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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Não Existe Cultura Secular

James Matthew Wilson
O Simon During formulou um argumento deprimente, mas convincente, sobre a relação entre religião e cultura na revista “The Chronicle of Higher Education”, uma referência no meio académico actual. Diz ele que a secularização do Ocidente moderno não implicou o abandono da religião, mas a sua redução a uma dimensão opcional da vida humana (uma ideia retirada do importante livro “A Secular Age”, de Charles Taylor). A despromoção da religião levou à promoção da cultura. A cultura, nos tempos modernos, tornou-se um novo termo-divino que dá coerência à civilização e à sociedade – uma espécie de substituto imanente para a transcendência da fé cristã. Como defendia Matthew Arnold, a cultura salvar-nos-á da anarquia.

Mas essa substituição está agora a ser desfeita, argumenta During, por uma segunda secularização. Tal como a autoridade da Igreja sofreu uma erosão por causa de vários eventos que convergiram numa ordem política secular, agora uma série de eventos, desde o neoliberalismo até ao feminismo e à política identitária, levou à rejeição dos cânones da cultura.

Já não é necessário ter uma certa apreciação pela Paixão de São Mateus, de Bach, ou da Eneida, de Virgílio, para se ser considerado um ser humano minimamente civilizado. Pelo contrário, esse tipo de conhecimento pode ser prejudicial. Mais vale passar o tempo a estudar análise de risco ou cibersegurança, dizem-nos os tecnocratas neoliberais. Ou então crítica pós-colonial de Virgílio ou, melhor ainda, deixar esse cadáver para trás em troca pelo estilo lírico de uma representante de povos não-ocidentais, ou um defensor da “pedagogia dos oprimidos”.  

Esta versão da história proposta por During pode não seguir as leis férreas da história, mas tem a sua própria dinâmica que é difícil de contrapor, ainda que não sejamos fãs. Mas eu gostaria de olhar apenas para a ligação que ele faz entre as secularizações religiosa e cultural e levantar algumas questões sobre a própria ideia de a cultura ser um “substituto” da religião. Na minha opinião as grandes obras culturais são antes expressões fortes da verdade do Cristianismo.

Não é por acaso que autores do início do Século XX, como Henri Massis, Charles Péguy, T.S. Elliot e Christopher Dawson tendiam a alternar entre a defesa do Cristianismo e da cultura, usando o termo nebuloso “Ocidente”. Eles compreendiam, e bem, que o Cristianismo transcende todas as realidades históricas, incluindo a cultura ocidental, e sabiam também que seria difícil, se não impossível, ter uma sem o outro.

Viam-no porque é, de uma forma muito particular, verdade. Devemos aos melhores filósofos pagãos as descrições mais convincentes e bem articuladas sobre o que significa ser humano. Os seres humanos são criaturas cuja alma aspira, por natureza, ao conhecimento da verdade por si só; criaturas que não desejam apenas a verdade, mas precisam de a contemplar. Assim nos sentimos preenchidos, felizes, e as nossas vidas transformam-se da vã perseguição da glória mundana para o descanso na eterna glória de tudo o que é, do próprio Ser.

Esta foi uma conquista cultural difícil, mas mais importantemente, foi uma conquista religiosa. A revelação de Deus a Israel e o envio do seu Filho ao mundo para proclamar a Boa Nova conduziu o mundo à plenitude predestinada da sua compreensão. A contemplação da verdade preenche-nos porque a Verdade é uma pessoa que nos criou para o conhecermos e amarmos. Encontrá-lo e viver nele não é apenas uma boa nova, é a única nova que permanece sempre boa.

A era moderna descrita por During e Taylor como sendo secular nunca abandonou verdadeiramente estas visões, embora as tenha truncado e despido dos seus verdadeiros sentidos. Reconhecia que existia algo distintivo e misterioso sobre as pessoas: Somos feitos para a transcendência. A era moderna simplesmente parou de especificar de que tipo de transcendência estava a falar e, pelo caminho, ofuscou a sua própria visão.

