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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A Salvação vem dos Judeus

Francis X. Maier
Num artigo de opinião no “Wall Street Journal” de final de Novembro, William Galston escreveu que tem havido um aumento acentuado de antissemitismo na Europa Central e de Leste, desde 2015. Na Polónia, Ucrânia, Rússia e Hungria, onde em tempos viveu a maior parte dos judeus europeus, um grande número de pessoas sondadas revelou acreditar que os judeus têm demasiado poder no mundo dos negócios e dos mercados financeiros, que falam demasiado da Shoah [Holocausto] e exercem demasiado controlo sobre os assuntos globais.

O Holocausto é a maior catástrofe moral do Ocidente moderno. Mas é com demasiada facilidade que nos esquecemos das suas lições. “A criação do Estado de Israel” em 1948, escreve Galston, serviu de desculpa para a renovação da “antiga acusação de deslealdade judaica”. Hoje, novamente, as acusações de deslealdade são “uma presença constante da vida judaica” – e não apenas na Europa. Globalmente, 38% dos inquiridos por uma sondagem da Anti-Defamation League acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que à nação onde vivem.

Na Europa Ocidental o crescimento de comunidades muçulmanas e o aumento da sua influência política agravaram o problema. A violência contra os judeus em França aumentou mais de 20% em anos recentes e o rabino-mor da Grã-Bretanha criticou publicamente o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, pelo aumento do antissemitismo nas fileiras do seu partido, meros dias antes das mais recentes eleições. O ódio aos judeus não é um monopólio da direita populista na Europa. A esquerda progressista tem a sua própria variedade tóxica do mesmo veneno. 

No que diz respeito aos Estados Unidos, os americanos geralmente revelam baixos índices de antissemitismo. Mas mesmo por cá, 33% dos sondados acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que ao país de que são cidadãos. E crimes de ódio, como o esfaqueamento de vários judeus que celebravam o Hannukah em Monsey, Nova Iorque, estão a tornar-se mais comuns.

O anti-judaísmo tem uma longa história na cultura cristã. Começa com as discussões iniciais na comunidade judaica sobre a identidade messiânica de Jesus e a teologia cristã que lhe sucede e procura substituir nos séculos seguintes. Mas foi o próprio Cristo – obviamente um judeu – que disse que “a salvação vem dos Judeus” (Jo. 4, 19-22) e o Cristianismo simplesmente não faz qualquer sentido sem as suas raízes judaicas. 

O Concílio Vaticano II procurou reformar e restaurar as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica através de documentos como Nostra Aetate (“No Nosso Tempo”). E enquanto declaração da Igreja tratou-se de um ponto fulcral no diálogo entre cristãos e judeus, mantendo-se tão importante hoje como era em 1965, quando foi publicada. Mas palavras belas e boas ideias não têm força antes de tomarem forma numa vida que prova, pelos actos, que são verdadeiras. E desse ponto de vista, nada encarnou a recuperação das raízes judaicas do cristianismo de forma tão forte como a vida e a obra de Aaron Jean-Marie Lustiger.

Lustiger com o Papa João Paulo II
Lustiger nasceu em 1926 numa família de imigrantes judaicos da Polónia. O seu avô era rabino e os seus pais tinham uma chapelaria em Paris. Na sua vida familiar eram em larga medida seculares, mas ainda assim tiveram o cuidado de manter o Aaron afastado das celebrações e observâncias católicas em França. Contudo, aos 10 anos o rapaz encontrou um exemplar do Novo Testamento e leu-o em segredo, convertendo-se, contra a vontade dos seus chocados pais, aos 14 anos de idade.

Nunca abandonou o seu nome judaico. Acrescentou-lhe o nome cristão Jean-Marie no baptismo, mas nunca perdeu um intenso orgulho pela sua identidade judaica. Sobreviveu à II Guerra Mundial, escondido por uma família católica francesa. A sua mãe morreu em Auschwitz em 1942 e outros membros da sua família alargada perderam-se na Shoah. Mais tarde foi ordenado padre, serviu como capelão em universidades parisienses e eventualmente foi nomeado bispo de Orleans, vindo a tornar-se mais tarde cardeal arcebispo de Paris.

Lustiger tinha um forte intelecto – foi eleito para a Academia Francesa em 1995 –, uma energia inesgotável e um gosto excêntrico para as artes. Foi autor de uma quantidade prodigiosa de livros e conferências e tinha uma personalidade maior que a vida. Estar e falar com ele, como eu fiz em várias ocasiões, era uma experiência inesquecível, como entrevistar uma locomotiva deambulante.

Para ele eram especialmente importantes as oportunidades que teve, cada vez mais ao longo dos anos, de encontrar-se com líderes, ouvintes e estudantes judaicos. Nem sempre era fácil. Os judeus tendem a ver os convertidos ao cristianismo como apóstatas e repudiadores da comunidade. Lustiger respeitava este sentimento mas não deixou que o impedisse de procurar amizades e parceiros de diálogo na comunidade judaica. Mais para o fim da sua vida escreveu o seu próprio epitáfio, resumindo-se da seguinte maneira: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Recordo Lustiger, que morreu em 2007, aos 80 anos, por esta simples razão: Ele compreendia que para os cristãos o antissemitismo/anti-judaísmo não é apenas um mal, mas uma forma particularmente grotesca de blasfémia e ódio por si mesmo; um ódio pelas nossas origens e raízes no Deus de Israel. Qualquer católico que procure aprofundar a sua fé e aprender a importância do judaísmo para os cristãos através das palavras deste cristão profundamente judeu e judeu profundamente cristão tem apenas que ler os seus livros “Choosing God, Chosen by God” e “A Promessa”. 

