quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Cinco Paradoxos da Revolução Sexual – Parte I

Nota: Este é o primeiro de dois artigos de Mary Eberstadt. O segundo será publicado em breve.

As definições de revolução sexual variam consoante os académicos, mas há uma fórmula simples e incontroversa. A “revolução” diz respeito a mudanças no comportamento e nas normas sexuais que se seguiram à aprovação e adopção de formas de contracepção fiáveis há mais de meio século. O primeiro factor foi a pílula, aprovada para comercialização em 1963 e disponibilizada em larga escala a partir de então. O segundo factor é a legalização do aborto a pedido em 1973 através do caso Roe v. Wade – um desenvolvimento que a aprovação da pílula tornou tudo menos inevitável. A contracepção moderna e a legalização do aborto alteraram não só os comportamentos como as atitudes. Em todo o mundo a tolerância para com o sexo extraconjugal subiu em conjunto com estas outras mudanças, por razões lógicas que já abordei noutros lados, incluindo no meu livro “Adão e Eva depois da Pílula”.

À excepção da internet, é difícil pensar em qualquer outro fenómeno desde os anos 60 que afectou a humanidade em todo o mundo tão profundamente como esta revolução em particular. Alguns dos efeitos são bem conhecidos: há quatro anos, no 50º aniversário da aprovação da pílula contraceptiva, assistimos a uma torrente de comentário e de reflexão, na maioria positiva. A revolução, como foi proclamado – e aclamado – pela revista Time e a maior parte das outras fontes seculares, tinha aplanado o campo do mercado económico entre homens e mulheres, pela primeira vez na história; tinha concedido às mulheres uma liberdade que jamais tinham conhecido. Tudo verdade. Mas há um outro lado desta história que tem sido ignorado por uma sociedade saturada pelos prazeres da revolução. A cada ano que passa acumulam-se mais provas que acabarão por alterar a narrativa cor-de-rosa que predomina. Nesse sentido gostaria de falar de cinco formas em que a revolução alterou a realidade humana como a conhecemos, cinco aparentes paradoxos que revelam o poder da revolução, em particular o seu incrível poder destrutivo.

Comecemos por uma pequena história que capta a escala da mudança. Eu cresci numa série de pequenas vilas em zonas rurais do Estado de Nova Iorque, a norte do Vale do Rio Hudson, no que parecia um planeta diferente da Cidade de Nova Iorque. Esta era, e é ainda, uma região de operários. Era o tipo de sítio em que mais rapazes nos anos 60 iam para o Vietname do que para a faculdade. Em larga medida não mudou, com uma gigantesca excepção, a família.

Nos anos 60 a maioria dos homens trabalhava nas explorações agrícolas, ou nas fábricas de cobre ou de prata locais. A maioria das mulheres casadas ficava em casa. A maior parte das famílias estava intacta – quer as religiosos quer as não religiosos. Não era uma população particularmente devota, a maioria dos residentes eram protestantes, menos de 10% católicos, e as igrejas não estavam propriamente a rebentar pelas costuras aos domingos.

Uma das minhas memórias dessa época é de uma rapariga adolescente que vivia na nossa rua e que engravidou. O pai da criança era um jovem soldado, acabado de regressar da guerra. As fofoqueiras estavam revoltadíssimas porque o rapaz não tencionava casar com ela. Nesses dias isso era chocante. Havia noivas grávidas, até adolescentes, mas os homens que recusavam casar com as mulheres que engravidavam eram objecto de reprovação. As pessoas falavam, e o que diziam não era simpático.

A rapariga acabou por ter o bebé, noutro local qualquer, e seguiu-se uma adopção. Ela regressou e acabou o liceu – tanto quanto sei sem estigma social. Mas o estigma de que me lembro, e bem, foi o que se manteve em relação ao namorado. A ideia de que ele se deveria ter responsabilizado, que era partilhada pela maioria dos adultos naquele local, e naquele tempo, desapareceu com os ventos da revolução.

Avancemos agora alguns 20 anos. No início dos anos 90 regressei e conversei com a minha antiga professora. Ela calculava que entre os 200 finalistas do liceu desse ano, cerca de um terço das raparigas estava grávida. Nem uma era casada. E sem dúvida haveria outras gravidezes para além das visíveis, pois havia boatos de que outras raparigas tinham abortado.

