quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Armas nucleares, bullying e um bispo do Caracas

O Papa concluiu ontem a sua viagem ao Japão. Como ponto alto destacaria as idas a Hiroshima e Nagasaki e as palavras sobre o bullying.

Um bispo de Caracas esteve em Lisboa e falou com a Renascença sobre as dificuldades que se vivem na Venezuela.

A Santa Sé anunciou a criação de uma comissão consultiva de jovens que vai aconselhar o Vaticano sobre questões de pastoral juvenil. São só 20 e há lá um português.

Muitas das conquistas a nível de liberdade religiosa e de consciência têm por base o respeito pela crença individual das pessoas. É um caminho que tem dado alguns resultados mas que, segundo Hadley Arkes, é perigoso e pode ser contraproducente a longo prazo. Está tudo no artigo desta semana do The Catholic Thing.

A Armadilha Política das Crenças

Hadley Arkes
No final dos anos 70 fui convidado para um debate sobre o aborto na empresa de advocacia Hogan & Hartson, em Washington. Do outro lado estava uma jovem mulher da ACLU. Procurei mostrar, como é meu costume, que a discussão sobre o aborto pode ser colocada na forma de um argumento de princípios, sem qualquer apelo à fé ou à religião.

Como sempre, parti de um texto que Lincoln escreveu para si mesmo, em que se imaginava num debate com um esclavagista e em que questionava o direito deste homem de escravizar o negro. Seria ele menos inteligente? Então atenção, argumentava Lincoln, pois isso dá o direito ao teu vizinho branco mais inteligente que tu de te escravizar a ti.

À medida que o argumento avançava tornava-se claro que não há nada que se possa invocar para justificar a escravatura de um negro que não se possa aplicar também a muitos brancos.

Então eu conclui que podemos usar a mesma argumentação no que toca ao aborto: porque é que o nascituro que se desenvolve num útero humano é algo menos que humano? Não fala? Os mudos também não. Não tem braços nem pernas? Outras pessoas perdem braços e pernas ao longo da vida sem que isso limite o facto de serem seres humanos de plenos direitos, merecedores de proteção legal.

Em lado algum eu recorria a argumentos de revelação ou de fé. Este é um argumento que pode ser apreendido independentemente de divisões religiosas, por católicos, baptistas, muçulmanos e ateus.

É essa a revelação bombástica – não é preciso ser-se católico para compreender este argumento, e essa tem sido a posição da Igreja: Pode-se defender a ilicitude do aborto com base nas provas científicas da embriologia, junto com raciocínio lógico, que é como quem diz, com a moralidade do direito natural.

Enquanto eu falava a rapariga da ACLU escutava, sorridente. Quando acabei acenou simpaticamente com a cabeça e disse: “Isso são as suas crenças”. Eu tinha-lhe apresentado um argumento moral, explanado através de premissas que podiam ser analisadas e compreendidas por qualquer pessoa funcional, independentemente da sua religião, mas ela conseguiu reduzir tudo o que fosse um argumento moral a uma mera questão de “crença”.

O falecido jesuíta John Courtney Murray avisou-nos da tendência para denegrir a religião, reduzindo-a a meras “crenças” sem qualquer pretensão de verdade para outros que não os seus proponentes. Uma vez absorvido esse belo cliché, os Bidens e os Cuomos do mundo podiam armar-se em superiores, dizendo que não podiam impor as “crenças” da sua Igreja a mais ninguém.

E eis que nos nossos dias encontramos agora a ironia de uma ideia falsa se ter virado contra si mesma. Com o desenrolar da “guerra cultural” o aborto está agora firmemente implantado na lei, juntamente com o casamento homossexual e o “transgénero”.

Supremo Tribunal dos EUA
Perante esta realidade encontramos pessoas que se opõem a estas coisas a procurar um abrigo das exigências da lei invocando o seu direito à liberdade religiosa. Temos assim a família Green, donos da famosa cadeia de lojas Hobby Lobby, que tenta evitar dessa forma a exigência do Governo federal de cobrir abortos e contraceptivos nos seguros de saúde dos seus funcionários.

Os Green justificam a sua posição com a “crença” de que a vida começa na concepção. Crença? Esse é um facto que consta de todos os manuais de embriologia e ginecologia obstétrica.

