sexta-feira, 21 de abril de 2017

Extremistas de Jeová banidos na Rússia

Perigosos extremistas!
Desde que enviei o mail ontem surgiram mais algumas novidades sobre a canonização dos pastorinhos. Para começar soube-se alguns detalhes sobre o milagre que permitiu que Francisco e Jacinta sejam proclamados santos e que a família do rapazinho vai estar presente em Fátima durante as celebrações.


A vida vai difícil para os testemunhas de Jeová, na Rússia. O grupo foi banido pelo Supremo Tribunal por ser “extremista”.

O Parlamento discutiu esta sexta-feira uma iniciativa do CDS sobre liberdade religiosa. Os partidos de esquerda abstiveram-se ou votaram contra, por considerar que só falava dos cristãos e não de outras comunidades perseguidas.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A festa vai ser em casa

Confirma-se então que a canonização de Francisco e Jacinta irá ser em Fátima e no dia 13 de Maio, durante a visita do Papa. E como avisei, foi a Renascença a dar a notícia em primeiro lugar!

O bispo de Leiria-Fátima reagiu de imediato, expressando a sua alegria, e o reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas diz que a decisão do Papa confirma Fátima como uma “escola de santidade”.

D. Manuel Clemente diz que esta canonização compromete os portugueses com a mensagem de Fátima e o capelão do hospital D. Estefânia, onde Jacinta morreu, fala da importância dos pastorinhos como exemplo para as crianças que sofrem actualmente.

Neste artigo encontram-se coligidas muitas outras opiniões e reacções, sempre em actualização.

Este foi um processo longo, com final feliz. Pode conhecer os detalhes aqui.

Entre o entusiasmo sobre a canonização de Francisco e Jacinta, fica ligeiramente esquecido outro português que foi mártir no Brasil e vai ser canonizado também este ano.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Críquete por amor a Maria

St. Peter's Cricket Club
Se está a pensar peregrinar a Fátima, não deixe de seguir os conselhos que a Renascença vai dando. Hoje, a importância de ter sempre identificação pessoal e de grupo.

Com a aproximação do centenário das aparições, não há falta de iniciativas comemorativas. Mas nenhuma será mais bizarra que o torneio inter-religioso de críquete em Miranda do Corvo, que conta com a selecção do Vaticano…

Amanhã há consistório em Roma e deverá ser decidida a data da canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta. A Renascença vai estar em cima do acontecimento, sigam online e em antena para serem os primeiros a saber!

E eu sei que isto não tem nada de religioso, mas porque sou pai e já vi tanta gente a crucificar os pais da rapariga que morreu de sarampo, esta manhã, leiam esta notícia para terem acesso a uma versão mais correcta dos factos…

Termino chamando atenção para o artigo desta semana do The Catholic Thing. Voltamos a ter a sorte de poder ler o padre Paul Scalia, desta vez a falar sobre o carácter nupcial da Paixão de Cristo. É fascinante… não percam!

O Esposo

Pe. Paul Scalia
Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale de Cédron, até ao ponto onde havia um jardim (Jo. 18,1). Cristo, o Novo Adão, vai até um jardim para desfazer aquilo que num jardim foi feito. O primeiro Adão vivia num jardim e recebeu uma mulher. Foi lá que se revoltou contra o Pai e falhou em relação à sua mulher. Agora, o Novo Adão vai para um jardim para obedecer ao seu Pai e oferecer-se à sua Esposa. Toda a narrativa da Paixão – desde a agonia de Cristo no horto até às suas palavras finais na Cruz – é nupcial. Nela compreendemos que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef. 5,25).

As núpcias de um noivo e de uma noiva requerem votos – palavras através das quais doam a vida um ao outro, para o bem de um e de outro. Por isso o casamento de nosso Senhor começa com palavras de doação – para todos os efeitos, com um voto. Mas neste caso as palavras são dirigidas ao Seu Pai, para o benefício da Esposa: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc. 14,36). Deste modo oferece-se eternamente à sua esposa. É neste momento que se submete definitivamente à vontade do Pai. O primeiro Adão falhou a sua mulher através da desobediência. O Novo Adão conquista a sua esposa obedecendo: Seja feita a vossa vontade.

