quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sacramentos e Hipócritas

“E nós a confessar-nos a estes tipos.” Com esse o comentário, a minha falecida avó revelava um momento de severa lucidez no meio da sua demência, enquanto via uma reportagem sobre o primeiro escândalo de abusos sexuais por parte do clero, em 2002. A minha avó era uma católica nova-iorquina, de ascendência irlandesa, que em toda a sua vida não faltou à missa um único domingo. Em relação ao fragilizado e quase esquecido sacramento da confissão, aposto que não foi a única a pensar desta maneira.

Dezasseis anos mais tarde esta nova ronda de escândalos clericais e episcopais volta a infligir diversas feridas no coração: os danos irreparáveis às vítimas, a cumplicidade com o pecado, o cheiro nauseabundo do abuso de poder. Com cada facada no coração vem também um murro no estômago: aqueles que têm por função convidar-nos a viver uma vida moral – e chamar-nos à atenção se falharmos – têm estado a viver uma vida dupla.

Poucas coisas fazem os homens e as mulheres comuns perder a cabeça mais do que a hipocrisia, e os padres e bispos abusadores são, possivelmente, os piores dos piores hipócritas.

Então porque é que havemos de continuar a ir confessar-nos a um padre, quando é bem possível que ele tenha manchas ainda mais feias que as nossas na sua alma? Quem é ele para me ensinar a viver?

A resposta: Ele não é ninguém. E é precisamente por isso que podemos, e devemos, continuar a confessar os nossos pecados a padres, semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Quando Cristo edificou a sua Igreja sobre os apóstolos, não foram as suas capacidades humanas que a fizeram funcionar e crescer. Daquilo que a Sagrada Escritura nos diz sobre os apóstolos, a Igreja não teria sobrevivido um único dia se fosse esse o caso. Pelo contrário, Cristo concedeu a estes homens os seus poderes divinos para usarem: “Soprou sobre eles e disse-lhes, ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos’” (João 20, 22-23).

O poder infalível que Deus confiou à Igreja através de Cristo transcende os limites das mãos falíveis a quem é confiado através do sacramento da ordem. No confessionário o padre não age pela sua autoridade, mas pela da Igreja, para cujo serviço foi consagrado. Quando confessamos os nossos pecados, não é o padre quem nos perdoa, mas Cristo que age através dele. A identidade ou os actos do padre não inibem a graça que Deus nos quer dar através dos sete sacramentos que estabeleceu.

É essencial compreender que a Graça de Deus que os Sacramentos nos transmitem não depende do estatuto do transmissor, pois isso recorda-nos que a nossa Igreja é de Cristo, e não dos homens. Mas, ao mesmo tempo, continua a existir ao nível humano um sentimento de desilusão. Não queremos apenas saber que os nossos pecados foram perdoados, ou que recebemos a graça de Deus, embora isso nos deva bastar, queremos também sentir o amor de Deus.

Não há como negar que participar numa missa ou receber a absolvição de um padre santo e devoto é muito mais edificante, espiritualmente e pessoalmente, do que uma missa transformada num espetáculo de folclore, ou a confissão a um padre distraído ou mal-educado. Normalmente não podemos alcançar o divino sem o representante humano. O nosso desafio é não permitir que o humano nos desencaminhe do divino.

Jesus mostrou estar bem ciente desta dificuldade durante o seu ministério. Criticou ferozmente os fariseus da sua altura por causa da sua hipocrisia, chamando-os tolos cegos, serpentes, ninho de víboras e túmulos caiados. Mas por entre essas denúncias incríveis, Jesus chama-nos a obedecer. “Os escribas e os fariseus sentam-se no trono de Moisés, por isso façam e observem o que eles vos dizem” (Mat. 23, 2-3).

Obedecemos por causa do seu cargo, não por quem são como indivíduos nem pela forma como se comportam. Jesus é claro: Façam os queles dizem, não o que eles fazem.

Por isso devemos obedecer aos mandamentos morais e espirituais que Cristo deixou à sua Igreja, para passar às gerações seguintes. Devemos permanecer castos, confessar os nossos pecados a padres quando falhamos e receber o perdão de Deus através do sacramento da cura que o padre administra – independentemente de o padre no confessionário ser um santo ou um malandro, celibatário ou hipócrita.