Contudo, os meus amigos que se dedicam a defender a liberdade religiosa nos tribunais têm-se mostrado dispostos a aceitar este tipo de argumento porque tem dado resultado para os Green e outros. Existe, contudo, um ponto que torna tudo isto mais complicado… Encontramos pessoas que fazem precisamente os mesmos argumentos morais sobre o aborto do que a Igreja Católica, mas que não são católicos.

Como é que podemos defender que os empresários católicos devam estar isentos da obrigação de financiar abortos mas que o mesmo não se aplica ao homem que defende precisamente a mesma posição, mas que por acaso não é católico?

Essa dificuldade tornou-se a chave para compreender um perigo mais profundo. As mesmas pessoas que têm defendido sem problemas os argumentos com base em “crenças” não parecem preocupar-se com as implicações preocupantes que surgem destes argumentos que têm sido propostos. Se, de facto, os nossos juízos morais podem ser reduzidos a um conjunto de crenças, então aquela mulher da ACLU tem o trunfo na mão.

Digamos que a decisão de Roe v. Wade, que legalizou o aborto nos Estados Unidos, é anulada, e que se torna possível novamente fazer leis que protegem o nascituro. Mas se os pró-vida podem alegar “liberdade religiosa” para não serem obrigados a fazer ou financiar abortos, então vamos ficar surpreendidos quando os defensores da bondade do aborto invocarem liberdades semelhantes?

Porque não hão de invocar “liberdade religiosa” para fazer abortos, mesmo contra as leis que então os proibiriam? Existe um caminho para proteger médicos, enfermeiras e outros que não querem ser cúmplices de abortos. Mas estar a invocar esse direito com base em “crenças” religiosas é lançar as bases para desfazer as mesmas leis sobre o aborto que alguns de nós lutamos há tanto tempo para restaurar.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 19 de Novembro de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Missionários não são mercenários, mas mendigos

O Papa Francisco começou hoje a sua actividade pública na Tailândia. Primeiro teve um encontro com as autoridades civis, depois visitou o líder budista do país e a seguir encontrou-se com funcionários de um hospital católico.

A fechar o dia celebrou missa no Estádio Nacional de Banguecoque onde disse palavras extraordinariamente bonitas sobre o trabalho missionário. Vale muito a pena ler.

Este fim-de-semana decorre o Encontro Nacional de Leigos, em Santarém. Tem um bom cartaz, vale a pena irem, se possível.

A paróquia de São Tomás de Aquino volta este ano a realizar uma série de conferências a não perder. Podem consultar a agenda completa aqui. O tema deste ano é “Viver hoje a caridade”.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O que é a Pachamama e o que não é a Pachamama

Peço desculpa pela minha longa ausência, que se deve a viagens e excesso de trabalho. Tentarei ser mais regular nas próximas semanas!

O Papa chegou esta quarta-feira à Tailândia, fica até sexta-feira e depois segue para o Japão. Oficialmente Francisco celebra na Tailândia os 350 anos do Catolicismo naquele país, onde o a religião chegou, na verdade, há mais de 500. Mas não digam nada aos franceses…

A Santa Sé volta a insistir na solução de dois estados para a Terra Santa, lamentando “recentes decisões” que dificultam o processo de paz.

Estiveram recentemente em Portugal dois representantes políticos da comunidade cristã do nordeste da Síria para falar sobre a situação que lá se vive. Para além de reuniões políticas estiveram na Renascença para dizer que a única maneira de estancar o fluxo de refugiados é apoiando a paz naquela região.

Destaque ainda para uma entrevista à missionária que levou as imagens da Pachamama para Roma e que explica exatamente o que são e o que não são. Ela acompanhou o sínodo da Amazónia, que diz ter sido positivo, mas que ainda não acabou.

Aproveito para divulgar os dois últimos artigos do The Catholic Thing em português, ambos excelentes. Randall Smith pergunta porque é que os católicos se satisfazem com a mediocridade nas suas instituições de ensino, dando exemplo de seminaristas que plagiam impunemente nos seus cursos e Gunnar Gundersen explica que a noção de um país pós-cristão é contrassenso. Do Cristianismo um país apenas pode passar a anticristão. Fica o aviso.

