quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Coronavírus e ecumenismo

Estamos satisfeitos com a educação que damos nas nossas universidades? Nomeadamente na área das artes liberais? São cada vez mais as pessoas que questionam o modelo de ensino. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o professor universitário Randall Smith sugere que toda a gente aprenda um ofício, como por exemplo canalizador ou electricista, ao mesmo tempo que tira o curso.


O Patriarcado de Lisboa recebeu centenas de candidaturas para o concurso de hino e logotipo das JMJ 2022.

No sábado passado viveu-se o final do oitavário de oração pela unidade dos cristãos. Como é que se vive o diálogo ecuménico num país em que os cristãos são apenas 1,2% da população total? Foi esse o tema da minha conversa com Sebastian Shaw, arcebispo de Lahore, no Paquistão.


Um Novo Paradigma para a Educação nas Artes Liberais?

Randall Smith
Tenho um amigo que acha que a maioria dos alunos contemporâneos estão de tal forma afastado da natureza que teriam de ser reintroduzidos a ela antes de se poder pensar sequer em ensinar-lhes sobre o direito natural e as virtudes.

A Wyoming Catholic College resolve este problema obrigando os alunos a montar a cavalo. Montar não é uma capacidade virtual em que nos possamos desenrascar. Os cavalos têm uma mente própria e para os conseguir montar é preciso ter a capacidade e a sensibilidade para as disposições do cavalo naquele dia. Montar um cavalo não é como brincar com números numa folha de cálculo e por isso é exatamente o género de coisa que os alunos deviam aprender a fazer.

Agora, talvez nem toda a gente possa ou deva aprender a montar a cavalo, nem que seja para poupar os cavalos à tortura de serem sujeitos a cavaleiros incompetentes. Os cavalos precisam de muitos cuidados e de espaço para poderem andar, e nem todas as universidades têm esses recursos. Mas podemos ensinar outras competências que requerem ingenuidade e atenção à realidade do mundo, e não apenas às vontades e aos desejos?

Tenho uma proposta radical. Todos os alunos deviam aprender um ofício com um mestre. Podia ser na área da canalização, electricidade, construção, agricultura, mecânica, carpintaria, mobília, ou outros. O objectivo principal seria ensinar os alunos uma prática que requer disciplina e excelência e onde os resultados são concretos e evidentes.  

Se não ligar correctamente os cabos eléctricos, a luz não acende. Se não colocar correctamente os tijolos, o muro cai. Se a canalização não for bem feita, aparecem fugas. Não há muito espaço para “individualismo criativo” e “voluntariedade autocentrada” quando se está a aprender tais ofícios. Se não o fizermos bem, a coisa não funciona.

E torna-se claro para toda a gente porque é que o mestre é “mestre” e porque o novato não é. Isto, como eu disse, seria o objectivo principal. Aprender um ofício para compreender que existem padrões de exigência e para poder depois aplicar isso ao desenvolvimento das virtudes.

Claro que a proposta é absurda, uma daquelas fantasias que os professores universitários inventam nos seus tempos livres.

Mas será assim tão absurdo? Não é propriamente uma coisa impossível de se fazer. Contratamos electricistas e canalizadores nas universidades a toda a hora. Será mais complicado contratar um mestre electricista que possa ensinar do que um académico de história que possa ensinar?

E pensem no que poderíamos dizer aos pais. Vamos treinar o seu filho segundo as melhores tradições das artes liberais. Mas está preocupado que não consigam arranjar um emprego para se sustentarem? (E sim, muitos temem isso mesmo), pois bem, mesmo que tudo o resto falhe, terá sempre uma forma de ganhar dinheiro como canalizador, electricista, mecânico ou alfaiate. Terá sempre um plano B.

Wyoming Catholic College
E, já que estamos nessa, todos sabemos que um bom canalizador ou electricista ganha mais do que a maioria dos miúdos que metemos a fazer trabalhos de seca num escritório. E se decidirem prosseguir os estudos podem sempre exercer esse ofício em part-time, de forma a conseguir pagar as contas.

Poderão esquecer-se do que aprenderam sobre história ou sobre química orgânica, e os conhecimentos sobre Shakespeare e Freud hão de mudar ao longo dos anos, mas tudo indica que, tal como andar de bicicleta, jamais se esqueçam de como ligar os cabos de um interruptor ou como construir uma cadeira. A tecnologia disponível pode mudar, mas com um bocadinho de tempo e formação hão de conseguir voltar aos eixos.

Como vêem, é uma proposta prática com potencial para aumentar as candidaturas ao ensino superior. Então porque é que não deve gerar grande interesse? Porque requer uma mudança de paradigma na forma como entendemos o ensino universitário. De acordo com a nossa forma de pensar, desenvolvida ao longo dos últimos oitenta e tal anos, as universidades são para trabalhadores administrativos. Os canalizadores não vão para a universidade – pelo menos não para aprender canalização – porque são operários.

Quero que fique bem claro que hoje, como sempre, de uma perspetiva cristã isto é uma valente treta. Os gregos antigos podem ter olhado com desdém para o trabalho manual, mas os cristãos não o podem fazer. Cristo trabalhou como carpinteiro durante a maior parte da sua vida. Todos os beneditinos, franciscanos e dominicanos que fundaram a educação cristã e as primeiras universidades trabalhavam, não eram aristocratas de Oxbridge.