Sim, temos almas, dizem os modernos: elevamo-nos acima das nossas existências materiais, pelo menos de tempos a tempos, num ato de autoconsciência. As obras da alta cultura são tudo o que parecem ser – desde a filosofia de Kant às pinturas de Friedrich, à opera de Wagner ou à poesia de Rilke. Recordam à alma esquecida que é capaz de subir acima das leis mecânicas da natureza, ainda que apenas por instantes.

Enfim, a cultura moderna também pôde afirmar esta elevação, este êxtase, mas só como um tipo de patologia. Temos momentos de iluminação e depois afundamo-nos novamente na carne. “Tangendo-me de ti [espírito eterno] de volta à solidão”, como escreveu Keats. Eventualmente as pessoas compreenderam o esquema. Para quê preocupar-se com uma transcendência sem sentido? Parece demasiado etérea quando comparada com a transcendência mais funcional do dinheiro, através do qual asseguramos para nós mesmos uma imortalidade em miniatura. Já a elevação cultural parece uma indulgência narcisista quando comparada com a transcendência de perseguir bens políticos que poderão permanecer para além de nós.

Uma secularização sucede necessariamente à outra. A fundação da cultura, como disse frequentemente Joseph Pieper, é o cultus – o culto. Sem um claro sentido da nossa orientação para a contemplação de Deus, todas as obras do homem que parecem verdadeiras, boas, e belas começam a parecer primeiro meras distrações e finalmente ilusões.

Em “A Pessoa e o Bem Comum” Jacques Maritain argumenta que o ser humano é uma criatura ordenada para a comunhão imediata com Deus, mas que a personalidade revela ainda uma tendência para a comunhão com outros seres. O tesouro da cultura, como ele lhe chama, é simplesmente a irradiação da verdade e da beleza produzidos pela nossa tendência natural para nos unirmos a Deus e aos outros enquanto pessoas.

Se a Verdade não fosse uma pessoa com quem nos encontramos, não haveria uma experiência primordial da qual a cultura é uma espécie de fruto, nenhuma orientação para o sagrado, nenhuma expressão de nós mesmos na ordem “secular”. Mas pelo contrário, todos os nossos encontros com a obras culturais são pistas, reflexões, ecos sobre a natureza e o destino do homem. Escutem-nos.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Adeus Colombo

Há quase exactamente 25 anos James A. Clifton, um antropólogo da Universidade de Wisconsin, ligou-me depois de ter lido o meu artigo no “First Things”, chamado “1492 and all that”, que mais tarde se tornou um livro. Nessa altura estávamos no meio de um turbilhão de emoções anticatólicas e anti-ocidentais por causa dos 500 anos das viagens de Cristóvão Colombo para o Novo Mundo e a sua alegada responsabilidade nos maus-tratos de nativos americanos, na escravatura e no imperialismo cristão.

Estava à espera do pior, mas ele ligou para me dar apoio. Ele tinha escrito um livro que continua a ser fascinante, chamado “The Invented Indian”, que procurava clarificar os verdadeiros feitos dos nativos americanos por oposição às idealizações alimentadas por um sentimento de culpabilização. Em troca deste seu serviço pela verdade recebeu ameaças e ressentimentos. Um dia alguém vestido de índio – ou melhor, alguém com um conjunto ridículo de artigos de roupa de diferentes tribos – foi bater à sua porta armado com uma pistola. O professor Clifton riu-se e virou as costas dizendo-lhe para voltar quando soubesse alguma coisa sobre índios.

Há coisas que nunca mudam, incluindo este revolta suicida e em larga medida ignorante que é agora um marco regular da cultura americana e que se está a espalhar para outros países ocidentais. Por entre os terríveis conflitos entre representantes do alt-right e do alt-left em Charlottesville (que, como de costume, causaram ferimentos em pessoas inocentes) parece que nos esquecemos da verdade humana e cristã de que somos todos seres imperfeitos. E que se não tivermos a capacidade de tolerar as fraquezas dos outros, e se não dermos espaço o perdão, acaba por se tornar impossível conviver.

O absolutismo puritano costumava ser uma característica de movimentos religiosos e políticos extremistas; mas agora infesta os próprios lugares que deviam ter melhor compreensão das diferenças e dos contextos, como é o caso das universidades e dos meios de comunicação.