Uma América Pós-Cristã?

Gunnar Gundersen
A sondagem recentemente publicada pela Pew Forum, que dá conta da continuada erosão da fé cristã nos Estados Unidos, levou a uma torrente de comentários sobre a América “pós-cristã”. E mesmo antes desta última ronda de previsões o termo “pós-cristão” já tinha sido usado por muitos comentadores.

Entre estes inclui-se o Rod Dreher, que o usou no subtítulo do seu livro “A Opção Beneditina”. Mas será que uma nação pode alguma vez tornar-se pós-cristã?

Tendemos a discutir o estado da religião na América da mesma maneira que falamos de modas sociais que vamos ultrapassar, como perucas ou cassetes VHS – a sociedade há de se esquecer. A América, pensamos, vai cansar-se do Cristianismo.

Mas o Cristianismo não é uma teoria, é um encontro com uma Pessoa, com o Alpha e o Omega. Cristo é o fim de todas as coisas. Não é possível simplesmente ultrapassá-lo depois de O ter aceite.

Tal como diz o Papa Bento XVI em Spe Salvi, uma sociedade que rejeita Cristo não se limita a seguir em frente. Pelo contrário, este tipo de sociedade irá, como disse Kant, colocar-se em oposição a Cristo. Assim, em vez de pós-cristã, uma sociedade que rejeitou o Cristianismo deve tornar-se necessariamente anticristã. “Portanto, não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no ‘fim perverso’ de todas as coisas, descrito por Kant [reino do Anticristo]: já o vimos e vemo-lo sempre de novo.” [23]

Nos lugares onde a Cruz é substituída por símbolos estranhos e novas ideologias, aqueles que vivem de acordo com a Cruz não podem se tolerados. Desde a Revolução Francesa à Revolução de Outubro da Rússia, já vimos esta novela vezes e vezes sem conta. A nossa deriva nesta direção poderá estar disfarçada pelas boas maneiras anglo-americanas, mas isso não muda o objetivo final pretendido.

A imagem romântica de cristãos resistentes a sobreviver segundo a “opção beneditina” numa América pós-cristã pode parecer bonita, mas não passa de uma fantasia. Não haverá onde nos escondermos se os nossos vizinhos decidirem que o Cristianismo não é digno do seu amor.

É de realçar que alguns académicos e activistas de esquerda já começaram a descrever o baptismo infantil e a formação cristã como formas de abuso infantil ou violações dos direitos humanos. Se a tendência de descristianização continuar não é provável que esta posição continue remetida para as margens durante muito mais tempo, partindo do princípio que ainda o é. Aliás, uma das principais defensoras desta teoria é a antiga Presidente da Irlanda, Mary McAleese, que a desenvolveu na sua tese, feita na Universidade Gregoriana de Roma. Não é propriamente uma pessoa das margens.

A ideia de que será possível chegar a um nobre entendimento entre os cristãos e os arquitectos da América pós-cristã não deve ser levada a sério. Aquilo de que precisamos é de testemunho e da disposição para sermos francos sobre a necessidade do Cristianismo para o correcto funcionamento da democracia no Ocidente, como explica o cardeal Joseph Ratzinger:

Entretanto o facto permanece que esta democracia [moderna] é produto da fusão das heranças grega e cristã e por isso apenas pode sobreviver com esta ligação fundacional. Se não voltarmos a reconhecê-lo e, por conseguinte, aprendermos a viver a democracia com vista ao Cristianismo e o Cristianismo com vista ao estado livre democrático, arriscamo-nos certamente a perder a democracia.

O pacto do Mayflower
John Adams disse o mesmo, da seguinte maneira: “A nossa Constituição foi feita para um povo moral e religioso. É inteiramente desadequado ao governo de qualquer outro”. E em Gettysburg Abraham Lincoln também reconhece que esta República se colocava “sob Deus”. Este entendimento penetrou o nosso juramento, o lema e os feriados nacionais.  

