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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Que Pensamos Importa

Robert Royal

Recentemente escrevi sobre os Thomistic Institutes, uma iniciativa da Dominican House of Studies em Washington D.C., que organiza palestras e conferências proferidas por católicos ortodoxos de primeira categoria em quase cinquenta (e cada vez mais) das mais prestigiosas universidades e faculdades da América. E a organização está em expansão. Muitos leitores escreveram-me para expressar a sua apreciação por esta rede tão valiosa, mas também para perguntar o que podem fazer se não houver nada do género na sua zona.

Agora temos uma resposta.

No dia 26 de Agosto foi para o ar o Aquinas 101 – um site criado pelos mesmos dominicanos. Cliquem e preparem-se para uma experiência fascinante. Quando estiver completa, esta série terá oitenta e seis breves palestras, cuidadosamente preparadas e dirigidas a qualquer pessoa com um nível de capacidade e de interesse comum.

Este curso é aberto a todos, e é gratuito!

Estamos a falar de uma introdução bem construída e acessível a um dos maiores de todos os pensadores dominicanos, São Tomás de Aquino, que não só nos coloca em contacto com o homem que mais fez para formar o pensamento católico ao longo dos séculos, mas também nos ajuda a ver como essa enorme obra de pensamento tem grande relevância para algumas das questões nevrálgicas que hoje enfrentamos.

Por exemplo, muitas pessoas hoje, incluindo cristãos e até católicos, caíram em algumas confusões básicas sobre a natureza da Fé e da Razão. Conforme explica uma das primeiras palestras desta série, isto leva, por um lado, ao cepticismo – não podemos saber verdadeiramente nada sobre Deus – mas também, por outro, ao que tem sido apelidado de “fideísmo”, a ideia de que cremos sem saber em quê.

Ambas são reações naturais numa era de pós-verdade, mas um católico curioso não quererá deixar que o seu pensamento se mantenha preso neste lamaçal actual. Há ideias melhores e mais “verdadeiras” sobre a verdade, que Aquino e outros nos podem fornecer.

Talvez já tenham visto a sondagem recente que mostra quão poucas pessoas, até entre católicos praticantes, acreditam na Presença Real de Cristo na Eucaristia. Muitos acham que não passa de um mero símbolo. No final de contas, a Eucaristia é um profundo mistério, mas homens santos e dotados como Aquino recorreram às várias ferramentas da tradição e da razão humana para fornecer abordagens racionais e sérias àquilo que no fundo nos transcende a nós e a toda a Criação.

Recentemente o jesuíta Thomas Reese comentou essa sondagem dizendo que não acredita em termos como “substância”, “acidente”, “matéria” e “forma” que Aquino utilizou para explicar a Eucaristia. Mas sem uma qualquer forma de explicação e descrição sólida, não admira que a Eucaristia pareça simplesmente simbólica e que a crença na mesma se torne “fideísta”.

Muitos rejeitam estes conceitos porque acham que as ciências modernas as desacreditaram. Na verdade a ciência não o fez, nem o pode fazer, precisamente porque os pensadores escolásticos usaram esses termos de forma filosófica. Não pode contradizer a ciência – nem antiga, nem moderna, nem pós-moderna, nem nada que ainda aí venha. Mas seria necessário estudar e perceber como os termos Fé e Razão se relacionam para o compreender.

A principal razão pela qual os jovens de hoje abandonam a verdadeira religião e adoptam a descrição “espiritual e não religioso” é porque acreditam que a ciência tornou a religião tradicional inviável.

Podemos simplesmente cruzar os braços e lamentar que tantos tenham caído nesta falácia simplista. (“Ex-católicos” são o segundo maior grupo religioso na América e os “Nenhuns”, i.e., pessoas que dizem que não têm qualquer forma de filiação religiosa, são provavelmente a categoria religiosa que mais cresce na nossa sociedade.) Ou então podemos decidir fazer alguma coisa sobre o assunto, a começar por nós mesmos.

Estudar São Tomás não é pera doce e o próprio admite, em vários pontos da sua vasta obra, que nem toda a gente tem capacidade para estudar filosofia e teologia. Mas esta série foi montada por pessoas perfeitamente cientes destas dificuldades. Como o próprio site explica: “Não é tão difícil como pensa. Na verdade, quando nos habituamos, o pensamento de Aquino ilumina algumas das questões mais importantes. Perceberá até que ele se tornou seu amigo e guia nos caminhos da sabedoria”.

Imagine poder falar de sabedoria nos nossos dias e afirmar que “o que pensamos importa”, tal como a Igreja sempre ensinou.

Católicos e protestantes, por exemplo, diferem sobre muitas coisas. Mas, classicamente, podemos dizer que tudo se resume à fórmula central de Lutero: Sola Scriptura – Só a Escritura é que constitui a fé, por oposição à Tradição e à Escritura, ou à Bíblia e a Igreja, ou à Fé e a Razão.

Neste último departamento tem havido filósofos protestantes sérios, claro, e teólogos protestantes como João Calvino ou Karl Barth, que empreenderam reflexões racionais profundas. Ainda assim não seria um exagero dizer que de todas as formas de Cristianismo, a que cultivou quer a fé quer a razão de forma mais consistente ao longo dos séculos é o Catolicismo.

E entre os Católicos o grupo intelectualmente mais fértil, ao longo de quase mil anos, tem sido a Ordem Dominicana. A lista de santos intelectuais e místicos é longa: O próprio São Domingos, Mateus de Paris, Raimundo de Peñafort, Alberto Magno, Tomás Aquino, Mestre Eckhart, Catarina de Sena, Fra Angelico, Bartolomeu de las Casas, Francisco de Vitória, Cardeal Cajetan, Rosa de Lima, Martim de Porres, Pio V (cujo longo pontificado legou aos Papas o seu traje branco), Louis de Montfort, Lacordaire, A. G. Sertillanges, Reginald Garrigou-Lagrange, Vincent McNabb, Aidan Nichols e muitos outros nos tempos modernos.

Claro que há outras escolas de pensamento católico para além do Tomista e do Dominicano. Mas ao familiarizar-se com qualquer uma das figuras citadas acima, já ficará com uma formação valiosa em pensamento e prática católicos – bem como uma perspectiva poderosa sobre muitas questões perenes e controvérsias actuais.

