quarta-feira, 20 de maio de 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



quarta-feira, 13 de maio de 2020

A Beleza e a Simplicidade de Rezar o Terço em Família

Michael Pakaluk
O mês de Maio, escreveu o Papa, numa carta publicadarecentemente na Solenidade de São Marcos, é um tempo “no qual o povo de Deus manifesta de forma particularmente intensa o seu amor e devoção à Virgem Maria. Neste mês, é tradição rezar o Terço em casa, com a família (…) Por isso, pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio (…) há um segredo para bem o fazer: a simplicidade”.

Enquanto pai de oito filhos, sete dos quais ainda em casa, incluindo um que está a aprender a andar, gostaria de partilhar convosco os meus pensamentos sobre o terço em família. Falo a partir da minha própria experiência, claro. Diferentes famílias têm hábitos diferentes. Começo, assim, com umas breves reflexões sobre a beleza do terço e depois partilharei algumas regras básicas, que tenho achado úteis, para o rezar de forma simples.

A beleza do terço está na sua humildade. É humilde porque nos foi dada a papa feita. As palavras do Avé-Maria vêm sobretudo das Escrituras; o Pai-Nosso foi-nos ensinado pelo Senhor. A própria Virgem Maria, os santos e os papas recomendaram que o rezemos diariamente. É impossível rezar o terço com altivez. O intelecto humano mais exaltado e o trabalhador mais simples dos campos estão a fazer a mesma coisa quando rezam esta oração.

O terço tem a beleza da simplicidade. Deus ama a simplicidade, porque a fez simples. A simplicidade é cíclica, como os dias, as semanas e os anos. É repetitiva, como as tarefas do dia-a-dia. Um sinal claro da simplicidade é que temos de nos esforçar para garantir que as rotinas são feitas com amor. O terço tem, por isso, a beleza não de uma grande sinfonia, nem do tecto da Capela Sistina, mas do canto das árvores, do som de um riacho ou de nuvens brancas contra um céu azul até ao horizonte. A beleza do terço em si é igualada pela beleza das virtudes que recebemos quando o recitamos: para além de perseverança, lealdade, autocontrolo, diligência e consideração.

O terço tem a beleza de uma bela “obra”. É uma oração tangível. Sim, é melhor estar a desfiar as contas do que dobrar os dedos. O som da recitação do terço é como uma medida, a que correspondemos. É como um percurso de corrida que se acaba, ou que se completa. Até podemos distrair-nos quando damos a volta, mas é a vontade que se distrai, porque nós continuamos. Podemos, inclusive, estar a lutar contra a rotina quando a rezamos, mas se chegamos ao fim podemos dizer, como São Paulo, que alcançámos a meta. A vida dos cristãos tem demasiadas boas-intenções: um terço completo é uma boa obra, não é algo imaginado ou inutilmente desejado.

O terço chama a si a beleza do Senhor. Porquê? Porque de forma misteriosa, Maria é a melhor lente através da qual podemos contemplar a vida de Cristo. Ela é de forma subjectiva, por assim dizer, aquilo que Ele é de forma objectiva; é o melhor modelo de compaixão, da sua Paixão. O Papa São João Paulo II falou de contemplar Cristo na escola de Maria e o Papa Francisco fez eco desta linguagem na sua carta: “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova.”

Através da sua beleza, o terço distribui graças às famílias. Uma velha máxima da metafísica diz que “tudo o que recebe, recebe à moda do destinatário, e não à moda da coisa recebida”. É terrível pensar na nossa própria capacidade de receber a vida do Senhor – a dureza do nosso coração, a aridez, sonolência e inconsideração. Rezar o terço é pedir para receber o Senhor da forma como Maria o recebeu. Na estranha economia da salvação, em que Deus conta aquilo que é virtual como se fosse de cada um, desejar receber o Senhor como Maria o recebeu é recebê-lo como Maria o recebeu.

Estas são algumas das razões pelas quais o terço é belo. Aproveito agora para partilhar algumas regras para o rezar com simplicidade. Mais uma vez, são só algumas ideias que têm sido úteis para mim.

Hora fixa. Ajuda muito rezar o terço ao mesmo tempo, seja horário (por exemplo às 18h30) seja sequencial (logo a seguir ao jantar).