Os cristãos devem insistir que a sociedade não pode ser livre e simultaneamente anticristã. As primeiras colónias foram fundadas para promover a religião cristã através do Governo consentido. Isso fica claro nas palavras do Pacto do Mayflower: Tendo empreendido para a Glória de Deus, e Avanço da Fé Cristã, e Honra do nosso Rei e País, uma viagem para estabelecer a primeira colônia no norte da Virgínia; os presentes fazemos pacto solene e mutuamente na Presença de Deus e nós próprios, para conjuntamente formar um Corpo Político Civil para nossa Ordem, Preservação e Fomento dos objetivos referidos acima.

Ratzinger reconheceu que a fusão dos ideais democráticos com o dever cristão, própria da América, marcou o nascimento da democracia moderna: “A democracia como a entendemos hoje não surgiu automaticamente a partir desta raiz mas, de facto, foi formada primeiramente à luz das circunstâncias especiais do congregacionalismo americano, ou seja, à parte das tradições clássicas europeias da relação Igreja-Estado que cá se desenvolveu historicamente”. Esta fusão espalhou-se depois pelo mundo à medida que a influência global da América aumentou.

Os nossos concidadãos precisam de ouvir dizer que a democracia americana não pode sobreviver sem o respeito e o apoio da moral e da religião judaico-cristãs. Isto não é o mesmo que defender uma visão teocrática de Governo, é simplesmente reconhecer a raiz que alimenta o sistema democrático, que hoje muitos reconhecem como estando em perigo.

John F. Kennedy, Ronald Reagan e Barack Obama todos reconheceram a vontade dos primeiros colonos de fundar a América como uma cidade no topo de um monte – recordando o sermão de John Winthrop: 

Veremos que o Deus de Israel está entre nós, quando dez de nós serão capazes de resistir a mil dos nossos inimigos, quando ele fizer de nós um louvor e uma glória, tanto que os homens dirão das próximas colónias: ‘que o Senhor a faça como a de Nova Inglaterra’. Pois devemos considerar que seremos como uma cidade no topo de um monte.

Winthrop acrescentou um aviso, que os nossos políticos tendem a não mencionar mas que ecoa nas palavras de Bento XVI : 

Os olhos de todos os povos estão sobre nós. E se formos falsos com o nosso Deus nesta obra que empreendemos, e assim o levarmos a retirar de entre nós a sua presença, fará de nós uma história e uma lição para o mundo.

Um aviso pertinente de que apenas teremos esta República – sob Deus – enquanto a conseguirmos manter.


Gunnar Gundersen é investigador na James Wilson Institute on Natural Rights and the American Founding. A sua área de pesquisa inclui Liberdade Religiosa, Direitos de Propriedade e Jurisprudência.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 16 de Novembro de 2019)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Porque não a Excelência?

Randall Smith

Está à procura de uma boa catequese para um amigo? “Oh não. Onde é que o podemos mandar sem que perca a fé?” Preparação para o matrimónio? “Epá, vão ter de aguentar, mas não liguem a grande parte das coisas que vão ouvir.” E acontece o mesmo aos bispos que querem mandar seminaristas para formação. “Oh não, onde é que os podemos mandar que não sejam corrompidos e fiquem com a fé minada?”

Porque é que estamos constantemente neste estado absurdo de procurar a opção menos má? Porque é que as instituições de educação católicas não são as melhores do país? E até do mundo?

Tenho uma amiga que trabalha com seminaristas. Ano após ano ela lida com candidatos ao sacerdócio que não sabem escrever nem lêem. Queixa-se ao responsável pelos estudos. “Sim”, diz ele, abanando a cabeça, “temos de fazer melhor”. Mas nunca fazem. Não se preocupam o suficiente para fazer a diferença. Vemos o mesmo a acontecer na educação a toda hora. Este tipo de “preocupação” é um mero sentimento, não uma intenção viva de fazer algo de concreto. Mais tempo fora da sala de aula. Mais tutoria. Mais esforço dedicado a assuntos difíceis.

Em vez disso levamos constantemente com “reorganizações” em que nada de substancial acontece. Acabamos por ver repetições do mesmo, com diferentes categorias e pessoas mudadas de um lado para o outro, com novos títulos. Depois os responsáveis dizem: “Temos uma nova e importante iniciativa”, mas de novo e importante não tem nada. Esta “importante nova iniciativa” é, de facto, praticamente igual na sua falta de profundidade às últimas cinco “novas iniciativas importantes” que não resolveram os problemas.