Mas a Dominican House tornou mais fácil para todos estudar Aquino, agora. Vá até ao site e inscreva-se. É grátis; pode estudar ao seu próprio ritmo, a partir de casa; não há notas. O que é que tem a perder? E pense só no que tem a ganhar.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Oração e Ascese

Michael Pakaluk
Se estiver a pensar quantos minutos de exercício é que devia fazer por dia para manter-se saudável, talvez já saiba que a resposta é 30 minutos. Mesmo que não soubesse, não duvidaria que existe uma resposta objectiva, e saberia onde a procurar (por exemplo, através do Ministério da Saúde).

E compreenderia que esse número corresponde a um mínimo. Alguém que precisa de perder peso, ou um atleta em treino, teria de fazer muito mais que isso. Mas compreenderia esta ideia do que, objectivamente, uma pessoa precisa para se manter saudável. Viver bem implica conseguir encaixar pelo menos 30 minutos de actividade vigorosa no seu dia. Todos sentimos e compreendemos isto, de forma implícita.

Mas eu gostaria de colocar a pergunta equivalente em relação à alma. Dizemos que existe uma alma, e que o corpo representa, de várias formas, a alma. Existe a actividade da alma, em como força e saúde. Por isso parece evidente que se possa colocar a pergunta: quantos minutos por dia é que devia exercitar a minha alma para uma boa saúde espiritual? Mas neste campo, embora seja muito mais importante, tendemos a pensar que não existe resposta objectiva e que não saberíamos bem a quem perguntar se precisássemos de uma indicação.

Repare que me estou a referir a tempo que “pomos de parte”. Claro que há esforços físicos que fazem parte do dia-a-dia – ir a pé para o trabalho, levantar sacos de compras, etc., e é bom que a nossa vida inclua estas coisas. Da mesma forma, podem existir actos de “exercício espiritual” nas actividades diárias. Mas eu estou-me a referir a períodos de tempo que são apenas para exercício corporal ou espiritual.

Vejamos a questão desta forma. Pode-se distinguir, em princípio, a oração da ascese. A oração pode ser entendida como uma conversa com o Senhor. A ascese é qualquer actividade que requeira e construa autodisciplina.

Teoricamente, pode haver conversas com o Senhor que não requeiram autodisciplina. Muitas pessoas entendem a oração desta forma. Pensam numa conversa entre dois amigos, como dois homens sentados em cadeirões, a fumar charutos e a beber whisky, tendo uma grande conversa. E então acham que a oração é assim, como se estivessem confortavelmente sentados a ter esse tipo de conversa agradável com Deus.

O Asceta - Pablo Picasso
Também em princípio pode existir ascese de algum tipo sem oração. O filósofo Thomas Reid resolvia problemas de cálculo todas as manhãs, pela disciplina mental, antes de se dedicar a escrever filosofia. O filósofo analítico Roderick Chisholm disse-me um dia que todas as manhãs, antes de começar a trabalhar, estuda um artigo da Summa Teológica, não pelo conteúdo, mas pela disciplina que implica.

Outro exemplo seria Benjamin Franklin, que fazia um autoexame todos os dias, com base numa tabela de virtudes, e há ainda quem resolva problemas de sudoku ou palavras cruzadas, para manter a mente alerta.

Mas embora a oração e a ascese espiritual sejam, em princípio, coisas diferentes, na prática conjugam-se. A oração é uma conversa com o Senhor, de facto. Mas se o Senhor estiver a caminho do deserto? Então não poderá conversar com ele sem se despir de tudo o resto.

Ou então imagine que o Senhor está a escalar uma montanha, e que para conversar com Ele é preciso subir também? Talvez já tenha escalado montanhas e saiba exactamente quanta autodisciplina precisa para empreender uma subida íngreme durante quatro ou cinco horas. Mas Nosso Senhor deu-nos precisamente estes exemplos de sair para o deserto para rezar, e de escalar uma montanha para rezar (Lc. 5,16, 6,12). Duvido que o tenha feito se não nos quisesse mostrar algo sobre a natureza da oração.

Bem vistas as coisas, não existem exemplos no Novo Testamento de Jesus a procurar um cadeirão para rezar.

A ideia errada de que se “encontra” tempo para rezar parece ligada à confusão de que a oração é, na prática, separável da ascese – como se a oração simplesmente aparecesse ou ocorresse de forma espontânea. Como se escalar uma montanha fosse apenas algo que surgisse naturalmente na nossa vida do dia-a-dia: “Fui trabalhar, acabei aqueles projetos, e então a ocorreu-me que o melhor a fazer era escalar uma montanha”.

A oração requer ascese – por causa do pecado original, por causa das exigências do discipulado, por causa do poder da Cruz. Também nos podemos espantar com o facto de (embora a oração seja fruto de uma busca de amor, tal como a conversa), a ascese não deixa de ser uma forma eficiente de desenvolver autodisciplina para todas as áreas da vida. Mais até do que práticas de ascese directa (excepto para disciplina intelectual pura – aí mais lhe vale resolver problemas de cálculo).

Voltando, portanto, à questão original: Quanto tempo por dia devia dedicar à oração? Podemos responder que seria o tempo necessário para exercitar a alma.

Afinal, para esta questão parece haver uma resposta objetiva, e autoridades competentes. Olhando para os santos e grandes Papas, vemos que recomendam a missa diária (30 minutos); a oração do terço (15 minutos); a oração do Evangelho do dia e de um livro espiritual (15 minutos) e oração mental diária (pelo menos 15 minutos, mas idealmente uma hora) – o que leva a um total de duas horas. Por isso, ao que parece, para viver uma boa vida cristã devemos encaixar duas horas de oração no nosso dia.

Se viajar para os Estados Unidos poderá surpreender-se com a quantidade de americanos obesos que existem. Mas talvez encontre também uma equipa de atletas universitários a caminho do seu voo. Desconfio que se existissem juízes capazes de ver as nossas almas, como acontece num dos mitos de Platão, eles ficariam espantados ao ver o quão espiritualmente obesos nós parecemos todos.

