quarta-feira, 23 de setembro de 2020

À Espera da “Primavera”

Stephen P. White
Quando o Papa João Paulo II anunciou um Grande Jubileu para assinalar a aurora do terceiro milénio cristão falou convictamente de uma “nova Primavera de vida cristã”. O jubileu prometia ser o ponto alto de um pontificado recheado de grandes feitos. O Papa tinha começado o seu pontificado exortando a Igreja: “Não tenhais medo!” Acabou o Grande Jubileu num tom semelhante, fazendo eco da ordem dada pelo Senhor aos seus discípulos: “Duc in altum!”, Fazei-vos ao largo! O Grande Jubileu acabou na Solenidade da Epifania, 2001.

Foram dias inesquecíveis.

No dia 6 de janeiro de 2002 – precisamente um ano depois de concluído o Grande Jubileu – a equipa Spotlight do “Boston Globe” publicou uma reportagem sobre um abusador em série de crianças que era também padre católico: o padre John Geoghan. Acontece que a arquidiocese sabia dos seus crimes. Não obstante, Geoghan foi transferido de paróquia em paróquia, deixando na sua esteira um conjunto de vidas arruinadas. A Grande Quaresma, para usar a frase do padre Richard John Neuhaus, tinha começado. De certa forma, ainda não acabou.

Entretanto deixámos de ouvir falar muito sobre novas primaveras.

Recentemente tenho dado por mim a pensar bastante sobre esta conjunção – a esperança do Grande Jubileu e a humilhação da crise de abusos sexuais – em parte por causa do podcast que tenho ajudado a produzir para o The Catholic Project, da Catholic University. Mas também porque este sentimento de declínio se tornou uma marca da nossa vida comum, não só na Igreja, mas também na vida política e cultural. O que era suposto ser uma nova Primavera tornou-se, passadas duas décadas, uma realidade saída dos livros de Narnia: sempre Inverno, nunca Natal.

Não é difícil encontrar narrativas de declínio nos nossos dias. Muitas pessoas parecem pensar que as coisas estão a piorar e querem acreditar que não são as únicas com essa opinião. Este sentimento de declínio ajuda a explicar, em parte, o apelo pelas correntes restauracionistas da nossa política (Make America Great Again não é nada mais que um slogan restauracionista). A pandemia, caso não tenha percebido, só está a exacerbar estas tendências.

Enquanto metáfora para o estado do nosso mundo, esta pandemia é quase demasiado óbvia. A Igreja – o mundo – parece estar a suster a respiração, esperando pelo que aí vem, sem saber bem o que dizer, com medo de tornar as coisas piores, mas também com medo de permanecer em silêncio. Sem saber se devia lutar contra a lenta asfixia ou permanecer calmo e dócil e aguentar o que aí vier.

O Cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, comentou recentemente que a pandemia poderá acelerar a secularização da Europa por uma década. Está preocupado que muitos católicos, pelo menos no seu Luxemburgo natal, apenas permaneceram na Igreja por razões “culturais” e que o encerramento das Igrejas durante a pandemia possa ter enfraquecido o que já era uma ligação ténue.


Aqui nos Estados Unidos há quem partilhe dessa preocupação. Em Milwaukee o arcebispo Jerome Listecki anunciou que ia levantar a dispensa geral de obrigação de missa dominical para as suas igrejas. A partir do passado fim-de-semana espera que os católicos da sua arquidiocese cumpram a sua obrigação de ir à missa. Faz sentido que, embora o bispo não saiba como vai ser o “novo normal” que chegará depois da pandemia, queira fazer tudo o que está ao seu alcance para garantir que os católicos vão à missa.

Claro que a maioria dos católicos nos Estados Unidos já não tinham paciência para ir à missa aos domingos antes da pandemia. A frequência da missa – tal como os casamentos, baptismos, crença na Presença Real e por aí fora – é apenas uma das métricas que mostra que a Igreja está em declínio, lento mas certo, há décadas.

A irrelevância política do Catolicismo é outro sinal da diminuição do impacto da Igreja na nossa vida comum. Digo “irrelevância política” não porque a Igreja não tenha nada a dizer sobre política, ou porque os votos dos católicos não interessam aos políticos – ela tem e eles interessam – mas porque as verdades da Fé têm manifestamente tão pouco a ver com a forma como milhões de católicos votam.

Lamentar a realidade é uma coisa. Não há falta de coisas a lamentar hoje em dia. Mas a desilusão por as coisas não terem acontecido como se esperava – como era “suposto” – também pode conduzir ao ressentimento. E a nossa cultura, a nossa política e a nossa Igreja estão cheios precisamente desse ressentimento.

Pode ser fácil comparar o mundo sombrio de hoje ao mundo mais solarengo de que nos lembramos e pensar que assim é que estávamos melhor. Mas vale a pena recordar que o ponto alto, em termos de prestígio e de influência, da Igreja Católica nos Estados Unidos – antes do “silly season” pós-conciliar, quando os católicos estavam social e politicamente unidos e as Missas estavam tão cheias como as escolas e os seminários católicos – coincidiu exactamente com as décadas de maior podridão e corrupção institucional na Igreja.

São Francisco de Sales escreveu que na vida espiritual devíamos buscar o Deus do consolo e não os consolos de Deus. Penso que na Igreja americana nos habituámos a procurar os frutos de uma Igreja saudável (e a lamentar a sua ausência) – muitas vocações, grande devoção entre os fiéis, casamentos e famílias sólidos, um ministério aos pobres florescente – sem nos preocuparmos em cuidar das obras espirituais que fazem com que a Igreja floresça.