E para dizer a verdade, ninguém se preocupou o suficiente depois desses anúncios para garantir que estavam a resolver os problemas. Foram anunciados. Isso deixou-nos satisfeitos. O novo programa, disseram-nos, resultou de horas e horas de “trabalho árduo” – o que significa reuniões sem fim com diferentes “grupos de interesse” que era preciso apaziguar. O resultado é que acordavam no denominador comum mais baixo. Não o melhor, nem o pior, apenas o menos mau.

A minha amiga que faz tutoria a seminaristas tem de ler os seus trabalhos de “Homilética Avançada”. Um terço deles são claramente plagiados. Ela informa o seminário. Nada acontece. Já pensou porque é que as homilias são tão fracas? É porque temos seminaristas que não lêem e não sabem escrever, e raramente são obrigados a fazer uma coisa ou outra. Como é que podemos esperar que um seminarista que nunca leu e que não sabe escrever construa uma homilia sensata e entusiasmante? Que mais podemos esperar de homens tão mal treinados do que platitudes piedosas ou frases feitas ideológicas?

Futuros padres são apanhados a fazer batota numa cadeira de homilética avançada e os seus superiores limitam-se a olhar para o lado? Porquê? A resposta: “Precisamos de padres!” Mas não, do que precisamos é de bons padres. E não os teremos, não os conseguiremos desenvolver, se não deixarmos de aceitar a mediocridade e a opção menos má, insistindo antes na excelência.

Um seminarista foi ter com a minha amiga no final do ano lectivo e disse-lhe que precisava de ler mais. Queria saber o que é que devia ler. Ela recomendou as Confissões de Santo Agostinho. Quando regressou, no final do Verão, tinha lido esse e todo o Kristin Lavransdatter (mil páginas). Disse que lhe tinha mudado a vida.

Se aguentam com Rowling, aguentam com Agostinho
Estou neste momento a escrever um manual de introdução à teologia moral. Toda a gente me pergunta a que nível é que me dirijo. Respondo que estou a dirigir-me a alunos de final de liceu e universitários. “Escrevi ao mesmo nível dos meus artigos do ‘Catholic Thing’, mas cada capítulo tem umas vinte páginas”. Abanam logo a cabeça. “Não consegues meter miúdos a ler tanto, nem a um nível tão avançado. Não são capazes. Não podes esperar que leiam mais do que cinco a dez páginas de prosa simples.”

A sério? Estamos a falar de miúdos que leram os sete volumes da série Harry Potter e toda a trilogia do Senhor dos Anéis, memorizando blocos inteiros, e não podemos esperar que leiam vinte páginas do nível de escrita do “Catholic Thing” porque é “demasiado difícil” e “complicado”? Acho isso insultuoso. Recuso-me a acreditar. Porque é que temos de ser sempre arrastados por este peso da mediocridade? Porque é que não estamos constantemente a desafiá-los a ir mais longe, a procurar a excelência?

Os atletas olímpicos treinam incansavelmente, como bem nos diz São Paulo. Tenho miúdos na minha sala que treinam tanto que mal conseguem subir um lance de escadas. Mas estamos aterrorizados de os assustar, tão envergonhados pela nossa fé, que não nos atrevemos a pedir-lhes que leiam vinte ou trinta páginas que lhes possam mudar a vida?

Esperamos qualidade de excelência olímpica no desporto, mas quando chega à teologia damos-lhes papinhas de bebé? É desprezível. E acreditem no que vos digo, com isso só aprendem a desprezar-nos. Eu converti-me em adulto e lembro-me bem de me terem tentado impingir essas mesmas papinhas quando tinha a idade deles. Não me interessei pelo Cristianismo até ler as Confissões de Agostinho e o "Tratado da Lei" de São Tomás de Aquino na universidade. “Caramba”, pensei, “estes tipos são de outro nível. A religião afinal não é um conjunto de pieguices. Há aqui substância. Agora sim, estou interessado”.

Não fiquei totalmente convencido, mas tinham conseguido a minha atenção. Nada do que normalmente se destinava “aos adolescentes” tinha merecido o meu respeito ou conseguido grande parte da minha atenção. “Voltem quando tiverem algo de interessante para me dizer”, pensei – qualquer coisa séria como as pessoas que fundaram empresas, ou foram à guerra, ou amararam um jato sem motores no Rio Hudson.