Comece. Não espere que toda a gente esteja presente para começar. Quem está presente deve apenas sentar-se e começar, à hora combinada, mesmo que seja só o pai. Os outros juntam-se depois.

Adapte as suas expetativas. O nosso mais novo passeia-se pela sala e tenta distrair as pessoas com as suas caretas, enquanto o nosso estudante do secundário, que está a aprender a rezar em latim, pode pedir para rezar uma década nessa língua. Observe o princípio aristotélico do meio relativo a nós.

Acrescente algum mistério ou intimidade. Quando está frio acendemos a lareira e apagamos as luzes; pode-se acender umas velas, ou usar uma imagem de Nossa Senhora, talvez adornada com umas flores.

Ensine algumas coisas básicas sobre o terço, sobretudo o que são os mistérios e porque os contemplamos, com as Avé-Marias a fazer de música de fundo.

Não demore. É possível prolongar o terço com todo o género de orações e meditações. Isso não tem mal nenhum, mas para correr bem, o terço rezado em família deve ser curto, cerca de 15 minutos e não mais de 20.

Em todas as coisas, seja flexível e pragmático. Mantenha a calma, porque o terço é um acto de amor; mantenha o seu sentido de humor e recorde a sábia máxima de Chesterton de que tudo o que vale a pena fazer, vale a pena fazer mal.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de maio de 2020)

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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dar Crédito a Quem Merece

Stephen P. White
Como praticamente toda a gente passei as últimas semanas quase exclusivamente em casa, fora uma ou outra saída para ir às compras. Quando o tempo permite, saio o escritório que montei na cave e vou para a rua. Tem sido um confinamento abençoado. Tenho um jardim e uma família saudável com quem o partilhar. Ainda assim, naqueles dias chuvosos em que as crianças dão connosco em doidos, fazendo a casa parecer ainda mais pequena do que é, sinto-me como um dos refugiados nas cenas iniciais de “Casablanca”, esperando… esperando… esperando.

Mas não é só à conta da pandemia que esperamos nestes dias. O lançamento do prometido relatório sobre o ex-cardeal McCarrick está “iminente” – nos vários sentidos da palavra – há pelo menos cinco semanas. Havia boatos de que estava prestes a ser lançado o mês passado, mas a pandemia parece ter posto fim a isso.

Alguns interpretaram o adiamento de forma cínica, Roma a usar a pandemia como desculpa para empatar um relatório que preferia não ter de publicar. Pelo menos é esse o argumento. Por outro lado, publicar o relatório numa altura em que todo o mundo está a entrar em estagnação social e económica, com as atenções da imprensa focadas noutro lado, poderia ser interpretado como sendo tão cínico como empatar. Seja qual for a razão de Roma – cínica, de boa fé ou outra – esperamos.

A espera paciente (ou impaciente, como parece ser o caso) tem sido parte desta crise eclesial há décadas. É interessante, como exercício espiritual, refletir sobre a tensão entre o zelo por reforma genuína, por um lado, e a paciência para com o ritmo frustrante de renovação, por outro. A Igreja sofreu danos graves às mãos daqueles que estavam impacientes com a reforma, mas também veio muito mal por causa dos fiéis que foram demasiado tímidos, complacentes ou deferenciais.

Tenho pensado muito, recentemente, sobre esta tensão entre a acção e a paciência – e as bênçãos e os perigos de ambos. Tem vindo à minha mente três grupos de pessoas e organizações em particular, cujas acções têm sido muito prejudiciais para a Igreja, quando vistas em isolamento. Mas as acções desses mesmos grupos têm sido, a longo prazo, uma força importante a impelir a Igreja na direcção certa. Estou a pensar na imprensa, nos advogados e nos grupos de defesa de vítimas de abusos.

Quem não se lembra da importância do papel desempenhado pela imprensa (sobretudo a imprensa escrita) na revelação dos abusos – e do respectivo encobrimento – nos Estados Unidos, em especial em Boston. O filme “Spotlight” venceu o Oscar para melhor filme em 2016 e mostra a tenacidade dos repórteres de investigação do “Boston Globe”, que finalmente deram voz às vítimas de abusos sexuais praticados por membros do clero.

