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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fé, Razão, Vida

A 46ª Caminhada Pela Vida que se realiza hoje [sexta-feira, 18 de Janeiro] em Washington não é um evento católico. Ao longo dos últimos anos tem sido muito gratificante ver um aumento no número de evangélicos, outros protestantes e judeus – como não adorar o som do Shofar a ser soprado do palco, antes de a multidão arrancar –, mórmones, muçulmanos e ainda outros a participar. Todos os que se têm vindo a aperceber que matar os mais pequenos e vulneráveis da espécie humana não tem nada de humano nem ajuda em nada as mulheres, que são mortas através do aborto às dezenas de milhões, em todo o mundo, simplesmente pelo facto de serem do sexo feminino.

Mas a caminhada – e a causa pró-vida – também não são, verdadeiramente, um tema religioso. É sempre bom ver na caminhada os Ateus pela Vida, mas também é uma recordação importante. Não somos contra o aborto por se opor a um qualquer dogma religioso. Se fosse esse o caso – como muitos defensores do aborto afirmam, erradamente – seria difícil evitar a acusação de estarmos a tentar “impor a nossa religião” aos outros. Pelo contrário, estamos a tentar evitar que as pessoas pratiquem uma forma irracional, falsa e sangrenta de idolatria.

É a razão, e não a revelação, que nos diz que, caso acreditemos que é errado matar, então matar crianças ainda na barriga das mães também é errado. E com cada ano que passa essa posição moral torna-se ainda mais clara. Quando a decisão Roe v. Wade, que legalizou o aborto em todo o país, foi anunciada, em 1973, a medicina estava a anos-luz do que está agora. Hoje sabemos, por exemplo, que o coração de uma criança começa a bater cerca de quatro semanas depois da concepção e que já acontecem muitas outras coisas que tornam claro que aquilo que se está a desenvolver e a crescer é um ser humano vivo (com o seu próprio ADN), rapaz ou rapariga desde o começo. Segue-se, racionalmente, que quem decidir pôr fim a essa vida, mesmo no seu estado mais incipiente, está a cometer um erro moral grave.  

E fazemos bem tanto em argumentar racionalmente como em caminhar pelo fim do aborto. Aliás, é mesmo uma obrigação moral. Confrontar-nos uns aos outros, em busca da verdade, é uma forma de demonstrar a nossa convicção de que aqueles com quem discordamos são, como nós, seres racionais. Eu sei que é pedir muito que a razão prevaleça, quando há tantas paixões e interesses em jogo. Mas é por isso que as caminhadas, manifestações e o exemplo pessoal devem também ser usados, nem que seja para criar oportunidades de fazer-se ouvir o lado científico e os bons argumentos.

Cerca de dez anos depois da decisão judicial de Row, estava a conversar com um filósofo, que entretanto se tornou mundialmente conhecido, sobre o aborto. Ele previu que, apesar de se tornar cada vez mais claro, através da ciência e da razão, o que estamos a fazer quando abortamos os nossos filhos, nada disso importaria. “Chegará o dia em que serão forçados a admitir a verdade. E então dirão, ‘Sim, é um bebé que se está a matar, e depois?’”

Na altura tive as minhas dúvidas, hoje já não tenho. Há anos que se muda o assunto do estatuto moral da vida intrauterina para tudo, desde o respeito pela liberdade das mulheres, o preconceito religioso e o combate à pobreza e aos danos ambientais. E também já nos disseram que, sim, é uma escolha difícil. Mas difícil porquê? Talvez porque esteja um bebé em causa? Sim, mas insistem que a mulher continua a ter aquele direito. Num acesso de paixão moral o Papa Francisco acertou no ponto quando disse que fazer um aborto é como contratar um assassino para nos resolver um problema. E a verdade é que esse assassino está a receber muitas chamadas: 42 milhões em todo o mundo só no último ano, de acordo com uma estimativa, fazendo do aborto a principal causa de morte.  

Os católicos americanos têm tido um papel central e louvável, claro, em manter viva a causa pró-vida. E por isso não é surpresa nenhuma que outros, que acreditam que é a verdade que nos liberta, se tenham juntado a nós. E não apenas neste país. O nosso exemplo tem espoletado outros esforços parecidos em vários países e, recentemente, até em Roma, embora a Igreja italiana e o Vaticano se tenham mantido distantes, por razões políticas aparentemente más, da Marcia per la Vita.

Desde esta segunda vaga da crise de abusos, os bispos americanos – e por implicação a Igreja como um todo – têm levado com críticas severas, algumas injustas, mas na maior parte justas. Tudo isso tem danificado a força do nosso testemunho público em várias frentes. Nestes últimos dias o Cardeal Wuerl até teve de abandonar os seus planos para celebrar a missa pró-vida que antecede a Caminhada. Foi substituído pelo núncio apostólico, o arcebispo Christophe Pierre. Mas nós, os americanos, conseguimos lidar com mais do que um problema de cada vez. Eventualmente vamos conseguir lidar com a crise de abusos enquanto continuamos com o nosso testemunho pró-vida e pró-família.

Mas não será um caminho fácil. Foram precisos quase cem anos – e uma Guerra Civil – desde os primeiros textos de John Wesley contra a escravatura até à Proclamação da Emancipação. Talvez leve tanto tempo, ou ainda mais, para anular o Roe v. Wade e mudar atitudes culturais para com o aborto. Mas, por mais tempo que leve, quando chegarem dias melhores as pessoas vão olhar para trás, para este tempo de trevas, e perguntar como é possível que uma população a gozar a maior prosperidade que o mundo alguma vez conheceu pôde ser cega para este massacre dos inocentes.

