terça-feira, 21 de Outubro de 2014

De corruptos e mau hálito

Ah! Corrupto...
O Vaticano publicou hoje o programa oficial da visita do Papa Francisco à Turquia. Francisco viaja no fim do mês de Novembro. O ponto alto é o encontro com o Patriarca Bartolomeu e não está prevista uma ida aos campos de refugiados na fronteira com o Iraque. Prevista é a palavra-chave.

Ser corrupto é como ter mau hálito. Quem o diz é o Papa, na altura em que era Arcebispo de Buenos Aires. A frase faz parte de um ensaio, publicado agora em forma de livro pela Gradiva.

O terrorismo islâmico chegou ao Canadá. Um soldado morreu depois de ter sido atropelado por um fundamentalista.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Acabou o sínodo, Viva Kobani!

Paulo VI, novo beato
O sínodo acabou… por enquanto! Para o ano há mais, e vai ser muito interessante ver o que se passa nos entretantos.

Os pontos mais polémicos foram amenizados no relatório final, e mesmo assim não conseguiram maioria qualificada. Mas o grande destaque terá ido para o discurso fantástico do Papa no encerramento dos trabalhos, apontando o dedo aos piores defeitos, tanto de conservadores como de liberais.

Pela minha parte, depois de uma semana a acompanhar praticamente tudo o que se dizia ou escrevia sobre o sínodo, passei o dia crucial num casamento. E foi a melhor coisa que podia ter feito, como explico aqui.

O Papa aproveitou a presença em Roma de vários bispos do Médio Oriente para convocar um consistório para se falar da crise dos cristãos naquela região do mundo. Não nos podemos resignar a um Médio Oriente sem cristãos, diz Francisco. Eu aplaudo!

Como aplaudo o facto de os curdos em Kobani estarem finalmente a receber reforços, tanto de homens como de material de guerra, comida e medicamentos. A coisa está melhor na guerra com o Estado Islâmico, mas ainda há muitas dificuldades pela frente.

Entretanto a Igreja tem mais um beato. Paulo VI. Adriano Moreira fala da relação entre o Papa e Salazar e o cardeal Ré recorda ter trabalhado com o Papa Montini.

O Sínodo, Eu, a Nena e o Peu

Eu sou do tempo em que os sínodos eram chatos...

Lembro-me de vários sínodos da Igreja ao longo da última década e a única coisa que todos tiveram em comum é que eram aparentemente inúteis e profundamente maçadores.

Claro que para os bispos que neles participavam havia de haver alguma utilidade, nem que fosse pelo facto de estarem juntos e conhecerem-se melhor, aprofundando este ou aquele tema, mas quem é que se lembra, sinceramente, de algo de novo ou de marcante que tenha saído do sínodo sobre a Eucaristia?

Mas depois veio o Papa Francisco e o sínodo para a família e algo me diz que nada vai ser igual.

De positivo, por isso, temos esta animação toda, para começar. Temos verdadeiras trocas de ideias, temos bispos “à pancada”, como acontecia antigamente nos concílios ecuménicos decisivos. Temos um modelo em que, a confiar no que o Papa tem dito, aquilo que sai do sínodo vai mesmo ser tido em linha de conta para qualquer decisão final.

Em relação à temática tivemos vários meses com a Igreja a aprofundar temas que nos tocam a todos, porque a família é verdadeiramente a célula base da sociedade e quando está mal é esta que sofre.

Mas nem tudo foi bom. É natural haver diferenças de opinião e até discussões, mas é um bocado triste ver que mesmo entre os sucessores dos apóstolos há politiquices e manhas. Eu até acredito que seja inevitável, que seja sempre assim, até certo ponto, mas quando fica exposto custa mais. A leitura do relatório intercalar, com o cardeal Peter Erdo a ter de assumir a autoria de um texto com o qual claramente estava em profundo desacordo; o facto de se ter produzido um documento que, a julgar não só pelas palavras de vários bispos mas também pela votação final, não traduzia minimamente a opinião dos padres conciliares... tudo isso custa a ver.

Porque não se podem esquecer, os nossos bispos, que muita gente ficou com esperanças de que este sínodo se traduzisse numa alteração das regras em relação a questões que são para elas feridas em aberto. Não estou agora a ajuizar se essas mudanças seriam benéficas ou não, apenas que havia muita gente a quem foi dada esperança que afinal era infundada. Isso conduz a desilusão e a revolta.