Mas 30 anos antes, quando Jason Berry estava a escrever artigos a expor os comportamentos predatórios do Pe. Gilbert Gauthe para um jornal local em Baton Rouge, Louisiana, já não era tão evidente para o público em geral que era o jornalista que estava a dizer a verdade, quanto mais que era um herói.

Ex-cardeal McCarrick
Os media enganam-se em relação a muitas coisas da Igreja Católica. Alguns jornalistas simplesmente têm preconceitos contra ela. Alguns são influenciados por uma agenda, ou odeiam a Igreja. Outros odeiam o conceito do celibato, ou a defesa dos nascituros, ou a sua “homofobia” e “misoginia”. Todas as desculpas habituais se aplicam. Mas não há como negar que a cobertura agressiva, tenaz e por vezes (sim) até feroz ajudou a forçar a Igreja a abordar problemas profundos que frequentemente preferia ignorar ou negar.

Depois temos os advogados. Alguns já ganharam centenas de milhões de dólares a processar a Igreja Católica. E como Peter Steinfels mostrou (a meu ver convincentemente) no verão passado na revista “Commonweal”, os procuradores também estão prontos a usar a crise como uma ferramenta política ou a espicaçar o ressentimento contra a Igreja Católica. Não é óbvio que seja justo levar dioceses à bancarrota por crimes cometidos por padres mortos há anos e encobertos por bispos mortos há anos. Mas haverá dúvidas de que o medo de uma calamidade financeira ainda maior tem motivado uma geração (ou mais) de bispos que pareciam preocupar-se mais com o seu legado institucional – o património – do que sobre a salvação das almas (e dos corpos) dos fiéis?

E depois temos os grupos de defesa das vítimas – Bishop Accountability, Spirit FireSNAP – a lista é longa. Algumas destas pessoas têm sido um espinho no lado dos bispos há décadas e décadas. Alguns têm sido fonte de graça e de cura. A maioria têm sido ambos. Também aqui, como no resto da Igreja, encontramos um misto: santos e malucos, activistas e hereges, sobreviventes e zelotas e pessoas que simplesmente querem ajudar ou dar a mão. Muitos destes grupos têm sido a única fonte de solidariedade para pessoas que foram abusadas, dispensadas e descartadas.

Mas o meu ponto não passa simplesmente por mostrar que todos temos bem e mal dentro de nós. Isso seria banal na melhor das hipóteses, maniqueísta na pior. Antes, o objectivo é mostrar que se vamos levar a sério a verdade de que tudo concorre para o bem de quem ama a Deus, então temos duas coisas por garantido: devemos ser muito, muito gratos… e incrivelmente humildes.

Mesmo enquanto esperamos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Abril de 2020)

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sábado, 2 de maio de 2020

Missas só a 30 de maio? Uma confusão prejudicial e desnecessária

O Governo anunciou na quinta-feira que as celebrações religiosas comunitárias só regressam a 30 de maio e os bispos portugueses acabam de confirmar a decisão este sábado à tarde.

Pelo meio temos padres a anunciar missas em drive-in, outros a lamentar as decisões em homilias gravadas, fiéis a lançar e a assinar petições. Há muita revolta no ar, mas parece-me haver, acima de tudo, falta de certezas.

A decisão de só abrir as missas aos fiéis no final do mês pode ser inteiramente defensável. No máximo, será discutível. Não é isso que está em causa. O que interessa é saber se a decisão foi tomada em diálogo com as confissões religiosas ou é uma imposição.

É o Governo que está, fora de um estado de emergência, a proibir as missas com fiéis? Pelo que percebo de Direito (pouco, mas tento ler de quem percebe), não o pode fazer.

Mas o facto de ter sido o Governo a anunciar a decisão não significa que ela tenha sido tomada unilateralmente pelo Governo. Sabemos que António Costa tem estado em contacto com os bispos e por isso esta pode perfeitamente ter sido uma decisão alcançada em conjunto, ou sugerida pelo Governo e aceite pelos bispos, ou mesmo tomada unilateralmente pelos bispos e aceite e anunciada pelo Governo.

As afirmações do Bispo do Porto à Renascença permitem concluir que pelo menos não parece haver qualquer discordância por parte dos bispos em relação a esta decisão. Mas não nos diz mais do que isso.

