quarta-feira, 30 de maio de 2018

Aprender com as Lições do Chile

Pe. Gerald E. Murray
A notícia surpreendente de que todos os bispos do Chile tinham apresentado a sua resignação ao Papa Francisco é um desenvolvimento impressionante. Quando o Papa Francisco visitou o Chile e o Peru, em Janeiro, eu estava a comentar em directo para a televisão da Diocese de Brooklyn e discutimos longamente a forte repreensão do Papa às pessoas que acusavam o bispo Juan Barros de ter permitido o abuso sexual de menores por parte do seu amigo e mentor, o padre Fernando Karadima.

Cinco meses mais tarde, depois de uma reunião de três dias em Roma com o Papa Francisco, a Conferência Episcopal do Chile concluiu, por inteiro, que a sua partida colectiva seria do agrado do Papa e lhe daria maior liberdade para restaurar a confiança dos católicos chilenos, nomeando novos bispos em todo o país. Como é que a coisa chegou a este ponto?

Na conferência de imprensa em que anunciou a resignação em massa, o bispo Fernando Reyes, secretário-geral da Conferência Episcopal Chilena, disse:

Neste contexto de diálogo e discernimento, foram apresentadas várias sugestões sobre como lidar com esta grande crise e desenvolveu-se a ideia de que para estar mais em linha com a vontade do Santo Padre seria apropriado declarar a nossa disponibilidade absoluta para colocar as nossas responsabilidades pastorais nas mãos do Papa. Desta forma pudemos ter um gesto colegial de solidariedade e assumir a responsabilidade – não sem pesar – pelos actos graves que ocorreram, para que o Santo Padre possa decidir livremente como quer proceder em relação a nós.

Ao que parece, os bispos chilenos pensam que o Papa queria as suas resignações. Em Janeiro este desenvolvimento seria impensável. O que é que se passou? A explosão da fúria das vítimas de abusos sexuais e dos católicos comuns, combinada com uma cobertura persistente do conflito por parte dos media.

O Papa tomou a peito as reacções fortes aos seus comentários. Mandou dois investigadores externos para o Chile para recolher provas e dar-lhe conta do que descobriam. Depois chamou a hierarquia chilena a Roma.

Apresentou aos bispos as provas recolhidas pelos seus investigadores numa carta (mais tarde mostrada à imprensa) dada aos bispos chilenos quando chegaram a Roma. Os claros erros citados pelo Papa batem certo com experiências semelhantes noutros países: destruição de provas; transferência de padres acusados, sem preocupação pelos menores que passariam a estar sob a sua influência, tácticas de adiamento e investigações superficiais ou inexistentes das queixas recebidas, bem como pressão sobre os que desenvolveram as investigações aos alegados crimes; e a colocação por parte de bispos e de superiores religiosos de padres suspeitos de serem homossexuais activos em seminários e noviciados.

Não admira que os investigadores tenham encontrado este padrão, já tão familiar, no Chile. Os relatos a Roma por parte da hierarquia chilena, nesta matéria, incorriam em deficiências graves ou eram mesmo enganosas.

A lição aqui é clara: Se a Santa Sé quer extirpar o abuso sexual de menores por parte de membros do clero, e pôr fim aos encobrimentos por parte de clero e bispos em lugares de topo, então deve usar os mesmos meios que usou aqui noutros lugares. Investigadores nomeados pelo Vaticano, sem ligações à igreja local, devem ser enviados para recolher dados quando surgem queixas de abusos sexuais e encobrimentos.

O sistema actual de deixar a vigilância e os relatos à hierarquia local provou ser completamente desadequado no caso chileno. A eficiência das provisões canónicas que governam as situações de acusação de abuso sexual de menores por parte de padres assenta numa colaboração plena e vigorosa da hierarquia local. Se isso não acontecer, a justiça não pode ser feita. Mas essa colaboração muitas vezes não existe.

A triste realidade é que a exposição do crime de abuso sexual de menores e as tentativas em larga escala de bispos e de superiores de ordens religiosas para esconder os factos do público não resultou de acções iniciadas pela Igreja, mas sim pela polícia, tribunais e os media em vários países.

No caso do Chile as vítimas de abusos sexuais só receberam uma audição justa em Roma depois de insistirem na verdade das suas afirmações, após rejeição episcopal e papal. O Papa Francisco decidiu olhar novamente para o assunto e o que descobriu foi que não lhe tinha sido contada a história completa.

Também devia aproveitar para rever os registos de vários departamentos da cúria romana que estiveram envolvidos na supervisão da situação do Chile ao longo dos últimos 30 anos. A Congregação para a Doutrina da Fé considerou o padre Karadima culpado de abuso de menores em 2011. Foi proibido de exercer o ministério sacerdotal e ordenado a viver uma vida de oração e penitência. Consta que ainda reclama a inocência. O que foi feito foi suficiente?

Ao não removê-lo do sacerdócio e reduzi-lo ao estado laical, a gravidade dos seus crimes não foi suficientemente reconhecida. Tal como no caso do padre Marcial Maciel, que também não foi despido do sacerdócio, não obstante os seus múltiplos e graves crimes, uma vida de oração e de penitência torna-se o equivalente funcional de uma reforma antecipada e não retira ao predador sexual o estado de vida que lhe permitiu ter tão fácil acesso às suas vítimas.

A remoção do sacerdócio é uma reprimenda inconfundível pela grave ofensa que deu a Cristo e aos seus mais pequeninos, e comunica de forma clara para todo o mundo que a Igreja considera que ele perdeu o direito a exercer o ofício do sacerdócio de que tanto abusou.