Jesus tinha antecipado este momento na Última Ceia: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc. 22,19). O dom de si próprio no casamento não é uma questão apenas de palavras, mas de corpo. O corpo é parte daquilo que somos e, por isso, é essencial no dom de si mesmo. O casamento não tem a ver apenas com bonitos pensamentos e palavras, mas com o dom de corpos, um ao outro; na geração de nova vida através desses corpos; no cuidar do corpo do outro quando o fim se aproxima. Agora, no horto, Jesus oferece definitivamente o seu corpo. O voto tem um efeito corporal. “Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra” (Lc. 22,44).

Todos os casamentos têm as suas dificuldades. O primeiro Adão foi testado pelo malévolo, que o desviou da confiança no Pai e, por isso, do amor pela sua mulher. O Novo Adão também é posto à prova – através de Judas, em quem o demónio entrara: “Apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus” (Mt. 26,47). O demónio, cujas anteriores tentações tinham sido mal sucedidas, encontra aqui o seu “tempo oportuno”. Ao infligir dor, humilhação ridicularização e morte, procura separar Jesus da vontade do Pai e da sua Esposa. Mas será novamente derrotado através da simples confiança e obediência: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 24,46).

Todos os casamentos exigem sacrifício – a vivência dos votos na vida real. As palavras pronunciadas no altar, no dia do casamento, são vividas diariamente através de actos de amor sacrificial, pequenos e grandes. Por isso, a Paixão de nosso Senhor, não é mais do que o vivenciar do seu voto no jardim. Os espancamentos, interrogações, ridicularizações… a flagelação e a coroação de espinhos… o carregar da Cruz e a crucificação. Que são estas coisas se não o viver dos votos? Estão todas implícitas no dom de si mesmo. Assim, no cume do seu sacrifício ele grita que o voto está completo, cumprido, vivido ao máximo. O termo usado é perfeitamente nupcial: “Consummatum est – Está consumado” (Jo. 19,30).

O sacrifício de Cristo, que hoje recordamos [este artigo foi publicado originalmente na Sexta-feira Santa] é a cura de todos os nossos pecados e ilumina toda a nossa escuridão. Dada a confusão que actualmente reina sobre o casamento, porém, devemos compreender o sacrifício como sendo particularmente de Jesus, esposo da Igreja, quem restaura o sentido original do casamento e, através da sua graça, permite aos casais viverem-no (Catecismo da Igreja Católica #1614).

Dito de forma mais simples, a morte do Senhor revela como o casamento deve ser vivido. O seu voto e sacrifício são o padrão para a vida de casado. Os votos que a noiva e o noivo fazem no dia do casamento formam o compromisso de darem as suas vidas – tal como nosso Senhor se comprometeu a dar a sua. As suas vidas de casados devem ser a vivência desse dom – tal como o sacrifício do Senhor foi a vivência do seu voto. Que são todos os pequenos sacrifícios e dificuldades se não o viver dos votos? Os casamentos prosperam e trazem felicidade unicamente na medida em que têm a Cruz do Senhor por modelo.

O dom do seu corpo – na sala da Última Ceia, no horto e na Cruz – recordam-nos aquilo que a nossa cultura preferiria esquecer: A verdade do corpo humano. A contracepção e a esterilização deram início à rejeição do sentido do corpo. Agora, vemos os frutos maduros na “ideologia do género”, que afirma que o meu corpo não sou eu e não tem qualquer significado. Que a nossa adoração do seu corpo crucificado ajude a curar esta maleita.

Na sua Paixão o Senhor mostra ainda a forma simples de ultrapassar as dificuldades do casamento: Obediência à vontade do Pai. Essa simples virtude não lhe permite evitar os desafios, mas triunfar neles. Talvez tenhamos o hábito de complicar demasiado as coisas. Uma obediência confiante na verdade do casamento – permanente, fiel, geradora de vida – permite a um casal não só ir ultrapassando as dificuldades, mas triunfar nelas. É um caminho simples – mas não fácil – que demasiadas pessoas ignoram.