Mas talvez uma das coisas mais lamentáveis a que assistimos foi o extremar total de posições, entre liberais e conservadores. Se me parece, sinceramente, que muitas das “manobras” a que me referi acima foram levadas a cabo pelos liberais, também não foi bonito ver a reacção dos defensores do status quo. Um caso extremo foi em relação ao Cardeal Kasper, figura de proa da “mudança”, que fez umas declarações muito parvas sobre os africanos, mas que não eram muito mais do que isso, parvas, e acabou por ser acusado de tudo, incluindo “racismo e xenofobia”. O triunfalismo nesses dias dos que durante tanto tempo tinham vivido com o medo de que a sua linha vencesse no sínodo era palpável, e desagradável.

O discurso final do Papa foi, neste sentido, absolutamente brilhante e é talvez o texto com que mais me identifico em todo este processo.

A proposta do Kasper, de haver casos em que as pessoas em uniões irregulares pudessem comungar, nunca me convenceu inteiramente. Não que eu seja frontalmente contra a ideia, (como foi evidente quando escrevi este texto, que deu uma longa discussão e desembocou neste), mas porque o seu raciocínio nunca me pareceu suficientemente sólido. Havia coisas vagas que simplesmente deixava no ar e não conseguia tranquilizar quem dizia que na prática o sistema iria fragilizar a ideia da indissolubilidade do casamento.

Pior foi a campanha em que depois se lançou, dando entrevistas atrás de entrevistas, mas reagindo como que ofendido quando o “outro lado” ripostava; alegando que falava em nome do Papa (mesmo que ele saiba que o Papa concorda com ele, o Papa tem boca para falar e não precisa da sua ajuda)... foi-me desencantando cada vez mais e penso que ele acaba por ser o maior derrotado de toda esta situação, o que é pena, porque a história de um sínodo não devia ter de ser contada através de vencedores e derrotados.

Foram duas semanas muito intensas, para quem viveu este sínodo de perto. No meu caso a acompanhar conferências de imprensa na net, a seguir ao máximo o que se escrevia nas redes sociais, nos órgãos de comunicação especializados, etc. E a verdade é que ao fim destes dias todos, em que todos falavam só de rupturas, uniões irregulares, casos dramáticos e complexos, comecei, talvez tenhamos começado todos, a perder a perspectiva daquilo que estava verdadeiramente em causa.

Por isso é que tenho a agradecer à minha cunhada e ao meu cunhado terem marcado o casamento para o dia 18 de Outubro. Certamente não faziam ideia quando agendaram, mas o facto de eu ter passado o sábado a festejar o seu casamento e não a acompanhar a recta final do sínodo fez-me mais bem do que se possa imaginar.

Sentado naquela igreja, a ver uma assembleia repleta de pessoas com perfeita noção do que se estava a passar; a responder em uníssono na celebração; com música sacra variada mas sempre belíssima (apesar de me terem colocado no coro); com cinco sacerdotes à volta do altar, sinal de que estávamos a assistir ao final de uma caminhada que foi feita sempre em Igreja; com uma festa a seguir que foi divertidíssima, sem excessos, com uma diversão sempre saudável e um entrosamento perfeito entre gerações.

Olhar para aqueles dois noivos, um homem e uma mulher, como Deus quis, a jurar fidelidade e amor para toda a vida, como Deus quis, unidos não só por um amor multifacetado mas também por uma profunda fé; Sabendo que estávamos diante de duas pessoas que têm a mais perfeita noção daquilo que estão a fazer; Sabendo que embora nada esteja garantido nesta vida, ninguém hesitaria em dizer que acreditamos que sim, este casamento é até que a morte os separe; Sabendo que há desejo de ter filhos, amor à vida e generosidade para a acolher.

Enquanto dançava na pista com a minha filha de seis anos, encantada com tudo aquilo, eu pensava nas duas semanas que se passaram e dizia para mim: “Deus queira que os bispos que lá estão possam viver experiências destas. Deus queira que aqueles que estão a falar do casamento não saibam só o que são os casos perdidos, complexos, nulos ou irremediáveis. Deus queira que eles tenham sempre presente que quando se fala de casamento é disto que se fala. Porque se assim for, estamos bem. Mas se não for, então algo está mal.”

Sim, eu lembro-me de quando os sínodos eram maçadores e chatos. E ainda bem que já não são! Mas mais do que isso, obrigado, Nena e Peu, por terem salvo o sínodo para mim e por terem mostrado a todos os vossos convidados o que Deus quer para os seus filhos tão amados.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Cardeal Marx e Dança do Ventre nos Açores

O sínodo dos bispos está na fase final. Hoje houve folga enquanto se prepara o relatório final. Na sala de imprensa esteve o cardeal Marx, que disse que “obviamente” a Igreja tem liberdade para mudar a as regras sobre comunhão para divorciados e recasados.