Muitos têm criticado a Igreja e outras organizações cristãs pelas suas falhas no combate à escravatura durante os séculos XVIII e XIX e é verdade que isso permanece como uma nódoa no registo de muitos seguidores de Cristo que tinham obrigação de saber melhor.

Mas naquele grande dia em que o aborto for visto novamente como o terrível mal moral que é, as pessoas também poderão ver que foi em primeiro lugar a Igreja, apesar de tantas críticas e muitas vezes sozinha, que defendeu a sacralidade de toda a vida humana. Numa altura em que pairam dúvidas sobre tanta coisa, isso é algo que merece ser festejado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Dialogar com os Mórmons

Casey Chalk
“Gozar com os mórmons é”, nas palavras do já falecido teólogo católico Stephen Webb, “uma das últimas fronteiras da desordem verbal que ainda não foi beliscada pelos poderes do politicamente correcto”. O missionário mórmon é frequentemente alvo de ridicularização. “O Livro de Mórmon”, um musical de sucesso escrito pelos criadores do “South Park” brincava com o tradicional missionário da Igreja dos Santos dos Últimos Dias (ISUD), com as suas calças pretas e camisa branca.

Muito do material apologético católico e evangélico ridiculariza as crenças mais excêntricas da ISUD – a corporalidade de Deus, o casamento eterno e os tons de politeísmo, entre outros. Quando eu era um jovem evangélico ensinaram-me que o mormonismo é uma seita. Sejam quais forem as heresias presentes na teologia mórmon, a nossa abordagem aos mórmons, enquanto católicos que somos, precisa de ser repensada. 

A apologética cristã respeitante aos mórmons costuma assumir uma de duas formas. Uma abordagem recomenda atacar as crenças dos Santos dos Últimos Dias através do “texto-prova”. Para os protestantes, isto resulta naturalmente da presunção da claridade da Escritura. Claro que o que parece claro para um provavelmente parecerá muito menos claro para outro, sobretudo se tiver sido catequizado para ler a Bíblia de uma certa forma. Mas existe ainda outra dificuldade quando se debate com os mórmons, é que a ISUD ensina que a Bíblia é subserviente ao Livro de Mórmon, logo eles têm sempre esse trunfo em qualquer debate sobre texto-prova.

A outra abordagem recomenda confrontarmos os missionários mórmons com alguns dos aspectos mais bizarros da sua fé. Um autor católico conhecido descreve uma vez em que conseguiu forçar uns missionários a reconhecer algumas das idiossincrasias das suas crenças. Depois assegurou-lhes que “isso é simplesmente uma loucura”. Não faço ideia porque é que essa estratégia haveria de resultar. Raras são as pessoas que são persuadidas a abandonar a sua religião simplesmente porque um estranho lhes diz que as suas crenças são ridículas.

Aliás, eu diria que isto teria precisamente o efeito contrário. Mais, há muitos não cristãos que consideram as histórias da Bíblia “simplesmente loucas”, e os cristãos não católicos gozam frequentemente com as aparições marianas, como Guadalupe, Lourdes ou Fátima.

Ambas estas estratégias assumem um ponto de partida inerentemente contencioso para o diálogo com os mórmons. Talvez seja natural, tendo em conta as muitas heresias da ISUD. Mas por outro lado isso ignora o facto de os missionários mórmons serem, de provavelmente todos os grupos religiosos nos Estados Unidos, aqueles que mais tentam falar de Jesus na Praça Pública. Nunca um evangélico ou um católico me bateu à porta para pedir para falar sobre Jesus. Mas ao longo dos anos muitos mórmons o fizeram. Duvido que seja caso único. A Igreja Mórmon pode ter ideias erradas sobre Cristo, mas pelo menos têm vontade e são persistentes no seu desejo de falar dele.

Para além disso, os mórmons têm sido aliados constantes de evangélicos, católicos e ortodoxos nas batalhas contra as forças seculares agressivas na América. Têm trabalhado incansavelmente para preservar as suas comunidades, resistir às tentações e influências da cultura pós-cristã e lidar com os ataques contra eles e contra a sua devoção a Cristo. Este zelo viu-se de forma especial há dez anos quando membros da ISUD colaboraram com conservadores de outras religiões para fazer aprovar a Proposição 8, que durante algum tempo proibiu o casamento homossexual no Estado da Califórnia.

Modelo do templo mórmon em construção em Lisboa
E a vida dos missionários mórmons não é nada fácil, poucas são as vocações religiosas que se comparam em termos de intensidade ou sacrifício. Para os homens, as missões duram dois anos; as missões das mulheres são de ano e meio. Durante esse tempo os missionários nunca deixam o seu território de missão. Têm poucas oportunidades de falar com família e amigos. Vivem com um orçamento apertado – muitos comem apenas cereais e noodles, praticamente todos os dias, durante meses. Passam cerca de doze horas por dia em missão, enfrentando muitas vezes hostilidade ou indiferença. Um amigo meu mórmon que foi enviado para o Japão conseguiu converter apenas uma pessoa durante o tempo inteiro que lá esteve.