Para além disso, os canalizadores têm tanto direito a uma educação nas artes liberais como qualquer outro. Algumas das melhores conversas que já tive sobre fé e filosofia foram com canalizadores, electricistas e muitos outros que passaram pela minha casa para arranjar coisas. São pessoas interessantes. Tentem discutir o problema do mal com uma mulher polícia que já foi baleada por traficantes. Tem uma perspectiva que falta à maior parte dos licenciados.

E para ser sincero, a maioria dos trabalhos de escritório requerem tanto uma educação universitária como a canalização. Eu rejeito a ideia de que um trabalhador não consiga subir na vida se não tiver acabado o curso. Quem é que fez das universidades os porteiros do sucesso empresarial? Não é essa a nossa função nem o nosso objectivo. É, isso sim, o que dizemos às pessoas, para nos mantermos em funções, mas mais tarde ou mais cedo o mundo vai perceber.

Não é preciso uma educação universitária para conseguir um emprego ou avançar para o próximo grau de liderança numa empresa. Devia querer uma educação nas artes liberais porque ela expande a mente e a alma. Se o ajudar a ganhar dinheiro também, então força!

Só não se esqueça de doar um bocadinho desse dinheiros aos seus pobres e esforçados professores, na universidade onde tirou o curso, está bem?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Brotéria estreia nova casa

Foto: Madalena Meneses
Lembra-se daquele caso do padre acusado de abusos em Cacilhas? Foi tudo arquivado. Uma boa lição para nos lembrarmos como é fácil pôr em causa a reputação de alguém. A tolerância zero é importante, mas tem os seus perigos.

Foi hoje inaugurada oficialmente o centro cultural “Brotéria”, no Bairro Alto, em Lisboa. Uma nova fase na vida para uma revista que já tem um longo percurso em Portugal.

Há duas semanas publiquei um artigo no The Catholic Thing sobre o regresso do antissemitismo. É uma realidade que infelizmente está a afetar também alguns setores da Igreja Católica. Por isso esta semana voltamos à carga, desta vez com Casey Chalk a explicar porque é que o antissemitismo equivale a declarar guerra a Deus.

Francisco Sarsfield Cabral também escreveu sobre o tema, citando até o artigo de há duas semanas.

Para minha grande surpresa o artigo que publiquei sobre levar crianças a funerais, em reação a um podcast que ouvi com o Eduardo Sá, tornou-se viral e tem motivado umas respostas muito emocionantes. Se ainda não leu, pode fazê-lo aqui.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Apenas Huma entre muitas

O Papa Francisco mandou uma mensagem para o Fórum Económico Mundial, que decorre em Davos, em que alerta para os perigos de não se colocar o homem no centro das políticas económicas. Vale a pena ler.

Esperança no Paquistão, onde pela primeira vez parece que um tribunal está de facto a fazer alguma coisa num caso de uma rapariga cristã raptada e forçada a converter-se ao Islão. Leiam e vejam o apelo dos seus pais. Rezem, pelo menos, pela Huma Younus.

O Papa Francisco reforçou a condenação ao antissemitismo nos 75 anos da libertação de Auschwitz. Este é um fenómeno que está de regresso e não é só entre a extrema-direita e a esquerda progressista. São cada vez mais católicos a abraçar teorias destas e não pode acontecer, como explicou Francis X. Maier no artigo de há umas semanas do The Catholic Thing.

Quem me segue há mais anos sabe que tenho opiniões fortes sobre a presença de crianças nos funerais a forma como lhes falamos da morte. Hoje ouvi um podcast que alertava para não levar as crianças aos enterros. É uma opinião que considero lamentável e por isso respondi aqui.

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Mulheres sub-secretárias e cultura inexistente

O Papa nomeou uma mulher sub-secretária de Estado do Vaticano. É a primeira vez que uma mulher, ainda por cima leiga, ocupa um cargo desta importância na Secretaria de Estado (na foto).

2019 foi um “ano de mártires”, segundo a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. A organização Open Doors estima que cerca de 260 milhões de cristãos foram vítimas de perseguição no ano passado.

Temos novo artigo do The Catholic Thing. James Matthew Wilson argumenta que não existe “cultura secular”, não no sentido de dizer que o secularismo não produz cultura, mas no sentido em que toda a manifestação cultural aponta para as natureza e destino do homem.

Também hoje publiquei um novo artigo sobre coisas a ter debaixo de olho em 2020. Desta vez olho para a Síria, onde podemos muito bem ver o final da guerra civil que se arrasta há quase nove anos.

Para estar atento em 2020 - Fim da guerra na Síria

Uma das maiores tragédias da última década tem sido a guerra civil na Síria, uma realidade que apenas é agravada pelo facto de, ao que tudo indica, a guerra ter servido para absolutamente nada, para além de enriquecer os traficantes de armas e dar à Rússia ainda mais influência na região. Este ano, acredito, a guerra pode finalmente chegar ao fim.