A acção tomada por Roma na situação do Chile era necessária e purgativa. A missão da Igreja é promover o Evangelho. Isso inclui fazer tudo o que for possível para proteger os inocentes e punir os culpados. Não se trata de vingança, mas de justiça.

Agora chegou a altura de lançar o mesmo olhar para outros países onde permanecem questões semelhantes sobre a forma como se lidou com acusações de abusos sexuais e encobrimentos.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 24 de Maio de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Uma Viagem à Montanha Sagrada

John Farina
O Estado Monástico Autónomo da Montanha Sagrada é um dos locais mais peculiares do mundo. É uma civilização de monges, por monges, para monges. A península escarpada na costa leste da Macedónia sempre foi remota e selvagem. O Monte Athos situa-se no meio, a uma altura de 2000 metros. Para um lado e para o outro há montes muito íngremes, tornando a viagem muito difícil. Não se pode chegar aos mosteiros por terra, todos devem viajar por mar.

Aninhados ao longo da costa encontram-se os grandes mosteiros, aldeias de monges com muitas capelas, igrejas e residências, suficientemente grandes para que cada monge tenha a sua cela e, nos edifícios maiores, para albergar os milhares de peregrinos que todos os anos vêm em busca de iluminação. No seu auge, os mosteiros maiores tinham até 500 monges e os maiores, como o Grande Lavra e o Pantokratoros até criaram pequenas dependências, chamadas sketes, um nome que deriva do local no Egipto onde os Padres do Deserto deram início ao monasticismo no século III.

Eu cheguei ao Monte Athos com um grupo de académicos ortodoxos da Grécia e da Roménia, com quem já tinha estado em Véria (a “Berea” de São Paulo) numa conferência sobre São Gregório Palamas (1296-1356), um dos mais famosos teólogos associados à forma de oração seguida pelos monges de Athos. Palamas passou os seus anos de formação no mosteiro de Kallipetras, a viver em grutas ao longo do Rio Haliacom, na Macedónia central, não muito longe de Véria. Kallipetras nunca foi um mosteiro grande, mas Gregório foi o seu abade durante muitos anos.

Hoje apenas três monges vivem lá, todos com menos de 40 anos. Um é médico, outro é técnico de informática e todos falam não do jeito de Palamas enquanto administrador (mais tarde tornou-se bispo de Thessaloniki) mas da sua vida de oração. Dois dias por semana ele deixava o mosteiro e ia para um gruta na falésia. Reza a lenda que Gregório passava o fim-de-semana inteiro na câmara mais profunda. Os monges desciam-lhe pão e água através de um pequeno buraco. Mesmo ao meio-dia essa câmara é totalmente escura e silenciosa: Privação sensorial total durante 48 horas seguidas.

A gruta de Palamas
Porquê? Gregório acreditava que estava a praticar a oração do coração. Estava a levar à letra os conselhos do salmista David: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Salmo 46,10). Deus fala-nos na quietude, ou hesychia em grego, dizia Gregório. A escuridão não conduziu a cegueira. Pelo contrário, era uma “escuridão resplandecente”. A luz que brilhava era como aquela que os apóstolos Pedro, Tiago e João viram no Monte Tabor quando Cristo se transfigurou.

Essa luz não é apenas uma metáfora para a iluminação espiritual, mas sim uma participação real na natureza divina. Deus partilha connosco as suas energias por causa do seu amor extático, através do qual somos transformados, assumindo uma natureza semelhante à de Cristo. Em Cristo, como disse Atanásio, Deus é feito homem, para que nós nos tornemos Deus.

Contudo, este partilhar da natureza divina não é uma forma de panteísmo, nem uma forma de autoexaltação em que reivindicamos, como na tentação de Eva por Satanás, o estatuto de deuses. É uma partilha em comum, a koinoneia, uma participação em conjunto no amor.

Deus mantém a sua transcendência. A sua essência não é partilhada, permanecendo desconhecida e desconhecível. A divina escuridão leva-nos para além do nosso conhecimento para uma iluminação, mas não é possível eclipsar totalmente o desconhecimento. Deus é tanto essência como energia, conhecido e desconhecido, presente e transcendente, acção e fundamento do ser.

Esta é a experiência dos santos. É por isso que são representados com auréolas, luz tabórica, que viram e que emana através deles. Mas as suas experiências não se reservam aos santos.

No Cristianismo ocidental não se pensa que as experiências místicas sejam limitadas a santos especiais. Não se devem procurar e não nos salvam. A pessoa comum ficaria confusa, por isso não devemos concentrar-nos muito nelas. No Oriente, contudo, é diferente, especialmente para aqueles que, como Palamas, insistem que a experiência da participação na natureza divina, a teósis, está aberta a todos e deve ser procurada por todos.

Hoje o hesicasmo é praticado na Rússia, na Roménia e na Sérvia, mas em lado nenhum persiste com tanta força como na Montanha Sagrada. Todos os monges de Athos se dedicam a ela.

Os mosteiros do Monte Athos surgiram durante o Império Bizantino. Os monges vivem naquela península continuamente desde o ano 800. A tradição diz que durante uma viagem, com São João Evangelista, Nossa Senhora visitou Athos e declarou-o o paraíso santo, com o qual o seu filho estava agradado.

Por respeito a ela, os monges decidiram há 1000 anos que nenhuma mulher devia ser permitida na Montanha Sagrada. Ao longo dos anos um conjunto de aventureiras, entre as quais a antiga Miss Europa Aliki Diplarakou, entraram disfarçadas de homens. Diplarakou fê-lo na década de 30, mas só contou a história vinte anos mais tarde.