Para as mulheres o sofrimento e o risco são ainda piores. Uma missionária contou-me uma vez que um homem que parecia sinceramente interessado na sua religião, mas afinal apenas queria casar! Outros homens tentaram abordá-la fisicamente. Certa vez um homem bêbado e quase nu saiu de casa a correr e a praguejar contra ela. Os mórmons, talvez mais até do que outras tradições religiosas, conhecem o falhanço. Recentemente disse a uns convidados que a sua experiência parecia um pouco uma passagem pelo inferno – o mais experiente acenou com a cabeça.

Por tudo isto eu argumentaria que o modo certo para começar um diálogo com missionários mórmons não é polémica e hostilidade, mas hospitalidade. Recentemente a minha mulher e eu convidámos duas missionárias para jantar, e foi muito divertido.

Durante a sobremesa elas sentiram-se na obrigação de partilhar a sua fé. Nós ouvimos cuidadosamente e fizemos algumas perguntas. Disse-lhes que discordava deles por razões teológicas e filosóficas, que expliquei de forma breve. A minha mulher – de forma muito perspicaz – partilhou a sua experiência de ter sido traída pelo padre Marciel Maciel, o fundador dos Legionários de Cristo, que vivia uma vida dupla. Explicou que tinha sido difícil, mas essencial, manter a sua fé em Cristo, mesmo quando aprendeu que o homem que tanto admirava, afinal era um patife. O paralelo com a vida de Joseph Smith, fundador da Igreja Mórmon, foi perfeito e espero que as missionárias o tenham entendido.

Creio que esta abordagem é superior à da confrontação. Sim, os erros teológicos do mormonismo são terríveis. Mas ao mesmo tempo eles estão nas ruas a falar de Jesus numa altura em que cada vez menos pessoas O conhecem. Isso tem de valer alguma coisa. E se quiserem passar cá por casa para partilhar uma refeição, construir uma amizade e trocar opiniões sobre Deus, a nossa porta está sempre aberta.

Se Deus quiser, algo dessa vida partilhada, bem como os nossos testemunhos sobre Cristo e a sua fidelidade à sua Igreja, terão um impacto maior e mais duradouro do que a polémica e hostilidade contenciosa.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Maratona religiosa pelos arménios


Hoje é dia de Santo André e o Papa, como é costume, escreveu uma carta ao Patriarca de Constantinopla em que volta a sublinhar o seu desejo de plena comunhão entre católicos e ortodoxos. A união entre os próprios ortodoxos é que está complicada por estes dias.

Na Holanda está a decorrer uma maratona de celebrações religiosas, de diferentes confissões, numa igreja protestante. O objetivo é impedir a deportação de uma família para a Arménia.

Foi descoberto um documento cristão no Japão que data dos tempos da pior perseguição naquele país.

Começa na segunda-feira um curso online sobre “A Missa Explicada”, que promete ser do maior interesse para quem gosta de aprofundar o seu conhecimento nestas áreas.

Publiquei esta sexta-feira no blogue a transcrição integral da minha conversa com o Pe. Tomás Halík. Aconselho a sua leitura!


E deixo-vos ainda com o link para um site chamado Livres para Amar, que pode ser de interesse para cristãos que procuram conciliar a sua fé com uma atração por pessoas do mesmo sexo. Não tenho nada a ver com o site, mas este é um assunto que me interessa, por isso se tiverem comentários a fazer agradeço que me os façam chegar.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Fé e Liberdade, pelos vistos, é em Portugal

Magalhães Crespo
O Papa esteve ontem em Genebra para um importante encontro ecuménico em que pediu às igrejas que “as distâncias não sejam desculpa” para não dialogar e pediu um novo ímpeto de evangelização para unir ainda mais os cristãos.

Portugal é dos países com menos restrições à liberdade religiosa, segundo a Pew Research Center.

foram escolhidos os bispos que vão estar no sínodo dos jovens, em Outubro e a Igreja portuguesa garante que está atenta aos mais novos.

O antigo vice-presidente da Renascença vai receber o Prémio Fé e Liberdade, dado pelo Instituto de Estudos Políticos, da Universidade Católica, este ano.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Souto Moura, Tolentino e Ecumenismo em Roma

O Papa Francisco presidiu esta quinta-feira à celebração das vésperas pelo fim do oitavário da oração pela unidade dos cristãos, voltando a falar do tema do ecumenismo de sangue. A propósito do oitavário, realiza-se este sábado um encontro ecuménico em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval, pelas 21, que nao devem perder se o assunto for do vosso interesse!


Ontem o Papa apresentou a mensagem para o dia das Comunicações Sociais, com críticas ao “fake news”, tema revisitado esta quinta-feira pelo presidente do conselho de gerência da Renascença.

O Parlamento português rejeitou ontem uma petição pela proibição dos Testemunhas de Jeová.

Decorreu a semana passada a 45ª marcha pela vida em Washington. Tendo em conta a importância do movimento pró-vida americano para o resto do mundo, vale a pena saber que progressos e retrocessos se têm feito por lá. É o que faz Alan Anderson no artigo desta semana do The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Parentalidade Católica e a Reforma Protestante

Casey Chalk
Em época de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante gosto de pensar na corrente de evangélicos que está a desaguar no Tibre, abençoando não só a Igreja mas todo o diálogo ecuménico – tanto para católicos como para protestantes – sobre a natureza da Tradição, o papel de Maria e a necessidade de uma autoridade objectiva e apostólica.

A isto devemos somar a parentalidade. Quando me converti do calvinismo ao catolicismo discerni uma assinalável mudança na catequese que dava aos meus filhos, uma distinção tão importante que pode fazer toda a diferença entre ter pequenos Cristos ou pagãozinhos à solta lá em casa.