Hoje a CEP emitiu um comunicado em que a questão poderia ter ficado esclarecida, mas não ficou. Lê-se: “Através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 33-C/2020, que estabelece uma estratégia de levantamento de medidas de confinamento no âmbito do combate à pandemia da doença COVID-19, o Governo decidiu para 30-31 de maio, no que diz respeito a ‘cerimónias religiosas’, o reinício das ‘celebrações comunitárias de acordo com regras a estabelecer entre DGS e confissões religiosas’.”

“Tendo em conta somente estes elementos, a retomada gradual das celebrações comunitárias da Eucaristia, já anunciada pelo Governo, deverá iniciar-se, em princípio, a 30 maio, véspera da Solenidade do Pentecostes. A data depende ainda da avaliação que o Governo se propõe fazer da situação, nesta primeira etapa do desconfinamento. As Dioceses insulares terão em conta as indicações das respetivas autoridades regionais.”

O sublinhado é meu e serve para mostrar a frase chave. Afinal, ao que parece, foi o Governo que decidiu. Mas mesmo isto é vago. O Governo decidiu depois de escutados os bispos? Decidiu com base na recomendação dos bispos? Tudo isto continua a ser possível. Alguém há de saber, mas nós não.

Temos então dois cenários.

Se estamos perante uma imposição do Governo, tout court, independentemente de os bispos acharem boa ideia, é uma coisa grave. O Governo não tem de decidir estas coisas, quem tem de decidir são os bispos. Há processos que é preciso respeitar precisamente para garantir a independência da Igreja e a liberdade religiosa. Julgo que a maioria das reações de revolta que tenho visto existem porque as pessoas estão a partir do princípio que foi isso que aconteceu. Contudo, pode não ser!

Se tudo foi feito nos conformes, então as petições, as missas drive-in e as homilias reivindicativas já não são dirigidas contra o Governo, mas sim contra os próprios bispos. E esse é um caminho insensato e perigoso para os católicos trilharem. Infelizmente, contudo, tem-se tornado cada vez mais comum e, infelizmente, em muitos casos por parte de católicos que deveriam ser os primeiros a defender a autoridade dos bispos.

Todos queremos o regresso das missas, e todos queremos contribuir da melhor maneira para que esta pandemia passe. O que parecia que ia ser um tempo de privação espiritual tornou-se, ao longo destes dois meses, uma fonte de grande riqueza, com as famílias a descobrirem novas formas de viver a sua fé e de a partilharem. Pelo menos tem sido assim com a minha, e com muitas que conheço. Temos podido compartilhar um pouco o sofrimento de tantas comunidades cristãs no mundo que estão privados dos sacramentos, por razões de segurança, de distância ou de escassez de vocações.

Há de passar, mais cedo ou mais tarde. Se for no dia 30 de maio, que seja. Se for mais cedo, glória a Deus!

Mas seria uma tragédia se agora caíssemos na tentação – e é uma tentação – de transformar esta recta final numa desculpa para nos dividirmos e nos colocarmos uns contra os outros e contra os nossos bispos.

Dito tudo isto, queria terminar dizendo apenas que tudo isto seria bastante fácil de evitar. É uma questão de comunicação. Os bispos podem – e devem, a meu ver – falar abertamente e pessoalmente – não apenas através de comunicados – com o seu rebanho para explicar quem tomou esta decisão e porquê.

E a nós, suas ovelhas, cabe apenas aceitar e dar graças a Deus.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Faz Parte do Pacote, não é?

Recentemente estive a ler a Regra de São Bento com os meus alunos e vi com eles o filme “Dos Deuses e dos Homens”, de 2010, sobre o mosteiro trapista de Tibhirine, na Argélia, onde viveram e trabalharam nove monges franceses até 1996, altura em que, em plena Guerra Civil, sete deles foram raptados pelo Grupo Armado Islâmico da Argélia, tendo sido encontrado mais tarde, decapitados.

Não vou explicar agora porque é que junto o filme ao livro, salvo dizer que o filme é uma boa representação da vida beneditina, incluindo os seus desafios e as suas belezas discretas. Ver a regra representada desta forma ajuda a torná-la mais familiar. Em vez de um estilo de vida bizarro, passam a vê-la como uma coisa desejável, que vale a pena escolher.

