quarta-feira, 17 de julho de 2019

Em Busca do Bom Samaritano

O amor ao próximo é algo que é pedido a todos nós. A parábola do Bom Samaritano, que escutámos no passado domingo, fornece um bom guião. Temos a responsabilidade de reconhecer a necessidade e a miséria humanas, e de lhes responder tanto com atenção pessoal como com generosidade material.

Numa sociedade rica, com mudanças demográficas velozes, contudo, isto requer alguma análise. Poucos são os que, hoje em dia, vivem a familiaridade cara-a-cara das pequenas comunidades. A maioria vive em subúrbios e vai de carro para o trabalho, passando ao largo dos bairros mais pobres.

Claro que os media apresentam-nos muitas imagens de pessoas necessitadas, mas poucos de nós encontramos essas pessoas no nosso dia-a-dia. Existem, contudo, verdadeiras bolsas de miséria humana até no nosso mundo desenvolvido, desde o interior das cidades até às paisagens mais rurais.

Nas nossas ruas existem pessoas com necessidades crónicas. Vemo-las nas esquinas das ruas e nos degraus das igrejas. Algumas estão perturbadas emocionalmente, outras sofrem de stress pós-traumático, outros ainda estão simplesmente a atravessar um mau momento e há os que estão a aproveitar-se do sistema. Mas a desolação emocional e espiritual pode ser ainda mais devastadora.

Os padres que acompanham as Missionárias da Caridade apercebem-se que as irmãs os dissuadem de dar dinheiro diretamente aos necessitados. Lançar-lhes algumas moedas é muito mais fácil do que dar-lhes aquilo de que precisam verdadeiramente: cuidado pessoal moroso. As pessoas que vivem vidas isoladas e pobres precisam – segundo nos dizem aqueles que verdadeiramente cuidam delas – de interacção humana, muito mais do que de dinheiro. Frequentemente o que lhes conduziu àquela situação foi precisamente a falta de ligações pessoais.

Portanto nos nossos tempos não é fácil ser um Bom Samaritano. O Bom Samaritano cuidou das necessidades físicas da vítima do assalto e deixou-lhe dinheiro para uma espécie de cuidado institucionalizado: “E no dia seguinte retirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro, dizendo, ‘Cuida dele, e tudo o que gastares a mais, pagar-te-ei quando regressar’” (Lc. 10,35).

Muitas vezes, dar dinheiro às pessoas na rua apenas os leva a adiar a procura de emprego ou de ajuda. Se souber que se vai cruzar com pobres ao longo do seu dia, um Bom Samaritano moderno poderá ter o cuidado de levar consigo uma sanduiche a mais, ou uma bebida, ou então comprometer-se com algo ainda mais substancial em termos de tempo e de trabalho, oferecendo-se para trabalhar numa sopa dos pobres ou uma iniciativa do género.

As paróquias suburbanas recolhem valores consideráveis das caixas de esmolas. Os párocos, em conjunto com os concelhos financeiros das paróquias, geralmente fazem chegar esses fundos a organizações que servem os necessitados. Ocasionalmente um paroquiano poderá também precisar de ajuda, por causa de uma crise. É bom que as paróquias encontrem formas de permitir que os paroquianos os possam abordar com esses problemas sem sentirem demasiada vergonha.

E, já agora, os párocos nunca devem aceitar agradecimentos pessoais por distribuírem dinheiro da caixa de esmolas. São chamados a ser bons gestores dos recursos paroquiais, como é evidente, mas a verdadeira generosidade é dos paroquianos que fazem os donativos.

De igual modo uma sociedade recta – o que normalmente significa as comunidades locais (por uma questão de subsidiariedade) – devem fornecer os cuidados mais básicos de quem está a passar um mau bocado. Mas deve ser claro – e hoje em dia não costuma ser – que cobrar impostos para ajudar os pobres não corresponde ao conceito de “caridade” que encontramos na Bíblia.

Essas cobranças são, na realidade, uma forma de justiça retributiva (e a virtude da solidariedade) mediada através do processo político. Ao longo dos tempos aprendemos que nem todos esses programas funcionam, e que chegam mesmo a prejudicar as pessoas que pretendem ajudar. Mas uma assistência social bem monitorizada e dirigida às pessoas certas, também tem o seu lugar.

Algumas organizações podem ser classificadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social de acordo com as leis do Estado, ao mesmo tempo que contrariam as leis de Deus. A Planned Parenthood, por exemplo, recebe 500 milhões de dólares por ano de dinheiro público, bem como donativos privados, dedutíveis em IRS, para financiar 330 mil abortos por ano (e para colher e vender órgãos fetais à socapa). Esta suposta caridade não passa, na verdade, de uma monstruosa máquina de matança.

Algumas organizações têm mais jeito para angariar dinheiro do que para usá-lo em obras verdadeiramente caritativas. O Bom Samaritano de hoje que queira doar dinheiro a organizações de caridade deve dar ouvidos ao aviso de Eric Hoffer de que “todas as grandes causas começam por ser movimentos, depois transformam-se em negócios e eventualmente degeneram em fraudes”.

Parte do trabalho do Bom Samaritano moderno passa por exercer vigilância adequada, sem a qual as caridades podem encher-se de funcionários e tornar-se um buraco financeiro dependente de constantes peditórios, cada vez mais agressivos.

Por outro lado, como qualquer IPSS sabe, também existem pessoas que pensam que o trabalho caritativo deve operar praticamente sem custos administrativos, o que não é realístico. Até as Missionárias da Caridade recebem – merecidamente – comida e estadia em troca do exercício do seu santo apostolado.