Esta sexta-feira a Renascença começa a publicar uma série de reportagens sobre o Papa Paulo VI, que é beatificado no domingo. D. Manuel Clemente fala da importância do Papa do concílio e aqui podem ver filmagens da primeira visita de um Papa a Portugal.

Já esta manhã o Vaticano promoveu uma conferência de imprensa em que falou da cura milagrosa de um feto, que permitiu esta beatificação.

A Renascença terá todo o acompanhamento tanto da beatificação como do final do sínodo, por isso vá consultando o site e ouça a emissão especial de domingo, que começa às 9h00

O presidente da Cáritas Portuguesa está estupefacto com o Orçamento do Estado de 2015. Já o bispo do Porto aponta duas críticas, mas faz também um elogio.


Da Nigéria chega a notícia de que há um cessar-fogo com o Boko Haram que envolve a “devolução” das mais de 200 raparigas raptadas há mais de seis meses.

Más notícias para todos os católicos açorianos adeptos de danças orientais! Acabaram-se as danças do ventre nas igrejas daquele arquipélago. Pois, eu também não sei muito bem como reagir a esta notícia…

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Madre Teresa a governadora!

Em Kobani, rostos de civilização e heroísmo
Os bispos no sínodo da família apresentaram hoje os relatórios dos grupos de trabalho e são bastante menos “liberais” que o relatório intercalar, que tanta polémica causou, de segunda-feira. A Aura Miguel leu os dez relatórios dos grupos e apresenta o essencial aqui.

Esta manhã o Cardeal Schönborn esteve na sala de imprensa da Santa Sé onde disse que as diferenças de opinião no sínodo são normais: “É como uma mãe que diz ‘cuidado, é perigoso’, quando o pai diz para não ter medo”. Uma analogia muito apropriada!

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre lançou uma grande campanha humanitária pelos cristãos no Iraque. Não se esqueçam que há centenas de milhares de pessoas em campos de refugiados e aproxima-se o inverno…

Más notícias também do Paquistão, onde Asia Bibi viu a sua condenação à morte por blasfémia confirmada pelo tribunal de recurso. Resta agora o supremo…

A resistência dos curdos em Kobani, após um mês de cerco e ataques pelo Estado Islâmico, assume proporções épicas. Hoje, com a ajuda de um reforço dos ataques aéreos da coligação liderada pelos americanos, conseguiram passar à ofensiva e recuperar pontos estratégicos. Viva Kobani!

E por fim, a solução para todos os problemas políticos! O bispo de Rhode Island pede aos seus fiéis que, nas próximas eleições para governador, votem na… Madre Teresa.

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Lost in Translation

Depois da tempestade, a calma. Hoje a conferência de imprensa do sínodo foi só palmadinhas nas costas e sorrisos. Afinal somos todos amigos, ao que parece! Interessante o arcebispo Fisichella a dizer que há um “boicote” ao ensino dos métodos naturais de planeamento familiar e a considerar que onde há uma fé forte há famílias fortes.

Mas afinal de contas há polémica ou não há? Há. Mas uma boa parte talvez não devesse haver, uma vez que surgiu por causa de um erro de tradução. Incrível? Tudo é possível com a sala de imprensa da Santa Sé.

D. Manuel Clemente, o participante português, faz o seu resumo da primeira semana, aqui.

Os bispos portugueses afirmaram ontem estar em sintonia com o que se passa no sínodo, o que não deixa de ser interessante, tendo em conta que os participantes do sínodo não estão em sintonia uns com os outros…

Mas muito mais importante é o facto de a CEP apoiar e incentivar a iniciativa legislativa de cidadãos “Pelo Direito a Nascer”, que foi apresentado no final da Caminhada pela Vida do passado dia 4 de Outubro.

Hoje é quarta-feira e publicamos um novo artigo do The Catholic Thing. David G. Bonagura pergunta o que temos a ganhar com a fé e conclui que é como estar no meio da Amazónia a tentar chegar a casa – mas com mapa, bússola, mochila e botas.

Que diferença faz ter fé?

David G. Bonagura, Jr
Que diferença é que a fé traz para a vida dos crentes? O que é que os crentes têm que falta aos não crentes?

Há sondagens que indicam que os crentes são mais felizes que os não crentes, e outras que indicam o contrário. Mas a mera experiência diz-nos que nem todos os crentes são felizes (no sentido de bem-estar geral), ou sequer pessoas com quem queiramos passar uma tarde. E há mais do que um caso de não crentes cuja boa-disposição faz deles excelente companhia.

