quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Os Monólogos da Vagina Silenciados

Randall Smith
Há alguns anos várias universidades confessionais estiveram envolvidas em discussões sobre se deviam permitir a encenação a peça “Monólogos da Vagina”. Muitas delas – algumas das quais católicas – foram coagidas a permitir a peça controversa, com o argumento de que seria contra a “liberdade académica” não o fazer.  

Agora, porém, pelo menos uma universidade tomou a decisão ousada de banir a peça, mas talvez não pelas razões que esperaria. Mount Holyoke College, que se descreve como uma “universidade de artes liberais para mulheres” decidiu agora que a peça “não é suficientemente inclusiva”.

Então? Não é uma peça só sobre mulheres? Ao que parece, não, não é.

A verdade é que o conselho de estudantes de Mount Holyoke baniu a peça porque, “no seu cerne, o espectáculo oferece uma perspectiva muito limitada do que significa ser mulher”.

Poderá estar a pensar “Viva! Mas porque é que as mulheres haviam de ser reduzidas a uma parte do seu corpo. Não é precisamente disso que muitas delas já se queixam?”

Claro que sim, mas o problema não é esse. Acontece que Mount Holyoke baniu a peça porque exclui “mulheres” que – e não, não estou a inventar – não têm vagina.

Ah... Calma... O quê?

Uma manchete louvou a decisão de Mount Holyoke, dizendo que “Algumas universidades estão a ultrapassar a peça ‘cisnormativa’ Monólogos da Vagina, de Eve Ensler”.

Eve Ensler, a autora da peça, defendeu-se dizendo “Penso que é importante que se saiba que a minha intenção nunca foi escrever uma peça sobre o que significa ser mulher. Esse nunca foi o objectivo de ‘Os Monólogos da Vagina’”.

Ainda bem que isso ficou esclarecido. Afinal ela e os manifestantes católicos estão de acordo nesse ponto. Mas afinal de contas sobre o que é a peça?

“É uma peça”, explica Ensler, “sobre o que significa ter uma vagina.” (Então afinal sempre é sobre uma parte do corpo). “Nunca se disse, por exemplo, que a definição de mulher é alguém que tem uma vagina… Penso que essa distinção é muito importante… Temos de ter muito cuidado com o que dizemos quando utilizamos linguagem”.

Pois claro que sim. Muito, muito cuidado. Porque é cada vez mais claro que toda a gente tem um alvo nas costas hoje em dia, enquanto a elite intelectual joga o seu jogo interminável de superioridade ideológica, que passa por ver quem consegue ser superior ao próximo quando toca a indignação moralista por alegadas falhas na defesa escrupulosa da “ideologia do género”. E como eu não consigo imaginar qualquer situação em que não estejamos a “utilizar linguagem” – uma vez que usamos palavras para pensar – suponho que a solução seja ter sempre “muito cuidado” com o que se pensa. A “liberdade” moderna, como George Orwell já tinha previsto, requer que as pessoas estejam sempre à procura de provas de “crime de pensamento”.

A verdade é que não me interessa muito o que a Mount Holyoke faz ou deixa de fazer, nem acho que a cultura de um campus universitário deve ser julgado com base na participação ou não dos seus alunos nos “Monólogos da Vagina”, mas tenho duas preocupações.

A primeira é que aquilo que se está a perder neste caos linguístico são as próprias mulheres – mulheres verdadeiras, reais, com as suas necessidades específicas, algumas das quais biológicas. Enquanto homem não me cabe a mim dizê-lo, mas penso que as mulheres o deviam fazer.

Claro que uma mulher não se reduz ao seu corpo, mas requer um gnosticismo radical afirmar que o ser mulher – ou humano, já agora – não tem absolutamente nada a ver com a corporeidade. As questões de saúde femininas não são apenas emocionais, psicológicas ou culturais. Há realidades biológicas e físicas sérias, também.

Bruce Jenner
Mais ninguém está preocupado com o facto de haver pessoas a ocupar o território que devia ser exclusivo das mulheres? Não me parece nada claro que alguém como Bruce/Caitlyn Jenner tenha procurado aprender com mulheres sobre o que é ser mulher; antes, foram os media que o elevaram a “mulher do ano” no preciso momento em que alterou algumas (mas não todas) as partes do seu corpo.