Quando fazemos um donativo devemos examinar as nossas consciências. Foi-nos dito pela mais alta autoridade que o bom impulso de caridade pode ser estragado pelo desejo de admiração. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

No fim de contas temos de reconhecer que todos os programas governamentais do mundo, bem como todas as IPSS, são incapazes de aliviar o sofrimento humano em grande escala. Uma das consequências do pecado original é que os pobres, seja no sentido material ou espiritual, sempre os teremos connosco. Os leigos devem trabalhar para criar sistemas socioeconómicos justos e eficientes. Mas a assistência aos pobres, num generoso espírito cristão, é a levedura necessária para complementar e ultrapassar os mecanismos das ordens meramente económicas.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Sinais de Amor Mútuo

Michael Pakaluk
Num dos dedos da minha mão esquerda uso uma aliança, que entendo ser um sinal do meu amor e da minha fidelidade pela minha mulher, Catherine. Mas as palavras da liturgia dão a entender outra coisa. Quando recebi a aliança da minha mulher no nosso casamento ela disse, “Toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Por isso parece que estou enganado: a aliança que eu uso representa a fidelidade dela, não a minha. Ou será? Como é que resolvemos este problema?

Uma forma seria simplesmente mudar as palavras. Já vi essa sugestão feita num site popular de planeamento de casamentos, sem a devida autorização, claro, no sentido de mudar as palavras para Eu, [nome] recebo esta aliança como sinal do meu amor e fidelidade”!

Portanto a coisa não parece clara e algumas pessoas tentam resolvê-la com o senso comum. A verdade é que essa situação menos clara foi introduzida com a reforma litúrgica. A Forma Extraordinária é muito mais clara e inclui a bênção, só da aliança da mulher, pelo padre:

Abençoa, + Senhor, esta aliança, que benzemos + em vosso nome, que aquela que a vai usar, mantendo verdadeira fé no seu esposo, possa permanecer na vossa paz e em obediência à vossa vontade e viver para sempre em amor mútuo.*

Repare-se que as palavras não se referem à aliança como “sinal” de nada. Só existe uma cláusula de propósito, “que aquela que a vai usar”. Isto é porque a aliança é vista como um “sacramental”, isto é, algo sagrado que tem o poder conferido de fazer aquilo que significa (como a água benta). Assim, a aliança não é apenas representativa da sua fidelidade: tem como propósito auxiliá-la a ser fiel. (Vemos um sinal disto naqueles homens que tiram a aliança antes de entrar num bar, abdicando assim da ajuda divina em permanecer fiéis).

A bênção refere-se também à obediência à vontade de Deus. Isto é algo que uma pessoa sensata compreende. Ser casado implica aceitar uma regra; estar constrangido. Uma pessoa aceita um jugo – um jugo “suave” e “leve”, claro, que, se for adoptado com o espírito certo, traz muita “paz”. Mas seria insensato negar que uma aliança é um compromisso com a disciplina, tanto como um cabeção para um padre.

Mas há uma falha, uma fraqueza, no ritual. A bênção refere-se ao “amor mútuo” mas só o marido é que dá uma aliança à noiva, e não ao contrário. (Era costume na Europa, até ao final do Século XIX, apenas a mulher usar a aliança.) O novo rito, como veremos, procura remediar isto.

Na Forma Extraordinária, o padre dá a aliança benzida ao noivo, que a dá à noiva, usando uma de duas fórmulas:

Com esta aliança eu te desposo, e juro ser-te fiel*

-ou-

Com esta aliança eu te desposo; este ouro e esta prata eu te dou:
Com o meu corpo eu te venero; e todos os meus bens terrenos te ofereço*

Um objecto em duas mãos
Os linguistas chamam a este tipo de linguagem “performativa” uma vez que as palavras significam e cumpre, simultaneamente, a acção. Aquilo que as palavras significam e efectivam é a perfeição da união matrimonial através da dádiva de um objecto precioso, a aliança.

Mas nem é necessário que o objecto seja uma aliança! Acontece que a aliança era o objecto precioso mais fácil de guardar junto ao corpo nas culturas antigas. Mas o “ouro e prata” refere-se a moedas que também podem ser oferecidas, como as famosas “arras” que ainda são dadas durante a cerimónia nas culturas hispânicas e que por isso mesmo foram incorporadas como uma opção nos casamentos católicos nos Estados Unidos, em 2016.

Nos dias em que o casamento era entendido não tanto como uma simples relação pessoal, mas mais como uma instituição que conduzia à estabilidade financeira, o facto de o homem dar um objecto precioso à sua mulher era um sinal da seriedade do seu compromisso de estabelecer esta instituição com ela em particular. A isto acrescentava-se o dote, o capital inicial para a nova instituição, dada por uma ou ambas as famílias. Uma vez que o casamento continua a manter essa característica, pode-se argumentar que a tradição das “arras” é um vestígio e um testemunho desse entendimento e que por isso ganharia em ser adaptado a outras culturas também.

Podemos agora contrastar isto com o significado das palavras no novo rito. Quando o noivo diz “toma esta aliança, como sinal do meu amor e da minha fidelidade”, não se refere à utilização da aliança, mas à aliança enquanto objeto precioso. Oferece a aliança por amor e com uma promessa de fidelidade; depois, ela usará a aliança por amor e como promessa de fidelidade. (Em 2016 a linguagem foi alterada para “Recebe esta aliança” em vez de “toma esta aliança” – o que se pode dizer que emenda o problema ao enfatizar mais corretamente o facto de a dádiva ser um evento único.)

Então esta nova linguagem é confusa e confunde – ou (talvez sem o querer) é profundamente verdadeira? Vejamos por este prisma: num contexto moderno, uma aliança é um objecto ou meio objecto? Comparando: um sapato é meio objecto e não um objecto inteiro, uma vez que os sapatos existem aos pares. Claramente, hoje olhamos para as alianças da mesma forma, como sendo aos pares. Nesse sentido, em bom rigor, uma pessoa não usa uma aliança, são duas pessoas que usam um único objecto – as alianças. Cada aliança, sobretudo pelo facto de não ser completa por si só, representa o amor e a fidelidade de ambos.

Assim, as palavras do novo rito, não obstante a sua falta de clareza aparente, acabam por ser profundamente verdadeiras. É frequente uma coisa significar a sua proveniência. A aliança que uso na minha mão esquerda nunca deixa de “dizer” que foi recebida como sinal de amor e de fidelidade. Usada, representa um amor e uma fidelidade que são precisamente recíprocos e mútuos. 

*As traduções são minhas, do inglês. Não consegui encontrar traduções portuguesas das bênçãos e das expressões. Caso existam, e algum leitor as conhecer, agradeço que me informem para poder trocar. Obrigado!