Quando os protestos da “Primavera Árabe” varreram o Médio Oriente em 2011 assistimos a tudo com um misto de apreensão e esperança. A queda do regime na Tunísia e no Egipto foram boas notícias, embora só o primeiro caso, onde o movimento começou, tenha comprovado ter pernas para andar. No Egipto a democracia levou à vitória da Irmandade Islâmica, uma péssima notícia, sobretudo para a grande comunidade cristã.

Mas quando começaram protestos na Síria eu, pelo menos, não reagi com esperança alguma, só com medo. A Síria era uma realidade muito instável. Um regime férreo, mas secular, onde não existia liberdade mas pelo menos as minorias religiosas estavam a salvo de perseguição e se vivia em paz e segurança. Dominado pela minoria xiita (alauita) o Governo tinha todo o interesse em manter os grupos sunitas fundamentalistas à distância. Não o regime ideal mas, tendo em conta o contexto regional, do melhorzinho que se podia arranjar.

Mal os protestos – e a resposta do Governo – se tornaram violentos temi o pior e o medo só se agravou com o entusiasmado apoio que os países ocidentais começaram a dar a uma oposição que muito previsivelmente se deixou dominar por grupos jihadistas.

Seguiram-se nove anos de terror, com o expoente máximo no Estado Islâmico, até que a Rússia entrou em cena para dar ao regime o apoio necessário para finalmente começar a recuperar o país, cidade a cidade, quilómetro a quilómetro. Os russos bem podem agradecer a Barack Obama por esse brinde que lhes deu ao ameaçar invadir 

No seu auge havia quatro grandes fações na guerra. O regime, que contava com o apoio das minorias religiosas e de muitos sunitas também, sobretudo nos grandes centros urbanos; o Estado Islâmico, uma força niilista que espalhou sofrimento e morte por todo o lado e conseguiu avanços impressionantes em pouco tempo, lançando o terror nas almas das suas vítimas; a dita oposição “moderada”, que de moderada só tem o facto de não ser tão niilista como o Estado Islâmico, porque era igualmente dada a decapitações e ao fundamentalismo islâmico e, no nordeste do país, a região autónoma constituída por curdos, árabes, cristãos siríacos/assírios e outras minorias étnicas e religiosas.

Este último grupo era particularmente interessante. Com um projeto verdadeiramente democrático, que apostava em realçar, proteger e preservar as identidades de cada grupo, promovendo a colaboração, ao contrário do que faz o Governo que tenta impor uma identidade comum. Esta região conseguiu obter o apoio do ocidente na sua luta contra o Estado Islâmico, tendo sido as suas Forças Democráticas da Síria as principais responsáveis por derrotar militarmente o grupo terrorista. Infelizmente, e depois de tudo isto, foram traídos pela decisão de Donald Trump de retirar e viram-se invadidos pela Turquia. Para evitar um genocídio fizeram um acordo com o regime e, assim, o projecto democrático parece agora uma utopia.

Entretanto o regime foi chegando a acordo com os diferentes grupos de rebeldes que, vendo-se em situações impossíveis, optavam por ser retiradas das suas zonas e enviadas para a região de Idlib, junto da fronteira com a Turquia, que sempre as protegeu e apoiou. Até que aos rebeldes já só restava mesmo a região de Idlib.

O último ano tem visto o regime sírio, sempre com o apoio da Rússia, a avançar lentamente sobre Idlib. De vez em quando são anunciados cessar-fogo, mas duram sempre pouco tempo e os militares do regime retomam a sua rotina de bombardeamento.

A situação em Idlib torna-se insustentável. O regime não tem qualquer motivação para negociar, nada a ganhar em adiar a conquista final e sabe que enquanto Moscovo permanecer com ele tem as costas quentes.

Já recomeçaram as ondas de refugiados de Idlib para a Turquia, que com o apoio que tem dado aos rebeldes só tem que se culpar a si mesma pela situação. Quando Idlib for recuperada pelo regime o país pode começar a ser reconstruído. Goste-se ou não de Assad, parece evidente que este é o melhor caminho para o futuro da Síria.

Na melhor das hipóteses, reestabelecida a paz, poderá haver algumas cedências por parte do regime, nomeadamente para os grupos étnicos e religiosos minoritários, especialmente no nordeste, mas até isso parece difícil agora que perderam os seus maiores aliados.

Milhares de mortes, cidades inteiras destruídas, relações entre comunidades envenenadas, uma geração perdida, tudo por nada. É essa a realidade da Síria. Que venha rapidamente a paz para pôr fim a esta loucura.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Não Existe Cultura Secular

James Matthew Wilson
O Simon During formulou um argumento deprimente, mas convincente, sobre a relação entre religião e cultura na revista “The Chronicle of Higher Education”, uma referência no meio académico actual. Diz ele que a secularização do Ocidente moderno não implicou o abandono da religião, mas a sua redução a uma dimensão opcional da vida humana (uma ideia retirada do importante livro “A Secular Age”, de Charles Taylor). A despromoção da religião levou à promoção da cultura. A cultura, nos tempos modernos, tornou-se um novo termo-divino que dá coerência à civilização e à sociedade – uma espécie de substituto imanente para a transcendência da fé cristã. Como defendia Matthew Arnold, a cultura salvar-nos-á da anarquia.

