quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Caminhando com D. Francisco, rezando por Antónia Guerra

RIP Antónia Guerra
O Papa Francisco apelou esta quinta-feira a um “pacto educativo” e convocou um encontro para Roma em 2020 com esse objetivo, aberto a todos os que estão envolvidos nesta área.

O Papa reza pelo diálogo e insiste que “o caminho do cisma não é cristão”.

Surgiu esta semana uma notícia trágica sobre a morte de uma freira, brutalmente assassinada em condições terríveis. A Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal condenou o assassinato.


Conheça aqui o livro “Caminhando com D. António Francisco dos Santos”, do meu querido amigo Bernardo Corrêa d’Almeida. Por falar no saudoso bispo, o prémio com o seu nome foi entregue à APAV.

Estamos em tempo de campanha e, se repararem, nenhum dos partidos parece muito interessado em falar de eutanásia, um assunto que depois de anunciados os resultados será certamente apresentado como “fundamental” e “civilizacional” pelos do costume. Nada como ir vendo como é que a lei funciona na prática, nos países onde é legal,como faz este artigo do The Catholic Thing. Leiam e partilhem.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Suicídio Assistido: Uma História de Duas Narrativas

Richard Doerflinger
Apresento-vos uma narrativa recentemente promovida a nível nacional, a começar por Seattle, pela Associated Press.

Em Maio um homem chamado Robert Fuller, de 75 anos e doente com cancro, foi sujeito a uma overdose letal de drogas, ao abrigo da lei de “Morte com Dignidade” do Estado de Washington e planeou até ao último detalhe o seu suicídio, com a ajuda de adeptos do suicídio, da organização “End of Life Washington”. Organizou o seu enterro na paróquia católica de St. Therese, que frequentava; teve uma festa de despedida no seu apartamento em Seattle; casou com o seu parceiro de alguns anos e, mais tarde nesse mesmo dia, diante de testemunhas, tomou as drogas e morreu. Tinha convidado um jornalista e um fotógrafo da AP para o acompanhar durante todo o processo porque “queria mostrar às pessoas do país como é que estas leis funcionam”.

Algo parecido (normalmente sem as festividades nem a presença mediática orquestrada) já aconteceu no meu Estado de Washington cerca de 1.200 vezes desde que o suicídio medicamente assistido foi legalizado, em 2008.

A AP acrescenta isto: No domingo antes do seu suicídio de 10 de maio, Fuller foi pela última vez à missa e alegadamente recebeu uma bênção para aquilo que estava prestes a fazer (fotografada pela AP) do padre local, o jesuíta Quentin Dupont, acompanhado de crianças com alvas brancas que faziam a Primeira Comunhão. Em defesa desta narrativa, alguns já apontaram para um post na página do Facebook de Fuller em que ele escreveu: “O meu pastor/padrinho deu-me a sua bênção. E é jesuíta!!!”

A verdade é que Fuller publicou esse post em Março, por isso não poderia estar a referir-se â bênção de Fuller no dia 5 de Maio. O pároco, Pe. Maurice Mamba, não é jesuíta. Poderemos nunca saber quem era esse jesuíta, ou se existe sequer.

Afinal de contas, ao que se soube, o padre Dupont mal conhecia Fuller e não fazia a menor ideia que ele planeava suicidar-se. Descendo o corredor no final da missa foi confrontado por um homem que pedia uma bênção porque estava a morrer. O padre Dupont liderou as crianças numa oração, pedindo força e coragem neste tempo difícil. Viu alguém a tirar uma fotografia, mas não sabia que era um repórter e nunca assinou qualquer documento a autorizar a sua publicação. Parece muito um esquema, pensado por Fuller (ou pelos ativistas que o ajudaram) para colocar a Igreja numa posição embaraçosa e minar o seu testemunho contra o movimento do suicídio assistido.

Quando o padre soube dos planos de Fuller visitou-o e tentou dissuadi-lo – e quando isso não funcionou consultou a diocese para saber se devia aceitar fazer o seu enterro. A decisão foi de avançar e fornecer cuidados pastorais aos enlutados mas com o cuidado de ser claro que isso não constituía uma concordância com a forma como ele pôs fim à vida.

O que é que podemos aprender com isto?

Em primeiro lugar, alguns paroquianos (sobretudo os seus amigos de longa data que cantavam com ele no coro) sabiam dos seus planos e aceitaram-nos, ao ponto de frequentarem aquela festa final. Isso é errado e um grave escândalo. Contudo, alguns católicos têm dificuldade em acreditar que os padres não estavam a par das intenções de Fuller. Como paroquiano da diocese de Seattle, permitam-me discordar.

A falta de padres por estes lados é severa. O meu próprio pároco cuida de quatro paróquias e uma missão e durante boa parte deste ano não teve um vigário. Faz um trabalho magnífico em circunstâncias difíceis, com a ajuda de padres reformados ou que estejam de visita e administradores leigos.

O padre Dupont, que é aluno a tempo inteiro na Universidade de Washington, estava em St. Therese só para celebrar missa, como já tinha feito antes (bem como noutra paróquia, apesar do trabalho académico). O pároco, padre Maurice, cuida de duas paróquias sozinho e naquela manhã estava a celebrar missa na outra igreja, onde reside.
Se não gosta do facto de que os nossos padres mal têm tempo para celebrar os sacramentos, quanto mais conhecer os detalhes de vida dos paroquianos, concordo plenamente. Juntem-se a mim, por favor, a rezar por mais sacerdotes.

Em segundo lugar, alguém poderia ter feito alguma coisa para impedir os planos de Fuller? Não me parece. Aparentemente, durante a maior parte da sua vida mostrou estar “meio apaixonado com a morte fácil”. A AP explica que aos oito anos, quando vivia em New Hampshire, a sua querida avó afogou-se no Rio Merrimack. Com isto aprendeu que “se a vida se tornar dolorosa, vai-se até ao Merrimack”.