Começa com o baptismo. Muitos evangélicos ainda praticam o baptismo na infância, graças a Deus. Embora a maioria não acredite na regeneração baptismal, não deixam de baptizar validamente com água e em nome do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Quer compreendam ou não, os seus filhos recebem assim o Espírito Santo e herdam os dons teológicos da fé, esperança e amor, sendo incorporados em Cristo.

Infelizmente muitos outros protestantes adiam o baptismo até que as crianças alcancem a “idade da razão” e decidam por eles se querem receber o sacramento. Por isso muitas crianças de famílias protestantes nunca o fazem. Para as famílias que assim negligenciaram este rito mandatado por Cristo, os seus filhos permanecem, para todos os efeitos, pagãos.

Mas esse é apenas o primeiro erro em muitos lares protestantes. A maioria dos evangélicos, e certamente os da minha anterior tradição calvinista, rejeitam imagens, ícones e instrumentos catequéticos que historicamente têm sido usados por famílias cristãs para ensinar os caminhos de Deus. Quem estuda a história sabe que a Reforma despiu os altares, derrubou estátuas de santos e removeu Cristo da Cruz. Os terços foram destruídos, relíquias postas de lado e as peregrinações abandonadas.

Na ânsia de purificar a fé e a prática cristã, os reformados parecem ter negligenciado uma questão essencial: Como é que se comunicam os fundamentos da fé cristã a uma criança de dois ou três anos?

Para os evangélicos que se mantêm em contacto de alguma forma ou feitio com a tradição reformada anticatólica, o que permanece é apenas uma casca, uma pobreza prática de catequese. Ainda se pode rezar com uma criança pequena, ler livros religiosos ou cantar músicas sobre Deus. Estas são todas práticas boas e belas, que na minha família também usamos. Mas são todas de natureza cerebral.

E qualquer pai sabe que o cerebral não é o melhor caminho para crianças pequenas. A este respeito podemos dizer que o Cristianismo reformado revela um certo gnosticismo, enfatizando um conhecimento escondido e abstracto à custa de um dos aspectos mais belos e essenciais da nossa fé: a Encarnação.

Estas tendências protestantes revelam uma compreensão incompleta daquilo que o Evangelista São João queria dizer quando se referia a Cristo da seguinte forma: “O Verbo encarnou e habitou entre nós” (João 1,14) ou, noutra passagem, “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1,1).

Já o Catolicismo, em contraste, é profundamente sensorial: crucifixos, água benta, sinais da cruz, pagelas, imagens, terços e – por fim – a Eucaristia. Jesus habitou um corpo e os seus milagres aconteceram não só através das suas palavras, mas pelas acções, saliva e lama, peças de roupa.

As devoções que reconhecem isto permitem que até as crianças mais novas entrem na fé cristã. Talvez tenha sido isso mesmo que Jesus estava a pensar quando exortou os apóstolos: “Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.

Não estava certamente a pensar em fazer-lhes um sermão sobre um texto bíblico. Na verdade, Jesus impôs-lhes as mãos! (Mt. 19,14-15). Pensem só, ser uma criança cujo corpo foi tocado por Nosso Senhor!

Catolicismo: Um banquete sensorial
Quando a minha família convida amigos evangélicos para jantar e chegam antes de a nossa filha mais velha se ter ido deitar é sempre giro ver o que se passa. Como qualquer menina de quatro anos, adora visitas e partilha tudo sobre a sua vida: os maillots de bailarina, brinquedos e a rotina nocturna de ir para a cama.

Em nossa casa essa rotina envolve arrumar o quarto, vestir o pijama e lavar os dentes. Mas envolve ainda várias práticas explicitamente católicas: ajoelhar e rezar diante de um crucifixo, cantar músicas católicas de um cancioneiro já gasto e ler um livro que frequentemente, e por escolha da minha filha, é profundamente católico.

Ainda não perguntei aos meus amigos o que lhes passa pela cabeça quando vêem a minha filha a falar com Jesus crucificado como se estivesse vivo, ou a pedir uma “Música de Maria” do cancioneiro, ou a aparecer com um livro sobre “santos para raparigas” da sua estante.

Mas sei que a sua devoção é vibrante e verdadeira. Anda constantemente com pagelas, benze-se com água benta na igreja – não uma vez, nem duas, mas dezenas de vezes – e coloca copos de água com flores no nosso altar caseiro, como presente especial para Jesus.

Recorda-me a jovem Cordelia no livro “Reviver o Passado em Brideshead” de Evelyn Waugh, que na sua inocência e zelo doava dinheiro para ajudar os missionários que ensinavam crianças em África, regozijando de cada vez que uma delas era baptizada com o seu nome.

Caros leitores evangélicos, compreendam por favor que não estamos perante tralha sentimental católica, sinos e incensos sem qualquer substância teológica. Eu vivo na Tailândia e temos uma empregada filipina pentecostal que fala sem rodeios sobre a sua fé. E ela já nos confessou várias vezes o seu espanto pelo facto de a nossa filha mais velha saber tanto sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Sabe mais, diz-nos ela, do que as crianças na sua própria igreja. Só posso concluir que isso se deve ao facto de toda esta parte sensorial do Catolicismo fazer com que as histórias das Escrituras – que habitualmente lhe lemos – ganhem vida na sua mente em desenvolvimento.