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Julho de 2019)

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quarta-feira, 3 de julho de 2019

A pré-publicação do padre João

Vai de férias? Não deixe Deus de parte. Os jesuítas ajudam.

A questão dos refugiados continua a mobilizar muita gente. Ao contrário de alguns, que insistem em demonizá-los, estes artistas reuniram-se para mostrar que “somos todos os ‘outros’ uns dos outros”.

Amanhã é publicado o livro “João Seabra – à Sua maneira”, sobre o padre João Seabra. Temos na Renascença um capítulo do livro em pré-publicação, para lerem. O lançamento é às 19h no liceu Pedro Nunes.

O Vaticano vai abrir dois túmulos como parte das investigações sobre o desaparecimento da uma rapariga italiana em 1983.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Randal Smith volta à carga sobre a questão da morte, e como a Igreja pode ajudar a sociedade a lidar melhor com o processo de morte. Este é um dos grandes temas do nosso tempo. Não estamos a lidar bem com o assunto! Não deixe de ler.

Música para os Moribundos

Randal Smith
Quando tinha dezoito anos a Elaine Stratton Hild ofereceu-se para tocar viola de arco no seu hospital local. Logo no primeiro dia uma assistente social pediu-lhe para ir ao quarto de uma mulher que queria ouvir “Amazing Grace”. A mulher estava sozinha no quarto. Fechando os olhos e deixando que a música as envolvesse às duas, Elaine tocou. Quando abriu os olhos percebeu que a senhora se tinha voltado para a janela e deixado de respirar. Morreu a ouvir o “Amazing Grace”.

Mais recentemente Stratton Hild, doutorada em musicologia, tem estado a dedicar-se ao estudo fascinante dos cânticos que as diferentes comunidades entoavam para moribundos na Idade Média. Havia liturgias inteiras para confortar quem estava a morrer. Partia-se do pressuposto que toda a comunidade de amigos e família acompanhariam os moribundos na sua viagem através da morte e para além dela. Presumia-se que ninguém deveria morrer sozinho e que ninguém deveria morrer sem o apoio da comunidade de crentes que cuidariam das suas necessidades físicas, emocionais e espirituais.

Não eram só os medievais que acreditavam nisto. Muitas culturas desenvolveram práticas para ajudar a “acompanhar” os mortos tanto física como espiritualmente. Uma mãe de três filhos, que tinha sido noviça numa comunidade religiosa, disse-me que quando tocava uma certa campainha no mosteiro toda a gente parava imediatamente o que estivesse a fazer e ia para o quarto da irmã que estava a morrer. Então toda a comunidade, incluindo as que não cabiam no quarto, entoava um cântico enquanto ela morria.

Neste mundo moderno e secularizado a maioria de nós já não sabe cuidar dos moribundos. A nossa tendência é para fechar as pessoas num quarto para que ninguém tenha de assistir a este “falhanço” da nossa tecnologia moderna.

Recebi de uma amiga uma descrição do trabalho da Elaine Stratton Hild há algumas semanas, quando publiquei um artigo no The Catholic Thing em que exortava os bispos e padres católicos a aliviar algum do peso das famílias quando morrer um paroquiano. O velório, o terço e o funeral devem ter lugar na Igreja, em plena vista do altar e da cruz, dizia, e não numa sinistra casa funerária, com custos exorbitantes.

Não precisamos de embalsamar os corpos – um desastre tóxico para o ambiente – e as pessoas devem ser sepultadas num simples caixão de madeira, na terra, nos arredores da igreja, como acontece há séculos. Gastar milhares de euros para enterrar um corpo, dando pouca atenção à missa é tão estúpido como gastar milhares de euros num casamento e não pensar na missa. Ah, pois! Também fazemos isso…

Mas ao ouvir Stratton Hild falar do seu trabalho percebi que mal tinha arranhado a superfície da questão com o meu artigo anterior. Agora, acredito que a Igreja deve oferecer a sua ajuda, e a presença consoladora do Corpo de Cristo, não apenas no funeral, mas durante todo o processo da morte. E quando digo “a Igreja” não me refiro apenas aos clérigos.

Não quero com isso menosprezar a importância dos padres e das freiras. Não consigo pensar em nada mais consolador num hospital do que ver uma enfermeira que é também uma freira, de hábito. Os católicos costumavam ver isso a toda a hora, mas hoje em dia já não acontece. (Porquê?) Mas os padres e as freiras não podem fazer tudo, e não podem substituir-se a uma comunidade inteira. Não devemos querer descarregar neles esta responsabilidade, mantendo-a longe da vista, tal como já fizemos com os médicos e as enfermeiras.

Elaine Stratton Hild a fazer pesquisa
A única coisa que todos os moribundos que alguma vez conheci queriam era morrer em casa. Nenhum o fez. E as probabilidades de uma pessoa ter acesso a música, cânticos, uma liturgia comunitária ou a mera presença constante de família e amigos, é quase nula.

Deixámos que a cultura moderna nos atomize, transformando-nos em unidades isoladas. Quando isso acontece deixamos de ter qualquer poder contra as instituições que prometem cuidar de nós, mas que nos ameaçam cada vez mais. A comunidade médica tem um papel importantíssimo a desempenhar no tratamento dos moribundos, mas é apenas uma parte. Ninguém deveria ter de morrer sozinho, num hospital, longe de casa.

Recentemente tive o privilégio de poder participar numa celebração melquita em honra de um homem recém-falecido. Foi uma experiência triste, mas belíssima e profundamente tocante. A única tragédia era o homem não estar lá para o experienciar. E não o digo como piada, o que quero dizer é que há poucas coisas mais belas e consoladoras para uma pessoa que está a morrer do que experimentar este tipo de liturgia.

Precisamos de recuperar as liturgias e práticas comunais que a Igreja usou durante séculos para confortar os moribundos e consolar as suas famílias, antes da sociedade ter decidido que se tratava de um “assunto médico”. Cometemos uma violência contra a pessoa quando não compreendemos a importância e o valor de comer e falar com outros, do riso, do toque, da música, canto e da presença de amigos, família e comunidade. Isto é verdade tanto durante os nossos tempos de saúde como quando estamos às portas da morte.