E os cristãos, que deviam parecer-se mais com aquela equipa de atletas, são iguais a todos os outros.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 20 de Agosto de 2019)

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Dois Caminhos

Pe. Jeffrey Kirby

Na vida encontramos duas correntes, que Nosso Senhor Jesus descreveu como dois caminhos. São Paulo desenvolveu mais esta noção ao descrever a batalha entre os que têm coração de carne e os que têm coração espiritual. Santo Agostinho, o protegido espiritual do Apóstolo dos Gentios, elaborou toda uma teologia com base na noção de duas cidades: A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Fazendo eco da sabedoria do Senhor, o Doutor da Graça compreendeu que estas duas cidades eram formadas por dois tipos diferentes de amor. Uma das cidades procurava amar a Deus, a sua Lei e o próximo – enquanto a outra cidade era refém do narcisismo.

O Papa São João Paulo II traduziu estas duas noções para uma linguagem mais contemporânea. Na sua monumental encíclica Evangelium Vitae, de 1995 (em larga medida uma continuação mais desenvolvida da anterior Humanae Vitae do Papa São Paulo VI), o amado Papa criou dois termos que agora são parte integrante da visão católica do nosso tempo: a cultura da vida e a cultura da morte. Nestas expressões o Papa santo voltava a mostrar que existem dois caminhos e dois amores na vida. Estes caminhos e os amores que revelam dão aso não só a “cidades” mas também a culturas. Alimentam-se dos seus próprios amores.

A cultura da vida chama-nos a um serviço sacrificial a Deus e ao nosso próximo, sobretudo aos mais vulneráveis e necessitados, cada vez mais elevada. Radicado num amor por toda a gente, a cultura da vida crê, vive e labora para espalhar a mensagem de que toda a gente tem dignidade, todas as pessoas são um dom de Deus e todas as pessoas – por mais manchadas de pecado original e pessoal – devem ser estimadas e respeitadas.

Esta afirmação é um irritante para a cultura da morte. Essa cultura odeia a mensagem, despreza o mensageiro e procura retirar a dignidade e o respeito – enquanto professa o contrário – aos mais vulneráveis e fracos de entre nós.

Não obstante estas provas de consciência pesada, a cultura da morte preocupa-se unicamente consigo e com os seus desejos. Procura destruir tudo o que lhe seja inconveniente ou desconfortável. Os fracos e os vulneráveis são presa fácil numa cultura destas.

Por isso, para além de alimentar o seu próprio amor a Deus e ao próximo, uma cultura da vida robusta deve expor e combater a cultura da morte. Esta batalha é inevitável e quem vive uma forte cultura da vida compreende a sua necessidade. Logo, trabalha para desmantelar os argumentos, enfraquecer a sedução e impedir a influência e as estruturas de uma cultura antivida.

No Evangelium Vitae o Papa João Paulo II identificou correctamente uma “conjura contra a vida”, que “não se limita apenas a tocar os indivíduos nas suas relações pessoais, familiares ou de grupo, mas alarga-se muito para além até atingir e subverter, a nível mundial, as relações entre os povos e os Estados.” (#12)

As raízes desta conspiração encontram-se na revolta de Lúcifer contra Deus. O maligno espalhou essa revolta através das mentiras que contou aos nossos primeiros pais e do seu pecado no Jardim do Paraíso. Esta cultura da morte levou ao homicídio do seu primeiro filho Abel pelo seu irmão Caim. Esse acto de fratricídio conduziu a ofensas ainda maiores à dignidade humana.

E assim o palco estava preparado. As opções tornaram-se claras e as pessoas, cidades e culturas tiveram de decidir-se pela vida ou pela morte. Quem escolhe a vida tem de estar disposto a combater em sua defesa.

Historicamente, a batalha sobre a vida tem sido de uma só frente. Os arautos da cultura da morte atacam os nascituros. Negam a sua personalidade. Classificam-nos como indesejáveis. Partiram para uma batalha de palavras e redefiniram termos como autonomia, dignidade e escolha para apoiar os seus esforços. Travaram uma guerra particularmente feroz contra quem tem necessidades especiais, sobretudo quem tem Trissomia 21.

Mas a cultura da morte alimenta-se de si mesma. Não se satisfaz apenas com uma frente de batalha. E por isso a guerra tem agora duas frentes, incluindo o final da vida.

As notícias estão cheias de relatos de crianças a quem são negados os cuidados de fim de vida, doentes como Vincent Lambert, que morreu recentemente em França depois de lhe ter sido recusada comida e água e Estados como o Maine vão criando leis para facilitar o suicídio medicamente assistido.

A guerra de palavras deu aso a novas definições de termos como fardo, qualidade de vida e até misericórdia.

Chegou o momento – enquanto os ataques à vida se tornam mais sofisticados e alargados – de as pessoas se tornarem mais criativas e ativas, mais assertivas em sublinhar o contexto e a definição próprias das palavras, em dar testemunho do amor desinteressado pelos fracos e vulneráveis, em protestar e mudar as leis contra a vida e em partilhar com paroquianos, vizinhos e colegas a beleza e a dignidade objetiva de toda a vida humana.


O padre Jeffrey Kirby, STD é professor-adjunto de Teologia em Belmont Abbey College e pároco da paróquai de Our Lady of Grace em Indian Land, SC. O seu mais recente livro é Be Not Troubled: A 6-Day Personal Retreat with Fr. Jean-Pierre de Caussade.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 4 de Agosto de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


quarta-feira, 24 de julho de 2019

Rezem pela Polónia

Stephen P. White
O drama que abalou a Igreja dos Estados Unidos ao longo do último ano pode distrair-nos da dimensão global da crise de abusos sexuais praticados pelo clero, e das más práticas episcopais a ela associados. Aqui na Polónia, onde me encontro desde finais de Junho, a Igreja está a enfrentar o seu próprio escândalo de abusos.

Um relatório publicado em Março pela Conferência Episcopal da Polónia reconheceu que desde 1990 um total de 382 padres foram acusados de abusos sexuais de menores. Estas alegações foram feitas por 625 vítimas diferentes.

