quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Vida num Sistema Pós-Totalitário

Em todo o lado estamos a ver sinais da cultura “woke”, numa sociedade cada vez mais dominada por pessoas brancas que se atropelam umas às outras para mostrar que são mais “woke” que todas as outras e muito menos tolerantes de tudo o que não consideram “woke” e “impuro”. Trata-se do equivalente das tentativas na era vitoriana de mostrar que eram mais “cultos” que os outros, com as suas demonstrações grandiosas de justa indignação contra qualquer tipo de comportamento que lhes parecesse insuficientemente culto.

Nestas circunstâncias, o livro “Regras para Radicais” de Saul Alinsky, tornou-se o manual preferido para o envolvimento político, em vez da Constituição ou dos Fundadores. Mas a obra “O Poder dos Sem Poder”, de Vaclav Havel, devia ser leitura obrigatória para todos os que desejam defender, contra forças aparentemente inultrapassáveis, aquilo que se tornou o movimento contra-cultural mais ameaçador nos Estados Unidos: o Cristianismo.

Havel descreveu a vida na Europa de Leste comunista dos anos 70 como “pós-totalitária”, não porque o sistema não era totalitário, mas porque a forma como esse totalitarismo era exercido na sociedade era radicalmente diferente do totalitarismo de ditadores como Hitler e Mao. O biógrafo John Keane descreveu a definição de Havel de um mundo pós-totalitário da seguinte forma:

“Dentro do sistema cada indivíduo está preso por uma espessa rede dos instrumentos do Governo… legitimados por uma por uma ideologia flexível mas englobante, uma ‘religião secularizada’… torna-se assim necessário ver, segundo Havel, que as relações de poder… podem ser descritas da melhor forma como labirintos de influência, repressão, medo e autocensura que engole toda a gente, deixando-os em silêncio, estultificados e marcados por prejuízos indesejados dos poderosos.”  

O exemplo mais Famoso de Havel é do merceeiro que expõe um cartaz na janela da sua loja a dizer “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Não o faz porque está particularmente interessado nos trabalhadores do mundo, mas porque não o fazer seria um sinal de desobediência inadmissível à ideologia dominante da sociedade.

Aqueles que lhe impõem essa obediência, recusando tolerar qualquer falha em expor o requerido sinal de submissão, não estão mais preocupados com os “trabalhadores do mundo” do que o merceeiro. Mas denunciá-lo-ão e puni-lo-ão para mostrar que continuam a aderir fielmente à ideologia dominante, ainda que o merceeiro seja precisamente um dos trabalhadores com quem alegam estar preocupados.

O merceeiro teria vergonha de colocar um cartaz a dizer: “Eu, merceeiro XY, vivo aqui e sei o que devo fazer. Comporto-me da forma que é esperada. Podem contar comigo e não têm nada a apontar-me. Sou obediente e, por isso, tenho o direito a ser deixado em paz”. A exposição do esperado “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, permite ao merceeiro esconder a sua cobardia atrás de uma fachada de preocupação desinteressada. “Mas a verdade é que os trabalhadores do mundo estão a ser oprimidos”, dirá ele. E isso é incontestável. Mas não é por isso que ele colocou o cartaz. O cartaz é um sinal da sua submissão, não das suas convicções pessoais.

Vaclav Havel
“A ideologia é uma forma ilusória de se relacionar com o mundo”, escreve Havel. “Oferece ao ser humano a ilusão de uma identidade, de dignidade e de moralidade, ao mesmo tempo que torna mais fácil dissociar-se delas. Enquanto repositório de algo supra-pessoal e objetiva, permite às pessoas enganarem as suas consciências e esconder as suas verdadeiras posições e o seu inglório modus vivendi, tanto do mundo como de si mesmos… É um véu atrás do qual os homens podem esconder a sua própria existência decaída, a sua trivialização e a sua adaptação ao status quo. É uma desculpa que todos podem usar, desde o merceeiro, que disfarça o seu medo de perder o emprego com um alegado interesse pela unificação dos proletários do mundo, até ao mais alto funcionário, cujo interesse em permanecer no poder pode ser escondido em frases sobre o serviço às classes operárias.” É um “mundo das aparências”, escreve Havel, “a tentar passar-se por realidade”.

