quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Nazaré não é só ondas grandes

De volta após um mês de licença, começo por trazer-vos esta notícia do Papa Francisco, que recebeu das mãos do presidente da Câmara uma imagem de Nossa Senhora da Nazaré, juntamente com um pedido de apoio à candidatura da devoção a património imaterial da humanidade.

Os bispos do Congo estão muito preocupados com a sorte de cerca de meio milhão de compatriotas que foram expulsos de Angola ao longo das últimas semanas.

Na passada segunda-feira houve uma homenagem ao padre João Seabra, que contou com a presença de centenas de amigos e admiradores, incluindo o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Foram vários os artigos do The Catholic Thing publicados ao longo deste último mês, que vos convido a ver no blog. Destaco o que foi publicado agora mesmo, em que Stephen White fala do perigo dos bispos trocarem as suas mitras por mós de moinho no caso de falharem na resposta aos abusos sexuais sobre menores. Mas podem ainda ler o artigo de Filip Mazurkzak, também sobre o tema dos abusos.

Mitras e Mós

Stephen P. White
Ouvi uma vez uma homilia sobre vocações ao sacerdócio que concluiu com o seguinte desafio aos homens novos da paróquia: “Se não há sequer uma pequena parte de vós que quer ser padre, é porque não sabem verdadeiramente o que é um padre”.

Nessa altura, com vinte e poucos anos e acabado de sair de um período de discernimento, achei que este era um ponto muito profundo e muitas vezes desvalorizado. Por um lado, contraria a ideia do sacerdócio ordenado como um tipo de serviço eclesial selectivo, como se alguns homens fossem chamados e outros simplesmente não. Mas o que me chamou mais a atenção foi a confiança do padre quanto à universalidade do seu apelo. Estava a fazer uma afirmação subtil, mas ainda assim forte, não só sobre o que significa ser padre, mas sobre o que o que significa ser homem.

E nisso tinha razão. Há algo da essência da masculinidade num homem que se distingue dos demais, pelos demais, e oferece um sacrifício em nome daqueles que lhe são confiados. Não pavoneia a sua autoridade sobre as pessoas; dá a vida por elas. Sem querer confundir aqui as diferentes vocações, de certa forma isso descreve bem a vocação de todos os homens.

Se é verdade que o sacerdócio revela algo sobre o ser-se homem, então também se aplica que a paternidade deve revelar algo sobre a essência do sacerdócio. Se um padre não compreende de alguma maneira o que significa ser-se pai – não necessariamente no sentido natural, mas espiritual – então por mais que seja tratado por “padre”, terá dificuldade em viver bem o sacerdócio.

E com isto chegamos aos bispos americanos, que na próxima semana se encontrarão em Baltimore para o plenário anual da Conferência Episcopal*. A crise dos abusos sexuais – e sobretudo as falhas dos bispos em responder adequadamente a esses abusos – estará no centro das atenções.

Os bispos terão de colocar muitas perguntas a si mesmos e uns aos outros. Mas há uma pergunta que toca em cheio na fúria e na revolta sentidas por milhões de fiéis católicos: Que tipo de pai, que tipo de homem, reage aos abusos praticados sobre os seus próprios filhos da forma como muitos dos nossos bispos responderam aos abusos cometidos sobre os seus?

A pergunta encerra em si a resposta.

Quantos são os bispos que compreendem que as suas falhas são falhas de paternidade, e que as suas traições e as suas mentiras são sentidas com a mesma devastação? Quantos bispos têm a coragem de denunciar os seus próprios colegas – mesmo que em privado – nestes termos?

A reunião dos bispos começa na Segunda-feira com um dia inteiro dedicado a “oração e discernimento”, que terminou com Missa. Isto dará aos bispos a oportunidade de contemplar estas questões, tenham eles essa coragem.

Por providência, as leituras para a Missa de Segunda-feira devem contribuir para um exame de consciência.

A primeira leitura é de Paulo, que instrui Tito, seu “verdadeiro filho” na fé, quanto à selecção de homens para o sacerdócio: “Estabelece presbíteros em cada cidade, como te instruí, na condição de que sejam irrepreensíveis”. A seguir Paulo instrui Tito nas suas responsabilidades enquanto bispo, exortando-o a rectidão moral e concluindo com a necessidade de “reter firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.”

São palavras boas e edificantes para os bispos (e todos nós) escutarem. Mas se as palavras de Paulo são edificantes, as palavras de Cristo aos apóstolos no Evangelho de Segunda podem ter um efeito diferente: “É mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar, do que causar escândalo a um só destes pequeninos”

Quantos são os bispos que abordam os deveres do seu ofício com tremor e temor, não vão eles trocar as mitras por mós?