Uma das questões que o filme coloca, contudo, é se os monges tomaram a decisão certa quando decidiram ficar na Argélia, numa altura em que a violência na sua região aumentava de intensidade e o perigo mortal se tornava mais ameaçador. O filme trata bem o conflito que os monges viviam. Estavam longe de decididos a abraçar o martírio e receber a morte de braços abertos. Numa das reuniões um deles diz abertamente: “Eu não me tornei monge para morrer”.

Perguntei aos meus alunos se os monges foram “imprudentes”, talvez até “insensatos” ao optar por ficar quando sabiam que havia um risco tão grave para as suas vidas. Não é uma situação clara para eles, e depende muito da forma como eu coloco a questão. Todos admiram os monges de Tibhirine. Mas pode-se dizer que a decisão de permanecer foi prudente?

Uma vez que nós pensamos na prudência como “o exercício excessivo da cautela”, em vez de a encarar da forma clássica, como “tomar a decisão moral correcta”, os alunos têm dificuldade em considerar que se tratou de um acto prudente. Heroico, sim. Mas prudente?

Numa turma diferente coloquei a mesma questão sobre se os habitantes da pequena vila de Le Chambon foram prudentes ou insensatos ao esconder literalmente milhares de refugiados judeus durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o exército alemão os caçava para deportar para campos de concentração.

Uma das alunas tinha entrado na sala essa manhã exclamando que adorava Magda Trocmé, a mulher do pastor protestante na vila e uma das líderes desta conspiração de bondade. “Eu quero ser aquela mulher!”

Quando lhe perguntei se os habitantes tinham sido insensatos ao receber os judeus respondeu que sim, “sem dúvida”.

“Mas não acabaste de dizer que querias ser como Magda?”, perguntei.

“Sim”, respondeu.

“Então queres ser como uma mulher insensata?”, insisti.

“Sim”, disse ela, “porque ela era insensata da maneira certa”.

Talvez tenha razão. Talvez os cristãos sejam insensatos. Não vale a pena negá-lo. Mas insensatos “da maneira certa”.

A maioria dos meus alunos da primeira turma têm a certeza de que os monges de Tibhirine tomaram a decisão certa ao permanecer. Talvez seja um caso de ingenuidade juvenil. Uma delas perguntou, talvez com mesma ingenuidade: “Se é monge, e se decidiu entregar a vida a Cristo, o martírio, se acontecer, faz parte do pacote, não é”?

Como é que se responde a isto? Talvez o melhor tivesse sido escrever no quadro e deixar a sala toda contemplar a frase em silêncio durante cinco minutos.

Mas falta-me essa paciência de santo, por isso perguntei: “Não podemos dizer que isso ‘faz parte do pacote’ para qualquer cristão”? Se optou por entregar a vida a Cristo, então o martírio, se acontecer, faz pate do pacote, não é?

Logo, se não estamos dispostos a sacrificar – digamos – o trabalho, o estatuto social, até a própria vida, então não podemos dizer verdadeiramente que entregámos a vida a Cristo, pois não? Seria necessário afirmar de forma mais modesta: “Eu entreguei a Cristo um bocadinho dos meus domingos de manhã”.

E se for de facto esta a nossa atitude, não seria necessário admitirmos que estamos a expressar em relação a Cristo basicamente o mesmo sentimento expresso pelo poeta Billy Collins em relação à sua mãe no poema “O Trapilho”?

Nunca tinha visto ninguém usar um trapilho
ou vestir um, se é assim que se diz.
Mas isso não me impediu de cruzar fio com fio,
outra e outra vez, até que fiz um trapilho encarnado e branco, largo, para a minha mãe.
Ele deu-me vida e leite dos seus seios,
e eu dei-lhe um trapilho.
Ela cuidou de mim através de muitas doenças,
levou colheres de chá de remédio aos meus lábios,
colocou panos frescos sob a minha testa,
depois levou-me para a claridade
e ensinou-me a andar e nadar e eu dei-lhe um trapilho.
“Aqui estão milhares de refeições”, disse ela,
“e aqui tens roupa e uma boa educação”.
E eu respondi: “Aqui está o teu trapilho,
feito com alguma ajuda de um animador”.
“Aqui tens um corpo que respira e um coração que bate,
pernas fortes, ossos e dentes e dois olhos claros para leres o mundo”, segredou ela.
“E aqui”, disse eu, “está um trapilho que fiz no campo de férias”.