Aprendi a minha lição quando tentei pintar um retrato claro da era dos descobrimentos. Havia, e ainda há, bons historiadores, académicos e amadores, dedicados a estes assuntos. Mas o que acaba por garantir a atenção mediática são as generalizações condenatórias que ignoram distinções morais essenciais.

O grande “defensor dos índios”, o dominicano Bartolomé de Las Casas, falou da “doçura e benignidade” de Colombo, em contraste com outros exploradores espanhóis. Cortez podia ser brutal, embora tenha acabado os seus dias num mosteiro, a penitenciar-se pelos seus pecados. Pizarro era pura e simplesmente um psicopata. Mas Colombo era de outra categoria; apesar das dificuldades sem precedentes que teve de enfrentar nas novas culturas que encontrou, houve poucos casos de maus tratos a quem quer que fosse. Frequentemente manifestava incertezas sobre como proceder, tal como nós. Las Casas disse que “verdadeiramente, não me atreveria a julgar as intenções do almirante pois conheci-o bem e sabia que eram boas”. Contudo, Colombo acabou por se tornar um bode expiatório cultural.

Salvo algumas personagens que eram quase puros monstros, as grandes figuras culturais são, como nós, uma mistura de bem e de mal. E a nossa posição em relação a eles é como crianças que tomaram conhecimento dos pecados e das fraquezas dos seus pais. Mesmo quando as suas falhas são muito evidentes, continuamos a poder honrar as coisas boas que nos legaram, que são tantas e de tal forma enraizadas em nós que nem as podemos enumerar. É por isso que no mandamento logo a seguir ao de não adorar ninguém para além de Deus, somos instruídos a “honrar pai e mãe”. Não estamos perante um patriarcado da idade da pedra (notem a referência à mãe), mas sim de um caso de simples justiça: Temos uma dívida para com aqueles que nos deram a vida e a nutriram.

A nossa cultura foi criada por pessoas grandes, ainda que imperfeitas. E os padrões que usamos para as julgar – e para nos julgarmos a nós mesmos – não foram inventados imaculadamente quando nós, quais seres perfeitos, começámos a existir. Quando tínhamos uma imagem mais perfeita da natureza humana não nos deixávamos surpreender tanto com o facto de que as grandes figuras históricas tinham grandes virtudes e grandes vícios.

Abraham Lincoln, por exemplo, costumava dizer que os escravos africanos não podiam ser assimilados numa sociedade branca e que por isso o melhor seria enviá-los de volta para África. Devemos ignorar tudo o que disse este grande homem só por causa de um erro de juízo?

De igual modo Martin Luther King Jr. cometeu vários actos de adultério. Perguntei uma vez a um padre católico que tinha trabalhado com King no movimento dos direitos civis sobre esta questão. Ele admitiu que se tratava de um problema, mas que tendo em conta a quantidade de mulheres que se atirava a ele, poderia ter sido bem pior. Devemos deixar que essa fraqueza dele se sobreponha a todos os seus grandes feitos?

Antigamente ficávamos preocupados com o facto de haver alunos a licenciar-se sem saber em que século tinha sido a Guerra Civil, ou as datas da Segunda Guerra Mundial. Mas agora permitimos a um pequeno grupo de radicais, com um grande megafone mediático, fazer afirmações e contra-afirmações cósmicas que ignoram os trajectos difíceis da história humana.

É natural, numa democracia, haver debate e até divisão, mas a demonização actual não é normal. É legítimo analisar e discutir a vida de figuras como Robert E. Lee. É até útil examinar os registos – através do pensamento crítico e não da profanação de monumentos – de santos como Junípero Serra, que enfrentou condições que dariam cabo da maioria de nós, e contudo foi capaz de retirar delas grandes bens.

Las Casas, que por vezes criticava ferozmente os seus compatriotas espanhóis, também foi capaz de elogiá-los por “levar a cabo feitos nunca antes inventados nem sonhados”. Todos nós, católicos, protestantes, religiosos ou não, precisam de se chegar à frente nesta altura. Não podemos deixar que os termos da discussão sejam estabelecidos por pessoas que sofrem de amnésia cultural ou que vivem auto-iludidos sobre a sua própria pureza moral.