E que fazer quando o elemento humano em nós tiver dificuldades em ultrapassar a hipocrisia, a banalidade ou a má educação que possamos encontrar? Como é que havemos de responder a estes fatores externos que dificultam o nosso caminho para o divino?

Talvez este seja o desafio de Deus para os leigos desta época: Ele está a purificar a nossa fé, mostrando-nos que a fé é mais do que apenas sentimentos, emoções e agradáveis interações humanas. A verdadeira fé consiste na confiança em Deus, assente na certeza de que Ele nos ama e quer dar-nos a sua graça. A verdadeira fé requer a nossa aceitação da Cruz e na Cruz não existe consolo humano, apenas a nossa fé de que Deus está connosco.  

E independentemente de como nos sentimos, sabemos que a nossa fé não é vã.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018 no The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Os “Apenas Cristãos” não têm Noção


Uma das coisas mais irritantes que ouço no diálogo ecuménico é: “Ah, eu não pertenço a nenhuma tradição ou denominação religiosa, sou apenas um seguidor de Jesus”. Pior ainda quando a pessoa assegura, com grande confiança, “não sou protestante, sou cristão.” Nestes casos estamos perante protestantes que não parecem capazes de compreender que são protestantes.

Admito que a vontade de deixar de parte os títulos sectários ou de denominação, é louvável, pois reconhece que as diferenças e as divisões entre os cristãos não são, em si, uma coisa boa. A Igreja Católica subscreve esta visão, lamentando no Catecismo, #817, as “rupturas que ferem a unidade do Corpo de Cristo”. Mas, para além disso o slogan “sou apenas cristão” não tem muito que se lhe diga. 

Para começar, é ignorante. Todo o cristão, por mais bem-intencionado que seja o seu “apenas cristianismo”, faz juízos teológicos que o colocam num ou noutro campo. Por exemplo, todos têm de responder à questão sobre como uma pessoa se torna cristã. Bastará recitar a “oração do pecador”? E o baptismo? Alguns baptismos são legítimos, e outros não? É necessário juntar-se a uma comunidade com outros cristãos? Se sim, que características é que essa comunidade deve ter para que seja “verdadeiramente cristã”? Quando se assume como cristão, é possível perder esse estatuto, por exemplo, pela descrença ou comportamento imoral?

As respostas a estas questões colocam o cristão num ou noutro campo: pedobaptista ou credobaptista, “uma vez salvo, sempre salvo”, ou não, etc.. As diferentes tradições eclesiais – católica, ortodoxa, anglicana, presbiteriana, metodista, baptista – fornecem respostas diferentes e, frequentemente, contraditórias, a estas questões e é por isso que as respectivas igrejas estão recheadas de pessoas que, presumivelmente, concordam com essas mesmas doutrinas.

Nunca se é “apenas cristão”. Tem de se tomar uma posição sobre estas questões, e outras, ou então mesmo a afirmação de que se é cristão colapsa.

É também uma questão de soberba. Ao dizer-se “apenas cristão”, a pessoa age como se não existissem tradições teológicas, nenhuma comunidade eclesial fora de si mesma que possua qualquer tipo de autoridade. O cristão que se diz “apenas cristão” define perfeitamente o indivíduo moderno, autónomo e atomizado, que não precisa de mais ninguém para além de si mesmo.

Não se percebe porque é que estes “apenas cristãos” se dão sequer ao trabalho de ler a Bíblia, uma vez que a adesão ao texto os torna dependentes dos seus autores, como São Pedro, São Paulo ou São Lucas. O cristão “apenas cristão” acha que tem as respostas para tudo e que aqueles tontos que debatem questões teológicas simplesmente não compreendem. Jesus, diz o “apenas cristão”, é simples e compreensível, fomos nós que complicámos a sua vida e os seus ensinamentos com todas estas coisas intelectuais.

Por fim, demonstra ainda uma amnésia histórica lamentável. Os proponentes da teologia “apenas cristã” não reconhecem como as suas próprias crenças e práticas foram moldadas por 2000 anos de ensinamentos e de tradições da Igreja. Embora muitos “apenas cristãos” acreditem na Santíssima Trindade, normalmente não sabem que essa doutrina foi definida e promulgada no Concílio de Niceia, no Século IV, nem reconhecem que as suas crenças sobre a salvação costumam ser luteranas ou calvinistas.