Mas essa substituição está agora a ser desfeita, argumenta During, por uma segunda secularização. Tal como a autoridade da Igreja sofreu uma erosão por causa de vários eventos que convergiram numa ordem política secular, agora uma série de eventos, desde o neoliberalismo até ao feminismo e à política identitária, levou à rejeição dos cânones da cultura.

Já não é necessário ter uma certa apreciação pela Paixão de São Mateus, de Bach, ou da Eneida, de Virgílio, para se ser considerado um ser humano minimamente civilizado. Pelo contrário, esse tipo de conhecimento pode ser prejudicial. Mais vale passar o tempo a estudar análise de risco ou cibersegurança, dizem-nos os tecnocratas neoliberais. Ou então crítica pós-colonial de Virgílio ou, melhor ainda, deixar esse cadáver para trás em troca pelo estilo lírico de uma representante de povos não-ocidentais, ou um defensor da “pedagogia dos oprimidos”.  

Esta versão da história proposta por During pode não seguir as leis férreas da história, mas tem a sua própria dinâmica que é difícil de contrapor, ainda que não sejamos fãs. Mas eu gostaria de olhar apenas para a ligação que ele faz entre as secularizações religiosa e cultural e levantar algumas questões sobre a própria ideia de a cultura ser um “substituto” da religião. Na minha opinião as grandes obras culturais são antes expressões fortes da verdade do Cristianismo.

Não é por acaso que autores do início do Século XX, como Henri Massis, Charles Péguy, T.S. Elliot e Christopher Dawson tendiam a alternar entre a defesa do Cristianismo e da cultura, usando o termo nebuloso “Ocidente”. Eles compreendiam, e bem, que o Cristianismo transcende todas as realidades históricas, incluindo a cultura ocidental, e sabiam também que seria difícil, se não impossível, ter uma sem o outro.

Viam-no porque é, de uma forma muito particular, verdade. Devemos aos melhores filósofos pagãos as descrições mais convincentes e bem articuladas sobre o que significa ser humano. Os seres humanos são criaturas cuja alma aspira, por natureza, ao conhecimento da verdade por si só; criaturas que não desejam apenas a verdade, mas precisam de a contemplar. Assim nos sentimos preenchidos, felizes, e as nossas vidas transformam-se da vã perseguição da glória mundana para o descanso na eterna glória de tudo o que é, do próprio Ser.

Esta foi uma conquista cultural difícil, mas mais importantemente, foi uma conquista religiosa. A revelação de Deus a Israel e o envio do seu Filho ao mundo para proclamar a Boa Nova conduziu o mundo à plenitude predestinada da sua compreensão. A contemplação da verdade preenche-nos porque a Verdade é uma pessoa que nos criou para o conhecermos e amarmos. Encontrá-lo e viver nele não é apenas uma boa nova, é a única nova que permanece sempre boa.

A era moderna descrita por During e Taylor como sendo secular nunca abandonou verdadeiramente estas visões, embora as tenha truncado e despido dos seus verdadeiros sentidos. Reconhecia que existia algo distintivo e misterioso sobre as pessoas: Somos feitos para a transcendência. A era moderna simplesmente parou de especificar de que tipo de transcendência estava a falar e, pelo caminho, ofuscou a sua própria visão.

Sim, temos almas, dizem os modernos: elevamo-nos acima das nossas existências materiais, pelo menos de tempos a tempos, num ato de autoconsciência. As obras da alta cultura são tudo o que parecem ser – desde a filosofia de Kant às pinturas de Friedrich, à opera de Wagner ou à poesia de Rilke. Recordam à alma esquecida que é capaz de subir acima das leis mecânicas da natureza, ainda que apenas por instantes.

Enfim, a cultura moderna também pôde afirmar esta elevação, este êxtase, mas só como um tipo de patologia. Temos momentos de iluminação e depois afundamo-nos novamente na carne. “Tangendo-me de ti [espírito eterno] de volta à solidão”, como escreveu Keats. Eventualmente as pessoas compreenderam o esquema. Para quê preocupar-se com uma transcendência sem sentido? Parece demasiado etérea quando comparada com a transcendência mais funcional do dinheiro, através do qual asseguramos para nós mesmos uma imortalidade em miniatura. Já a elevação cultural parece uma indulgência narcisista quando comparada com a transcendência de perseguir bens políticos que poderão permanecer para além de nós.

Uma secularização sucede necessariamente à outra. A fundação da cultura, como disse frequentemente Joseph Pieper, é o cultus – o culto. Sem um claro sentido da nossa orientação para a contemplação de Deus, todas as obras do homem que parecem verdadeiras, boas, e belas começam a parecer primeiro meras distrações e finalmente ilusões.

Em “A Pessoa e o Bem Comum” Jacques Maritain argumenta que o ser humano é uma criatura ordenada para a comunhão imediata com Deus, mas que a personalidade revela ainda uma tendência para a comunhão com outros seres. O tesouro da cultura, como ele lhe chama, é simplesmente a irradiação da verdade e da beleza produzidos pela nossa tendência natural para nos unirmos a Deus e aos outros enquanto pessoas.

Se a Verdade não fosse uma pessoa com quem nos encontramos, não haveria uma experiência primordial da qual a cultura é uma espécie de fruto, nenhuma orientação para o sagrado, nenhuma expressão de nós mesmos na ordem “secular”. Mas pelo contrário, todos os nossos encontros com a obras culturais são pistas, reflexões, ecos sobre a natureza e o destino do homem. Escutem-nos.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Escreves tu ou escrevo eu?