“O sistema pós-totalitário toca todos os aspectos da vida das pessoas, mas fá-lo com luvas ideológicas. É por isso que a vida nesse sistema está de tal forma permeada por hipocrisia e mentira: ao governo por burocracia chama-se governo popular… a total degradação do indivíduo é apresentada como a sua máxima libertação; à privação de informação chama-se disponibilização; ao uso do poder para manipular chama-se o controlo popular do poder e o uso arbitrário do poder é descrito como a observação do código legal; chama-se desenvolvimento cultural à repressão da cultura; a expansão de influência imperial é apresentada como apoio pelos oprimidos; a falta de liberdade de expressão torna-se a mais elevada forma de liberdade; as eleições fraudulentas tornam-se a mais alta forma de democracia; a proibição do pensamento independente torna-se a mais científica das mundivisões.”

Havel argumentou que a restauração de uma sociedade livre apenas podia ser alcançada pela recusa de dar crédito a slogans vazios e a rituais sem sentido – ao recusar tornar-se parte da mentira que oprime os outros sem dar liberdade a ninguém. Havel descreveu isto como “vivendo na verdade”. E esse, afirmou, é o poder mais importante que ainda resta aos sem-poder.

Contudo, a “verdade” só por si raramente chega. A “verdade” deve ser defendida através da coragem e da disponibilidade para servir os outros e sacrificar-se. É quase certo que o merceeiro perderá a sua loja caso se recuse a exibir o cartaz. E depois? Alguém virá defendê-lo? Apoiá-lo e talvez contratá-lo? Ou ficarão em silêncio para que não lhes seja lançado também o olhar duro da suspeita?

Aqueles que proclamam a “verdade aos poderosos” devem ter a credibilidade que vem de servir os outros na verdade. Quando as pessoas não podem negar que o merceeiro se preocupa com os trabalhadores, torna-se mais difícil tirar-lhe a mercearia. Não deixarão de o fazer. Mas quando o fizerem isso revelará o sistema por aquilo que é: um frágil véu de mentiras. A escolha é nossa: Cuidar dos outros na verdade, ou colocar cartazes da vossa submissão às narrativas que oprimem sem libertar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 17 de Junho de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Duas Visitas à Casa dos Escravos

Michael Pakaluk
O Papa João Paulo II visitou a Maison des Esclaves, a “Casa dos Escravos”, na ilha de Goreia, ao largo do Senegal, em 1992. Mais de vinte anos mais tarde, o presidente Obama também a visitou. O que é que disseram nessa ocasião, e o que é que as diferenças nos dizem?

A Ilha de Goreia, elevada a Património Mundial em 1978, era um centro de tráfego de escravos entre os séculos XV e XIX, sob o domínio de quatro países europeus: Portugal, Holanda, Inglaterra e França. A ilha é marcada pelo contraste entre as belas casas coloniais e as escuras masmorras onde se processavam os escravos. A UNESCO refere-se a ela como a “ilha da memória” e pretende que permaneça “um símbolo da exploração humana e um santuário para a reconciliação”.

A “Casa dos Escravos”, com a sua ameaçadora “Porta sem Regresso”, que se diz ter sido a última coisa que os escravos viam quando estavam a ser colocados nos barcos para serem enviados para o Novo Mundo, foi transformada num museu em 1962 e hoje é um importante local de visita de turistas.

Na década de 90, depois da visita de João Paulo II, surgiu alguma controvérsia entre historiadores sobre se a Casa dos Escravos tinha de facto processado escravos – o mais provável é que não – e se Goreia tinha sido mesmo um importante porto do mercado esclavagista – e certamente não foi. Em todo o vasto sistema de exploração que foi o negócio dos escravos, parece que “apenas” 30.000 escravos passaram pela ilha. Não obstante, a UNESCO fez bem em não alterar a sua avaliação sobre a importância da ilha.