A maioria das vítimas na Polónia tinha mais de 15 anos, o que é bastante mais do que nos Estados Unidos. A maioria das vítimas, 58,4%, são do sexo masculino, segundo os bispos polacos. Note-se que a idade de consentimento na altura em que o relatório foi publicado era de 15 anos e a maioridade atinge-se aos 18.

A forma como se lidou com os casos tem sido, em certas alturas, e de forma tragicamente familiar, gravemente desadequada. Mudança de padres para outros lugares, culpabilização dos media e por aí fora. De certa forma, a Igreja aqui está no mesmo lugar em que estava a americana há 25 anos.

A resposta dos bispos polacos variou entre o cuidado, sincero e o mais insensível. O arcebispo Wojciech Polack de Gniezno, Primaz da Polónia, insistiu que cada caso de abusos deveria “evocar em nós dor, vergonha e culpa”. Já o bispo de Cracóvia, Marek Jędraszewski, atrapalhou-se todo ao insistir que “tolerância zero” não deve significar “misericórdia zero”. Para o ilustrar escolheu talvez a pior analogia possível: “Quando os nazis adoptaram uma política de tolerância zero para com os judeus, o resultado foi o Holocausto”. Como devem calcular, a comparação não caiu particularmente bem.

Em maio dois irmãos – Tomasz (guionista e diretor) e Marek Sekielski (produtor) – lançaram um documentário chamado “Não Digas a Ninguém”. O filme conta as histórias de sobreviventes de abusos e a resposta inadequada dos bispos polacos. Inclui cenas arrepiantes de sobreviventes a confrontar os seus abusadores.

O relatório dos bispos, lançado em Março, foi uma notícia importante, mas o lançamento de “Não Digas a Ninguém” abalou o país inteiro. O filme foi lançado no YouTube, onde foi visto mais de um milhão de vezes só nas primeiras seis horas. Até à data foi visto mais de 22,5 milhões de vezes, um número incrível tendo em conta que a população total da Polónia é de pouco mais de 38 milhões.

Sendo a Polónia, todo este drama – e o assunto dos abusos sexuais praticados pelo clero em geral – assumiu rapidamente contornos políticos. “Não Digas a Ninguém” foi lançado duas semanas antes das eleições para o Parlamento Europeu.

O partido conservador Direito e Justiça, no poder, tinha ligações próximas com muitos dos bispos polacos. Alguns membros da oposição tomaram nota da revolta provocada pelo filme e tentaram usar os abusos sexuais como tema de campanha. Mas a oposição deu um passo maior que as pernas (incluindo a promoção agressiva da agenda LGBT) e saiu-lhes o tiro pela culatra.

"Não Digas a Ninguém"
Juntou-se a todo este desassossego os comentários feitos pelo Papa Francisco na conversa com os jornalistas a bordo do avião depois da sua visita a Abu Dhabi, em Fevereiro. O Santo Padre estava a defender o registo do então Cardeal Ratzinger e a forma como tinha lidado com alegações de abusos sexuais, nomeadamente em relação ao fundador dos Legionários de Cristo, o padre Maciel. Ao defender Ratzinger Francisco pareceu dar a entender – pelo menos assim o compreenderam vários polacos – que os esforços de Bento XVI tinham sido travados por João Paulo II.

O secretário de longa data de João Paulo II, o arcebispo emérito de Cracóvia, Cardeal Stanisław Dziwisz, saiu em defesa de João Paulo, insistindo que as insinuações baseadas nos comentários ambíguos de Francisco eram injustas. Quando, mais tarde, Francisco elogiou o trabalho feito pelo Papa João Paulo II na luta contra o abuso – chamando-o “corajoso” e dizendo que “ninguém pode duvidar da santidade e da boa-vontade deste homem” –Dziwisz publicou uma carta aberta agradecendo ao Papa Francisco por “pôr fim às tentativas de difamar São João Paulo II”.

Em Junho o arcebispo Charles Scicluna, o homem de mão do Papa Francisco para resolver crises de abusos sexuais, encontrou-se com os bispos polacos. A imprensa polaca especulava que vinha aí uma onda de resignações. Consta que Scicluna foi duro, mas por agora o episcopado polaco permanece intacto.

Contudo, Scicluna aproveitou o momento para sublinhar a defesa do Papa João Paulo II feita por Dziwisz: “Eu sou testemunha da determinação de São João Paulo II em combater os abusos sexuais de menores quando confrontado com os casos. Penso que aqueles que questionam a competência ou a determinação de São João Paulo II em lidar com este fenómeno devem rever os seus conhecimentos históricos.”

Muitos dos polacos com quem eu falei disseram-me que a ideia que reina é que as más notícias nesta questão ainda não acabaram. Os últimos meses têm sido uma montanha russa. As coisas poderão acalmar, sobretudo se os bispos polacos conseguirem evitar tornar os seus erros ainda piores, com alguns dos bispos americanos fizeram. Mas o sentimento geral que obtive de amigos polacos – devotos ou não – é que o pior ainda está para vir.

É difícil prever como é que a Polónia lidará com isso. O país continua a ser profunda e extraordinariamente católico, mas o catolicismo polaco mantém-se em larga medida na defensiva. As alianças entre a Igreja e políticos populistas, por mais devotos que sejam, podem adquirir estabilidade a curto prazo mas com um altíssimo custo a longo prazo. Como aprendemos da pior maneira aqui nos Estados Unidos, o instinto eclesial de defender a instituição, por mais piedoso que seja, pode conduzir a actos que têm o efeito precisamente contrário.

No meu entender a Igreja polaca está muito mais próxima do princípio do que do fim de toda esta trapalhada. A forma como os bispos polacos lidarem com a crise dos abusos ao longo dos próximos meses e anos contribuirá em larga medida para garantir o futuro de um dos exemplos mais belos de verdadeira cultura católica. Esse futuro está agora mais frágil do que muitos gostariam de admitir.

Rezem pela Polónia.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Julho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 17 de julho de 2019

Em Busca do Bom Samaritano

O amor ao próximo é algo que é pedido a todos nós. A parábola do Bom Samaritano, que escutámos no passado domingo, fornece um bom guião. Temos a responsabilidade de reconhecer a necessidade e a miséria humanas, e de lhes responder tanto com atenção pessoal como com generosidade material.