Ou seja, de uma gravidez escandalosa num liceu rural nos anos 70 passámos para muitas gravidezes não escandalosas nesse mesmo liceu em meados dos anos 90. Essa é uma imagem que nos mostra como a revolução sexual transformou o mundo.

O que nos leva ao primeiro dos paradoxos dessa revolução:

Paradoxo um: Se a premissa principal da revolução era a disponibilidade de contraceptivos baratos e fiáveis, porquê o aumento sem precedentes tanto no número de abortos como de gravidezes extraconjugais?

Esta é uma questão profundamente importante. Afinal de contas, quando a contracepção se tornou comum, muitas pessoas de bem-intencionadas a defenderam precisamente porque pensavam que tornaria o aborto obsoleto. A Margaret Sanger é um exemplo disso mesmo. Ela considerava o aborto “bárbaro” e argumentou que a contracepção acabaria com a prática. Entretanto a Planned Parenthood elevou-a ao estatuto de padroeira. Ela estava a fazer um argumento que parecia ser do senso comum: a contracepção fiável iria prevenir o aborto. Muitas mais pessoas, tanto antes como depois dos anos 60, acreditaram na mesma coisa. Mas os dados empíricos desde os anos 60 mostraram que esta lógica está errada. As taxas de contracepção, aborto e nascimentos fora do casamento explodiram em simultâneo. Há mais de 20 anos um grupo de economistas explicou a dinâmica destes crescimentos simultâneos com uma clareza admirável.

Antes da revolução sexual as mulheres tinham menos liberdade, mas era esperado que os homens assumissem a responsabilidade pelo seu bem-estar. Hoje as mulheres têm maior liberdade de escolha, mas os homens adoptaram para si uma opção comparável. “Se ela não está disposta a abortar ou a usar contraceptivos”, pensa o homem, “porque é que eu hei de me sacrificar para casar?” Ao remeter o nascimento da criança para a dimensão da escolha da mãe, a revolução remeteu o casamento e o apoio infantil para a dimensão da escolha do pai. Por outras palavras, a contracepção conduziu a mais gravidezes e a mais aborto porque levou ao fim do casamento por “penalti”, ou a ideia de que os homens têm uma responsabilidade igual no caso de uma gravidez não planeada.

Outra teoria interessante sobre o falhanço da contracepção na prevenção do aborto foi aduzida por Scott Lloyd, no “National Catholic Bioethics Quarterly”. Recorrendo a estudos e estatísticas da própria indústria abortista ele (tal como outros) argumenta que a contracepção conduz ao aborto – não inevitavelmente, em casos individuais, claro, mas repetidamente e seguramente, como fenómenos sociais geminados:

“A questão de fundo é esta: os contraceptivos não são tão eficazes como dizem, e o seu falhanço está no cerne da exigência pelo aborto. A contracepção permite encontros e relações sexuais que sem ela não aconteceriam. Por outras palavras, quando os casais usam contraceptivos, concordam em ter relações sexuais numa altura em que uma gravidez seria problemática. Isto conduz ao desejo por um aborto.”

Há muitos esforços nas ciências sociais, e não só, para explicar este mesmo paradoxo; mas a questão principal mantém-se: ao contrário do que a maioria teria adivinhado nos anos 60, tanto o aborto como as gravidezes não planeadas proliferaram apesar da contracepção.

Muitas das pessoas que estavam presentes no início desta revolução não teriam antecipado estas consequências paradoxais. Muitas, em boa-fé, esperavam que a humanidade dominasse estas novas tecnologias e que elas acabariam por contribuir para o bem social. Mas aqueles de nós que estão vivos hoje, em claro contraste, possuem uma imensidão de dados empíricos acumulados ao longo de décadas e podemos ver, através da ferramenta perfeitamente secular das ciências sociais, que a história da revolução sexual tomou um rumo mais sinistro.

Paradoxo dois: A revolução sexual era suposto libertar as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, tem-se tornado mais difícil para elas conseguir aquilo que a maioria das mulheres diz querer: casamento e família.

Não estou a ser tendenciosa. Mulheres de todos os espectros políticos concordam que o casamento, ou a união para a vida, se tornou mais difícil do que outrora fora. Essa é uma razão pela qual temos actualmente barrigas de aluguer e congelamento de ovos – no caso do congelamento, com o apoio entusiástico do mundo empresarial. O objectvo destas inovações – para além dos lucros de um carreirismo ininterrupto – é estender o horizonte da fertilidade natural, para que as mulheres estejam mais livres para permanecer no local de trabalho e para encontrar marido e formar família. A suposta ideia – tal como a ideia por detrás da contracepção livre e do aborto a pedido – é de dar mais poder às mulheres, dar-lhes controlo.

