quarta-feira, 10 de junho de 2020

Pelos Olhos de Uma Criança

Elizabeth A. Mitchell
Uma turba enfurecida emerge das sombras do fim da tarde na prisão municipal de Maycomb, no romance “Mataram a Cotovia”, de Harper Lee, e exige que lhes seja entregue o recluso Tom Robinson. Armado com um candeeiro, um livro e com a sua integridade, o advogado Atticus Finch defende Tom da fúria incontida da multidão. A tensão está já a descambar em violência quando uma pequena voz surge das sombras e identifica um vizinho do meio da turba.

“Olá Sr. Cunningham”, diz Scout Finch, a filha de seis anos de Atticus.

“Disse ‘Olá’, Sr. Cunningham… Eu ando na escola com o seu filho… Diga-lhe ‘olá’ da minha parte, pode ser?”

Com estas palavras Scout retira ao Sr. Cunningham o anonimato da turba e coloca-o novamente no ambiente de Maycomb, um pobre agricultor com uma história de vida, com filhos e ligações próprias. Devolvido assim ao seu estado normal pelo olhar claro de uma criança, o Sr. Cunningham devolve o cumprimento a Scout e, com isso, assinala o fim da intenção da turba. “Eu digo ao meu filho que disseste olá”, promete, e o resto da multidão vai-se afastando para a escuridão.

Na história da Igreja, sempre que o Senhor quer partilhar mensagens especiais com o seu povo, sobretudo por intermédio da sua Mãe, tem escolhido crianças como mensageiras.

Desde Jacinta, Francisco e Lúcia, de Fátima, a Bernadette Soubirous de Lourdes, Dominic Savio e Maria Goretti, de Itália e o contemporâneo Carlo Acutis, de Milão, o Senhor revela a sua sabedoria aos pequeninos. Ele próprio veio a nós como uma criança, como nos recorda o poeta inglês William Blake: “He is meek, and He is mild,/ He became a little Child.”

Há algo no olhar de uma criança que penetra através das mentiras dos adultos e das verdades confundidas. Todos nós já tivemos momentos de profunda veracidade que nos foram comunicadas com a frontalidade de uma criança. As crianças não lisonjeiam, e as crianças não adulam; as crianças existem na transparência do agora.

Podem ser tentadas, e podem errar, mas a sua culpa honesta costuma ser bastante evidente. Podem irritar-se no instante, mas quando são corrigidas tendem a revelar-se profundamente agradecidas pelo amor de que a disciplina é uma expressão essencial. Dizem-nos aquilo que pensam e amam sem vergonha.

As crianças perdoam e esquecem e são infalivelmente fiéis. Não guardam ressentimentos e começam cada dia renovados. Acreditam no bem e aguentam o mal. Têm sido heroicamente pacientes enquanto lhes pedimos para abrir caminhos novos através de uma realidade assustadora e contraditória em tempos recentes. Não mudaram e recordam-nos do que é realidade.

Às crianças também falta o escudo defensivo da realidade, que nós, adultos, usamos para nos esconder quando precisamos. Dante Alighieri fala no “Inferno” da traição da confiança das crianças como sendo particularmente grave, uma vez que ela é dada de forma tão livre. O véu da razão, ou mesmo da autodefesa, com a qual racionalizamos, protegemos e diminuímos problemas, e pessoas, e situações que nos assoberbam, é um instrumento que as crianças não são capazes de utilizar. A realidade apresenta-se-lhes com toda a força bruta.

Em tudo isto encontramos uma confiança sagrada. Robert Royal escreveu um artigo cativante o ano passado chamado “Em busca dos jovens”, em que perguntava se os jovens amáveis, responsáveis e cheios de fé estavam a receber da Igreja aquilo de que precisam, precisamente quando os líderes da Igreja estão desesperadamente a tentar “abrir-se” à juventude. A melhor resposta para essa pergunta seria “Procurar Verdadeiros Adultos”. Uma criança responde a adultos que acreditam nela, que cria limites para ela e que fornece um caminho de crescimento e maturidade.  

Um bom exemplo de um adulto que compreendia este papel formativo foi o Papa São João Paulo II, que passou uma parte significativa do seu pontificado a pedir aos jovens para darem as suas vidas por Cristo de forma destemida. No leito da morte, o Papa dos Jovens soube que na Praça de São Pedro, mesmo ali ao lado, estavam milhares de jovens a guardar vigília. Respondeu, com gratidão e convicção: “Eu procurei-vos e vocês vieram a mim. Obrigado”.