Como o próprio Lustiger não se cansava de dizer:

Uma das tragédias da civilização cristã é que se tornou ateia mas afirma permanecer cristã… A sorte reservada aos judeus é uma prova para saber se nós, enquanto pagãos cristianizados, aceitámos verdadeiramente Cristo. É verdadeiramente a prova final. Não se trata simplesmente de uma relação entre o amor pelo vizinho e o amor a Deus. O judeu permanece, de forma muito precisa, um sinal de Eleição e, por isso, de Cristo. Não reconhecer a Eleição dos judeus é não reconhecer a Eleição de Cristo. E é a incapacidade de reconhecer a nossa própria eleição. A lógica é implacável.

A única resposta apropriada é: Amen.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 8 de janeiro de 2020)

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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Casa de Deus

Brad Miner
Se fosse um judeu a viver em Colmar, uma belíssima vila na Alsácia, no nordeste de França, saberia que estava sempre sujeito a ser atacado ou assaltado. Seria um alvo fácil, pois vivia entre os seus correligionários apenas numa zona da vila – principalmente numa única rua, La Rue des Juifs – e por ser devoto da sua fé e das suas práticas, vestia-se de acordo. Não tinha onde se esconder.

Mas podia, isso sim, esconder os seus bens mais valiosos. Foi isso mesmo que fez uma família judaica, criando uma espécie de cofre, um vaso de terracota com todos os seus tesouros, que colocaram num buraco na parede, cobrindo-o com estuque. Contudo, alguma calamidade levou-os a ter de abandonar os tesouros, que só foram descobertos em 1863, precisamente no mesmo sítio, quase 400 anos mais tarde. 

Como se pode ler no catálogo de “O Tesouro de Colmar: Um Legado Judaico Medieval”, a nova exposição no Cloisters, do New York’s Metropolitan Museum, a exposição “recupera a memória da outrora próspera comunidade judaica que foi perseguida como bode expiatória e morta quando a região foi atingida com uma força devastadora pela peste, em 1348-49”.

Quem descobriu o tesouro, que inclui “moedas e loiça de prata e joalharia de ouro e prata, incluindo fivelas elaboradas e quinze anéis de ouro”, deve ter vendido uma parte. O que restou para ser visto e amado pelas gerações futuras está, na maior parte, no Musée de Cluny, em Paris, conhecido também como o Museu Nacional da Idade Média, que posteriormente emprestou vários dos objectos ao MET, para exposição no Cloisters.

No centro da pequena mostra está um grande anel de casamento, adornado com uma réplica imaginada do Templo de Salomão. Era claramente um anel cerimonial, ou seja, nada que se usasse para as lides domésticas, mas criado especificamente para ser usado numa cerimónia de noivado e/ou no casamento propriamente dito. De facto, alguns especulam que o anel passava de geração em geração na mesma família, ou que era usado por várias – se não mesmo todas – as noivas judaicas da aldeia nos seus casamentos.

O anel está inscrito com a expressão perene de parabéns “Mazel tov!”. Na verdade, é uma expressão Ídiche, e não hebraica, embora aqui esteja escrita com caracteres hebraicos. O ídiche surgiu no Século IX na Europa, uma amálgama de hebraico e aramaico misturada com alemão e algumas línguas eslavas. A palavra em si vem de Yidish Taitsh, que significa “judaico alemão”. 

Embora não tenha sido o último, o Nobel da Literatura Isaac Bashevis Singer é certamente o mais famoso autor (e por ventura um dos últimos) a escrever exclusivamente em ídiche, e disse o seguinte:

As pessoas perguntam-me porque é que escrevo numa língua moribunda. Eu gosto de escrever contos de fantasmas e nada fica melhor a um fantasma do que uma língua moribunda. Quanto mais morta a língua, mais vivo o fantasma. Os fantasmas adoram o ídiche e, tanto quanto sei, todos a falam.

É um comentário que se aplica charmosa mas tristemente bem ao que se vê na exposição de Colmar. Claro que o museu – como todos os museus – está recheado de “fantasmas”. Mesmo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque contém sobretudo artistas que já foram desta para melhor. (Depois de uma longa restauração, o MoMA está prestes a reabrir em Outubro).

No Cloisters, porém, os fantasmas parece-me mais dolorosamente presentes, uma vez que esta exposição me parece emblemática da história do antissemitismo: estamos perante obras de grandes artesãos, membros de uma grande cultura, que devido à sua coragem e sabedoria têm sido usados ao longo dos séculos como bodes expiatórios pelos cobardes e os tolos.

Juntamente com os tesouros de Colmar há outros dois itens da coleção permanente do Cloisters: uma Tanakh (ou Bíblia hebraica) e uma Haggadah com 700 anos, ambas originárias de Espanha. A Haggadah, para quem não sabe, é o texto lido na refeição pascal, recordando o início do Êxodo.

Como explica a curadora Barbara Drake:

A sobrevivência da Bíblia hebraica é quase milagrosa… Os nomes e datas inseridas nas suas páginas sugerem que saiu de Espanha até 1492, quando a população judaica foi expulsa. Juntamente com os seus sucessivos donos a Bíblia viajou para oriente pelo Mediterrâneo, aterrando depois na Grécia, mais tarde no Egipto e voltando novamente para a Europa continental. Actualmente é uma de apenas três Bíblias hebraicas iluminadas de Castilha do Século XIV.