Para lá chegar apanha-se o ferry que parte diariamente de Ouranoupolis para o porto de Dafni, no Estado Autónomo. Desembarcamos e passamos por filas de peregrinos para apanhar um autocarro para a capital, Karyes. É um local minúsculo, com estradas de terra, uma mão cheia de cafés – como as povoações da Guerra das Estrelas, mas sem os maus. Há um edifício municipal, algumas igrejas e, claro, mosteiros. Depois apanhamos outro autocarro que, como o primeiro, viaja lentamente sobre estradas de terra impossivelmente íngremes. Atravessamos um posto fronteiriço, com um guarda leigo, empregado pelo Estado Autónomo, que retira um adolescente da Ucrânia que sem visto nem passaporte. Quando finalmente se abre o portão, entramos nas terras do Mosteiro de Vatopedi.

Vatopedi
Na década de 80, a vasta estrutura, com 150 quilómetros quadrados de edifícios, era habitada apenas por sete monges idosos, que viviam ao estilo idiorritmico. Então chegou um novo grupo, chefiado por um monge cipriota chamado José, que tinha vindo até Athos em 1946, tornando-se discípulo do famoso asceta José o Hesicasto, que morreu em 1959. Daí até 1987 o José mais novo reuniu um grupo de discípulos idealistas. Em 1987 viram uma oportunidade de reavivar Vatopedi e mudaram toda a comunidade para lá. Estes tipos tinham ideias diferentes dos monges mais velhos. A primeira coisa que fizeram foi mudar todo o mosteiro para o sistema cenobítico. Isto tornou-os menos independentes, mas mais capazes de trabalhar em conjunto para alcançar objectivos práticos.

Um desses objectivos era o restauro dos edifícios. O arquitecto Phaido Hagianthonious chegou a Vatopedi em 1983, contratado pelo governo grego. Casado, tinha de deixar a família para trás aos dias de semana para restaurar os edifícios decrépitos que tinham mais de 600 anos. Os monges mais velhos não percebiam porque é que ele estava a gastar tanto tempo a preocupar-se com o carácter histórico das estruturas, eles só queriam que os telhados deixassem de ter buracos, independentemente de serem reparados com técnicas e materiais autênticos.

O orçamento era baixo e a equipa praticamente inexistente. Um dia, no início do seu projecto, estava no segundo andar da igreja central, a reparar um telhado, quando, ao abrir o tecto, caíram centenas de manuscritos medievais que os monges lá tinham escondido dos muitos piratas e invasores que, ao longo dos anos, pilharam Vatopedi e outros mosteiros, todos localizados junto ao mar, isolados, com nada mais que as muralhas para os defender.

Para ele foi um momento marcante para a carreira. Percebeu que não estaria apenas a tapar buracos mas a escavar um local arqueológico importante e a restaurar tesouros sem preço. E a descoberta foi acompanhada de uma feliz coincidência: a União Europeia começou a canalizar dinheiro para preservações históricas. A UNESCO decretou Athos património mundial e os jovens monges alinharam em tudo. Phaido reformou-se após 32 anos, durante os quais foram investidos quase 40 milhões de euros para restaurar o campus. Hoje até brilha.

O conjunto de igrejas, residências, refeitório e muros situa-se por cima de uma falésia à beira-mar, rodeado de jardins, onde os monges cultivam muita da comida que consomem. Do mar chega-lhes peixe, dos campos legumes e fruta. Não comem carne. Cerca de metade do ano abstêm-se de comer peixe e óleo. As sua refeições são simples, servidas em mesas de mármore milenares, onde comem e bebem em silêncio enquanto um monge lê textos espirituais de um ambão elevado. Bebem água e vinho. A comida pode ser simples mas é nutritiva e não falta. Os índices de cancro e de doença cardíaca são baixos e a maior parte vive até aos oitentas e muitos.

Vatopedi
Em Vatopedi há cerca de 120 monges. Há barbas grisalhas com sessentas, e mais, mas são relativamente poucos. Homens entre os vintes e os quarentas são às dezenas. Vigorosos e intensos, sempre com as longas vestes negras do mosteiro e sempre com barba. Aqui as barbas são tão selvagens como a paisagem. O monasticismo ortodoxo centra-se no deserto.

Os seus heróis não são estadistas, nem académicos na universidade de Paris, ou líderes nos centros políticos de Roma ou de Constantinopla, mas homens selvagens como Palamas, que viviam em grutas. A Igreja no seu todo reverencia estes monges de uma forma que faz falta no Ocidente.

Mas falarei mais sobre isso numa futura ocasião.



John Farina foi investigador na Faith and Reason Institute e foi editor-chefe da Paulist Press Classics of Western Spirituality, e da série Sources of American Spirituality, para além das séries Crossroad Herder e Herder Spiritual Legacy. Atualmente é professor associado de estudos religiosos na George Mason University.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 19 de Maio de 2018)

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Inter-religious statement on euthanasia, in Portugal


Care, with compassion, until the end

Inter-religious statement on euthanasia


The debate currently underway in Portugal about what has been labelled “assisted death” invites all of us to reflect and offer their contribution to enrich a process of dialogue which requires the intervention of all social agents. The religious traditions bear a message about the life and death of man, as well as the model of society we build, and it is both legitimate and necessary that they present this message with freedom and humility.