O coração da criança recebe o estímulo do ambiente com abertura. A exposição a estas influências, positivas ou não, tem um enorme impacto na alma da criança durante os seus anos de formação. Se o ambiente for de fé, e confiança e altos ideais, a criança responderá com alegria aberta e aceitação amorosa. Quando as crianças se sentem seguras ficam cheias de paz. Vêm a tornar-se os jovens, e depois os adultos, que alguém teve o cuidado de acreditar que podiam vir a ser.

Os olhos de uma criança vêem a verdade e, frequentemente, se nos dermos ao trabalho de olhar, há alguém no seu olhar que nós próprios devíamos reflectir. Eles vêem a realidade como devia ser, e recordam-nos daquilo que sabem. Vêem o Sr. Cunningham quando nós nos vendemos ao medo, vêem Nossa Senhora quando nós só vemos um riacho lamacento, e vêem mãe, pai, professor e guardião cada vez que falamos e agimos com amor.

As nossas crianças estão a observar-nos, a escutar-nos. Estão a observar-nos para ver que tipo de pessoas devem tornar-se. Estão a escutar-nos para ouvir-nos falar palavras de vida para as suas almas e para verter bênçãos e propósito nos seus corações. As palavras de um progenitor, e em particular de um pai, geram de forma profunda a vida e a identidade neles. “Este é o meu filho muito amado”, diz o Pai, identificando Cristo pela sua essência.

Sejamos dignos dos olhos dos nossos filhos e da verdade que vêem. Recordemo-nos de como Deus nos chama a sermos crianças também, para poder ir a Ele, receber o seu amor e conhecer a sua graça. Através os olhos de uma criança somos fortalecidos para nos tornarmos os homens e as mulheres nobres, fiáveis e abnegadas que somos chamados a ser pelo nosso próprio Pai que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Junho de 2020 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Conflito Total, a Toda a Hora

Francis X. Maier

Cerca de 60% dos americanos acredita na existência do Inferno. Para o benefício dos que não acreditam, temos assistido a uma réplica bem fiel nas nossas ruas desde 25 de Maio, quando um polícia assassinou George Floyd. Se o Inferno é uma imagem demasiado forte, pense antes na República de Weimar. Mas Inferno é mais próximo da verdade.

As pessoas tendem a pensar no Inferno como um lago de fogo, graças às Escrituras, ou então como nove círculos descendentes de tormenta, graças a Dante. Mas eu suspeito que o Inferno é ao mesmo tempo mais prosaico e mais aterrador. É mais próximo da resposta obtida por Fausto quando perguntou ao demónio Mefistófeles como é que conseguia sair do inferno, uma vez que tinha sido condenado. “Mas isto é o inferno”, respondeu o demónio, “eu não saí”.

Tal como o amor é a energia que alimenta o Ceu, a fúria – com todos os seus afluentes de confusão, desespero, frustração e conflito – irradia o inferno. Os condenados não podem escapar porque não podem escapar a si mesmos. O inferno tem a forma que eles próprios fizeram.

Mas o que é que isso tem a ver com os últimos dias (e noites) a que assistimos na América?

Henri de Lubac notou certa vez que, nos tempos modernos, o ódio pelos hereges diminuiu. Mas isso não se deve, disse ele, ao facto de os nossos corações se terem tornado mais caridosos. Simplesmente transferimos os nossos interesses e os nossos ódios para a política. A nossa verdadeira paixão hoje é o poder e a eliminação de tudo o que esteja entre nós e o seu exercício.

A revolta na América causada pela morte de George Floyd tem raízes profundas e legítimas. O racismo é um dos pecados primordiais da nossa nação. Os seus resíduos continuam a envenenar a nossa vida pública. Muitos dos motins a que assistimos ao longo da última semana resultam de uma explosão de fúria por causa de mais uma dose desse veneno. As frustrações acumuladas por causa da quarentena da Pandemia, receios de saúde e problemas por causa do desemprego ajudaram a alimentar o caos nas ruas. Mas os motins também provocaram uma violência sistémica e um ódio político que não víamos há décadas.