É para nós uma especial honra que a Bíblia acabe a sua viagem no Cloisters, onde transformará a nossa apresentação – e a compreensão dos nossos visitantes – sobre a iluminação de manuscritos medievais. Todos os outros livros que temos no Cloisters foram criados para uso cristão (três deles foram feitos em Paris no espaço de 90 anos). Este manuscrito desperta-nos para a comunidade judaica, que foi uma parte vibrante da cultura medieval de Espanha.

Pode parecer forçado, mas a exposição Colmar deixa-me ainda mais entusiasmado com a viagem a Israel que estou a planear com a minha mulher, onde anseio ver o local que Deus escolheu para a sua Encarnação e a pátria de um povo sofredor que conseguiu ultrapassar o sofrimento causado pela perseguição a que foi sujeito.

Devo acrescentar que o Cloisters, um dos meus locais favoritos, é um museu que nos transporta para um mundo em que o catolicismo definia todos os aspetos da vida, para bem e – como esta pequena mostra de artefactos judaicos nos recorda – por vezes para pior.

OTesouro de Colmar” está em exposição até ao dia 12 de janeiro de 2020.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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sexta-feira, 15 de junho de 2018

Falta um para a selecção da AIS

Não dá para fugir ao assunto, começou o mundial!

Quem já entrou no espírito é a fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que apresenta a sua selecção. Têm uma freira à baliza e um cardeal na defesa. Só lhes falta um ponta-de-lança, que pode ser você!

Está suspensa a construção do museu judaico que estava previsto para Alfama, mas em contrapartida o museu de Leiria vai expor as Rosas de Ouro oferecidas pelos Papas ao Santuário de Fátima.

Falámos com o novo bispo de Viseu. D. António Costa mostra-se “optimista e confiante”.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Sucessor para Viseu, Warhol para Roma

A Última Ceia, de Andy Warhol
O Papa mandou investigar novas informações relativas ao bispo chileno Juan Barros, acusado por algumas vítimas de abusos sexuais de ter encoberto o padre que os abusou.

Francisco quer, entretanto, um “novo paradigma” para as universidades católicas.

Lisboa tem um novo rabino. Há dias conversei com Natan Peres, que quer “revolucionar” a comunidade judaica da capital portuguesa. Foi uma conversa muito interessante, que vale a pena lerem.

Esteve em Portugal, a convite da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, o arcebispo de Lahore, no Paquistão, onde os cristãos estão sempre alerta, sobretudo aos domingos.

D. Ilídio Leandro diz que a nomeação do seu sucessor na diocese de Viseu “está para muito breve”.

O Vaticano vai acolher uma exposição sobre Andy Warhol, a grande figura da Pop Art, que era católico devoto.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Milagres vários: Iraque, Fátima e Hanucá

(Clicar para aumentar)
Foi reaberta ao culto a primeira das igrejas iraquianas reconstruídas com o apoio da Ajuda à Igreja que Sofre, depois de terem sido profanadas e danificadas pelo Estado Islâmico. Uma notícia pascal em tempos de Advento!

Os judeus de Portugal tencionam continuar a florescer e não temem o desafio da assimilação cultural, numa altura em que se festeja o Hanucá. Amanhã acende-se a menorá numa cerimónia pública no Parque Eduardo VII a que todos são convidados.

Começam a surgir as mensagens de Natal dos bispos. Já temos Viseu e Angra.

A Igreja está preocupada com as regras de protecção de dados da União Europeia.

Por já passar da meia-noite, e porque provavelmente não haverá mais mails esta semana, publiquei já o artigo desta semana do The Catholic Thing. Howard Kainz fala de um interessante livro que torna acessível e compreensível o Alcorão, ajudando os cristãos a compreender melhor o livro sagrado dos muçulmanos. O autor sublinha a diferença entre o Alcorão antes e depois da fuga de Meca para Medina.

E deixo também o convite para a apresentação do livro de Bernardo Motta, sobre o milagre do Sol, em Fátima, uma obra que certamente será útil para quem quiser aprofundar o fenómeno. Ver imagem.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

“Que o seu sangue caia sobre nós!”

Randall Smith
De todas as leituras do tempo pascal, o que mais me perturba é a passagem de Mateus 25,27, quando a multidão clama “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” Talvez valha a pena recordar que esta passagem encontra-se no Evangelho de Mateus, que era judeu. Estará ele a invocar sobre o seu próprio povo uma maldição multisecular? Não me parece o caso. Este é um mal-entendido frequente, com consequências particularmente trágicas neste caso, mas que corresponde a um padrão comum.

Este “padrão” envolve pegar numa passagem que tem a ver com o sacrifício desinteresseiro de Cristo por toda a humanidade e interpretá-la de uma forma essencialmente pagã, como se Cristo fosse Zeus, ou Apolo.

Um exemplo clássico disto mesmo tem a ver com a forma como algumas pessoas interpretam Efésios 5,22-25, em que São Paulo estabelece uma analogia entre maridos e mulheres e Cristo e a Igreja. As mulheres estão para os seus maridos como a Igreja está para Cristo, e os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a Igreja.

Por alguma razão – e penso que isto tem tanto a ver com a nossa natureza pecaminosa como com maus hábitos de interpretação bíblica – algumas pessoas, sobretudo homens, pensam que isto significa que os maridos podem dominar as suas mulheres. Mas quando é que Cristo dominou a Igreja, se entendermos o domínio como é praticado por um Rei pagão? Cristo lavou os pés aos seus discípulos e disse que “quem quiser ser o primeiro deve servir os outros”. Por isso, no meu entender, quando um marido diz à sua mulher “eu sou como Cristo para ti” ela devia imediatamente tirar as meias e esticar o pé para que ele o lave.