Mártires de Marrocos
O que nos vale é que a Igreja Católica nunca se cansa de polémicas! A última tem a ver com um livro alegadamente escrito a meias entre o cardeal Sarah e o Papa emérito Bento XVI. Primeiro causou algum desconforto, depois veio-se a perceber que afinal Bento XVI não queria o seu nome associado à obra e agora temos a editora americana a insistir que não retira o nome do antigo Papa da capa do livro.

A minha opinião sobre isto? É triste, feio e absolutamente evitável. Isso e mais algumas coisas no meu artigo sobre o assunto, no blogue, em que revelo também um detalhe que tem passado despercebido no meio da novela toda.

Num assunto actual, mas que não tem uma vertente religiosa direta, escrevi também umas curtas notas sobre o aproveitamento político que se está a fazer, tristemente, a propósito da morte do jovem cabo-verdiano Giovani, em Bragança. Morte essa que foi lamentada pelo bispo de Bragança, D. José Cordeiro.

Fiquem também a saber que a Igreja Portuguesa vai transformar as directrizes para a proteção dos menores em normas.

Continua o calvário dos cristãos na Nigéria, agora foram raptados quatro seminaristas.

E termino com a chamada de atenção para o jubileu que se vive em Coimbra desde ontem, alusivo aos 800 anos dos mártires de Marrocos. Conheça a influência que tiveram sobre Santo António.

Uma trapalhada triste, feia e a roçar o absurdo

Recebi alguns pedidos para comentar esta polémica sobre o livro do Cardeal Sarah sobre o celibato. A primeira coisa que me vem à cabeça é dizer que tudo isto é uma grande trapalhada e tudo é muito triste e feio. Era evitável e começa a ganhar contornos absurdos, com as notícias mais recentes de que apesar do pedido expresso feito por Bento XVI, através do seu secretário pessoal, e reiterados pelo cardeal Sarah, a editora em língua inglesa recusou e vai mesmo atribuir o livro aos dois.

Há aqui algo que está mal contado. O Cardeal Sarah insiste que recebeu luz verde do Papa emérito para avançar com a obra, que estava sempre entendido que seria um livro assinado pelos dois, incluindo a introdução e a conclusão, e que Bento XVI viu e aprovou a capa. O arcebispo Ganswein rejeita essa versão dos factos e, embora diga que não põe em causa a boa fé de Sarah, esclarece que o Papa não quer o seu nome associado à obra enquanto autor, que não autorizou a capa e que não ajudou a escrever a introdução e a conclusão.

Mas há aqui um detalhe que está a passar despercebido… A que capa é que o cardeal Sarah se refere? Que capa é que Bento XVI viu (se é que viu alguma) e aprovou? É que o livro sai amanhã em duas versões diferentes: a francesa, original e a tradução inglesa. A versão francesa tem apenas o nome dos dois na capa e o título e a editora já disse que vai deixar claro que Bento XVI contribuiu para a obra, e não que é coautor.

Já a edição da Ignatius Press, que insiste em manter a coautoria, tem um subtítulo que diz: “Sacerdócio, celibato e a crise da Igreja Católica”. É o mesmo livro, mas estas capas são muito diferentes. A versão inglesa dá a entender que existe uma crise na Igreja de que Francisco é Papa e deixa subentendido que Bento XVI está a tomar um partido nessa crise. Julgo que terá sido daí que veio grande parte do desconforto.

Mas é possível ir mais atrás, à decisão do próprio cardeal Sarah de escrever este livro e publicá-lo precisamente numa altura em que o Papa Francisco se prepara para publicar uma exortação pós-sinodal sobre a Amazónia e em que a questão da ordenação sacerdotal de homens casados está em cima da mesa.

Não saberia o cardeal Sarah que a publicação deste livro seria incómoda para a igreja e para o Papa Francisco? Claro que sabia. E a prova de que sabia é que no comunicado que publicou hoje, defendendo a sua versão dos factos, diz mesmo que convidou Bento XVI a participar na obra nos seguintes termos. “Imagino que pense que as suas reflexões poderiam não ser oportunas por causa das polémicas que causarão na imprensa”.

Ou seja, ele sabia já de antemão que a publicação deste livro, nesta altura, causaria polémica, ainda mais se viesse com o nome de Bento XVI. Então porque é que avançou com o projecto? Porque é que insistiu em colocar Francisco e Bento XVI nesta posição?

Poderão dizer que o fez porque sentia que não tinha outra hipótese que não falar. Tudo bem, mas então que deixe de insistir em dizer que a sua obediência filial ao Papa Francisco é absoluta, como teima em fazer. Não se mostra obediência filial absoluta colocando a pessoa em questão numa situação embaraçosa e pondo em causa a decisão que está prestes a tomar, seja ela qual for.

Já pensaram? Imagine-se que Francisco estava a preparar-se para rejeitar a ideia de ordenar homens casados ao sacerdócio na Amazónia? Como é que o pode fazer agora sem parecer que está a ceder a pressões?