Se queremos ver os rebentos da Primavera, então temos de trabalhar a terra e espalhar adubo no Outono.

“Não tenhais medo”. “Fazei-vos ao largo”. Estas não são palavras para um povo que chegou são e salvo a casa. Não são palavras para um povo que está a entrar num tempo de conforto e de consolação. São, sim, palavras para um povo fortalecido na fé e disposto a contar tudo o resto como perda. São, em resumo, palavras para o nosso tempo.

E são palavras que nos levarão rumo à Primavera… Independentemente da duração do Inverno.

 

Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O Estilo de Vida Liberal é Caro, muito Caro

Randall Smith

Muitas pessoas partem do princípio de que uma sociedade “progressista” na sua visão dos valores morais seria naturalmente “progressista” em termos económicos, que quem acredita na distribuição mais equitativa dos bens acreditaria também em padrões mais permissivos de comportamento.

Não nego que exista essa percepção, mas a realidade acaba muitas vezes por ser o contrário daquilo que os jovens progressistas pensam. Aqueles que gostariam de assegurar uma distribuição mais equitativa da riqueza na economia e um maior respeito pelo ambiente estão de facto a exigir uma autodisciplina considerável, do género que normalmente não exigimos a quem vive um estilo de vida de libertinagem.

Pensam que é descabido pedir a um homem para disciplinar os seus apetites sexuais, mas ao mesmo tempo esperam que ele abdique do seu apetite por dinheiro, estatuto social e poder?

É estranho dizer por um lado que “não é necessário ter a disciplina para ser fiel à sua mulher e filhos”, mas por outro insistir que alguém deva sentir-se responsável perante toda a humanidade no que diz respeito à reciclagem das embalagens de plástico. Se um homem não consegue disciplinar os seus apetites ao ponto de ser fiel aos seus próprios filhos e à mulher a quem jurou fidelidade até à morte, diante de Deus, então porque haveríamos de pensar que seria suficientemente disciplinado para ser fiel às gerações que virão depois da sua morte? Não nos deve surpreender, portanto, que à medida que as sociedades se tornam moralmente mais “progressistas” vão acumulando mais dívidas para serem pagas pelas gerações futuras.

A laxidão que os “progressistas” apoiam no campo da moral pessoal é apenas mais uma variante do individualismo autónomo que pretendem combater no campo económico. E cada vez que se enfraquecem os elos sociais da sociedade, sobretudo aqueles que são desenvolvidos dentro da realidade altruísta que é o casamento e a família, resulta numa diminuição do capital social necessário para assegurar que as pessoas continuem dispostas a partilhar abundantemente com os outros sem medo de ficarem indigentes.

Quando se fomenta maiores níveis de confiança social as pessoas ficam mais dispostas a partilhar. Quando temem que mesmo as suas relações mais próximas são baseadas em nada mais do que o prazer ou a realização do outro, esta vontade esvai-se e formam-se muros de proteção. Quando isto acontece, a única maneira de garantir mesmo as formas mínimas de colaboração passa a ser através da coação governamental. É mesmo isso que queremos?

Se não quer o Governo a intrometer-se na sua vida privada, surpreendo-o verdadeiramente que o vizinho do lado não queira o Governo a intrometer-se nas suas decisões empresariais privadas? Se quer usar o poder coercivo do Governo para obrigar os médicos a praticar abortos, então fica mesmo espantado ao saber que o seu senhorio quer usar os poderes coercivos do Governo para o despejar quando não paga a renda?

E da mesma forma, se insiste que o Governo não tem nada que lhe dizer quanto é que deve pagar aos seus trabalhadores mas ao mesmo tempo quer usar os poderes coercivos do Governo para favorecer o seu negócio, então porque é que se surpreende ao ver que os “progressistas” resistem à intrusão do Governo para umas coisas e encorajam-na para outras?

Numa cultura em que a liberdade significa sobretudo liberdade de constrangimentos, liberdade para fazer o que quero e não a liberdade para me dedicar ao bem dos outros, rapidamente se torna claro para os jovens que a liberdade que lhes está a ser “vendida” todos os dias pelas elites culturais – a liberdade de autocriação, a liberdade de criar uma identidade através dos bens de consumo, a liberdade de ir em busca do que é excitante e de viver como as celebridades nos anúncios – é cara, muito cara.

A vida “de artista” em Nova Iorque é cara. A mansão é cara e os colégios da moda são caros. Há estudos que revelam que mais de um quarto das pessoas que ganham mais de 100,000 dólares por ano dizem que “mal conseguem aguentar” e que não têm dinheiro suficiente para as suas necessidades mais básicas. A liberdade da autocriação autónoma é cara; o estilo de vida das celebridades também.


Los Angeles e Nova Iorque são viveiros de eleitores de causas socialistas, mas estão longe de ser exemplos morais de igualdade de rendimentos. As pessoas que vivem em casas e apartamentos caros e que gastam dinheiro em bares e discotecas, mas que depois exigem que o Governo faça “mais pelos pobres” têm muito pouca credibilidade.