At a time when Parliament debates and prepares to vote on proposals for a possible law on euthanasia, we, the undersigned religious communities present in Portugal, having gathered to discuss and reflect together, and aware that we are living moments of great importance for our time collective future, do declare:

1. The dignity of those who suffer
We believe that each human being is unique and, as such, irreplaceable and necessary to the society of which he or she is a part, bestowed with an intrinsic dignity which is prior to any criteria of quality of life or usefulness, until the time of natural death. Not only does life not lose its dignity as it draws to its end, but the vulnerability with which it is clothed in this stage is, rather, a badge of special dignity which requires proximity and care. We do believe that suffering should be avoided if possible and, therefore, we give thanks for the fact that medical and pharmacological sciences have developed to such an extent that they allow for an effective relief of pain and promotion of well-being. However, we do not ignore the dramatic nature of suffering and the difficulty in finding meaning in continued life. We are aware that religion offers the possibility of meaning to those who believe, but we also know, from experience in accompanying so many who are not religious, that belief is not a necessary condition to finding meaning in one’s own suffering. With these our brothers we learn, indeed, that this task represents one of the greatest achievements of personal dignity. One’s dignity does not depend on anything other than existence as a person and personal autonomy cannot be emptied of its social meaning.

2. For a merciful and compassionate society
The suffering at the end of life is a spiritual challenge for each individual and an ethical challenge for society as a whole. Principles such as mercy and compassion are common to the different religious traditions and, over the history of civilization, have given rise to social models capable of creating, in each period, precise ways of accompanying and caring for the most fragile members of society. Today, human death is one of the areas which challenges us. What is asked of us is not that we give up on those living their final stages of life, by offering them the legal possibility of death, which can be the result of suffering without adequate care. It is this suffering which is truly unbearable and which gives rise to the will to die. It is the fruit of a society which abandons, which loses its humanity and becomes indifferent. Our beliefs in this respect are confirmed by our experience that people who are properly accompanied neither despair nor ask to die. What is asked of us, therefore, is that we commit ourselves more deeply to those who are living through this stage, taking upon ourselves the necessity of offering them a humane and accompanied death.  

3. Palliative Care, a necessity which cannot be delayed
We believe that palliative care is the most complete expression of this service which the state is obliged to give, since it results from the highest technical and scientific skill and competence in compassion, both of which are needed when dealing with people in the final stage of life. True compassion does not insist on futile treatment in an attempt to prolong life, but helps people to experience their own death as humanely as possible, recognising that it is only natural. Palliative care values a person until their natural end, alleviating their suffering, fighting off loneliness through the presence of family and other loved ones. We ask Portuguese society to rise up to this challenge, which can no longer be postponed, of making palliative care available to all, and we take upon ourselves the task of doing all that we possibly can to participate in this national effort. We cannot help but to ask if this current debate, preceding as it does an investment in proper palliative care, does not betray a lack of truth.

Religious traditions profess that life is a precious gift, with Abrahamic religions stressing that it is a gift from God and, as such, sacred in nature; but this only confirms its natural dignity, from whence stem its inherent inviolability and unavailability which, therefore, do not rest on religious foundations. But religion does give life a meaning, a hope and other possibilities of transcendence. Societies need this vision of man to stand alongside all the others which exist.

We, the religious communities present in Portugal, believe that life is inviolable until natural death and we share the belief in a compassionate model of society. For this reason, in the name of humanity and the future of the human community, we feel called to take part in the current debate on assisted death, to express our opposition to its legalisation under any of its forms, be it assisted suicide or euthanasia. Therefore we put our names to this common statement.


Lisbon, May 16th, 2018


Portuguese Evangelical Alliance -  Pastor Jorge Humberto, representing the president Pedro Calaim

Portuguese Hindu Community – Mr Kiritkumar Bachu

Islamic Community of Lisbon – Sheikh David Munir

Israeli Community of Lisbon – Rabbi Natan Peres

Catholic Church – Cardinal Patriarch D. Manuel Clemente

Ecumenical Patriarchate of Constantinople – Archpriest Ivan Moody

Portuguese Buddhist Union – Diogo Lopes

Portuguese Union of Seventh Day Adventists – Pastor António Carvalho, representing the president, pastor António Amorim

Ressuscitar com Cristo

Michael Pakaluk
Nota: Este tema, da cremação, é uma das minhas embirrações. Espanta-me a facilidade com que pessoas cristãs aceitam tratar os restos mortais dos seus familiares como se fosse resíduos... Mas sobre isso deixarei falar o autor. 
Esta nota serve também para recordar que este e outros artigos só existem, e só estão disponíveis em português, porque há quem contribua para manter o The Catholic Thing a funcionar. Duas vezes por ano eles fazem angariação de fundos e por isso convido todos os que dão valor a este serviço a fazer um pequeno donativo através deste link. Recordo, como já fiz várias vezes, que o dinheiro doado vai directamente para o The Catholic Thing, e não passa de forma alguma por mim.


Se visitar a cidade de St. Andrews, na Escócia, a um domingo, verá que o famoso campo de golfe está encerrado nesse dia para o desporto, estando disponível para quem quiser passear. Esta tradição é um legado de John Knox para o mundo. O austero reformador estava errado quando decidiu proibir jogos ao domingo. Mas por outro lado parece eminentemente justo que até o golfe deva testemunhar que existe algo maior. Seja como for, o campo transforma-se em parque público uma vez por semana.

Certo domingo eu estava lá a andar, com alguma rapidez, e a aproximar-me de um grupo algumas centenas de metros à minha frente. Chocado, reparei que um dos homens do grupo estava a despejar os restos do seu almoço na relva. Metia a mão dentro de um saco e, a intervalos regulares, lançava o que pareciam ser migalhas para o chão. Pelo menos era o que parecia àquela distância. Fiquei irritado e andei ainda mais depressa para poder dizer ao homem para não estragar, através desta inconsciência, o bem comum que é este belíssimo terreno.

