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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ahh... Os Bispos

Pe. Bevill Bramwell, OMI
No Rochedo de Cashel, na Irlanda, visitei as ruínas de uma fortaleza de um bispo. Alguém comentou: “Eles tomam sempre bem conta de si”. Eles eram os bispos. No tempo dos apóstolos os bispos eram pobres e viviam vidas de risco. Mas com o Édito de Milão (313) passaram a ter estatuto de funcionários imperiais, controlando terras, vilas e províncias. Ganharam honras civis e estipêndios. Eram barões e senhores.

Nada na forma como o cargo foi originalmente constituído indicaria que se deveriam comportar assim, mas em vez de darem testemunho na cultura, alinharam com ela. Nem todos os bispos o fazem, mas os que fazem são em número suficiente para que a sua taxa de consumo e ambição sejam um problema para a presença da Igreja no mundo.

Os palácios episcopais podem ser um grande problema. Claro que há bispos que vivem em casas modestas, mas quanto ao resto, as suas residências são um gigantesco contratestemunho para o trabalho oficial da Igreja. A Igreja é um corpo de testemunho. Por razões legais, está organizado numa série de corporações. Mais importante, a Igreja é fundamentalmente um testemunho de Jesus Cristo no mundo. E isso não implica ter muito dinheiro ou um estatuto social mais elevado.

O problema, do ponto de vista teológico, é que o bispo está limitado pelos parâmetros materiais da vida de Jesus Cristo e é simplesmente impossível dar testemunho credível de Jesus Cristo enquanto se vive uma vida significativamente mais rica que a de Jesus Cristo – a não ser que a mensagem da Igreja seja um mero acrescento. Viver a vida de Cristo é uma coisa pessoal, no sentido em que compromete toda a pessoa, corpo e alma. Cada aspecto da existência do indivíduo deve manifestar Cristo. Isto aplica-se igualmente aos padres, mas isso é tema para outra conversa.

Fatos Armani ou passatempos caros demonstram uma dependência de coisas materiais e não do Espírito. Também podem sugerir que a pessoa se imagina superior àquelas que a rodeiam, ou que se sente mais à vontade com as classes altas. Depois existem as outras benesses do trabalho – os convites para restaurantes caros, onde a conta é paga por outro; bilhetes grátis para grandes eventos; casas de férias emprestadas, e por aí fora, aparentemente sem limite.

Devia ser difícil, psicologicamente e espiritualmente, pregar o Evangelho aos domingos enquanto se vive este tipo de vida durante o resto da semana. Pelo menos se conhecer o Evangelho.

Uma vez perguntei sobre um caso de consumismo suspeito e responderam-me que o bispo podia fazer o que quisesse com o seu salário diocesano. Um excelente argumento – no mundo secular. O problema do testemunho mostra a falsidade da proposição. Há bispos que recebem o mesmo salário de padres com o mesmo tempo de serviço.

Os nossos valores não devem radicar no mundo secular. Se assim fosse, as conversões e a redenção seriam supérfluos. Para além disso, já existem bastantes organizações e pessoas a espalhar os valores seculares. A espalhar os valores contrários existe apenas a Igreja. Uma Igreja que é verdadeiramente contracultura. Demasiados católicos tentam viver nas margens de dois sistemas de valores contraditórios.

Residência do Arcebispo de Chicago, EUA
O dinheiro sempre foi uma matéria ruinosa para a vida dos funcionários da Igreja. Já ouvimos todas as desculpas. Que é necessário para o funcionamento da Igreja. Que o Clero precisa dele para arranjar os edifícios escolares e as igrejas e para dar conta de todas as necessidades na paróquia e na diocese.

A necessidade do dinheiro, contudo, desencadeia toda uma corrente de eventos relacionados com a angariação de fundos, como os bispos a serem tratados como ornamentos em jantares faustosos e bajulados por ricos.

E vai mais longe, estamos sempre a ouvir histórias de bispos a tratar de forma especial ricos ou poderosos e até a menosprezar a doutrina da Igreja.

Algumas devem ser verdade, uma vez que situações como católicos ricos a defenderem impunemente o aborto têm-se tornado um verdadeiro escândalo público. A afirmação de que estão a ser tratados de forma “pastoral” já não cola ao fim de todo este tempo.

Estamos perante um temor dos ricos? Ou dos poderosos? Ou será a vontade de ser aceite por eles? Será que os directores espirituais destes bispos falam com eles sobre estas questões? Afinal de contas, o trabalho de um director espiritual é ajudar o dirigido a tornar-se mais católico, ou por outras palavras, a assumir mais do ensinamento católico como verdadeiro. De tal forma, aliás, que se deve vivê-lo na prática.