A morte não é um falhanço humano. É o fim natural da vida humana. Mais, Cristo advertiu os seus seguidores para o facto de que “se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer produzirá muito fruto”. Mais tarde São Paulo escreveria que “se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos”. Esta ainda é a nossa fé? Então precisamos de rodear as pessoas com expressões repetidas dessa mesma fé à medida que se aproximam da sua viagem final.

Podem encontrar uma introdução belíssima ao projeto de Elaine Stratton Hild neste curto vídeo.



(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 29 de Junho de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Newman e ditadores ressuscitados

O Cardeal John Henry Newman vai ser canonizado no dia 13 de Outubro!

Espanha vai apresentar queixa formal sobre o núncio apostólico. A culpa é do Franco, claro.

Numa altura em que o segredo da confissão está sob ataque em vários sítios, o Vaticano emitiu um documento a falara da importância da inviolabilidade.



Ultimamente tenho lido, sobretudo nas redes sociais, várias referências aos trabalhadores das organizações que resgatam migrantes no Mediterrâneo como “negreiros” e traficantes humanos. Segundo esta lógica, evidentemente, as freiras que ajudam prostitutas são chulos e as instituições que socorrem grávidas adolescentes estão a incentivar a sexualidade desregrada. É a lógica dos “bloquistas de direita”.


Os novos negreiros e os bloquistas de direita

Lembram-se da polémica por causa da Isabel Jonet? A mulher que, sozinha, já deve ter feito mais para aliviar a fome e a pobreza neste país do que todos os ministros dos últimos Governos, foi arrasada há uns anos depois de ter criticado algumas atitudes esbanjadoras dos portugueses.

Nessa altura a esquerda ao estilo “bloquista” deixou cair a máscara e trucidou-a. É que para eles a Isabel Jonet e todas as “isabéis jonets” deste país, fazem apenas “caridadezinha”. Ao alimentar os pobres não estão a fazer mais do que aplicar um adesivo a uma hemorragia causada pelo sistema capitalista, esse sim o verdadeiro culpado dos males sociais. Pior, ao disfarçar esses males, perpetuam o problema.

Pois agora temos uma nova versão da mesma estratégia, mas em vez da Isabel Jonet o problema é o Miguel Duarte e todos os que, como ele, ajudam a resgatar sírios, afegãos, e africanos de diferentes nacionalidades, de botes à deriva no Mediterrâneo.

E agora é malta de direita – de uma certa direita – que aponta o dedo. Não é que o Miguel Duarte e seus colegas são, aos olhos destas pessoas “negreiros”? Sim, leram bem. Para muitos críticos um homem que deixa o conforto da sua casa e do seu trabalho e vai viver para alto mar durante semanas a fio, retirando da água pessoas que talvez não, mas muito possivelmente sim, iriam morrer, entregando-os depois num porto seguro é equiparado a traficante de escravos.

Dizem os críticos que o Miguel Duarte e companhia são parte do problema, que não são a solução para a crise dos migrantes. Duvido que alguém tenha dúvidas disso. Duvido que o Miguel pense que ao tirar homens, mulheres e crianças do Mediterrâneo está a contribuir para melhorar o regime da Eritreia ou pôr fim à guerra na Síria. Mas há ali homens, mulheres e crianças a ser salvas e o seu afogamento também não trava guerras nem depõe ditadores.

Apliquemos, então, a lógicas dos “negreiros” a outras áreas. Afinal de contas, os amigos da Sea-Watch não são os únicos a fazer “a caridadezinha”.

Já ouviram falar daquelas freiras que saem de noite para ajudar prostitutas? Convidam-nas a entrar numa carrinha para beber um chá quente, comer uma bucha. Dão-lhes um cartão e convidam-nas a pensar em mudar de vida. Conhecem? Pois bem. Segundo esta lógica são chulas. Com aqueles gestos de amizade, a melhorar um bocado a vida daquelas mulheres, que mais estão a fazer se não a perpetuar a exploração sexual? Anátema!

As várias instituições que existem por todo o país, fundadas por ativistas pró-vida depois do primeiro referendo ao aborto em 1998? Que ideia é aquela de dar roupa, estadia e comida quente a miúdas que engravidam aos 16 anos? Assim não estão a resolver o problema da gravidez adolescente! Estão, pelo contrário a incentivar a sexualidade desregrada… Assim reza a lógica dos “bloquistas de direita”.

A Comunidade Vida e Paz? Alimenta redes de pobreza e de exclusão. Madre Teresa de Calcutá? Ui! O Christopher Hitchens é que tinha razão

Mas sobre estes, curiosamente, os bloquistas de direita não falam. Se calhar, afinal, o problema está em quem está a ser alvo da caridadezinha, e não de quem a pratica. O problema com os “novos negreiros”, aparentemente, não está nos “eiros”.

Deixem-me dizê-lo claramente, agora sem ironias. Nojo. Não há outras palavras para isto. É um nojo e deviam ter vergonha.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Consciência vence na Polónia, FNO no Porto

Temos mais um caso de choque entre “direitos homossexuais” e liberdade de consciência. Agora é na Polónia, onde o Tribunal Constitucional deu razão ao dono de uma gráfica que se recusou a imprimir um cartaz de um evento LGBT.

Na Alemanha já vamos em dezenas de igrejas atacadas nos últimos meses. Parece que a moda pegou.



O Comité Olímpico Internacional, que outrora se preocupava com o doping, diz que os homens podem competir contra as mulheres, desde que tomem doses massivas de químicos para alterar o seu corpo e os seus níveis hormonais. Confuso? Eu também.

“Transjacking” no Desporto

Brad Miner
Estamos a cerca de um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio (24 de Julho a 9 de Agosto, 2020), mas já existe polémica. Por outro lado, há sempre polémica nos Jogos Olímpicos, normalmente por causa de drogas que melhoram o desempenho desportivo (PED, de Performance-enhancing Drugs).

Nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, os atletas russos e os seus “cientistas” fizeram batota em tão grande escala (sobretudo nas análises à urina) que a Agência Mundial Antidoping recomendou que a Rússia fosse banida de participar nos Jogos de Verão no Rio, em 2016. Isso não aconteceu, embora a Rússia tenha sido subsequentemente banida dos Jogos de Inverno de 2018 em PyeongChang. Ainda assim, alguns atletas russos competiram como “Atletas Olímpicos da Rússia”, mas sem a bandeira da Rússia ou hino nacional. (E mesmo muitos desses viriam a acusar em testes antidoping.)

No geral o Comité Olímpico Internacional (COI) tem tido manifestado repetidamente um grande interesse – partilhado por todas as organizações que supervisionam desportos – em manter os Jogos Olímpicos livres de PEDs. Não só por causa das vantagens competitivas que estas substâncias fornecem aos atletas, mas também por causa do perigo que estas drogas apresentam para a saúde dos mesmos atletas, no longo prazo.

O ideal do atleta amador talvez já não exista nos Jogos Olímpicos, mas pelo menos persiste a crença na importância de atletas naturalmente saudáveis.

Ou será?

O COI e muitas – se não a maioria (e em Julho do ano que vem talvez todas) – as federações atléticas defendem agora o uso de drogas mais extremas que se possa imaginar: drogas supressoras de testosterona para homens que querem competir como mulheres, isto é, atletas “transgénero” macho-para-fémea (MpF).

O debate que ainda existe – se é que ainda existe – apenas diz respeito a quão suprimido deve ser o nível de testosterona no atleta MpF, medida tanto nos níveis de soro de sangue reduzido da hormona e na duração desses mesmos níveis.

Na prática, o COI e outros estão a dizer que aquilo que define uma atleta feminina, por exemplo, nos 100 metros é simplesmente o nível dessa hormona. Atualmente, a fórmula do COI é: não mais que 10 nmols/L (nanomoles por litro) de soro de testosterona durante pelo menos os 12 meses que antecedem a competição. Segundo o COI: “As alterações anatómicas cirúrgicas como precondição de participação não são necessárias para preservar a concorrência leal e podem até ser inconsistentes com a legislação em desenvolvimento e com noções de direitos humanos”.

Temos, por isso, que um homem poderá qualificar-se para competir nos Jogos Olímpicos de 2020 contra atletas nascidas mulheres desde que declare o seu “género” como feminino e comece um regime de supressão de testosterona que coloque os seus níveis em 10 nmols/L, mantendo-os assim até ao começo dos jogos, no dia 24 de Julho de 2020.

A questão aqui é que enquanto o nível normal de soro de testosterona nos homens é entre 10.41 e 34.70 nmols/L, os níveis normais nas mulheres são entre 0.52 e 2.43. O que significa que um velocista MpF que se qualifique para os Jogos Olímpicos com um nível de 10 nmols/L, isto é, o limite inferior do espectro de testosterona masculino, continuará a ter quatro vezes mais do que o máximo para mulheres.

Claro que sabemos que isto é absurdo. Como se lê no recente documento do Vaticano “Homem e Mulher Ele os Criou: Um caminho de diálogo sobre o assunto de género na educação”:

O processo de identificação da identidade sexual é dificultado pela construção fictícia conhecida como “género neutro” ou “terceiro género”… As tentativas de ir para além da diferença sexual constitutiva macho-fémea, tal como as ideias de “intersexo” ou “transgénero” conduzem a uma masculinidade ou feminilidade ambíguas pese embora (de forma contraditória) esses mesmos conceitos pressuponham na verdade essa mesma diferença que se propõem a negar ou ultrapassar.

Tiffany (ex-Rodrigo) Abreu, estrela de vólei feminino no Brasil
Mas o que falta saber é quantos homens vão decidir comportar-se de forma absurda nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Para dizer a verdade, eu, que sou um homem velho e não uma velocista de nível mundial, não estou muito preocupado. Mas as atletas de elite estão, ou pelo menos deviam estar. E pela seguinte razão.

O recorde mundial dos 100 metros femininos de Florence Griffith Joyner em 1988, de 10,49 segundos, foi um grande feito (talvez até sem a ajuda de PEDs). Mas este ano, no campeonato dos 100 metros masculinos das escolas secundárias no Estado do Texas, Matthew Boling fulminou o recorde americano com uns incríveis 9,98 segundos. Joyner tinha 29 anos quando bateu o seu recorde mundial; Boling tem 18. E ao longo de 2019 todos os primeiros 75 velocistas masculinos dos campeonatos do ensino secundários bateram o recorde mundial de Joyner.

Estou a focar-me nestes alunos de liceu porque se trata de rapazes que já atingiram o auge do seu desenvolvimento biológico natural, sem a ajuda de drogas, e mesmo depois de passar a puberdade continuarão a beneficiar deste estímulo hormonal da adolescência em termos de altura, peso, velocidade e força. A supressão de testosterona poderá diminuir este benefício, mas só um pouco.

Volto a insistir que para competir em Tóquio um atleta MpF não precisa de parecer uma mulher. Com base no que se tem visto em competições recentes em que têm participado atletas MpF, alguns terão penteados “femininos” e outros poderão ter sinais de aumentos mamários. Outros vão simplesmente parecer gajos. Mas, como o COI já disse (graças a Deus!), não são precisas intervenções agressivas, como aquelas a que se sujeitam alguns transgéneros MpF: implantes mamários; rapagem da maçã-de-Adão; orquiectomia (remoção dos testículos); penectomia (a amputação do pénis); nem as subsequentes vaginoplastias, labiaplastias ou clitoroplastias – que requerem uma vida inteira de terapia hormonal (estrogénios, antiandrógenicos, progestogéneos e moduladores de libertação de gonadotropina – qualquer uma destas, se não todas), não vá o corpo começar a reafirmar-se, o que, inevitavelmente fará caso as intervenções químicas falhem, uma vez que é essa a sua natureza.   

Para além disso, não há qualquer intervenção que possa transformar uma pessoa XY numa pessoa XX. Essa diferença cromossómica e biológica, que define um homem e uma mulher, é que é natural. É por isso que o Vaticano considera que qualquer tentativa de mudar o género é “fictícia”.