Saia desse apartamento caro, vá viver para uma cidade modesta e um bairro simples, envie os seus filhos para as escolas públicas locais ou para uma modesta escola católica que serve de facto os pobres, e aí talvez tenha alguma credibilidade. Caso contrário é uma fraude. Não pode exigir aos outros que abdiquem das coisas reles de que gostam enquanto fica com as coisas sofisticadas que lhe dão prazer a si.

Os adeptos do estilo de vida liberal nunca conseguirão alcançar a justiça social se usarem a sua preocupação pela justiça social como os fariseus usavam os seus símbolos religiosos, como sinal da sua própria presunção. “Alargam os seus filactérios e aumentam as franjas dos seus mantos”; “tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens”; quando vão dar dinheiro aos pobres mandam tocar as trombetas para serem respeitados pelos outros.

Demasiados americanos, sejam autoproclamados “liberais” ou “conservadores”, acreditam que aquilo que torna a América grande é o facto de os indivíduos poderem escolher o seu próprio conceito de bem, desligado das exigências e das necessidades dos outros e alcançá-lo como um direito divorciado de qualquer obrigação aos outros ou ao bem comum.

Tanto os “conservadores laissez-faire” como os “progressistas” são chamados a compreender que a América apenas será “grande” quando fizermos nossas as orações os versos, demasiadas vezes ignorados, do “America the Beautiful”:

 

América! América!

Deus corrija cada uma das tuas falhas,

Confirme a tua alma na autodisciplina,

A tua liberdade na lei!

 

América! América!

Que Deus refine o teu ouro

Até que todo o sucesso seja nobreza

E todo o lucro divino!

 

América! América!

Que Deus te dê a sua graça

Até que o lucro egoísta deixe de manchar

O estandarte dos livres!

 

 

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Setembro de 2020)

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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Anã Branca

Francis X. Maier
Tenho estado a pensar muito no inferno, ultimamente. Não porque me apeteça, mas porque nos tornámos peritos em replicar os seus modelos aqui e agora. Basta ver as notícias.

Quanto ao inferno da fé cristã, quem duvida da sua existência deve fazer um simples teste: Apaguem as luzes numa noite sem luar e ouçam, sozinhos, a declamação brilhante do “Inferno” de Dante, por Heathcote Williams.

É um bocado realístico de mais. Numa manhã solarenga de setembro a descrição de demónios coriáceos num poço de tormentas, independentemente da forma como for feita, pode parecer ridícula. Vivemos, afinal de contas, na era da ciência, com toda a sua confiança bem alimentada e desdém pela superstição. O “real”, dizem-nos, é aquilo que podemos medir e provar – isto apesar do pressuposto cegamente conveniente de que a realidade se adequa aos limites dos nossos sentidos e do tipo de material que conseguem coligir.

Mas no escuro, com os olhos voltados para a paisagem da alma, o território da verdadeira realidade – as coisas que de facto interessam no decurso dos nossos dias e as escolhas e consequências que nos formam – torna-se subitamente claro.

Como escreveu Dante:

 

No meio do caminho desta vida
eu me encontrei por uma selva obscura
porque a direita via era perdida.

Dante segue o seu guia, o poeta Virgílio, para um inferno que é assustadoramente persuasivo e perversamente correcto, sem o ruído do mundo moderno. Numa nação que atualmente se encontra ébria com ódios e ressentimentos, o leitor faz bem em pensar um pouco sobre o Canto VIII do Inferno, onde o Rio Estige, num fluxo sem fim de excremento e detritos, guarda as almas dos que foram condenados pela sua ira. Os irados esbracejam à superfície, mordendo e atacando-se uns aos outros; os soturnos afogam-se por baixo, engolindo a sua própria sujidade.

A ideia de que o pós-vida é um “lugar” está profundamente implementada na imaginação humana. E isso é compreensível. Vivemos num mundo físico com uma geografia mapeável. Os nossos corpos ensinam-nos o prazer e a dor. Então tendemos a imaginar o inferno como um lago de fogo; ou um Las Vegas extremamente maltrapilho, onde as bebidas são más, as dançarinas são feias e nunca ninguém ganha; ou então como descrito no círculo mais baixo e final do Inferno de Dante – um poço de gelo ferozmente frio.

A ficção de C.S. Lewis – especialmente “O Grande Divórcio” e o “Verozmente Teu”, mas também “Que Força Hedionda” – captura um pouco do que pode ser o inferno. Ou então talvez seja mais surpreendente, um aborrecimento eterno. No episódio “Um sítio simpático para visitar” do Twilight Zone um jogador, desesperadamente endividado, mas viciado na adrenalina do risco, morre e acorda num casino fabuloso. Está cheio de mulheres bonitas e tem todos os confortos e benesses. Mas não se pode ir nunca embora e, pior, nunca perde. Em “Hell’s Bells” do The Night Gallery, um roqueiro cínico e adepto de festa rija morre e é condenado. Mas a grande porta de fogo do inferno leva-o a uma sala de estar confortável, com um bom sofá, onde um casal de idosos está ansioso por lhe poder mostrar as fotografias das férias passadas no Havai. Para sempre.

Todas estas imagens podem ser tanto implausíveis como assustadoras ou divertidas. Todas podem conter alguma dose de verdade. Mas não têm em conta o cerne daquilo que o Inferno será, seja qual for a sua forma final, nem porque será tão severo o seu sofrimento.

