quarta-feira, 22 de maio de 2019

Europa sem passado é Europa sem futuro

A Associação dos Juristas Católicos encoraja os eleitores a votar no domingo, mas deixa também recados aos partidos e críticas a uma Europa que, caso se esqueça de onde vem, não saberá para onde vai.


A reitora da Universidade Católica Portuguesa foi homenageada nos Estados Unidos e pede mais mulheres em posições de liderança.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é muito belo, e fala de grande beleza. Randall Smith reflecte sobre como ter visto uma mulher a embalar o seu bebé na missa despertou nele pensamentos sobreos mistérios do amor divino e da encarnação. Leiam, mesmo!

A Beleza de uma Mãe na Missa

Randall Smith
Já vi as Montanhas Amarelas na China, e são muito belas. Já olhei através do Vale de Jackson Hole, Wyoming, ao cair da noite, para os picos nevados dos Grand Tetons, e são muito belos. Mas poucas coisas no mundo são tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu bebé durante a missa.

A beleza é uma coisa surpreendente. Aparece de forma inesperada. Olhamos e de repente somos atingidos por esta beleza inexplicável, algo inefável mas real, como quando se dobra uma curva nas montanhas e se dá com uma vista inesperada.

Tive essa experiência há dias na missa. Umas filas à frente uma mãe estava a embalar o seu filho de dois anos, para a frente e para trás, enquanto cantava baixinho o Agnus Dei. Cantava aquelas palavras e olhava-o nos olhos, como se estivesse a cantar para ele e para Deus ao mesmo tempo. No meio do que pode ser, mesmo na melhor das missas, a azáfama da liturgia – que oração? Que livro? De pé, sentados ou ajoelhados? – ali estava paz: uma mãe e o seu filho “um ponto fixo num mundo em movimento”.

Não me entendam mal; tenho perfeita noção de que este tipo de paz divina não é o estado mais comum quando os pais estão a lidar com os seus filhos pequenos. Não devemos pintar uma imagem demasiado romântica da mãe e do filho, como fazem algumas pinturas barrocas de Maria e do menino Jesus. Também não quero criticar em demasia essas pinturas, embora tende a preferir as representações mais antigas, é só que não quero dar uma imagem falsa do tipo de caos que a parentalidade costuma envolver.

Mas é precisamente por isso, ao que me parece, que achamos esses momentos de paz e calma partilhados entre mãe e filho tão confortantes e tão belos. No ponto fixo de um mundo em movimento, aí está o amor. O amor pode ser expressado de uma variedade potencialmente infinita de formas, mas quando o vemos, palpavelmente presente e inegável, são momentos de pura beleza que merecem ser saboreados.

Quando disse que há poucas coisas na vida tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu filho na missa, não queria estar a fazer uma comparação enviesada. Não é um concurso. Todas estas coisas belas foram criadas pelo amor. Mas entre as muitas coisas belas que encontramos no mundo se nos dermos ao trabalho de procurar – montanhas, praias, oceanos – só os seres humanos é que conseguem olhar de volta com amor para a face do seu Criador.

O que não nos deve deixar de encher de espanto em relação à parentalidade é que enquanto seres humanos é-nos permitido participar como cocriadores com Deus de uma forma especial. Outros animais procriam, mas quantos têm o privilégio de o fazer livremente, e não apenas como ato meramente instintivo ou impulso primário, mas de compreensão e amor?

Não é raro sentirmos o coração a amolecer quando vemos imagens de mães e seus filhos, mesmo quando se trata de outras espécies, seja uma cadela a amamentar as suas crias ou uma égua a encorajar o potro recém-nascido a dar os primeiros passos. É o milagre da vida nova.  
Mas as crianças humanas têm o privilégio de ir mais além. Podem olhar de volta para as suas mães com amor. E desta forma se preparam para olhar com amor para a face de Deus. Não os criamos para cantar como pássaros, mas para cantar com amor a Deus. Daí a beleza em ver uma mãe a cantar suavemente orações enquanto olha para os olhos do seu filho durante a missa.