Numa sociedade rica, com mudanças demográficas velozes, contudo, isto requer alguma análise. Poucos são os que, hoje em dia, vivem a familiaridade cara-a-cara das pequenas comunidades. A maioria vive em subúrbios e vai de carro para o trabalho, passando ao largo dos bairros mais pobres.

Claro que os media apresentam-nos muitas imagens de pessoas necessitadas, mas poucos de nós encontramos essas pessoas no nosso dia-a-dia. Existem, contudo, verdadeiras bolsas de miséria humana até no nosso mundo desenvolvido, desde o interior das cidades até às paisagens mais rurais.

Nas nossas ruas existem pessoas com necessidades crónicas. Vemo-las nas esquinas das ruas e nos degraus das igrejas. Algumas estão perturbadas emocionalmente, outras sofrem de stress pós-traumático, outros ainda estão simplesmente a atravessar um mau momento e há os que estão a aproveitar-se do sistema. Mas a desolação emocional e espiritual pode ser ainda mais devastadora.

Os padres que acompanham as Missionárias da Caridade apercebem-se que as irmãs os dissuadem de dar dinheiro diretamente aos necessitados. Lançar-lhes algumas moedas é muito mais fácil do que dar-lhes aquilo de que precisam verdadeiramente: cuidado pessoal moroso. As pessoas que vivem vidas isoladas e pobres precisam – segundo nos dizem aqueles que verdadeiramente cuidam delas – de interacção humana, muito mais do que de dinheiro. Frequentemente o que lhes conduziu àquela situação foi precisamente a falta de ligações pessoais.

Portanto nos nossos tempos não é fácil ser um Bom Samaritano. O Bom Samaritano cuidou das necessidades físicas da vítima do assalto e deixou-lhe dinheiro para uma espécie de cuidado institucionalizado: “E no dia seguinte retirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro, dizendo, ‘Cuida dele, e tudo o que gastares a mais, pagar-te-ei quando regressar’” (Lc. 10,35).

Muitas vezes, dar dinheiro às pessoas na rua apenas os leva a adiar a procura de emprego ou de ajuda. Se souber que se vai cruzar com pobres ao longo do seu dia, um Bom Samaritano moderno poderá ter o cuidado de levar consigo uma sanduiche a mais, ou uma bebida, ou então comprometer-se com algo ainda mais substancial em termos de tempo e de trabalho, oferecendo-se para trabalhar numa sopa dos pobres ou uma iniciativa do género.

As paróquias suburbanas recolhem valores consideráveis das caixas de esmolas. Os párocos, em conjunto com os concelhos financeiros das paróquias, geralmente fazem chegar esses fundos a organizações que servem os necessitados. Ocasionalmente um paroquiano poderá também precisar de ajuda, por causa de uma crise. É bom que as paróquias encontrem formas de permitir que os paroquianos os possam abordar com esses problemas sem sentirem demasiada vergonha.

E, já agora, os párocos nunca devem aceitar agradecimentos pessoais por distribuírem dinheiro da caixa de esmolas. São chamados a ser bons gestores dos recursos paroquiais, como é evidente, mas a verdadeira generosidade é dos paroquianos que fazem os donativos.

De igual modo uma sociedade recta – o que normalmente significa as comunidades locais (por uma questão de subsidiariedade) – devem fornecer os cuidados mais básicos de quem está a passar um mau bocado. Mas deve ser claro – e hoje em dia não costuma ser – que cobrar impostos para ajudar os pobres não corresponde ao conceito de “caridade” que encontramos na Bíblia.

Essas cobranças são, na realidade, uma forma de justiça retributiva (e a virtude da solidariedade) mediada através do processo político. Ao longo dos tempos aprendemos que nem todos esses programas funcionam, e que chegam mesmo a prejudicar as pessoas que pretendem ajudar. Mas uma assistência social bem monitorizada e dirigida às pessoas certas, também tem o seu lugar.

Algumas organizações podem ser classificadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social de acordo com as leis do Estado, ao mesmo tempo que contrariam as leis de Deus. A Planned Parenthood, por exemplo, recebe 500 milhões de dólares por ano de dinheiro público, bem como donativos privados, dedutíveis em IRS, para financiar 330 mil abortos por ano (e para colher e vender órgãos fetais à socapa). Esta suposta caridade não passa, na verdade, de uma monstruosa máquina de matança.

Algumas organizações têm mais jeito para angariar dinheiro do que para usá-lo em obras verdadeiramente caritativas. O Bom Samaritano de hoje que queira doar dinheiro a organizações de caridade deve dar ouvidos ao aviso de Eric Hoffer de que “todas as grandes causas começam por ser movimentos, depois transformam-se em negócios e eventualmente degeneram em fraudes”.

Parte do trabalho do Bom Samaritano moderno passa por exercer vigilância adequada, sem a qual as caridades podem encher-se de funcionários e tornar-se um buraco financeiro dependente de constantes peditórios, cada vez mais agressivos.

Por outro lado, como qualquer IPSS sabe, também existem pessoas que pensam que o trabalho caritativo deve operar praticamente sem custos administrativos, o que não é realístico. Até as Missionárias da Caridade recebem – merecidamente – comida e estadia em troca do exercício do seu santo apostolado.

Quando fazemos um donativo devemos examinar as nossas consciências. Foi-nos dito pela mais alta autoridade que o bom impulso de caridade pode ser estragado pelo desejo de admiração. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

No fim de contas temos de reconhecer que todos os programas governamentais do mundo, bem como todas as IPSS, são incapazes de aliviar o sofrimento humano em grande escala. Uma das consequências do pecado original é que os pobres, seja no sentido material ou espiritual, sempre os teremos connosco. Os leigos devem trabalhar para criar sistemas socioeconómicos justos e eficientes. Mas a assistência aos pobres, num generoso espírito cristão, é a levedura necessária para complementar e ultrapassar os mecanismos das ordens meramente económicas.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Sinais de Amor Mútuo

Michael Pakaluk
Num dos dedos da minha mão esquerda uso uma aliança, que entendo ser um sinal do meu amor e da minha fidelidade pela minha mulher, Catherine. Mas as palavras da liturgia dão a entender outra coisa. Quando recebi a aliança da minha mulher no nosso casamento ela disse, “Toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Por isso parece que estou enganado: a aliança que eu uso representa a fidelidade dela, não a minha. Ou será? Como é que resolvemos este problema?