Os breves comentários feitos pelo Presidente Obama (ver aqui) focam a empatia e a vigilância. Na companhia da Primeira Dama, da sua filha Malia e da sua sogra, disse que esta visita era importante pois dava-lhe “a sentir, de forma muito íntima, a incrível desumanidade e dificuldade que as pessoas enfrentavam antes de embarcarem”, mas que a visita também o recordava que “temos de permanecer alerta no que toca à defesa dos direitos humanos – porque eu acredito firmemente que a humanidade é fundamentalmente boa, mas só é boa quando pessoas boas se levantam em defesa do que está certo. E isto é um testamento em memória de quando não somos vigilantes na defesa do bem, do que pode acontecer”. Segundo os arquivos Obama, o Presidente concluiu as suas declarações – feitas a um público entre os quais estavam o Presidente do Senegal e o presidente da Câmara de Goreia – com um “Obrigado, malta”.

Não deixamos de apreciar as suas boas intenções, mas nada disto faz muito sentido. Se a humanidade é fundamentalmente boa, então porque é que só alguns de nós são “boas pessoas” e porque é que estas boas pessoas só se levantam “em defesa do que está certo” de forma bastante seletiva? E que tipo de natureza é esta que, se não estivermos sempre muito alerta, regride a um estado em que nos matamos e escravizamos? Seja como for, é absurdo dizer que o sistema de escravatura foi simplesmente uma consequência de pessoas não serem vigilantes em defesa do que está certo.  

João Paulo II começou o seu discurso (que poder ser lido aqui) em francês, com “C’est un cri!” – “É um grito que ouço”.

E prosseguiu, dizendo: “Vim aqui escutar o grito de séculos e de gerações e gerações de negros, de escravos. E sou levado a considerar que o próprio Jesus Cristo se tornou um escravo, um servo, pode-se dizer: mas Ele também iluminou a realidade da escravatura. Essa luz chama-se a presença de Deus, libertação em Deus”.

João Paulo II na Casa dos Escravos
E depois disse algo extraordinário: Goreia é um local onde ficamos bem posicionados para pensar sobre a injustiça. A injustiça é “o drama trágico no seio da civilização que se intitula cristã. O grande filósofo antigo, Sócrates, disse que aqueles que sofrem a injustiça encontram-se numa condição melhor do que aqueles que são causa da injustiça”.

Como tantas das declarações de João Paulo II, esta requer muita reflexão e análise. Estará o santo a criticar a noção de uma civilização cristã, e a chamar hipócritas aos nossos antecessores? Não. Ele parte do princípio que as suas declarações de fé são verdadeiras, tão verdadeiras como podem ser para criaturas como nós. Afinal de contas, foi essa mesma civilização cristã, esclavagista, que preservou os ensinamentos de Sócrates. Mas estamos apanhados no meio de algo que nos ultrapassa – daí o drama. Afinal não é assim tão fácil viver como se acreditássemos verdadeiramente que é melhor ser tratado de forma injusta do que praticar a injustiça.

Quando aceitamos o ensinamento de Sócrates começamos a alcançar “o outro lado da realidade da injustiça”, que é invisível e está para além da empatia. A empatia só lida com sentimentos, prazeres e dores, e por isso apenas pode compreender o sofrimento da injustiça, e não a sua prática, como sendo o pior dos males. Mas quando vemos que, ao agir de forma injusta, estamos a escolher o que é pior para nós, e não o que é melhor, começamos a perceber que “as raízes deste drama trágico estão em nós, na natureza humana, no pecado”.

Para reforçar a ideia, João Paulo II actualiza a escravatura: “Vim aqui para prestar homenagem a todas estas vítimas, vítimas desconhecidas… Tristemente, a nossa civilização, que se chamou a si mesma, que se chama a si mesma cristã, regressou novamente no nosso século a esta situação dos escravos anónimos. Sabemos o que foi feito nos campos de concentração. Eis o seu modelo”. E sabemos também que noutros locais João Paulo II fez analogias entre o holocausto contemporâneo do aborto com a escravatura.

Nestes dois discursos vemos duas mundivisões: de um lado, as “pessoas boas” de entre nós, movidas apenas pela empatia, devem estar em constante modo de mobilização, para obrigar todos os outros a ser as boas pessoas que são; no outro, todos estamos envolvidos num drama, como pecado em cada um de nós, ameaçando derrotar-nos, colocando-nos na dependência da ajuda de Deus.

Misericórdia e perdão? Apenas têm um papel a desempenhar na segunda: “Não nos podemos chafurdar na tragédia da nossa civilização, na nossa fraqueza e no pecado”, concluiu João Paulo II. “Devemos permanecer sempre fiéis a outro grito: ‘Onde o pecado abundou, superabundou a graça’ [Rom. 5,20]”.




Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de junho de 2020)

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Pelos Olhos de Uma Criança

Elizabeth A. Mitchell
Uma turba enfurecida emerge das sombras do fim da tarde na prisão municipal de Maycomb, no romance “Mataram a Cotovia”, de Harper Lee, e exige que lhes seja entregue o recluso Tom Robinson. Armado com um candeeiro, um livro e com a sua integridade, o advogado Atticus Finch defende Tom da fúria incontida da multidão. A tensão está já a descambar em violência quando uma pequena voz surge das sombras e identifica um vizinho do meio da turba.

“Olá Sr. Cunningham”, diz Scout Finch, a filha de seis anos de Atticus.

“Disse ‘Olá’, Sr. Cunningham… Eu ando na escola com o seu filho… Diga-lhe ‘olá’ da minha parte, pode ser?”

Com estas palavras Scout retira ao Sr. Cunningham o anonimato da turba e coloca-o novamente no ambiente de Maycomb, um pobre agricultor com uma história de vida, com filhos e ligações próprias. Devolvido assim ao seu estado normal pelo olhar claro de uma criança, o Sr. Cunningham devolve o cumprimento a Scout e, com isso, assinala o fim da intenção da turba. “Eu digo ao meu filho que disseste olá”, promete, e o resto da multidão vai-se afastando para a escuridão.

Na história da Igreja, sempre que o Senhor quer partilhar mensagens especiais com o seu povo, sobretudo por intermédio da sua Mãe, tem escolhido crianças como mensageiras.

Desde Jacinta, Francisco e Lúcia, de Fátima, a Bernadette Soubirous de Lourdes, Dominic Savio e Maria Goretti, de Itália e o contemporâneo Carlo Acutis, de Milão, o Senhor revela a sua sabedoria aos pequeninos. Ele próprio veio a nós como uma criança, como nos recorda o poeta inglês William Blake: “He is meek, and He is mild,/ He became a little Child.”

Há algo no olhar de uma criança que penetra através das mentiras dos adultos e das verdades confundidas. Todos nós já tivemos momentos de profunda veracidade que nos foram comunicadas com a frontalidade de uma criança. As crianças não lisonjeiam, e as crianças não adulam; as crianças existem na transparência do agora.

Podem ser tentadas, e podem errar, mas a sua culpa honesta costuma ser bastante evidente. Podem irritar-se no instante, mas quando são corrigidas tendem a revelar-se profundamente agradecidas pelo amor de que a disciplina é uma expressão essencial. Dizem-nos aquilo que pensam e amam sem vergonha.

As crianças perdoam e esquecem e são infalivelmente fiéis. Não guardam ressentimentos e começam cada dia renovados. Acreditam no bem e aguentam o mal. Têm sido heroicamente pacientes enquanto lhes pedimos para abrir caminhos novos através de uma realidade assustadora e contraditória em tempos recentes. Não mudaram e recordam-nos do que é realidade.

Às crianças também falta o escudo defensivo da realidade, que nós, adultos, usamos para nos esconder quando precisamos. Dante Alighieri fala no “Inferno” da traição da confiança das crianças como sendo particularmente grave, uma vez que ela é dada de forma tão livre. O véu da razão, ou mesmo da autodefesa, com a qual racionalizamos, protegemos e diminuímos problemas, e pessoas, e situações que nos assoberbam, é um instrumento que as crianças não são capazes de utilizar. A realidade apresenta-se-lhes com toda a força bruta.

Em tudo isto encontramos uma confiança sagrada. Robert Royal escreveu um artigo cativante o ano passado chamado “Em busca dos jovens”, em que perguntava se os jovens amáveis, responsáveis e cheios de fé estavam a receber da Igreja aquilo de que precisam, precisamente quando os líderes da Igreja estão desesperadamente a tentar “abrir-se” à juventude. A melhor resposta para essa pergunta seria “Procurar Verdadeiros Adultos”. Uma criança responde a adultos que acreditam nela, que cria limites para ela e que fornece um caminho de crescimento e maturidade.  