O parto implica dor, tal como é um desafio constante criar filhos no meio do nosso mundo caótico em que o mal, seja interno ou externo, está constantemente à espreita. Mas quando todo esse barulho se acalma, o que vemos é um vislumbre do amor primordial que criou o universo e continua a mantê-lo intacto através das gerações.

Eu ensino os meus alunos sobre a Trindade e a comunhão eterna de amor partilhada entre Pai, Filho e Espírito Santo. O que eu faço é falar sobre a Trindade. Mas para a conhecer vão ter de a experimentar. E por isso a maior parte deles só perceberá do que fala a Igreja quando se unirem a outra pessoa naquela doação completa de si a que chamamos casamento, e através dessa união produzirem um terceiro, que é uma encarnação do seu dom mútuo de amor.

Claro que poderão já ter visto esta doação altruísta dos esposos um pelo outro e a um filho durante as suas vidas. Talvez até entendam a sua própria existência desta forma, vendo a sua vida como uma encarnação do amor mútuo dos seus pais, embora esta experiência se tenha vindo a tornar cada vez mais rara na nossa sociedade.

“O sacramento do matrimónio é mais largo que a família”, diz o grande teólogo ortodoxo Alexander Schmemann. “É o sacramento do amor divino, o mistério todo abrangente do próprio ser, e é por isso que diz respeito a toda a Igreja e – através da Igreja – a todo o mundo.” O pecado da humanidade não está apenas em ter desobedecido a Deus, mas no facto de já não ver “toda a sua vida como dependente do mundo inteiro, como um sacramento de comunhão com Deus”. Assim, a verdadeira tragédia humana, diz Schmemann, está em viver “uma vida não-eucarística num mundo não-eucarístico”.

A maternidade faz-nos lembrar a Encarnação e o facto de a nossa origem ser uma encarnação do amor de Deus, destinado a viver uma vida sacramental e eucarística num mundo sacramental e eucarístico. Devemos dar graças a Deus pelas mães. Deus poderia ter-nos gerado a partir de um casulo. Seria mais fácil para as mulheres, mas pior para o mundo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Maio de 2019)

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terça-feira, 21 de maio de 2019

A liberdade dos escravos

Por esta hora deve estar a terminar a conferência de Rémi Brague, na Universidade Católica. Tive o privilégio de o entrevistar ontem. Pode ler aqui a entrevista, em que nos explica porque é que a liberdade que tanto prezamos no ocidente é a dos escravos.

Também hoje temos uma conversa com o cardeal Tagle, que presidiu às celebrações de Fátima agora em Maio. O cardeal é uma figura em ascensão na Igreja, vale a pena conhecê-lo melhor.

O diretor do Serviço Jesuíta dos Refugiados, André Costa Jorge, diz que os partidos têm um dever cívico de dizer o que pensam sobre a questão das migrações. PS e PSD ainda não o fizeram.

O Vaticano quer “soluções eficazes” para o caso de Vincent Lambert, o doente que está no centro de uma batalha judicial que lhe pode custar a vida.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Acidente nos Açores e falta de verbas em Paris

Um acidente nos Açores causou a morte a dois fiéis numa procissão, na noite de ontem.

O Papa Francisco deu “boleia” a oito crianças refugiadas esta quarta-feira, em Roma.

Apesar de muitas promessas, até agora a Catedral de Notre Dame apenas recebeu 13,5 milhões de euros para a reconstrução.

Sabe quantos conventos existem em Lisboa? Então clique aqui.

O artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing é sobre doação de órgãos. Há um debate entre médicos e especialistas em bioética sobre a questão da morte cerebral enquanto critério para a definição da morte. Neste artigo E. Christian Brugger explica os pormenores desta questão tão interessante.

Doação de Órgãos e Morte Cerebral

E. Christian Brugger
Nota: Recebemos de um leitor a seguinte pergunta, que nos pareceu merecer uma resposta cuidadosa por parte de um especialista em bioética.