Embora a maioria dos “apenas cristãos” leia fielmente a Bíblia, não têm muita noção sobre como é que o livro adquiriu a sua presente forma, ou que é uma coleção de textos diferentes, escritos por pessoas diferentes, em línguas diferentes, traduzidos para o vernáculo de forma imperfeita por académicos. Nem se apercebem que mesmo o conjunto de livros na sua Bíblia, o cânone, foi alvo de grande contestação e que foram necessários três concílios nos séculos quarto e quinto (Hipona, Cartago e Roma) mais outro concílio ecuménico em Trento (século XVI) para o definir com autoridade.

Mais, os “apenas cristãos”, que na sua larga maioria são protestantes, usam uma versão da Bíblia à qual faltam vários livros, chamados os deuterocanónicos, que foram afirmados por esses concílios.

Quando era caloiro na Universidade de Virgínia, tive uma cadeira de História do Cristianismo, dada por Robert Louis Wilken, um académico de renome e ex-luterano convertido ao Catolicismo. A primeira vez que o visitei no seu gabinete, disse-lhe que era cristão. Interessado, perguntou-me a que denominação pertencia. Eu, cheio de mim, disse-lhe que não tinha denominação. Ele não disse nada, mas olhou-me de uma forma que jamais me esquecerei. Dizia, de forma simpática, mas firme, que eu não tinha a menor noção do que estava a falar.

Rapidamente comecei a perceber o que estava de errado na minha afirmação daquele dia, de tal forma que comecei um longo estudo da história e da teologia cristãs para determinar as minhas próprias crenças. Por esta altura já me tinha formado e entrado num seminário reformado (calvinista) e dizia a todos os evangélicos com quem me cruzava que deviam ter uma boa razão para não serem católicos. Embora eu ainda não fosse católico, compreendia bem o que estava em causa: todos os protestantes eram herdeiros de um sistema religioso que tinha rompido com a Igreja Católica.

Eu também já fui “apenas cristão”. E era um idiota. Simplesmente não existe tal coisa. E é por isso que, sempre que me envolvo em diálogo ecuménico com protestantes, dou graças por todos os que compreendem de facto que são protestantes. Pelo menos eles compreendem que as suas crenças não se desenvolveram num vácuo, mas que lhes foram entregues pelos seus antepassados na fé.

Aliás, é precisamente isso que significa a palavra tradição (traditio, em latim). As conversas com protestantes que compreendem quem são, e de onde vêm, tendem a ser muito mais frutíferas e interessantes do que com aqueles que se consideram “apenas cristãos” e que se acham muito espertos e “superiores a tudo isso”, como já foi o meu caso.

A todos os leitores que se definem como “apenas cristãos”, perdoem-me se reviro os olhos e abano a cabeça quando me dizem que a vossa fé transcende as denominações, teologia e história. Nas palavras – ligeiramente modificadas – do falecido Thomas Merton, o orgulho torna a fé cristã artificial; a humildade torna-a real.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Outubro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Papa de visita à Coreia do Norte?

Hong Yong-ho, último bispo de Pyongyang
A surpresa surgiu logo pela manhã. O líder da Coreia do Norte convida o Papa Francisco para visitar o seu país, cuja capital foi em tempos conhecida como a “Jerusalém do Oriente”.

No mesmo dia foi anunciada uma missa, que se realiza na próxima semana, de uma missa pela paz na Península coreana.

Estamos em fase de eleições no Brasil e os bispos portugueses estão atentos, confiantes que prevalecerão os “valores humanos e cristãos”, ganhe quem ganhar.

Deixo-vos ainda com um convite para o próximo “Fórum Wahou!”, sobe teologia do Corpo, que decorre no fim-de-semana de 27 e 28 de Outubro. Mais informação aqui e aqui.

E agora despeço-me, em princípio até meados de novembro. Durante o próximo mês estarei de licença de paternidade, a dedicar-me a muitos outros assuntos! Estarei atento à actualidade religiosa, como é evidente, e se houver notícias urgentes partilharei por aqui, mas de resto podem contar todas as semanas com o artigo em português do The Catholic Thing e com novidades no Facebook e no Twitter.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Pray for Asia

Lembra-se do caso de Asia Bibi? Pois rezem, rezem muito. A última cartada está a ser jogada, o Supremo Tribunal ouviu hoje os argumentos e deve anunciar a decisão nos próximos dias. Aguardemos e que Deus a guarde.