Os deuses pagãos como Zeus e Apolo exigiam que os humanos lhes fizessem sacrifícios. O Deus cristão sacrifica-se inteiramente por nós e morre para perdoar os pecados até daqueles que o crucificam. O que é que pode levar alguém a virar isto ao contrário e, em vez de ver o comentário de São Paulo como um convite ao serviço, interpretá-lo como uma exigência de ser servido?

Seja o que for, não é saudável. E não tem nada a ver com a forma como Cristo se revelou nas Escrituras.

O que nos traz de volta ao comentário perturbador: “Que o seu sangue caia sobre nós”. Enquanto cristãos, em que é que acreditamos? Acreditamos que no sangue de Cristo somos curados e os nossos pecados perdoados. Na Eucaristia, o sangue e o corpo de Cristo são-nos oferecidos tal como foram aos primeiros apóstolos.

A recepção do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia é uma das formas mais poderosas que temos de participar na morte e ressurreição salvífica de Cristo e de receber os seus dons de graça divina. O que nos leva a virar esta bênção de pernas para o ar e entendê-la como uma maldição, quando a intenção de Mateus ao contar esta história é obviamente de dizer que aquilo que se pensava ser uma maldição se tinha tornado, no caso do sacrifício de Cristo, uma bênção?

Jesus era judeu. Maria e todos os primeiros apóstolos também. Nós lemos a Nova Aliança à luz da Antiga, razão pela qual temos tantas leituras do Antigo Testamento na vigília de Páscoa. A única leitura que não deve nunca ser omitida durante a vigília, segundo as normas do Missal Romano, é a do Êxodo, sobre o resgate de Israel do Egipto: o evento que está no cerne da Páscoa do Antigo Testamento. Não podemos verdadeiramente compreender a Última Ceia e a celebração pascal do novo testamento sem este contexto. Como o próprio Cristo diz: “A salvação vem dos judeus” (Jo. 4,22).

Os romanos crucificaram Cristo. Qual o significado então de os judeus gritarem pela sua crucificação? De acordo com João 1,11: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. Foi rejeitado não só pelos romanos “estrangeiros” mas pelo seu próprio povo. E quem é o “seu próprio” povo? Quem é que os judeus representam? Todos nós: toda a humanidade, marcada pelo pecado, que rejeitou Deus.

Não é por nada que na liturgia de Domingo de Ramos toda a Assembleia clama “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Não são apenas os judeus, somos nós. E com eles dizemos: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” E cai mesmo sobre nós, porque é o sangue da Cruz que nos torna inteiros, o sangue da nova e eterna aliança, o sangue de Cristo derramado através do qual somos salvos.

Podemos pedir maior bênção para uma multidão do que esta, que o sangue de Cristo caia sobre ela e sobre os seus filhos?

Vêem como o sacrifício de Cristo transformou aquilo que era entendido como uma maldição numa bênção, não só para os que estavam presentes, mas para todos nós? Aqueles que usam esta passagem como desculpa para odiar ou perseguir judeus estão a passar ao lado da questão. Pior, estão a tornar a bênção de Cristo, comprada a alto preço com o seu próprio sangue, numa maldição novamente. Se esse não for o pior crime que se pode cometer contra o sacrifício salvífico de Cristo, então não sei qual é.

Ah, Santo Jesus, que ofensa cometestes
Que o homem, para vos julgar enveredou pelo ódio?
Desprezado pelos inimigos, rejeitado pelos seus próprios, oh, mais atormentado .

Não se iludam. Quando cantamos este hino, o inimigo somos nós; somos nós quem o rejeita; somos nós que traficámos ódio, disfarçado de rectidão. Somos nós quem o atormenta. Mas apesar de tudo, ele continua a amar-nos – um amor que Ele revela na plenitude derramando o seu sangue por nós na Cruz.

Por isso que o seu Sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos, pois é no seu sangue que somos redimidos e temos a vida eterna.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Abril de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um muçulmano, um cristão e um judeu entram numa escola... Quem fica mais tempo?

No mundo os cristãos tendem a ter mais anos de estudo formal do que os muçulmanos, embora ambos fiquem bem atrás dos judeus. Já em Portugal são os muçulmanos que estudam mais que os cristãos, mas sempre atrás dos judeus… São os resultados de um novo estudo feito pela Pew Research Forum, que tem outros dados interessantes sobre este assunto.

O terrível atentado do passado domingo, contra a comunidade copta no Egipto, foi reivindicado pelo Estado Islâmico. Quem estiver surpreendido que ponha a mão no ar…

Terminou definitivamente a batalha por Alepo. Depois de anos de divisão, a cidade está agora inteiramente controlada pelo regime. Agora temem-se eventuais atrocidades cometidas pelas milícias pró-regime. Entretanto em Beja saiu-se à rua em manifestação pela paz nesta e noutras partes do mundo.

Os padres de Bragança-Miranda vão aprender a “comunicar Deus”.

Devido à minha ausência poderão não ter dado pelo artigo do The Catholic Thing de há duas semanas, em que David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse dirigida apenas por homens do calibre do Leão de Münster. Saiba porquê aqui…

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Papa visita neonatologia e vai receber familiares das vítimas de Nice

Papa no hospital em Roma
O Papa Francisco visitou esta tarde os cuidados intensivos da ala de neonatologia de um hospital de Roma e um lar de doentes terminais, para grande surpresa dos familiares e dos restantes presentes. A acção está inserida no âmbito do jubileu da misericórdia.