Nosso Senhor não os deixou apenas com esse aviso. Não basta que os apóstolos deixem a sua própria casa em ordem, se ignorarem aquilo que se passa à sua volta. Eles são responsáveis pelos “pequeninos”, mas também uns pelos outros.

“Estejai atentos! Se o teu irmão pecar, repreenda-o.”

Um bispo que se recusa a proclamar a verdade aos seus irmãos bispos, um bispo que não oferece (nem aceita) correcção fraterna, não só falha na caridade para com os seus irmãos bispos, mas falha os “pequeninos”, que são os que mais sofrem pela sua negligência.

Mais uma vez, não se trata de bispos a exibirem a sua autoridade uns sobre os outros, mas de levar a sério a sua vocação enquanto bispo, padre, pai e homem.

E quando um bispo falha, o que fazer?

“Se ele se arrepender, perdoa-o. E se te ofender sete vezes num só dia, e voltar sete vezes dizendo ‘desculpa-me’, deves perdoá-lo”.

Ora, aqui somos nós que devemos fazer um exame de consciência. Os nossos bispos são homens, isto é, são pecadores. Não obstante a importância de punição justa e prudente, estamos dispostos a perdoar os nossos bispos quando estes se arrependem e pedem perdão? E estamos dispostos a distinguir entre erros honestos e erros de juízo, por um lado, e depravação e corrupção por outro? Ou será que estamos tão seguros da nossa revolta que não consideramos necessário fazer tais distinções?

Esperemos e rezemos para que os bispos tenham a coragem e a humildade de enfrentar as questões mais difíceis, e que nós tenhamos a sabedoria de responder, honestamente, como os apóstolos às admoestações de Cristo: “Aumenta a nossa fé”.

* O encontro entretanto já começou.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Leigos Preocupados e Sacrifício Espiritual

Pe. Bevil Bramwell
Ao longo destes dias muitos padres têm recebido mensagens de pessoas preocupadas com o estado da Igreja. É uma questão grande, para a qual não temos respostas imediatas nem muito confortantes. Muitas pessoas estão a par da situação: redes de padres homossexuais; abusos sexuais de crianças e jovens adultos; a deturpação da doutrina; a incapacidade dos bispos de responder à crise; sinais confusos de Roma.

Os leigos têm todo o direito a estarem horrorizados – até zangados – com tudo isto. Mas algumas coisas não mudaram, como por exemplo o facto de continuarem a ser baptizados e crismados. Chegou a altura em que vamos ver do que são feitos os leigos.

Os sacramentos do Baptismo e do Crisma significam que os leigos são membros adultos da comunidade católica, responsáveis pela “prática da Fé” – palavras sugeridas para as homilias nos baptismos.

A prática da fé envolve tudo o que tem a ver com a nossa adesão pessoal a Jesus Cristo, tornando a comunidade cristã uma realidade viva e participando na missão redentora da Igreja. Isto envolve aquilo que o Vaticano II e a tradição descrevem como “sacrifício espiritual”.

O sacrifício espiritual é uma opção espiritual interior e positiva do cristão individual. Trata-se da atitude básica para confrontar qualquer crise, incluindo a actual.

O primeiro passo é não tratar a pertença à Igreja como se fosse um clube, mas reconhecer os elos espirituais profundos que nos ligam. Entre outras coisas isso implica não abandonar a Igreja, amuado – mas caso esteja a pensar em fazê-lo, talvez queira averiguar primeiro o registo de abusos na igreja ou instituição secular a que pensa aderir.

Os sacrifícios espirituais interiores não dependem do clero, nem de Roma. São sacrifícios necessários para edificar, ao mesmo tempo, uma vida pessoal de virtude, a vida da comunidade eclesial e para fazer chegar mais longe a missão da Igreja.

O ensinamento no Catecismo é mais que suficiente para ajudar as pessoas a compreender as virtudes de uma vida católica, que implica tentar conformar tudo o que fazemos ou dizemos à verdade divina – isto é, procurando viver uma vida inteiramente cristã e alcançando a santidade (ver a III parte do Catecismo). Quando os leigos aplicam esse ensinamento, então mostram do que são feitos!

Depois temos a participação na vida dos sacramentos. Também isto envolve o sacrifício espiritual, na medida em que a pessoa se associa às orações comunitárias e responde vivamente com o seu “ámen” às orações do sacerdote. Podemos participar nas celebrações eucarísticas independentemente das crises na Igreja.