Em 1975 tentou suicidar-se depois de ter dito à sua mulher que era homossexual e o seu casamento ter acabado. Mais tarde ajudou a cuidar de amigos com HIV, administrou uma dose letal de drogas a um deles e levou uma vida sexual que “se aproximava do suicida” – aparentemente a tentar contrair a doença porque “todos os meus amigos estavam a morrer”. Ainda antes de ser diagnosticado com cancro fazia parte do Hemlock Society e revelou grande interesse na lei de Washington quando uma mulher no seu prédio o usou para se matar.

Porque é que esta obsessão de longa data pelo suicídio não surgiu durante as suas avaliações psicológicas, ao abrigo da lei de Washington? Porque 96% dos doentes que obtêm as drogas letais nunca chegam a ser avaliadas. Tal como outras “salvaguardas” que a lei prevê contra abusos, esta não passa de uma anedota.

Em terceiro lugar a Associated Press violou todas as orientações da Organização Mundial de Saúde e de organizações para a prevenção de suicídios, que estipulam que não se noticiem casos de suicídio, para evitar que outras pessoas deprimidas e vulneráveis se matem. A reportagem da AP fornece detalhes sobre o método utilizado, apresenta o suicídio como uma solução e romantiza toda a questão (a manchete era “A Festa de uma Vida”). Se mais pessoas se matarem por causa desta publicidade mal disfarçada, então a AP tem sangue nas mãos. 

Em quarto lugar, qual é a posição da Igreja? O Catecismo da Igreja Católica (parágrafos 2280-83) deixa três coisas claras: O suicídio é um mal grave; nestes casos a responsabilidade pessoal podem ser muito mitigadas por fatores como angústia, medo do sofrimento ou distúrbios psicológicos; e a Igreja não desespera da salvação daqueles que põem fim às suas próprias vidas, mas reza por elas, sabendo que Deus pode conduzir as pessoas ao arrependimento em qualquer momento, de formas que só Ele conhece.

Neste caso as ações do clero parecem estar em linha com a máxima de Santo Agostinho de odiar o pecado mas amar o pecador (ou, melhor, odiar o pecado porque se ama o pecador). Essa máxima, alvo de gozo por parte de secularistas, é difícil de cumprir – sobretudo em assuntos de sexualidade ou da vida. Alguns católicos são tentados a errar, odiando o pecado e o pecador em conjunto, e outros acham que têm de amar e aceitar os dois. Quanto a mim, diria que a manutenção dessas distinções – e desse equilíbrio – é central para a nossa fé católica.


Richard Doerflinger trabalhou durante trinta e seis anos como secretário de atividades pró-vida na Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Faz parte do Nicola Center for Ethics and Culture da Universidade de Notre Dame e é professor associado no Charlotte Lozier Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Setembro de 2019)

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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Norwegian Blues

O Papa está de regresso a Roma, depois de uma viagem a África que demonstrou, segundo Aura Miguel, a “genuína alegria dos africanos”, bem como a sua generosidade.


Agora as atenções começam a centrar-se no Sínodo da Amazónia? Vêm aí padres casados? Seja como for a decisão terá de ser tomada “em unidade”, diz um bispo da região.

Os bispos portugueses apelam à “participação ativa” nas eleições de Outubro.

Duas notícias que não sendo estritamente religiosas, estão ligadas. A Noruega foi condenada por desrespeitar os direitos humanos de uma mulher a quem foi retirado o bebé recém-nascido, mais um caso preocupante num país onde os direitos parentais parecem estar fragilizados… E uma notícia muito triste do Irão, onde uma adepta de futebol foi detida por tentar entrar no estádio para ver a sua equipa. Enfrentando uma pena de até seis meses de prisão, imolou-se pelo fogo à porta do tribunal e morreu ontem.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Crise? Qual crise?

O Papa Francisco termina hoje, de facto, a sua viagem a África, embora só regresse a Roma amanhã. Esta segunda-feira foi passada nas Ilhas Maurícias, onde pediu aos habitantes que sejam fiéis ao seu ADN e acolham os migrantes.

Antes, na homilia da missa que celebrou com 100 mil pessoas, disse que a crise de santidade é mais grave que qualquer crise de vocações.

O fim-de-semana foi dedicado ao Madagáscar, onde Francisco agradeceu à persistência do clero mas advertiu também que “a pobreza não é uma fatalidade”. Criticou ainda a “cultura de parentesco” que dá aso à corrupção. Tudo isto num país que tem um bispo português.

Antes, na sexta-feira, despediu-se de Moçambique, avisando que “Nenhum país tem futuro se o que o une é a vingança e o ódio”.

Fiquem ainda a conhecer o projecto LabOratório.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O Papa falou do Rei, e o Povo gostou


Francisco começou o dia com uma visita ao Palácio Presidencial, onde discursou juntamente com Filipe Nyusi e elogiou os moçambicanos por não terem deixado que o ódio tivesse a última palavra.

Depois o Papa foi ter com os jovens e, após uma recepção muito animada, recebeu aplausos estrondosos quando falou no… Eusébio da Silva Ferreira.

De ontem, durante a viagem para África, fica a notícia da boca do Papa aos seus críticos, sobretudo os que vêm da América do Norte. As suas críticas são “uma honra” para ele.

Morreu o cardeal Roger Etchegaray, o homem de confiança do Papa João Paulo II que viajou para o Iraque para tentar, em vão, impedir a invasão americana em 2003.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Papa a caminho dos três M

O Papa chega esta quarta-feira a Moçambique, para uma viagem que inclui passagens pelo Madagáscar e Ilhas Maurícias.

Antes de partir, Francisco rezou especialmente pelas vítimas do furacão Dorian que afectou as Bahamas e caminha para os Estados Unidos.