Isto não é apenas para casais casados, mas para todos os fiéis: “Toda a vida cristã é marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja” (CCC 1617). Todos os fiéis beneficiam de casamentos bem vividos – casamentos que obtêm um aumento de graças para a Igreja e que apontam para além deste mundo, para as núpcias do Cordeiro. Nisto, como em tudo, Cristo o Noivo revela a Cruz como spes unica – a nossa única esperança.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

terça-feira, 18 de abril de 2017

Terror no Egipto e miliatares a caminho de Fátima

Militares a caminho de Fátima, fingindo ser servitas...
Espero que tenham tido uma Santa Páscoa! Dificilmente terá sido pior que a de tantos coptas que no Egipto foram vítimas de um brutal duplo atentado no Domingo de Ramos. A Páscoa é uma época em que os terroristas gostam de vitimar cristãos, como aconteceu no ano passado no Paquistão, mas este ano as autoridades paquistanesas e egípcias dizem que impediram vários ataques novos.

São cerca de 100 os militares e familiares que este ano vão peregrinar a Fátima. Conheça mais sobre esta peregrinação muito especial.

Houve uma polémica durante a semana passada sobre as renúncias quaresmais no Patriarcado de Lisboa. Os serviços do patriarcado negam qualquer problema ou mau uso de fundos e dizem onde e como foi gasto o dinheiro desde 2011.

O Patriarca de Lisboa alertou na Quinta-feira Santa para os riscos da manipulação da natureza humana. D. Manuel deu também uma entrevista à Renascença, a propósito dos 80 anos da Rádio, que pode ver aqui.

Veja também a minha entrevista a Santiago, um seminarista Chinês que explica como mesmo antes de nascer os cristãos já são perseguidos naquele país… A transcrição integral da entrevista pode ser lida aqui.

Na quarta-feira passada publiquei um interessantíssimo artigo do Pe. Paul Scalia no The Catholic Thing que, em plena Semana Santa, nos convida a olhar para Judas e vermos até que ponto não temos muito em comum comele. Não deixem de ler, pois é intemporal. 

"Quem é bom: Deus ou o Governo?" O meu avô respondeu Deus

Transcrição integral da minha entrevista ao seminarista "Santiago" de nacionalidade chinesa. A identidade verdadeira é mantida em segredo por questões de segurança. As fotos usadas para ilustrar a entrevista são genéricas de católicos chineses e nada têm a ver directamente com ele. A reportagem pode ser lida aqui.


Nasceu numa família católica? Ou converteu-se?
Sim, nasci numa família católica, eramos cinco irmãos.

Disse cinco irmãos?
Sim, cinco irmãos.

Como é que isso foi possível? Na China não havia a lei do filho único?
Sim. Para nós foi uma experiência de fé. Porque a lei começou nos anos 80, mais ou menos quando eu nasci, e então, segundo esta lei os pais católicos sofriam muito para poderem ter mais filhos, porque para nós o aborto é impensável, é matar uma criança com alma e corpo, por isso, para os pais católicos, os filhos não nascidos também são vida. Por isso os meus pais, para evitar isso, tiveram muitas vezes que viver escondidos, separados de nós, deixando-nos sozinhos em casa, viviam escondidos para fugir à polícia.

Porque durante muitos anos, se a polícia os encontrasse podia cobrar uma multa ou, se a mulher ainda estivesse grávida, podia levá-la a uma clínica e obrigá-la a abortar. Ou tirar-nos tudo o que temos em casa, destruir a casa. Foram situações difíceis, mas a fé ajudou-nos e sustentou-nos sempre para viver firmes.

Há quantas gerações é que a sua família é católica?
Isso não se sabe. Como não temos um livro das gerações da família, mas segundo o que sei os meus pais, os meus avós, todos são católicos.