Também hoje o Vaticano anunciou que o Papa se vai encontrar com familiares das vítimas do atentado de Nice, em França. Será no sábado dia 24.

Por falar em terrorismo, mais um atentado, desta vez no Paquistão, fez pelo menos 25 mortos esta sexta-feira.

Tristes notícias do Sudão do Sul, um país de maioria cristã que nasceu da cisão com o Sudão muçulmano, mas que não conseguiu evitar cair novamente em guerra civil. Hoje foi anunciado que se juntou ao restrito clube dos países com um milhão de refugiados

Ontem foi divulgado um pergaminho judaico, um rolo da Torá, que terá cerca de 400 anos e foi encontrado numa casa devoluta, na Covilhã!

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como Pio XII lidou com Hitler.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Holocausto foi choque espiritual e psicológico para a Igreja"

Transcrição completa da curta entrevista que fiz ao padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau e especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

O Papa Francisco visita no domingo a sinagoga de Roma. Que significância é que pode ter este gesto?
É o terceiro Papa a visitar a Sinagoga de Roma e é preciso lembrar que a Sinagoga de Roma é simbolicamente muito significativa, porque a grande carta de São Paulo aos Romanos, que foi logo nos primeiros anos do Cristianismo, foi escrita precisamente para a comunidade judaica em Roma, da qual fazia parte também um grupo de judeus que eram cristãos, que eram discípulos de Jesus Cristo. Essa comunidade, provavelmente foi visitada pelo próprio São Paulo e depois por São Pedro e infelizmente ao longo dos séculos sabemos que a relação entre a Igreja Católica e a comunidade judaica resfriou e tornou-se distante. A certa altura os Papas obrigaram os judeus a viver num gueto e é sobre as colinas desse gueto que se construiu a actual sinagoga de Roma. 

Portanto a visita que o Papa faz, na sequência dos seus antecessores, vem na linha de uma perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II de diálogo com a comunidade judaica, compreendendo a comunidade judaica como nossos irmãos na fé. Temos uma grande parte da Bíblia em comum, temos uma longa tradição em comum e infelizmente ao longo dos séculos houve momentos de tensão, de incompreensão, de falta de espírito, de compreensão, por parte, nomeadamente das comunidades maioritárias cristãs, que acabaram por desaguar naquilo que foi a violência da Segunda Guerra Mundial, a chamada Shoah [termo que os judeus usam para designar aquilo a que ficou conhecido como o holocausto].

É à luz dessa experiência que o Concílio faz a sua reflexão e que vários documentos emanados posteriormente pela Santa Sé chamam a nossa atenção para a necessidade de não mais repetir esses erros do passado em que não reconhecemos a nossa fraternidade na fé. 

Considera que foi o holocausto que determinou esta mudança de paradigma?
É muito claramente isso. Basta ler documentos saídos da Igreja um pouco antes da II Guerra Mundial e outros depois da II Guerra Mundial e nota-se a diferença de tom. 

A diferença de tom é resultado de um choque espiritual e psicológico que a Igreja viveu ao dar-se conta do vírus que tinha alimentado no seu seio, que evoluiu para o Nazismo, que não tem nada a ver com Cristianismo nem com a Igreja Católica, mas que nasce neste contexto de uma cultura ocidental em que a tradição de perseguir e mal-tratar os judeus e das comunidades judaicas, desde a literatura até ao quotidiano das cidades, era o habitual. Portanto isso muda radicalmente e nos anos 60 aqueles que são incumbidos de redigir os documentos do Vaticano II, o Cardeal Bea, nomeadamente, é incumbido dessa função por um Papa, João XXIII, que foi delegado apostólico na Turquia durante a II Guerra Mundial, onde ajudou os judeus que fugiam do Nazismo e que passavam por Constantinopla, ou Istambul, a caminho de Israel, portanto é o Papa que tem muito claro na sua consciência que esta tragédia terrível que foi a Segunda Guerra Mundial para a comunidade judaica, que o Cristianismo tem de dar uma volta, tem de perceber o que se passou em termos de desafio espiritual. 

Depois, o Papa João Paulo II é o primeiro que visita Auschwitz. É preciso lembrar que João Paulo II teve contacto com judeus na Polónia, de quem era amigo, e percebeu a violência da Segunda Guerra Mundial contra a população judaica quase em primeira mão, ou pelo menos muito de perto, e portanto faz questão, quando visita a Polónia, de ir para Auschwitz rezar pelas vítimas. Portanto João Paulo II é o primeiro que visita a Sinagoga de Roma, Bento XVI visita a sinagoga e, segundo consta, mantém ainda uma correspondência directa e pessoal com o rabino da Sinagoga, e agora temos o Papa Francisco que, na Argentina, tinha amigos na comunidade judaica e que protagonizou o diálogo com a comunidade judaica na Argentina, que vai retomar esta tradição de o Papa visitar a sinagoga. 

São duas grandes comunidades em termos da tradição espiritual, que se encontram na mesma cidade, e que é bom que se encontrem, como dizia o rabino há dias, numa entrevista, é bom que numa época em que tantas vezes a religião é usada para justificação para violências que são blasfemas, como diz o Papa Francisco, é bom que estas duas comunidades que tantas vezes tiveram dificuldades no passado dêem testemunho que é possível, apesar dessa história, apesar dessa memória, ser-se possível sentar à mesa e dialogar, e encontrarem-se como amigos.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?
Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta.