Uma forma seria simplesmente mudar as palavras. Já vi essa sugestão feita num site popular de planeamento de casamentos, sem a devida autorização, claro, no sentido de mudar as palavras para Eu, [nome] recebo esta aliança como sinal do meu amor e fidelidade”!

Portanto a coisa não parece clara e algumas pessoas tentam resolvê-la com o senso comum. A verdade é que essa situação menos clara foi introduzida com a reforma litúrgica. A Forma Extraordinária é muito mais clara e inclui a bênção, só da aliança da mulher, pelo padre:

Abençoa, + Senhor, esta aliança, que benzemos + em vosso nome, que aquela que a vai usar, mantendo verdadeira fé no seu esposo, possa permanecer na vossa paz e em obediência à vossa vontade e viver para sempre em amor mútuo.*

Repare-se que as palavras não se referem à aliança como “sinal” de nada. Só existe uma cláusula de propósito, “que aquela que a vai usar”. Isto é porque a aliança é vista como um “sacramental”, isto é, algo sagrado que tem o poder conferido de fazer aquilo que significa (como a água benta). Assim, a aliança não é apenas representativa da sua fidelidade: tem como propósito auxiliá-la a ser fiel. (Vemos um sinal disto naqueles homens que tiram a aliança antes de entrar num bar, abdicando assim da ajuda divina em permanecer fiéis).

A bênção refere-se também à obediência à vontade de Deus. Isto é algo que uma pessoa sensata compreende. Ser casado implica aceitar uma regra; estar constrangido. Uma pessoa aceita um jugo – um jugo “suave” e “leve”, claro, que, se for adoptado com o espírito certo, traz muita “paz”. Mas seria insensato negar que uma aliança é um compromisso com a disciplina, tanto como um cabeção para um padre.

Mas há uma falha, uma fraqueza, no ritual. A bênção refere-se ao “amor mútuo” mas só o marido é que dá uma aliança à noiva, e não ao contrário. (Era costume na Europa, até ao final do Século XIX, apenas a mulher usar a aliança.) O novo rito, como veremos, procura remediar isto.

Na Forma Extraordinária, o padre dá a aliança benzida ao noivo, que a dá à noiva, usando uma de duas fórmulas:

Com esta aliança eu te desposo, e juro ser-te fiel*

-ou-

Com esta aliança eu te desposo; este ouro e esta prata eu te dou:
Com o meu corpo eu te venero; e todos os meus bens terrenos te ofereço*

Um objecto em duas mãos
Os linguistas chamam a este tipo de linguagem “performativa” uma vez que as palavras significam e cumpre, simultaneamente, a acção. Aquilo que as palavras significam e efectivam é a perfeição da união matrimonial através da dádiva de um objecto precioso, a aliança.

Mas nem é necessário que o objecto seja uma aliança! Acontece que a aliança era o objecto precioso mais fácil de guardar junto ao corpo nas culturas antigas. Mas o “ouro e prata” refere-se a moedas que também podem ser oferecidas, como as famosas “arras” que ainda são dadas durante a cerimónia nas culturas hispânicas e que por isso mesmo foram incorporadas como uma opção nos casamentos católicos nos Estados Unidos, em 2016.

Nos dias em que o casamento era entendido não tanto como uma simples relação pessoal, mas mais como uma instituição que conduzia à estabilidade financeira, o facto de o homem dar um objecto precioso à sua mulher era um sinal da seriedade do seu compromisso de estabelecer esta instituição com ela em particular. A isto acrescentava-se o dote, o capital inicial para a nova instituição, dada por uma ou ambas as famílias. Uma vez que o casamento continua a manter essa característica, pode-se argumentar que a tradição das “arras” é um vestígio e um testemunho desse entendimento e que por isso ganharia em ser adaptado a outras culturas também.

Podemos agora contrastar isto com o significado das palavras no novo rito. Quando o noivo diz “toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, não se refere à utilização da aliança, mas à aliança enquanto objeto precioso. Oferece a aliança por amor e com uma promessa de fidelidade; depois, ela usará a aliança por amor e como promessa de fidelidade. (Em 2016 a linguagem foi alterada para “Recebe esta aliança” em vez de “toma esta aliança” – o que se pode dizer que emenda o problema ao enfatizar mais corretamente o facto de a dádiva ser um evento único.)

Então esta nova linguagem é confusa e confunde – ou (talvez sem o querer) é profundamente verdadeira? Vejamos por este prisma: num contexto moderno, uma aliança é um objecto ou meio objecto? Comparando: um sapato é meio objecto e não um objecto inteiro, uma vez que os sapatos existem aos pares. Claramente, hoje olhamos para as alianças da mesma forma, como sendo aos pares. Nesse sentido, em bom rigor, uma pessoa não usa uma aliança, são duas pessoas que usam um único objecto – as alianças. Cada aliança, sobretudo pelo facto de não ser completa por si só, representa o amor e a fidelidade de ambos.

Assim, as palavras do novo rito, não obstante a sua falta de clareza aparente, acabam por ser profundamente verdadeiras. É frequente uma coisa significar a sua proveniência. A aliança que uso na minha mão esquerda nunca deixa de “dizer” que foi recebida como sinal de amor e de fidelidade. Usada, representa um amor e uma fidelidade que são precisamente recíprocos e mútuos. 

*As traduções são minhas, do inglês. Não consegui encontrar traduções portuguesas das bênçãos e das expressões. Caso existam, e algum leitor as conhecer, agradeço que me informem para poder trocar. Obrigado!


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Julho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Música para os Moribundos

Randal Smith
Quando tinha dezoito anos a Elaine Stratton Hild ofereceu-se para tocar viola de arco no seu hospital local. Logo no primeiro dia uma assistente social pediu-lhe para ir ao quarto de uma mulher que queria ouvir “Amazing Grace”. A mulher estava sozinha no quarto. Fechando os olhos e deixando que a música as envolvesse às duas, Elaine tocou. Quando abriu os olhos percebeu que a senhora se tinha voltado para a janela e deixado de respirar. Morreu a ouvir o “Amazing Grace”.