O inferno será a total ausência de amor: um corte radical entre a alma e Deus que é Amor, a fonte do nosso sentido e da nossa identidade. A estrutura da “Divina Comédia”, de Dante, é inspirada em Santo Agostinho, que descreveu o nosso “peso” como nosso amor. O verdadeiro amor, o amor altruísta, é um fogo: sacrificial, generoso, sempre em crescendo; uma labareda que eleva a alma para Deus. É por isso que o círculo mais profundo no Inferno não é uma fornalha, mas um lago de gelo, mantido eternamente gelado pelo pecado do orgulho – o bater incessante, propositado, ártico e sem arrependimento das grandes asas de satanás.

Mas há uma questão que se coloca. Porque é que para nós pobres humanos, cujas vidas são apenas um pingo no oceano da eternidade, devemos sofrer no inferno para sempre? Para seres finitos a perspectiva de punição eterna, seja o que isso for, parece terrivelmente injusta. Mas é inteiramente justa. Deus não nos impõe o Inferno, são os condenados que o escolhem livremente.

Dante, visão de Deus

Os condenados, pelas suas acções e escolhas, tornam-se criaturas incapazes de viver de outra forma; criaturas que não suportam o Céu, que não conseguem sequer desejar o Céu, e que jamais lá se adaptariam. Se todos somos livres – e a nossa liberdade é um aspecto central da nossa dignidade especial, separando-nos de todas as outras criaturas – Deus não nos pode obrigar a ser aquilo que escolhemos livremente não ser. A misericórdia de Deus é infinita, mas requer o arrependimento, honestidade e humildade do pecador. São coisas que o pecador mais obstinado não dá. Logo, a “misericórdia”, neste caso, seria simplesmente outra palavra para a injustiça.

C.S. Lewis escreveu que enquanto o Céu é um “gosto adquirido”, ao longo de tempo, graças a uma certa forma de viver, não deixa de ser um espaço para homens e mulheres. Mas o inferno nunca foi feito para almas humanas e quem lá entra deixa de ser inteiramente humano, tornando-se uma cinza de restos humanos, queimados pela raiva, frustração, solidão e amor-próprio que devora; tal como uma estrela anã branca já não é uma estrela propriamente dita, mas apenas a sua casca, colapsada e autofágica – a memória murcha de uma estrela, mas com uma massa esmagadora e uma gravidade feroz que não permite que nada escape o seu apetite salvo a luz mais fraca.

Dante terminou a “Divina Comédia” com uma das linhas mais poderosas e belas da literatura ocidental, descrevendo Deus como “o amor que move o sol e outras estrelas”. Suponho que a lição aqui seja a seguinte. Seja qual for a fúria e a tormenta dos nossos tempos, o que determina o nosso destino é quem amamos, o que amamos e como amamos. Então temos de escolher. E os sábios escolhem bem.

 

Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 2 de setembro de 2020)

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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Rezar pelos Agressores

David Warren

O polícia de Minneapolis que foi filmado a ajoelhar-se sobre o pescoço de um George Floyd prostrado chama-se Derek Chauvin. Este, e outros três agentes presentes naquele momento, já foram acusados de homicídio. Começam agora a surgir provas num sentido e noutro, mas as consequências já se fizeram sentir.

Arrisco dizer que todos os leitores já ouviram falar neste incidente e que também estão a par dos motins que ele desencadeou. Três meses mais tarde, há ainda problemas em muitas grandes cidades americanas e há bairros inteiros que são incendiados todas as noites, por este e outros incidentes que ocorreram entretanto.

Os activistas de esquerda, que já mostraram e bem ao que vêm (deixando um rasto de muitas vítimas inocentes), não dão qualquer sinal de abrandar. Porém, ainda só temos informação parcial sobre cada um dos eventos.

Mas hoje não pretendo analisar o contexto passado dos incidentes, nem as suas consequências. É evidente que qualquer ser humano decente se sentiu horrorizado com o vídeo original. Então porque é que grandes segmentos da população estão a ser condenados, como se fossem cúmplices do crime?

É demasiado fácil refutar os argumentos feitos pelos Antifa e militantes do Black Lives Matter, ou dos ideólogos dos media, mundo académico e política que estão a explorar a questão – quase sempre no mesmo sentido, mas no outro também. Aqui não me estou a debruçar sobre a “loucura das multidões”.

Antes, vou focar o evento original – o aparente homicídio de George Floyd – com base no pouco que já sabemos do que se passou. Houve um homicida e o homem que foi morto, tanto quanto se pôde ver; um agressor e a vítima. O sentido de injustiça é um motivador potente em qualquer sociedade humana.  

Com quem é que nos identificamos? Esta é precisamente a pergunta errada.

A nossa resposta pode bem explicar, ou mesmo determinar, onde nos posicionamos em relação à justiça. Neste caso devia ser simples, e para a maioria das pessoas que estão actualmente vivas, é de facto bastante simples. Só ouvi falar de uma pessoa que defendeu a actuação de Chauvin e mesmo esse pensou melhor e retratou-se mais tarde. Duvido que mesmo os acusados sintam que agiram de forma correcta.  

Mas aqui estou a usar o termo “identidade” de forma perigosa, como o mundo o faz, jogando o jogo dos esquerdistas. Nesse mundo identificamos de forma abstrata. Questões de raça, credo, cor e outras são trazidas à baila, quer sejam imediatamente relevantes ou não. É precisamente com este tipo de fogo que a “política da identidade” brinca.