Se eu tivesse continuado a ser calvinista teria tentado introduzir os meus filhos à fé e à prática cristã o mais cedo possível. Os meus muitos amigos evangélicos fazem precisamente isso, com efeitos obviamente positivos.

Mas numa família típica de evangélicos ou calvinistas os pais trabalham sempre com uma mão atada atrás das costas – deixando os seus filhos sem meios para contemplar uma religião que deveria ocupar não só as suas mentes mas os seus corpos e todo o seu ser.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Julho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Verdade não é Rígida, é Real

Pe. Gerald E. Murray
A realidade interessa? Ela é a referência necessária e decisiva para descobrir o que é e o que não é, o que é verdade e o que é falso? Ou será a realidade sujeita a revisão com base nas nossas preferências, desejos ou outros factores? São questões como estas que se nos colocam quando vemos comentários como aqueles feitos pelo Cardeal Francesco Coccopalmerio sobre a validade das ordens anglicanas. Segundo Christopher Lamb, do “The Tablet”, Coccopalmerio caracterizou o ensinamento da Igreja sobre as ordens anglicanas da seguinte maneira: “Temos tido, e temos ainda, uma compreensão muito rígida sobre a validade e a invalidade: Isto é válido, aquilo não é. Mas deve-se poder dizer: ‘Isto é válido num certo contexto, aquilo é válido noutro’.”

O Cardeal especula sobre as implicações doutrinais de gestos papais de respeito e de amizade no passado, dizendo: “O que significa o facto de o Papa Paulo VI ter dado um cálice ao Arcebispo de Cantuária? Se era para celebrar a Ceia do Senhor, a Eucaristia, então era para ser feito de forma válida, não?” E continua: “Isto é ainda mais significativo do que a cruz peitoral, porque o cálice não é usado apenas para beber, mas para celebrar a Eucaristia. Com estes gestos a Igreja Católica está já a intuir, a reconhecer uma realidade”.

Estas declarações surgem num novo livro, cujo título não é indicado por Lamb, que inclui o conteúdo de um encontro do Grupo de Conversação de Malines, que teve lugar perto de Roma em Abril deste ano. A Rádio Vaticano cobriu o encontro, tomando nota da participação do Cardeal Coccopalmerio. A reportagem da Rádio Vaticano inclui comentários feitos pelo padre Tony Currer, do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Sobre as ordens anglicanas ele diz: “Penso que é verdade que não utilizamos termos como ‘nulas’” pois “claramente não é isso que dizem os gestos, a generosidade e a simpatia que temos visto repetidamente”.

Validade é sinónimo de realidade quando se fala de sacramentos. A Igreja ensina claramente o que é necessário para a celebração válida – isto é, verdadeira e real – dos sacramentos. Ao invocar linguagem pejorativa como “compreensão rígida” sobre validade e invalidade, Coccopalmerio reduz o entendimento da Igreja sobre o que conta como um sacramento válido à expressão de uma atitude psicologicamente doentia, radicada na ignorância e no medo irracional.

A questão da validade é simples: A Igreja considera que uma ordenação anglicana é uma administração válida do sacramento da Ordem? A resposta é não, tal como foi determinado com a autoridade do Papa Leão XIII na sua encíclica Apostolicae Curae. A ordenação anglicana não transforma um homem num sacerdote católico. Essa determinação é objectiva e feita com base num estudo razoável e cuidadoso da história, da doutrina e da prática tanto da Igreja Católica como da Comunhão Anglicana.

Paulo VI e o arcebispo de Cantuária
Coccapalmerio diz mais: “Quando alguém é ordenado na Igreja Anglicana e se torna pároco numa comunidade não podemos dizer que não se passou nada, que é tudo ‘inválido’.” A opção apresentada nesta afirmação é de que numa ordenação anglicana ou o homem se torna um padre validamente ordenado, ou então nada acontece. Mas há uma terceira possibilidade: A ordenação anglicana transforma alguém num padre anglicano, não num padre católico.

A Igreja ensina que esta ordenação não é uma ordenação católica válida. O homem ordenado numa cerimónia anglicana não recebe o sacramento da Ordem. O sacramento da Ordem não é administrado. (Deixo de parte aqui a questão de anglicanos ordenados por bispos que receberam sagração episcopal das mãos de bispos veterocatólicos ou ortodoxos).

Mas aparentemente Coccopalmerio e Currer resistem a esta verdade. O Cardeal afirma que o cálice que o Papa ofereceu ao Arcebispo de Cantuária significa que o Papa Paulo VI considerava que o Serviço de Comunhão Anglicano era uma celebração válida da Missa porque “era suposto ser feito de forma válida”. Mas o Papa Paulo VI nunca disse aquilo que Coccopalmerio conclui. Um gesto não equivale a um pronunciamento papal.

O padre Currer diz que “nós já não usamos termos como ‘nulo’”. Se por “nós” se refere à Igreja Católica, está enganado. O pronunciamento do Papa Leão XIII não foi rejeitado por qualquer dos seus sucessores. É evidente que o padre Currer e outros não gostarem do facto de as ordens anglicanas terem sido consideradas nulas. Mas esta insatisfação de Currer com o exercício do magistério papal não significa que a Igreja tenha deixado de defender a invalidade das ordens anglicanas.