Mais recentemente Stratton Hild, doutorada em musicologia, tem estado a dedicar-se ao estudo fascinante dos cânticos que as diferentes comunidades entoavam para moribundos na Idade Média. Havia liturgias inteiras para confortar quem estava a morrer. Partia-se do pressuposto que toda a comunidade de amigos e família acompanhariam os moribundos na sua viagem através da morte e para além dela. Presumia-se que ninguém deveria morrer sozinho e que ninguém deveria morrer sem o apoio da comunidade de crentes que cuidariam das suas necessidades físicas, emocionais e espirituais.

Não eram só os medievais que acreditavam nisto. Muitas culturas desenvolveram práticas para ajudar a “acompanhar” os mortos tanto física como espiritualmente. Uma mãe de três filhos, que tinha sido noviça numa comunidade religiosa, disse-me que quando tocava uma certa campainha no mosteiro toda a gente parava imediatamente o que estivesse a fazer e ia para o quarto da irmã que estava a morrer. Então toda a comunidade, incluindo as que não cabiam no quarto, entoava um cântico enquanto ela morria.

Neste mundo moderno e secularizado a maioria de nós já não sabe cuidar dos moribundos. A nossa tendência é para fechar as pessoas num quarto para que ninguém tenha de assistir a este “falhanço” da nossa tecnologia moderna.

Recebi de uma amiga uma descrição do trabalho da Elaine Stratton Hild há algumas semanas, quando publiquei um artigo no The Catholic Thing em que exortava os bispos e padres católicos a aliviar algum do peso das famílias quando morrer um paroquiano. O velório, o terço e o funeral devem ter lugar na Igreja, em plena vista do altar e da cruz, dizia, e não numa sinistra casa funerária, com custos exorbitantes.

Não precisamos de embalsamar os corpos – um desastre tóxico para o ambiente – e as pessoas devem ser sepultadas num simples caixão de madeira, na terra, nos arredores da igreja, como acontece há séculos. Gastar milhares de euros para enterrar um corpo, dando pouca atenção à missa é tão estúpido como gastar milhares de euros num casamento e não pensar na missa. Ah, pois! Também fazemos isso…

Mas ao ouvir Stratton Hild falar do seu trabalho percebi que mal tinha arranhado a superfície da questão com o meu artigo anterior. Agora, acredito que a Igreja deve oferecer a sua ajuda, e a presença consoladora do Corpo de Cristo, não apenas no funeral, mas durante todo o processo da morte. E quando digo “a Igreja” não me refiro apenas aos clérigos.

Não quero com isso menosprezar a importância dos padres e das freiras. Não consigo pensar em nada mais consolador num hospital do que ver uma enfermeira que é também uma freira, de hábito. Os católicos costumavam ver isso a toda a hora, mas hoje em dia já não acontece. (Porquê?) Mas os padres e as freiras não podem fazer tudo, e não podem substituir-se a uma comunidade inteira. Não devemos querer descarregar neles esta responsabilidade, mantendo-a longe da vista, tal como já fizemos com os médicos e as enfermeiras.

Elaine Stratton Hild a fazer pesquisa
A única coisa que todos os moribundos que alguma vez conheci queriam era morrer em casa. Nenhum o fez. E as probabilidades de uma pessoa ter acesso a música, cânticos, uma liturgia comunitária ou a mera presença constante de família e amigos, é quase nula.

Deixámos que a cultura moderna nos atomize, transformando-nos em unidades isoladas. Quando isso acontece deixamos de ter qualquer poder contra as instituições que prometem cuidar de nós, mas que nos ameaçam cada vez mais. A comunidade médica tem um papel importantíssimo a desempenhar no tratamento dos moribundos, mas é apenas uma parte. Ninguém deveria ter de morrer sozinho, num hospital, longe de casa.

Recentemente tive o privilégio de poder participar numa celebração melquita em honra de um homem recém-falecido. Foi uma experiência triste, mas belíssima e profundamente tocante. A única tragédia era o homem não estar lá para o experienciar. E não o digo como piada, o que quero dizer é que há poucas coisas mais belas e consoladoras para uma pessoa que está a morrer do que experimentar este tipo de liturgia.

Precisamos de recuperar as liturgias e práticas comunais que a Igreja usou durante séculos para confortar os moribundos e consolar as suas famílias, antes da sociedade ter decidido que se tratava de um “assunto médico”. Cometemos uma violência contra a pessoa quando não compreendemos a importância e o valor de comer e falar com outros, do riso, do toque, da música, canto e da presença de amigos, família e comunidade. Isto é verdade tanto durante os nossos tempos de saúde como quando estamos às portas da morte.

A morte não é um falhanço humano. É o fim natural da vida humana. Mais, Cristo advertiu os seus seguidores para o facto de que “se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer produzirá muito fruto”. Mais tarde São Paulo escreveria que “se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos”. Esta ainda é a nossa fé? Então precisamos de rodear as pessoas com expressões repetidas dessa mesma fé à medida que se aproximam da sua viagem final.

Podem encontrar uma introdução belíssima ao projeto de Elaine Stratton Hild neste curto vídeo.



(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 29 de Junho de 2019)

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quarta-feira, 26 de junho de 2019

“Transjacking” no Desporto

Brad Miner
Estamos a cerca de um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio (24 de Julho a 9 de Agosto, 2020), mas já existe polémica. Por outro lado, há sempre polémica nos Jogos Olímpicos, normalmente por causa de drogas que melhoram o desempenho desportivo (PED, de Performance-enhancing Drugs).

Nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, os atletas russos e os seus “cientistas” fizeram batota em tão grande escala (sobretudo nas análises à urina) que a Agência Mundial Antidoping recomendou que a Rússia fosse banida de participar nos Jogos de Verão no Rio, em 2016. Isso não aconteceu, embora a Rússia tenha sido subsequentemente banida dos Jogos de Inverno de 2018 em PyeongChang. Ainda assim, alguns atletas russos competiram como “Atletas Olímpicos da Rússia”, mas sem a bandeira da Rússia ou hino nacional. (E mesmo muitos desses viriam a acusar em testes antidoping.)

