Mulheres sub-secretárias e cultura inexistente

O Papa nomeou uma mulher sub-secretária de Estado do Vaticano. É a primeira vez que uma mulher, ainda por cima leiga, ocupa um cargo desta importância na Secretaria de Estado (na foto).

2019 foi um “ano de mártires”, segundo a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. A organização Open Doors estima que cerca de 260 milhões de cristãos foram vítimas de perseguição no ano passado.

Temos novo artigo do The Catholic Thing. James Matthew Wilson argumenta que não existe “cultura secular”, não no sentido de dizer que o secularismo não produz cultura, mas no sentido em que toda a manifestação cultural aponta para as natureza e destino do homem.

Também hoje publiquei um novo artigo sobre coisas a ter debaixo de olho em 2020. Desta vez olho para a Síria, onde podemos muito bem ver o final da guerra civil que se arrasta há quase nove anos.

Para estar atento em 2020 - Fim da guerra na Síria

Uma das maiores tragédias da última década tem sido a guerra civil na Síria, uma realidade que apenas é agravada pelo facto de, ao que tudo indica, a guerra ter servido para absolutamente nada, para além de enriquecer os traficantes de armas e dar à Rússia ainda mais influência na região. Este ano, acredito, a guerra pode finalmente chegar ao fim.

Quando os protestos da “Primavera Árabe” varreram o Médio Oriente em 2011 assistimos a tudo com um misto de apreensão e esperança. A queda do regime na Tunísia e no Egipto foram boas notícias, embora só o primeiro caso, onde o movimento começou, tenha comprovado ter pernas para andar. No Egipto a democracia levou à vitória da Irmandade Islâmica, uma péssima notícia, sobretudo para a grande comunidade cristã.

Mas quando começaram protestos na Síria eu, pelo menos, não reagi com esperança alguma, só com medo. A Síria era uma realidade muito instável. Um regime férreo, mas secular, onde não existia liberdade mas pelo menos as minorias religiosas estavam a salvo de perseguição e se vivia em paz e segurança. Dominado pela minoria xiita (alauita) o Governo tinha todo o interesse em manter os grupos sunitas fundamentalistas à distância. Não o regime ideal mas, tendo em conta o contexto regional, do melhorzinho que se podia arranjar.

Mal os protestos – e a resposta do Governo – se tornaram violentos temi o pior e o medo só se agravou com o entusiasmado apoio que os países ocidentais começaram a dar a uma oposição que muito previsivelmente se deixou dominar por grupos jihadistas.

Seguiram-se nove anos de terror, com o expoente máximo no Estado Islâmico, até que a Rússia entrou em cena para dar ao regime o apoio necessário para finalmente começar a recuperar o país, cidade a cidade, quilómetro a quilómetro. Os russos bem podem agradecer a Barack Obama por esse brinde que lhes deu ao ameaçar invadir 

No seu auge havia quatro grandes fações na guerra. O regime, que contava com o apoio das minorias religiosas e de muitos sunitas também, sobretudo nos grandes centros urbanos; o Estado Islâmico, uma força niilista que espalhou sofrimento e morte por todo o lado e conseguiu avanços impressionantes em pouco tempo, lançando o terror nas almas das suas vítimas; a dita oposição “moderada”, que de moderada só tem o facto de não ser tão niilista como o Estado Islâmico, porque era igualmente dada a decapitações e ao fundamentalismo islâmico e, no nordeste do país, a região autónoma constituída por curdos, árabes, cristãos siríacos/assírios e outras minorias étnicas e religiosas.

Este último grupo era particularmente interessante. Com um projeto verdadeiramente democrático, que apostava em realçar, proteger e preservar as identidades de cada grupo, promovendo a colaboração, ao contrário do que faz o Governo que tenta impor uma identidade comum. Esta região conseguiu obter o apoio do ocidente na sua luta contra o Estado Islâmico, tendo sido as suas Forças Democráticas da Síria as principais responsáveis por derrotar militarmente o grupo terrorista. Infelizmente, e depois de tudo isto, foram traídos pela decisão de Donald Trump de retirar e viram-se invadidos pela Turquia. Para evitar um genocídio fizeram um acordo com o regime e, assim, o projecto democrático parece agora uma utopia.