Os jovens adultos gostam de se divertir, mas quando vão a uma conferência ou a uma aula querem algo sério e com substância, ou então sentem que estamos a desperdiçar o seu tempo. Já os seminaristas, se não os conseguimos convencer a levar a sério a sua vocação ao ponto de ler livros e não fazer batota, então não devemos deixar que desperdicem o tempo dos outros.




Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Novembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Bebés no lixo e um novo santo

Frei Bartolomeu dos Mártires
Portugal tem um novo santo. Frei Bartolomeu dos Mártires foi canonizado ontem. Trata-se de um “santo com o cheiro das ovelhas”, como diz D. Anacleto, de Viana do Castelo, a diocese onde ele morreu.

Numa interessantíssima entrevista sobre a canonização, D. Jorge Ortiga falou do novo santo mas comentou também a atualidade, dizendo que o Estado devia investir em cuidados paliativos e não em matar pessoas, isto a propósito da Eutanásia.


O caso da mulher que pôs um bebé no lixo continua a dominar as atenções. Há muito a refletir sobre este triste evento, que felizmente não acabou em tragédia, mas uma das conclusões que tiro é que a reação geral de compaixão pela mulher que deixou o seu bebé num ecoponto desmascara a argumentação de quem defendeu a liberalização do aborto nas campanhas dos referendos.

Mais um dia triste no nordeste da Síria, onde hoje foram assassinados dois padres – pai e filho – e uma igreja foi atingida por uma bomba. Rezemos.

Por falar em cristãos do mundo árabe, está de volta a Portugal o Nicolas Ghobar, um cristão palestiniano que vende artigos de artesanato para ajudar a sustentar os cristãos da zona de Belém, na Terra Santa. Saibam mais aqui e ajudem!

Não deixem de ler o artigo encorajador da semana passada do The Catholic Thing

domingo, 10 de novembro de 2019

Sobre o caso do bebé abandonado no ecoponto

Tenho acompanhado com atenção e emoção o caso do bebé que foi abandonado num ecoponto em Lisboa, salvo, graças a Deus, por um homem sem-abrigo que o ouviu chorar. Muito se tem falado sobre este caso, e muito se tem escrito.

Inevitavelmente surgiram comparações com o caso do aborto, com várias pessoas pró-vida a notar que é paradoxal que se considere uma tragédia que uma mulher ponha um bebé recém-nascido no lixo, mas que se defenda com unhas e dentes o seu direito a tratar como lixo o mesmo bebé antes de nascer.

Eu até concordo com esta perspetiva, mas por alguma razão, que no futuro irá encher de espanto os nossos descendentes, uma grande parte da nossa sociedade continua a achar que as salas de partos são locais carregados de poderes mágicos que conseguem transformar um aglomerado de células num bebé merecedor de todos os direitos humanos. Enquanto essa ideia absurda não se dissipar, não adianta estar a fazer comparações, porque não serão compreendidas.

Gostava, por isso, de sublinhar outra coisa. Tenho notado com satisfação que o que inicialmente parecia ser uma onda de indignação e revolta contra a mãe desta criança (já repararam como ninguém fala no pai?) se tem transformado sobretudo em compaixão. De facto, só uma mulher desequilibrada, em profundo desespero ou absolutamente corrompida pelo mal consegue fazer o que ela fez. Como eu e a maioria das pessoas continuamos a pensar que pessoas absolutamente corrompidas pelo mal são poucas, graças a Deus, tendemos a acreditar que se tratou de desequilíbrio e/ou desespero, agravados pela situação social da rapariga em causa.

Mas existe aqui uma outra ligação com a questão do aborto que importa sublinhar. Aquando da primeira discussão no Parlamento, em 1997, do primeiro referendo em 1998 e do segundo em 2007 os defensores da liberalização do aborto fizeram uma campanha de demonização dos defensores do “não”, dizendo que estes queriam ver as mulheres presas e que consideravam assassinas as que abortavam. Ficou famoso o cartaz do Bloco de Esquerda que mostrava uma mulher atrás das grades, numa altura em que as mulheres presas em Portugal por abortar eram exatamente zero.