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. [Sobre este assunto, ver aqui]

Para esta reportagem também foi entrevistada Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Sobre a questão da conversão dos judeus

Edith Stein
No passado Domingo o Papa Francisco esteve na Sinagoga de Roma, onde discursou. A dada altura disse o seguinte: “Os cristãos, para se compreenderem a si mesmos, não podem deixar de referir as suas raízes judaicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação através da fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel”.

Esta foi sem dúvida a passagem mais importante do seu discurso e nela o Papa refere-se a uma discussão teológica interna ao Cristianismo que passa por saber se os cristãos deviam pregar o Evangelho aos judeus. A teoria que parece estar a ganhar terreno na Igreja Católica é que os cristãos não devem procurar evangelizar os judeus de forma especial, uma vez que a Antiga Aliança ainda é válida – uma vez que as promessas de Deus são irrevogáveis, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.

O meu bom amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, leu o discurso e não gostou. Porque o Tiago é boa pessoa e intelectualmente honesto, o seu texto não é um ataque cerrado – que seria fácil mas pouco produtivo de fazer – mas antes uma série de interrogações que, a meu ver, se podem resumir numa só. “Se os judeus não precisam de Jesus, o que é que Jesus veio cá fazer?”

Este meu texto, agora, não é uma defesa da posição da Igreja Católica ou do Papa. Antes, tenciono aqui deixar algumas pistas para ajudar à discussão, porque me parece que esta é uma discussão que importa ter e que não está de forma alguma resolvida.

Sendo assim:

1. Isto não é (assim tão) novo
O discurso do Papa trouxe o assunto mais para a ordem do dia, mas a primeira vez que eu dei por isto foi há mais de uma década. Na altura foi num documento da conferência episcopal americana. Eu li e a dada altura levantei o assunto com um professor do meu mestrado, na altura padre e agora bispo, que disse que achava isso tudo muito estranho. Mostrei-lhe o documento. Ele leu e, basicamente, descartou, dizendo que podia ser um documento de reflexão teológica da Igreja americana, mas a posição da Igreja Universal não era essa.

Mais recentemente a comissão do Vaticano para o diálogo religioso com os judeus publicou um novo documento a dizer basicamente a mesma coisa. “Que os judeus são participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério divino insondável”.

Antes de mais, para muita gente isto pode não ser claro, sobretudo para protestantes que não têm obrigação nenhuma de saber como é que as coisas funcionam no Vaticano, mas nem um documento da comissão para o diálogo, nem um discurso do Papa numa sinagoga vinculam a Igreja Universal a uma posição. Não me parece correcto, simplesmente por uma questão de rigor, dizer que a posição da Igreja Católica agora é esta ou aquela. Penso, aliás, que isto é claramente um “work in progress”. Todavia, o facto de o Papa ter endossado a ideia num discurso público não é, obviamente, irrelevante. O que quero deixar claro é que dentro da Igreja a ideia não é de modo algum unânime.

Cardeal Lustiger
Contudo, esta também não foi, ao contrário do que eu pensava quando li o discurso, a primeira vez que um Papa subscreve publicamente esta ideia. Rapidamente no twitter recebi referências de outras instâncias. Nomeadamente no Evangelii Gaudium, nº 247: “Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’”.

Mas o EG é um texto do Papa Francisco, portanto quem acha, como o Tiago, que este é o pior Papa das últimas décadas (e não são só protestantes que o acham), dificilmente se deixará tocar por isto. Mas a maioria dos grandes críticos de Francisco nutrem, ao mesmo tempo, uma enorme admiração por Bento XVI. Sei que é o caso do Tiago e sei que todos concordarão que BXVI não é o tipo de teólogo de se deixar levar por sentimentalismos.

Vejamos então o que ele escreveu nos seus livros sobre Jesus de Nazaré:

“A este respeito, no horizonte de fundo, aparece sempre também a questão sobre a missão de Israel. (…) uma nova reflexão permite reconhecer que é possível, em todas as obscuridades, encontrar pontos de partida para uma justa compreensão.

Quero referir aqui o que, relativamente a este ponto, aconselhou Bernardo de Claraval ao seu discípulo, o Papa Eugénio III. Recorda ao Papa que não lhe foi confiado o cuidado apenas dos cristãos. “Tu tens um dever também para com os infiéis, os judeus, os gregos e os pagãos”. Mas corrige-se logo a seguir, especificando: “Admito, relativamente aos judeus, que tens a desculpa do tempo; para eles foi estabelecido um determinado momento, que não se pode antecipar. Primeiro devem entrar os pagãos na sua totalidade. (…)

Hildegard Brem comenta assim este trecho de Bernardo: “Na sequência de Romanos 11,25, a Igreja não se deve preocupar com a conversão dos judeus, porque é preciso esperar o momento estabelecido por Deus, ou seja, “até que a totalidade dos gentios tenha entrado”. Ao contrário, os próprios judeus constituem uma pregação vivente, para a qual deve apontar a Igreja, porque nos trazem à mente a paixão de Cristo”.
Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição - Capítulo II, ponto 2

Este artigo contém uma interessante análise e comentários a este ponto.