Teremos de ser pessoas de memória, especialmente sobre as raízes da nossa civilização e sobre como a defender, não obstante as suas imperfeições. Na verdade definimos essas imperfeições largamente sob a óptica da tradição cristã ocidental, a única base real para a nossa noção de dignidade de todos os seres humanos, radicada no facto de sermos feitos à imagem de Deus.

Destruam essa tradição e verão que se seguirá uma guerra de todos contra todos. Aliás, já começou.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 28 de Agosto de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Islamismo e o Ocidente, o Grande Desafio para 2017

Alguns jornais europeus noticiaram – muito discretamente – que de acordo com polícia na região alemã de Vestefália/Renânia do Norte, entre 2011 e 2016 houve 3.500 casos de vandalismo/profanação de igrejas cristãs. Corresponde a cerca de dois por dia, só numa região da Alemanha, todos os dias, ao longo de cinco anos.

O mais provável é que nunca tenha ouvido falar disto. A maioria dos europeus também não, porque… Bom, porque não. Mesmo estes números vagos são difíceis de conseguir. Em vários países a polícia não quer assustar o público, dando a ideia de que não consegue fornecer segurança básica – lembram-se dos casos de assédio sexual a mulheres na passagem de ano o ano passado? E, claro, há ainda o factor do politicamente correcto.

As autoridades alemãs dizem que os ataques em Vestefália são em larga medida da responsabilidade de salafitas jihadistas, que roubam dinheiro das caixas de esmolas para ajudar a financiar as suas actividades. Os salafitas tendem a proibir o uso da razão (kalam) em assuntos de religião e entre eles há opiniões divergentes em relação à jihad violenta. Há cerca de 7.500 salafitas na Alemanha, 17.000 em França, milhões no Egipto e na Índia e grupos mais pequenos na Suécia e na China. Há-de haver um número significativo, mas desconhecido, nos Estados Unidos.

Se quer saber qual será um dos factores decisivos em 2017, pode bem ser como o Ocidente lida, ou deixa de lidar, com desafios como aqueles que são apresentados por movimentos como o salafita, ao estilo do massacre no mercado de Natal em Berlim, inspirado pelo Estado Islâmico.

A China e a Rússia exigirão políticas externas duras e criativas do ponto de vista da economia. A política interna americana vai ser uma batalha campal. Mas o islamismo envolve desafios fundamentais ao nível do pensamento e das crenças.

De facto, mais do que uma ameaça externa, o islamismo envolve uma crise no próprio Ocidente. A chanceler alemã Angela Merkel disse que o problema na Europa não é um excesso de muçulmanos, mas uma escassez de Cristianismo. É uma forma já tardia de justificar a entrada de mais de um milhão de muçulmanos, sem qualquer examinação, na Alemanha e, por consequência, para toda a Europa e até mais além, devido aos acordos Schengen.

Mas Merkel não deixa de tocar uma verdade, embora talvez não aquela que pretendia. Não é só o Leste que está em tumulto, o Ocidente também está, como se torna evidente pelos primeiros sinais de desintegração da União Europeia e a revolta populista que levou à eleição de Donald Trump.  

A velha ordem liberal, baseada no pluralismo e na tolerância, foi boa enquanto durou, enquanto o Ocidente gozava da protecção providenciada pela tradição judaico-cristã. Quando se acredita, como se lê no Génesis, que os seres humanos são feitos à imagem de Deus, é fácil compreender porque é que devemos respeitar-nos uns aos outros, na medida em que todos temos livre arbítrio e uso da razão.

Mas quando, como acontece com as elites ocidentais, se deixa de acreditar que a dignidade humana é transversal, é difícil explicar porque é que o outro merece respeito enquanto ainda está no ventre, ou quando discorda de nós no que diz respeito à política ou à fé.

Os nossos partidos políticos foram-se alinhando em posições radicalmente opostas, com os republicanos a promover a fé, família e nação e os democratas a raça, género e classe. Claro que isto é uma simplificação, mas traduz em linhas gerais o destino do país sob um partido ou outro. Com o Presidente Trump, as irmãzinhas dos pobres não têm nada a temer mas a Planned Parenthood sim. Se Hillary tivesse ganho, seria ao contrário.