Rachel Dolezal, que era branca, não pôde reclamar para si ser “negra”, apesar de ser muito dedicada à causa da justiça racial; mas Bruce Jenner foi nomeado “mulher do ano” porque acrescentou um par de maminhas falsas? Se isto não é reduzir a mulher a partes do seu corpo, então não sei!

As mulheres perdem meio litro de sangue todos os meses, carregam filhos nos seus ventres durante nove meses, suportam horas dolorosas de trabalho de parto e Bruce Jenner é a mulher do ano? Admito que não sou a pessoa mais inteligente do mundo, mas não percebo.

Questiono-me o que é que se vai passar ao longo dos próximos anos em áreas tão importantes como o desporto feminino, literatura feminina, ou até escolas e universidades femininas (como a Mount Holyoke, para dar apenas um exemplo óbvio)? Será que vão desaparecer por causa dos desejos e dos planos de certos – como é que posso dizer isto de forma delicada – homens? As mulheres atletas já começam a notar o potencial do problema.

Desculpem lá, mas isto é uma coisa que me preocupa, mesmo que não tenha nada a ver com isso, por ser aquele tipo de homem que não é uma mulher.

Mas há outra coisa que me preocupa também. Quando os católicos se queixaram que “Os Monólogos da Vagina” violava os seus princípios fundamentais, foram classificados como trogloditas. A “liberdade académica” tinha de triunfar. Agora que um grupo conseguiu posicionar-se ainda mais à esquerda que qualquer outro, o que é que aconteceu a esse grito de “liberdade académica”? Era apenas uma arma de arremesso para utilizar contra os inimigos naquele momento?

Acontece que eu acredito verdadeiramente na “liberdade académica”. Mas se as pessoas se convencerem que ela se tornou apenas um instrumento ideológico e não uma posição de princípio, então vão tornar-se cínicas e, tal como aconteceu em “Pedro e o lobo”, deixarão de acudir quando for invocada.

E isso é o que me preocupa verdadeiramente, porque todos nos devemos preocupar com a existência de um diálogo livre e aberto.

Infelizmente, porém, há quem prefira monólogos – excepto quando até isso se torna ideologicamente suspeito.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O silêncio dos leões, do Scorcese e da Chapecoense

Corcovado "equipado" de verde pela Chapecoense
A discussão parlamentar da eutanásia vem aí. Não é surpresa, é apenas a confirmação.

Começou hoje a assembleia sinodal do sínodo de Lisboa. É uma boa oportunidade de rezar pelos (muitos) padres e (poucos) leigos que se encontram a discutir o futuro da evangelização no Patriarcado.

O Papa recebeu esta manhã o realizador Martin Scorsese, que esteve em Roma para uma antestreia do seu filme “Silêncio”.

Silêncio é o que pede a tragédia que se abateu sobre os passageiros do avião que se despenhou ontem na Colômbia, onde seguia a equipa da Chapecoense. Silêncio e oração. O Papa reza por isso, mas também pelas vítimas da sida.

O mais recente sismo em Itália destruiu por completo a cidade de Nórcia – antiga Núrsia – incluindo o mosteiro beneditino. Mas não se preocupem com os monges, têm cerveja, por isso está tudo bem.

Voltando à Eutanásia, o que se pede agora é a coragem que teve o bispo de Münster durante o regime nazi, que gritou bem alto contra o regime e sobretudo contra os seus programas de eutanásia. No artigo desta semana do The Catholic Thing, David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse governada por pessoas desse calibre.

O Silêncio dos Leões

David Warren
Para que servem os bispos? É uma pergunta que muitos fiéis católicos fazem, pelo que fui percebendo através de conversas durante a minha vida adulta. Muitas vezes a pergunta é feita de forma sarcástica, sobre um qualquer bispo que tenha falhado de forma significativa na defesa dos ensinamentos católicos aquando de um acontecimento que teria exigido resposta. O galo canta três vezes e depois… a oportunidade esvanece.