Ao longo da vida da geração “boomer” houve uma altura em que a maioria dos americanos acreditavam que eram corresponsáveis pelo Governo da nação. A maioria conhecia as ideias básicas da Fundação. É verdade que a política americana sempre teve um lado feio e toda a gente que viveu os tempos conturbados dos anos 1960 sabe que a unidade nacional não passa de uma ilusão.

Mas apesar das diferenças, a maioria dos americanos sentia que tinha alguma responsabilidade partilhada pelo curso do país. E muitos ainda acreditam. Mas à medida que os anos passam, esse acto de fé parece ter cada vez menos bases factuais. Eramos uma república. Agora, pelo menos em termos substanciais, somos um império.

Mudanças económicas e demográficas, sentenças judiciais e guerras estrangeiras ao longo dos últimos 50 anos transformaram a realidade americana. As nossas instituições públicas e estruturas legais dão ares de perdurar, mas não são imortais. Para sobreviver têm de ser alimentadas por confiança popular, um espírito de compromisso e uma sensação partilhada de propósito nacional que vá para além do “e o que é que eu ganho com isso?”

Uma cultura consumista – que é o que temos – é excelente para saciar os apetites pessoais, mas não consegue promover ou suster nada para além do eu. Essa fraqueza congénita começa por esvaziar de vida uma política de solidariedade e depois substitui-a por tribalismo e uma guerra hobbesiana de tudo contra todos. Esse ambiente de conflito total, a toda a hora, é um bom retrato do Inferno.


Seria fácil culpar a actual falta de nível da nossa política em Donald Trump, na sua tendência para o insulto desnecessário, os seus tweets beligerantes e o seu estilo pessoal agressivo. Muitos querem fazer isso mesmo e certamente ele merece alguma da responsabilidade. Mas ele é um sintoma e não a causa.

Líderes democratas como Pelosi, Schumer, Schiff e outros também fizeram mais do que a sua parte para alimentar o tom tóxico e extremista do nosso ambiente político. Sem um sentimento partilhado de obrigação para Deus ou um poder superior que nos responsabilize pelas nossas acções – algo a que hoje apenas se presta homenagem com a boca na nossa vida pública – a política não passa de um mecanismo para alcançar o poder e a guerra travada nesse sentido.

E a intensidade do espírito de conflito em D.C. desce para a população, levando a incontáveis tabuletas a dizer “O Ódio Não Tem Lugar Aqui” nos jardins, alguns dos quais são sinceros, mas outros que apenas mascaram as suas próprias sementes de amargura, fingindo virtudes.

É fácil sentirmo-nos demasiado pequenos diante da dimensão dos problemas que temos de enfrentar. A questão é, o que fazer? Posso oferecer duas ideias.

A primeira vem novamente de De Lubac. Ele escreveu que “Eu não preciso de conquistar o mundo, mesmo para Cristo: Tenho de salvar a minha alma. É disso que me devo lembrar sempre, contra a tentação de sucesso no apostolado. E assim me guardarei contra meios impuros. Não é nossa missão fazer triunfar a verdade, mas testemunhá-la.”

A segunda é da Primeira Epístola de São Pedro: “Deixem, portanto, toda a espécie de maldade, toda a mentira, fingimento, invejas e murmurações … Comportem-se como pessoas livres e não usem a liberdade como uma desculpa para fazerem o mal, mas para servirem a Deus. Respeitem toda a gente, amem os irmãos na fé, tenham temor a Deus” e, sim, até “respeitem o rei”, independentemente de quem ele seja. (1 Pedro, 2, 1-18)

Não é uma mensagem muito satisfatória. Temos vontade de justificar os bons e punir os maus, tenham eles a forma que tiverem. Mas fazemo-lo, ironicamente, através da forma que construímos e assumimos para nós mesmos. As nações mudam quando nós mudamos. E destas, a segunda é a tarefa mais difícil.


Francis X. Maier é pesquisador em Estudos Católicos na Ethics and Public Policy Center.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Junho de 2020)

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Barrigas de Aluguer: Um Problema de Dignidade

Ines A. Marzaku
Façam-me o favor de ver este vídeo perturbador. Um coro de recém-nascidos inocentes chora enquanto esperam ser entregues aos seus destinatários. Como é que podemos permanecer em silêncio perante imagens como estas? Estes são bebés sem identidade, a quem foi negada a experiência da voz, cheiro e braços abertos das suas mães, ou sequer a possibilidade de se voltarem para elas quando estiverem com fome.