A Eucaristia é o momento certo para oferecer o sacrifício perfeito ao Pai. Não há crise que lhe possa tocar. A Eucaristia é a principal realização temporal do que significa a Igreja. Juntamo-nos de forma ritual para oferecer louvor e adoração e para pedir ajuda a Deus, a razão principal da nossa existência.

Nas nossas respostas à actual crise católica não devemos cair na forma secular e revoltada de comunicar que vemos à nossa volta. A crise não é uma oportunidade para birras adolescentes. É necessário um grande e constante sacrifício espiritual para nos juntarmos e comunicarmos como cristãos – sempre, em todos os assuntos.

O equivalente católico a “reuniões de condomínio” poderá alcançar alguma coisa, mas não resolve os muitos desafios profundos que enfrentamos, a não ser que também seja espaço de oração. A revolta legítima poderá levar um bispo a despertar para as suas responsabilidades doutrinais e morais. Mas a solução a longo-prazo exige uma mudança de atitude espiritual que conduz tanto a uma mudança de comportamento como a uma vontade de remediar as muitas más escolhas feitas no passado.

Outro sacrifício importante para os leigos é estar mais bem informado – e com isso não me refiro à revelação de estatísticas sobre abusos ou assuntos clericais. Estou a falar em estar bem formado interiormente sobre como se pode ser um leigo católico em pleno. Como é que eu participo nesta Igreja pecaminosa, como santo, em vez de me fechar em copas e esperar que a crise passe?

Quanto mais compreender isto, melhor se aguentará como leigo e poderá questionar o clero. Tome nota, contudo, que a maioria do clero está tão enfurecido como você sobre o abuso de jovens, mas também sobre o abuso da própria Igreja. Basta a colaboração de poucos padres para esconder um caso de abusos ou para promover um bispo abusador, da mesma maneira que basta a colaboração de poucos leigos para esconder os abusos numa família, que é onde acontece a maior parte dos casos. Saiba que a maior parte do clero está firmemente do seu lado.

Um outro sacrifício envolve aceitar que esta crise está para durar. Há cinquenta estados nos Estados Unidos e a informação sobre cada um vai sair gota a gota, ao longo dos próximos anos. Mais, grande parte da crise que já passou não pode ser “resolvida”. Sejam quais forem as novas políticas ou as sanções administrativas ou criminais impostas, em última análise a única resposta plena para este tipo de pecado é o arrependimento e a reparação.

Agora é tempo de muita penitência, jejum e oração. Os leigos devem praticar estas coisas também, porque desempenham um papel tão importante como qualquer outra pessoa neste processo: “se algum membro padece, todos os membros sofrem juntamente; e se algum membro recebe honras, todos se, alegram” (Lumen Gentium).


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 21 de Outubro 2018 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Quando o Clero faz Coisas Más

Filip Mazurczak
Claramente o ano de 2018 não tem sido bom para a Igreja Católica. Com o caso do cardeal McCarrick, o relatório na Pensilvânia e escândalos em curso na Austrália, Chile, Alemanha e noutros lugares, controvérsias sobre homossexualidade e o Sínodo da Juventude, a cobertura na imprensa sobre a Igreja Católica tem focado sobretudo o abuso sexual por padres e o seu encobrimento por bispos.

Em vez de nos desencorajar na nossa fé, porém, estas revelações de maus condutos de homens e de mulheres na Igreja devem ser uma oportunidade para a nossa conversão pessoal, e um apelo ao testemunho cristão.

Quando lemos sobre os crimes cometidos contra jovens pelos padres, devemos manter as coisas em perspectiva. No seu estudo “Padres e Pedófilos”, o historiador e especialista em justiça criminal Philip Jenkins (um anglicano que abandonou a Igreja Católica há décadas e que, por isso, não pode ser acusado de preconceito a favor do Catolicismo), estimou que entre 1,5 e 3,5% de todos os padres nos Estados Unidos possam ter abusado sexualmente de menores.

Não faço ideia quais os dados correspondentes para clero de outras denominações, padres, treinadores, médicos ou outros que trabalham com jovens. Mas calculo que esses e outros grupos não se importariam de ter um número assim tão baixo.

Ao longo do ano passado aprendemos uma coisa que para muitos já era evidente, que Hollywood está repleta de predadores. As altas figuras de “Tinseltown” gostam de pensar que são muito superiores a nós, mas responderam aos crimes sexuais de Harvey Weinstein – olhando para o outro lado diante dos encobrimentos – de forma pouco diferente de alguns dos piores bispos em relação aos abusos sexuais praticados por padres.