O que este silêncio – ou muitas vezes murmúrio incoerente – diz aos fiéis é que quando toca a testemunhar Cristo e os seus ensinamentos, eles estão por sua conta. Podem ter o Catecismo para lhes recordar do que consiste a fé, mas se tomarem posição sobre o assunto não podem esperar o apoio dos seus líderes. 

O mais provável, até, é que sejam discretamente desacreditados como “fanáticos” e abandonados à sua sorte. Porque agora são vistos como falando unicamente em nome próprio, numa altura em que tudo o que é dito com clareza e precisão pode ser descartado como sendo o mero expelir de “sentimentos” que depois são classificados como “incitamento ao ódio”.

Vivemos em tempos difíceis, em que regulamentos de expressão avançam em todas as frentes: Académica, jurídica, social e política, e a ditadura do relativismo se vai consolidando. Tudo o que se diz pode, potencialmente, ser alvo de acção judicial pelo facto de poder, eventualmente, ferir os sentimentos de membros desconhecidos de algum grupo politicamente favorecido mas vagamente definido. O dissidente perde o seu ganha-pão, ou se espera mantê-lo deve submeter-se à humilhação pública e a um qualquer curso de “aconselhamento” ou de “treino de sensibilidade”, ou “reeducação”.

Eis que o maoismo está vivo e de boa saúde nas universidades, e a espalhar-se. Ou, se o leitor preferir, o Estalinismo, ou o Hitlerismo. Ou até o McCarthyismo, na medida em que também envolvia julgamentos de fachada.

O McCarthyismo foi derrotado bastante depressa – no espaço de três meses – depois de várias figuras proeminentes do aparelho de Estado terem confrontado o senador de Wisconsin, dizendo que estavam fartos. O próprio McCarthy foi apelidado de parasita e o seu caso tornou-se um aviso para quem o quisesse imitar.

Na verdade, um McCarthyismo mais formidável, de esquerda, ganhou raízes no cadáver do político, cujo nome se tornou um slogan de propaganda. Mas penso que no início houve genuína revolta para com a irresponsabilidade das audições de McCarthy no Senado e foi preciso genuína coragem por parte dos primeiros a tomar posição contra ele.

A mesma coragem que é necessária para todos aqueles – em todos os tempos, de qualquer nação – que se opõem à injustiça.

Temos já, nesta altura, um legado de bispos corajosos e dignos inscritos nos anais dos santos e dos mártires da Igreja Católica. Na prática correspondem a um terceiro testamento, uma crónica exemplar de vinte séculos em que, através das vidas de grandes homens e de grandes mulheres, a vida de Cristo persistiu neste mundo.

O Leão de Münster
De forma alguma devemos dizer que os bispos nos falham sempre, nem que sempre que se quedam calados nos encontramos apenas por nossa conta. Deus encontra outros que se chegam à frente para dar o exemplo. Também se deve dizer que nós temos o direito, pela graça do nosso baptismo, de dar um passo em frente, para defender o bem e a verdade e para condenar os seus opostos. Mas estes gestos são pouco frequentes.

Que são pouco frequentes deve-se ao facto de sermos pecadores. Estamos de tal forma ligados aos nossos confortos mundanos, às nossas imaginações mundanas, que mesmo diante da mais flagrante diferença entre o bem e o mal acabamos por optar pela vida tranquila. E como se torna evidente para quem lê os Evangelhos, o homem bem alimentado e com boa casa, com muitos amigos e honras (tal como um bispo), tem mais a perder do que a maioria. Porquê arriscar tudo em troca de perseguição pública e o risco de abandono por parte dos seus próprios apoiantes? Por recompensas que não são deste mundo, invisíveis salvo aos olhos da fé?

Ontem à noite fui ao lançamento de um excelente livro no Oratório de Toronto. É escrito pelo padre Daniel Utrecht e é a melhor biografia que temos actualmente em inglês do “Leão de Münster: O Bispo que Rugiu Contra os Nazis”. O seu nome era Clemens August Conde von Galen e ainda há pouco tempo escreveu-se sobre ele uma crónica no The Catholic Thing. [E outra há ainda mais tempo, que pode ser lida aqui].