Quando os defensores do “não” respondiam que não queriam ver mulheres punidas, mas que achavam ainda assim que a proibição fazia sentido enquanto mensagem social e dissuasora, eram impiedosamente gozados. Ficou famoso o sketch de Ricardo Araújo Pereira a caricaturar o atual Presidente da República.

Mas partindo do pressuposto de que os defensores da liberalização do aborto são a favor da penalização do infanticídio, deviam agora estar a pedir a condenação e prisão desta mulher. É uma questão de coerência.

Afinal, como estão a ver, é possível achar que um acto é mau e condenável, mas compreender que possam existir atenuantes para quem o cometeu sem, com isso, chegar ao extremo de exigir que o acto seja legalizado.

Afinal, como estão a ver, os defensores do “não” ao aborto legal estavam a ser perfeitamente razoáveis, tanto que desde o referendo foram esses – e apenas esses – que continuaram a trabalhar no terreno para ajudar e acompanhar estas mulheres que se encontram em situações de desespero.

O aborto foi legalizado em Portugal através de uma campanha de mentiras, demonizações e más intenções. Esta foi apenas mais uma. Perdemos todos.

Filipe d'Avillez

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Silêncio que clarifica e orações que sustentam

Canelas 2015, ou Canelas 2010?
O Papa pede aos católicos que rezem pela paz e pela convivência e diálogo inter-religioso no Médio Oriente. É a sua intenção para novembro.

Lembram-se da guerra que foi a substituição do pároco de Canelas há uns anos? Dois dos paroquianos foram agora condenados por difamar o vigário-geral e tiveram de pedir desculpa.

Leia aqui a entrevista ao padre Pablo D’Ors, membro do Conselho Pontifício da Cultura, que diz que “o silêncio nos dá clareza”.

Se é como eu haverá alturas em que se sente assoberbado pela avalanche de propostas, leis e medidas anti-humanas que nos esmagam. O artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing em português é para si! Elizabeth Mitchell escreve sobre a fé e o amor da 12ª hora, precisamente aquela hora em que parece que não há esperança, que é tarde de mais.

Amor de 12ª Hora

Elizabeth A. Mitchell
Entre as ruas movimentadas de Londres, num bocadinho de passeio no cruzamento das ruas de Edgeware e Bayswater, não muito longe da famosa Marble Arch, está um memorial que assinala o local da árvore de Tyburn.

Numa cela abandonada, no agora abandonado Bloco II da Prisão de Auschwitz, um recluso gravou à mão uma imagem do Sagrado Coração.

Há muito que nos deixaram aqueles que sofreram pelas suas convicções nestes lugares infames, incluindo os mártires de Tyburn e São Maximiliano Kolbe. Silenciados pelas suas crenças, por regimes muito mais fortes que as suas pobres capacidades de resistência, as suas vozes deviam ter-se extinguido para sempre. Estes pequenos marcos deviam ser o único resquício dos seus testemunhos derrotados e aparentemente fúteis. 

E, porém, são antes os regimes e os tiranos que ficaram pelo caminho, derrotados e sem poder. Os portões de Auschwitz-Birkenau estão hoje abertos, o campo deserto e vazio. O poder absoluto que comandava os postos de vigia e que supervisionava a chegada dos comboios há muito que passou. As portas de Hampton Court agora recebem visitas e o seu poderoso senhor, Henrique VIII, foi reduzido a uma lenda vazia.

Mas as portas do Convento de Tyburn acolhem alegremente as almas consagradas que se oferecem em oração pela mesma Fé e Verdade que nem todo o poder do Rei pôde conquistar.

A cripta do Convento de Tyburn inclui a Capela dos Mártires, com uma coleção deslumbrante de relíquias preciosas destes corajosos homens e mulheres – leigos, padres e religiosos que preservaram a fé em Inglaterra durante o Reino de Terror. Entre as citações inscritas na parede da cripta estão as palavras ditas pelo superior cartusiano John Houghton do cadafalso do monte de Tyburn, em Londres, a 4 de maio de 1535: “Estou obrigado pela minha consciência, pronto e disposto a sofrer todo o género de tortura antes de negar uma doutrina da Igreja”.