A visita do Papa terá acompanhamento constante na Renascença, como é evidente!

A Igreja Portuguesa quer formar professores para lidar com questões da ideologia do género.

Hoje no artigo do The Catholic Thing em português trago-vos um texto de leitura difícil, mas necessária, onde Stephen P. White explica como a crise dos abusos sexuais tem afetado desproporcionalmente pessoas das tais periferias da sociedade que o Papa tem no coração. Leiam e partilhem.

Abusos nas Periferias

Stephen P. White
Os abusos sexuais são uma praga, seja onde for, ou quem envolvam. Mas uma das facetas menos exploradas da crise de abusos sexuais praticados por padres nos Estados Unidos é a forma como as comunidades minoritárias e marginalizadas têm sido particularmente susceptíveis tanto aos abusadores como às más-práticas dos bispos e superiores religiosos que lidaram tão mal com os casos de que tiveram conhecimento.

Esta semana a Associated Press publicou uma reportagem sobre uma família alargada em Greenwood, Mississippi que foi devastada por abusos sexuais na Igreja. Três dos rapazes da família, Joshua e Raphael Love e o seu primo La Jarvis Love, alegam que foram abusados por dois frades franciscanos na Escola São Francisco de Assis nos anos 90.

Certos aspetos destes casos de abuso são por demais familiares: a forma como foram recrutados, as ameaças, o silêncio, a ineficácia da resposta tanto das autoridades da Igreja como, pelo menos de início, das autoridades. Mas alguns dos detalhes dos casos da família Greenwood sobressaem.

Em primeiro lugar, os rapazes de Greenwood são afro-americanos e de uma das zonas mais pobres de um dos estados mais pobres. Os seus alegados abusadores eram ambos missionários franciscanos de outros estados, que tinham vindo para Mississippi para trabalhar numa paróquia missionária, para servir as populações mais desfavorecidas.

Em 2006 a diocese católica local – Jackson – chegou a um acordo judicial com dezanove vítimas de abusos, na maioria brancos, por uma média de 250 mil dólares cada. Mas os franciscanos ofereceram apenas 15 mil dólares a cada um dos Love, e apenas na condição de que assinassem um acordo de confidencialidade.

“Eles sentiam que nos podiam tratar assim porque somos pobres e porque somos pretos”, disse Joshua Love. E compreende-se que tenha sido o caso. Sem advogados, dois dos três rapazes Love aceitaram o acordo.

O terceiro Love, Raphael, não aceitou o acordo. Actualmente está preso por um duplo homicídio cometido quando tinha 16 anos. A sua vida teria sido diferente se não tivesse sido abusado? As duas vítimas abatidas a tiro estariam vivas? O trauma de abusos sexuais na infância tende a destruir vidas e é impossível saber o que poderia ter sido. Mas também não podemos deixar de pensar no assunto.

Quanto aos abusadores, o frei Paul West abandonou os franciscanos em 2002, mas ainda em 2010 estava a dar aulas numa escola católica perto de Appleton, Wisconsin e o frei Donald Lucas morreu em 1999, num aparente suicídio.

Mas os rapazes pobres do Delta do Mississippi não são os únicos que têm razões para se sentirem duplamente traídos – primeiro pelos seus abusadores, e depois pela Igreja, por os tratar tão mal.

Os missionários jesuítas que trabalharam com indígenas no Alasca amontoaram um registo assustador de vítimas ao longo de várias décadas. Os números em si não são tão impressionantes como as que se encontram em cidades com grandes populações católicas, mas dada a escassez da população, as décadas de abusos e o número de padres e voluntários jesuítas envolvidos, a imagem geral é terrível.

A Província Jesuíta de Oregon nega ter usado o Alasca como depósito para padres suspeitos de abusos, mas os números não mentem. Note-se neste parágrafo de um artigo do National Catholic Reporter sobre a bancarrota da Província, em 2009.

Joshua Love, uma das vítimas dos franciscanos no Mississippi
“Durante o período em questão, segundo um advogado no Alasca, houve no máximo 29 padres a servir ao mesmo tempo na diocese. Ao longo desses anos pelo menos 20 jesuítas foram credivelmente acusados e houve alturas, disse, em que oito padres acusados estavam a servir em simultâneo.”

Ou então tenha em conta estes números: A vila de Holy Cross, no Alasca, tem uma população de 200 pessoas. Entre 1930 e 1971 houve dezasseis padres, irmãos e voluntários jesuítas que trabalharam na Missão Holy Cross e que foram alvo de pelo menos uma acusação credível de abuso sexual. Dezasseis abusadores numa vila de cerca de 200 pessoas no espaço de 40 anos!

Talvez a faceta menos explorada da crise de abusos nos Estados Unidos seja a forma como afectou os católicos hispânicos. Tem sido referido que a resposta à crise de abusos tem sido bastante diferente – menos estridente – entre católicos de língua espanhola nos Estados Unidos do que nas partes anglófonas na Igreja. As razões destas diferentes reacções deveriam ser escrutinadas, mesmo que uma significativa minoria dos católicos americanos não fossem latinos.

Sejam quais forem as diferenças, ou as razões por detrás, vale a pena referir que os católicos hispânicos têm sido vítimas tanto de padres abusadores como de prelados à procura de um local para os esconder.

A arquidiocese de Chicago removeu um pároco o ano passado depois de ter sido detido por praticar actos sexuais com outro padre no interior de um carro estacionado. Embora essa história tenha sido muito divulgada, o que é menos conhecido é que o pároco em questão não foi o primeiro a ser removido dessa paróquia – uma missão de língua espanhola no que é de resto um subúrbio de classe média, em larga medida branca. O seu antecessor foi detido por pornografia infantil. O que é que uma missão de língua espanhola na terceira maior diocese do país precisa de fazer para ter um pastor que não seja depravado?