Por último, devemos perguntar também em que hotéis chiques é que se encontra a Conferência Episcopal e em que restaurantes se juntam para comer durante as reuniões. Talvez se optassem por locais mais simples isso ajudaria a quebrar a ilusão de que os bispos se devem sentir magicamente em casa entre os ricos e os poderosos. Mandar vir umas pizas para uma reunião de trabalho talvez fosse simultaneamente um bom testemunho público e um acto de humildade.

Rezemos para que Deus nos conceda um corpo de bispos a viver vidas consistentes e a ensinar doutrina consistente – não movidos pela arbitrariedade, mas vivendo a vida e Cristo – o único Cristo.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 11 de Agosto, 2019 em The Catholic Thing)

Bevil Bramwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Leigos Preocupados e Sacrifício Espiritual

Pe. Bevil Bramwell
Ao longo destes dias muitos padres têm recebido mensagens de pessoas preocupadas com o estado da Igreja. É uma questão grande, para a qual não temos respostas imediatas nem muito confortantes. Muitas pessoas estão a par da situação: redes de padres homossexuais; abusos sexuais de crianças e jovens adultos; a deturpação da doutrina; a incapacidade dos bispos de responder à crise; sinais confusos de Roma.

Os leigos têm todo o direito a estarem horrorizados – até zangados – com tudo isto. Mas algumas coisas não mudaram, como por exemplo o facto de continuarem a ser baptizados e crismados. Chegou a altura em que vamos ver do que são feitos os leigos.

Os sacramentos do Baptismo e do Crisma significam que os leigos são membros adultos da comunidade católica, responsáveis pela “prática da Fé” – palavras sugeridas para as homilias nos baptismos.

A prática da fé envolve tudo o que tem a ver com a nossa adesão pessoal a Jesus Cristo, tornando a comunidade cristã uma realidade viva e participando na missão redentora da Igreja. Isto envolve aquilo que o Vaticano II e a tradição descrevem como “sacrifício espiritual”.

O sacrifício espiritual é uma opção espiritual interior e positiva do cristão individual. Trata-se da atitude básica para confrontar qualquer crise, incluindo a actual.

O primeiro passo é não tratar a pertença à Igreja como se fosse um clube, mas reconhecer os elos espirituais profundos que nos ligam. Entre outras coisas isso implica não abandonar a Igreja, amuado – mas caso esteja a pensar em fazê-lo, talvez queira averiguar primeiro o registo de abusos na igreja ou instituição secular a que pensa aderir.

Os sacrifícios espirituais interiores não dependem do clero, nem de Roma. São sacrifícios necessários para edificar, ao mesmo tempo, uma vida pessoal de virtude, a vida da comunidade eclesial e para fazer chegar mais longe a missão da Igreja.

O ensinamento no Catecismo é mais que suficiente para ajudar as pessoas a compreender as virtudes de uma vida católica, que implica tentar conformar tudo o que fazemos ou dizemos à verdade divina – isto é, procurando viver uma vida inteiramente cristã e alcançando a santidade (ver a III parte do Catecismo). Quando os leigos aplicam esse ensinamento, então mostram do que são feitos!

Depois temos a participação na vida dos sacramentos. Também isto envolve o sacrifício espiritual, na medida em que a pessoa se associa às orações comunitárias e responde vivamente com o seu “ámen” às orações do sacerdote. Podemos participar nas celebrações eucarísticas independentemente das crises na Igreja.

A Eucaristia é o momento certo para oferecer o sacrifício perfeito ao Pai. Não há crise que lhe possa tocar. A Eucaristia é a principal realização temporal do que significa a Igreja. Juntamo-nos de forma ritual para oferecer louvor e adoração e para pedir ajuda a Deus, a razão principal da nossa existência.

Nas nossas respostas à actual crise católica não devemos cair na forma secular e revoltada de comunicar que vemos à nossa volta. A crise não é uma oportunidade para birras adolescentes. É necessário um grande e constante sacrifício espiritual para nos juntarmos e comunicarmos como cristãos – sempre, em todos os assuntos.

O equivalente católico a “reuniões de condomínio” poderá alcançar alguma coisa, mas não resolve os muitos desafios profundos que enfrentamos, a não ser que também seja espaço de oração. A revolta legítima poderá levar um bispo a despertar para as suas responsabilidades doutrinais e morais. Mas a solução a longo-prazo exige uma mudança de atitude espiritual que conduz tanto a uma mudança de comportamento como a uma vontade de remediar as muitas más escolhas feitas no passado.

Outro sacrifício importante para os leigos é estar mais bem informado – e com isso não me refiro à revelação de estatísticas sobre abusos ou assuntos clericais. Estou a falar em estar bem formado interiormente sobre como se pode ser um leigo católico em pleno. Como é que eu participo nesta Igreja pecaminosa, como santo, em vez de me fechar em copas e esperar que a crise passe?