Pelo menos terceira geração, possivelmente mais...
Sim.

Como é actualmente ser católico na China?
Há muito tempo que a Igreja não tem a liberdade de viver a fé, por isso hoje em dia não é fácil ser católico. Sobretudo ser padre ou bispo é muito complicado, porque o Governo tenta sempre convencê-los a juntarem-se à Igreja Patriótica, então se não o querem fazer podem sofrer muitas dificuldades.

No seu caso, qual é a relação com a Associação Patriótica Católica?
Creio que a primeira coisa a fazer é evitar isso, ter cuidado quando vou a algum lado, porque se não, muitas vezes podem-nos complicar a vida. Eu, pessoalmente, não quero ter relações nenhumas com eles, porque também sei por experiência que não é nada fácil ter uma relação com eles, porque temos de submeter-nos ao que eles dizem.

O seu bispo, por exemplo, é reconhecido?
Não. Até hoje ele tem-se mantido sempre firme na fé. Porque para ele, ser um bispo da Igreja Católica é ser fiel à doutrina da Igreja. Por exemplo, estar em plena comunhão com o Papa e exercer o seu ministério segundo a doutrina que a Igreja nos ensina, obedecer ao Papa e ter consciência da universalidade da Igreja.

Como é que veio parar à Europa?
Vim para receber formação, porque durante muitos anos, como todos os padres e bispos foram enviados para campos de trabalho, trabalhavam todos os dias, quase sem nada para comer... Foi assim durante trinta anos e não havia formação, nem para os fiéis nem para os padres.

Ao fim de 30 anos houve uma certa abertura e então os padres já podem receber uma certa formação. Mas como a formação é mínima, para receber uma boa formação é necessário um estudo sólido na doutrina, por isso fui enviado para a Europa para estudar um pouco. Fiz o seminário em Toledo, em Espanha, e agora estou a estudar em Roma. Quando terminar os estudos regressarei para servir a Igreja e ajudar um bocado, sobretudo na formação.

O que disseram às autoridades sobre a razão da vinda?
É complicado. O Governo dá-nos o passaporte, mas o visto é feito nas embaixadas. Foi muito difícil conseguir o passaporte porque quando fui à polícia pedir diziam que não me iam dar, porque era católico. Foi assim durante cerca de três meses.

Mas pela graça de Deus - e eu vejo aí uma clara intervenção de Deus - em 2008 houve os Jogos Olímpicos e durante algum tempo todos podiam receber o passaporte. Aí, o visto era o mais fácil.

Se o Governo soubesse que eu vinha estudar, seguramente não me deixaria vir. Mas graças a Deus estou aqui.

Quando chegaste à Europa não falavas espanhol, não conhecias a Europa, como foi a integração?
Quando cheguei a Espanha comecei imediatamente os estudos no seminário. Os primeiros anos, sobretudo, de Filosofia, foram muito difíceis porque até para um nativo as coisas são complicadas de entender. Mas eu estudava muito mais que os meus colegas... Muitas vezes nas aulas eu perguntava aos colegas se percebiam o que tinha dito o professor, e também respondiam que não.

Mas isso para mim também foi uma experiência, que quando fazemos a nossa parte o Senhor nos ajuda, seja como for. É difícil? Sim, mas pela Graça de Deus tudo é possível e o Senhor nos ajuda.

A perseguição aos católicos que não obedecem à APC existe em todo o país, ou é diferente de região para região?
Sim. China é um país muito grande. A lei é a mesma, mas a aplicação varia de zona para zona. Nalgumas zonas há mais católicos, se os bispos forem da Igreja Clandestina então a situação pode ser mais difícil... Depende das zonas.

Alguns bispos, como por exemplo em Hong Kong, defendem que não se deve negociar com a China, que é preciso ser duro e exigir apenas a liberdade total dos católicos. Outros, e parece ser essa a linha actual do Vaticano, parecem dispostos a negociar e a aceitar algumas das condições do Governo. Qual é a sua opinião?
Em primeiro lugar, temos a consciência de que o Vaticano quer dialogar com o Governo. Isso é seguramente para o bem das almas e da Igreja, para poder evangelizar os que não conhecem Cristo, porque actualmente os católicos são apenas 1%. Isso, sem dúvida alguma.