Existe uma divisão semelhante no que diz respeito à defesa do Ocidente. Trump defende medidas mais severas, os democratas acreditam que podemos continuar a tratar os muçulmanos como apenas mais um grupo religioso numa América religiosamente pluralista.

Há aqui questões delicadas, e outras não tão delicadas. A administração Democrata que atropelou os cristãos e outros que resistiram a nova moral do Estado moderno, mas que desdramatizou a ameaça islamita, não foi capaz de fazer esta distinção.

Salafitas na Alemanha
É evidente que podemos coexistir com muçulmanos que queiram coexistir connosco. Mas a presença de jihadistas – que essencialmente compõem uma força armada amorfa na nossa sociedade – há-de conduzir-nos cada vez mais na direcção de testes religiosos para entrar no país, ou até mais longe.

O filósofo político Pierre Manent argumenta que a França está perante esta crise porque as suas elites ainda acreditam, em larga medida, que de acordo com as regras iluministas da revolução francesa, este problema não deve sequer existir. Pensam que se todos forem acolhidos pelo Estado secular, verão que só têm a ganhar em assimilar-se e dar-se com a sociedade. Logo, os conflitos que possam existir só podem ter a ver com dinheiro e exclusão social. Como se não houvesse quaisquer outras visões da política, sociedade ou religião.

Isso tem sido dado como falso repetidamente. No dia 11 de Setembro em Nova Iorque e em Washington, e noutras ocasiões em Madrid, Copenhaga, Boston, Paris, Bruxelas, Saint-Étienne-du-Rouvray, Nice, San Bernardino, Columbus, Orlando, Cairo e há dias em Istambul.

Os nossos líderes seculares e – infelizmente – religiosos, têm feito verdadeiras manobras de contorcionismo para negar que haja qualquer factor “autenticamente” religioso nestes ataques. Até o Vaticano, que pensar-se-ia poder apreciar o papel central da religião na vida humana, se juntou ao coro, afirmando que os verdadeiros motivos são dinheiro, poder, petróleo, o negócio das armas – tudo menos religião.

Tudo isto faz lembrar o debate sobre a União Soviética durante a Guerra Fria, quando uma fatia significativa da opinião pública do Ocidente quis desdramatizar as diferenças em relação a um sistema agressivamente ateu e armado com milhares de armas nucleares, principalmente, deve-se dizer, por medo das consequências de enfrentar a verdade.

Actualmente o Ocidente está quase tão dividido como o Oriente em termos de religião e aquilo que a fé significa para as pessoas. Não vamos ultrapassar esta brecha em 2017 – pelo contrário, é natural que se torne ainda maior, à medida que a já forte resistência ao Presidente Trump ganha força. Mas uma sociedade sã encararia 3.500 ataques a Igrejas cristas – e sabe-se lá quantas mais noutros locais – como um sinal de alarme.

Nada disto corresponde a uma “guerra contra o Islão” – isso é um falso problema – mas sim a uma batalha perpétua contra todos aqueles, incluindo os da nossa própria cultura, que ameaçam as fundações da dignidade e liberdade humanas.

Feliz Ano Novo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A Guerra Mais Longa

David Carlin
A actual luta contra o Estado Islâmico e o “terrorismo islâmico radical” (que o Presidente Obama me perdoe por usar esta expressão) é apenas a mais recente fase de uma guerra que dura há mais de 3.000 anos, uma guerra que tem sido combatida ao longo da maior falha sísmica geopolítica do mundo, a que separa a Ásia ocidental da Europa. Vejamos alguns dos pontos principais da guerra mais longa do mundo.

1. O primeiro registo deste conflito encontra-se na Ilíada: A Guerra de Troia, de Homero, em que uma coligação de gregos ataca Tróia, uma cidade comercial importante do lado asiático do mar Egeu.