Quanto mais compreender isto, melhor se aguentará como leigo e poderá questionar o clero. Tome nota, contudo, que a maioria do clero está tão enfurecido como você sobre o abuso de jovens, mas também sobre o abuso da própria Igreja. Basta a colaboração de poucos padres para esconder um caso de abusos ou para promover um bispo abusador, da mesma maneira que basta a colaboração de poucos leigos para esconder os abusos numa família, que é onde acontece a maior parte dos casos. Saiba que a maior parte do clero está firmemente do seu lado.

Um outro sacrifício envolve aceitar que esta crise está para durar. Há cinquenta estados nos Estados Unidos e a informação sobre cada um vai sair gota a gota, ao longo dos próximos anos. Mais, grande parte da crise que já passou não pode ser “resolvida”. Sejam quais forem as novas políticas ou as sanções administrativas ou criminais impostas, em última análise a única resposta plena para este tipo de pecado é o arrependimento e a reparação.

Agora é tempo de muita penitência, jejum e oração. Os leigos devem praticar estas coisas também, porque desempenham um papel tão importante como qualquer outra pessoa neste processo: “se algum membro padece, todos os membros sofrem juntamente; e se algum membro recebe honras, todos se, alegram” (Lumen Gentium).


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 21 de Outubro 2018 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quarta-feira de cinzas e de lágrimas, se Deus quiser!

Jesus ressuscita Lázaro, depois de ter chorado
É Quarta-feira de Cinzas e por isso começa a Quaresma.

O Papa Francisco apelou ao Dom das Lágrimas como medida contra a hipocrisia. Neste artigo explicamos o que é esse conceito que data dos padres do deserto. Também hoje o Papa recebeu alguns dos responsáveis pelo resgate de imigrantes ilegais no Mediterrâneo, a quem agradeceu e disse sentir-se pequeno na sua presença.

Neste primeiro dia da Quaresma pedimos a três personalidades católicas, e um não-crente, que comentassem a mensagem do Papa. Não perca as interessantes reflexões.


Um homem judeu filmou-se a si mesmo a passear por Paris a divulgou as ofensas a que foi sujeito durante o dia.

Na segunda-feira disse que estava prestes a começar os 40 dias de oração pela vida, em Lisboa. Hoje foi o primeiro dia e percebeu-se que há, de facto, muito que rezar. Não deixem de participar e de se inscrever caso possam.

Porque é quarta-feira, temos artigo novo do The Catholic Thing. O padre Bevil Bramwell diz que liberdade religiosa e liberdade de expressão são conceitos bonitos, mas para serem úteis têm de significar alguma coisa de concreto.

Redescobrindo a nossa verdadeira natureza humana

Pe. Bevil Bramwell
Estas últimas semanas têm sido terrivelmente tristes. Primeiro, houve os eventos horríveis em Paris, depois a destruição de igrejas no Níger, a morte de 2000 pessoas na Nigéria e comunidades religiosas atacadas no Médio Oriente. E isso foi só o início. Esta semana 21 cristãos coptas, trabalhadores egípcios na Líbia, foram decapitados por o que parece ser um novo ramo do Estado Islâmico e ainda ontem mais de 40 pessoas foram queimadas vivas pelo Estado Islâmico propriamente dito no Norte do Iraque.

Temos dificuldade em saber onde procurar respostas sobre o que fazer em relação a esta matança. Parte do problema é o facto de, no Ocidente, estarmos confusos sobre aquilo em que realmente acreditamos. Mas talvez as aberrações a que estamos a assistir nos forcem a pensar mais claramente sobre aquilo que defendemos, e porquê.

Numa entrevista com a “Meet the Press”, por exemplo, o editor sobrevivente da “Charlie Hebdo”, Gerard Biard, descreveu da seguinte forma a mais recente caricatura de Maomé naquela revista: “É o símbolo da liberdade de expressão, da liberdade religiosa, de democracia e secularismo”.

Com todo o respeito pela sua tristeza e pelo seu sofrimento, é incrível como aquilo que ele diz – e que muitos dos nossos conterrâneos dizem também – está dependente de definições idiossincráticas de liberdade, expressão, religião, democracia e secularismo. Tudo abstracções desenraizadas. Estamos a falar de liberdade jurídica, ou liberdade moral? Liberdade em relação a pessoas concretas? O que é que Biard entende por religião? E nós?

Mas existe uma referência autoritária. O documento Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, diz o seguinte: “Mas é só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem.”