Depois há o caso da arquidiocese de Los Angeles, que sob o cardeal Roger Mahony enviou padres abusadores para paróquias de maioria hispânica, com grandes percentagens de imigrantes ilegais. Como devem calcular, paroquianos pobres que estão no país de forma ilegal têm menos tendência para recorrer às autoridades quando o sacerdote se porta mal.

Não é preciso considerar-se um campeão da justiça social para se sentir enojado com estas histórias.

Os abusos sexuais praticados por clero são uma praga, seja onde for e com quem aconteçam. Uma das verdades mais dolorosas de toda esta terrível confusão é que tanto predadores como prelados têm feito questão de concentrar os abusos nas periferias. Aqueles que lá vivem é que têm acarretado com o grosso do problema. O seu sofrimento também clama por justiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Reentré traz novo núncio e mais cardeais

Novo núncio Ivo Scapolo
Volto depois de umas óptimas férias, e não volto de mãos a abanar! Trago-vos um novo núncio apostólico para começar e, como cereja em cima do bolo, um novo cardeal.

A nomeação de D. Tolentino de Mendonça foi saudada por muitos, desde o actual bispo do Funchal ao Presidente da República, e o próprio diz que quando soube só lhe ocorreu a sentença de Jesus: “Procura o último lugar”.


Mas porque há mais nestas nomeações do que apenas a nossa alegria por ver D. Tolentino no Colégio dos Cardeais, aqui fica a minha análise, com destaque para os temas do diálogo inter-religioso e das migrações, que saem fortalecidas.

Deixo-vos ainda com os dois artigos que publiquei do The Catholic Thing nas passadas duas semanas. A primeira trata da Oração e da Ascese, dois assuntos fundamentais para os católicos, e o outro fala de um interessantíssimo projecto que pretende dar a conhecer o pensamento e a obra de São Tomás de Aquino.

Diálogo inter-religioso e migrações: Temas cardeais para o Papa Francisco

Foi com grande alegria que acolhemos a notícia da elevação de D. José Tolentino Mendonça a cardeal. Já era esperado que assim fosse, mas a confirmação é sempre bem-vinda.

Curiosamente, D. José Tolentino será elevado no dia 5 de outubro, o que até lhe fica bem, uma vez que ele é (tragicamente) republicano.

Como é natural, a nomeação de D. Tolentino centrou as atenções dos portugueses, mas seria uma pena não perceber a relevância de muitas das restantes nomeações, que mostram claramente as prioridades deste Papa e deste pontificado.

Começo pelo diálogo inter-religioso. O Papa Francisco não só nomeou cardeal o espanhol Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, como também o seu antecessor Michael Louis Fitzgerald, que chefiou o Conselho entre 2002 e 2006.

A nomeação de Fitzgerald é particularmente interessante. Em 2006 Bento XVI retirou-o do Conselho para o Diálogo Inter-religioso e nomeou-o núncio apostólico para o Egipto. Ora, na altura a decisão causou alguma confusão e não foi possível compreender se se tratava de uma despromoção, ou de uma tentativa de aproveitar as grandes qualidades do arcebispo num país que é crucial para as relações entre o Islão e o Cristianismo.  Pouco tempo depois da sua retirada o Papa fez o seu discurso de Ratisbona, que acabaria por danificar gravemente essas relações.

A decisão de o nomear cardeal agora, que já tem 82 anos, pode ser entendida, assim, como uma espécie de reabilitação, ou um tributo tardio a um homem que dedicou a vida a tentar construir pontes com o Islão, coisa que o Papa valoriza.

Para além destes dois especialistas em diálogo inter-religioso, o Papa Francisco também nomeia cardeais os arcebispos de dois países muito importantes para o mundo islâmico, Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, de Jacarta, Indonésia – o maior país muçulmano em termos demográficos. Trata-se apenas do terceiro cardeal da história da Indonésia, sendo que o primeiro já morreu e o segundo, seu antecessor em Jakarta, tem já 84 anos. O outro novo cardeal que vem do mundo islâmico é o arcebispo de Rabat, em Marrocos, Cristóbal López Romero.

Recorde-se que o mesmo Papa Francisco já nomeou cardeais do Burkina Faso (89% islâmica), da República Centro-Africana, onde os últimos anos têm sido marcados por conflitos entre muçulmanos e cristãos, da Malásia (61% muçulmanos, apenas 9% cristãos), Albânia, Mali (95% muçulmanos), Iraque e Paquistão.

É verdade que com estas nomeações o Papa está a respeitar a sua própria vontade expressa de dar importância às periferias, mas olhando para estas nomeações parece também evidente que está, por um lado, a encorajar e valorizar as comunidades cristãs nestes países, frequentemente vítimas de perseguição, mas também a criar uma rede de conselheiros e actores que podem, agora com maior autoridade, levar a cabo o diálogo com o Islão nestes países.

Pe. Michael Czerny
A outra questão é a valorização do problema dos refugiados. O Papa fez aqui uma nomeação curiosa, o padre canadiano Michael Czerny, que é subsecretário da secção para os refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. O prefeito deste dicastério é Peter Turkson, que já é cardeal, mas o secretário, o padre francês Bruno-Marie Duffé, não é, o que cria uma situação peculiar, mas deixa muito, muito clara a intenção do Papa de sublinhar a importância do trabalho desenvolvido por Czerny.