2. No início do século V antes de Cristo, o Grande Rei da Pérsia, Xerxes, invadiu a Grécia com um tremendo exército e uma marinha significativa. Para além da batalha das Termópilas (“Estrangeiro, dizei a Esparta que aqui jazemos, em obediência às suas leis”), Xerxes enfrentou pouca oposição na Grécia e ocupou Atenas. Mas depois foi derrotado na batalha naval de Salamina (480 AC) e, um ano mais tarde, perdeu também em terra, em Plateias.

3. Em 330 AC, Alexandre liderou um exército de gregos e macedónios pela Ásia adentro, e numa campanha militar brilhante conquistou o vasto Império Persa. Num acto de vingança pelo incêndio da acrópole de Atenas em 480, Alexandre – enquanto bêbado – deitou fogo à capital persa de Persépolis. (Alexandre era conhecido por ser casto, não por ser sóbrio).

4. Começando em meados do Século III Antes de Cristo e terminando em meados do segundo, Roma combateu duas granes guerras contra Cartago, mais uma guerra mais pequena. Depois desta terceira guerra Cartago – que apesar da sua localização ocidental, era uma cidade Asiática, sendo uma colónia de Tiro – foi derrotada e arrasada.

5. No Século II AC os judeus (que naquele tempo eram asiáticos e não europeus), sob a liderança dos Macabeus, saiu debaixo do jugo do rei da Síria, que era de tradição helénica. Mas em meados do Século I AC Roma tinha reestabelecido o domínio ocidental na Palestina. Cerca do ano 70 da Era Cristã, os judeus ergueram-se contra os romanos, mas foram totalmente esmagados. No segundo século houve outro levantamento, mas o resultado foi o mesmo.

6. Durante séculos houve guerras intermitentes entre Roma e os impérios sucessivos da Pérsia e de Pártia. Numa destas batalhas (primeiro século AC), Marcos Crassos, membro do Primeiro Triunvirato, foi morto e, noutra (século IV DC), morreu o Imperador Juliano (“O Apóstata”).

7. No começo da década de 630 os guerreiros de uma nova religião, o Islão, emergiram dos desertos da Arábia e conquistaram grande parte de Ásia e todas as porções africanas do Império Romano. Os Árabes conquistaram quase toda a Península Ibérica e o seu avanço para Ocidente só foi travado quando Carlos Martel (avô de Carlos Magno) os derrotou perto da cidade francesa de Tours.

8. Na Península Ibérica, onde alguns enclaves cristãos sobreviveram à conquista árabe, começou em breve a Reconquista, mas esta só ficou completa quando os reis Fernando e Isabel ocuparam Granada, o último dos reinos muçulmanos em Espanha, e expulsaram todos os muçulmanos (e judeus).

9. Enquanto os cristãos estavam a recuperar a Península, os cristãos noutras partes da Europa Ocidental estavam a marchar e a navegar rumo à Palestina. As cruzadas começaram no final do Século XI e continuaram, intermitentemente, durante os próximos 200 anos. Depois de algum sucesso inicial, o Ocidente falhou na tentativa de reconquistar as partes da Ásia Ocidental que tinha perdido com o levantamento dos Árabes no Século VII.

10. Entretanto o Império Romano (ou Bizantino) caiu em 1453, quando os otomanos muçulmanos capturaram a sua praça forte, Constantinopla, depois de mais de um século a conquistar bocadinhos do que tinha sido até então um vasto império.

Aquiles depois de matar Heitor, na batalha de Tróia
11. Não contentes com isto, os turcos invadiram o coração da Europa, subindo pelo vale do Danúbio, vencendo a Batalha de Mohács (1526). Isto deu-lhes controlo de grande parte da Hungria e uma rampa de lançamento para dois ataques mal sucedidos contra Viena, o último dos quais aconteceu em 1683. Entre estas duas datas o Ocidente cristão venceu a grande batalha naval de Lepanto (1571)

12. A grande mudança deu-se com a modernização do Ocidente, enquanto o Império Otomano se foi tornando “o homem doente da Europa”. A começar pela Grécia no início do Século XIX, as províncias europeias do império turco foram ganhando independência um após outro. No final da Primeira Guerra Mundial a frente Islâmica/Asiática na Europa estava reduzida a Istanbul, seus subúrbios e a Albânia.