Este diálogo não é nada fácil, porque como temos um regime totalitário e não existe liberdade religiosa nem direitos humanos, e como diz o Cardeal Zen, temos de ser firmes, sem dúvida, porque temos alguns princípios na Igreja. A Igreja Católica é universal, logo respeitamos os direitos humanos e a liberdade religiosa. A Igreja não considera que sejam um privilégio, mas sim direitos naturais das pessoas. Sim, temos de ser firmes... Não podemos abandonar as nossas crenças.

Pessoalmente acho difícil, mas também confiamos no Senhor, porque Ele pode fazer grandes coisas. Pela minha experiência, e segundo o que vejo, não é fácil. O que o Vaticano está a tentar fazer é seguramente para o bem da Igreja. Na prática, como estão a dialogar há tantos anos e o resultado, segundo o que eu vejo, não tem sido praticamente nenhum. Conseguiram-se algumas coisas simples, mas isso não é o problema de fundo. O mais importante tem a ver com a nomeação dos bispos, quem decide as coisas da Igreja e isso está a ser negociado. É complicado...

Disse antes que os católicos são 1%, mas há muitos cristãos não católicos. Sabemos que as Igrejas domésticas estão a crescer muito... Vocês vêem esses cristãos como aliados ou adversários?
Eles também são cristãos, têm a sua fé! É uma coisa boa, porque eles também vivem a sua fé e tentam evangelizar os outros para que possam conhecer Cristo, é uma coisa positiva. E para nós, católicos, são um exemplo, porque eles estão a fazer muitos sacrifícios. Os protestantes também são perseguidos, quando não se querem submeter ao regime não podem viver a fé com liberdade, não podem anunciar o nome de Cristo com liberdade.

É o que se passa com os católicos também, mas temos esta dificuldade acrescida da Igreja Oficial e a Igreja Clandestina, todo o diálogo envolvido, tudo isso complica um bocado.

Mas creio que todos, com a graça de Deus, podemos ajudar os nossos irmãos para que eles também conheçam Cristo, porque Cristo é o único salvador do mundo.

Há muitas histórias de perseguição, mas há histórias mais próximas de si?
Sim. Por exemplo o meu avô - isto foi-nos contado, mas segundo a cultura chinesa, somos bastante fechados. Quando uma coisa já passou, não falamos sobre ela entre nós - mas segundo o que me foi contado do meu avô, quando era novo e o meu pai tinha uns 15 ou 16 anos, como a situação era muito difícil, sobretudo durante os dez anos da Revolução Cultural, como não se podia dizer que se era católico nem se podia rezar, porque se a polícia os visse a rezar podiam condená-los a passar muito tempo na prisão.

Naquela altura em cada povoação faziam reuniões em que perguntavam aos católicos se queriam deixar a fé ou não, ou então perguntavam "quem é bom? Deus, ou o Governo?" Quando chegou a sua vez, o meu avô disse "Deus é bom". Só por isto começaram a persegui-lo. Não só uma vez, mas todos os dias, porque ele tinha dito que Deus é bom, porque segundo a sua consciência era assim, e ele o declarou.

Então todos os dias faziam a reunião para o criticar, para insultá-lo e no final, como humanamente - todos somos seres humanos - ele, para não negar a fé, pegou no meu pai e disse-lhe que como agora estavam a fazer-lhes isto todos os dias, a persegui-los, e quem sabe se um dia, por fraqueza podemos negar a fé, então levava o meu pai e fugiram para não negar a fé. Disse: "Vamos para a montanha e levamos alguma comida. Quando acabar a comida morremos, mas não negamos a fé". Isso, para mim, é um exemplo, porque para manter a firmeza da fé, está disposto a dar a vida. É um exemplo, há muitos outros, mas isso para nós sempre nos deu força para viver mais firmemente a nossa fé.