Repare-se que o jesuíta canadiano não é bispo. Ora isto não é inédito, mas normalmente os padres nomeados cardeais são mais velhos, não-eleitores ou muito perto de o serem, e muitos, sobretudo quando são jesuítas, pedem para não ser ordenados bispos. Não se sabe ainda se Czerny, que entretanto foi também nomeado secretário do sínodo dos bispos sobre a Amazónia, irá pedir esta dispensa, mas se o fizer, e se lhe for concedida, haverá o caso raro de um cardeal eleitor que não é bispo. Por exemplo, nos últimos conclaves não houve um único caso de participante que não fosse bispo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Que Pensamos Importa

Recentemente escrevi sobre os Thomistic Institutes, uma iniciativa da Dominican House of Studies em Washington D.C., que organiza palestras e conferências proferidas por católicos ortodoxos de primeira categoria em quase cinquenta (e cada vez mais) das mais prestigiosas universidades e faculdades da América. E a organização está em expansão. Muitos leitores escreveram-me para expressar a sua apreciação por esta rede tão valiosa, mas também para perguntar o que podem fazer se não houver nada do género na sua zona.

Agora temos uma resposta.

No dia 26 de Agosto foi para o ar o Aquinas 101 – um site criado pelos mesmos dominicanos. Cliquem e preparem-se para uma experiência fascinante. Quando estiver completa, esta série terá oitenta e seis breves palestras, cuidadosamente preparadas e dirigidas a qualquer pessoa com um nível de capacidade e de interesse comum.

Este curso é aberto a todos, e é gratuito!

Estamos a falar de uma introdução bem construída e acessível a um dos maiores de todos os pensadores dominicanos, São Tomás de Aquino, que não só nos coloca em contacto com o homem que mais fez para formar o pensamento católico ao longo dos séculos, mas também nos ajuda a ver como essa enorme obra de pensamento tem grande relevância para algumas das questões nevrálgicas que hoje enfrentamos.

Por exemplo, muitas pessoas hoje, incluindo cristãos e até católicos, caíram em algumas confusões básicas sobre a natureza da Fé e da Razão. Conforme explica uma das primeiras palestras desta série, isto leva, por um lado, ao cepticismo – não podemos saber verdadeiramente nada sobre Deus – mas também, por outro, ao que tem sido apelidado de “fideísmo”, a ideia de que cremos sem saber em quê.

Ambas são reações naturais numa era de pós-verdade, mas um católico curioso não quererá deixar que o seu pensamento se mantenha preso neste lamaçal actual. Há ideias melhores e mais “verdadeiras” sobre a verdade, que Aquino e outros nos podem fornecer.

Talvez já tenham visto a sondagem recente que mostra quão poucas pessoas, até entre católicos praticantes, acreditam na Presença Real de Cristo na Eucaristia. Muitos acham que não passa de um mero símbolo. No final de contas, a Eucaristia é um profundo mistério, mas homens santos e dotados como Aquino recorreram às várias ferramentas da tradição e da razão humana para fornecer abordagens racionais e sérias àquilo que no fundo nos transcende a nós e a toda a Criação.

Recentemente o jesuíta Thomas Reese comentou essa sondagem dizendo que não acredita em termos como “substância”, “acidente”, “matéria” e “forma” que Aquino utilizou para explicar a Eucaristia. Mas sem uma qualquer forma de explicação e descrição sólida, não admira que a Eucaristia pareça simplesmente simbólica e que a crença na mesma se torne “fideísta”.

Muitos rejeitam estes conceitos porque acham que as ciências modernas as desacreditaram. Na verdade a ciência não o fez, nem o pode fazer, precisamente porque os pensadores escolásticos usaram esses termos de forma filosófica. Não pode contradizer a ciência – nem antiga, nem moderna, nem pós-moderna, nem nada que ainda aí venha. Mas seria necessário estudar e perceber como os termos Fé e Razão se relacionam para o compreender.

A principal razão pela qual os jovens de hoje abandonam a verdadeira religião e adoptam a descrição “espiritual e não religioso” é porque acreditam que a ciência tornou a religião tradicional inviável.

Podemos simplesmente cruzar os braços e lamentar que tantos tenham caído nesta falácia simplista. (“Ex-católicos” são o segundo maior grupo religioso na América e os “Nenhuns”, i.e., pessoas que dizem que não têm qualquer forma de filiação religiosa, são provavelmente a categoria religiosa que mais cresce na nossa sociedade.) Ou então podemos decidir fazer alguma coisa sobre o assunto, a começar por nós mesmos.

Estudar São Tomás não é pera doce e o próprio admite, em vários pontos da sua vasta obra, que nem toda a gente tem capacidade para estudar filosofia e teologia. Mas esta série foi montada por pessoas perfeitamente cientes destas dificuldades. Como o próprio site explica: “Não é tão difícil como pensa. Na verdade, quando nos habituamos, o pensamento de Aquino ilumina algumas das questões mais importantes. Perceberá até que ele se tornou seu amigo e guia nos caminhos da sabedoria”.

São Tomás de Aquino
Imagine poder falar de sabedoria nos nossos dias e afirmar que “o que pensamos importa”, tal como a Igreja sempre ensinou.

Católicos e protestantes, por exemplo, diferem sobre muitas coisas. Mas, classicamente, podemos dizer que tudo se resume à fórmula central de Lutero: Sola Scriptura – Só a Escritura é que constitui a fé, por oposição à Tradição e à Escritura, ou à Bíblia e a Igreja, ou à Fé e a Razão.

Neste último departamento tem havido filósofos protestantes sérios, claro, e teólogos protestantes como João Calvino ou Karl Barth, que empreenderam reflexões racionais profundas. Ainda assim não seria um exagero dizer que de todas as formas de Cristianismo, a que cultivou quer a fé quer a razão de forma mais consistente ao longo dos séculos é o Catolicismo.

E entre os Católicos o grupo intelectualmente mais fértil, ao longo de quase mil anos, tem sido a Ordem Dominicana. A lista de santos intelectuais e místicos é longa: O próprio São Domingos, Mateus de Paris, Raimundo de Peñafort, Alberto Magno, Tomás Aquino, Mestre Eckhart, Catarina de Sena, Fra Angelico, Bartolomeu de las Casas, Francisco de Vitória, Cardeal Cajetan, Rosa de Lima, Martim de Porres, Pio V (cujo longo pontificado legou aos Papas o seu traje branco), Louis de Montfort, Lacordaire, A. G. Sertillanges, Reginald Garrigou-Lagrange, Vincent McNabb, Aidan Nichols e muitos outros nos tempos modernos.