Bastam estas frases para que as palavras de Biard se dissolvam. Por exemplo, que “liberdade” é esta que humilha a religião de outra pessoa, não de uma maneira útil que possa servir para remediar aberrações, mas em termos ordinários e sexuais? Em tantos contextos, hoje, há certamente um bem maior a procurar. Quão baixo temos de descer para arranjar emprego, encontrar clientes, divertirmo-nos ou fazer programas de televisão?

Depois, temos a própria natureza da expressão. A Carta aos Efésios diz claramente: “Nenhuma palavra desagradável saia da vossa boca, mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam.”

Eis a chave que explica porque é que precisamos de liberdade de expressão: Boa expressão. A expressão que procura o bem é composta por palavras edificantes. Isto é liberdade enquanto espaço para procurar o bem, que é Deus. Esta liberdade expressa a imagem divina em nós mesmos e reconhece a imagem divina nos outros.

Adão e Eva exercem a sua liberdade...
Para além disto, não são só os indivíduos que têm direitos, as comunidades humanas também têm. As comunidades precisam de pessoas que procurem activamente o bem – e não apenas o seu bem. Precisam de pessoas que vejam os outros como imagem de Deus e, por isso, como merecedores de um respeito que ultrapassa todas as outras considerações. Não é esta a verdadeira base da democracia? Os pais fundadores da América, todos eles, pensavam que sim.

O principal problema com a maioria das versões actuais de liberdade é o facto de assentarem numa visão do homem como não-relacional. Isto é, não têm respeito pelo facto de que cada pessoa humana existe em relação a outras. (E, no fim de contas, em relação a Deus, não como uma opção extra para aqueles que escolhem não ser “progressistas”, mas como parte essencial daquilo que somos.) A consideração subjacente para muitos dos nossos contemporâneos é de que o homem é uma entidade fechada, auto-sustentável e não um sujeito de relações.

O respeito pela “Liberdade de expressão, liberdade religiosa, de democracia e secularismo”, devia significar o respeito por todas as relações envolvidas nesses assuntos. Não o fazer é uma forma de violência. Não é, claramente, a violência brutal dos jihadistas, mas é uma violência à qual nos habituámos, por causa da nossa cegueira. A expressão – seja falada, escrita ou desenhada – pode ser uma forma de violência na medida em que viola a integridade e dignidade de outra pessoa enquanto imagem do divino.

A essência de uma sociedade individualista passa por evitar, deliberadamente, os valores comuns e altivos, garantindo que estes nunca se desenvolvam. Na melhor das hipóteses, as palavras abstractas tornam-se caixas vazias nas quais as elites podem enfiar os seus próprios significados. Podem ser arbitrários e contraditórios porque não precisam de respeitar os direitos e os deveres das relações.

Hoje existem muitas formas de ofender as relações humanas. Pascal disse que, tendo perdido a nossa natureza humana através do pecado, qualquer coisa se pode tornar nossa natureza. Mas será que o individualismo, sem qualquer restrição de natureza relacional, é o tipo de natureza que queremos promover actualmente?


(Publicado pela primeira vez no quarta-feira, 18 de Fevereiro 2015 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Como Seria uma Paróquia Classe-A?

Bevil Bramwell, OMI
Deixem-me sonhar: E se cada diocese transformasse pelo menos uma paróquia numa Paróquia Classe-A? Com isto quero dizer uma paróquia que se apresenta como trabalhando proactivamente para ajudar cada paroquiano a tornar-se santo.

Afinal de contas: “Como todos os fiéis, também os leigos têm o direito de receber com abundância, dos sagrados pastores, os bens espirituais da Igreja, principalmente os auxílios da palavra de Deus e dos sacramentos” (Lumen Gentium, Vaticano II). Uma Paróquia Classe-A é uma paróquia de abundância espiritual e não apenas uma paróquia de missa dominical com alguma catequese e visitas aos doentes. De facto, dado o apelo à evangelização, esta paróquia procura chegar a cada pessoa na área: Gostaria de ser Católico? Gostaria de ser santo?

A Paróquia Classe-A é um local desafiante onde somos encorajados a aprender sobre a fé, independentemente da idade. Quando Bento XVI pregava sobre a história da figueira e do homem que cuidava da vinha, explicou que não devemos subestimar: “A necessidade de começar a mudar tanto o interior como o exterior das nossas vidas de imediato, para não perder as oportunidades que a misericórdia de Deus nos dá para ultrapassarmos a nossa preguiça espiritual e responder ao amor de Deus com o nosso amor filial”.

Isto podia estar gravado nas paredes da igreja paroquial.

A Paróquia Classe-A é diferente de outras também na medida em que o ensinamento se baseia na doutrina oficial da Igreja e não de qualquer partido político ou do New York Times. A formação na paróquia envolve ir mais além e ajudar as pessoas a aprender a compreender e a aplicar a sua fé nas circunstâncias práticas, tal como a vida familiar, negócios, eleições, etc. Estamos a falar de um tipo de pedagogia muito mais sofisticada do que a mera repetição de algumas verdades, que obriga o professor a meter a mão na massa para compreender e criar empatia com as vidas das pessoas, sempre com uma grande compreensão da fé.