Pergunta: A minha amiga enfermeira diz que os órgãos principais não podem ser doados a não ser que o dador esteja vivo, logo administra-se anestesia na altura em que são retirados. Se isto for correto, então o ato de recolher os órgãos provocaria a morte do dador, certo? Isto não é uma forma de eutanásia? Eu disse-lhe que a Igreja jamais aprovaria isto. Contudo, sempre ouvi dizer que a Igreja não só aprova como elogia a doação de órgãos. Podem esclarecer este assunto?

Se por órgãos principais a sua amiga quer dizer órgãos vitais, então o que ela diz é ambíguo. Os órgãos vitais são aqueles de que precisamos para permanecer vivos (como coração, um par de rins, um par de pulmões, fígado e cólon). A regra nos Estados Unidos, e na maioria dos outros países do mundo é o “dead donor rule” (DDR). Isto significa, ou pelo menos devia significar, que os órgãos vitais apenas podem ser recolhidos de dadores já mortos. Embora a oposição ao DDR tenha estado a crescer há mais de uma década (ver 123,4), a regra continua a prevalecer de forma universal na medicina de transplante.

O ensino moral católico sobre doação de órgãos também afirma o DDR (ver o Catecismo da Igreja Católica, #2296, 2301; Os parágrafos 15, 86 do Evangelium Vitae de João Paulo II e Ethical and Religious Directives for Health Care Services, 6thEd., 2018, nos. 29, 30, 62-64).

Ensina ainda que, como você diz, e bem, a doação de órgãos pode ser uma coisa boa. De facto, João Paulo II ensinou que, quando feito de forma eticamente aceitável, é um exemplo de “heroísmo do dia-a-dia”.

Logo, para melhor compreender a posição da Igreja é importante perceber bem o que significa “forma eticamente aceitável”.

Uma vez que a doação de órgãos vitais levaria alguém a sacrificar ou a prejudicar seriamente as funções corporais necessárias para a vida ou para uma saúde estável – isto é, põe em causa aquilo a que a teologia moral se refere como integridade funcional – não seria moralmente lícito, uma vez que ao escolhê-lo estaríamos a violar o dever que temos de cuidar da nossa própria vida corporal.

Mas também seria errado se prevíssemos que a doação de um órgão não-vital nos poderia levar a falhar em relação a um dever pré-existente. Por exemplo, se temos ao nosso cuidado uma criança deficiente e a doação de um órgão (como um único pulmão, por exemplo) tornaria essa tarefa mais difícil ou mesmo impossível, então não devemos doar o órgão a não ser que tenhamos a certeza moral de que a criança possa ser cuidada por outros. O contrário seria injusto para a criança.

Também seria moralmente condenável a doação de órgãos para transplante que envolvam o estabelecimento ou a transmissão de identidade pessoal (por exemplo, ovários, testículos ou cérebro); tal como é a doação por motivos moralmente triviais (por exemplo, a minha namorada sempre quis ter um olho azul, e eu tenho dois); por fim, a doação é inaceitável sem o consentimento livre do dador ou de um seu representante, ou caso existam formas acessíveis e menos prejudiciais (como o uso de órgãos bovinos) ou se a doação é motivada por recompensa económica. Em todas estas situações seria errado optar por doar órgãos.

No que diz respeito a dadores mortos, à partida qualquer órgão, incluindo órgãos que outrora eram vitais, pode ser recolhido, desde que se cumpram três condições: 1) se certifique que o dador está morto; isto deve ser feito por clínicos competentes, de acordo com critérios científicos responsáveis e aceites. Para evitar qualquer conflito de interesse, os médicos que determinam a morte não devem integrar as equipas de transplantes correspondentes. 2) o dador, ou um seu representante, devem dar o seu consentimento livre; e 3) a intenção por detrás da recolha dos órgãos deve ser boa (por exemplo, não se deve ter por objectivo o transplante de órgãos envolvidos na transmissão de identidade pessoal).

A questão da morte cerebral
Disse atrás que a doação de órgãos nos Estados Unidos é governada pelo DDR, e que quase todos concordam com este princípio.

Mas os comentários da sua amiga levantam uma questão importante no debate bioético, que está actualmente a ser debatido seriamente por especialistas cristãos.