2. O “efeito holocausto”
Embora seja relativamente fácil dizer que estas teorias são apenas o resultado de um complexo de culpa que sentimos em relação ao holocausto, por este só ter sido possível graças ao facto de haver um terreno fértil para o anti-semitismo, para o qual contribuíram mais de mil anos de Cristianismo europeu – o que não é obviamente o mesmo que dizer que o Cristianismo foi responsável pelo holocausto, atenção – penso que não é assim tão simples. Poderá ser um factor, mas não explica tudo. O já citado São Bernardo de Claraval não sofria certamente de complexos do holocausto.

Mas penso que o holocausto pode ter despertado entre os teólogos uma dúvida. Como é que uma ideia aparentemente tão benévola, de querer levar aos judeus o conhecimento do Messias que tanto dizem esperar, pode ter tido consequências tão trágicas ao longo de tantos séculos? É que não foi uma vez nem duas, foram centenas. Só para dar um exemplo, já que este texto pretende ser um diálogo com um pastor que se identifica com a tradição luterana, vemos o que aconteceu quando Lutero viu frustradas as suas tentativas de converter os judeus. Em 1543 escreveu o panfleto “Sobre os judeus e as suas mentiras” em que recomenda a destruição de casas e sinagogas de judeus, a proibição dos seus livros sagrados e dos rabinos ensinarem, etc. etc. Tragicamente, existem demasiados exemplos no lado católico também.

Repito que este meu texto não tem por objectivo defender a teoria de que não precisamos de pregar aos judeus, apenas de levantar mais algumas questões e apontar para fontes que podem contribuir para o aprofundamento. E é nesse sentido que pergunto se não é natural que alguém pense que esta estratégia de tentar converter os judeus fez mais mal do que bem ao longo dos milénios e se isso não será sinal de que o caminho não é esse, sobretudo tendo em conta o suporte neo-testamentário já citado.

Pe. David Neuhaus
3. Vozes ausentes
No meio de tudo isto, confesso que há vozes que ainda não ouvi mas que penso que são fundamentais para este debate. Refiro-me a católicos que tenham nascido judeus. O Cardeal Lustiger, de Paris, que morreu em 2007, sempre se afirmou judeu e embora não tenha ideia de ele ter abordado esta questão especificamente, pelo que ele dizia, nomeadamente ao intitular-se um “fulfilled Jew” (falta-me agora um termo adequado em português), leva-me a crer que discordaria da ideia de não se pregar aos judeus, embora esteja apenas a especular.

O padre David Neuhaus, que é vigário-geral para os católicos de língua hebraica, na Terra Santa, seria uma voz a ouvir também, mas tanto quanto vejo na net, ainda não se pronunciou sobre isto em particular. Se alguém tiver dados em contrário, que me avise.

Também não conheço suficientemente a obra de Edith Stein sobre esta questão, mas imagino que possa ter algo a dizer.

Este é um assunto complexo e que merece certamente muita reflexão e debate. Penso que todos, cristãos católicos ou reformados, ou mesmo judeus, temos a ganhar em fazê-lo e agradeço por isso o texto do Tiago que me levou a escrever este. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Morte de um Grande Rabino

Filip Mazurczak
No domingo dia 19 de Abril, dias antes de fazer 100 anos, morreu Elio Toaff, antigo rabino-mor de Roma. Grande promotor do diálogo entre católicos e judeus e amigo de São João Paulo II, o rabino Toaff testemunhou uma era em que católicos e judeus – que para além do Antigo Testamento partilham uma herança espiritual com origem em Abraão, mas que foram frequentemente separados pela história – abandonaram, de forma dramática, preconceitos antigos.

Embora o Cristianismo tenha surgido do seio do Judaísmo, as relações entre judeus e cristãos foram muitas vezes dolorosas. Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão decretou que os judeus deviam usar roupas que os distinguissem dos cristãos. Em 1555 o Papa Paulo IV criou o gueto judeu de Roma, que foi o último gueto europeu até ser abolido em 1888. Muitos cristãos acusaram os judeus de terem morto Cristo e as encenações de Sexta-feira Santa serviram frequentemente de inspiração para fomentar violência anti-judaica pela Europa fora.

Mas as relações entre cristãos e judeus nem sempre foram marcadas pela hostilidade. Na Idade Média os judeus foram muitas vezes defendidos, sobretudo por figuras como São Bernardo de Clairvaux (a razão pela qual muitos judeus ainda se chamam Bernardo) e o Papa Inocêncio IV. A corte pontifícia empregava médicos judeus e o Papa Gregório I promovia a tolerância para com os judeus já no século VII. Em todo o caso, a desconfiança continuou a separar cristãos e judeus durante vários séculos.

No século XX isto mudou radicalmente, para melhor. Hoje, as orações ecuménicas entre judeus e cristãos são um aspecto comum da vida religiosa em todo o mundo. Os líderes cristãos condenam frequentemente o anti-semitismo. Actualmente, o principal bastião de anti-semitismo católico é a Sociedade de São Pio X, um grupo cismático. Entretanto, afirmações escandalosas como as do Cardeal Oscar Rodrigues Maradiaga, que afirmou que os meios de comunicação social controlados por judeus usam as histórias de abusos sexuais de padres católicos para desviar as atenções do conflito israelo-árabe, são a excepção e não a norma.

Esta transformação foi possível graças á boa-vontade de pessoas como Elio Toaff.

Nascido na Toscânia em 1915, filho de um rabino, Toaff passou a II Guerra Mundial a combater na resistência anti-fascista italiana. Testemunhou o massacre de mais de 500 civis em Sant’Anna di Stazzema, na Toscânia e na última entrevista publicada antes da sua morte, disse ao site italiano judeu Moked que tinha experienciado hostilidade enquanto judeu na Itália de Mussolini, o maior aliado do Terceiro Reich. A única razão pela qual não saiu da Europa foi porque se recusou a abandonar a sua comunidade em tempo de perigo.