Mas mais fundamentalmente, será que o leitor se identifica pessoalmente com Derek Chauvin? Consegue, mesmo nos seus pensamentos mais obscuros, imaginar-se a agir da mesma forma? Não no sentido “será que eu faria uma coisa destas?”, mas “porque não o faria?”

Não podemos saber o que aconteceu antes, e temos de assumir que poderia ter acontecido qualquer coisa. Mas o leitor alguma vez odiou tanto alguém que até pensou em matá-lo? E, pelo caminho, de o torturar?

Parto do princípio que, caso o tenha feito, terá abandonado o pensamento, talvez instantaneamente. Alguns de nós, porém, já cometeram homicídio no seu coração e se somos adultos devíamos saber que milhares, se não milhões, já passaram dos pensamentos aos actos. Os seres humanos já fizeram coisas tão sórdidas que já devíamos ter noção do que somos capazes.

Pensemos aqui um pouco nos santos, incluindo aqueles que perdoaram, antecipadamente, os seus carrascos. Enquanto cristãos, espero que não nos limitaríamos a dizer que tinham uma noção de justiça deficiente. Não se esqueceram simplesmente, no excitamento do momento, do mandamento de Moisés contra o derramamento de sangue inocente. Isso é o que fazem os assassinos, não as suas vítimas.

O acto verdadeiramente radical do perdão, elevado aqui ao seu expoente máximo, coloca-se em oposição à profundidade da culpa, que na nossa religião associamos ao Diabo. Pelo menos na nossa religião como ela era encarada até à pouco tempo.

Rezamos pelas vítimas, e ao nosso Salvador que foi, por definição, a vítima perfeita. Rezamos por vítimas muito menos perfeitas e, em momentos em que confundimos a justiça com a misericórdia, rezamos pelas vítimas porque achamos que é a coisa correcta a fazer. E todos os que rezaram, e rezam, pela alma de George Floyd fazem bem.

Mas o mesmo se aplica a todos os que rezaram, e rezam, por Derek Chauvin. Na verdade, ele poderá precisar mais das nossas orações, embora não possamos saber isso ao certo, uma vez que isso deve ser deixado ao juízo daquele que escrutina corações mais profundamente do que nós conhecemos o nosso próprio.

Penso aqui em como a perda da doutrina cristã, a começar com a doutrina do Pecado Original, nos debilitou.

Não é apenas o facto de não perdoarmos, é que cada vez mais somos incapazes do perdão. Até podemos compreender que os seres humanos são, em abstrato, capazes de males terríveis. Mas esquecemos que eu, enquanto ser humano, sou capaz de mal terrível.


E esquecendo isto perdemos tudo o que foi conquistado, a grande preço, através das gerações quando fomos cristianizados.

Podemos ver as consequências disto nas ruas; nas caras dos manifestantes; ou nas caras daqueles que ficam enfurecidos pelos manifestantes. É o que acontece quando a sociedade, no geral, perde a capacidade de perdoar. Passo a passo tornamo-nos mais, e não menos, capazes de actos monstruosos.

E pior, sentimo-nos bem com isso, como se tivesse sido feita justiça (“karma”). Na ausência da misericórdia, da magnanimidade, do perdão – as verdadeiras qualidades que ficam frequentemente para lá do alcance das palavras – a distinção entre homicida e vítima desaparece. A alma humana é reduzida a um fragmento no contexto de um malévolo “nós contra eles”.

Claro que a é preciso fazer-se justiça. Talvez alguns polícias deviam ir para a forca, ou para onde o consenso liberal decidir. Mas se procuramos apenas justiça, a justiça será a última coisa que alcançamos. E, como os cristãos de ontem bem sabiam, a história não termina no cadafalso.

 

David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 28 de Agosto de 2020 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A Voz do Autor

Pe. Paul Scalia
Uma leitura superficial dos motins deste verão dir-nos-ia que se trata de uma rejeição da autoridade. Claro que se trata, sim, de uma rejeição de algum tipo de autoridade. Mas isso não significa que rejeitem a autoridade per se. Pelo contrário, os manifestantes são uma autoridade para consigo mesmos. Ninguém se atreve a divergir dos seus dogmas. A cultura “woke”, que despreza de tal forma as figuras tradicionais de autoridade, exerce uma autoridade muito mais severa e censória do que as instituições que rejeita. Amordaça a dissidência e excomunga os hereges muito mais rápida e absolutamente do que qualquer inquisição alguma vez fez.

Nada disto nos deve surpreender e, de certa forma, não os podemos culpar. A atitude autoritária anti-autoridade a que estamos a assistir é simplesmente uma distorção de algo que é um bem para os homens. A questão é que teremos de reconhecer alguma autoridade. Fomos criados para isso. Somos criados por e para o Autor da vida. Enquanto criaturas estamos programados para escutar e obedecer à voz do Criador, procurá-lo e à sua autoridade.

Infelizmente, devido à ferida profunda na nossa natureza humana, esta busca pelo Autor porta-se, por vezes, como um míssil errante, que se desvia louca e desastrosamente do seu alvo. Podemos remover Deus das nossas vidas, mas não podemos remover das nossas almas a tendência para a autoridade. Por isso, na nossa revolta contra o Autor da vida, em vez de nos libertarmos (como pensamos) submetemo-nos a falsas autoridades e contentamo-nos com falsidades: o estado, seitas, raça, ideologias, cientismo, etc. São ídolos que nós fazemos e que nos escravizam ao erro.