As regras do COI para atletas femininas que se apresentam como homens apenas reforçam essa ficção. Na verdade, não existem regras, pois nenhuma mulher seria capaz de competir contra um homem, seja qual for o sexo que afirma ser.

Escrevi sobre este assunto e o seu impacto no mundo do desporto em 2016, e desde então as coisas só pioraram. Contudo, agora vemos algumas mulheres jovens a defender-se daquilo a que algumas apelidam de transjacking, e isso é uma boa notícia.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 24 de Junho de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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terça-feira, 25 de junho de 2019

Dois passos em frente, um para trás, rumo ao precipício

Tirem a vossa política do meu jogo, sff.
O admirável mundo novo vai chegando, entre avanços e recuos. Avanço: Uma juíza inglesa ordenou que uma mulher de 22 anos fizesse um aborto contra a sua vontade. Recuo: O tribunal de recurso anulou a decisão. E é assim, dois passos em frente, um passo atrás. Mas é para a frente que vamos, rumo ao precipício.

Uma sondagem encomendada pela BBC revela que os árabes são cada vez menos religiosos.

Os símbolos da JMJ já começaram a sua longa caminhada até Lisboa, onde chegam a 5 de Abril de 2020.

Está a nascer em Trás-os-Montes uma “aldeia para Deus”. Conheça-a aqui.

A equipa feminina de futebol do Vaticano abandonou o jogo que ia disputar no passado fim-de-semana, na Áustria, quando jogadoras da equipa da casa levantaram as camisolas para revelar mensagens pró-aborto (ver imagem).

Publiquei no blog a transcrição integral da minha conversa com o cristão siríaco Johan Cosar, que treinou uma milícia para combater o Estado Islâmico. Podem ler aqui.


quarta-feira, 19 de junho de 2019

Música portuguesa para o Papa

No sábado vão ser beatificadas 14 monjas concepcionistas, mártires da Guerra Civil de Espanha. Conheça as suas histórias aqui.

O Papa Francisco recebeu esta quarta-feira dois presentes para ouvir em português. Trata-se de uma “missa de Santo António” do maestro Vitorino d’Almeida e do disco “Encontro(s)”, de Luís Zagalo

Lembram-se do Suíço que foi multado por combater o Estado Islâmico? Publiquei agora a transcrição integral da entrevista que lhe fiz, que podem ler aqui.

Os defensores da ideologia do género invocam frequentemente o argumento da liberdade individual. No artigo desta semana do The Catholic Thing, Robert Royal explica porque é que esse conceito é, na verdade, o exacto oposto de verdadeira liberdade. É um assunto urgente, não deixem de ler!

"The Syriac people in Syria are not happy with the regime"

This is a full transcript, in the original English, of my interview with Johan Cosar, a Swiss born syriac Christian who fought against the Islamic State. English is not Johan's first language, some of the answers have been edited for clarity. The published news story, in Portuguese, can be read here.

Esta é uma transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista com Johan Cosar, um cristão siríaco, nascido na Suíça, que combateu o Estado Islâmico. O inglês não é a primeira língua de Johan, por isso algumas das respostas foram ligeiramente editadas, por uma questão de clareza. A reportagem, em português, pode ser lida aqui.




You did your military service in Switzerland? 
Yes, like any other Swiss.

And did you enjoy it?
Actually, the first days I wasn't that happy. But as the weeks went by I enjoyed it more. I took it like a new education, a new challenge, and at the end one of my instructors, who had really motivated me, I think he saw the leadership I had in me, and he captured it and cultivated it. So that is why in the end I decided to continue and I signed a five year contract as a sergeant. 

What was your specialty? 
Mountain infantry and local combat, small special forces, if you'd like. 

Did it ever cross your mind that you might ever need to use that training in the Middle East?
No, not at all. I was so far from the Middle East, even if I do have roots in the Middle East there was no reason to think about it. So, in 2011 I finished my military duty, in November, and around that time the first demonstrations began in Syria. You could see that something was going to happen. 

Your roots are in Turkey?
My father was born in Syria, but my mother is from South East Turkey, but very close to each other, separated by only a small border line. 

Was the Syriac identity and culture present in your education? Did you speak Syriac at home?
Yes, of course. 

I was talking about this with some friends just a few days ago. I had the great opportunity to grow up in two big cultures. One, the Middle East culture, especially the Syriac/Assyrian culture, where all the civilizations came from. 

And, of course, at home – especially my father – was pressuring us to not forget our own roots, and not to be ashamed of them, because you can be good for no other culture if you deny your own. So, at home, still today, we speak Syriac, and I have one brother and one sister, and many cousins, and we don't regret or deny our culture. The whole family is connected this way.

But at the same time I had a Swiss education in Switzerland, we had a good education and the great opportunity to have a good education. So I grew up with two cultures and this made me very happy and very cultured. 

What is that made you first go to Syria?
My father had been involved in fighting for the rights of our people for a long time. And by going there and back he kept mentioning what was going on there, and pressing me to go and see what was happening. 

I finally decided to go in 2011, to report in a free-lance way, because everybody was talking about Syria from outside Syria, and that is a big mistake, talking about something that you can't see, and that you are not involved in, just from seeing and listening from outside, is a big mistake. Especially since my people were there. I had people who could finally achieve something, after 2000 years. I thought "let's try this trip, go in, and achieve something good for my people too". 

So that is why I decided to leave Switzerland, for around six months, reporting what was happening in Syria from inside. I made some reports for friends in radio and newspapers. But things didn't go like I'd planned. 


What was your first idea when you began to see the first signs of the Arab Spring?
Hope, of course. And helping the people. 

I have had much contact with Christians from Syria, mostly from Damascus, Aleppo, and so on, and they tend to be very much pro-regime, or at least against the rebels. But that is not the universal reality. The Christians from Qamishli maybe saw this with hope that they could get more rights?
I think that even the Syriac Christians in Damascus, Homs and Aleppo, right now, think like we do, but they can't express their own opinions, for one reason, because around Aleppo, Homs and Damascus there is only the regime, no other forces and no other solution. In Northeast Syria there was the Syrian regime, there was ISIS, there were jihadists and us. So the people could choose. 