Ele fustigou o regime Nazi, especialmente as suas políticas de extermínio (“eutanásia”), da forma como o deveriam ter feito todos os bispos alemães entre 1933-45, embora a maioria tenha optado por um silêncio discreto, ou na melhor das hipóteses uns murmúrios discretos.

Von Galen não esperou por autorização para falar, porque ele tinha a autoridade. E isso era tão evidente para os seus fiéis na diocese de Münster, e para católicos em toda a Alemanha, que os Nazis não se atreveram a matá-lo, guardando esse acto delicioso até para depois de ganhar a guerra, como confidenciou Hitler ao seu círculo mais próximo. Que esta não tenha sido ganha deve-se, ao menos em parte, à coragem do bispo.

Gosto de imaginar como é que a história poderia ter sido diferente. E se? E se todos os bispos se tivessem oposto ao regime da mesma forma que von Galen? Então talvez o regime tivesse perseguido os católicos por toda a Alemanha, repetindo o que fez a Kulturkampf de Bismarck, ou pior. Assim teriam absorvido aquilo que os aliados fizeram quando finalmente derrubaram os nazis e pelo caminho talvez tivessem resgatado para a Alemanha a sua herança cristã esquecida.

Ou outro cenário. E se em vez de apenas um (São João Fisher), todos os bispos britânicos se tivessem oposto a Henrique VIII? E se todos estivessem dispostos a serem mártires, com todo o clero a seguir-lhes o exemplo, levando os católicos a erguer-se por todo o país e não apenas em pequenas revoltas isoladas? Não em violência, mas num acto de santa teimosia para dizer “Isto não passará!”


No fundo, estas coisas são imponderáveis, mas gosto de pensar nelas porque dão alguma ideia sobre o extraordinário poder que a Igreja teria, fosse governada por leões.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 26 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sínodo de Lisboa e a vida de Kollithanathumalayil

Novos missionários
O Papa Francisco pode tornar-se o primeiro da história a visitar a Irlanda do Norte, isto a confirmar-se uma visita à República da Irlanda em 2018.

O Sínodo de Lisboa entra na fase final esta semana. D. Manuel Clemente deu uma entrevista à Renascença sobre este assunto. A ideia é despertar de novo o “sonho missionário de chegar a todos”, mas a realidade actual é que onde ontem iam missionários portugueses, hoje saem missionários para vir para Portugal. É o caso do padre Paul Kollithanathumalayil, que também falou com a Renascença sobre esta sua experiência missionária.

O Papa Francisco reuniu com a Academia Pontifícia para as Ciências numa sessão plenária, no Vaticano, voltando a apelar a uma “conversão ecológica”, que apoie “o desenvolvimento sustentável”.


Os imãs portugueses estão desafiados a participar num curso de prevenção da radicalização, promovido pela Universidade de Al-Azhar, no Egipto.

Tudo isto nos dias depois de ter morrido Fidel Castro. Para uma boa análise da sua ligação ao mundo religioso, vejam este interessante artigo de Austen Ivereigh.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Crianças com trissomia na TV? Non, merci...

Longe da TV francesa! Longe...
O Papa voltou a criticar duramente o clericalismo. Foi numa conversa informal com jesuítas que foi agora publicada na íntegra numa revista daquela ordem.

Foi detido em França o homem que ontem tomou de assalto uma casa de missionários reformados, matando uma funcionária. Ao que parece o caso nada tem a ver com terrorismo islâmico.

O que tem a ver com terrorismo islâmico é o caso do marroquino detido em França e que tinha autorização de residência em Portugal. Ao que parece ele e a sua “trupe” tinham ordens do Estado Islâmico para fazer um atentado no dia 1 de Dezembro.

Ainda de França chega a notícia incrível da proibição de um anúncio que pretende encorajar as mulheres grávidas de crianças com trissomia 21. As autoridades francesas consideram que pode perturbar a consciência de quem abortou. Actualmente, nos países em que existem estatísticas, sabe-se que cerca de 9 em cada 10 bebés diagnosticados com trissomia são abortados. Há uma palavra para isto: Genocídio.