Algum dos meus leitores pode estar curioso sobre a resposta que a minha aluna me deu, sobre se devemos esperar que todos os cristãos, e não só monges, façam sacrifícios sérios. “Suponho que sim”, disse ela, hesitante. “Sim. Quer dizer, é, sim. Não é? Tenho de pensar nisso”.

Tu e eu, minha pequena. Já somos dois.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 8 de Abril de 2020)

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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Respeito pelo Corpo

Pe. Gerald E. Murray
A Páscoa é a revelação da verdade do dom da vida eterna que Deus nos dá: Cristo ressuscitou e a todos os que estão unidos a Ele numa relação viva de amizade nesta vida, será dada a plenitude dessa união na vida no Céu.

Este dom da vida eterna é dada à pessoa como um todo, corpo e alma. Quem for salvo viverá para sempre com Deus até à segunda vinda de Cristo para julgar os vivos e os mortos. As almas daqueles que morreram na graça de Deus aguardam no Céu ou no Purgatório a ressurreição dos seus corpos. As almas dos condenados também aguardam a ressurreição dos seus corpos, mas no Inferno.

Quando Cristo regressar, os corpos de todos os homens, mulheres e crianças que alguma vez viveram serão reunidos às suas almas. Os justos manter-se-ão eternamente unidos a Deus, em corpo e alma, no Céu e os condenados serão eternamente separados, corpo e alma, de Deus, no Inferno.

A doutrina da ressurreição dos corpos no dia do Juízo Final raramente é compreendida ou apreciada pelos crentes. Concentramo-nos sobretudo naquilo que acontece à alma quando morremos. Rezamos pelas almas dos fiéis defuntos, “que descansem em paz”, mas bem poderíamos acrescentar “e que ressuscitem em glória dos seus sepulcros”.

Talvez tenham visto as imagens dos restos mortais das vítimas do coronavírus aqui em Nova Iorque a serem sepultados em massa em Potters Field, na Ilha de Hart, ao largo do Bronx. As filas de caixões, enterrados juntos numa longa vala, são uma imagem marcante de morte, mas também de esperança.

Tratamos dos corpos daqueles que não são reivindicados por ninguém com dignidade e respeito. Esta é uma manifestação social da herança judaico-cristã que trata com reverência os restos mortais da mais alta criação de Deus sobre a terra. O homem, feito do pó da terra, é devolvido à mesma terra no final da sua peregrinação terrena. O seu corpo tornar-se-á pó novamente, mas Cristo ensinou-nos que esta não é a palavra final. Esses corpos são dele, por Ele aguardam, e devem ser sepultados num lugar condigno.

A visão inerente à prática de sepultar os mortos era, até há poucos anos, universalmente apreciada e aceite pelos católicos, reforçada pelo requisito eclesial de sepultar os batizados em terra consagrada, sempre que possível, e pela proibição da cremação, uma prática estranha à fé cristã.

É providencial, por isso, que o livro mais recente de Scott Hahn, “Hope to Die: The ChristianMeaning of Death and the Ressurrection of the Body”, escrito em coautoria com Emily Stimpson Chapman, tenha aparecido durante esta pandemia de coronavírus. Hahn escreve de forma eloquente sobre a realidade da morte e a natureza da vida celeste, e como teremos a bênção de aprender o sentido de tudo quando, e se, atingirmos a Visão Beatífica.

Mas não se trata apenas de uma experiência “espiritual”. “Deus ressuscitará os mortos – não apenas espiritualmente, mas fisicamente. Afinal de contas, se a ressurreição fosse apenas espiritual, então seria indiferente o que fazemos aos corpos depois da morte. Mas havendo uma ressurreição física, os corpos interessam. O que acontece aos corpos interessa. Como sepultamos os corpos interessa”.

Scott Hahn
Durante os meus 35 anos de sacerdócio assisti à rápida disseminação da cremação entre os católicos. Sempre foi uma coisa que me preocupou, mas aceito que São Paulo VI autorizou a prática, anteriormente proibida, em 1963. Como escreve Hahn: “Para a maioria dos cristãos, durante quase dois milénios, era impensável que se optasse por destruir totalmente corpos destinados à glória e já tocados pela graça… Desde os primeiros tempos, os cristãos sepultavam os seus mortos, como Cristo havia sido sepultado”.