Quando falamos destes escândalos com os nossos amigos não católicos, devemos informá-los destes factos, recordando-nos que uma das bem-aventuranças de Jesus é instruir os ignorantes. Ao mesmo tempo, porém, é compreensível que o mundo espere mais da Igreja Católica, que afirma ter sido fundada por Jesus Cristo. Ainda que todas as conferências episcopais do mundo adoptem procedimentos que evitem que cada homem com tendências malévolas tenha acesso ao seminário, e ainda que as autoridades civis e eclesiásticas respondam de forma imediata e severa às acusações de abuso – e espero que assim seja – continuará a haver maldade entre o clero.

A razão simples para isto está na nossa própria natureza. Por causa do pecado original, todos somos capazes de fazer mal ao nosso próximo. Os padres são homens e ao longo da história não há falta de casos escandalosos entre eles. Depois das Cruzadas, os Cavaleiros Teutónicos, uma ordem militar, utilizaram a espada para converter ao Cristianismo as últimas tribos pagãs dos Bálticos.

Durante a II Guerra Mundial um padre eslovaco, o demoníaco Monsenhor Jozef Tiso, chefiou um dos piores estados fantoche dos nazis. Apesar de frequentemente utilizarmos os termos “santo” e “pecador” como opostos, os santos também pecam. O que faz deles santos é o facto de terem consciência da sua natureza decaída e se confessarem muito mais frequentemente que a maioria de nós (São João Paulo II, por exemplo, confessava-se todas as semanas), e se esforçam por ser melhores.

Monsenhor Jozef Tiso
Devemos rezar pela conversão dos padres que espalham o escândalo, recordando-nos que mesmo os casos aparentemente mais graves são capazes de dar a volta às suas vidas e dar testemunho. Há um exemplo muito bonito no romance “O Poder e a Glória” de Graham Greene, sobre um padre que não tem levado a sério os seus votos de celibato e que tem um problema de álcool, mas que acaba por escolher o martírio no México da década de 1920.

Acima de tudo, quando ouvimos histórias de padres que dão mau nome à Igreja, devemos ser nós próprios a dar testemunho cristão a nível local, nas nossas famílias e no nosso trabalho, nas nossas universidades, entre amigos e onde quer que seja possível.

Quando a maior parte das pessoas ouve falar na Igreja pensam vem-lhes à cabeça imagens de bispos com mitras, a Basílica de São Pedro, ou possivelmente o pároco local. Mas os leigos também são Igreja. Para além dos generais em Roma e dos Coronéis que lideram as nossas dioceses, a Igreja é composta por mais de mil milhões de soldados rasos de Deus. Por isso, quando ouvimos dizer que há pessoas que estão a abandonar a fé por causa dos pecados dos membros da Igreja, em vez de nos limitarmos a criticar “os padres” ou “os bispos”, devemos perguntar se as nossas acções não feriram também os nossos vizinhos. Seremos nós bons mensageiros do ensinamento de Cristo nas nossas vidas diárias?

Se o mal feito por pessoas que afirmam ser católicas pode afastar as pessoas, então segue-se logicamente que o testemunho de católicos santos os pode atrair. O jornalista britânico Malcolm Muggeridge foi criado numa família ateia. Em 1969 viajou a Calcutá para fazer um documentário e escrever um livro sobre Madre Teresa e o seu trabalho entre os mais pobres. Muggeridge ficou de tal forma impressionado pelo seu testemunho que quando regressou a Inglaterra se converteu ao Cristianismo e, eventualmente, ao Catolicismo.

A maior parte de nós não somos capazes da caridade heroica de Madre Teresa, mas podemo-nos esforçar mais para viver melhor os Evangelhos no nosso dia-a-dia. Devemos examinar os nossos próprios pecados, confessar-nos e pensar no que fazer para sermos melhores católicos.

Quando ouvirmos falar de bispos ou cardeais que fazem coisas terríveis, esse pode ser o sinal para nos oferecermos para trabalhar num banco alimentar, ou num centro para deficientes. Se temos família ou amigos que lutam contra diversos problemas, mas com quem não falamos há algum tempo, então este é o momento para ligar. Se estamos de relações cortadas com alguém que nos é próximo, devemo-nos reconciliar. Mesmo as coisas mais pequenas, feitas com o espírito certo, são caridade católica em ação.