Da sua cela na Torre de Londres, onde aguardava o seu próprio martírio, São Tomás Moro observou a procissão destes cartusianos a caminho de Tyburn, escrevendo à sua filha Margaret: “estes bem-aventurados padres caminham agora alegremente para as suas mortes como noivos para o casamento”.

Uma das grandes tentações que sentimos quando arriscamos tudo pela verdade é de pensar que o nosso sacrifício será em vão. Daremos tudo, e não importará. O objetivo será perdido, o mundo esquecer-se-á e também nós seremos esquecidos. Mesmo Nosso Senhor, tememos, esquecerá o nosso acto de amor e generosidade. Será inútil e infrutífero. E por isso fraquejamos.

Mas Nosso Senhor jamais se esquecerá. A autoimolação gerará fruto; a oferta terá poder porque é absoluta. Só dando tudo, sem reservas, podemos esperar ganhar o que seja que valha a pena guardar. 

São Paulo, depois de suportar sofrimentos intensos e enfrentando o martírio, confiante no prémio da rectidão, declarou que apenas uma coisa importava: combater o bom combate, não se desviar da rota, manter a fé. (2 Timóteo 4, 7-8)

“Amar é dar tudo, incluindo nós mesmos”, garante-nos Santa Teresa de Lisieux.

Numa carta dirigida à Madre Prioresa no Domingo da Paixão, a 26 de Março de 1939, poucos anos antes de morrer em Auschwitz, santa Edith Stein pediu: “Peço a vossa reverência que me permita oferecer-me ao Coração de Jesus como sacrifício de propiciação pela verdadeira paz, para que a caia o domínio do Anticristo. Gostaria que este pedido fosse atendido ainda hoje, pois estamos na décima-segunda hora. Sei que nada sou, mas é Jesus que o pede e certamente Ele pedirá a muitos outros que façam o mesmo nestes dias”.

A décima-segunda hora. Falamos frequentemente da décima-primeira – aquele momento em que permanece uma centelha de esperança. Mas Cristo delicia-se com o amor da décima-segunda hora. Permite que vejamos morrer o sonho, perder a batalha, e depois age. Exige de nós esperança quando toda a esperança está perdida.

“Pela fé, Abraão, quando foi posto à prova, ofereceu Isaac (…) ele pensava que Deus tem até poder para ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, recuperou o seu filho.” (Hebreus, 11, 17-19)

Lázaro está já morto (João 11, 1-4); a filha de Jairo está morta (Marcos 5, 21-43, Mateus 9, 18-26 e Lucas 8, 40-56). Parece que Cristo chegou demasiado tarde. Podemos baixar os braços e declarar que tudo está perdido, ou podemos elevar as mãos e declarar, com fé, “Senhor, é Tua a Vitória”. A lâmpada do santuário do coração de Nossa Senhora brilha ardentemente, enquanto Ele jaz no seu sepulcro.

É preciso dar um passo de fé para nos juntarmos à Procissão Nupcial do Cordeiro. Avançar dessa forma no nosso mundo requer um amor heroico, um “amor perfeito” que “lança fora o temor” (1 João, 4,18). Como diz o narrador no último acto de “A Loja do Ourives”, de Karol Wojtyla, “O amor foi mais forte que o medo, e hoje foram em frente”.

Cristo e a Sua Igreja precisam hoje, agora, do nosso testemunho e do nosso amor corajoso. Oferecendo-lhe as nossas vidas, através de um amor que supera o medo e até a morte, Ele nos dará tudo o que não podemos guardar sem nos perdermos nele. Entreguemos-lhe o nosso amor de décima-segunda hora e vejamos o seu poder salvífico alcançar a vitória final.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 2 de Novembro de 2019 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Brexit e o regresso dos "Troubles"

O Papa Francisco homenageou todos os cristãos que se vêem forçados a esconder-se para celebrar a Eucaristia, recordando o tempo das catacumbas.


A pastoral juvenil lançou em audiobook a exortação apostólica “Cristo Vive”.

Estaremos perante o regresso da violência entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte? Todos esperamos que não, mas o Brexit pode servir de agravante às tensões que ainda existem.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o aumento da intolerância religiosa na América Latina, que contém dados preocupantes. Eu volto amanhã, se Deus quiser!

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