Aprender é importante porque somos chamados a “transformarmo-nos pela renovação das mentes” (Romanos 12, 2). Há apenas uma verdade e é por isso que Paulo diz que devíamos ser transformados “para que com um só coração e uma só voz glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 15,6). Esta unidade testemunha o espírito uno do Deus uno: “O mesmo Espírito, unificando o corpo por si e pela sua força e pela coesão interna dos membros, produz e promove a caridade entre os fiéis” (Lumen Gentium).

Há uma coesão espiritual rica, também: “Daí que, se algum membro padece, todos os membros sofrem juntamente; e se algum membro recebe honras, todos se, alegram” (Lumen Gentium). Isto vai muito para além de estar sentado ao lado de pessoas na missa. Uma paróquia destas implica conhecer as pessoas e relacionarmo-nos com elas de forma compreensiva.




Não estamos a falar de uma comunidade de auto-seleccionados. Nem de uma comunidade de pessoas da mesma classe social. Pelo contrário, é uma comunidade de pessoas atraídas pelo Deus Vivo, o que significa que estão lá todos. Mais, nesta paróquia: “Devem os leigos abraçar prontamente, com obediência cristã, todas as coisas que os sagrados pastores, representantes de Cristo, determinarem na sua qualidade de mestres e guias na Igreja, a exemplo de Cristo, o qual com a Sua obediência, levada até à morte, abriu para todos o feliz caminho da liberdade dos filhos de Deus” (Lumen Gentium).

Logo, em vez do estilo actual de paróquia em que cada um escolhe o que quer seguir, uma Paróquia Classe-A é aquela em que se exerce a liderança. Esta comunidade anseia pela santidade e isso requer liderança.

Os edifícios da paróquia poderão precisar de renovações para melhor cumprir estas missões. Por exemplo, a colocação de textos do Vaticano II em ecrãs na entrada, ou noutro local onde possam ser lidos pelos paroquianos, pode ajudá-los a ter uma melhor compreensão da sua fé. Alguns dos textos do Ofício das Leituras também seriam úteis. Podiam ser mudados semanalmente para ir informando os transeuntes.

Por fim, uma paróquia desta natureza viveria em profunda e compreensível admiração pelo facto de “Na celebração da Eucaristia entramos no mistério de Deus, naquela rua secreta que não conseguimos controlar: Ele é o único, a glória, o poder... Ele é tudo” (Papa Francisco).

Ele vale bem o esforço de uma Paróquia Classe-A.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 23 de Fevereiro 2014 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Casamento Católico: Pelo Caminho

Bevil Bramwell, OMI
Com a chegada do ano novo, pode ser útil recordar-nos daquilo com o qual estamos comprometidos. Como sabemos, Jesus denominou-se “o Caminho, a Verdade e a Vida”, e disse ainda, “Ninguém chega ao Pai senão por mim” (João 14,6). Por isso a sua pessoa é o Caminho.

Quando os primeiros cristãos eram perseguidos, os seus algozes procuravam “homens e mulheres que pertencessem ao caminho”, (Actos 9,2). O Papa emérito Bento XVI desenvolveu a questão do Catolicismo enquanto um caminho e não uma religião, no sentido de que não pode ser reduzido a uma mera listagem de coisas a cumprir.

O Catolicismo é, antes, a forma de vida completa e total, encorporada em Cristo – aquele que vive cada dia em cumprimento da vontade do Pai. Em contraste, numa religião os nossos deveres para com Deus ficam cumpridos. A religião permite ter tempo livre da religião! Ficamos com tempo para actividades seculares – como se alguma coisa fosse verdadeiramente secular.

As pessoas que se deixam envolver com “religiões” normalmente acabam por ter mais que uma. Pode passar por um recurso ao Cristianismo em situações de emergência; obsessão por compras; fascínio por sexo; fixação por um clube; dependência de um meio social; preocupação com o sucesso dos negócios. Sendo uma pessoa religiosa, neste sentido, significa passar a vida a saltitar de uma religião para outra.

Mas estar no caminho, por sua vez, significa sujeitar-se de forma humilde às situações, porque elas vêm de Deus. Daí compreendemos que: “Um samaritano, porém, que também estava a viajar por aquele mesmo caminho, teve pena do homem quando o viu. Chegou perto dele e fez curativos para as suas feridas, colocando nelas azeite e vinho. Depois disso, colocou o homem no seu jumento e levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.” Este é o dom desinteressado de si ao outro, por amor. Este é o coração do caminho.