Na sua misericórdia, nosso Senhor entregou-nos da escravidão. Estabeleceu a sua Igreja para ser a voz do Autor no mundo.

Eu te digo, tu és Pedro,

e sobre esta rocha edificarei a minha igreja,

e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Eu te darei as chaves do reino do Céu.

O que ligares na terra será ligado no Céu;

e o que desligares na terra será desligado no Céu.

Estas são palavras solenes e autoritárias: E eu te digo. E são sobre autoridade: Eu te darei as chaves do reino do Céu. Aqui o Autor de todas as coisas estabelece a Igreja e confere-lhe a autoridade para ensinar a sua verdade de forma autêntica e sem erro. A Igreja torna-se, assim, a sua voz no mundo, o “Oráculo de Deus”, como lhe chamou o cardeal Newman. Esta autoridade da Igreja corresponde ao nosso desejo de uma voz clara. Pela nossa natureza procuramos o Autor, mas muito facilmente nos desviamos. Assim, Ele estabeleceu a Igreja para ser para nós a sua voz infalível, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.

Longe de ser uma imposição divina, então, a autoridade da Igreja dá-nos liberdade. Liberta-nos dessas autoridades falsas que escravizam. A sua voz diz agora, de facto, Não sigam essas falsas vozes que só conduzem à morte. Aqui está o Autor da vida que vos fala em verdade e autenticidade, para vos conduzir à vida.

É uma autoridade bem séria. Mas está ordenada para a nossa felicidade. E não é contradição nenhuma ver que tal autoridade – de ligar e de desligar – está intrinsecamente ligada à nossa felicidade. Como qualquer pessoa sabe, o jogo só começa com o apito inicial do árbitro e essa autoridade – de validar e de anular em campo – garante que o jogo seja divertido. Sem ela, as coisas começam rapidamente a desenvencilhar-se. Um jogador faz batota para ganhar, o outro pega na bola e leva-a para casa. A alegria dos filhos de Deus não é diferente: dependemos da voz do autor para defender o jogo.

 ideia de que podemos viver sem autoridade é uma coisa singularmente moderna. As grandes disputas na Igreja antiga não eram sobre a existência de autoridade, mas sobre quem a devia exercer. Hoje o mundo descarta a autoridade da Igreja, como faz com todas as outras. Isso não significa que as pessoas estão libertadas da autoridade, apenas que se passaram a sujeitar às versões contrafeitas.

No mundo antigo a autoridade da Igreja defendia a verdade de Nosso Senhor contra as grandes heresias cristológicas. No Século XVI defendeu a verdade da Igreja contra a revolta protestante.

Hoje a voz do Autor deve defender a prerrogativa mais básica de Deus: a Criação. O Papa emérito Bento XVI descreveu o nosso tempo como o “do pecado contra Deus o Criador”. No centro disto encontra-se a ideologia transgénero, a rejeição da natureza humana, que ao mesmo tempo que descarta a autoridade da Criação condena todos os que questionam a sua própria autoridade.

“O que muitas vezes se expressa e se compreende com o termo ‘género’ acaba por ser a tentativa do homem de se emancipar da criação e do Criador. O Homem quer ser o seu próprio mestre, e determinar sozinho – sempre e exclusivamente – tudo o que lhe diz respeito. Porém, desta forma vive em oposição à verdade, em oposição ao Espírito Criador.”

(Bento XVI, 2008)

No início é uma liberdade intoxicante, a de sermos os nossos próprios criadores, nossos próprios deuses. Mas rapidamente cansa. Sermos autoridade para nós mesmos é demais para nós. As coisas, tais como são, acabarão por se desenvencilhar.

O Concílio Vaticano II fez uma observação maravilhosa: “Sem o Criador, a criatura desaparece”. (GS 36; cf. CCC 49). Vemos agora que isso também funciona no sentido contrário: ao negar a nossa natureza de criaturas, o Criador desaparece de vista.

Mais razão ainda para rezar para que a voz infalível do Autor se torne mais clara e mais forte, para defender a verdade do Criador e da criação. Pois “quando Deus é negado, a dignidade humana também desaparece. Quem defende Deus defende o homem” (Bento XVI, 2012).

 

O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Agosto de 2020 em The Catholic Thing

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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O que é que Deus está a Fazer Agora?

Randall Smith
Há quem acredite que consiga ver o “arco da história” e que sabem para onde esta se dirige. Pessoalmente, não tenho jeito nenhum para adivinhações. Eu acredito na Divina Providência, mas não contem comigo para tentar perceber o que é que Deus está a fazer, ou quais as suas intenções num determinado momento.

Se acontecer um conjunto afortunado de eventos, já aprendi a ter cuidado antes de concluir “ah, Deus deve estar contente comigo e quer que eu faça X”, sendo X “casar com aquela miúda”, “aceitar aquele emprego” ou “comprar aquele carro”.

E com os santos aprendi (não que seja grande aluno) que quando acontecem coisas más não devo concluir (como acontece frequentemente) que “Deus claramente odeia-me e quer que eu falhe”.

Eu sei que devo confiar que Deus está a fazer a sua cena, mesmo que eu não consiga compreender o que Ele possa ter em mente, e que devo simplesmente ir confiando naquilo que sei: não matar, não roubar, não mentir, fazer aos outros, amar a Deus como Ele me ama, rezar, amar os meus inimigos. Isto são coisas que Deus deixou muito claras.