Quando me aproximei, porém, vi que o que ele tirava do saco não eram migalhas mas restos humanos (“cinzas”). A minha fúria transformou-se em pena. Quando os ultrapassei cumprimentámo-nos e o homem explicou que o seu pai era um apaixonado por golfe e por isso ele e os seus irmãos tinham viajado dos Estados Unidos para St. Andrews, para cumprir o desejo do seu pai de ter as cinzas espalhadas naquela relva. Naturalmente não pude senão dizer algo de simpático e encorajador.

Dei por mim naquela posição tão comum de saber objetivamente que o meu próximo estava a fazer algo profundamente errado, mas de ter apenas a oportunidade, numa troca superficial de palavras, de abordar as suas intenções subjectivas.

E não haja dúvidas que aquilo que ele estava a fazer era, objectivamente, muito errado. Em primeiro lugar, a minha primeira impressão não tinha sido errada: o homem estava, de facto, a fazer o género de coisa que se faz com os restos do almoço. Mas estava a fazê-lo com os restos mortais do seu querido pai! Em segundo lugar, esses restos estavam a ser lançados ao chão, expostos e, tanto quanto sabia, até eu os tinha pisado!

Nas palavras da antiga Enciclopédia Católica, no seu artigo sobre “Cremação”: “[A Igreja] crê que é indigno que o corpo humano, outrora templo vivo de Deus, instrumento de virtude celeste, tantas vezes santificado pelos sacramentos, seja sujeito a um tratamento contra o qual a piedade filial e o amor conjugal e fraternal, ou até a mera amizade, se revoltam como desumano.”

Em terceiro lugar, os actos deste homem testemunhavam uma falsidade. Não sei em que é que ele acreditava pessoalmente. Mas os nossos actos têm frequentemente um significado, e testemunham, algo diferente daquilo em que acreditamos. O espalhar das cinzas testemunha, inevitavelmente, o panteísmo, o naturalismo ou o niilismo. Neste caso, era uma espécie de panteísmo – a falsa crença de que o próprio campo de golfe é sagrado e que, através do espalhar das cinzas, o falecido pai se pode unir de alguma forma a este ídolo.

No que toca a estes pontos acho que o Catecismo, tal como noutros, está correcto, mas pode levar ao engano por omissão. “A Igreja permite a cremação”, lê-se, “a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição”.

Podemos admitir logo que a ressurreição dos mortos não se põe em causa pelo “modo do sepulcro” (como se costumava chamar). Os judeus nunca cremavam os seus mortos. Os romanos estavam abertos tanto à cremação como ao enterro. Neste contexto, os primeiros cristãos seguiam uniformemente e definitivamente a prática judaica. Mas também insistam que não o faziam por necessidade – “como se Deus não pudesse ressuscitar os mortos tão facilmente a partir de uma mão cheia de cinzas como do pó da terra”.

É verdade que a cremação não é excluída. Mas ao mesmo tempo, como se lê no Código de Direito Canónico, “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos” (1176, §3). Ou, como se lê no site da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, citando um documento do Vaticano: “Embora a cremação já seja permitida pela Igreja, não goza do mesmo valor que a sepultura dos corpos” (n. 413). E mesmo quando os restos são cremados, o corpo deve estar presente no funeral e os restos devem ser preservados de forma digna e colocados num local santo, tal como um cemitério.

É conveniente reflectir sobre estes assuntos no tempo Pascal. Na verdade, o nome da instrução sobre cremação emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 15 de Agosto de 2016, aprovada pelo Papa Francisco, é Ressuscitar com Cristo. A linguagem que usa é muito forte. “Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.”

E continua: “Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história. Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo.”

“Nada me dá mais prazer do que ir até ao cemitério rezar o meu terço”, dizia o padre Damião de Molokai. E a instrução supracitada elogia as devoções centradas nos cemitérios, terminando com uma nota de sobriedade. “No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã” – elevando a questão do plano subjectivo para o objectivo – “devem ser negadas as exéquias, segundo o direito.”


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Maio de 2018)

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Pai-Nosso a bem ou a mal

Uma de muitas versões portuguesas... 
Boas e más notícias. A má é que andamos todos a rezar mal o Pai-Nosso. A boa é que afinal rezamos bem o Pai-Nosso. Confusos? Está tudo explicado aqui, havendo uma versão mais completa e “académica” na edição deste mês da revista Brotéria, que farão bem em procurar ler.

E muitos pai-nossos se devem estar a rezar por estes dias nas estradas que levam a Fátima. A GNR espera tantos peregrinos neste 13 de Maio como no ano passado, com a visita do Papa!

D. Ilídio Leandro está prestes a resignar como bispo de Viseu. E agora? Sol e praia? Longe disso! Quer voltar a ser pároco e trabalhar para merecer comer, como bem disse São Paulo.

Leiam aqui o interessante e chocante relato de um jornalista português que passou dez dias em Mossul e viu em primeira mão os efeitos dos horrores do Estado Islâmico.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Religiões juntas contra Eutanásia e Marcelo com veto problemático

Vai decorrer na próxima semana um encontro inter-religioso, com assinatura de uma declaração conjunta, sobre a eutanásia. É raro as religiões todas tomarem posição comum sobre um assunto deste género!

Ainda sobre a eutanásia, o bispo do Porto diz que a sua aprovação representará um “terrível abaixamento do barómetro moral da sociedade”.

Mas a justificação dada por Marcelo é (desnecessariamente) problemática

Hoje em Roma assinala-se a Quinta-feira da Ascensão (em Portugal, como noutros países, a festa litúrgica passa para o domingo seguinte) e o Papa aproveitou para visitar duas comunidades.

Convido-vos a ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, em que Christopher Akers compara o materialismo e o Cristianismo enquanto filosofias de vida. É um autor jovem e que vale a pena acompanhar.