Arranca no domingo o programa do centenário das aparições de Fátima, mas esta sexta-feira já abriu a exposição Mater Dei, com 25 representações de Maria na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, em Lisboa, que foi toda restaurada recentemente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trump rebentou a bolha

Ficaram com uma cabeça deste tamanho...
Estou de regresso, depois de três semanas de licença de paternidade.

Muita coisa se passou durante a minha ausência! O Papa criou novos cardeais; alargou a todos os padres a faculdade de absolver o pecado do aborto; confirmou que vem a Fátima, mas só a Fátima e anunciou o tema para as próximas jornadas mundiais da Juventude.

Veio a Portugal um bispo iraquiano e uma freira argentina que se encontra na Síria, no âmbito da apresentação do relatório sobre liberdade religiosa no mundo, da Ajuda à Igreja que Sofre.

Chegou ao fim o Ano da Misericórdia, que eu fui acompanhando com várias reportagens que foram coligidas aqui.

E depois houve aquela coisa de Donald Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos… Esse é, aliás, o tema de um dos artigos que fui publicando do The Catholic Thing em português. Francis Beckwith, que sempre se opôs a Trump, explica porque é que ele ganhou.

Outro dos artigos é sobre a Eutanásia e as terríveis portas que a sua legalização abre na sociedade, tal como refere, por cá, a jurista Teresa Quintela de Brito.

Já o artigo mais recente trata um mistério, que Howard Kainz procura desmistificar em “Personalidades na Trindade”, que foi publicado ontem. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Personalidades na Trindade

Howard Kainz
O termo “personalidade” tem vários significados, tanto positivos como negativos. Mas o mais comum, e neutro, é este do Oxford English Dictionary: “A qualidade, ou conjunto de qualidades, que torna uma pessoa um indivíduo distinto; o carácter pessoal ou individual distinto de uma pessoa, especialmente de tipo marcado ou fora do comum”.

Como cristãos, acreditamos que existem três pessoas em Deus. Trata-se de uma união na distinção. O Filho é diferente do Pai, o Espírito é diferente do Pai e do Filho, etc.

Pode soar a politeísmo e os muçulmanos, e outros que advogam um monoteísmo rigoroso, consideram-no chocante. Mas como diz São Tomás, em relação à acusação muçulmana de politeísmo, esta incompreensão deve-se ao enfoque míope na geração física e na incapacidade de compreender a possibilidade de uma geração puramente espiritual.

Logo, a elaboração por parte dos cristãos da única natureza divina, enquanto puro espírito, em Pai, Filho e Espírito Santo não é contraditória nem deve ser entendida como referente a “três deuses”. Estas três Pessoas não são, por isso, personalidades idênticas, como se fossem clones, e não devemos surpreender-nos pelo facto de terem características de personalidade distintas entre si. O que podemos dizer sobre estas características?

O Filho: Nós cristãos, imbuídos pela religião do Filho, naturalmente sabemos mais sobre a personalidade de Jesus Cristo, que veio viver entre nós e, por vezes, até nos iluminou sobre as suas qualidades pessoais. Convenientemente, descreveu-nos aquilo que é e como aparece aos outros: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt. 11,29).

Por vezes, nos Evangelhos, Jesus permite que brilhe diante dos homens a prova do seu poder e da sua natureza divina, como na Transfiguração (Mc. 9,1), ou quando os guardas que o iam prender caiem por terra quando Ele se identifica (Jo. 18,6), ou nos seus múltiplos exorcismos, em que os demónios sentem um poder que emana dele.

Mas a maioria dos seus contemporâneos, embora maravilhados com as suas curas e os seus exorcismos, quando estavam na sua presença provavelmente não repararam em nada mais do que um pregador calmo e modesto. Os seus vizinhos estranharam onde é que um carpinteiro teria ido buscar tanta sabedoria, pois conheciam-no e à sua família e não compreendiam o que se estava a passar. E até os seus primos não reconheceram nada de especial nele e só creram depois da Ressurreição (Mt. 13,55-56)

Jesus também nos fala dos seus interesses pessoais na vida: não julgar os pecadores, mas salvá-los (Mt. 9,13), embora no final dos tempos Deus Pai o encarregue do poder último de julgar (Jo. 5,22)

O Pai: O Novo Testamento está repleto de referências a Deus Pai, mas este conceito de Deus enquanto “Pai” também existe no Antigo Testamento: Nos profetas (Is. 63,16, 6,8; Jer. 3,4, 3,19), no Salmo 89 e sobretudo no Livro da Sabedoria, em que Deus é descrito como o “pai do mundo”, que formou o primeiro homem (10,1), trata os justos de forma paternal (2,16, 11,11), e governa todas as coisas de forma providencial (14,3).