Claro que há outras escolas de pensamento católico para além do Tomista e do Dominicano. Mas ao familiarizar-se com qualquer uma das figuras citadas acima, já ficará com uma formação valiosa em pensamento e prática católicos – bem como uma perspectiva poderosa sobre muitas questões perenes e controvérsias actuais.

Mas a Dominican House tornou mais fácil para todos estudar Aquino, agora. Vá até ao site e inscreva-se. É grátis; pode estudar ao seu próprio ritmo, a partir de casa; não há notas. O que é que tem a perder? E pense só no que tem a ganhar.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Oração e Ascese

Michael Pakaluk
Se estiver a pensar quantos minutos de exercício é que devia fazer por dia para manter-se saudável, talvez já saiba que a resposta é 30 minutos. Mesmo que não soubesse, não duvidaria que existe uma resposta objectiva, e saberia onde a procurar (por exemplo, através do Ministério da Saúde).

E compreenderia que esse número corresponde a um mínimo. Alguém que precisa de perder peso, ou um atleta em treino, teria de fazer muito mais que isso. Mas compreenderia esta ideia do que, objectivamente, uma pessoa precisa para se manter saudável. Viver bem implica conseguir encaixar pelo menos 30 minutos de actividade vigorosa no seu dia. Todos sentimos e compreendemos isto, de forma implícita.

Mas eu gostaria de colocar a pergunta equivalente em relação à alma. Dizemos que existe uma alma, e que o corpo representa, de várias formas, a alma. Existe a actividade da alma, em como força e saúde. Por isso parece evidente que se possa colocar a pergunta: quantos minutos por dia é que devia exercitar a minha alma para uma boa saúde espiritual? Mas neste campo, embora seja muito mais importante, tendemos a pensar que não existe resposta objectiva e que não saberíamos bem a quem perguntar se precisássemos de uma indicação.

Repare que me estou a referir a tempo que “pomos de parte”. Claro que há esforços físicos que fazem parte do dia-a-dia – ir a pé para o trabalho, levantar sacos de compras, etc., e é bom que a nossa vida inclua estas coisas. Da mesma forma, podem existir actos de “exercício espiritual” nas actividades diárias. Mas eu estou-me a referir a períodos de tempo que são apenas para exercício corporal ou espiritual.

Vejamos a questão desta forma. Pode-se distinguir, em princípio, a oração da ascese. A oração pode ser entendida como uma conversa com o Senhor. A ascese é qualquer actividade que requeira e construa autodisciplina.

Teoricamente, pode haver conversas com o Senhor que não requeiram autodisciplina. Muitas pessoas entendem a oração desta forma. Pensam numa conversa entre dois amigos, como dois homens sentados em cadeirões, a fumar charutos e a beber whisky, tendo uma grande conversa. E então acham que a oração é assim, como se estivessem confortavelmente sentados a ter esse tipo de conversa agradável com Deus.

O Asceta - Pablo Picasso
Também em princípio pode existir ascese de algum tipo sem oração. O filósofo Thomas Reid resolvia problemas de cálculo todas as manhãs, pela disciplina mental, antes de se dedicar a escrever filosofia. O filósofo analítico Roderick Chisholm disse-me um dia que todas as manhãs, antes de começar a trabalhar, estuda um artigo da Summa Teológica, não pelo conteúdo, mas pela disciplina que implica.

Outro exemplo seria Benjamin Franklin, que fazia um autoexame todos os dias, com base numa tabela de virtudes, e há ainda quem resolva problemas de sudoku ou palavras cruzadas, para manter a mente alerta.

Mas embora a oração e a ascese espiritual sejam, em princípio, coisas diferentes, na prática conjugam-se. A oração é uma conversa com o Senhor, de facto. Mas se o Senhor estiver a caminho do deserto? Então não poderá conversar com ele sem se despir de tudo o resto.

Ou então imagine que o Senhor está a escalar uma montanha, e que para conversar com Ele é preciso subir também? Talvez já tenha escalado montanhas e saiba exactamente quanta autodisciplina precisa para empreender uma subida íngreme durante quatro ou cinco horas. Mas Nosso Senhor deu-nos precisamente estes exemplos de sair para o deserto para rezar, e de escalar uma montanha para rezar (Lc. 5,16, 6,12). Duvido que o tenha feito se não nos quisesse mostrar algo sobre a natureza da oração.

Bem vistas as coisas, não existem exemplos no Novo Testamento de Jesus a procurar um cadeirão para rezar.

A ideia errada de que se “encontra” tempo para rezar parece ligada à confusão de que a oração é, na prática, separável da ascese – como se a oração simplesmente aparecesse ou ocorresse de forma espontânea. Como se escalar uma montanha fosse apenas algo que surgisse naturalmente na nossa vida do dia-a-dia: “Fui trabalhar, acabei aqueles projetos, e então a ocorreu-me que o melhor a fazer era escalar uma montanha”.

A oração requer ascese – por causa do pecado original, por causa das exigências do discipulado, por causa do poder da Cruz. Também nos podemos espantar com o facto de (embora a oração seja fruto de uma busca de amor, tal como a conversa), a ascese não deixa de ser uma forma eficiente de desenvolver autodisciplina para todas as áreas da vida. Mais até do que práticas de ascese directa (excepto para disciplina intelectual pura – aí mais lhe vale resolver problemas de cálculo).

Voltando, portanto, à questão original: Quanto tempo por dia devia dedicar à oração? Podemos responder que seria o tempo necessário para exercitar a alma.