Para além de rezar, a maioria dos católicos leigos pouco pode fazer no sentido de influenciar a conduta da hierarquia e do clero (à excepção, porventura, daqueles que conhecemos pessoalmente). Mas nós somos parte da Igreja tal como eles e podemos, sem dúvida, afectar a percepção que algumas pessoas têm do catolicismo e talvez até, pelos desígnios insondáveis de Deus, contribuir para algumas conversões.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Outubro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

“Fizemos o Nosso Trabalho”

Randall Smith
O filme “Sully”, de Clint Eastwood (2016), conta a história do capitão “Sully” Sullenberger e da aterragem de emergência do voo da US Airways no Rio Hudson, em 2009, após ter perdido ambos os motores ao ser atingido por um bando de pássaros depois de levantar voo. Todos os 155 passageiros e a tripulação sobreviveram, apenas com alguns ferimentos ligeiros. A maioria dos passageiros foi evacuada para as asas do avião, de onde foram resgatados do frio pela rapidez da acção dos pilotos de ferries e por mergulhadores da equipa de resgate aquático da Cidade de Nova Iorque.

Embora o título do filme seja “Sully”, e grande parte da acção seja centrada nele (desempenhado por Tom Hanks), este é mais do que um filme de bajulação biográfica, contém muitos temas e lições importantes.

Um dos temas a que o filme recorre constantemente diz respeito à relação entre os homens e a tecnologia que usam. Numa cena reveladora, logo no início do filme, Sullenerger e o seu co-piloto Jeff Skiles estão a ser interrogados por membros do Departamento Nacional de Segurança dos Transportes, que lhes dizem que as várias simulações de computador indicam que poderiam ter regressado em segurança ao aeroporto.

Skiles responde: “Olhem, eu acabei agora mesmo de treinar no A320, e digo-vos que a única razão pela qual o avião operou tão bem, a única razão pela qual conseguiu aterrar onde quer que seja, foi porque o capitão Sullenberger ligou a Unidade Auxiliar de Potência.”

“Estava simplesmente a seguir o QRH [manual técnico]”, diz um membro do Departamento.

“Não. Não estava a seguir os procedimentos, coisa nenhuma”, diz Skiles, naquilo que poderia parecer uma crítica ao seu capitão. “Sei isso”, continua, “porque eu estava com o QRH nas mãos. Ele ligou a UAP imediatamente depois dos motores terem falhado. Segundo a Airbus, essa é a 15.ª coisa na lista. A 15.ª. Se ele tivesse seguido as malditas regras, tínhamos morrido todos.”

Outra leitura técnica contém dados que indicam que o motor esquerdo ainda tinha alguma potência, suficiente para os poder ter livrado de sarilhos. “Então os dados estarão errados”, diz-lhes. “Olhem para o motor esquerdo e não terá nada mais que gansos mortos e zero potência”. Quando o avião é finalmente retirado do Hudson percebe-se que o computador estava errado. Se tivessem seguido as orientações da máquina, teriam morrido.

Quando lhe perguntam como é que “calculou todos os parâmetros” quando decidiu aterrar de emergência, Sully responde, “não houve tempo para cálculos. Tive de me fiar na minha experiência a gerir altitude e velocidade em milhares de voos, ao longo de quatro décadas”. Diz aos membros do departamento, atónitos, que fez tudo “a olho”.

As máquinas fazem muitas coisas bem. Conseguem calcular mais depressa que os humanos. Mas não são capazes de tomar decisões de vida e de morte. Para isso é preciso um humano e, normalmente, um humano excepcionalmente bem treinado. As máquinas podem ajudar os humanos, mas é uma parvoíce pensar que alguma vez possam substituir o juízo humano.

As máquinas apenas são, como sempre foram, tão boas como os humanos que as usam. Isto é algo de que nos devemos lembrar quando ouvimos o canto da sirene dos carros automatizados. Só um ser humano pode tomar a decisão de arriscar a vida despenhando o seu carro para evitar acertar numa criança que saiu a correr para a estrada.

Eu calculo que haja dois tipos de passageiros de carro automatizado. Aqueles que querem o carro programado para chocar, sacrificando o passageiro, e aqueles que querem o carro programado para atropelar qualquer obstáculo, em vez de arriscar a segurança do passageiro. Que algoritmo é que você escolheria? As nossas máquinas não são melhores que os homens que as usam.

Capitão Sullenberger
Depois de ouvirem a gravação do cockpit da aterragem de emergência, que revela o quão miraculosamente calmos e metódicos foram os dois pilotos, Sullenberger diz ao seu copiloto: “Estou tão orgulhoso de ti. Estiveste sempre ao meu lado, apesar de todas as distrações. Com tanto em causa. Fizemos isto juntos. Fomos uma equipa.” Os olhos de Skiles enchem-se de lágrimas e o Sully diz simplesmente: “Fizemos o nosso trabalho”.