Entretanto o regime foi chegando a acordo com os diferentes grupos de rebeldes que, vendo-se em situações impossíveis, optavam por ser retiradas das suas zonas e enviadas para a região de Idlib, junto da fronteira com a Turquia, que sempre as protegeu e apoiou. Até que aos rebeldes já só restava mesmo a região de Idlib.

O último ano tem visto o regime sírio, sempre com o apoio da Rússia, a avançar lentamente sobre Idlib. De vez em quando são anunciados cessar-fogo, mas duram sempre pouco tempo e os militares do regime retomam a sua rotina de bombardeamento.

A situação em Idlib torna-se insustentável. O regime não tem qualquer motivação para negociar, nada a ganhar em adiar a conquista final e sabe que enquanto Moscovo permanecer com ele tem as costas quentes.

Já recomeçaram as ondas de refugiados de Idlib para a Turquia, que com o apoio que tem dado aos rebeldes só tem que se culpar a si mesma pela situação. Quando Idlib for recuperada pelo regime o país pode começar a ser reconstruído. Goste-se ou não de Assad, parece evidente que este é o melhor caminho para o futuro da Síria.

Na melhor das hipóteses, reestabelecida a paz, poderá haver algumas cedências por parte do regime, nomeadamente para os grupos étnicos e religiosos minoritários, especialmente no nordeste, mas até isso parece difícil agora que perderam os seus maiores aliados.

Milhares de mortes, cidades inteiras destruídas, relações entre comunidades envenenadas, uma geração perdida, tudo por nada. É essa a realidade da Síria. Que venha rapidamente a paz para pôr fim a esta loucura.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Não Existe Cultura Secular

James Matthew Wilson
O Simon During formulou um argumento deprimente, mas convincente, sobre a relação entre religião e cultura na revista “The Chronicle of Higher Education”, uma referência no meio académico actual. Diz ele que a secularização do Ocidente moderno não implicou o abandono da religião, mas a sua redução a uma dimensão opcional da vida humana (uma ideia retirada do importante livro “A Secular Age”, de Charles Taylor). A despromoção da religião levou à promoção da cultura. A cultura, nos tempos modernos, tornou-se um novo termo-divino que dá coerência à civilização e à sociedade – uma espécie de substituto imanente para a transcendência da fé cristã. Como defendia Matthew Arnold, a cultura salvar-nos-á da anarquia.

Mas essa substituição está agora a ser desfeita, argumenta During, por uma segunda secularização. Tal como a autoridade da Igreja sofreu uma erosão por causa de vários eventos que convergiram numa ordem política secular, agora uma série de eventos, desde o neoliberalismo até ao feminismo e à política identitária, levou à rejeição dos cânones da cultura.

Já não é necessário ter uma certa apreciação pela Paixão de São Mateus, de Bach, ou da Eneida, de Virgílio, para se ser considerado um ser humano minimamente civilizado. Pelo contrário, esse tipo de conhecimento pode ser prejudicial. Mais vale passar o tempo a estudar análise de risco ou cibersegurança, dizem-nos os tecnocratas neoliberais. Ou então crítica pós-colonial de Virgílio ou, melhor ainda, deixar esse cadáver para trás em troca pelo estilo lírico de uma representante de povos não-ocidentais, ou um defensor da “pedagogia dos oprimidos”.  

Esta versão da história proposta por During pode não seguir as leis férreas da história, mas tem a sua própria dinâmica que é difícil de contrapor, ainda que não sejamos fãs. Mas eu gostaria de olhar apenas para a ligação que ele faz entre as secularizações religiosa e cultural e levantar algumas questões sobre a própria ideia de a cultura ser um “substituto” da religião. Na minha opinião as grandes obras culturais são antes expressões fortes da verdade do Cristianismo.