Mas há também histórias de conversão?
Sim. Há histórias de conversões porque quando eles vêem a força que os católicos têm, dizem que tem de haver algo de sobrenatural, porque humanamente ninguém consegue aguentar aquilo. Pessoalmente não conheci conversões tão claras e fortes, mas seguramente na vida quotidiana há muitos que vendo os exemplos dos católicos, pelo menos no seu interior deixam-se impressionar e isso pode ajudá-los a perceber qual é o sentido da vida.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um dos Doze

Pe. Paul Scalia 
Durante a Semana Santa lemos o Evangelho da Paixão, incluindo o momento em que Jesus foi traído. Todos os evangelistas apontam para o facto de que o homem que traiu Jesus era um dos seus amigos mais próximos. No início da vida pública de Jesus, quando chama os Apóstolos, Judas já é descrito como o que o virá a trair (Lc. 6,16; Mt. 10,4; Mc. 3,19). No Evangelho de João é o próprio Senhor quem observa: “Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.” (Jo. 6,70)

Em certo sentido a frase muitas vezes repetida “um dos 12” relata um simples facto histórico. Jesus não foi apenas entregue por um dos seus inimigos, mas traído por um dos seus eleitos. Mas num sentido mais profundo serve também de aviso para todos os que seguem Cristo – mais até para os que lhe são mais próximos. Judas esteve com Jesus durante os mesmos três anos que os outros. Tal como eles ouviu os sermões, testemunhou os milagres e foi enviado por Cristo. Porém, traiu Nosso Senhor. Nunca devemos achar que estamos aquém da maldade de Judas. A proximidade a Jesus nem sempre significa intimidade com Ele.

Faz-nos bem, por isso, reflectir sobre o exemplo negativo de Judas. Não com o objectivo de o condenar novamente nem para nos sentirmos superiores. Pelo contrário, fazemo-lo com uma certa empatia, sabendo que lutamos contra as mesmas fraquezas humanas e que também nós somos capazes de um pecado grave – traição. Então o que é que encontramos no traidor que também possa estar em nós?

Em primeiro lugar, temos a falta de Judas em perseverar na sua conversão. Nosso Senhor escolheu-o com a mesma segurança com que escolheu Pedro e João. Não o fez contrariado nem por necessidade. Quando o Senhor se dirige a Judas como “amigo”, no Jardim das Oliveiras, não o diz por ironia ou sarcasmo. A dada altura a conversão de Judas parece ter falhado. Talvez tenha sido mera preguiça. Talvez um ensinamento que não foi capaz de aceitar. João dá a entender que foi o discurso sobre o Pão da Vida que levou ao afastamento de Judas – daí Jesus se ter referido a ele como “o diabo” no final do mesmo.

Ou talvez Judas se tenha sentido traído pelo Senhor. Poderá ter tido expectativas de um Messias que Jesus não satisfazia – expectativas de glória e de poder, difíceis de conciliar com as repetidas referências ao sofrimento, rejeição e morte do Filho do Homem. Durante três anos ele seguiu este rabino, mas a glória antecipada nunca chegou. Ficou impaciente com a conversa do Senhor sobre sofrimento. Romano Guardini observa, a este respeito, que: “O facto de ele não ter saído, mas ter permanecido como um dos doze, foi o começo da sua traição. Não sabemos porque ficou. Talvez esperasse ir avançando interiormente, ou quisesse saber pelo menos como é que as coisas iam passar-se – a não ser que já sonhasse lucrar com a situação.” (O Senhor).

O que nos leva ao ponto seguinte: A ganância de Judas. Quando Judas protestou com o facto de Maria ter ungido Jesus com um óleo caro, não o fez porque se preocupava com os pobres, mas “porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava”. A ganância é uma questão de sofreguidão. Tem menos a ver com posse do que com controlo – ter os meios ao nosso dispor para não termos de depender dos outros, nem mesmo de Deus. É “prático” no pior sentido da palavra. E Judas era um homem sobretudo prático. Na verdade, uma das teorias é de que ele previu a derrota do Senhor e estava a procurar posicionar-se politica e financeiramente para lucrar com a traição. Uma consideração muitíssimo prática.

