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| Austin Ruse |
O argumento mais forte dos ateus é aquele sobre o
sofrimento. É quase um cliché. Se Deus nos ama, porque é que permite o
sofrimento? Não estamos a falar de uma dor de dentes, mas de dor incessante e
dilacerante, dor de morte. Permitiu-o para o seu próprio filho.
Este tipo de sofrimento em qualquer pessoa é um mistério,
mas muito mais quando se trata de crianças. Suspeito que isto seja algo que já tenha
afastado muita gente da fé. E quando a dor se abate sobre uma criança que tem
uma familiaridade precoce com Deus, é menos misterioso por isso? Certamente não
o é para o ateu, nem para um mórmon ou para um judeu, que não partilham a
compreensão que os católicos têm do sofrimento.
Acreditamos que o sofrimento, bem entendido, nos aproxima de
Deus, ajuda-nos a aliviar o sofrimento de Cristo e contribui para a salvação de
outros. Mas trata-se de uma ideia monstruosa para aqueles que não a
compreendem.
Vivemos numa era de grandes santos. João Paulo Magno,
Josemaria Escrivá. Madre Teresa. Padre Pio. Gianna Molla. Brendan Kelly.
Margaret Leo. Audrey Stevenson.
Não conhece estes últimos três? São os mais pequenos dos
santos sofredores. Há muitos outros pelo mundo fora, crianças com um sentido
apurado de Deus, mesmo em bebés, que sofreram doenças e maleitas terríveis mas
que ofereceram o seu sofrimento para o benefício de outros, para Cristo, e que
morreram novos.
Audrey Stevenson nasceu em 1983 numa família que era católica
mas na qual nem se rezava antes das refeições. Quando tinha três anos a família
visitou a casa de Santa Teresa de Lisieux e depois o convento onde a Pequena
Flor viveu e morreu. Aí a Audrey exclamou: “Quero entrar para o Carmelo”.
Pouco depois a família mudou-se para um apartamento novo.
Audrey desenhou um crucifixo amarelo e colocou-o na parede. Tinha colocado
crucifixos idênticos em cada quarto da casa, onde permaneceram durante muito
tempo.
Certo dia Liliane, a sua mãe, reparou que Audrey estava a
coxear. Tinha colocado lápis dentro dos sapatos para “poder resistir”, uma
compreensão bastante sofisticada da mortificação, para uma criança, e algo que ninguém
lhe tinha ensinado.
Um dia foi ao parque com o avô. Atravessou avenidas, pontes
e grandes cruzamentos, numa zona muito movimentada de Paris. Perdeu-se.
Alarmado, o avô ligou para casa e descobriu que Audrey já lá estava. Disse que
tinha sido conduzida por Jesus.
Tudo isto aconteceu com uma menina de três anos numa família
que não era particularmente devota.
Em casa introduziu o conceito de dar graças antes de comer.
Uma vez na casa de verão, na Bretanha, insistiu nas orações. O seu tio
americano, Alexander Cummings, provocou-a: “Mas Audrey, se temos de dar graças
a Deus cada vez que comemos, então devíamos dar graças a toda a hora, por
tudo”. Ao que a Audrey respondeu: “Sim, isso mesmo”.
As histórias da sua devoção são infindáveis. Vivia uma fé
profunda, tanto interior como exteriormente, como raramente se encontra nesta
vida. A sua mãe disse: “A Audrey espanta-nos. Está para além de nós”. Conhecia
o catecismo sem ter sido ensinada. O padre disse-lhes que não fizessem nada,
que apenas a seguissem. E assim fizeram.
Aos cinco anos a Audrey pediu autorização à Igreja para
poder comungar. Tipicamente, uma criança em França fazia a primeira comunhão
aos nove ou dez anos. Questionaram-na exaustivamente, primeiro pelo seu prior,
depois por outro e depois por outro ainda. Determinaram que a menina estava
pronta e por isso a família viajou até Lourdes, onde ela comungou pela primeira vez.
O que se nota da sua vida é que não só estava próxima de
Cristo, como também aproximava Cristo dos outros. Primeiro da sua família,
depois de um grupo cada vez maior.
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| Audrey com o Papa João Paulo II |
A Estrada que acabou por levar a fé de Audrey aos outros,
muito para além da família, foi a doença. Os seus pais tinham tido um
pressentimento de que algo iria acontecer para os testar a eles e a ela. Aos
seis anos contraiu pneumonia e teve de passar muito tempo sozinha enquanto a
mãe e o pai cuidavam dos outros filhos. Passou o tempo em oração e a cantar. A
sua mãe começou a questionar se a doença faria parte da missão de Audrey.
A doença mortal surgiu aos sete. Leucemia. Foram muitos
meses de tratamento, incluindo radioterapia, quimioterapia, punções lombares e
transplantes de medula. E assim começou a sua missão de ensino, uma missão que
atravessou as fronteiras de França e chegou a outros países.
Entre família e amigos começou-se a rezar um terço todas as
terças-feiras pelas suas melhoras. Começou por ser uma coisa pequena, mas
cresceu. Aconteceram milagres nesses encontros. Meninas pequenas ensinaram os
seus pais a rezar o terço. Famílias inteiras regressaram à fé. Uma pagela da
Audrey começou a espalhar-se pelo país.
O seu sofrimento no hospital foi intenso. A quimioterapia
deixou-a sem saliva, as pálpebras colavam-se aos olhos e todos os seus ossos
doíam. Dizia repetidamente: “Estou na cruz. Estou na cruz”. Durante as
dolorosas punções lombares repetia: “Pelo tio Mick, pelo pai, pelas vocações”.
Durante um dos tratamentos dolorosos os médicos ouviram-na a cantar músicas a
Nossa Senhora.
Depois de um transplante de medula falhado soube-se que
tinha apenas três semanas de vida. Os pais levaram-na a Lourdes; levaram-na
também a conhecer o Papa, com quem teve uma intensa conversa privada. Perto do
final vieram pessoas de todo o país, pedindo que ela rezasse pelas suas
intenções, coisa que ela fez, apesar da dor, uma após outra.
Por fim morreu. O seu pai, que é padrinho da minha filha
Gianna-Marie, diz que certa vez receberam a visita de um padre mexicano. O
padre disse: “Devo a minha vocação a uma menina francesa que rezava pelas
vocações e morreu de leucemia.” Ao que o seu pai, Jerome, respondeu: “Está
sentado no quarto dela”.
A causa da canonização de Audrey começou em Paris há poucos
anos.
Audrey Stevenson, rogai por nós.
Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human
Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma
instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais
internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem
necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.
(Publicado pela primeira vez em
www.thecatholicthing.com na Sexta-feira, 17 de
Maio de 2013)
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