Não é por acaso que autores do início do Século XX, como Henri Massis, Charles Péguy, T.S. Elliot e Christopher Dawson tendiam a alternar entre a defesa do Cristianismo e da cultura, usando o termo nebuloso “Ocidente”. Eles compreendiam, e bem, que o Cristianismo transcende todas as realidades históricas, incluindo a cultura ocidental, e sabiam também que seria difícil, se não impossível, ter uma sem o outro.

Viam-no porque é, de uma forma muito particular, verdade. Devemos aos melhores filósofos pagãos as descrições mais convincentes e bem articuladas sobre o que significa ser humano. Os seres humanos são criaturas cuja alma aspira, por natureza, ao conhecimento da verdade por si só; criaturas que não desejam apenas a verdade, mas precisam de a contemplar. Assim nos sentimos preenchidos, felizes, e as nossas vidas transformam-se da vã perseguição da glória mundana para o descanso na eterna glória de tudo o que é, do próprio Ser.

Esta foi uma conquista cultural difícil, mas mais importantemente, foi uma conquista religiosa. A revelação de Deus a Israel e o envio do seu Filho ao mundo para proclamar a Boa Nova conduziu o mundo à plenitude predestinada da sua compreensão. A contemplação da verdade preenche-nos porque a Verdade é uma pessoa que nos criou para o conhecermos e amarmos. Encontrá-lo e viver nele não é apenas uma boa nova, é a única nova que permanece sempre boa.

A era moderna descrita por During e Taylor como sendo secular nunca abandonou verdadeiramente estas visões, embora as tenha truncado e despido dos seus verdadeiros sentidos. Reconhecia que existia algo distintivo e misterioso sobre as pessoas: Somos feitos para a transcendência. A era moderna simplesmente parou de especificar de que tipo de transcendência estava a falar e, pelo caminho, ofuscou a sua própria visão.

Sim, temos almas, dizem os modernos: elevamo-nos acima das nossas existências materiais, pelo menos de tempos a tempos, num ato de autoconsciência. As obras da alta cultura são tudo o que parecem ser – desde a filosofia de Kant às pinturas de Friedrich, à opera de Wagner ou à poesia de Rilke. Recordam à alma esquecida que é capaz de subir acima das leis mecânicas da natureza, ainda que apenas por instantes.

Enfim, a cultura moderna também pôde afirmar esta elevação, este êxtase, mas só como um tipo de patologia. Temos momentos de iluminação e depois afundamo-nos novamente na carne. “Tangendo-me de ti [espírito eterno] de volta à solidão”, como escreveu Keats. Eventualmente as pessoas compreenderam o esquema. Para quê preocupar-se com uma transcendência sem sentido? Parece demasiado etérea quando comparada com a transcendência mais funcional do dinheiro, através do qual asseguramos para nós mesmos uma imortalidade em miniatura. Já a elevação cultural parece uma indulgência narcisista quando comparada com a transcendência de perseguir bens políticos que poderão permanecer para além de nós.

Uma secularização sucede necessariamente à outra. A fundação da cultura, como disse frequentemente Joseph Pieper, é o cultus – o culto. Sem um claro sentido da nossa orientação para a contemplação de Deus, todas as obras do homem que parecem verdadeiras, boas, e belas começam a parecer primeiro meras distrações e finalmente ilusões.

Em “A Pessoa e o Bem Comum” Jacques Maritain argumenta que o ser humano é uma criatura ordenada para a comunhão imediata com Deus, mas que a personalidade revela ainda uma tendência para a comunhão com outros seres. O tesouro da cultura, como ele lhe chama, é simplesmente a irradiação da verdade e da beleza produzidos pela nossa tendência natural para nos unirmos a Deus e aos outros enquanto pessoas.

Se a Verdade não fosse uma pessoa com quem nos encontramos, não haveria uma experiência primordial da qual a cultura é uma espécie de fruto, nenhuma orientação para o sagrado, nenhuma expressão de nós mesmos na ordem “secular”. Mas pelo contrário, todos os nossos encontros com a obras culturais são pistas, reflexões, ecos sobre a natureza e o destino do homem. Escutem-nos.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de janeiro de 2020)

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