Eu não tenho a menor dúvida de que o cardeal Sarah é um homem bom e espiritualmente profundo, os seus escritos assim o indicam. Mas começo a ter grandes dúvidas sobre o seu bom-senso. É aflitivo como se tem deixado manipular, no passado, por fações que lutam contra o magistério do Papa Francisco e é aflitiva a ingenuidade com que se comportou neste caso, com a agravante de envolver na polémica o grande Papa Bento XVI.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A patética exploração - de parte a parte - da morte do Giovani

Está a tornar-se patético ver o aproveitamento político, de parte a parte, que se está a tentar fazer da morte do jovem cabo-verdiano Luís Giovani.

Por um lado os que vêem racismo em todo o lado, por outro os que reagem na defensiva, querendo usar o assunto para bater na esquerda. E se nos limitássemos a respeitar a morte do rapaz, lamentando-a, sem correr para tirar conclusões precipitadas?

Por enquanto, a acusação de racismo não tem qualquer base. Não se percebe, por isso, porque é que se correu a fazer manifestações nesse tom e se falou disso nas redes sociais com tanta veemência. Quem ganha com isso?

Dizem que o atraso na detenção de suspeitos é prova de racismo. Não é.

Nestes casos chocantes toda a gente quer que apareçam culpados, e rapidamente. Mas esse é precisamente o ambiente em que surgem erros na investigação, porque a pressa é inimiga da perfeição, e depois ou se prendem inocentes ou se libertam culpados. O facto de a polícia estar a demorar a fazer detenções pode ser, aliás, um sinal de profissionalismo. A confirmar-se que os agressores eram da comunidade cigana – e tanto quanto sei isso não é ainda certo – é possível que estejam a ser protegidos ou que estejam em fuga. Ninguém ganha nada em tentar acelerar o processo.

O atraso pode ser racismo na mesma? Poder pode… Se de facto alguém na Judiciária de Bragança pensou “que se lixe, foi só um preto que morreu”, então é evidente que se trata de racismo. Eu já critiquei muitas vezes a polícia, tanto em público como em privado, mas apesar de estar longe de Bragança não acredito por um segundo que seja esse o caso e que os homicidas e agressores do Giovani estejam ainda em liberdade por existir racismo entre as autoridades locais, o que não é o mesmo que dizer que não existem polícias racistas, em Bragança ou noutro lado qualquer.

Por outro lado, temos ouvido muitas pessoas dizer que afinal não é possível ter-se tratado de racismo porque os alegados agressores eram ciganos. Porquê? Os ciganos não podem ter agido com motivações racistas? Lá porque são uma minoria, muitas vezes vítimas de discriminação, são magicamente isentos de ter pensamentos e acções discriminatórias também? Que estupidez.

Mais uma vez, porém, só vamos saber ao certo quando a investigação acabar. E que tal deixarmos a investigação acabar antes de começar a acusar tudo e todos e de tentar ganhar pontos? E que tal respeitar e honrar a memória do Giovani, em vez de o transformar num símbolo que só serve os nossos interesses?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

E o ano ainda agora começou...

O assunto do momento é o Irão. Este é um conflito que vai muito para além da religião, mas que também não se compreende sem a sua dimensão religiosa. Convido-vos a ler este artigo explicador que escrevi para a Renascença logo no dia depois do assassinato de Qassem Soleimani e aqui podem encontrar uma cronologia para perceber o que nos trouxe até aqui.

Lembram-se do rapaz católico que foi crucificado pelo mundo por supostamente ter gozado com um ancião nativo-americano depois da Marcha Pela Vida em Washington, o ano passado? Soube-se entretanto que a história estava muito mal contada e hoje recebeu uma indemnização da CNN.

2019 foi um ano recorde para a hostilidade anticristã no mundo, diz a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Aqui trazemos-lhe o que esperar da agenda do Papa em 2020 e convido-vos ainda a ler o meu segundo artigo sobre coisas a ter debaixo de olho neste novo ano: Hoje foco o caso do Cardeal Pell, que vai conhecer o desfecho final.

Há cerca de um mês no grupo do Facebook, um lefebvriano comentou a notícia da morte de um rabino com a frase: “Mais um fariseu no inferno”. É por essas e por outras que me deu o maior gosto traduzir o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a importância do legado do cardeal Lustiger, que escreveu sobre si mesmo: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Para estar atento em 2020 - Cardeal Pell

Manifestantes certos da culpa de Pell.
O caso pode não ser tão simples
Um dos momentos que se aguarda com maior expectativa neste próximo ano é a decisão do recurso ao Supremo Tribunal australiano do cardeal George Pell.

Todo o caso do cardeal Pell é muito estranho.

Contestado por muitos na Austrália pelo seu jeito franco e sem cerimónias, e elogiado por muitos outros pela mesma razão, ele é ainda uma das principais figuras do Catolicismo conservador naquele país.

Há vários anos foi acusado de ter abusado sexualmente de alguns jovens. Ao contrário de outros casos de suspeita de abusos, porém, as acusações contra Pell nunca pareceram muito convincentes. A crença na sua inocência não era uma reação irracional de católicos fervorosos incapazes de ver os pecados da Igreja, pois muitas das pessoas que o defendem estão na linha da frente nas críticas a outros clérigos acusados de abusos. Simplesmente as acusações nunca pareceram coerentes nem sólidas.