Quando regressam à audição de segurança, um dos membros do departamento, que anteriormente tinha sido antagónico, elogia Sullenberger por ter sido a componente mais importante da equação que salvou o voo. “Se o retirarmos da equação”, diz-lhe, “a matemática não bate certo”.

“Não fui apenas eu”, responde Sully, “fomos todos. O Jeff, a Donna, a Sheila, a Doreen. Os passageiros e as equipas de resgate. Os controladores aéreos. Os tripulantes dos ferries e os polícias mergulhadores. Nós conseguimos”. E é aqui que o espectador compreende que esta é a história que Eastwood tem estado a contar desde o início. Ele tem mostrado, com perícia, como todas estas pessoas se juntaram e desempenharam um papel essencial. Os ferries chegaram o mais perto possível da asa do avião, para retirar os passageiros; os polícias mergulhadores salvaram os que estavam na água e os comissários de bordo prepararam os passageiros. Todos eles “fizeram os seus trabalhos”.

Quando pensamos em heróis e em santidade, raramente pensamos em homens e mulheres que simplesmente fazem os seus trabalhos, e os fazem com excelência. Dia após dia, hora após hora, há pessoas cujas vidas e bem-estar dependem de nós, de fazermos bem os nossos trabalhos, tal como as nossas vidas dependem de eles fazerem bem os seus. Esta é a base de qualquer comunidade. É sobre isto que se constrói a civilização. Não é sobre o poder militar, ou máquinas poderosas, ou brilhantismo científico. As nossas máquinas podem convencer-nos que não é assim, mas trata-se de uma ilusão perigosa.

Numa era de hiperindividualismo, bem podemos aprender as lições de “Sully”. As nossas vidas estão interligadas. As máquinas são tão boas como as pessoas que as sabem usar e quando as ignorar. E existem heróis. São as pessoas que fazem os seus trabalhos com excelência – não por dinheiro, não para serem promovidas, não por fama nem por notoriedade, mas simplesmente porque, nas palavras do poeta e letrista Bob Dylan, “you gotta’ serve somebody”. E é bom que não seja uma máquina.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 24 de Outubro de 2018)

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sacramentos e Hipócritas

“E nós a confessar-nos a estes tipos.” Com esse o comentário, a minha falecida avó revelava um momento de severa lucidez no meio da sua demência, enquanto via uma reportagem sobre o primeiro escândalo de abusos sexuais por parte do clero, em 2002. A minha avó era uma católica nova-iorquina, de ascendência irlandesa, que em toda a sua vida não faltou à missa um único domingo. Em relação ao fragilizado e quase esquecido sacramento da confissão, aposto que não foi a única a pensar desta maneira.

Dezasseis anos mais tarde esta nova ronda de escândalos clericais e episcopais volta a infligir diversas feridas no coração: os danos irreparáveis às vítimas, a cumplicidade com o pecado, o cheiro nauseabundo do abuso de poder. Com cada facada no coração vem também um murro no estômago: aqueles que têm por função convidar-nos a viver uma vida moral – e chamar-nos à atenção se falharmos – têm estado a viver uma vida dupla.

Poucas coisas fazem os homens e as mulheres comuns perder a cabeça mais do que a hipocrisia, e os padres e bispos abusadores são, possivelmente, os piores dos piores hipócritas.

Então porque é que havemos de continuar a ir confessar-nos a um padre, quando é bem possível que ele tenha manchas ainda mais feias que as nossas na sua alma? Quem é ele para me ensinar a viver?

A resposta: Ele não é ninguém. E é precisamente por isso que podemos, e devemos, continuar a confessar os nossos pecados a padres, semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Quando Cristo edificou a sua Igreja sobre os apóstolos, não foram as suas capacidades humanas que a fizeram funcionar e crescer. Daquilo que a Sagrada Escritura nos diz sobre os apóstolos, a Igreja não teria sobrevivido um único dia se fosse esse o caso. Pelo contrário, Cristo concedeu a estes homens os seus poderes divinos para usarem: “Soprou sobre eles e disse-lhes, ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos’” (João 20, 22-23).

O poder infalível que Deus confiou à Igreja através de Cristo transcende os limites das mãos falíveis a quem é confiado através do sacramento da ordem. No confessionário o padre não age pela sua autoridade, mas pela da Igreja, para cujo serviço foi consagrado. Quando confessamos os nossos pecados, não é o padre quem nos perdoa, mas Cristo que age através dele. A identidade ou os actos do padre não inibem a graça que Deus nos quer dar através dos sete sacramentos que estabeleceu.