Mas paradoxalmente, muitas mulheres dão por si com menos capacidade de casar, permanecer casadas e constituir família – tudo coisas que a vasta maioria das mulheres continua a descrever como seus principais objectivos. As redes sociais e a imprensa fazem eco desta preocupação com manchetes como “Oito razões pelas quais as nova-iorquinas não conseguem arranjar marido” (New York Post); ou “Porque as licenciadas não encontram amor” (The Daily Beast); ou muitas outras histórias que se preocupam com as mulheres de hoje e a questão do casamento.

Mas os economistas já desvendaram a realidade por detrás destas preocupações, mais resquícios da revolução. No seu livro “Cheap Sex: A Transformação dos Homens, do Casamento e da Monogamia”, o sociólogo Mark Regnerus utilizou as ferramentas da economia para explicar o mercado sexual pós-revolucionário, com o apoio de novos dados.

A essência do argumento é esta:
Muitas mulheres pensam que os homens têm medo do compromisso. Mas os homens, em média, não têm medo do compromisso. A questão é que os homens estão numa posição privilegiada no mercado do casamento, podendo navegá-lo de uma forma que privilegia os seus interesses e preferências sexuais.

Por outras palavras, a mesma força que erodiu o casamento de “penalti” acabou por dar mais poder aos homens e não às mulheres.

Um dos economistas citados por Mark Regnerus, Timothy Reichart, escreveu uma análise semelhante da revolução, num artigo do First Things, chamado “Bitter Pill”, em que utiliza dados dos anos 60 em diante para argumentar que “a revolução resultou numa redistribuição massiva de riqueza e de poder das mulheres e das crianças para os homens”. Especifica: “Tecnicamente, a contracepção artificial cria uma cena a que os economistas chamam o ‘dilema do prisioneiro’, em que cada mulher é levada a tomar decisões racionais que acabam por a deixar a ela e a todas as mulheres numa situação pior”.

Claro que não estamos a falar aqui nos movimentos e comunidades deliberadamente contraculturais que se juntaram para se opor à revolução desde os anos 60. Antes, estamos focados na narrativa cultural em ambientes não-religiosos – o tipo de local em que a revolução não é encarada como sendo problemática. (Ainda).

E nesse mundo, que é agora a cultura predominante, o facto de muitos homens não estarem a assentar, a casar e a constituir famílias é uma preocupação constante. É daí que surgem expressões como “síndrome Peter Pan”, dos anos 80. É por isso que “falha de lançamento” é uma expressão tão utilizada hoje e “manolescent” [homenloscente] se tornou uma palavra no Urban Dictionary.

Todos estes novos termos têm a mesma origem, que é um menor incentivo para os homens casarem, devido ao facto de o mercado sexual ter sido inundado de potenciais parceiras – “sexo barato”, como se lê no título. Também este desenvolvimento não estava entre previsões dos anos 60. Mas há mais.

A continuar.



Mary Eberstadt é pesquisadora na Faith and Reason Institute. Alguns dos seus anteriores artigos para o The Catholic Thing, ou em que o seu trabalho é discutido, podem ser encontrados aqui. É autora de vários livros, incluindo It’s Dangerous to Believe e How the West Really Lost God.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 10 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Salve o queijo da Serra, adopte uma ovelha!

Depois de a Renascença ter dado calmamente a notícia da nota do Patriarcado de Lisboa na terça-feira, ontem o resto da imprensa acordou e decidiu pegar no assunto por um ângulo que nada tem de novo, nomeadamente a recomendação de viver em continência para alguns casais em situação irregular. Por isso ao fim da tarde pegámos no tema outra vez e pedimos ao padre José Manuel Pereira de Almeida que nos explicasse exactamente o que se passa. Vale a pena ler para ficar esclarecido.

O Cristo Rei, em Almada, vai ser “pintado” de encarnado em solidariedade com os cristãos perseguidos, tal como o Coliseu de Roma e igrejas em Alepo e em Mossul, no Iraque.