Pela mesma lógica, um casamento pode ser “religioso” ou pode ser um casamento do caminho. Num casamento “religioso”, neste sentido de que falamos aqui, há uma série de deveres que compõem o “casamento” e quando estes estiverem cumpridos então já não há nada por fazer. Claro que se isso não me deixar satisfeito então tenho a opção do divórcio, porque da minha parte já fiz tudo o que se esperava. Repare-se como esta lógica está centrada no “eu”. Este “casamento” é uma construção minha e não uma realidade de Deus. O “casamento” é o meu projecto e está fechado ao outro e a Deus.

Tertuliano
Contudo, se o meu for um casamento no caminho, então eu e a minha mulher passaremos cada segundo a aprender a dar-nos desinteressadamente, no amor. (Entenda-se “amor” como o trabalhar para o bem do outro). Aprendemos a fazê-lo com Jesus, que nos acompanha. Descobriremos o que isto significa aos 25 anos, e depois ainda mais aos 50 e mais ainda aos 75. A base e a fonte do casamento entre mim e a minha mulher é o casamento entre Cristo e a sua Igreja.
 
A vida no caminho para Deus não tem quaisquer limites imaginados e auto-impostos. Estamos a caminho da infinidade de Deus e por isso não podemos sequer começar a imaginar o que significa amar-nos, ou o quanto eu e a minha mulher conseguiremos amar. Tentar fazê-lo é impor limites a Deus e contentar-nos com a ideologia mundana do momento.

Estando casado pelo caminho, encontro-me aberto a tornar-me mais do que alguma vez conseguiria imaginar. Enquanto marido e mulher, descobrimos o sentido da vida à medida que caminhamos. Quando o amor chega a este ponto, torna-se mesmo um amor desinteressado. É por isso que o casamento é para toda a vida. É por isso que o casamento é salvífico – ajudamo-nos um ao outro e aos nossos filhos, a caminho de Deus.

Ouçamos o que Tertuliano tem a dizer sobre este tipo de casamento:

Ambos são filhos do mesmo Pai, servos do mesmo Senhor, formando uma só carne, um só espírito. Oram juntos, adoram juntos, jejuam juntos, ensinam-se um ao outro, encorajam-se um ao outro, apoiam-se um ao outro. 
Encontramo-los juntos na igreja, juntos no banquete divino. Partilham por igual a pobreza e a abundância, as perseguições e as consolações. Não há segredos entre eles, nenhuma falsidade: confiança inviolável, solicitude recíproca, nenhum motivo de tristeza. Não têm de se esconder um do outro para visitar os doentes, para dar assistência aos indigentes; a sua esmola não é motivo de disputa, os seus sacrifícios não conhecem escrúpulos, a observância dos seus deveres quotidianos é sem entraves. 
Entre eles não há sinais da cruz furtivos, nem saudações inquietas, nem acções de graças mudas. Da sua boca, livre como o seu coração, elevam-se hinos e cânticos; a sua única rivalidade é a de ver quem celebra melhor os louvores do Senhor. Cristo alegra-Se com tal união; a tais esposos Ele envia a sua paz.

Isto é o casamento no caminho do Senhor!


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 29 de Dezembro 2013 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Papa Francisco e os “Ungidos de Deus”

Padre Bevil Bramwell, OMI
Acontece tanta coisa durante um ano litúrgico que muitos eventos importantes passam sem sequer darmos por eles. Um acontecimento bastante importante – ao qual quase ninguém deu importância na altura – foi quando o Papa Francisco falou especificamente ao clero, mesmo antes da Páscoa, sobre o sacerdócio, durante a sua homilia na missa crismal, em São Pedro. Vale a pena olhar de perto para as suas palavras.

Na missa crismal o bispo benze os óleos que serão usados durante o ano para os baptismos, crismas, unção dos doentes e ordenações. A graça desses sacramentos preserva e ajuda a desenvolver a Igreja pela qual ele é responsável.

Em Roma, o Papa Francisco disse: “As Leituras e o Salmo falam-nos dos «Ungidos»: o Servo de Javé referido por Isaías, o rei David e Jesus nosso Senhor. Nos três, aparece um dado comum: a unção recebida destina-se ao povo fiel de Deus, de quem são servidores; a sua unção «é para» os pobres, os presos, os oprimidos”.

Ele não disse que era para os “católicos pobres”, etc. Há muito que a Igreja atende a, e defende, os pobres e oprimidos de qualquer comunidade em que está presente.