Um bom exemplo de um adulto que compreendia este papel formativo foi o Papa São João Paulo II, que passou uma parte significativa do seu pontificado a pedir aos jovens para darem as suas vidas por Cristo de forma destemida. No leito da morte, o Papa dos Jovens soube que na Praça de São Pedro, mesmo ali ao lado, estavam milhares de jovens a guardar vigília. Respondeu, com gratidão e convicção: “Eu procurei-vos e vocês vieram a mim. Obrigado”.

O coração da criança recebe o estímulo do ambiente com abertura. A exposição a estas influências, positivas ou não, tem um enorme impacto na alma da criança durante os seus anos de formação. Se o ambiente for de fé, e confiança e altos ideais, a criança responderá com alegria aberta e aceitação amorosa. Quando as crianças se sentem seguras ficam cheias de paz. Vêm a tornar-se os jovens, e depois os adultos, que alguém teve o cuidado de acreditar que podiam vir a ser.

Os olhos de uma criança vêem a verdade e, frequentemente, se nos dermos ao trabalho de olhar, há alguém no seu olhar que nós próprios devíamos reflectir. Eles vêem a realidade como devia ser, e recordam-nos daquilo que sabem. Vêem o Sr. Cunningham quando nós nos vendemos ao medo, vêem Nossa Senhora quando nós só vemos um riacho lamacento, e vêem mãe, pai, professor e guardião cada vez que falamos e agimos com amor.

As nossas crianças estão a observar-nos, a escutar-nos. Estão a observar-nos para ver que tipo de pessoas devem tornar-se. Estão a escutar-nos para ouvir-nos falar palavras de vida para as suas almas e para verter bênçãos e propósito nos seus corações. As palavras de um progenitor, e em particular de um pai, geram de forma profunda a vida e a identidade neles. “Este é o meu filho muito amado”, diz o Pai, identificando Cristo pela sua essência.

Sejamos dignos dos olhos dos nossos filhos e da verdade que vêem. Recordemo-nos de como Deus nos chama a sermos crianças também, para poder ir a Ele, receber o seu amor e conhecer a sua graça. Através os olhos de uma criança somos fortalecidos para nos tornarmos os homens e as mulheres nobres, fiáveis e abnegadas que somos chamados a ser pelo nosso próprio Pai que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Junho de 2020 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Conflito Total, a Toda a Hora

Francis X. Maier

Cerca de 60% dos americanos acredita na existência do Inferno. Para o benefício dos que não acreditam, temos assistido a uma réplica bem fiel nas nossas ruas desde 25 de Maio, quando um polícia assassinou George Floyd. Se o Inferno é uma imagem demasiado forte, pense antes na República de Weimar. Mas Inferno é mais próximo da verdade.

As pessoas tendem a pensar no Inferno como um lago de fogo, graças às Escrituras, ou então como nove círculos descendentes de tormenta, graças a Dante. Mas eu suspeito que o Inferno é ao mesmo tempo mais prosaico e mais aterrador. É mais próximo da resposta obtida por Fausto quando perguntou ao demónio Mefistófeles como é que conseguia sair do inferno, uma vez que tinha sido condenado. “Mas isto é o inferno”, respondeu o demónio, “eu não saí”.

Tal como o amor é a energia que alimenta o Ceu, a fúria – com todos os seus afluentes de confusão, desespero, frustração e conflito – irradia o inferno. Os condenados não podem escapar porque não podem escapar a si mesmos. O inferno tem a forma que eles próprios fizeram.

Mas o que é que isso tem a ver com os últimos dias (e noites) a que assistimos na América?

Henri de Lubac notou certa vez que, nos tempos modernos, o ódio pelos hereges diminuiu. Mas isso não se deve, disse ele, ao facto de os nossos corações se terem tornado mais caridosos. Simplesmente transferimos os nossos interesses e os nossos ódios para a política. A nossa verdadeira paixão hoje é o poder e a eliminação de tudo o que esteja entre nós e o seu exercício.

A revolta na América causada pela morte de George Floyd tem raízes profundas e legítimas. O racismo é um dos pecados primordiais da nossa nação. Os seus resíduos continuam a envenenar a nossa vida pública. Muitos dos motins a que assistimos ao longo da última semana resultam de uma explosão de fúria por causa de mais uma dose desse veneno. As frustrações acumuladas por causa da quarentena da Pandemia, receios de saúde e problemas por causa do desemprego ajudaram a alimentar o caos nas ruas. Mas os motins também provocaram uma violência sistémica e um ódio político que não víamos há décadas.