Qualquer pessoa decente achará tudo isto muito preocupante. Mas a BioTexCom, uma empresa líder no campo dos tratamentos para a infertilidade e reprodução humana na Ucrânia, divulgou as imagens para garantir aos seus clientes que o produto, isto é, os bebés, está em boas mãos e chegará ao destino final logo que as fronteiras, fechadas por causa do Covid-19, sejam reabertas.

À data em que o vídeo foi lançado no YouTube havia 46 bebés à espera de serem entregues. Desde então o número de crianças aumentou para 51 – portanto a “produção” mantém-se. Os bebés nascem de barrigas de aluguer numa clínica reprodutiva atualmente localizada no Hotel Venezia, em Kiev.

Entre os serviços oferecidos pela BioTexCom aos seus clientes encontra-se um grande banco de dadores de óvulos e de barrigas de aluguer. Eis o que o centro promete:

Todos os dias examinamos até 200 candidatas que querem doar os seus óvulos, mas apenas 20% correspondem aos nossos requisitos relativos à saúde física e psicológica, idade, ter pelo menos uma criança saudável e, claro, boa aparência. A nossa base de doadoras tem uma vantagem enorme – você tem a oportunidade de escolher a dadora sozinho. Para isso, fornecemo-lo com fotografias, entrevista vídeo e fotografias em 3D através das quais pode ver a dadora de diferentes perspetivas. Temos a maior base de dadoras do mundo, o que nos permite começar o programa logo depois de assinar o contrato, sem perder tempo em busca de alguém.

Desde a queda da Cortina de Ferro, a Ucrânia tornou-se destino para pessoas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, em busca de barrigas de aluguer. Casais ou solteiros da Alemanha, França, Espanha, Itália, Israel, Reino Unido, América e outros países viajam para a Ucrânia para “encomendar” o bebé perfeito.

Estranhamente, até tem bastante lógica. As mulheres do ocidente industrializado fizeram da reprodução um “outsourcing”; têm capacidade económica para sustentar bebés, mas não desejam, ou não podem, gerá-los. Para isso viram-se para a Ucrânnia e para outros países pobres do Leste Europeu, para mulheres com úteros fortes para carregar bebés e dá-los à luz.

O vazio legal criado pela queda do Comunismo permitiu a legalização das barrigas de aluguer na Rússia e na Ucrânia, e as agências e escritórios de advogados transformaram-no num negócio lucrativo.

Segundo um estudo da  União Europeia sobre as barrigas de aluguer nos Estados membros, os pais adotivos pagam na ordem dos 30 mil euros para “encomendar” um bebé a um escritório de advogados ucraniano.

A Igreja Católica não aceita bem estes insultos à dignidade humana. O arcebispo-maior Sviatoslav Schevchuk, de Kyiv-Halych, líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia e o arcebispo Mieczyslaw Mokrzycki de Lviv, presidente da Conferência Episcopal de bispos de rito latino, pediram ao Governo ucraniano para pôr fim ao “crime duplo de aluguer de ventres”, que se tornou uma praga na Ucrânia.

É uma grave violação da dignidade humana tratar pessoas como bens que podem ser encomendados, produzidos e vendidos. O apelo dos bispos vai ao cerne da questão: o duplo crime das barrigas de aluguer viola os direitos das crianças e a dignidade das mulheres que, por vários motivos – mas sobretudo dificuldades financeiras – se vêem na obrigação de vender os seus corpos e a sua maternidade.

A gestação de substituição é uma ofensa contra as mulheres; como se pode “alugar” o corpo de outro ser humano? E como é que esse pagamento nos torna pais ou mães? A maternidade não é uma mercadoria e não deve ter um preço. A ligação entre mãe e filho é forjada na altura da conceção e ninguém tem o direito de o quebrar.

O Papa Francisco falou de forma clara (AmorisLaetitia, 54) contra a exploração de mulheres pobres e do terceiro mundo. “A história carrega os vestígios dos excessos das culturas patriarcais, onde a mulher era considerada um ser de segunda classe, mas recordemos também o ‘aluguer de ventres’ ou ‘a instrumentalização e comercialização do corpo feminino na cultura mediática contemporânea’”.

As pessoas querem “tudo” mas há limites. Deus colocou esses limites para nosso benefício. Há coisas que são extra commercium, não podem ser compradas. As crianças são dons com a sua própria dignidade, não são bens que temos o direito a comprar no mercado livre.