Parece ainda haver uma superficialidade sobre Judas, uma tendência de ver apenas as coisas em termos naturais e mundanos (o que não é surpreendente para um homem prático). Na Última Ceia, o Senhor disse aos Seus Apóstolos, “Verdadeiramente, eu vos digo, um de vós me vai trair”. Eles perguntam, um após o outro, “serei eu, Senhor?”. Excepto Judas. Ele pergunta: “Serei eu, rabbi?” (Mt. 26,21-25). Os outros viam Jesus como Senhor. Judas via-o apenas como um rabbi, um professor.

Jesus é traído
Claro que um professor é importante. Mas não se adora um professor. As palavras de um professor podem ser poderosas, talvez até possam mudar a vida. Mas no final de contas não passa de um homem, limitado pela sabedoria do mundo e do tempo. As palavras de Jesus perdurarão. “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mt. 24,35). Judas não parece ter compreendido a profundidade das palavras Senhor nem de se ter confiado à sua autoridade. Talvez elas tenham sido interessantes e desafiantes para ele, mas careciam de autoridade. Quantas vezes não ouvimos dizer o mesmo sobre os seus ensinamentos nos nossos dias?

Finalmente, e tristemente, Judas não se arrepende. Sente remorsos por aquilo que fez, certamente. E isso em si não é coisa pouca. No emaranhado que era o seu coração, ainda sentia algum amor por Jesus. Mas reparem: Não é a Jesus que ele torna, mas aos sumos-sacerdotes, que com ele conspiraram. Diante deles é que ele reconhece o seu pecado. Judas não sente arrependimento, mas remorso. No arrependimento voltamo-nos para o bom Deus, para o Redentor, para aquele que é Misericórdia. À sua luz, rejeitamos o pecado. Com os remorsos olhamos para nós próprios, voltamo-nos cada vez mais para o nosso interior e fechamo-nos para a reconciliação e a cura que vêm apenas de Deus.

Durante a Semana Santa gostaríamos de ser mais como João, que permaneceu fielmente aos pés da Cruz, ou como Maria Madalena, que manteve uma triste vigília no Calvário. Mas isso seria presunção da nossa parte. Esta não é a hora de pensar nas nossas forças, mas nas nossas fraquezas. Não é tempo de olhar de soslaio para Judas, mas de compreender que caminhamos à sombra da mesma fraqueza humana que ele.

Como Judas, não perseveramos na nossa conversão. Satisfaz-nos a piedade em vez da santidade. Desviamo-nos quando o caminho se torna difícil e assim não aprofundamos a nossa devoção. Talvez até nos sintamos traídos pelo Senhor – se Ele não atendeu as nossas orações como queríamos, ou não correspondeu à imagem que tínhamos dele.

Como Judas, somos sôfregos – por dinheiro, posses, poder. Numa palavra, por controlo, para mantermos à distância a nossa dependência de Deus. Como ele, tendemos para a superficialidade, tornando a nossa fé um assunto meramente de sabedoria humana, intuições interessantes, conforto psicológico em vez de um encontro com a Palavra feita carne. Adoptamos uma visão mundana da religião em vez de tentarmos pensar como Cristo.

Logo, não nos confiamos às suas palavras como devíamos; A não ser que se tornem como crianças, não entrarão no Reino do Céu… Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, vive em mim, e eu nele… Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrarás; batei se ser-vos-á aberto… Assim como fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes.

E mais que tudo falhamos no aprofundamento do nosso arrependimento. Sentimos remorsos por nós mesmos, porque os nossos pecados nos deixam mal vistos. Por todos estes pecados e estas falhas, o Senhor concedeu-nos agora a oportunidade para o verdadeiro arrependimento: “É este o tempo favorável, é este o dia da salvação” (2 Cor 6,2)


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 9 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Partilhar