9,4 milhões visitaram Fátima no ano do centenário. Um número verdadeiramente impressionante.

Quer ajudar os produtores de queijo da Serra, afectados pelos incêndios? Adopte uma ovelha.

Conheça ainda o fantástico trabalho das irmãs hospitaleiras na Guarda, que usam a arte para ajudar as pessoas com doença mental.

A Eutanásia vai continuar a dar que falar, claro. Sobretudo com o PS a decidir que a única forma de “participar no debate” é apresentando mais uma lei, não vá ser flanqueado pelo Bloco. Hoje Henrique Raposo explica de forma brilhante por que é que é um absurdo validar e resolver de forma permanente um desespero que por natureza é transitório. Leia e partilhe!


E porque vou estar fora na próxima semana, convido-vos a tomar conhecimento e a divulgar, através da imagem que ilustra este post, a campanha dos 40 dias de oração pela vida, que começa novamente na quarta-feira de Cinzas. A causa não podia ser mais nobre.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Jihad em Moçambique?

Jihad em Moçambique?
Está a acontecer uma jihad em Moçambique? Há indicações que sim, mas pode ser que não… Andei a investigar o assunto e com a ajuda do arabista Raúl Braga Pires, do dirigente islâmico Khalid Jamal e do bispo de Pemba, cheguei às conclusões que pode encontrar neste artigo.

O Papa Francisco está satisfeito com o facto de a Coreia do Norte e a Coreia do Sul apresentarem-se em conjunto nos jogos olímpicos de Inverno.

Já o Papa emérito, Bento XVI, escreveu uma carta publicada num jornal italiano em que fala da sua fragilidade, nesta última fase da sua peregrinação “para casa”.

Ainda sobre a notícia de ontem das orientações pastorais para a aplicação do VIII capítulo do Amoris Laetitia em Lisboa, aqui podem encontrar as mesmas em língua inglesa, caso estejam interessados ou conheçam quem esteja, podem partilhar.

Hoje é dia de Catholic Thing. O nosso amigo Randall Smith fala da pastoral dos homossexuais. “Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto?” A ler.

Um desafio a todos os que se interessam por aprofundar o tema dos métodos naturais de planeamento familiar, o Movimento de Defesa da Vida vai organizar um workshop no fim-de-semana de 10 e 11 de Março. São 13 horas de formação e o custo são 80 euros, mas há descontos para casais e ninguém deve deixar de se inscrever por dificuldades financeiras. Os profissionais de saúde que tenham interesse em tornar-se monitores devem inscrever-se e dar conta dessa intenção aos organizadores. 

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Lisbon's document on the reception of chapter VIII of the apostolic exhortation “Amoris Laetitia”

This is the full text of the document published on February 6th by the Patriarchate of Lisbon, regarding application of chapter VIII of Amoris laetitia. The translation is not official, it was entirely done by me, if you quote or use it, please credit with link or my name (Filipe d'Avillez).
Passages of AL and all other official documents are from the original English translations available on the Vatican website. The only exception is the Pope's letter to the bishops of Buenos Aires and Agostino Vallini's norms for the diocese of Rome, which were translated by me.


Note on the reception of chapter VIII of the apostolic exhortation “Amoris Laetitia”

1. In his post-synodal apostolic exhortation Amoris Laetitia, concerning love in the family (AL), published on March 19th 2016, Pope Francis gives us a general Christian framework for understanding marriage and the family and some useful indications on the respective preparation and accompaniment. In chapter VIII - Accompanying, discerning and integrating weakness – he does not forget the fragile situations, especially the so-called “irregular” ones, in which the marriage was followed by rupture and a civil marriage. These people also should be accompanied: “Priests have the duty to “accompany [the divorced and remarried] in helping them to understand their situation according to the teaching of the Church and the guidelines of the bishop” (AL, 300).

This is my aim with this note, in which I refer directly to three authorised documents: Amoris Laetitia, the correspondence between the Bishops of the Pastoral Region of Buenos Aires and Pope Francis and the indications given to the priests of the Pope’s diocese (Rome) by his Cardinal-vicar. Naturally, these documents should be read in full.