A Igreja Católica tem sido consistente ao ensinar que a vida humana é sagrada porque, desde o momento da concepção, envolve a acção criadora de Deus e permanece para sempre numa relação especial com o Criador, que é o seu fim último. Ninguém deve finger-se de Deus, produzindo seres humanos em centros reprodutivos, explorando mulheres fragilizadas. Em 1987, São João Paulo II aprovou a Instrução sobre o respeito àvida humana nascente e a dignidade da procriação que aborda especificamente a questão da gestação de substituição:

A maternidade substitutiva representa uma falta objetiva contra as obrigações do amor materno, da fidelidade conjugal e da maternidade responsável; ofende a dignidade e o direito do filho a ser concebido, levado no seio, posto no mundo e educado pelos próprios pais; em prejuízo da família, instaura uma divisão entre os elementos físicos, psíquicos e morais que a constituem.

A Santa Madre Teresa, que passou toda a sua vida numa missão de serviço aos mais pobres de entre os pobres, poderá oferecer uma solução para as barrigas de aluguer, como fez para o aborto: “Vou-vos contar uma coisa muito bonita. Estamos a combater o aborto com a adopção – cuidado da mãe e tratando da adopção para o seu bebé. Assim salvámos milhares de vidas.” Talvez possamos fazer o mesmo para combater a desordem da gestação de substituição redescobrindo a adopção.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 21 de Maio de 2020 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 20 de maio de 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

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quarta-feira, 13 de maio de 2020

A Beleza e a Simplicidade de Rezar o Terço em Família

Michael Pakaluk
O mês de Maio, escreveu o Papa, numa carta publicadarecentemente na Solenidade de São Marcos, é um tempo “no qual o povo de Deus manifesta de forma particularmente intensa o seu amor e devoção à Virgem Maria. Neste mês, é tradição rezar o Terço em casa, com a família (…) Por isso, pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio (…) há um segredo para bem o fazer: a simplicidade”.

Enquanto pai de oito filhos, sete dos quais ainda em casa, incluindo um que está a aprender a andar, gostaria de partilhar convosco os meus pensamentos sobre o terço em família. Falo a partir da minha própria experiência, claro. Diferentes famílias têm hábitos diferentes. Começo, assim, com umas breves reflexões sobre a beleza do terço e depois partilharei algumas regras básicas, que tenho achado úteis, para o rezar de forma simples.

A beleza do terço está na sua humildade. É humilde porque nos foi dada a papa feita. As palavras do Avé-Maria vêm sobretudo das Escrituras; o Pai-Nosso foi-nos ensinado pelo Senhor. A própria Virgem Maria, os santos e os papas recomendaram que o rezemos diariamente. É impossível rezar o terço com altivez. O intelecto humano mais exaltado e o trabalhador mais simples dos campos estão a fazer a mesma coisa quando rezam esta oração.

O terço tem a beleza da simplicidade. Deus ama a simplicidade, porque a fez simples. A simplicidade é cíclica, como os dias, as semanas e os anos. É repetitiva, como as tarefas do dia-a-dia. Um sinal claro da simplicidade é que temos de nos esforçar para garantir que as rotinas são feitas com amor. O terço tem, por isso, a beleza não de uma grande sinfonia, nem do tecto da Capela Sistina, mas do canto das árvores, do som de um riacho ou de nuvens brancas contra um céu azul até ao horizonte. A beleza do terço em si é igualada pela beleza das virtudes que recebemos quando o recitamos: para além de perseverança, lealdade, autocontrolo, diligência e consideração.

O terço tem a beleza de uma bela “obra”. É uma oração tangível. Sim, é melhor estar a desfiar as contas do que dobrar os dedos. O som da recitação do terço é como uma medida, a que correspondemos. É como um percurso de corrida que se acaba, ou que se completa. Até podemos distrair-nos quando damos a volta, mas é a vontade que se distrai, porque nós continuamos. Podemos, inclusive, estar a lutar contra a rotina quando a rezamos, mas se chegamos ao fim podemos dizer, como São Paulo, que alcançámos a meta. A vida dos cristãos tem demasiadas boas-intenções: um terço completo é uma boa obra, não é algo imaginado ou inutilmente desejado.