Afinal, para esta questão parece haver uma resposta objetiva, e autoridades competentes. Olhando para os santos e grandes Papas, vemos que recomendam a missa diária (30 minutos); a oração do terço (15 minutos); a oração do Evangelho do dia e de um livro espiritual (15 minutos) e oração mental diária (pelo menos 15 minutos, mas idealmente uma hora) – o que leva a um total de duas horas. Por isso, ao que parece, para viver uma boa vida cristã devemos encaixar duas horas de oração no nosso dia.

Se viajar para os Estados Unidos poderá surpreender-se com a quantidade de americanos obesos que existem. Mas talvez encontre também uma equipa de atletas universitários a caminho do seu voo. Desconfio que se existissem juízes capazes de ver as nossas almas, como acontece num dos mitos de Platão, eles ficariam espantados ao ver o quão espiritualmente obesos nós parecemos todos.

E os cristãos, que deviam parecer-se mais com aquela equipa de atletas, são iguais a todos os outros.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 20 de Agosto de 2019)

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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ahh... Os Bispos

Pe. Bevill Bramwell, OMI
No Rochedo de Cashel, na Irlanda, visitei as ruínas de uma fortaleza de um bispo. Alguém comentou: “Eles tomam sempre bem conta de si”. Eles eram os bispos. No tempo dos apóstolos os bispos eram pobres e viviam vidas de risco. Mas com o Édito de Milão (313) passaram a ter estatuto de funcionários imperiais, controlando terras, vilas e províncias. Ganharam honras civis e estipêndios. Eram barões e senhores.

Nada na forma como o cargo foi originalmente constituído indicaria que se deveriam comportar assim, mas em vez de darem testemunho na cultura, alinharam com ela. Nem todos os bispos o fazem, mas os que fazem são em número suficiente para que a sua taxa de consumo e ambição sejam um problema para a presença da Igreja no mundo.

Os palácios episcopais podem ser um grande problema. Claro que há bispos que vivem em casas modestas, mas quanto ao resto, as suas residências são um gigantesco contratestemunho para o trabalho oficial da Igreja. A Igreja é um corpo de testemunho. Por razões legais, está organizado numa série de corporações. Mais importante, a Igreja é fundamentalmente um testemunho de Jesus Cristo no mundo. E isso não implica ter muito dinheiro ou um estatuto social mais elevado.

O problema, do ponto de vista teológico, é que o bispo está limitado pelos parâmetros materiais da vida de Jesus Cristo e é simplesmente impossível dar testemunho credível de Jesus Cristo enquanto se vive uma vida significativamente mais rica que a de Jesus Cristo – a não ser que a mensagem da Igreja seja um mero acrescento. Viver a vida de Cristo é uma coisa pessoal, no sentido em que compromete toda a pessoa, corpo e alma. Cada aspecto da existência do indivíduo deve manifestar Cristo. Isto aplica-se igualmente aos padres, mas isso é tema para outra conversa.

Fatos Armani ou passatempos caros demonstram uma dependência de coisas materiais e não do Espírito. Também podem sugerir que a pessoa se imagina superior àquelas que a rodeiam, ou que se sente mais à vontade com as classes altas. Depois existem as outras benesses do trabalho – os convites para restaurantes caros, onde a conta é paga por outro; bilhetes grátis para grandes eventos; casas de férias emprestadas, e por aí fora, aparentemente sem limite.

Devia ser difícil, psicologicamente e espiritualmente, pregar o Evangelho aos domingos enquanto se vive este tipo de vida durante o resto da semana. Pelo menos se conhecer o Evangelho.

Uma vez perguntei sobre um caso de consumismo suspeito e responderam-me que o bispo podia fazer o que quisesse com o seu salário diocesano. Um excelente argumento – no mundo secular. O problema do testemunho mostra a falsidade da proposição. Há bispos que recebem o mesmo salário de padres com o mesmo tempo de serviço.

Os nossos valores não devem radicar no mundo secular. Se assim fosse, as conversões e a redenção seriam supérfluos. Para além disso, já existem bastantes organizações e pessoas a espalhar os valores seculares. A espalhar os valores contrários existe apenas a Igreja. Uma Igreja que é verdadeiramente contracultura. Demasiados católicos tentam viver nas margens de dois sistemas de valores contraditórios.

Residência do Arcebispo de Chicago, EUA
O dinheiro sempre foi uma matéria ruinosa para a vida dos funcionários da Igreja. Já ouvimos todas as desculpas. Que é necessário para o funcionamento da Igreja. Que o Clero precisa dele para arranjar os edifícios escolares e as igrejas e para dar conta de todas as necessidades na paróquia e na diocese.

A necessidade do dinheiro, contudo, desencadeia toda uma corrente de eventos relacionados com a angariação de fundos, como os bispos a serem tratados como ornamentos em jantares faustosos e bajulados por ricos.

E vai mais longe, estamos sempre a ouvir histórias de bispos a tratar de forma especial ricos ou poderosos e até a menosprezar a doutrina da Igreja.

Algumas devem ser verdade, uma vez que situações como católicos ricos a defenderem impunemente o aborto têm-se tornado um verdadeiro escândalo público. A afirmação de que estão a ser tratados de forma “pastoral” já não cola ao fim de todo este tempo.

Estamos perante um temor dos ricos? Ou dos poderosos? Ou será a vontade de ser aceite por eles? Será que os directores espirituais destes bispos falam com eles sobre estas questões? Afinal de contas, o trabalho de um director espiritual é ajudar o dirigido a tornar-se mais católico, ou por outras palavras, a assumir mais do ensinamento católico como verdadeiro. De tal forma, aliás, que se deve vivê-lo na prática.

Por último, devemos perguntar também em que hotéis chiques é que se encontra a Conferência Episcopal e em que restaurantes se juntam para comer durante as reuniões. Talvez se optassem por locais mais simples isso ajudaria a quebrar a ilusão de que os bispos se devem sentir magicamente em casa entre os ricos e os poderosos. Mandar vir umas pizas para uma reunião de trabalho talvez fosse simultaneamente um bom testemunho público e um acto de humildade.