Are you including the Free Syrian Army as jihadists?
At the beginning, no. At the beginning I was one of those who appreciated what they were doing. But after we started seeing them chant Allahu Akhbar after every attack, I realised this was going to change and become something else. 

The Syriac people in Syria are not happy with the regime. They are controlled. It's a fake protection, protection under the name of being controlled. For our people, at the moment, if you have to choose between ISIS and the regime, or between the revolutionaries of this time and the regime, of course they are going to choose the regime, because the others have nothing to offer them, they are chopping off heads, forcing people to leave their homes, not accepting their culture or their religion... It's an easy decision. 

But if the regime could give us – which isn't going to happen – the chance to go there and to present ourselves and give the people a choice...

This is the difference between North-eastern Syria and other places. I am sure, absolutely sure, that the Christians do not see the Assad regime as their saviour or protector anymore, because they saw what happened. Where was the regime in Al-Qaritain? In Qunaitra? In all the places where ISIS came in, made mass destruction and left? Where was the regime in the Khabour area? In Hassekah? 


I think that in 8 years of war the people opened their eyes, they are not blind anymore.

So you were in Syria when something happened to your father…
[Johan’s father was kidnapped by regime agents, who then told the family that he had died in custody, although they never provided the family with a body]
I was in Syria when my father was kidnapped. We met each other the day before. It was not the main reason for me to go to Syria or to stay in Syria. Of course, the love I had for my father, and how much we were attached to each other, is unbelievable, because we were like friends, even in this movement. 

But that was not the main reason he and I were there. It's a cause, a purpose, that is what brought us there and made me stay there. 

Do you believe he is still alive? 
I do. It is still a matter of 50/50. As long as we don't have a sure answer we keep up the hope. I can't say if he is dead or alive, so let's keep it like this.

What year was he kidnapped? 
August 12th, 2013.

So by that time you were already in Syria full time?
Yes.

And you were already involved with the military aspect?
Not that much... I started to be involved one month later, with training. So it was the very beginning of everything at that time. 

So in 2013 you began training, is that when the Syriac Military Council began to form?
The SMC officialised in January 2013, but in practical terms, in starting to form and organise itself, it started in August and September.

When you began with the training, were you aware you were breaking Swiss law?
At the beginning I didn't even think about it. I saw the state of emergency we were in and I didn't think about it. When you see the jihadists coming, very close to you, when you see people are being kidnapped, abducted, and killed, from the groups very close to you, you don't think about laws. 

What was the state of the people you were training? Did any of them have any military experience, or were they beginning from zero?
I had people who were veterans from the Assad regime, but it was like training somebody from zero. Because the military education I had was very different from theirs. So you can say that all the people I trained was from zero, because giving them a Western training is like teaching them a new language. 


When does the Syriac Military Council begin to be involved in actual conflict?
Our first session, about 1 month, was in October 2013. 

Already allied with the Kurds?
Yes. 

Were the YPG better prepared?
YPG were, of course, better prepared. They are old fighters. But we reached their level of preparation very well. 

Did they respect the Syriac fighters?
Of course, very much. They had very high respect for us. The Syriac Military Council is still very well respected by the YPG and other military forces because at that time that I was there fighting with them they could see how ready we are for everything, so there is great respect of the Kurds for the Syriacs. It is not only about the military forces, there is a lot of respect about what we are. 

Because traditionally, over the past 100 years, the Syriac and the Assyrian people have not been a fighting people. Was it difficult to convince people to take up weapons?
100 years ago we were not, but 2000 years ago we were. We tried to take back that feeling. 

It wasn't that hard. The most difficult thing was to convince them that the we were in the wrong status to begin with. That was the main difficulty, to change the minds of the people, not just making them fight, but to fight for what? 

You can bring people during a war and let them fight, that is easy, but if they don't know what they are fighting for, that is your main problem. One day you will stop fighting ISIS, and then? You have about 1000 people, with military training... If they don't have any goals they can turn against you, they become a threat, but if they are educated, if they have a goal, if they are really focused on a purpose, on a way, it becomes much easier. But if you have 1000 people who are just fighting, they become like a gang after that. 

Which we see in several places in the world. So what is that goal?
At the beginning it was just to have our own rights, to be recognised as a people, with our culture, our religion, our language, like any other people, and like indigenous people of Syria, not just a minority, because we are not a minority in Syria. There are more than three million Christians in Syria, more than Alawites, more than Kurds. So we are not a minority in Syria, we are not a minority in the Middle East, we are indigenous. This is our place. 

The main goal was that. We never wanted to create a new nation, anything like a Kurdistan, or for us a Mesopotamia... Just to be recognised as a people in the place where we were, that was our main goal. 

So when do you change from training officer and actually go and fight on the front lines?
Very fast. After starting training in October, I was part of assault groups in December.

And here you were facing ISIS?
No, at that time we were facing Al-Nusra. After that came ISIS.

When you are on the ground fighting, is there a difference between fighting ISIS or al-Nusra?
Of course. Fighting al-Nusra was... I won't say easier, because they are very fanatical, full of drugs and therefore harder to take down, because it was like fighting a non-person, no fear, no hunger, no cold in the winter... Because they were full of drugs. And they attacked in mass, 50, 60 or 70 people. 

ISIS is different. It is an ideological movement, supported by many nations, so more professional. And you saw what they did, so it was more difficult to fight them. Especially because of the equipment they had, it wasn't normal... The technological equipment they had, the tunnel systems, the IED systems, things you can't even imagine, and these are things that came from big nations, and one of them is Turkey. 

If you were captured by Al-Nusra, what would they do to you? 
Cut off my head. 

So in that sense no difference between ISIS and al-Nusra...
No difference, it was the same. 

Obviously you were in dangerous situations all the time. Were you ever in situations where you thought, "that's it for me?"
There was one where we were going to patrol a village, myself and three YPG fighters. It was a recon group, so we were going to the village, see what was going on there and return to the assault groups and prepare the assault. 

The four of us went, and according to the report, the village was empty, no al-Nusra. When we were there of course we were walking next to each other, and unfortunately the village was, in fact, full of al-Nusra.