O Cristianismo desenvolveu uma cultura em que se visitam as campas dos mortos e os ossos dos santos são venerados como relíquias. Deus, que fez os nossos corpos, nunca nos mandou queimar os restos mortais dos falecidos. Ao enterrar os mortos na terra estamos a confiar o seu corpo a Deus, tal como confiamos a sua alma, que temporariamente o abandonou.

Hahn recorda-nos de uma coisa que muitos tendem a esquecer, ou nunca souberam. “A Igreja não aprova a cremação; permite-a. Não permite que se espalhem as cinzas ou que sejam guardadas em casa; proíbe-o. Considera que a sepultura é a forma mais digna de cuidar dos corpos dos mortos até que regressam no dia do Juízo Final e encoraja-nos a seguir essa recomendação.”

Porquê esta renitência em relação à cremação? Hahn analisa o significado da cremação, por oposição ao enterro, independentemente das intenções subjetivas de quem a pede: “A cremação diz coisas sobre o corpo que são diretamente contrárias ao que a Igreja professa. Ensina que o corpo é descartável. Ensina que o corpo não é uma parte integral da pessoa e ensina que o corpo não tem valor depois de a alma partir, que já deu tudo o que tinha a dar e que mais nada lhe espera. Nem ressurreição, nem transformação nem glorificação”.

Claro que a maioria dos católicos que manda cremar os seus familiares não o faz por negar a ressurreição do corpo no Juízo Final. Mas a forma como tratamos os nossos mortos devia refletir a nossa esperança na ressurreição da carne. É evidente que Deus também ressuscitará as cinzas daqueles que foram cremados, unindo-as às suas almas. Não podemos mudar ou frustrar os planos de Deus para a humanidade. Mas temos de perguntar porque haveríamos de obliterar pelo fogo os corpos de mortos que foram santificados no baptismo?

A cremação é, na sua essência, um costume pagão. Os cristãos devem evitá-la e honrar a Deus, honrando, através de um enterro reverente, os restos mortais dos filhos de Deus que partiram antes de nós, na expectativa daquele grande reencontro da humanidade, corpos e almas unidos de novo, no Juízo Final.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 19 de Abril de 2020)

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quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ao Terceiro Dia: uma Fantasia

Brad Miner
Quando o escriba informou Pôncio Pilatos de que Tito queria falar com ele, percebeu que algo estava mal. O prefeito da Judeia tinha enviado Tito, o seu melhor oficial, fazer o que seria sem dúvida a tarefa mais simples de toda a carreira de um dos melhores soldados de Roma. Porque é que tinha voltado cedo?

Tito era um homem velho – pelos padrões da Legião – mas ainda assim era duas vezes melhor guerreiro do que homens com metade da sua idade, e o mais fiável de todos.

Mas aqui estava ele, depois de ter abandonado o seu posto. Porquê?

Tito entrou na sala, batendo com o punho direito contra o peito: “Prefeito!”

Pilatos olhou de trás de uma secretária cheia de despachos. Fixou os olhos do militar e franziu. Depois olhou de volta para os seus papeis e perguntou:

“Porque é que está aqui, sargento?”

Tito sabia que o prefeito estava mais irritado do que zangado. Por enquanto.

“Prefeito, o sepulcro abriu-se e o homem, Jesus, desapareceu.”

O escriba estava à direita de Pilatos. Tinha estado a escrevinhar as mensagens que o prefeito ditava. À entrada do quarto – por onde Tito acabara de entrar – estavam dois guardas em sentido.

Empurrou a cadeira para trás e levantou-se. Os seus olhos cruzaram-se com os do escriba.

“Saia”, disse Pilatos, acenando também aos guardas para o seguir. Fecharam a porta atrás deles.

De repente Pilatos sentiu-se muito cansado. Levantou-se e deu a volta à secretária, encostando-se a ela, e cruzou os braços.

 “Explica-te”

Tito olhou em frente e, como sempre, contou a verdade.