Mais, pareciam nalguns casos impossíveis e era fácil perceber que enquanto figura polémica e um dos principais clérigos da Austrália, era um alvo fácil de calúnias.

Por exemplo, uma das acusações era de que, enquanto padre, brincava com rapazes numa piscina local e, quando os metia aos ombros para os atirar à água aproveitava para inserir as mãos nos seus fatos de banho e apalpar-lhes os órgãos genitais.

Eu tenho filhos e tenho sobrinhos. A ideia de que seja possível ter uma criança aos ombros, lançá-la ao ar e, no meio de tudo isso, ainda aproveitar para meter a mão onde não é chamada, tudo isto numa piscina pública cheia de gente, é mais do que absurda.

O que finalmente levou Pell a ir a tribunal, contudo, foi outra acusação. Aqui ele era acusado de ter abusado de dois rapazes na sacristia da catedral, depois de uma missa. A acusação implicava que o cardeal teria abusado dos dois rapazes com a porta da sacristia aberta, numa altura em que passam dezenas de pessoas. Tudo isto apesar de o seu assistente ter garantido que nessas celebrações o arcebispo estava sempre acompanhado. Tudo isto apesar de um dos rapazes alegadamente abusados ter garantido à sua mãe, antes de morrer, que nada daquilo aconteceu.

Incrivelmente, Pell foi condenado. Não sou só eu que acho incrível. Este pivot da Sky News demonstra, claramente, que o episódio descrito pela vítima era absolutamente impossível de ter acontecido da forma como descreveu.



Um primeiro julgamento acabou com o júri dividido. O segundo terminou com uma condenação. No recurso dois dos juízes mantiveram a decisão, o terceiro, o único com experiência em processos criminais, disse que o relato era no mínimo inverosímil.

Temos de ter em conta que este processo não aconteceu num vazio. Aconteceu precisamente na altura em que o escândalo dos abusos sexuais na Austrália estava no seu auge e a opinião pública condicionada por isso. De tal forma que pelo menos dois estados já passaram leis que supostamente obrigam os padres a violar o segredo de confissão no caso de abusos sexuais.

É neste contexto que Pell é condenado e é por isso que toda esta história cheira a esturro.

O último recurso de Pell deve ser anunciado brevemente e será, quase sem dúvida, uma das principais histórias sobre a crise de abusos em 2020. Veremos o que acontece.


A Salvação vem dos Judeus

Francis X. Maier
Num artigo de opinião no “Wall Street Journal” de final de Novembro, William Galston escreveu que tem havido um aumento acentuado de antissemitismo na Europa Central e de Leste, desde 2015. Na Polónia, Ucrânia, Rússia e Hungria, onde em tempos viveu a maior parte dos judeus europeus, um grande número de pessoas sondadas revelou acreditar que os judeus têm demasiado poder no mundo dos negócios e dos mercados financeiros, que falam demasiado da Shoah [Holocausto] e exercem demasiado controlo sobre os assuntos globais.

O Holocausto é a maior catástrofe moral do Ocidente moderno. Mas é com demasiada facilidade que nos esquecemos das suas lições. “A criação do Estado de Israel” em 1948, escreve Galston, serviu de desculpa para a renovação da “antiga acusação de deslealdade judaica”. Hoje, novamente, as acusações de deslealdade são “uma presença constante da vida judaica” – e não apenas na Europa. Globalmente, 38% dos inquiridos por uma sondagem da Anti-Defamation League acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que à nação onde vivem.

Na Europa Ocidental o crescimento de comunidades muçulmanas e o aumento da sua influência política agravaram o problema. A violência contra os judeus em França aumentou mais de 20% em anos recentes e o rabino-mor da Grã-Bretanha criticou publicamente o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, pelo aumento do antissemitismo nas fileiras do seu partido, meros dias antes das mais recentes eleições. O ódio aos judeus não é um monopólio da direita populista na Europa. A esquerda progressista tem a sua própria variedade tóxica do mesmo veneno. 

No que diz respeito aos Estados Unidos, os americanos geralmente revelam baixos índices de antissemitismo. Mas mesmo por cá, 33% dos sondados acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que ao país de que são cidadãos. E crimes de ódio, como o esfaqueamento de vários judeus que celebravam o Hannukah em Monsey, Nova Iorque, estão a tornar-se mais comuns.

O anti-judaísmo tem uma longa história na cultura cristã. Começa com as discussões iniciais na comunidade judaica sobre a identidade messiânica de Jesus e a teologia cristã que lhe sucede e procura substituir nos séculos seguintes. Mas foi o próprio Cristo – obviamente um judeu – que disse que “a salvação vem dos Judeus” (Jo. 4, 19-22) e o Cristianismo simplesmente não faz qualquer sentido sem as suas raízes judaicas. 

O Concílio Vaticano II procurou reformar e restaurar as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica através de documentos como Nostra Aetate (“No Nosso Tempo”). E enquanto declaração da Igreja tratou-se de um ponto fulcral no diálogo entre cristãos e judeus, mantendo-se tão importante hoje como era em 1965, quando foi publicada. Mas palavras belas e boas ideias não têm força antes de tomarem forma numa vida que prova, pelos actos, que são verdadeiras. E desse ponto de vista, nada encarnou a recuperação das raízes judaicas do cristianismo de forma tão forte como a vida e a obra de Aaron Jean-Marie Lustiger.