É essencial compreender que a Graça de Deus que os Sacramentos nos transmitem não depende do estatuto do transmissor, pois isso recorda-nos que a nossa Igreja é de Cristo, e não dos homens. Mas, ao mesmo tempo, continua a existir ao nível humano um sentimento de desilusão. Não queremos apenas saber que os nossos pecados foram perdoados, ou que recebemos a graça de Deus, embora isso nos deva bastar, queremos também sentir o amor de Deus.

Não há como negar que participar numa missa ou receber a absolvição de um padre santo e devoto é muito mais edificante, espiritualmente e pessoalmente, do que uma missa transformada num espetáculo de folclore, ou a confissão a um padre distraído ou mal-educado. Normalmente não podemos alcançar o divino sem o representante humano. O nosso desafio é não permitir que o humano nos desencaminhe do divino.

Jesus mostrou estar bem ciente desta dificuldade durante o seu ministério. Criticou ferozmente os fariseus da sua altura por causa da sua hipocrisia, chamando-os tolos cegos, serpentes, ninho de víboras e túmulos caiados. Mas por entre essas denúncias incríveis, Jesus chama-nos a obedecer. “Os escribas e os fariseus sentam-se no trono de Moisés, por isso façam e observem o que eles vos dizem” (Mat. 23, 2-3).

Obedecemos por causa do seu cargo, não por quem são como indivíduos nem pela forma como se comportam. Jesus é claro: Façam os queles dizem, não o que eles fazem.

Por isso devemos obedecer aos mandamentos morais e espirituais que Cristo deixou à sua Igreja, para passar às gerações seguintes. Devemos permanecer castos, confessar os nossos pecados a padres quando falhamos e receber o perdão de Deus através do sacramento da cura que o padre administra – independentemente de o padre no confessionário ser um santo ou um malandro, celibatário ou hipócrita.

E que fazer quando o elemento humano em nós tiver dificuldades em ultrapassar a hipocrisia, a banalidade ou a má educação que possamos encontrar? Como é que havemos de responder a estes fatores externos que dificultam o nosso caminho para o divino?

Talvez este seja o desafio de Deus para os leigos desta época: Ele está a purificar a nossa fé, mostrando-nos que a fé é mais do que apenas sentimentos, emoções e agradáveis interações humanas. A verdadeira fé consiste na confiança em Deus, assente na certeza de que Ele nos ama e quer dar-nos a sua graça. A verdadeira fé requer a nossa aceitação da Cruz e na Cruz não existe consolo humano, apenas a nossa fé de que Deus está connosco.  

E independentemente de como nos sentimos, sabemos que a nossa fé não é vã.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018 no The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Os “Apenas Cristãos” não têm Noção


Uma das coisas mais irritantes que ouço no diálogo ecuménico é: “Ah, eu não pertenço a nenhuma tradição ou denominação religiosa, sou apenas um seguidor de Jesus”. Pior ainda quando a pessoa assegura, com grande confiança, “não sou protestante, sou cristão.” Nestes casos estamos perante protestantes que não parecem capazes de compreender que são protestantes.

Admito que a vontade de deixar de parte os títulos sectários ou de denominação, é louvável, pois reconhece que as diferenças e as divisões entre os cristãos não são, em si, uma coisa boa. A Igreja Católica subscreve esta visão, lamentando no Catecismo, #817, as “rupturas que ferem a unidade do Corpo de Cristo”. Mas, para além disso o slogan “sou apenas cristão” não tem muito que se lhe diga. 

Para começar, é ignorante. Todo o cristão, por mais bem-intencionado que seja o seu “apenas cristianismo”, faz juízos teológicos que o colocam num ou noutro campo. Por exemplo, todos têm de responder à questão sobre como uma pessoa se torna cristã. Bastará recitar a “oração do pecador”? E o baptismo? Alguns baptismos são legítimos, e outros não? É necessário juntar-se a uma comunidade com outros cristãos? Se sim, que características é que essa comunidade deve ter para que seja “verdadeiramente cristã”? Quando se assume como cristão, é possível perder esse estatuto, por exemplo, pela descrença ou comportamento imoral?

As respostas a estas questões colocam o cristão num ou noutro campo: pedobaptista ou credobaptista, “uma vez salvo, sempre salvo”, ou não, etc.. As diferentes tradições eclesiais – católica, ortodoxa, anglicana, presbiteriana, metodista, baptista – fornecem respostas diferentes e, frequentemente, contraditórias, a estas questões e é por isso que as respectivas igrejas estão recheadas de pessoas que, presumivelmente, concordam com essas mesmas doutrinas.