Por isso a fé tem de servir para algo mais do que felicidade individual, embora as duas coisas não se excluam. Se a fé vale mesmo a pena, tem de transcender os limites da pessoa que a possui.

O que é que a fé dá aos crentes? Uma forma de vida e disposição completas. Uma relação pessoal e ilimitada com Deus, seu criador, que lhes fala no interior do coração. A pertença a uma Igreja que os une a todos, vivos ou mortos, como irmãos e irmãs no Espírito Santo. Um compromisso para com a caridade que, quando vivida como deve ser, enaltece a relação com Deus e com os outros. A certeza de que as suas vidas e o universo, criadas com um propósito e um valor intrínsecos, estão nas mãos da providência. Uma verdadeira esperança de que existe uma vida para além deste vale de lágrimas.

Estes dons da fé não são do género que marca pontos nas sondagens seculares, mas continuam a ser atributos indispensáveis daquilo a que Sócrates chama uma vida examinada – imbuída de sentido, direcção e esperança. Mas a vida da fé não é uma mera visão intelectual ou compromisso, como o optimismo ou o humanismo. A fé é uma realidade vivida, não apenas uma ideia que se tem, porque consiste de um encontro dinâmico com um Deus vivo que ama.

Os não crentes não reconhecem esta relação fundamental com Deus que devia, por sua vez dar forma a todas as relações humanas. Sem Deus, estão desprovidos de um sentido para a vida e uma esperança. Em vez disso, são obrigados a criar o seu próprio sentido para a vida, os seus próprios princípios para se relacionarem com outras pessoas, os seus próprios desejos. Com uma estranha ironia, comportam-se como directores executivos de vidas que nunca pediram e para cuja existência nada contribuíram.

Que sentido da vida é que os seres humanos criariam por si? Segundo Henri de Lubac, criam “deuses antropomórficos”, que podem ser os ideais ou os valores de qualquer época. Hoje, pensadores seculares como Steven Pinker defendem o “humanismo científico”, segundo o qual o sentido e a moralidade humanas são determinados pelas conclusões da ciência. Pinker baptiza esta visão do mundo como “a moralidade, de facto, das democracias modernas, organizações internacionais e religiões liberais e as suas promessas por cumprir definem os imperativos morais que enfrentamos actualmente”.
 
Steven Pinker
Mas o que acontece aos não crentes que abraçam (supostamente com bases científicas) as hipóteses filosóficas do darwinismo: que a vida humana não tem qualquer sentido inerente e a vida é apenas o produto do acaso acidental? O que acontece se interpretarem as provas científicas sobre quem deve ser considerado “inteiramente humano” de forma errada, como, por exemplo, os esclavagistas, eugenistas, nazis e abortistas? Afinal de contas foi a ciência que levou Richard Dawkins a dizer, recentemente, que qualquer mulher cujo embrião tivesse trissomia XXI devia: “abortá-lo e tentar de novo. Podendo escolher, seria imoral trazer essa criança ao mundo.”

Por maravilhosa e poderosa que seja a ciência, ela continua a ser um instrumento feito pelo homem para medir a realidade, mas que não a transcende e é a transcendência da nossa condição humana limitada que todos os corações buscam. Mas é também por causa dos nossos limites, diz De Lubac, que o homem “é incapaz de transcender os seus próprios recursos, permanece sempre um prisioneiro da noção muito limitada de individualidade que projectou nos seus deuses”. Logo, o seu “desejo de transcendência… continua sempre a ser ambíguo; um sonho, mas um sonho em que está ameaçado pela ruína e o desespero de acordar”.

Em contraste, os crentes sabem pela sua fé que Deus é simultaneamente a fonte e o objectivo dos desejos dos seus corações. Entre os caprichos da vida – alegria e tristeza, prazer e dor, sucesso e desilusão – mantêm a confiança de que existe uma razão e um propósito para tudo, mesmo que não encontrem respostas para todas as suas questões. Ao aceitar livremente o dom da fé, tornam-se livres para viver as suas vidas, não sem tristeza ou infortúnio, mas sem dúvidas e desespero.

A diferença que a fé traz pode ser vista, então, pela analogia de dois homens deixados sozinhos no meio da Amazónia. O homem de fé tem com ele uma bússola, um mapa, uma mochila, comida, água e botas; o outro insistiu que não precisa senão de si mesmo. Parece evidente qual dos dois está em melhor posição para conseguir regressar a casa.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

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