Coccopalmerio procura dispensar a verdade objectiva do que constitui validade sacramental na Igreja Católica, tornando-a variável de acordo com um “contexto”. Não estamos perante relativismo, puro e simples? O Cardeal não afirma que os critérios para determinar a validade ou a invalidade da administração da Ordem foram mal aplicados por Leão XIII quando este examinou as ordens anglicanas. (Talvez aborde a questão noutro lado). Limita-se a dizer que estes critérios não se devem aplicar porque são rígidos. A conclusão do Papa Leão XIII de que as ordens anglicanas são inválidas é criticada como sendo rígida quando a pessoa não gosta dessa verdade em particular. O que para uns é rigidez, para outros é solidez. A Igreja está a ser teimosa ou firme nesta questão? Diria que ambos. É isso que a verdade exige, independentemente do contexto. Se ela tiver cometido um enorme erro neste ponto, que mais devemos lançar borda fora?

No seu ensaio “O Destronar da Verdade”, Dietrich von Hildebrand escreveu: “O desrespeito pela verdade – quando não se trata de uma tese teorética, mas de uma atitude vivida – claramente destrói toda a moralidade, mesmo a razoabilidade e a vida comunitária. Todas as normas objectivas são dissolvidas por esta atitude de indiferença para com a verdade; como é destruída também a possibilidade de resolver de forma objectiva qualquer discussão ou controvérsia. Também se torna impossível haver paz entre pessoas ou entre nações. A própria base da vida humana real é subvertida”.  

Corremos grande risco ao dispensar a verdade. 


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Maio de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pedro diz a Marco que "os teus sofrimentos são os meus"

Hoje foi um dia histórico, com os líderes das três maiores comunhões cristãs a encontrarem-se no Cairo. O Papa Francisco teve um dia pleno de eventos, começando com um discurso na Universidade Al-Azhar, onde sublinhou que perante a violência e as crises no mundo, a religião não é o problema, mas parte da solução.

Depois Francisco fez um discurso diante do Presidente do Egipto, fazendo os maiores elogios ao país mas referindo muitas vezes os cristãos, o que deve ter sido muito consolador para eles.

Finalmente, encontrou-se com o Papa Tawadros dos coptas, tendo falado com grande emoção e intensidade sobre as ligações entre os dois, que datam até São Pedro e São Marcos e que hoje são fortalecidos pelo comum testemunho dos mártires.

Amanhã Francisco continua com a sua agenda, celebrando missa para a comunidade católica e encontrando-se com bispos e clero. Tudo acompanhado pela Renascença, tanto em antena como no liveblog criado para o efeito.

Morreu esta sexta-feira o padre Joaquim Carreira das Neves. O franciscano padre Albertino da Silva acompanhou-o de perto e o padre Tolentino conhecia-o bem e partilham as suas memórias, mas o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa também não quis deixar de lhe prestar homenagem.

De ontem temos a notícia de que o Governo vai conceder tolerância de ponto para a visita do Papa a Fátima em Maio. António Costa diz que seria insensível não o fazer.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Auschwitz recordado em dia de Marcha pela Vida

Cliquem para aumentar
Faz hoje 72 anos da libertação de Auschwitz. O assunto não foi esquecido pelo Papa, que recebeu em audiência líderes de comunidades judias na Europa. Também hoje se soube que na Alemanha, nos últimos tempos, os ataques a judeus duplicaram.

O Papa disse também esta sexta-feira que são as pessoas que vivem “situações miseráveis” que estão mais sujeitas ao fundamentalismo. Disse-o num encontro com representantes da Igrejas Cristãs do Médio Oriente.

Encontra-se em Portugal por estes dias um arcebispo paquistanês que vai deixar o seu testemunho sobre a perseguição por parte de fundamentalistas islâmicos. Saiba aqui onde e quando pode ir ouvir monsenhor Sebastian Shaw.

No final da semana de oração pela Unidade dos Cristãos, católicos e evangélicos assinam uma declaração comum sobre o valor da vida. Ontem sete associações de profissionais católicos assinaram uma declaração conjunta de apoio à petição que pede aos deputados que não aprovem qualquer legalização da eutanásia ou morte assistida.

Por falar em unidade dos cristãos, amanhã há um encontro em Sintra. Cliquem no cartaz para ver os detalhes.

Está neste momento a decorrer em Washington a marcha pela vida. São centenas de milhares de pessoas nas ruas, mas desta vez o alvo das críticas não é Trump, é o aborto.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Papa na Suécia e misericórdia no Sudão

Dinheiro no Sudão do Sul
O Papa está na Suécia, onde hoje protagonizou dois importantes momentos ecuménicos com a comunidade Luterana. Francisco diz que as duas comunidades não podem resignar-se à distância que a separação criou entre eles e elogiou a “loucura” de quem arrisca tudo por Deus e pelo seu próximo.

Este foi um encontro, “sobretudo para relembrar o que nos une”, diz a pastora presibiteriana Eva Michel, que esteve na Renascença com o padre Tony Neves para comentar a visita.


Em Jerusalém foi aberto, pela primeira vez em vários séculos, o túmulo de Jesus, na Igreja do Santo Sepulcro, para investigação arqueológica.

E publiquei esta segunda-feira a oitava e última reportagem da série que fiz ao longo deste Jubileu da Misericórdia. Desta vez é uma conversa com o padre Zé Vieira, dos combonianos, sobre as obras da misericórdia. Não percam, as histórias são comoventes e fascinantes. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Tiara papal feita por freiras ortodoxas? Sim, aconteceu

O fundador da Comunidade Santo Egídio está em Portugal para se encontrar com Marcelo Rebelo de Sousa. Na agenda está a crise moçambicana, assunto abordado também nesta entrevista exclusiva com a Renascença.