Mas Toaff testemunhou também a significativa ajuda que um grande número de católicos deu a judeus, apesar dos preconceitos da altura. Embora se tenha tornado moda falar do Papa Pio XII como o “Papa silencioso”, ele condenou regularmente o nazismo na Rádio Vaticano e apelou aos conventos italianos para darem refúgio a crianças judias, tendo ele mesmo escondido várias em Castel Gandolfo e no Vaticano.

Tendo visto a ajuda que os católicos deram aos judeus, Toaff – que se veio a tornar rabino-mor de Roma em 1951 – comentou, após a morte de Pio XII: “Os judeus recordar-se-ão sempre do que a Igreja Católica fez por eles, por ordem do Papa, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando a guerra estava no auge, Pio XII levantou a voz várias vezes para condenar a falsa teoria das raças”.
João Paulo II e o rabino Toaff

Pouco tempo depois viriam mudanças significativas. São João XXIII removeu a oração “pela conversão dos pérfidos judeus”da liturgia da Sexta-feira Santa e, em 1965, a Igreja promulgou o Nostra Aetate, que declarou que os judeus, enquanto povo, não são responsáveis pela morte de Cristo.

A reconciliação entre judeus e católicos acelerou depois da eleição de João Paulo II em 1978. Ele já tinha muitos amigos judeus na sua Polónia natal; o mais próximo dos quais, Jerzy Kluger, tinha combatido no exército polaco que libertou a Itália dos Nazis. Kluger permaneceu em Roma até à sua morte, acabando por se tornar um elo importante entre o Papa e o mundo judeu.

Entretanto, quando o Governo comunista da Polónia iniciou uma campanha anti-semita em 1968, forçando muitos judeus a emigrar, o cardeal Karol Wojtyla visitou a sinagoga de Cracóvia e expressou a sua solidariedade para com os judeus polacos.

Providencialmente, o rabino Toaff liderava nessa altura a comunidade judaica de Roma. Em 1986, João Paulo II fez uma visita oficial à Grande Sinagoga de Roma, tornando-se o primeiro Papa desde São Pedro a visitar um local de culto judeu. Os dois homens cumprimentaram-se e rezaram. A imagem do Papa polaco e do rabino italiano a abraçarem-se e a sorrir tornou-se uma das mais icónicas do pontificado de João Paulo II. Foi Toaff quem iniciou este evento histórico, tendo tomado a iniciativa de convidar o Papa a visitar a sinagoga. Essa foi a primeira ocasião em que o Papa disse que os judeus são os “irmãos mais velhos na fé”, uma frase original de Adam Mickiewicz, o poeta nacional filo-semítico da Polónia.

A amizade entre os dois foi imediata. Mais tarde, no mesmo ano, João Paulo II convidou Toaff para participar com ele e com os líderes de muitas das outras religiões mundiais no Dia Mundial da Oração pela Paz, em Assis. Em 1994 Toaff e João Paulo II presidiram a um concerto no Vaticano para comemorar as vítimas da Shoah. Entretanto, Toaff ajudou a coordenar a visita de João Paulo II à Terra Santa, no ano 2000. Toaff foi uma de apenas duas pessoas referidas no testamento do Papa, a outra sendo o seu secretário, o arcebispo (agora cardeal) Stanislaw Dziwisz.

Tendo visto em primeira mão o fascismo, a ocupação de Itália pelos nazis, o anti-semitismo e o renascimento da comunidade judaica de Roma, o rabino Elio Toaff foi testemunha da história do Judaísmo no seu país. Mas acima de tudo ele possuía um coração aberto ao diálogo e à reconciliação. Os seus gestos para com os católicos e a sua amizade com São João Paulo II desempenharam um papel crucial no verdadeiro milagre que foi a mudança radical da era de desconfiança mútua para uma era em que os judeus são novamente os nossos “irmãos mais velhos”.

Alav Ha-sholom.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Abril de 2015 em 
The Catholic Thing
)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quarta-feira de cinzas e de lágrimas, se Deus quiser!

Jesus ressuscita Lázaro, depois de ter chorado
É Quarta-feira de Cinzas e por isso começa a Quaresma.

O Papa Francisco apelou ao Dom das Lágrimas como medida contra a hipocrisia. Neste artigo explicamos o que é esse conceito que data dos padres do deserto. Também hoje o Papa recebeu alguns dos responsáveis pelo resgate de imigrantes ilegais no Mediterrâneo, a quem agradeceu e disse sentir-se pequeno na sua presença.

Neste primeiro dia da Quaresma pedimos a três personalidades católicas, e um não-crente, que comentassem a mensagem do Papa. Não perca as interessantes reflexões.


Um homem judeu filmou-se a si mesmo a passear por Paris a divulgou as ofensas a que foi sujeito durante o dia.

Na segunda-feira disse que estava prestes a começar os 40 dias de oração pela vida, em Lisboa. Hoje foi o primeiro dia e percebeu-se que há, de facto, muito que rezar. Não deixem de participar e de se inscrever caso possam.

Porque é quarta-feira, temos artigo novo do The Catholic Thing. O padre Bevil Bramwell diz que liberdade religiosa e liberdade de expressão são conceitos bonitos, mas para serem úteis têm de significar alguma coisa de concreto.

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