Ao longo da vida da geração “boomer” houve uma altura em que a maioria dos americanos acreditavam que eram corresponsáveis pelo Governo da nação. A maioria conhecia as ideias básicas da Fundação. É verdade que a política americana sempre teve um lado feio e toda a gente que viveu os tempos conturbados dos anos 1960 sabe que a unidade nacional não passa de uma ilusão.

Mas apesar das diferenças, a maioria dos americanos sentia que tinha alguma responsabilidade partilhada pelo curso do país. E muitos ainda acreditam. Mas à medida que os anos passam, esse acto de fé parece ter cada vez menos bases factuais. Eramos uma república. Agora, pelo menos em termos substanciais, somos um império.

Mudanças económicas e demográficas, sentenças judiciais e guerras estrangeiras ao longo dos últimos 50 anos transformaram a realidade americana. As nossas instituições públicas e estruturas legais dão ares de perdurar, mas não são imortais. Para sobreviver têm de ser alimentadas por confiança popular, um espírito de compromisso e uma sensação partilhada de propósito nacional que vá para além do “e o que é que eu ganho com isso?”

Uma cultura consumista – que é o que temos – é excelente para saciar os apetites pessoais, mas não consegue promover ou suster nada para além do eu. Essa fraqueza congénita começa por esvaziar de vida uma política de solidariedade e depois substitui-a por tribalismo e uma guerra hobbesiana de tudo contra todos. Esse ambiente de conflito total, a toda a hora, é um bom retrato do Inferno.


Seria fácil culpar a actual falta de nível da nossa política em Donald Trump, na sua tendência para o insulto desnecessário, os seus tweets beligerantes e o seu estilo pessoal agressivo. Muitos querem fazer isso mesmo e certamente ele merece alguma da responsabilidade. Mas ele é um sintoma e não a causa.

Líderes democratas como Pelosi, Schumer, Schiff e outros também fizeram mais do que a sua parte para alimentar o tom tóxico e extremista do nosso ambiente político. Sem um sentimento partilhado de obrigação para Deus ou um poder superior que nos responsabilize pelas nossas acções – algo a que hoje apenas se presta homenagem com a boca na nossa vida pública – a política não passa de um mecanismo para alcançar o poder e a guerra travada nesse sentido.

E a intensidade do espírito de conflito em D.C. desce para a população, levando a incontáveis tabuletas a dizer “O Ódio Não Tem Lugar Aqui” nos jardins, alguns dos quais são sinceros, mas outros que apenas mascaram as suas próprias sementes de amargura, fingindo virtudes.

É fácil sentirmo-nos demasiado pequenos diante da dimensão dos problemas que temos de enfrentar. A questão é, o que fazer? Posso oferecer duas ideias.

A primeira vem novamente de De Lubac. Ele escreveu que “Eu não preciso de conquistar o mundo, mesmo para Cristo: Tenho de salvar a minha alma. É disso que me devo lembrar sempre, contra a tentação de sucesso no apostolado. E assim me guardarei contra meios impuros. Não é nossa missão fazer triunfar a verdade, mas testemunhá-la.”

A segunda é da Primeira Epístola de São Pedro: “Deixem, portanto, toda a espécie de maldade, toda a mentira, fingimento, invejas e murmurações … Comportem-se como pessoas livres e não usem a liberdade como uma desculpa para fazerem o mal, mas para servirem a Deus. Respeitem toda a gente, amem os irmãos na fé, tenham temor a Deus” e, sim, até “respeitem o rei”, independentemente de quem ele seja. (1 Pedro, 2, 1-18)

Não é uma mensagem muito satisfatória. Temos vontade de justificar os bons e punir os maus, tenham eles a forma que tiverem. Mas fazemo-lo, ironicamente, através da forma que construímos e assumimos para nós mesmos. As nações mudam quando nós mudamos. E destas, a segunda é a tarefa mais difícil.


Francis X. Maier é pesquisador em Estudos Católicos na Ethics and Public Policy Center.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Junho de 2020)

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