Besides all alse that should be done in the scope of the church, including the diocesan tribunal, the following should be noted: “Conversation with the priest, in the internal forum, contributes to the formation of a correct judgment on what hinders the possibility of a fuller participation in the life of the Church and on what steps can foster it and make it grow. Given that gradualness is not in the law itself (cf. Familiaris Consortio, 34), this discernment can never prescind from the Gospel demands of truth and charity, as proposed by the Church. For this discernment to happen, the following conditions must necessarily be present: humility, discretion and love for the Church and her teaching, in a sincere search for God’s will and a desire to make a more perfect response to it” (AL, 300).

And, regarding the forming of conscience: “Naturally, every effort should be made to encourage the development of an enlightened conscience, formed and guided by the responsible and serious discernment of one’s pastor, and to encourage an ever greater trust in God’s grace. Yet conscience can do more than recognize that a given situation does not correspond objectively to the overall demands of the Gospel. It can also recognize with sincerity and honesty what for now is the most generous response which can be given to God, and come to see with a certain moral security that it is what God himself is asking amid the concrete complexity of one’s limits, while yet not fully the objective ideal. In any event, let us recall that this discernment is dynamic; it must remain ever open to new stages of growth and to new decisions which can enable the ideal to be more fully realized” (AL, 303)

It is against this background that the Pope says: “Because of forms of conditioning and mitigating factors, it is possible that in an objective situation of sin – which may not be subjectively culpable, or fully such – a person can be living in God’s grace, can love and can also grow in the life of grace and charity, while receiving the Church’s help to this end” (AL, 305). This section adds, in footnote 351, “In certain cases, this can include the help of the sacraments.”

We should note the restrictive character (in certain cases) and the conditional nature “can” of the sentence. And the Pope further insists: “In order to avoid all misunderstanding, I would point out that in no way must the Church desist from proposing the full ideal of marriage, God’s plan in all its grandeur […] Today, more important than the pastoral care of failures is the pastoral effort to strengthen marriages and thus to prevent their breakdown” (AL, 307).

2. On September 5th 2016, the Bishops of the Pastoral Region of Buenos Aires published a Note with basic criteria for the application of chapter VIII of Amoris Laetitia. In a letter written that same day, the Pope thanked them for the document in these terms. “The text is very good and fully lays out the meaning of chapter VIII of Amoris Laetitia. There are no other interpretations”. The recente publication of these documents in the Acta Apostolicae Sedis, CVIII/10 (2017) p. 1071 and following, requires our indispensable reception. The text were published in Portuguese in Lumen, September/October 2016, P. 73 and following.

Granted this authority, the note gives us a sequence of application of the chapter, of which I highlight the following passages:

a) Regarding the purpose: “Firstly, we should remember that it is not right to speak of giving ‘permission’ for access to the sacraments, but rather of a discernment process under the guidance of a pastor. This is a ‘personal and pastoral discernment’ (AL, 300)”. And also “This path does not necessarily end with receiving the sacraments, but may lead to other ways of achieving further integration into the life of the Church: a more active presence in the community, participation in prayer or reflection groups, or giving time to church activities etc. (cf. AL 299).”

b) As for the process: “…the priest may suggest a decision to live in continence. Amoris Laetitia does not ignore the difficulties arising from this option (cf. footnote 329) and offers the possibility of having access to the Sacrament of Reconciliation if the partners fail in this purpose (cf. footnote 364, recalling the teaching that Saint John Paul II sent to Cardinal W. Baum, dated 22 March, 1996). It continues: “In other, more complex cases, and when a declaration of nullity has not been obtained, the above mentioned option may not, in fact, be feasible. Nonetheless, a path of discernment is still possible. If it comes to be recognized that, in a specific case, there are limitations that mitigate responsibility and culpability (cf. 301-302), especially when a person believes they would incur a subsequent wrong by harming the children of the new union, Amoris Laetitia offers the possibility of access to the sacraments of Reconciliation and Eucharist (cf. footnotes 336 and 351). These sacraments, in turn, dispose the person to continue maturing and growing with the power of grace.
c) Meanwhile, the note proceeds: “But we have to avoid understanding this possibility as an unlimited access to the sacraments, as if all situations warrant it. The idea is to properly discern each case. For example, special care is called for in “a new union arising from a recent divorce” or in “the case of someone who has consistently failed in his obligations to the family” (298). Also, when there is a sort of justification or ostentation of the person’s situation “as if it were part of the Christian ideal” (297). In these difficult cases, we should be patient companions, looking for ways of integrating them (cf. 297, 299) […] Where there are unresolved injustices, providing access to sacraments is particularly scandalous.

d) To these observations, the following are added: “t may be right for eventual access to sacraments to take place privately, especially where situations of conflict might arise. But at the same time, we have to accompany our communities in their growing understanding and welcome, without this implying creating confusion about the teaching of the Church on the indissoluble marriage.”

e) And the discernment process is to continue, without giving up on the proposal of Christian marriage in its entirety: “Discernment is not closed, because it “is dynamic; it must remain ever open to new stages of growth and to new decisions which can ena­ble the ideal to be more fully realized” (303), according to the “law of gradualness” (295) and with confidence in the help of grace.”