Lustiger com o Papa João Paulo II
Lustiger nasceu em 1926 numa família de imigrantes judaicos da Polónia. O seu avô era rabino e os seus pais tinham uma chapelaria em Paris. Na sua vida familiar eram em larga medida seculares, mas ainda assim tiveram o cuidado de manter o Aaron afastado das celebrações e observâncias católicas em França. Contudo, aos 10 anos o rapaz encontrou um exemplar do Novo Testamento e leu-o em segredo, convertendo-se, contra a vontade dos seus chocados pais, aos 14 anos de idade.

Nunca abandonou o seu nome judaico. Acrescentou-lhe o nome cristão Jean-Marie no baptismo, mas nunca perdeu um intenso orgulho pela sua identidade judaica. Sobreviveu à II Guerra Mundial, escondido por uma família católica francesa. A sua mãe morreu em Auschwitz em 1942 e outros membros da sua família alargada perderam-se na Shoah. Mais tarde foi ordenado padre, serviu como capelão em universidades parisienses e eventualmente foi nomeado bispo de Orleans, vindo a tornar-se mais tarde cardeal arcebispo de Paris.

Lustiger tinha um forte intelecto – foi eleito para a Academia Francesa em 1995 –, uma energia inesgotável e um gosto excêntrico para as artes. Foi autor de uma quantidade prodigiosa de livros e conferências e tinha uma personalidade maior que a vida. Estar e falar com ele, como eu fiz em várias ocasiões, era uma experiência inesquecível, como entrevistar uma locomotiva deambulante.

Para ele eram especialmente importantes as oportunidades que teve, cada vez mais ao longo dos anos, de encontrar-se com líderes, ouvintes e estudantes judaicos. Nem sempre era fácil. Os judeus tendem a ver os convertidos ao cristianismo como apóstatas e repudiadores da comunidade. Lustiger respeitava este sentimento mas não deixou que o impedisse de procurar amizades e parceiros de diálogo na comunidade judaica. Mais para o fim da sua vida escreveu o seu próprio epitáfio, resumindo-se da seguinte maneira: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Recordo Lustiger, que morreu em 2007, aos 80 anos, por esta simples razão: Ele compreendia que para os cristãos o antissemitismo/anti-judaísmo não é apenas um mal, mas uma forma particularmente grotesca de blasfémia e ódio por si mesmo; um ódio pelas nossas origens e raízes no Deus de Israel. Qualquer católico que procure aprofundar a sua fé e aprender a importância do judaísmo para os cristãos através das palavras deste cristão profundamente judeu e judeu profundamente cristão tem apenas que ler os seus livros “Choosing God, Chosen by God” e “A Promessa”. 

Como o próprio Lustiger não se cansava de dizer:

Uma das tragédias da civilização cristã é que se tornou ateia mas afirma permanecer cristã… A sorte reservada aos judeus é uma prova para saber se nós, enquanto pagãos cristianizados, aceitámos verdadeiramente Cristo. É verdadeiramente a prova final. Não se trata simplesmente de uma relação entre o amor pelo vizinho e o amor a Deus. O judeu permanece, de forma muito precisa, um sinal de Eleição e, por isso, de Cristo. Não reconhecer a Eleição dos judeus é não reconhecer a Eleição de Cristo. E é a incapacidade de reconhecer a nossa própria eleição. A lógica é implacável.

A única resposta apropriada é: Amen.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 8 de janeiro de 2020)

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Religião - onde realidade e ficção são por vezes difíceis de distinguir

Como prometi no último, a partir deste ano estes mails servirão mais para partilhar textos de opinião e análise do que apanhados de notícias. É precisamente com esse objetivo que vos escrevo hoje, na esperança de que tenham tido um Santo Natal e uma excelente entrada em 2020.

Ao longo dos próximos dias vou tentar publicar uma série de curtos textos sobre coisas a que devemos estar atentos em 2020. Hoje começo com os Estados Unidos, onde teremos a possível reeleição de Donald Trump e como isso poderá afetar o Supremo Tribunal, cuja importância é muitas vezes subestimada por quem não vive naquele país.

Tenho também para partilhar convosco o artigo do The Catholic Thing em português, em que Stephen P. White analisa a forma como está a mudar a nossa visão dos bispos e o seu papel e convida os leigos a assumir as suas responsabilidades para que a Igreja se renove verdadeiramente.

Noutras notícias, destaque para o número de missionários assassinados em 2019, que inclui a “nossa” irmã Antónia e também para este explicador sobre o filme “Os Dois Papas” – onde acaba a realidade e começa a ficção? Devo dizer que tenho acompanhado com interesse o debate em torno do filme, mas como ainda não tive oportunidade de o ver, não escrevi nada sobre ele.

Por fim, este texto ajuda a compreender o conflito em Montenegro que envolve a Igreja Ortodoxa e aqui podem ler sobre o pedido de desculpas do Papa Francisco por ter feito a uma peregrina aquilo que eu faço aos meus filhos quando me puxam a mão, várias vezes por dia…

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