Rezemos para que Deus nos conceda um corpo de bispos a viver vidas consistentes e a ensinar doutrina consistente – não movidos pela arbitrariedade, mas vivendo a vida e Cristo – o único Cristo.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 11 de Agosto, 2019 em The Catholic Thing)

Bevil Bramwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Dois Caminhos

Pe. Jeffrey Kirby

Na vida encontramos duas correntes, que Nosso Senhor Jesus descreveu como dois caminhos. São Paulo desenvolveu mais esta noção ao descrever a batalha entre os que têm coração de carne e os que têm coração espiritual. Santo Agostinho, o protegido espiritual do Apóstolo dos Gentios, elaborou toda uma teologia com base na noção de duas cidades: A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Fazendo eco da sabedoria do Senhor, o Doutor da Graça compreendeu que estas duas cidades eram formadas por dois tipos diferentes de amor. Uma das cidades procurava amar a Deus, a sua Lei e o próximo – enquanto a outra cidade era refém do narcisismo.

O Papa São João Paulo II traduziu estas duas noções para uma linguagem mais contemporânea. Na sua monumental encíclica Evangelium Vitae, de 1995 (em larga medida uma continuação mais desenvolvida da anterior Humanae Vitae do Papa São Paulo VI), o amado Papa criou dois termos que agora são parte integrante da visão católica do nosso tempo: a cultura da vida e a cultura da morte. Nestas expressões o Papa santo voltava a mostrar que existem dois caminhos e dois amores na vida. Estes caminhos e os amores que revelam dão aso não só a “cidades” mas também a culturas. Alimentam-se dos seus próprios amores.

A cultura da vida chama-nos a um serviço sacrificial a Deus e ao nosso próximo, sobretudo aos mais vulneráveis e necessitados, cada vez mais elevada. Radicado num amor por toda a gente, a cultura da vida crê, vive e labora para espalhar a mensagem de que toda a gente tem dignidade, todas as pessoas são um dom de Deus e todas as pessoas – por mais manchadas de pecado original e pessoal – devem ser estimadas e respeitadas.

Esta afirmação é um irritante para a cultura da morte. Essa cultura odeia a mensagem, despreza o mensageiro e procura retirar a dignidade e o respeito – enquanto professa o contrário – aos mais vulneráveis e fracos de entre nós.

Não obstante estas provas de consciência pesada, a cultura da morte preocupa-se unicamente consigo e com os seus desejos. Procura destruir tudo o que lhe seja inconveniente ou desconfortável. Os fracos e os vulneráveis são presa fácil numa cultura destas.

Por isso, para além de alimentar o seu próprio amor a Deus e ao próximo, uma cultura da vida robusta deve expor e combater a cultura da morte. Esta batalha é inevitável e quem vive uma forte cultura da vida compreende a sua necessidade. Logo, trabalha para desmantelar os argumentos, enfraquecer a sedução e impedir a influência e as estruturas de uma cultura antivida.

No Evangelium Vitae o Papa João Paulo II identificou correctamente uma “conjura contra a vida”, que “não se limita apenas a tocar os indivíduos nas suas relações pessoais, familiares ou de grupo, mas alarga-se muito para além até atingir e subverter, a nível mundial, as relações entre os povos e os Estados.” (#12)

As raízes desta conspiração encontram-se na revolta de Lúcifer contra Deus. O maligno espalhou essa revolta através das mentiras que contou aos nossos primeiros pais e do seu pecado no Jardim do Paraíso. Esta cultura da morte levou ao homicídio do seu primeiro filho Abel pelo seu irmão Caim. Esse acto de fratricídio conduziu a ofensas ainda maiores à dignidade humana.

E assim o palco estava preparado. As opções tornaram-se claras e as pessoas, cidades e culturas tiveram de decidir-se pela vida ou pela morte. Quem escolhe a vida tem de estar disposto a combater em sua defesa.

Historicamente, a batalha sobre a vida tem sido de uma só frente. Os arautos da cultura da morte atacam os nascituros. Negam a sua personalidade. Classificam-nos como indesejáveis. Partiram para uma batalha de palavras e redefiniram termos como autonomia, dignidade e escolha para apoiar os seus esforços. Travaram uma guerra particularmente feroz contra quem tem necessidades especiais, sobretudo quem tem Trissomia 21.

Mas a cultura da morte alimenta-se de si mesma. Não se satisfaz apenas com uma frente de batalha. E por isso a guerra tem agora duas frentes, incluindo o final da vida.

As notícias estão cheias de relatos de crianças a quem são negados os cuidados de fim de vida, doentes como Vincent Lambert, que morreu recentemente em França depois de lhe ter sido recusada comida e água e Estados como o Maine vão criando leis para facilitar o suicídio medicamente assistido.

A guerra de palavras deu aso a novas definições de termos como fardo, qualidade de vida e até misericórdia.

Chegou o momento – enquanto os ataques à vida se tornam mais sofisticados e alargados – de as pessoas se tornarem mais criativas e ativas, mais assertivas em sublinhar o contexto e a definição próprias das palavras, em dar testemunho do amor desinteressado pelos fracos e vulneráveis, em protestar e mudar as leis contra a vida e em partilhar com paroquianos, vizinhos e colegas a beleza e a dignidade objetiva de toda a vida humana.


O padre Jeffrey Kirby, STD é professor-adjunto de Teologia em Belmont Abbey College e pároco da paróquai de Our Lady of Grace em Indian Land, SC. O seu mais recente livro é Be Not Troubled: A 6-Day Personal Retreat with Fr. Jean-Pierre de Caussade.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 4 de Agosto de 2019 em The Catholic Thing)

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