O terço chama a si a beleza do Senhor. Porquê? Porque de forma misteriosa, Maria é a melhor lente através da qual podemos contemplar a vida de Cristo. Ela é de forma subjectiva, por assim dizer, aquilo que Ele é de forma objectiva; é o melhor modelo de compaixão, da sua Paixão. O Papa São João Paulo II falou de contemplar Cristo na escola de Maria e o Papa Francisco fez eco desta linguagem na sua carta: “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova.”

Através da sua beleza, o terço distribui graças às famílias. Uma velha máxima da metafísica diz que “tudo o que recebe, recebe à moda do destinatário, e não à moda da coisa recebida”. É terrível pensar na nossa própria capacidade de receber a vida do Senhor – a dureza do nosso coração, a aridez, sonolência e inconsideração. Rezar o terço é pedir para receber o Senhor da forma como Maria o recebeu. Na estranha economia da salvação, em que Deus conta aquilo que é virtual como se fosse de cada um, desejar receber o Senhor como Maria o recebeu é recebê-lo como Maria o recebeu.

Estas são algumas das razões pelas quais o terço é belo. Aproveito agora para partilhar algumas regras para o rezar com simplicidade. Mais uma vez, são só algumas ideias que têm sido úteis para mim.

Hora fixa. Ajuda muito rezar o terço ao mesmo tempo, seja horário (por exemplo às 18h30) seja sequencial (logo a seguir ao jantar).

Comece. Não espere que toda a gente esteja presente para começar. Quem está presente deve apenas sentar-se e começar, à hora combinada, mesmo que seja só o pai. Os outros juntam-se depois.

Adapte as suas expetativas. O nosso mais novo passeia-se pela sala e tenta distrair as pessoas com as suas caretas, enquanto o nosso estudante do secundário, que está a aprender a rezar em latim, pode pedir para rezar uma década nessa língua. Observe o princípio aristotélico do meio relativo a nós.

Acrescente algum mistério ou intimidade. Quando está frio acendemos a lareira e apagamos as luzes; pode-se acender umas velas, ou usar uma imagem de Nossa Senhora, talvez adornada com umas flores.

Ensine algumas coisas básicas sobre o terço, sobretudo o que são os mistérios e porque os contemplamos, com as Avé-Marias a fazer de música de fundo.

Não demore. É possível prolongar o terço com todo o género de orações e meditações. Isso não tem mal nenhum, mas para correr bem, o terço rezado em família deve ser curto, cerca de 15 minutos e não mais de 20.

Em todas as coisas, seja flexível e pragmático. Mantenha a calma, porque o terço é um acto de amor; mantenha o seu sentido de humor e recorde a sábia máxima de Chesterton de que tudo o que vale a pena fazer, vale a pena fazer mal.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de maio de 2020)

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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dar Crédito a Quem Merece

Stephen P. White
Como praticamente toda a gente passei as últimas semanas quase exclusivamente em casa, fora uma ou outra saída para ir às compras. Quando o tempo permite, saio o escritório que montei na cave e vou para a rua. Tem sido um confinamento abençoado. Tenho um jardim e uma família saudável com quem o partilhar. Ainda assim, naqueles dias chuvosos em que as crianças dão connosco em doidos, fazendo a casa parecer ainda mais pequena do que é, sinto-me como um dos refugiados nas cenas iniciais de “Casablanca”, esperando… esperando… esperando.

Mas não é só à conta da pandemia que esperamos nestes dias. O lançamento do prometido relatório sobre o ex-cardeal McCarrick está “iminente” – nos vários sentidos da palavra – há pelo menos cinco semanas. Havia boatos de que estava prestes a ser lançado o mês passado, mas a pandemia parece ter posto fim a isso.

Alguns interpretaram o adiamento de forma cínica, Roma a usar a pandemia como desculpa para empatar um relatório que preferia não ter de publicar. Pelo menos é esse o argumento. Por outro lado, publicar o relatório numa altura em que todo o mundo está a entrar em estagnação social e económica, com as atenções da imprensa focadas noutro lado, poderia ser interpretado como sendo tão cínico como empatar. Seja qual for a razão de Roma – cínica, de boa fé ou outra – esperamos.

A espera paciente (ou impaciente, como parece ser o caso) tem sido parte desta crise eclesial há décadas. É interessante, como exercício espiritual, refletir sobre a tensão entre o zelo por reforma genuína, por um lado, e a paciência para com o ritmo frustrante de renovação, por outro. A Igreja sofreu danos graves às mãos daqueles que estavam impacientes com a reforma, mas também veio muito mal por causa dos fiéis que foram demasiado tímidos, complacentes ou deferenciais.