Nunca se é “apenas cristão”. Tem de se tomar uma posição sobre estas questões, e outras, ou então mesmo a afirmação de que se é cristão colapsa.

É também uma questão de soberba. Ao dizer-se “apenas cristão”, a pessoa age como se não existissem tradições teológicas, nenhuma comunidade eclesial fora de si mesma que possua qualquer tipo de autoridade. O cristão que se diz “apenas cristão” define perfeitamente o indivíduo moderno, autónomo e atomizado, que não precisa de mais ninguém para além de si mesmo.

Não se percebe porque é que estes “apenas cristãos” se dão sequer ao trabalho de ler a Bíblia, uma vez que a adesão ao texto os torna dependentes dos seus autores, como São Pedro, São Paulo ou São Lucas. O cristão “apenas cristão” acha que tem as respostas para tudo e que aqueles tontos que debatem questões teológicas simplesmente não compreendem. Jesus, diz o “apenas cristão”, é simples e compreensível, fomos nós que complicámos a sua vida e os seus ensinamentos com todas estas coisas intelectuais.

Por fim, demonstra ainda uma amnésia histórica lamentável. Os proponentes da teologia “apenas cristã” não reconhecem como as suas próprias crenças e práticas foram moldadas por 2000 anos de ensinamentos e de tradições da Igreja. Embora muitos “apenas cristãos” acreditem na Santíssima Trindade, normalmente não sabem que essa doutrina foi definida e promulgada no Concílio de Niceia, no Século IV, nem reconhecem que as suas crenças sobre a salvação costumam ser luteranas ou calvinistas.

Embora a maioria dos “apenas cristãos” leia fielmente a Bíblia, não têm muita noção sobre como é que o livro adquiriu a sua presente forma, ou que é uma coleção de textos diferentes, escritos por pessoas diferentes, em línguas diferentes, traduzidos para o vernáculo de forma imperfeita por académicos. Nem se apercebem que mesmo o conjunto de livros na sua Bíblia, o cânone, foi alvo de grande contestação e que foram necessários três concílios nos séculos quarto e quinto (Hipona, Cartago e Roma) mais outro concílio ecuménico em Trento (século XVI) para o definir com autoridade.

Mais, os “apenas cristãos”, que na sua larga maioria são protestantes, usam uma versão da Bíblia à qual faltam vários livros, chamados os deuterocanónicos, que foram afirmados por esses concílios.

Quando era caloiro na Universidade de Virgínia, tive uma cadeira de História do Cristianismo, dada por Robert Louis Wilken, um académico de renome e ex-luterano convertido ao Catolicismo. A primeira vez que o visitei no seu gabinete, disse-lhe que era cristão. Interessado, perguntou-me a que denominação pertencia. Eu, cheio de mim, disse-lhe que não tinha denominação. Ele não disse nada, mas olhou-me de uma forma que jamais me esquecerei. Dizia, de forma simpática, mas firme, que eu não tinha a menor noção do que estava a falar.

Rapidamente comecei a perceber o que estava de errado na minha afirmação daquele dia, de tal forma que comecei um longo estudo da história e da teologia cristãs para determinar as minhas próprias crenças. Por esta altura já me tinha formado e entrado num seminário reformado (calvinista) e dizia a todos os evangélicos com quem me cruzava que deviam ter uma boa razão para não serem católicos. Embora eu ainda não fosse católico, compreendia bem o que estava em causa: todos os protestantes eram herdeiros de um sistema religioso que tinha rompido com a Igreja Católica.

Eu também já fui “apenas cristão”. E era um idiota. Simplesmente não existe tal coisa. E é por isso que, sempre que me envolvo em diálogo ecuménico com protestantes, dou graças por todos os que compreendem de facto que são protestantes. Pelo menos eles compreendem que as suas crenças não se desenvolveram num vácuo, mas que lhes foram entregues pelos seus antepassados na fé.

Aliás, é precisamente isso que significa a palavra tradição (traditio, em latim). As conversas com protestantes que compreendem quem são, e de onde vêm, tendem a ser muito mais frutíferas e interessantes do que com aqueles que se consideram “apenas cristãos” e que se acham muito espertos e “superiores a tudo isso”, como já foi o meu caso.

A todos os leitores que se definem como “apenas cristãos”, perdoem-me se reviro os olhos e abano a cabeça quando me dizem que a vossa fé transcende as denominações, teologia e história. Nas palavras – ligeiramente modificadas – do falecido Thomas Merton, o orgulho torna a fé cristã artificial; a humildade torna-a real.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Outubro de 2018)

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