This was 2013, we didn't have any night vision goggles, radios, operation rooms. We just had one radio for each group to connect to the others. So when we were walking another patrol from al-Nusra was walking towards us, but it was so dark, and so foggy, that we didn't see each other. 

I was the one on the far-right. I touched the shoulder of the one on the right of the other group. Our shoulders touched and I jumped. We understood that we were from opposing groups...

Because of the good training I had I always held my weapon in front of me, not on my shoulder, and when I realised that they were al-Nusra I jumped one step back and one to the left, and I started shooting.

I heard the guy on my left get hit by a bullet. 

Then we tried to escape, but we were in this village, and we were about 500 meters in the desert, with no orientation, in the darkness and in the fog, alone. I lost my other three colleagues. One was martyred, but the problem is that all the village suddenly realised that something had happened there, and they were all al-Nusra, and they started to search for us. I don't know how I escaped. I walked in the desert, I didn't even know what direction I was walking in, because of all the confusion and the fog, but fortunately we managed to go in the right direction, and we all survived, except the one who was killed at the beginning. 

That was one time when I really thought, OK, I'm done...

You were there and fought against ISIS. To see the declaration of their territorial defeat, what did that feel like? 
Territorially it's done, but it's not over. I'm not celebrating. It's a good thing to give hope to the people, territorially, so they can start a new life, a new education, a new future with better prospects, but the war is not over. 

Of course there is a risk of sleeper cells and more terrorist activity, but when you say the war is not over, are you also thinking about Turkey and the regime?
I think so, yes. 

The war is not over because until now it was a war of militias, now the big war will start, between the Sunni and Shia factions. 

You were there for a long time. Do you believe the Federation and this democratic project will be able to survive in the long run?
I think so, yes. I believe it will. Because it is the only way to make sure minorities survive. The policy is based on minorities, not on the idea of one family, one nation. With the one family, one nation policy you can see what happened. Giving hope to the minorities is creating a new life for people, it is making Sunnis and Shia live together, Muslims and Christians live together, Jews and Muslims living together. I think that it is a big example for democracy and a new life in harmony together. It has to survive, if not the Middle East will be a disaster for another thousand years. We won't come out of this war for another thousand years.

When did you decide to return to Switzerland, and why?
My first trip back to Switzerland, after many years in Syria was in 2015. Why? Because I had to face this trial. 

By then you had already been warned that you were in trouble back home...
I had the possibility to come back, because before it was not possible for me to leave. I left illegaly, I had a lot of difficulty to leave the KRG [Iraqi Kurdistan], because I had entered from Turkey. I used fake papers to enter the KRG, then I used my Swiss Passport, then I didn't have a stamp to leave, so it was very difficult.

But when you were in Syria did anyone from Switzerland contact you...
No. I heard from the newspapers.

So obviously they were keeping an eye on you...
Of course, yes. More than one. 

You came back, and what did the Swiss authorities say?
I was stopped in Switzerland, and of course they interrogated me, and they told me they had to open a military case against me, because I broke this and that rule. But nothing bad, so I was not being treated as a criminal. At many of the places I was going around, the police and so on, they were looking at me as a good guy, who did a good thing.

At the trial that we had at the end of February they honoured my action, even though they gave me a punishment. We appealed, and so the trial will continue.

So it was just a fine?
Yes, around 500 dollars. But we appealed on grounds of principle. 

Have there been Swiss who went to fight with ISIS who came back as well?
Yes, but they were tried for small things.

Are they back in Switzerland?
Yes.

What is it like, thinking that one day you could be walking in Zurich and bump into a guy who had been fighting for ISIS?
It's a big mess for Switzerland. A big mess.

I keep myself protected. I know how to move, when I go anywhere, I know how to watch myself, but the other people... It's a problem.

Your face must have been everywhere now because of this trial. Does it worry you in terms of safety, reprisals?
No. Myself, personally, no. I am not worried, I am not scared, but I take precautions. Like everyone in Europe must, because you don't know when some sleeper cell in ISIS will shoot, cut or bomb... 

You know ISIS better than pretty much anybody else in Switzerland. Have you had any requests for cooperation? To prevent terrorist attacks?
No. I was asked to go to some conferences, but until now I have kept myself far away from these things. I want to finish my trial in a clean way and then we'll see. 

In 2015 you came back, and since then you haven't returned to Syria?
I have been to Iraq.

But were you involved in any fighting in Iraq?
No, no fighting.

So you continue to be very active in the Syriac cause...
All the time. I can't leave what I started. 

You were in Syria for about three years fighting. Did you leave your job here in Switzerland?
No, I was a professional soldier. I went as soon as I finished my contract with the army. 

So now you need to start a new life?
Being involved in the organisation we have now in Iraq is my full-time occupation.

Are you married?
Thank God, no. 

Are you more hopeful for the future of your people now? 
Yes, of course. More hopeful and with brighter prospects for the future. The people we were involved with gained strength from seeing ISIS being defeated territorially. For the Syrian people that is a huge victory. 

You fought side by side with the YPG. And you said they respected the Syriacs. Now that ISIS is defeated, YPG is still the big player in the region. Do you trust them?
I trust them, like they trust me. But it is politics. I trust the people who represent the Kurds, and their idea. I trust their idea, and I respect the idea. I don't follow the people. If they keep to their idea and follow it, to do something for all the peoples there, I will trust them. If they are going to change their idea they will be betraying themselves, more than me. 

Were you ever frustrated or surprised that there were more Syriacs like you from Europe going to fight with your people?
No. I was happier to see the Syriacs inside Syria fight. The main problem was to convince them to change their mentality, not to bring them to war. So I was really happy to see all the influence we had and the young people joining the SMC, because they trusted what we were doing. We were not obsessed with bringing people from outside. If you come by yourself you are welcome, but we were pushing for the local fighters, because those are the people who are going to stay. 

It's a little bit like the volunteers of the YPG. They came in their thousands. How many are still in Syria? They left. If we had a thousand Syriac youths and then leaving, it doesn't make sense. We were looking for a long-term, strategical commitment. 

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