O Papa Francisco deu ontem uma entrevista ao La Croix em que falou de vários assuntos, voltando a criticar o mercado “inteiramente” livre, mas sublinhando também a importância da liberdade de consciência e a forma como a Europa tem acolhido os refugiados.

Francisco, que entretanto recebeu um presente que tem tudo a ver com a instituição do Papa mas muito pouco a ver com ele, também lamentou o actual estado de “analfabetismo espiritual” na sociedade.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Perdão ecuménico e resistência pia a Hitler

O Vaticano confirmou esta segunda-feira que o Papa Francisco irá à Suécia em Outubro de 2016 para uma cerimónia conjunta que assinala os 500 anos da reforma luterana.

A informação foi divulgada no dia em que encerra a semana de oração pela unidade dos cristãos, com o Papa a pedir que os erros e pecados do passado não envenenem as relações ecuménicas, incitando ao perdão de parte a parte.

Em Portugal estes dias de oração pela unidade dos cristãos prolongam-se e no próximo sábado haverá uma celebração ecuménica na paróquia de Algueirão, onde eu serei um dos oradores. Vejas as imagens em anexo para mais informação.

Na Jordânia há fiéis a viver o Cristianismo como no tempo das catacumbas, explica o actual responsável pelos católicos de rito latino daquele país. O bispo Maroun Lahham faz também um balanço dos cinco anos da Primavera Árabe, tendo assistido à queda do regime tunisino em primeira mão. Agora os políticos têm medo do povo, diz, e isso é um desenvolvimento positivo.

A esta hora já saberão que Cavaco Silva vetou as alterações à lei do aborto e a lei da adopção por homossexuais. É uma medida recebida com agrado por várias figuras da sociedade civil, incluindo o juiz Pedro Vaz Patto, responsável pela Comissão Nacional Justiça e Paz, e a professora de direito Rita Lobo Xavier, entre outros.

Amanhã e quarta-feira não poderei enviar o mail diário. Por isso, publiquei já hoje o artigo desta semana do The Catholic Thing desta semana, sobre um interessantíssimo livro que faz revelações sobre como Pio XII desafiou e conspirou contra Hitler e o regime nazi.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Quem são os mártires do Uganda?

A principal razão da visita do Papa Francisco ao Uganda é o assinalar do 50º aniversário da canonização dos mártires do Uganda.

Os mártires do Uganda são 45 jovens rapazes ugandeses que foram mortos por ordem do rei Mwanga II, entre 1885-1887. Desses jovens, 22 eram recém-convertidos ao Catolicismo e 23 eram convertidos ao Anglicanismo.

Os 22 católicos foram beatificados por Bento XV e canonizados por Paulo VI em Outubro de 1964, pelo que na verdade já passaram 51 anos desde que são venerados como santos pela Igreja.

Não deixa de ser interessante ver porque é que foram mortos. Embora haja vários factores em jogo, incluindo a luta de influências entre católicos, anglicanos e muçulmanos, os historiadores e as testemunhas da época concordam que a razão imediata foi a recusa, por parte destes rapazes, de se submeterem aos desejos homossexuais do rei e dos seus aliados mais directos.

Numa época em que as sociedades procuram cada vez mais promover a homossexualidade como um algo completamente normal, esta visita do Papa de homenagem a quem preferiu dar a vida do que participar em actos dessa natureza, numa cultura em que as ordens do Rei eram inquestionáveis, dá certamente que pensar.

Contudo, também à outras leituras, que não são contraditórias. Da mesma forma que nos parece abominável que o estado mate alguém por se recusar a submeter-se a actos homossexuais, devemos achar abominável que actualmente, nalguns destes mesmos países africanos, a homossexualidade seja punida com pena de morte ou penas de prisão muito severas. Mesmo onde os homossexuais são deixados em paz pelo Estado, são sujeitos a perseguições populares. Tudo isto é também condenável aos olhos do Cristianismo.

Por fim, a questão da canonização dos mártires do Uganda tem também um toque de ecumenismo. Já em 1964 Paulo VI, quando canonizou os católicos, fez questão de referir os anglicanos que tinham morrido pela mesma razão, algo que Francisco não deve deixar passar em claro. Desses jovens, 22 eram recém-convertidos ao Catolicismo e 23 eram convertidos ao Anglicanismo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Patriarca deixa recados para a esquerda

Igreja de Santo António, é muito fácil ajudar
O Papa Francisco garantiu este fim-de-semana que a reforma da Cúria Romana vai continuar, não obstante o recente escândalo de divulgação de documentos secretos.

Neste momento decide-se o futuro do actual governo, mas já há projectos de lei para serem discutidos em breve, incluindo de adopção por pessoas do mesmo sexo, porque obviamente isso é que são as grandes prioridades do país. D. Manuel Clemente, não deixou de referir o assunto no seu discurso desta tarde, na reunião da CEP, em Fátima.

Uma boa notícia do Iraque (e como são raras!)… 37 cristãos, sobretudo idosos, foram libertados pelo Estado Islâmico. Não se sabe se foi pago resgate ou não. Estado Islâmico esse que, mais uma vez se soube, “vende mulheres como escravas”.

A Igreja de Santo António precisa de ajuda e de fundos e é muito fácil contribuir para isso. Saiba como aqui.