A expressão usada pelo Papa recorda as palavras amargas usadas pelo último imperador pagão de Roma, Juliano, o Apóstata: “Enquanto os sacerdotes pagãos ignoram os pobres, os odiosos galileus [i.e., cristãos] dedicam-se a obras de caridade e, ao exibir esta falsa compaixão estabeleceram e efectivaram os seus erros perigosos. Esta prática é comum entre eles e conduz ao desprezo pelos nossos deuses”. (Epístola aos sumos sacerdotes pagãos)

Claro que os “Deuses” de Juliano não existiam. E numa cultura que os promovia, actos de verdadeira caridade mostravam até que ponto esses “deuses” eram de facto nada mais que imaginação. Não devemos encarar isto com leveza, tendo em conta que os dois falsos deuses, criados da imaginação moderna – o nazismo e o marxismo – assassinaram dezenas de milhões de pessoas no século XX e a contagem do extremismo liberal em assuntos como o aborto na nossa própria sociedade é grande e continua a crescer.

O Papa estabelece uma ligação entre a unção e os actos dos ungidos, os padres. Originalmente: “Também no peitoral [do sacerdote] estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo”.

Psicológica e espiritualmente, estamos perante um homem de natureza diferente. Este padre que conscientemente “carrega” o seu povo quando se aproxima do altar do Senhor. A graça e o esforço moldaram a sua consciência para agir dessa forma. O padroeiro dos padres, São João Vianney, considerava-se responsável pelas falhas morais do seu povo.


Francisco usa repetidamente o termo “seu povo”. O padre não é um director executivo, mas o pastor do seu rebanho. O termo, retirado das escrituras, ainda tem peso. Não foi substituído por alternativas seculares e modernas.

Mais, o pastor tem um efeito sobre o seu rebanho:

“O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aqui uma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria; por exemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, ‘as periferias’ onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. “

Não estamos perante a boa nova da homilia de “duas piadas e um anúncio”, mas da verdadeira Boa Nova, com maiúsculas. Além disso, o Papa faz esta afirmação sabendo por experiência que a fé genuína é recebida com hostilidade.

A sua reflexão termina com um olhar sobre a paróquia:

“As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao Senhor: ‘Reze por mim, padre, porque tenho este problema’, ‘abençoe-me, padre’, ‘reze para mim’… Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do manto, porque é transformada em súplica – súplica do Povo de Deus.”

A visão que o Papa tem de uma verdadeira paróquia é sumamente interpessoal e verdadeiramente comunal (a “comunidade”, infelizmente é um conceito que foi esvaziado de verdadeiro sentido nos Estados Unidos). Ele enfatizou o aspecto interpessoal de forma negativa também, falando do padre que “não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração”.

Este é um Papa que tem uma forma bastante terra-a-terra, mas solidamente teológica, de comunicar a fé. E ainda agora começou.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 5 de Maio 2013 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tradicionalistas divididos, hotéis de Fátima cheios


Nossa Senhora da Cruz do Sul

É já amanhã que se realiza a jornada “Juntos pela Europa”, que reúne 150 cidades europeias. Saiba tudo aqui…

Se pensa ir a Fátima esta semana… esqueça os hotéis, que estão esgotados. Por outro lado, o santuário anuncia que dispõe agora de serviços médicos mais rápidos e eficazes.

Os quatro bispos tradicionalistas da Sociedade de São Pio X estão divididos internamente. O superior-geral Bernard Fellay está apostado em chegar a acordo com Roma, mas arrisca-se a vir sem os seus três colegas.

Depois de Reino Unido e EUA, a Austrália vai ter um ordinariato pessoal para ex-anglicanos já em Junho. Chama-se Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora da Cruz do Sul

Ontem o D. Pio Alves de Sousa, presidente da Comissão Episcopal para as Comunicações Sociais, falou de um défice de silêncio, de repouso e de pensamento nos media… e com esta me calo!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Casamento gay" = Divórcio entre Obama e Igreja


Barack Obama assumiu-se a favor do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. O presidente justificou a decisão com base na sua fé cristã. Quem não gostou foi o Cardeal Timothy Dolan, presidente da Conferência Episcopal Americana, que considerou as declarações “profundamente tristes”.

Não deixa de ser peculiar que Obama tome esta medida em ano de eleições. Leia aqui a minha análise.


A crise não poupa ninguém e as IPSS da Igreja em Bragança vão ter de despedir funcionários. O bispo lamenta e diz que vão tentar encontrar soluções.

Hoje Bento XVI recebeu uma delegação judaica e reafirmou a importância da declaração Nostra Aetate. Pode parecer insignificante, mas não é, saiba aqui porquê.

Por fim, se pensa ir a Fátima para as celebrações de dia 12 e 13 estará na boa companhia de outras 300 mil pessoas. A GNR tem conselhos, estão aqui…

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Obediência


Pe. Bevil Bramwell, OMI
Na sua recente homilia de Quinta-feira Santa, o Papa Bento XVI referiu-se ao apelo à desobediência de alguns membros do clero na Europa. A obediência, por uma série de razões, não é um conceito popular. A maioria dessas razões são psicológicas e, por isso, não estão aqui em discussão.