“Prefeito, deu-se uma explosão silenciosa. Só consigo descrever como se fosse uma rajada a abrir uma porta. Não ouvimos nada, mas sentimos o ar projectado, que nos lançou por terra. Tapei os olhos com as mãos mas… Havia uma luz brilhante toda a volta. Cerrei os olhos e obriguei-me a olhar para cima, no meio da luz estava a figura de um homem. A luz vinha dele. Depois houve outra rajada, ou explosão, e a luz desapareceu. Só se via a luz da aurora, como antes. E silêncio prefeito: nem passarinhos, nem grilos, mas ouvia a minha própria respiração e a dos meus homens. O homem tinha desaparecido. Levantei-me e vi que a pedra já não cobria a entrada do sepulcro. Então entrei e vi a coisa mais estranha –”

Pilatos quase que se riu. O que é que poderia ser mais estranho do que Tito já tinha dito?

“ – lá dentro”, disse Tito, “onde o corpo tinha repousado, vi a mortalha cuidadosamente dobrada e colocada de lado”.

Pilatos reparou que enquanto falava, a voz de Tito não tinha aquela calma clínica que costumava ter quando fazia os seus relatórios em Cesareia ou em Jerusalém. Era porque o velho – já tinha cinquenta anos – já tinha estado em todo o lado e lutado contra todos e visto tudo que Pilatos o tinha trazido com ele para a Judeia. Se alguém podia ajudar a lidar com os israelitas, raciocinou Pilatos, era Tito.

“E quem é que dirias que era o homem na luz?”

“Jesús de Nazaré.”

Pôncio Pilates
Pilatos sabia que o Galileu tinha dito que isto iria acontecer. Era por isso que os sacerdotes do Templo tinham pedinchado um destacamento de soldados romanos para guardar o sepulcro. Na altura tinha estado demasiado cansado para insistir, como deveria ter feito, que esse era um assunto deles e não do Pretório. Gostaria de ter dito: Eu matei um inocente por vocês; tratem vocês de guardar o seu sepulcro. Mas tinha parecido mais fácil aceder. E então enviou o seu melhor homem para supervisionar os turnos durante os três dias.

Partiu do princípio que isso seria o fim da história, porque homens crucificados não se levantam e põem-se a andar.

Por isso é que era tão perturbador ouvir uma testemunha de confiança dizer que Jesus – um homem como qualquer outro, que tinha, na verdade, sangrado e sofrido e morrido como qualquer outro – estava de novo vivo.

“Então a crucifixão falhou.”

“Não, Prefeito.”

“Então tu e os teus homens embebedaram-se e adormeceram em serviço –”

“– Prefeito, não! Eu tinha acabado de regressar com o turno da manhã. Estávamos todos acordadíssimos!”

Se fosse qualquer outro a dizê-lo, que não Tito, Pilatos tê-lo-ia mandado prender imediatamente. Olharam um para o outro.

“Os teus homens estão por perto?

“Lá fora.”

Pilatos olhou-o diretamente nos olhos. É tudo verdade, pensou. Agora o que é que dizemos aos anciãos do Templo?

Para a surpresa de Tito, o prefeito ordenou-o a ir imediatamente ao Templo para dar conta da situação aos sacerdotes: “Exatamente como me contaste a mim, mas sem dizer que estiveste aqui primeiro”, disse.

Então Tito saiu e levou os seus homens. Ficou admirado quando eles lhes deram dinheiro para se manterem calados sobre o que tinham visto. Muito dinheiro, prata suficiente para comprar o silêncio de uma dúzia de homens.

“Digam”, disse o Sumo Sacerdote, “que os seus discípulos vieram durante a noite e roubaram o seu corpo enquanto vocês dormiam”.

Perante o olhar zangado dos soldados romanos (que sabiam bem o castigo que enfrentariam por tamanha negligência), os sacerdotes acrescentaram logo:

“Se isto chegar ao governador nós damos-lhe uma explicação que vos livre de problemas.”

Tito queria rir-se na cara dele, mas pegou nas moedas e dividiu-as igualmente entre os soldados satisfeitos. Não ficou com nada para ele.

O Prefeito da Judeia sorriu quando ouviu as novidades.

“Então eles também acreditam?”

Tito respondeu: “Talvez partam do princípio que nós retirámos o corpo… ou simplesmente queiram acabar com um boato.”

“Era escusado. Em breve tudo isto será esquecido”, disse Pilatos.

Tito saiu pelas portas altas. Não sabia em que é que o Prefeito acreditava verdadeiramente, mas sabia que ele, certamente, nunca se iria esquecer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Abril de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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