13. À medida que o Império Otomano entrou em declínio e finalmente colapsou, as nações europeias, sobretudo a Grã-Bretanha e França, preencheram o vácuo, controlando, através de colónias ou de outras formas, os países da África do Norte e do Médio Oriente que tinham feito parte do império turco.

14. No final do Século XIX começou o movimento sionista. Muitos judeus (que por esta altura já eram europeus) emigraram para a Palestina. Os seus colonatos foram legitimados pela Declaração de Balfour (1917). Eventualmente estes colonatos levaram à criação do Estado de Israel (1948) e a uma série de guerras com os países árabes vizinhos.

15. Depois da Segunda Guerra Mundial surgiu o nacionalismo árabe, cujo elemento agregador era um ódio universal por Israel. Os árabes não viam (nem vêem) Israel da mesma maneira que os judeus, isto é, como o restabelecimento de uma pátria antiga. Vêem-na como uma invasão ocidental do seu território.

16. If we can believe Homer, this whole tragic series began when the beautiful wife of an important European ruler ran off with a handsome and charming young fellow from Asia – an illicit love affair that touched off centuries of even more illicit hatred.

Se acreditarmos em Homero, toda esta série trágica começou quando a mulher lindíssima de um importante líder europeu fugiu com um jovem charmoso e vistoso da Ásia – um romance ilícito que espoletou séculos de um ódio ainda mais ilícito.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sexta-feira, 18 de Dezembro de 2015 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Só o Charlie Hebdo não Chega

Jason Scott Jones e John Zmirak
O atentado contra o Charlie Hebdo foi um ataque à Cristandade. Paradoxalmente, jornais que publicam caricaturas imaturas a gozar com a religião também fazem parte do Corpo de Cristo – ainda que sejam o intestino delgado, talvez. Numa sociedade formada por uma noção profundamente cristã da dignidade humana, há espaço para maus cristãos e até para não-cristãos, da mesma maneira que existem celas para carmelitas místicas. A visão mais alargada de uma sociedade verdadeiramente cristã, no sentido terreno, não se encontra nos tratados monásticos mas sim nos Contos de Cantuária.

Qualquer tentativa de “purificar” as sociedades cristãs da dissensão e do pecado à força, acaba sempre em catástrofe: com “hereges” agrilhoados, judeus identificados e pilhas de obras de arte em cima de fogueiras. Estas tentativas de truncar o Corpo de Cristo dos seus membros “impuros” deixaram sementes de vingança que deram brotaram em 1798 em França e em Espanha na década de 1930. No Concílio Vaticano II a Igreja renunciou totalmente a quaisquer aspirações de dominar as almas dos homens através da espada do Estado – reconhecendo que a perseguição religiosa é intrinsecamente má, tal como o adultério e o aborto.

Por isso é doentio ver alguns comentadores a arranjar desculpas para a matança de jornalistas, sugerindo que as vítimas “estavam a pedi-las” por terem enfurecido as sensibilidades dos muçulmanos. Como disse Ross Douthat, qualquer religião que ameaça matar os seus críticos precisa de, e merece, ser gozado desta forma – é um método de autodefesa por parte dos não-crentes.

Mesmo os crentes precisam de algum espaço para poderem brincar com as exigências infinitas da religião, por forma a sublinhar o valor da vida terrena perante aqueles que procuram forçar um sentido puramente espiritual em cada centímetro quadrado da existência. Este dever solene de resistência explica o surgimento de fenómenos loucos como o carnaval, as canções profanas escritas pelos monges e as piadas anticlericais entre os devotos.

A fé cristã não defende que num mundo perfeito seríamos todos monges e freiras – como se o casamento, o trabalho e a política fossem um triste compromisso com o pecado. Muitos clérigos ensinaram este género de coisas e foram por isso justamente gozados pelos leigos. John Henry Newman compreendia isto. Quando o Bispo Ullathorne lhe perguntou se a Igreja precisava dos leigos, respondeu que sem eles a Igreja pareceria ridícula.