We can also conclude that, for the bishops who sign this note, discernment should not focus only on what happened or still does happen, but should aim for full configuration to the gospel truth on marriage: see Mt 5, 31-32; 19, 3-9; Mk 10, 2-12; Lk 16, 18.

3. Very soon afterwards, on September 19th 2016, the then Papal Cardinal Vicar for the Diocese of Rome, Agostino Vallini, spoke on this issue at the dioceses’ pastoral congress. Regarding these cases and the role of the priest, who neither replaces nor disregards conscience, he said the following: “How should this opening be understood? Surely not in the sense of indiscriminate access to the sacraments, as sometimes happens, but as a discernment which adequately distinguishes, case by case. Who can decide? Based on the content of the text and the mens of its author, I see no other solution but the internal forum. Indeed, the internal forum is a favourable path to open the heart to the most intimate confidences and, if a relationship of trust is built up over time with a confessor or spiritual guide, it is possible to begin and develop with him a long, patient itinerary of conversion, made up of small steps and progressive checks. Therefore, it can be no other than the confessor, at a certain point, who in his conscience, following much reflection and prayer, takes upon himself the responsibility before God and the penitent, to ask that the sacraments be received in a reserved manner. In these cases the discernment does not end (cf. AL, 303: dynamic discernment) in order to reach new levels on the route to the fullness of the Christian ideal”. And he added: “The very delicate task of discerning, case by case, the will of God regarding these people requires that we, priests, prepare ourselves well so as to be capable of making these serious decisions”. This preparation is extendable to “lay pastoral agents”.

4. While insisting on the cordial and respectful welcoming of all people, especially the mentioned cases, Pope Francis hopes above all to underscore the value of Christian marriage and the need to prepare and accompany it. This is an insistence taken up all through Amoris laetitia, as can be seen from excerpts such as this one: “As Christians, we can hardly stop advocating marriage simply to avoid countering contemporary sensibilities, or out of a desire to be fashionable or a sense of helplessness in the face of human and moral failings. We would be depriving the world of values that we can and must offer” (AL, 35).

Both before and after the celebration of the marriage, Pope Francis refers to its binding character: “Both short-term and long-term marriage preparation should ensure that the couple do not view the wedding ceremony as the end of the road, but instead embark upon marriage as a lifelong calling based on a firm and realistic decision to face all trials and difficult moments together”, and, close to the end: “marital spirituality is a spirituality of the bond, in which divine love dwells.” (AL, 315).

Those who follow Pope Francis’ magisterium will be aware of this insistence. Na insistence we should share, in order to be faithful to his intention. Even more recently: “Unfortunately, it is a fact that, especially in the West, the family is considered an obsolete institution.  Today fleeting relationships are preferred to the stability of a definitive life project.  But a house built on the sand of frail and fickle relationships cannot stand.  What is needed instead is a rock on which to build solid foundations.  And this rock is precisely that faithful and indissoluble communion of love that joins man and woman, a communion that has an austere and simple beauty, a sacred and inviolable character and a natural role in the social order.” (Speech to the diplomatic corps, January 2018).


5. "Bearing all this in mind, I present herein some operative guidelines: a) To accompany and integrate people into the life of the community, in line with the post-synodal Apostolic Exhortations Familiaris Consortio, 84, Sacramentum Caritatis, 29 and Amoris Laetitia, 299 (see appendix). b) Carefully examine the specificity of each case. c) Not to exclude recourse to the diocesan tribunal, whenever there is doubt concerning the validity of the marriage. d) In cases in which validity is ascertained, not to neglect the proposal of a life in continence in the new situation. e) To bear in mind exceptional circumstances and the possibility of the sacraments, in line with the aforementioned apostolic exhortation and documents. f) To continue the process of discernment, bringing the practice ever closer to the ideal of Christian marriage and sacramental consistency.”