Mas mesmo eu começo a desconfiar se Deus não nos está a dizer alguma coisa quando a “cultura do cancelamento” se lança a: Junipero Serra, padroeiro das vocações, numa altura em que precisamos de novos padres como de pão para a boca; do padre Damião de Molokai, um homem que se dedicou a uma ilha que servia para a quarentena de leprosos, numa altura em que precisamos desesperadamente de padres que passem para lá da cortina de ferro da quarentena para ministrar aos doentes; e Flannery O’Conner, uma mulher que escreveu de forma tão brilhante sobre o vazio do Cristianismo americano sem Cristo e sem Cruz, numa altura em que o Catolicismo americano precisa, desesperadamente, das lições que ela tem para nos ensinar sobre como a graça opera num mundo decaído. 

Seria assim tão estranho perguntar se não estamos a ser ensinados neste momento da história através de uma espécie de “psicologia invertida”? Trata-se da técnica através da qual se tenta persuadir alguém, proclamando uma crença ou um comportamento contrário ao desejável, na esperança de que a outra pessoa compreenda o quão tolo, ridículo ou ofensivo é.

O quê? Estão a derrubar estátuas do Serra? Mas precisamos de padres! O quê? Querem ver-se livres do padre Damião? Mas precisamos de padres que visitem os doentes! O quê? “Cancelaram” Flannery O’Connor? Mas as suas obras dirigem-se aos desafios espirituais deste momento cultural mais profundamente do que quaisquer outras!

Ou será esse mesmo o ponto? Ah, seu Deus matreiro!

Mas não olhem para mim. Eu não faço a menor ideia o que Deus tem em mente nestes dias.

Por exemplo, Deus, porque é que uma universidade supostamente católica em Maryland retiraria o nome de Flannery O’Conner de um dos dormitórios?

E porque é que o editor de um “National Catholic Reporter” supostamente católico descreveria Alexandria Ocasio-Cortez, a mesma mulher que descreveu a estátua do padre Damião na capital como um exemplo de “cultura supremacista branca” como “o futuro da Igreja Católica”, elogiando a sua “paixão pela justiça e a dignidade humana”, embora a Ocasio-Cortez apoie o aborto a pedido, o financiamento público do aborto e leis que obriguem os hospitais católicos a fornecer operações que violem as suas crenças?

Porque é que o católico Joe Biden se tornou tão ferozmente pró-aborto, ao ponto de prometer que vai obrigar as Irmãzinhas dos Pobres a pagá-los; aliás, porque é que tantos dos políticos pró-aborto, incluindo Nancy Pelosi e Andrew Cuomo, são “católicos”?

E não é estranho que um homem como Donald Trump se tenha tornado o Presidente antiaborto mais consistente das últimas décadas?

Pe. Damião, amigo dos leprosos
Querido Deus, o que é que andas a fazer? Como é que estas coisas encaixam?

Os santos iluminam todos os tempos, por isso não deve ser mistério algum que eu os ache especialmente iluminadores agora, num tempo de grande escuridão, ou em que os poderes da escuridão parecem ansiosos para extinguir a sua luz. Quando abro a Summa de São Tomás de Aquino, em praticamente qualquer página, encontro palavras de sabedoria para os nossos tempos, por isso não é para mim grande surpresa que as pessoas que odeiam a fé católica queiram que ela não seja lida por ninguém.

Mas porque é que encontro mais interesse por Aquino entre certos protestantes e agnósticos do que encontro em tantas instituições ostensivamente “católicas”? E porque é que essas instituições católicas varreram Aquino, os padres da Igreja e a logica para fora do currículo precisamente numa época em que fazem mais falta?

Porque é que tantas instituições de educação católicas estão num estado tão miserável, sem qualquer sentido de missão católica, competências básicas administrativas, ou respeito pela dignidade dos seus trabalhadores? O Papa Leão XIII propôs que os católicos fossem a levedura na sociedade, para ajudar os estados-nação emergentes a incorporar os princípios católicos, mas isso foi numa altura em que a Igreja Católica tinha o sistema de educação mais impressionante do mundo, desde a primária às universidades mais avançadas. Mas como é que é suposto respondermos agora a esse apelo depois de gerações de líderes católicos terem vendido esse seu direito de nascença por um prato de lentilhas? A sério que não percebo.

Mas não suponho que Atanásio tenha compreendido o que Deus tinha em mente quando o mundo se deixou enlouquecer pelo Arianismo depois do Concílio de Nicéia, como tende a enlouquecer depois de qualquer Concílio Ecuménico desde então. E também não suponho que João Paulo II tenha compreendido o que Deus pretendia quando a sua mãe e o seu pai morreram na sua juventude e depois viu o seu país dominado primeiro pela tirania nazi, depois pela soviética.

Citando T. S. Eliot,

 apreender

o ponto em que o intemporal se cruza

com o tempo, é a ocupação dos santos –

 E isso não sou eu.

Portanto se me perguntarem “qual é a vontade de Deus agora?”, lamento mas não tenho nada melhor para oferecer do que “Não matar, não roubar, não mentir, não cometer adultério, amar o próximo, rezar, amar até os inimigos”. E quanto ao resto, vamos ter de confiar em Deus.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 12 de Agosto de 2020)

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Aguardando o Relatório McCarrick

Stephen P. White
O Cardeal Dolan, de Nova Iorque, deu uma conferência online para o clero na terça-feira e disse que, segundo as suas fontes, o relatório McCarrick deverá sair ainda este mês. Disse ainda que não sabe o que o relatório contém. Esta última afirmação é credível, quanto à primeira, esperemos para ver.