Marcelo, o médico

Marcelo Rebelo de Sousa vetou a lei de mudança de género. Isso é bom.

No texto da sua justificação para o veto, lê-se o seguinte:

"Solicito, apesar disso, à Assembleia da República que se debruce, de novo, sobre a presente matéria, num ponto específico - o da previsão de avaliação médica prévia para cidadãos menores de 18 anos.

A razão de ser dessa solicitação não se prende com qualquer qualificação da situação em causa como patologia ou situação mental anómala, que não é, mas com duas considerações muito simples (...)"

A "situação em causa" é alguém ser biologicamente de um sexo e identificar-se como sendo de outro, de dois, ou de nenhum. Essa "situação" tem um nome científico: Disforia de Género.

E a Disforia de Género é, precisamente, uma situação mental anómala. Não sou eu que o digo, são os médicos. É definida como uma desordem mental no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, entre outros. 

Seria tão fácil ter deixado esse "que não é" de fora do texto justificativo do veto... O que é que lá está a fazer?

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Duas filosofias de vida

No pós-Segunda Guerra Mundial, um cientista de Oxford escreveu um livro curto e tocante em que examina as verdades da fé cristã de “forma científica”. A obra é pouco conhecida hoje, mas as ideias exploradas em “Two Ways of Life” de Sherwood Taylor, são relevantes para a situação presente no Ocidente pós-cristão.

Taylor examina duas formas de vida – a cristã e a materialista – perguntando que impacto visível é que cada uma destas filosofias tem sobre o indivíduo e a sociedade. É, admita-se, uma abordagem simples, mas uma que pode ser iluminadora para qualquer tempo e para as verdades da Fé. Como o próprio Cristo disse, “pelos seus frutos conhecê-los-ão”.

A nossa vida interior tem impacto sobre tudo e sobre todos. O cristão sabe o propósito da sua vida: servir a Deus e salvar a alma. Como guias neste caminho, tem a vida e os ensinamentos de Jesus, a sabedoria das Escrituras e a autoridade da Igreja. Toda a sua vida é marcada por diversos amores que radicam, como diz Dante, no “amor que move o sol e as outras estrelas”. Anseia imitar Nosso Senhor, um objectivo gloriosamente alto.

No quadro geral do Cristianismo, uma criança é acolhida no mundo como um dom, não como um fardo. É baptizada como criatura de Deus. Rapidamente aprende sobre Cristo e sobre a natureza incomensurável da Encarnação.

Aprende que não pode servir a Deus e ao dinheiro, que os poderes desta vida não lhe devem dizer respeito e que o sofrimento – se vier – deve ser acolhido como forma de se configurar com a vida divina. Vê a beleza da criação em todas as coisas. Tenta colocar o amor no centro da sua vida. Falhando isso, pede perdão. Quando a morte chegar, não é o fim. Reza para que possa alcançar o Céu.

Já o materialista parte de uma posição desprovida de finalidade. A livre vontade é impossível. Tudo acontece por necessidade e a ideia de escolha é uma triste ilusão. Como é que se vive depois de rejeitar a existência de um propósito no cosmos?

A sua vida é preenchida com diferentes objectivos e preocupações. Tudo o que o ajude a evitar ponderar o sem sentido do vazio. Nas palavras de Sherwood Taylor, “quem rejeita a crença no espírito deve esforçar-se por esquecer a escuridão do sepulcro sem fim, distraindo-se com brinquedos”. E que brinquedos são estes? Dinheiro, prazer, poder – as diversões do costume.

Claro que, em si mesmas, estas coisas apenas podem redundar num sentimento de vazio. Enquanto o cristão sabe que “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”, o materialista tem sempre presente um sentimento de vazio interno. Sherwood cita o Fausto, de Goethe, para o ilustrar:

Em mal, que é certo.
Quanta ciência em mente de homem cabe
Toda em balde juntei; por mais que explore,
Força nenhuma se criou cá dentro;
Não cresci a grossura de um cabelo,
E em nada do infinito estou mais perto.

Frank Sherwood Taylor
Claro que não há falta de materialistas que, de facto, procuram o bem – a maioria das vezes, porém, através de formas de altruísmo que radicam nas brasas adormecidas das sociedades cristãs. Não encontramos muitos materialistas a apoiar publicamente atitudes pré-cristãs para com os pobres e deficientes, por exemplo. É excepcionalmente difícil fazer uma defesa racional do altruísmo materialista.

Da perspectiva do materialismo, muita sorte tem a criança a quem é permitido sair do ventre. Se o fizer, rapidamente absorverá a moralidade da moda, a que falta qualquer base objectiva. É-lhe dito que as suas acções são simplesmente “claramente certas ou erradas”. Virá a perceber que a não ser que mate alguém, é provavelmente uma “boa pessoa”, seja o que for que isso significa.

Aprende que a prosperidade é algo da maior importância, que o sexo é separável do amor e do casamento e que vive num período de grande liberdade e progresso. Procura encher a sua vida com confortos. No fim, enfrenta sozinho o vazio. Não passa de um “conjunto de átomos” sem qualquer importância num universo vasto e indiferente. Será de admirar que os idosos e os “economicamente inúteis” são descartados nas nossas sociedades progressistas?

Ao nível da sociedade, as filosofias cristã e materialista propõem visões francamente diferentes do Estado ideal e das suas relações com a pessoa. Sherwood Taylor nota que o cristão preocupa-se com uma sociedade enquanto composta por indivíduos, enquanto o materialista vê a sociedade como uma massa.