Ao fim de um mês e meio, Viganò teve finalmente a sua resposta. O cardeal Ouellet não se poupou nas críticas ao ex-núncio que exigiu a demissão do Papa Francisco.

Também no fim-de-semana o Papa Francisco anunciou a abertura de novas investigações sobre o cardeal McCarrick, avisando que os resultados podem ser surpreendentes e mostrar que ele recebeu tratamento favorável por ser bispo.

Apresento-vos um cirurgião inspirador, que reza com os seus doentes antes de os operar e que até muda lâmpadas quando é preciso (ver foto).

D. António Marto foi nomeado para o Dicastério do Laicado, Família e Vida.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Choques naturais e ultrapassáveis

Declarações "chocantes" de Osswald
Começou o sínodo dos jovens. O Papa Francisco emocionou-se ao ver lá dois bispos chineses, fruto do acordo alcançado com Pequim, e no seu discurso disse a todos os bispos reunidos que devem deixar para trás preconceitos e estereótipos.

Temos no site da Renascença uma interessante entrevista com o bispo D. António Augusto Azevedo, que está presente nos trabalhos.

Também hoje decorreu em Lisboa o II Congresso do Diálogo Inter-religioso. Numa das conferências, Walter Osswald disse que o choque cultural até é natural, mas é preciso ultrapassar a rejeição. Noutro painel o padre Fernando Sampaio confessou que a proibição de perguntar aos doentes a sua religião é, em alguns casos, uma violação dos seus direitos.

Ainda na sequência da crise de abusos que sacode a Igreja, Randall Smith, um dos meus autores favoritos do The Catholic Thing, escreve esta quarta-feira directamente para aqueles que invocam os problemas para abandonar a Igreja. É um artigo arrasador, cheio de bom-senso. Leiam e partilhem!

Para onde iríamos?

Randall Smith
Há quem diga que vai abandonar a Igreja Católica por causa dos escândalos actuais. Estou confuso. Em quem é que tinham fé? No padre? No bispo? Ou em Deus? Se a sua fé era num padre, bispo, ou até o Papa, então o que professava era idolatria e não a fé cristã.

Estarei a menosprezar a gravidade do escândalo e do mal que tem causado? Não, mas vamos pôr as coisas em perspetiva. Se perguntar, “Tendo em conta todos estes actos terríveis, como é que posso continuar a ter fé na Igreja Católica?”, então ponha-se no lugar da comunidade judaica depois do Holocausto. Eles tiveram de perguntar: “Como é que posso continuar a ter fé em Deus, apesar de todos estes actos horríveis?”

Como é que podemos continuar a dedicar-nos a uma comunidade que é tão infiel a Deus? Moisés fez a mesma pergunta quando viu a infidelidade dos seus correligionários judeus no deserto. Os profetas fizeram a mesma pergunta quando viram as injustiças do povo na Terra Prometida. Os primeiros apóstolos devem ter perguntado a mesma coisa quando viram que um dos seus tinha entregado Jesus aos seus inimigos. E o próprio Pedro, a “rocha” sobre a qual seria edificada a Igreja, negou sequer conhecer o Senhor na sua hora de provação. Isso é difícil de superar.

Acham que era fácil permanecer na Igreja quando os amigos, vizinhos e familiares estavam a ser martirizados, desmembrados por animais ou queimados vivos, por se recusar a negar a fé? E quando tantos dos outros amigos, vizinhos e familiares tinham cedido e negado Cristo, face às ameaças das autoridades romanas? A vida na Igreja raramente foi simples.

O que é que você teria feito quando a heresia ariana dividiu a Igreja ao meio, com o imperador Constantino, supostamente “cristão”, e a maioria do império a alinhar com os arianos? E quando três homens alegavam ser Papa ao mesmo tempo, no Século XIV? Ou quando a revolta protestante dividiu a Cristandade e grande parte da hierarquia da Igreja era corrupta e moribunda? O Concílio de Trento foi um dom do Espírito para a Igreja, mas só começou em 1545 (Martinho Lutero afixou as 95 teses em 1517) e apenas acabou passados quase 20 anos, em 1563.

Imagine ser um católico no meio destes escândalos. O que é que teria feito? Teria sido daqueles que permaneceu e combateu o bom combate na fé? Ou seria um dos muitos que disse: “Esqueça. Estou fora”?

Mas para onde iria? É essa a pergunta que Pedro faz a Cristo. “Senhor, para quem iremos?” Quem mais tem palavras de vida eterna?