Faz dois anos desde que o Vaticano anunciou que iria preparar um relatório sobre o caso de Theodore McCarrick. Sobre a divulgação do relatório, o cardeal Parolin disse que esta “depende do Papa. O trabalho que foi feito está feito, mas a palavra final cabe ao Papa… Acho que sairá em breve, mas não vos posso dizer precisamente quando”. Isto foi no início de Fevereiro.

Já passou o segundo aniversário da resignação de McCarrick do Colégio dos Cardeais. Desde então a Conferência Episcopal americana votou duas vezes contra a ideia de pedir publicamente ao Papa que publique o relatório completo de imediato.

Para quase todos – incluindo muitos bispos individuais, se não em conjunto – a publicação do relatório é um passo necessário e evidente para garantir a transparência. Idealmente essa transparência conduziria à responsabilização. Prestar contas aos fiéis pela confiança que lhes foi roubada deveria parecer uma mera questão de justiça.

Mais do que isso, a publicação do relatório McCarrick é um passo necessário rumo ao tipo de reconciliação de que a nossa Igreja, tão dividida e marcada, precisa tão urgentemente. Se os nossos pastores querem recuperar a confiança que foi desbaratada, então têm de estar dispostos a dizer quais as falhas que querem ver perdoadas. Os pedidos de perdão e reconciliação da hierarquia soam a falso enquanto esta continuar a esconder dos seus membros a verdadeira dimensão daquilo que os nossos líderes fizeram ou não fizeram.

Não é por acaso que os católicos são obrigados a confessar pecados graves em número e espécie antes de poderem receber a absolvição. E não que Deus seja forreta com o seu perdão, mas porque o penitente que não esteja disposto a revelar de forma sincera os seus pecados ao Senhor, um penitente que não esteja verdadeiramente contrito, não está pronto a ser perdoado.

Como é que prelados, sejam eles bispos, cardeais ou Papas, que não sejam capazes de revelar de forma sincera os males que foram cometidos – e o mal que foi feito aos fiéis – podem esperar perdão e reconciliação? Não é que os fiéis sejam forretas com a misericórdia, mas porque a recusa em ser honesto é um sinal claro de falta de contrição.

Até certo ponto é compreensível que Roma se preocupe que o relatório McCarrick seja tão disruptivo e prejudicial para a Igreja dos Estados Unidos que seja melhor esconder a verdade do mundo, ou pelo menos aguardar até que as consequências possam ser mais facilmente mitigadas. Nalguns casos de más notícias isto pode até ser sensato. Mas no caso McCarrick o silêncio da Igreja e a falta de transparência são preocupantemente semelhantes à cultura de encobrimento que nos trouxe até este ponto.

Quanto mais tempo se atrasar o relatório McCarrick, mais a ferida aberta entre o rebanho e os pastores irá deteriorar-se.

E acontece que esta desconfiança é prejudicial tanto para os fiéis como para a

Theodore McCarrick

 Igreja no seu todo. Prejudica também todos aqueles cujos nomes foram manchados pela proximidade a McCarrick – homens que, se estiverem inocentes de qualquer mal, merecem ser ilibados aos olhos do público.

Depois de o arcebispo Viganó ter publicado o seu “testemunho” bombástico há dois anos o cardeal DiNardo, então presidente da Conferência Episcopal, emitiu uma resposta 

ponderada e séria: “As questões levantadas merecem respostas conclusivas e baseadas nas provas. Sem essas respostas, homens inocentes podem ser manchados por falsas acusações e os culpados ficam livres para repetir os pecados do passado”.

A desconfiança e a divisão que se têm multiplicado na Igreja nos anos mais recentes (e claro que nem tudo tem a ver com McCarrick) pioraram nestes últimos tempos, sobretudo nos Estados Unidos. Penso que isto é claro para todos. A necessidade de reconciliação é urgente e evidente. A publicação do relatório McCarrick, só por si, não vai resolver as divisões da Igreja, mas o adiamento da sua divulgação é um obstáculo cada vez maior a essa cura.

Muitos católicos perguntam se o relatório, quando for finalmente publicado, será uma manobra de diversão ou um relato completo e honesto. A longa demora pode bem indicar que o relato vai ser honesto, mas o atraso é também um obstáculo à reconciliação porque nos recorda constantemente da cultura institucional de impunidade clerical que durante décadas marcou a forma como se lidou com os casos de abusos na Igreja.

Nem toda a transparência, honestidade e responsabilização do mundo podem sarar as feridas dentro da Igreja. O tipo de reconciliação de que a Igreja precisa requer o perdão daqueles que foram prejudicados. Para a maioria dos católicos, mesmo os que não são vítimas de abusos sexuais, esta é uma proposta exigente.

Estamos preparados para responder à honestidade – caso ela surja – com misericórdia? Estamos preparados para acolher as verdades duras com humildade em vez de espírito vingativo? Em vez de olhar para o outro lado ou desculpabilizar os pecados e os crimes?

Estamos preparados para acolher bem aquilo que tantos de nós exigimos há tanto tempo? Estamos preparados para a honestidade? Estamos preparados para confiar? Estamos preparados para perdoar? Estas são as questões que devemos estar a colocar-nos e cujas respostas devemos estar a preparar, enquanto esperamos.

 

Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020)

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