O cristão é chamado a amar o seu próximo como a si mesmo, sendo o seu “próximo” qualquer pessoa que encontrar. Ele sabe que é responsável diante de Deus pelos seus actos, sobretudo para com os pobres e oprimidos: “Pois eu tinha fome, e deste-me de comer”. Mas o materialista contemporâneo, pelo contrário, preocupa-se com conceitos abstratos e grupos de interesse. Assim se explica o surgimento de “comunidades” e “identidades” particulares, que requerem intervenção social e a intrusão do Estado em cada faceta da vida.

Os seres humanos tornam-se meros números com os quais a burocracia do Estado pode interferir na sua busca pela utopia terrestre. De acordo com este esquema, o indivíduo existe para benefício do Estado. O Estado torna-se um novo Deus, com a política no lugar da religião. Os adversários políticos são a encarnação do mal e ultraje falso substitui o discurso político racional.

A análise de Sherwood Taylor é incrivelmente potente. Claro que o impacto desta ou daquela filosofia de vida não nos dá toda a certeza sobre a sua veracidade. Mas não deixa de comprovar muita coisa. Desde os tempos de Sherwood Taylor assistimos a uma grande mudança moral no Ocidente. A rejeição do código moral cristão não se traduziu numa população emancipada e racional. Pelo contrário, resultou numa terrível e triste confusão tanto na vida pública como privada. O que é que isto nos diz?


Christopher Akers é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.


(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Maio de 2018 em The Catholic Thing)


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terça-feira, 8 de maio de 2018

Eutanásia, bispos e vetos

D. José Alves, arcebispo de Évora
Faltam algumas semanas para a votação no Parlamento, mas a eutanásia já domina as notícias religiosa. Esse foi, aliás, um dos temas focados por Marcelo Rebelo de Sousa na grande entrevista que concedeu à Renascença e ao Público. Ele diz que não vai deixar as suas opiniões pessoais interferir na sua decisão de vetar ou não a lei, Graça Franco ajuda a descodificar isso.

Tudo isto, claro, caso a lei seja aprovada. Os movimentos pela vida esperam que isso não aconteça e a Comissão Nacional Justiça e Paz diz que a legalização é inconstitucional e um referendo seria um “mal menor”.

Hoje os bispos portugueses falaram do assunto, recordando que este não é um tema religioso, mas sim da humanidade. O arcebispo de Évora também abordou a questão, avisando o Parlamento de que “ninguém é dono da vida”.

Esta apanhou-me de surpresa. António Raminhos esteve em Fátima a dar um testemunho à peregrinação nacional da juventude.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Derrotou a ETA, agora quer dar cabo do secularismo

Jaime Mayor Oreja
Vem aí uma plataforma para intelectuais conservadores interessados em ajudar a restaurar os valores cristãos na Europa. À cabeça da iniciativa está Jaime Mayor Oreja, conhecido como “o homem que derrotou a ETA”, com quem falei.

Apresento-vos o António. É da Guarda. Já foi enfermeiro. Agora é bispo de Viseu.

O Papa recebeu durante vários dias um grupo de vítimas de abuso sexual do Chile. Saiba como correu o encontro.

Uma freira portuguesa na República Centro-Africana diz que nem ela nem as suas irmãs vão abandonar Bangui, pois a sua presença questiona os criminosos que destroem o país.


Há novas opções para quem quer caminhar para Santiago, agora já é possível a partir de Évora.


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Nossa Senhora de Fátima protegida pelos páras

Drama na República Centro-Africana, onde uma igreja foi atacada ontem. Morreu um padre e cerca de 20 fiéis. A igreja chama-se Nossa Senhora de Fátima e está neste momento a ser protegida por paraquedistas portugueses.

É já daqui a 27 dias que os nossos deputados discutem se o Estado deve matar os seus cidadãos doentes e frágeis. A Renascença falou hoje com uma psicóloga belga que diz algo que deveria parecer óbvio: “A Eutanásia por sofrimento mental compromete todo o sector dos cuidados em saúde mental”.

Enquanto se fala de eutanásia já vai avançando a questão da mudança de género. O assunto vai ser debatido nos Jerónimos na sexta-feira, não percam. Detalhes no anexo.

A Administração americana é acusada de não fazer o suficiente para proteger a liberdade religiosa no mundo.

Há um novo príncipe! Não, não é o Louis… Este tem 73 anos e bigode e é o novo grão-mestre da Ordem de Malta.

Os bispos alemães criticam a decisão do Governo regional da Baviera de colocar crucifixos nos edifícios públicos.

Ainda o caso Alfie Evans, desta vez no artigo do The Catholic Thing desta semana, onde Stephen White põe o dedo na ferida e destaca o perigo inerente à ingerência do Estado os assuntos das famílias, apoiado nas palavras de Leão XIII.

Uma Coisa a Evitar

Stephen P. White
Nota prévia: Acompanhei o caso do Alfie com a atenção que me foi possível, que ainda foi bastante. Neste artigo o autor critica a posição do inglês Austen Ivereigh. Penso que o faz de forma injustificada. Como o Ivereigh, também eu lamento que tenha havido muita manipulação por parte de alguns defensores da família do Alfie. Mas publico o artigo à mesma porque considero que esses são detalhes secundários e que o resto do texto, nomeadamente o alerta sobre o perigo de o Estado se intrometer em demasia nas vidas privadas dos cidadãos, dando origem a conflitos como este, e outros.

Já se esperava que o pequeno Alfie Evans morresse num hospital, com os seus pais ao lado. Não era previsível que as batalhas judiciais, os tweets papais ou as vigílias e multidões de apoiantes da criança britânica mudassem isso. Os milagres acontecem, mas não é por acaso que lhes chamamos milagres. Não era provável que os médicos em Itália (ou qualquer outro local) pudessem ter feito mais pelo Alfie do que os médicos em Liverpool. Possível, talvez, mas não provável.