O Cristianismo aguenta e assimila a humilhação. O próprio Deus veio à Terra para ser abusado, espancado e cuspido. Na nossa piedade representamos esse mesmo Deus feito homem em pequenas imagens de plástico e também nas mais sublimes obras de arte. Os muçulmanos, por outro lado, centram-se em alguém que admitem ter sido apenas um homem – e depois endeusam-no, elevando cada uma das suas acções terrenas, (desde a guerra à poligamia) ao modelo da perfeição moral e afirmando que Ele é demasiado sagrado para ser representado. Era assim que os judeus, que o Islão imitou e depois vilipendiou, tratavam o Senhor, de quem nunca produziam imagens e cujo nome não se atreviam a pronunciar.

Mas apesar de todo o seu temor de Deus, os judeus também têm como modelo Abraão, que discutiu e regateou com Deus, e Jacob, que lutava contra anjos. Os pensadores judeus sempre tiveram a audácia de confrontar Deus com questões difíceis sobre a sua justiça e o sofrimento humano – e quando não encontravam respostas que os satisfizessem, encolhiam os ombros e recorriam ao sarcasmo. De certa forma, o Islão é o Judaísmo, mas sem sentido de humor.

Joana d'Arc
Por isso a Igreja e Ocidente precisam, de alguma maneira, do Charlie Hebdo. Se a França tiver de colocar esquadrões da Legião Estrangeira à frente do edifício para defender a redacção, então vale bem o preço, tendo em conta a alternativa de entregar as liberdades ocidentais aos vândalos barbudos das banlieues.

Mas só o Charlie Hebdo não chega. França precisa de Villon, Rabelais, Moliere, talvez até de Voltaire. Mas não foram estes homens quem construiu o país, nem foram os satíricos e os cínicos que o salvaram, vezes sem conta. O espaço de liberdade onde malandros deste género podem dedicar-se ao que fazem foi povoado, ordenado e embelezado por uma outra estirpe de gente: Carlos Martelo, Luís IX e Joana d’Arc; pelos camponeses da Vendeia, pelos peregrinos de Lourdes e pelos soldados de infantaria em Verdum; e ainda por patriotas desavergonhados como Charles de Gaulle.

Em 1940 os cínicos generais de direita decidiram deixar de defender a corrupta Terceira República, acolhendo a vitória alemã como uma “surpresa divina” e instalando o seu próprio compincha, o Marechal Pétain, como “salvador” da nação. Rejeitada há anos nas urnas, a extrema-direita francesa aproveitou a vitória dos alemães para colocar os Voltaires do seu país no devido lugar. E quem é que se revoltou contra eles? Não foram os Sartres da vida – que continuaram alegremente a encenar teatros para entreter os alemães em Paris. Não foram os quadros comunistas, cujos mestres em Moscovo eram ainda aliados de Hitler. Foi Charles de Gaulle, o patriota chauvinista e sem sentido de humor, que foi para o exílio para dar continuidade à luta “sem esperança”.

Hoje, com uma ideologia igualmente má a ameaçar a França e o Ocidente, não serão os cínicos corajosos a salvar a situação. Serão homens e mulheres, enfurecidos com este ataque à sua nação. Os bem-falantes, multiculturalistas desinteressados que consideram o entusiasmo ordinário estarão, na sua maioria, contra eles. Os de Gaulles, estamos em crer, afastarão os Sartres e salvarão a França e o Ocidente.

Os europeus que o fizerem serão aqueles que odeiam a tirania e os seus valores estrangeiros, tais como a “submissão” irracional a um Deus caprichoso do deserto. Mas mais do que ódio, serão movidos por amor: Amor pelos seus conterrâneos franceses, alemães, suíços e ingleses e os seus modos de vida ancestrais. Este tipo de amor, que exige o sacrifício, surge nos espíritos grandes e vivaços. Só as almas com longo historial de coragem, fortaleza, temperança e prudência podem esperar ter fé ou amor.

Rezamos para que a ética cristã impeça estes patriotas de cometer qualquer acto mesquinho e que o seu combate pelo ocidente respeite os mais elevados valores – no centro dos quais se encontra a pessoa, imagem brilhante de Deus.


O livro “The Race to Save Our Century”, de Jason Scott Jones e John Zmirak pode ser adquirido na loja online do The Catholic Thing na Amazon.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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