No geral o Comité Olímpico Internacional (COI) tem tido manifestado repetidamente um grande interesse – partilhado por todas as organizações que supervisionam desportos – em manter os Jogos Olímpicos livres de PEDs. Não só por causa das vantagens competitivas que estas substâncias fornecem aos atletas, mas também por causa do perigo que estas drogas apresentam para a saúde dos mesmos atletas, no longo prazo.

O ideal do atleta amador talvez já não exista nos Jogos Olímpicos, mas pelo menos persiste a crença na importância de atletas naturalmente saudáveis.

Ou será?

O COI e muitas – se não a maioria (e em Julho do ano que vem talvez todas) – as federações atléticas defendem agora o uso de drogas mais extremas que se possa imaginar: drogas supressoras de testosterona para homens que querem competir como mulheres, isto é, atletas “transgénero” macho-para-fémea (MpF).

O debate que ainda existe – se é que ainda existe – apenas diz respeito a quão suprimido deve ser o nível de testosterona no atleta MpF, medida tanto nos níveis de soro de sangue reduzido da hormona e na duração desses mesmos níveis.

Na prática, o COI e outros estão a dizer que aquilo que define uma atleta feminina, por exemplo, nos 100 metros é simplesmente o nível dessa hormona. Atualmente, a fórmula do COI é: não mais que 10 nmols/L (nanomoles por litro) de soro de testosterona durante pelo menos os 12 meses que antecedem a competição. Segundo o COI: “As alterações anatómicas cirúrgicas como precondição de participação não são necessárias para preservar a concorrência leal e podem até ser inconsistentes com a legislação em desenvolvimento e com noções de direitos humanos”.

Temos, por isso, que um homem poderá qualificar-se para competir nos Jogos Olímpicos de 2020 contra atletas nascidas mulheres desde que declare o seu “género” como feminino e comece um regime de supressão de testosterona que coloque os seus níveis em 10 nmols/L, mantendo-os assim até ao começo dos jogos, no dia 24 de Julho de 2020.

A questão aqui é que enquanto o nível normal de soro de testosterona nos homens é entre 10.41 e 34.70 nmols/L, os níveis normais nas mulheres são entre 0.52 e 2.43. O que significa que um velocista MpF que se qualifique para os Jogos Olímpicos com um nível de 10 nmols/L, isto é, o limite inferior do espectro de testosterona masculino, continuará a ter quatro vezes mais do que o máximo para mulheres.

Claro que sabemos que isto é absurdo. Como se lê no recente documento do Vaticano “Homem e Mulher Ele os Criou: Um caminho de diálogo sobre o assunto de género na educação”:

O processo de identificação da identidade sexual é dificultado pela construção fictícia conhecida como “género neutro” ou “terceiro género”… As tentativas de ir para além da diferença sexual constitutiva macho-fémea, tal como as ideias de “intersexo” ou “transgénero” conduzem a uma masculinidade ou feminilidade ambíguas pese embora (de forma contraditória) esses mesmos conceitos pressuponham na verdade essa mesma diferença que se propõem a negar ou ultrapassar.

Tiffany (ex-Rodrigo) Abreu, estrela de vólei feminino no Brasil
Mas o que falta saber é quantos homens vão decidir comportar-se de forma absurda nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Para dizer a verdade, eu, que sou um homem velho e não uma velocista de nível mundial, não estou muito preocupado. Mas as atletas de elite estão, ou pelo menos deviam estar. E pela seguinte razão.

O recorde mundial dos 100 metros femininos de Florence Griffith Joyner em 1988, de 10,49 segundos, foi um grande feito (talvez até sem a ajuda de PEDs). Mas este ano, no campeonato dos 100 metros masculinos das escolas secundárias no Estado do Texas, Matthew Boling fulminou o recorde americano com uns incríveis 9,98 segundos. Joyner tinha 29 anos quando bateu o seu recorde mundial; Boling tem 18. E ao longo de 2019 todos os primeiros 75 velocistas masculinos dos campeonatos do ensino secundários bateram o recorde mundial de Joyner.

Estou a focar-me nestes alunos de liceu porque se trata de rapazes que já atingiram o auge do seu desenvolvimento biológico natural, sem a ajuda de drogas, e mesmo depois de passar a puberdade continuarão a beneficiar deste estímulo hormonal da adolescência em termos de altura, peso, velocidade e força. A supressão de testosterona poderá diminuir este benefício, mas só um pouco.

Volto a insistir que para competir em Tóquio um atleta MpF não precisa de parecer uma mulher. Com base no que se tem visto em competições recentes em que têm participado atletas MpF, alguns terão penteados “femininos” e outros poderão ter sinais de aumentos mamários. Outros vão simplesmente parecer gajos. Mas, como o COI já disse (graças a Deus!), não são precisas intervenções agressivas, como aquelas a que se sujeitam alguns transgéneros MpF: implantes mamários; rapagem da maçã-de-Adão; orquiectomia (remoção dos testículos); penectomia (a amputação do pénis); nem as subsequentes vaginoplastias, labiaplastias ou clitoroplastias – que requerem uma vida inteira de terapia hormonal (estrogénios, antiandrógenicos, progestogéneos e moduladores de libertação de gonadotropina – qualquer uma destas, se não todas), não vá o corpo começar a reafirmar-se, o que, inevitavelmente fará caso as intervenções químicas falhem, uma vez que é essa a sua natureza.   

Para além disso, não há qualquer intervenção que possa transformar uma pessoa XY numa pessoa XX. Essa diferença cromossómica e biológica, que define um homem e uma mulher, é que é natural. É por isso que o Vaticano considera que qualquer tentativa de mudar o género é “fictícia”.

As regras do COI para atletas femininas que se apresentam como homens apenas reforçam essa ficção. Na verdade, não existem regras, pois nenhuma mulher seria capaz de competir contra um homem, seja qual for o sexo que afirma ser.

Escrevi sobre este assunto e o seu impacto no mundo do desporto em 2016, e desde então as coisas só pioraram. Contudo, agora vemos algumas mulheres jovens a defender-se daquilo a que algumas apelidam de transjacking, e isso é uma boa notícia.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 24 de Junho de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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