A questão passa por determinar se indivíduos em morte cerebral, ventilados artificialmente, estão de facto mortos. Será que a morte neurológica é uma definição adequada da morte humana?

Para que os órgãos possam ser transplantados precisam de ser mantidos até ao momento em que são removidos. Logo, os corpos em morte cerebral são mantidos ligados a máquinas de respiração mecânica (ventiladores) que garantem que o sangue oxigenado chegue aos órgãos até que a equipa de transplante esteja pronta.

Durante anos ninguém questionou seriamente se corpos em morte cerebral podiam ser seres humanos vivos, partiam do princípio que sem o cérebro a funcionar, o corpo não conseguia sobreviver.

Mas em 2001 o chefe de neurologia do Centro Médico de UCLA, Alan Shewmon, um católico devoto, publicou investigação alarmante sobre corpos em morte cerebral ventilados. Ele demonstrou, de forma conclusiva, que há casos em que estes corpos são capazes de respirar (sem o auxílio de ventilação), mas de assimilar nutrição, sarar feridas, combater infeções responder ao stress, manter a homeostasia, crescer de forma proporcional e até gerar nascituros. Por outras palavras, comportavam-se tal como outros corpos humanos. 

Se aceitarmos a antropologia cristã mais básica, onde existe um corpo humano vivo, existe uma pessoa, por mais incapacitada que possa estar.

A investigação de Shewmon levou-o a concluir – e com ele vários notáveis cientistas e filósofos, incluindo católicos como Josef Seifart e Nicanor Austriaco – que alguns corpos em morte cerebral são seres humanos vivos que, erradamente dados como falecidos, são de facto mortos quando os seus órgãos são recolhidos para transplante. 

Com base nisto a minha conclusão é de que as provas levantam pelo menos sérias dúvidas e de que, perante tais dúvidas, temos obrigação moral de os tratar como se estivessem vivos, a não ser que as dúvidas sejam dissipadas.

Em breve realiza-se em Roma uma conferência patrocinada pela Academia João Paulo II para a Vida Humana e Família, precisamente sobre esta questão e Shewmon será um dos oradores.

Há centros e especialistas em bioética importantes nos Estados Unidos que discordam das conclusões de Shewmon. Infelizmente, contudo, alguns deles insistem que os que levantam dúvidas sérias sobre os critérios neurológicos são maus católicos. Baseiam-se no facto de João Paulo II ter dito, num discurso no ano 2000 que: “a cessação total irreversível de toda a actividade encefálica, se for aplicado de maneira escrupulosa, não parece contrastar os elementos essenciais duma sólida antropologia.”

Mas se, à luz de novas provas empíricas, questionamos um juízo provisório de um Papa, sobretudo quando esse juízo foi feito numa esfera – como é a medicina – sobre a qual ele não tem qualquer autoridade divinamente mandatada, isso não é certamente um ato de infidelidade.


E. Christian Brugger é professor de Teologia Moral no Seminário Regional de St. Vincent, na Flórida, onde vive com a sua mulher e cinco filhos. Foi reitor da Escola de Filosofia e Teologia da Universidade de Notre Dame Austrália, em Sidnei e é consultor teológico para a comissão de doutrina da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. É autor do livro “TheIndissolubility of Marriage and the Council of Trent”.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 7 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com oconsentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Bochechas sagradas e cardeais que dão luz

O Papa Francisco quer uma nova economia. Por isso, para não ficar apenas pelas palavras, convidou meio milhar de jovens para discutir o assunto.

Ontem houve uma sessão de homenagem à Aura Miguel, que recentemente completou 100 viagens com os Papas, desde 1987. Sabiam que a bochecha dela é praticamente uma relíquia do Papa João Paulo II? Saibam mais aqui.


Conheçam a história do Cardeal “eletricista” que devolveu a luz a 450 pessoas. Agora o Governo quer que ele pague a conta…

No próximo dia 21 de maio, terça-feira, realiza-se uma conferência na Universidade Católica do Prof. Rémi Brague. É daquelas que não vai querer perder… Basta dizer que é um dos vencedores do Prémio Ratzinger! Junto o cartaz, divulguem e apareçam.

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