Quando os médicos de Alfie tinham esgotado a sua perícia, quando mais nada havia a fazer, o corpo de Alfie iria falhar e ele iria morrer. A vida é sagrada, mas a morte não é o pior que nos pode acontecer. Toca-nos a todos.

Porém, o que começou por ser uma disputa entre os pais de uma criança e os seus médicos, tornou-se uma disputa legal sobre quem tem o direito de falar em nome dos interesses de Alfie. Os médicos e os juízes tinham a certeza de que sabiam o que era o melhor para ele. Talvez os médicos tivessem razão, e nada mais houvesse a fazer pelo doente que não conseguiram sequer diagnosticar. E o juiz bem pode ter tido razão em dizer que a lei concede aos médicos prerrogativas que, na verdade, pertencem aos pais. Se existe algum elo que proclama a verdade do direito e da autoridade natural, é aquele que existe entre pais e filhos.

Não deixa de ser um interessante exercício mental contrastar as reações ao caso do Alfie com outro caso controverso sobre os limites dos direitos paternais e das autoridades civis: o famoso caso Mortara, no Século XIX. Um menino judeu, que tinha sido batizado por uma criada bem-intencionada, foi retirada aos pais, em conformidade com as leis do Vaticano. Hoje parte-se do princípio que foi injusto usurpar os direitos naturais dos pais de Edgardo Mortara. Mas muitas pessoas que o dizem defendem também que o Reino Unido fez bem em usurpar os direitos naturais dos pais para poder garantir que Alfie Evans morresse num hospital.

Nada disso interessa muito agora. Os médicos e os juízes conheciam os interesses do rapaz, eram imparciais. Não eram como os pais de Alfie, que não são médicos. Nem juízes. Nem têm formação universitária. Os pais em geral são porreiros, à sua maneira, mas são amadores. A lei procura a opinião de peritos, e eles bem sabiam o que o menino precisava. Não valia a pena fazer mais tentativas de diagnóstico. O Alfie não devia, sob qualquer condição, ser removido do hospital que recusava tratá-lo e apenas queria fornecer cuidados paliativos. Se os pais o tentassem remover, deviam ser detidos.

Os médicos e os juízes de sua majestade nunca chegaram a perceber o que é que se passava com o Alfie. Mas estavam bastante certos de que ele não seria capaz de respirar sozinho. Removeram o ventilador, mas respirou sozinho. Cinco dias. Isso abalou as certezas dos mandarins? Não. Os médicos acharam possível que o Alfie pudesse ter uma convulsão se fosse levado para Liverpool. Preocupavam-se que ele pudesse não sobreviver à viagem. Seria melhor deixar o rapaz morrer em Liverpool.

Tudo com os seus melhores interesses em mente, claro.

Embora os apelos cada vez mais desesperados dos pais de Alfie, e o clamor dos seus apoiantes à volta do mundo – incluindo do Papa Francisco, que até disponibilizou um helicóptero para levar Alfie até Roma – os perturbassem, os mandarins recusaram ceder. O facto de serem especialistas em medicina e em direito deu-lhes o poder de determinar o que seria melhor para o Alfie e, como que para provar isso mesmo, o Alfie Evans morreu num hospital em Liverpool para evitar o risco de poder morrer num hospital em Roma.

Margaret Thatcher disse certa vez que “não existe sociedade. Existem homens e mulheres e existem famílias”. Uma visão bastante anémica da vida social, mas olhando para o caso de Alfie Evans, perguntamos se não terá mesmo exagerado. Talvez só existam mesmo indivíduos e os seus interesses – e o Estado, a empregar peritos para instruir os primeiros quanto aos segundos.

Mas os católicos sabem bem que não é assim. Ou pelo menos deviam saber. O Papa Francisco apercebeu-se do que estava em causa – encontrando-se com Tom, o pai de Alfie, e fez vários tweets manifestando o seu apoio. As declarações dos bispos de Inglaterra e do País de Gales foram essencialmente do género pastoral mas sem tomar partidos, ou seja, flácidas e superficiais. Alguns católicos – entre os quais o autor britânico e biógrafo papal Austen Ivereigh, por exemplo – indignaram-se, insistindo que os protestos contra esta abrogação dos direitos paternais constituíam prova de certo contágio libertário com origem na Igreja americana.

O Papa Leão XIII escreve no Rerum Novarum que “querer, pois, que o poder civil invada arbitrariamente o santuário da família, é um erro grave e funesto”. Note-se que o Papa Leão não era nem americano nem libertário.

Quando os ministros da lei, alegando agir no interesse de um indivíduo, o isolam dos laços familiares, que são a própria fundação da sociedade humana e que a lei existe precisamente para proteger em primeiro lugar, exercem violência sobre o indivíduo, a família e a sociedade. Novamente, quem o diz é o Papa Leão: “E se os indivíduos e as famílias, entrando na sociedade, nela achassem, em vez de apoio, um obstáculo, em vez de protecção, uma diminuição dos seus direitos, dentro em pouco a sociedade seria mais para se evitar do que para se procurar.”

Alfie Evans foi tratado não como uma pessoa em pleno, filho de um pai e de uma mãe, mas como um indivíduo despido de laços, cuja dignidade consiste nos seus “interesses” e que foi sujeito à ministração das forças impessoais do Estado. O Estado tornou-se assim uma coisa a evitar.

Filho adoptivo do Pai pelo baptismo, o Alfie está agora seguro da violência exercida contra ele. A violência cometida contra a sua família, os seus pais e a sua nação talvez sejam um pecado ainda maior.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 2 de Maio de 2018)

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