Desculpem lá… Escapou-me alguma coisa? Cristo por acaso fundou outra Igreja, só para a malta boa? A Igreja com as liturgias perfeitas? A Igreja em que todo o clero e os leigos têm a doutrina certa e não existe pecado? Porque se sim, eu nunca a vi. Nunca li sobre ela nas Escrituras, nem a vi referida pelos Padres e Doutores da Igreja. Muito pelo contrário, eles falaram repetidamente sobre o elemento humano e pecador da Igreja, a precisar da redenção de Cristo.

Estarão os escândalos a afastar as pessoas da Igreja? Por favor… As pessoas afastam-se da Igreja porque a Igreja faz afirmações desconfortáveis e porque os católicos não são testemunhas vivas da veracidade desses ensinamentos na sociedade. As sondagens mostram repetidamente que os católicos variam pouco em relação à maioria da população no que diz respeito a questões morais fundamentais. Os católicos em São Francisco ameaçaram processar o seu próprio bispo quando ele tentou aplicar os princípios morais mais básicos nas escolas católicas. O Arcebispo Chaput é mantido longe de muitas universidades católicas enquanto o Cardeal Mahoney, supostamente confinado à penitência, da mesma forma que o ex-Cardeal McCarrick, viaja livremente.

E perguntem aos padres e editores de sites católicos “conservadores” as reacções que recebem quando tentam dizer aos leigos que deviam pagar um ordenado justo, e para serem honestos e justos na sua vida profissional, ou exercitar uma opção preferencial pelos pobres? Que tipo de bispos e padres é que se podem esperar quando uma grande parte do laicado se revolta sempre que ouve qualquer coisa a partir do púlpito sobre aborto, contracepção, fornicação e actividade homossexual?

Grande parte dos católicos americanos queria bispos que olhassem para o lado enquanto aqueles violassem abertamente ensinamentos fundamentais da Igreja. Então porque é que se admiram que alguns desses homens ignoravam as regras também nas suas vidas privadas? Queriam fidelidade? Ou queriam uma personalidade vencedora, capaz de angariar dinheiro? Não é por isso que muitas das instituições que hoje condenam McCarrick, ontem enchiam-no de honras de elogios?

O C.S. Lewis queixou-se certa vez da cultura que produz “homens sem peito” e depois espera que sejam virtuosos. “Rimo-nos da honra”, escreve Lewis, “e ficamos chocados ao descobrir traidores no meio de nós. Castramos os cavalos e esperamos que se reproduzam”. Uma Igreja Católica americana que se riu na cara da doutrina social e da moral sexual católica não deve surpreender-se ao encontrar traidores morais e doutrinais no seu seio.

E agora que fazemos? Exigimos a verdade? Claro. Mas como disse o dissidente Checo Vaclav Havel, a verdade exige-se vivendo na verdade. Devemos dizer sobre o ensinamento da Igreja aquilo que Santo Agostinho diz sobre os Evangelhos: “Se acreditas no que queres do Evangelho, e rejeitas o que não gostas, então não é no Evangelho que crês, mas em ti mesmo”.

É católico? Então pare de se preocupar e comporte-se como tal.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 30 de Setembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Papa apela ao uso de Armas de Devoção Maciça

Começo por um forte e raro apelo do Papa Francisco. Que todos rezem o terço, todos os dias de Outubro, em especial pela Igreja, que Nossa Senhora a proteja “dos ataques do maligno. Eu e a minha família alinhamos. Se é católico, “tradicionalista” ou “progressista” ou o que quer que seja, junte-se e partilhe. Se está com dúvidas, inspire-se com o Max Romeo.



O Papa afastou do sacerdócio o padre Karadima, do Chile, que esteve no centro da terrível crise de abusos que ainda sacode aquele país.

Uma grande tragédia atingiu a Indonésia nos últimos dias. O Papa não deixou de rezar pelas vítimas.

Dezenas de currais para animais foram destruídos pelos fogos de 2017. A Cáritas de Viseu reconstruiu meia-centena deles. Esta reportagem capta bem a importância deste género de acção no terreno.

E por fim, fora do âmbito estrito da religião, morreu esta segunda-feira Charles Aznavour. Muitos o conhecem, e conhecem pelo menos algumas das suas canções. Menos conhecem este seu “lado B”, marcado pela tragédia e pelo genocídio.

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