Tenho pensado muito, recentemente, sobre esta tensão entre a acção e a paciência – e as bênçãos e os perigos de ambos. Tem vindo à minha mente três grupos de pessoas e organizações em particular, cujas acções têm sido muito prejudiciais para a Igreja, quando vistas em isolamento. Mas as acções desses mesmos grupos têm sido, a longo prazo, uma força importante a impelir a Igreja na direcção certa. Estou a pensar na imprensa, nos advogados e nos grupos de defesa de vítimas de abusos.

Quem não se lembra da importância do papel desempenhado pela imprensa (sobretudo a imprensa escrita) na revelação dos abusos – e do respectivo encobrimento – nos Estados Unidos, em especial em Boston. O filme “Spotlight” venceu o Oscar para melhor filme em 2016 e mostra a tenacidade dos repórteres de investigação do “Boston Globe”, que finalmente deram voz às vítimas de abusos sexuais praticados por membros do clero.

Mas 30 anos antes, quando Jason Berry estava a escrever artigos a expor os comportamentos predatórios do Pe. Gilbert Gauthe para um jornal local em Baton Rouge, Louisiana, já não era tão evidente para o público em geral que era o jornalista que estava a dizer a verdade, quanto mais que era um herói.

Ex-cardeal McCarrick
Os media enganam-se em relação a muitas coisas da Igreja Católica. Alguns jornalistas simplesmente têm preconceitos contra ela. Alguns são influenciados por uma agenda, ou odeiam a Igreja. Outros odeiam o conceito do celibato, ou a defesa dos nascituros, ou a sua “homofobia” e “misoginia”. Todas as desculpas habituais se aplicam. Mas não há como negar que a cobertura agressiva, tenaz e por vezes (sim) até feroz ajudou a forçar a Igreja a abordar problemas profundos que frequentemente preferia ignorar ou negar.

Depois temos os advogados. Alguns já ganharam centenas de milhões de dólares a processar a Igreja Católica. E como Peter Steinfels mostrou (a meu ver convincentemente) no verão passado na revista “Commonweal”, os procuradores também estão prontos a usar a crise como uma ferramenta política ou a espicaçar o ressentimento contra a Igreja Católica. Não é óbvio que seja justo levar dioceses à bancarrota por crimes cometidos por padres mortos há anos e encobertos por bispos mortos há anos. Mas haverá dúvidas de que o medo de uma calamidade financeira ainda maior tem motivado uma geração (ou mais) de bispos que pareciam preocupar-se mais com o seu legado institucional – o património – do que sobre a salvação das almas (e dos corpos) dos fiéis?

E depois temos os grupos de defesa das vítimas – Bishop Accountability, Spirit FireSNAP – a lista é longa. Algumas destas pessoas têm sido um espinho no lado dos bispos há décadas e décadas. Alguns têm sido fonte de graça e de cura. A maioria têm sido ambos. Também aqui, como no resto da Igreja, encontramos um misto: santos e malucos, activistas e hereges, sobreviventes e zelotas e pessoas que simplesmente querem ajudar ou dar a mão. Muitos destes grupos têm sido a única fonte de solidariedade para pessoas que foram abusadas, dispensadas e descartadas.

Mas o meu ponto não passa simplesmente por mostrar que todos temos bem e mal dentro de nós. Isso seria banal na melhor das hipóteses, maniqueísta na pior. Antes, o objectivo é mostrar que se vamos levar a sério a verdade de que tudo concorre para o bem de quem ama a Deus, então temos duas coisas por garantido: devemos ser muito, muito gratos… e incrivelmente humildes.

Mesmo enquanto esperamos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Abril de 2020)

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sábado, 2 de maio de 2020

Missas só a 30 de maio? Uma confusão prejudicial e desnecessária

O Governo anunciou na quinta-feira que as celebrações religiosas comunitárias só regressam a 30 de maio e os bispos portugueses acabam de confirmar a decisão este sábado à tarde.

Pelo meio temos padres a anunciar missas em drive-in, outros a lamentar as decisões em homilias gravadas, fiéis a lançar e a assinar petições. Há muita revolta no ar, mas parece-me haver, acima de tudo, falta de certezas.