E por fim, houve um encontro ecuménico jovem em Castelo Branco, este fim-de-semana, saiba como correu.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Adopção, co-adopção e desmentidos de desmentidos

Ainda não se sabe quando será o referendo, mas já começou a campanha. A minha contribuição está aqui, onde tento mostrar porque é que a questão da adopção por homossexuais tem implicações grandes graves para a sociedade. Leiam e comentem.


Obama vai ao Vaticano em Março, soube-se hoje. Ele e o Papa terão certamente muito que conversar!

A minha colega Ângela Roque foi ao encontro de pessoas que trabalham no terreno para combater o tráfico humano. É uma história que vale a pena conhecer. O Papa também falou deste problema, num curto improviso durante o Angelus.

Na Sexta-feira assistimos a uma interessante novela do Vaticano. Surgiu uma notícia a dizer que Bento XVI tinha laicizado 400 padres em 2011 e 2012; rapidamente o director da sala de imprensa do Vaticano desmentiu. Mas menos de uma hora depois o mesmo Lombardi veio dizer que não, afinal era verdade.

Já começou a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Tudo a rezar!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - O Papa

Esta é uma das áreas mais importantes, a meu ver. O que é que Bergoglio vai fazer do Papado?

A mim, isto interessa-me sobretudo do ponto de vista ecuménico, na perspectiva em que uma reforma do papel do Papa na Igreja pode, ou não, contribuir para a unidade dos cristãos, sobretudo com as Igrejas Ortodoxas.

Mas este é um tema muito sensível. Tradicionalmente, qualquer pessoa que questione o poder e a autoridade do Papa é imediatamente classificado como perigoso fanático progressista. De facto, a única pessoa que o pode fazer sem ser acusado de odiar o Papa e a Igreja é o próprio Papa. Veremos no que isto dá.

João Paulo II já tinha levantado esta lebre, precisamente com esta intenção ecuménica, mas pouco ou nada mudou, como aliás recorda Francisco:

Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades actuais da evangelização. O Papa João Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar «uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova». Pouco temos avançado neste sentido. (#32)
Esta mudança teria de passar por algo que assegure os líderes ortodoxos de que a sua autonomia não será posta em perigo com uma união com Roma. Um primeiro gesto neste sentido, mais até do que proceder a grandes reformas das funções do Papa, seria dar total autonomia às Igrejas Católicas de Rito Oriental.

Actualmente estas igrejas estão limitadas de uma maneira ridícula e anacrónica. Houve oportunidade para mudar isso depois do sínodo para os bispos do Médio Oriente, em 2010, mas foi desperdiçada. Por exemplo, os católicos orientais continuam oficialmente proibidos de ordenar homens casados nas diásporas “tradicionalmente” latinas e os seus patriarcas não têm autoridade directa sobre os seus fiéis a viver fora dos seus territórios tradicionais.

É evidente que os ortodoxos olham para os seus irmãos católicos orientais e vêem-nos limitados na sua acção pastoral e até evangélica. É isso que dá a união com Roma? Então bem podem esperar sentados, pensam.

Antes, precisamente sobre a questão da descentralização, o Papa já tinha escrito:

Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização». (#16)
Esta é uma velha discussão na Igreja. O Concílio pediu esta descentralização, mas desde então o Vaticano resistiu. Olhando para a qualidade de alguns dos bispos no mundo latino, não se pode se não compreender esta posição, mas por outro lado, o responsável essas nomeações é precisamente o Papa, por isso é uma pescadinha de rabo na boca.

Não vejo com maus olhos esta descentralização, mas ela deve ser acompanhada de uma reforma na nomeação de bispos. Precisamos de bispos mais evangélicos, mais pastorais, mais intelectuais. Bispos à imagem dos apóstolos no Pentecostes. Se os tivermos, então venha toda a descentralização que quiserem, que nada haverá a temer.

No meio disto teria de ficar assegurado, claro, o papel do Papa enquanto sucessor de Pedro com a responsabilidade de confirmar os seus irmãos na fé. Mas como digo sempre quando discuto esta questão, o Papa nem sempre teve o papel que tem agora. Este papel foi-se consolidando num contexto de separação com a esmagadora maioria das outras igrejas tradicionais e por isso não podemos esperar que eles aceitem algo com o qual nunca tiveram de conviver durante os mil anos em que a Igreja esteve unida.

Que o Espírito Santo inspire o Papa Francisco neste seu esforço de reforma do seu próprio cargo, que seja para o bem da própria Igreja.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cinzas, despedidas e parabéns

Hoje Bento XVI explicou novamente, desta vez aos fiéis na audiência geral, a razão da sua resignação. Disse também que sentia, quase de forma física, as orações de todos.

A audiência em si foi composta por uma catequese muito rica, que incluiu um interessante gesto para com ortodoxos e judeus!

Por falar em gestos, simpáticas palavras de Mustafa Ceric, principal líder muçulmano da Europa, para Bento XVI. Aqui pode saber mais sobre o ecumenismo durante o pontificado de Ratzinger.

O Conclave deve começar no dia 15 de Março. Mas talvez não… resumindo, em relação a isso como em relação a tanta coisa, há mais dúvidas que certezas!

Mas nem tudo é Papa! Hoje começa a Quaresma e por isso temos aqui uma explicação sobre o sentido deste período e do jejum e tudo o resto que o acompanha.

Mudando bastante de assunto, referência para os 900 anos que a Ordem de Malta faz por estes dias. Conheça melhor o trabalho desta instituição através do artigo desta semana de The Catholic Thing.

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