No Evangelho de João aprendemos que Jesus experimentava a presença constante do Pai (Jo. 5,19), que fala sobre aquilo que aprende na sua presença (8,38, 12,50) e acrescenta que, de facto, o Pai trabalha através dele (14,10). Jesus, que habitualmente põe em prática aquilo que vê no Pai, pode dizer a Filipe “aquele que me vê, vê o Pai” (Jo. 14,9).

Fresco da Santíssima Trindade em Urschalling, Alemanha
As principais descrições que Jesus faz do Pai dizem respeito a um Criador beneficente, que distribui e mantém toda a natureza de bens no mundo, para serem usados, bem ou mal; que é quem providencia de forma mais solícita, olhando até pelos pássaros do ar e pelos lírios do campo, satisfazendo as necessidades mais íntimas de todos, bons e maus (Mt. 5,45, 6,8) e que, como um arquitecto nos bastidores, prepara continuamente mansões para os fiéis (Jo. 14,2, 20,23).

O Espírito Santo: Embora Miguel Ângelo tenha feito um belo trabalho a representar Deus Pai na Capela Sistina, nos Evangelhos o Pai aparece apenas como uma nuvem (Mt. 17,5, Mc. 9,6, Lc. 9,35). O Espírito Santo, que aparece apenas como uma pomba (Mt. 3,16, Mc. 1,10, Lc. 3,22, Jo. 1,32) ou como línguas de fogo (Act. 2,3) seria um desafio ainda maior à capacidade artística do pintor. (Tenho uma vaga memória de ter visto uma representação feminina do Espírito Santo numa Igreja na Europa há várias décadas).

No Novo Testamento o Espírito Santo é comparado ao vento, soprando onde quer, fora do controlo dos homens (Jo. 3,8), distribuindo graças especiais (Gal. 5,2), incluindo dons extraordinários como a profecia ou a cura (Act. 2,17, 1Cor. 12,8-9) e por vezes a inspirar as palavras dos seguidores de Jesus, sobretudo em circunstâncias difíceis e quando desafiados pelas autoridades (Lc. 12,11).

O místico luterano alemão, Jacob Boehme (1575-1624), autor de “Os Três Princípios da Essência Divina” e “A Tripla Vida do Homem”, passou a maior parte da sua vida fascinado pela doutrina da Trindade. Escreveu imenso sobre as várias operações e reflexos do Pai, Filho e Espírito Santo no Universo e argumentou contra muçulmanos e outros que negaram a Trindade.

O filósofo alemão G.W.F. Hegel (1700-1831) considerava a visão trinitária do mundo de Boehme fascinante, mas criticava os seus entusiasmos místicos que “punham a cabeça em água” e por isso desenvolveu uma mundovisão filosófica mais “científica”, caracterizada por tríades.

Hegel também se juntou a Boehme na defesa do Cristianismo Trinitário. Falando sobre o surgimento do Deísmo durante a Revolução Francesa, Hegel escreveu que o Ser Supremo do Deísmo, elogiado por Voltaire e outras figuras do Iluminismo, não passava de um “Além” nebuloso, comparável à “exalação de gás estagnado” e de seguida oferece a sua própria “fenomenologia”, analisando a emergência final de uma “religião revelada” trinitária.

É comum ouvirmos dizer que a família nuclear cristã é um reflexo da Trindade, e assim é. Mas claro que existe uma variedade enorme e diversificada de outros reflexos no nosso mundo, mais até do que os milhares imaginados por grandes místicos como Boehme.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 22 de Novembro de 2016)

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