A decisão de só abrir as missas aos fiéis no final do mês pode ser inteiramente defensável. No máximo, será discutível. Não é isso que está em causa. O que interessa é saber se a decisão foi tomada em diálogo com as confissões religiosas ou é uma imposição.

É o Governo que está, fora de um estado de emergência, a proibir as missas com fiéis? Pelo que percebo de Direito (pouco, mas tento ler de quem percebe), não o pode fazer.

Mas o facto de ter sido o Governo a anunciar a decisão não significa que ela tenha sido tomada unilateralmente pelo Governo. Sabemos que António Costa tem estado em contacto com os bispos e por isso esta pode perfeitamente ter sido uma decisão alcançada em conjunto, ou sugerida pelo Governo e aceite pelos bispos, ou mesmo tomada unilateralmente pelos bispos e aceite e anunciada pelo Governo.

As afirmações do Bispo do Porto à Renascença permitem concluir que pelo menos não parece haver qualquer discordância por parte dos bispos em relação a esta decisão. Mas não nos diz mais do que isso.

Hoje a CEP emitiu um comunicado em que a questão poderia ter ficado esclarecida, mas não ficou. Lê-se: “Através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 33-C/2020, que estabelece uma estratégia de levantamento de medidas de confinamento no âmbito do combate à pandemia da doença COVID-19, o Governo decidiu para 30-31 de maio, no que diz respeito a ‘cerimónias religiosas’, o reinício das ‘celebrações comunitárias de acordo com regras a estabelecer entre DGS e confissões religiosas’.”

“Tendo em conta somente estes elementos, a retomada gradual das celebrações comunitárias da Eucaristia, já anunciada pelo Governo, deverá iniciar-se, em princípio, a 30 maio, véspera da Solenidade do Pentecostes. A data depende ainda da avaliação que o Governo se propõe fazer da situação, nesta primeira etapa do desconfinamento. As Dioceses insulares terão em conta as indicações das respetivas autoridades regionais.”

O sublinhado é meu e serve para mostrar a frase chave. Afinal, ao que parece, foi o Governo que decidiu. Mas mesmo isto é vago. O Governo decidiu depois de escutados os bispos? Decidiu com base na recomendação dos bispos? Tudo isto continua a ser possível. Alguém há de saber, mas nós não.

Temos então dois cenários.

Se estamos perante uma imposição do Governo, tout court, independentemente de os bispos acharem boa ideia, é uma coisa grave. O Governo não tem de decidir estas coisas, quem tem de decidir são os bispos. Há processos que é preciso respeitar precisamente para garantir a independência da Igreja e a liberdade religiosa. Julgo que a maioria das reações de revolta que tenho visto existem porque as pessoas estão a partir do princípio que foi isso que aconteceu. Contudo, pode não ser!

Se tudo foi feito nos conformes, então as petições, as missas drive-in e as homilias reivindicativas já não são dirigidas contra o Governo, mas sim contra os próprios bispos. E esse é um caminho insensato e perigoso para os católicos trilharem. Infelizmente, contudo, tem-se tornado cada vez mais comum e, infelizmente, em muitos casos por parte de católicos que deveriam ser os primeiros a defender a autoridade dos bispos.

Todos queremos o regresso das missas, e todos queremos contribuir da melhor maneira para que esta pandemia passe. O que parecia que ia ser um tempo de privação espiritual tornou-se, ao longo destes dois meses, uma fonte de grande riqueza, com as famílias a descobrirem novas formas de viver a sua fé e de a partilharem. Pelo menos tem sido assim com a minha, e com muitas que conheço. Temos podido compartilhar um pouco o sofrimento de tantas comunidades cristãs no mundo que estão privados dos sacramentos, por razões de segurança, de distância ou de escassez de vocações.

Há de passar, mais cedo ou mais tarde. Se for no dia 30 de maio, que seja. Se for mais cedo, glória a Deus!

Mas seria uma tragédia se agora caíssemos na tentação – e é uma tentação – de transformar esta recta final numa desculpa para nos dividirmos e nos colocarmos uns contra os outros e contra os nossos bispos.

Dito tudo isto, queria terminar dizendo apenas que tudo isto seria bastante fácil de evitar. É uma questão de comunicação. Os bispos podem – e devem, a meu ver – falar abertamente e pessoalmente – não apenas através de comunicados – com o seu rebanho para explicar quem tomou esta decisão e porquê.

E a nós, suas ovelhas, cabe apenas aceitar e dar graças a Deus.

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