Mas uma razão cultural é de que a obediência a um superior terreno, como um padre ou um bispo, é visto como humilhante. Contudo, a lógica não faz sentido. Apenas se deve obediência a um superior (outra palavra politicamente incorrecta) que nos pede para fazer algo que seja moralmente bom. Como é que isso pode ser humilhante?

Estamos aqui para fazer o bem, mas nem sempre sabemos ao certo que bem é esse. Não há maior bem que seguir a Cristo. Os pastores, superiores religiosos e bispos apenas querem ajudar as pessoas a seguir a Cristo.

É interessante que as pessoas que têm dificuldades em obedecer à igreja não deixam de obedecer ao patrão, ao meteorologista, ou ao polícia, e não notam qualquer inconsistência. Seguir a Cristo e à sua Igreja é o maior de todos os bens.

Outra razão invocada para a desobediência é de que obedecer a uma autoridade eclesial dá demasiado poder à Igreja, algo que é simplesmente inaceitável na era do material. Sim, fazer o bem tem, de facto, o seu próprio e extraordinário poder na cultura.

Veja-se a Igreja na Polónia debaixo dos nazis e dos comunistas. Veja-se a Igreja nos Estados Unidos onde tantas paróquias e institutos de solidariedade social trabalham no silêncio, ajudando os sem-abrigo, os doentes e os moribundos, para falar de apenas uma grande área de serviço.

O tipo de poder que despertou a objecção original à obediência data do Iluminismo, quando o poder da Igreja estava demasiado próximo das elites políticas e económicas em vários países. Mas essa aliança há muito que foi desfeita, por exemplo nos Estados Unidos. E é bom que assim seja, porque essa separação permite à Igreja ser Igreja, em vez de um mero passatempo das elites.

A obediência devia ser um conceito popular, porque apenas crescemos quando algo nos chega do exterior. Pode ser tão simples como comida ou tão fundamental como o mandamento de amar e seguir a verdade. Estamos vinculados a realidades maiores: em bebés, aos nossos pais; enquanto estudantes, às universidades; enquanto trabalhadores, às fábricas; enquanto católicos, à Igreja, e por aí fora.

Um sacerdote a prometer obediência ao seu bispos
A lista é interminável. Não podemos viver sem esta quantidade de coisas que todos os dias nos chegam. O amor, a comida, a informação, o exercício dos nossos direitos económicos e políticos, tudo isto abre a nossa vida a algo maior. Por isso mesmo num sentido puramente natural: “De facto, nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo. (Romanos 14,7).

Mas na verdade, nessa passagem, Paulo estava a escrever sobre pessoas no exercício da fé. A obediência – a entrega de nós mesmos – faz parte da estrutura da fé. Não há outra forma de o exprimir: “não há outra possibilidade para possuir certezas em relação à nossa vida se não pelo abandono de si, em crescendo contínuo, nas mãos de um amor que parece aumentar constantemente, porque tem a sua origem em Deus.” (Bento XVI). Trata-se de um abandono nas mãos de Cristo, que nos chega pela Igreja. É por isso que a Igreja é apelidada de “nossa mãe”.

Falando de apenas uma vertente deste abandono: entregamo-nos aos documentos do Vaticano II e podemos dizer, com Bento XVI: “Devem ser lidos correctamente, conhecidos por muitos e entendidos pelo coração como sendo textos importantes e normativos do Magistério, no contexto da Tradição da Igreja... Sinto cada vez mais que é meu dever apontar para o Concílio como sendo a Graça dada à Igreja no Século XX: é lá que encontramos uma bússola segura para nos orientar neste século que agora se inicia.”

E continua:

“Gostaria de sublinhar aquilo que tive ocasião de dizer sobre o Concílio alguns meses depois da minha eleição como Sucessor de Pedro: ‘se formos guiados por uma hermenêutica correcta na sua interpretação e implementação, ele pode-se tornar um instrumento cada vez mais poderoso e necessário para a renovação da Igreja.”

A nossa obediência consiste, portanto, numa complexa leitura e interpretação de documentos da Igreja. Ela abre-nos para a Graça e leva à conversão e à renovação!

Termino com um pensamento de Henri de Lubac S.J.: “Uma aprendizagem deste género nunca termina; é dura para a nossa natureza e os homens que se acham mais iluminados são os que têm maior necessidade (é por isso que é particularmente útil para eles), de modo a que sejam esvaziados da sua falsa riqueza, ‘para humilhar os seus espíritos sob uma autoridade visível’ (Fénelon)”.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 6 de Maio 2012 em www.thecatholicthing.org)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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