Meeting of Vicars, February 6th, 2018

+ Manuel, Cardinal Patriarch



Appendix:

  • St. John Paul II, Familiaris Consortio, 84: “Together with the Synod, I earnestly call upon pastors and the whole community of the faithful to help the divorced, and with solicitous care to make sure that they do not consider themselves as separated from the Church, for as baptized persons they can, and indeed must, share in her life. They should be encouraged to listen to the word of God, to attend the Sacrifice of the Mass, to persevere in prayer, to contribute to works of charity and to community efforts in favor of justice, to bring up their children in the Christian faith, to cultivate the spirit and practice of penance and thus implore, day by day, God's grace. Let the Church pray for them, encourage them and show herself a merciful mother, and thus sustain them in faith and hope.”
  • Benedict XVI, Sacramentum Caritatis, 29: “… Yet the divorced and remarried continue to belong to the Church, which accompanies them with special concern and encourages them to live as fully as possible the Christian life through regular participation at Mass, albeit without receiving communion, listening to the word of God, eucharistic adoration, prayer, participation in the life of the community, honest dialogue with a priest or spiritual director, dedication to the life of charity, works of penance, and commitment to the education of their children.” 
  • Francis, Amoris Laetitia, 299: I am in agreement with the many Synod Fathers who observed that “the baptized who are divorced and civilly remarried need to be more fully integrated into Christian communities in the variety of ways possible, while avoiding any occasion of scandal. The logic of integration is the key to their pastoral care, a care which would allow them not only to realize that they belong to the Church as the body of Christ, but also to know that they can have a joyful and fruitful experience in it. They are baptized; they are brothers and sisters; the Holy Spirit pours into their hearts gifts and talents for the good of all. Their participation can be expressed in different ecclesial services, which necessarily requires discerning which of the various forms of exclusion currently practised in the liturgical, pastoral, educational and institutional framework, can be surmounted. Such persons need to feel not as excommunicated members of the Church, but instead as living members, able to live and grow in the Church and experience her as a mother who welcomes them always, who takes care of them with affection and encourages them along the path of life and the Gospel. This integration is also needed in the care and Christian upbringing of their children, who ought to be considered most important”

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Lisboa já tem Laetitia

Lisboa já tem orientações para a aplicação do Amoris Laetitia. Saiba tudo aqui.

Foi lançada a mensagem de Quaresma do Papa Francisco, em que ele alerta para “os falsos profetas” e os riscos de um “coração frio”.

A renúncia quaresmal deste ano em Vila Real será para combater a “miséria envergonhada” e para “bolsas de estudo”, diz o bispo.

Conheça a aula de iconografia cristã a que nem a Judiciária faltou.

O Bloco apresentou hoje o seu projecto sobre a eutanásia e o PS, que evidentemente não quer ficar atrás, disse que também o vai fazer. O PCP é que continua a não mostrar a mão

Patriarch of Lisbon's guidelines for applying Amoris Laetitia

Note: Since writing this post I have found the time to translate the full document, and not just the paragraph with the actual guidelines. The full translation can be found here.

The Patriarchate of Lisbon published guidelines for the application of Amoris Laetitia this afternoon.

In a four page long document Patriarch D. Manuel Clemente quotes Amoris, naturally, as well as the Pope's letter to the bishops of Buenos Aires and the vicar-general's indications to the priests of Rome.

He stresses that a proper reading of these guidelines excludes the idea of universal and unrestricted access to the sacraments in cases of irregular unions.

I have translated the actual guidelines, which are as follows:

"Bearing all this in mind, I present herein some operative guidelines: a) To accompany and integrate people into the life of the community, in line with the post-synodal Apostolic Exhortations Familiaris Consortio, 84, Sacramentum Caritatis, 29 and Amoris Laetitia, 299. b) Carefully examine the specificity of each case. c) Not to exclude recourse to the diocesan tribunal, whenever there is doubt concerning the validity of the marriage. d) In cases in which validity is ascertained, not to neglect the proposal of a life in continence in the new situation. e) To bear in mind exceptional circumstances and the possibility of the sacraments, in line with the aforementioned apostolic exhortation and documents. f) To continue the process of discernment, bringing the practice ever closer to the ideal of Christian marriage and sacramental consistency."

The document can be seen here. The translated guidelines are item #5. 

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