O tema do primeiro episódio foi o abuso de menores.
No segundo falámos, entre outras coisas, da inauguração da Casa Abraâmica, em Abu Dhabi.
Podem ouvir os programas clicando abaixo.
O tema do primeiro episódio foi o abuso de menores.
No segundo falámos, entre outras coisas, da inauguração da Casa Abraâmica, em Abu Dhabi.
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Este texto foi originalmente escrito como parte de um pacote a publicar na morte de Bento XVI, pela Renascença. De todos os que deixei, era o que sentia ser mais "meu". Poderá, ao longo dos próximos dias, ser publicado numa versão alterada. Publico-a aqui com autorização da Renascença, a quem agradeço.
Durante séculos os cristãos perseguiram e mataram judeus, culpando-os pela morte de Cristo. Uma frase em particular da Bíblia parecia justificar esta tese da culpa colectiva, o grito dos judeus quando Pôncio Pilates tenta livrar Jesus da crucificação: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”.
O Concílio Vaticano II foi enfático ao negar esta visão das coisas, mas a passagem bíblica permanece e continuava a ser usada por alguns para criar problemas e minar o diálogo entre católicos e o mundo hebraico.
Entra em cena Bento XVI, com esta passagem do II volume da sua trilogia sobre “Jesus de Nazaré”: “Mesmo que ‘todo o povo’, segundo Mateus, tivesse dito ‘que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos’, o cristão há de recordar que o sangue de Jesus fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação.”
Bento XVI era, sobretudo, isto. Homem de uma inteligência brilhante e de grande perspicácia teológica, com uma fé apaixonada mas firmemente ancorada na razão. Os seus discursos e homilias tinham sempre uma grande carga de erudição mas conseguiam ainda assim manter uma simplicidade que os deixava abertos a todos, mesmo os que não se moviam com naturalidade nos meios da teologia e da filosofia.
Ao mesmo tempo, porem, o Papa alemão não era um homem mediático. Foi-se habituando, mas nunca se sentiu particularmente confortável com a atenção dos meios de comunicação social. O seu sorriso não era espontâneo, as suas intervenções não se prestavam facilmente à cultura do “soundbite” e a forma como defendia a cultura e civilização cristã, sempre com base na razão e na história e não em sentimentalismos ou saudosismos, valeram-lhe a inimizade dos media mais ideológicos.
Este último aspecto pode ser comprovado pela constante discrepância entre a cobertura mediática dos eventos do Papa e a realidade. Cada viagem de Bento XVI era precedida de augúrios de fracasso. A missa campal iria estar vazia, a população local sentia-se indiferente, os manifestantes seriam mais que os fiéis. Mas no fim, surpresa geral, dava-se o braço a torcer, porque o povo acorria a este Papa, enchia estádios e descampados e cantava o seu nome deixando-o com aquele sorriso envergonhado que o caracterizava. Mesmo os intelectuais, tanto em França como em Portugal, como os políticos, no Reino Unido e na Alemanha, aplaudiram-no longamente e com o respeito de quem reconhece que está diante de uma mente brilhante, de um professor.
“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, disse, no dia em que tomou posse da Basílica de São João de Latrão.
Mas a viagem a Portugal em 2010 distingue-se de todas por uma razão muito particular. O Papa chegou visivelmente cansado, alguns diriam até desanimado. Como sempre, previa-se o pior. Entre os católicos discutia-se a possibilidade de esperar o cortejo no caminho entre o aeroporto e Belém, muitos diziam que se devia abandonar a ideia porque a fraca participação popular ficaria mal na televisão. Mas em todo o percurso nunca faltou gente, bandeiras, estandartes de apoio para mostrar ao Papa que se devia sentir em casa entre os portugueses.
Depois de uma missa no Terreiro do Paço, perante centenas de milhares de pessoas, o Papa foi pernoitar à nunciatura. Os jovens, que tinham estado em grande destaque na missa campal, não o abandonaram e junto ao edifício cantaram e chamaram por ele até que veio à janela e, com um sorriso genuíno na cara, agradeceu a sua presença mas pediu que o deixassem dormir.
Foi em Portugal que Bento XVI beijou pela primeira vez um bebé em público e os vaticanistas que o acompanhavam por todo o mundo não hesitaram em dizer que depois de três dias cansativos viam partir um homem que parecia refrescado. Falar-se-ia então de um pontificado pré e pós visita a Portugal.
A injecção de energia que terá recebido era bem precisa. Na altura já havia rumores de que nem tudo ia bem no Vaticano, nomeadamente na cúria. Entre mal-estar e guerra civil, não faltavam adjectivos, mas poucos esperariam algo da dimensão do vatileaks, um escândalo que arrastou a reputação da Santa Sé pela lama e que abalou muito o Papa pelo envolvimento pessoal de um dos seus colaboradores mais próximos, o seu mordomo.
Se o vatileaks foi decisivo na sua decisão de resignar é especulação, mas contribuiu certamente para a perda da sua idoneidade física e espiritual, para usar os seus próprios termos.
Mas quando o Papa anunciou a sua decisão, num consistório quase insignificante e em latim, o mundo parou. Bento XVI era visto por muitos como o guardião inflexível da doutrina e da tradição e a tradição dizia que um Papa só abandona o seu posto quando é chamado pelo Criador. Afinal de contas, este era o mesmo homem que tinha dito: “O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo”.
Não deixa de ser paradoxal que um dos homens da Igreja mais inteligentes e brilhantes dos últimos séculos seja recordado para sempre por aquele que foi um dos seus últimos gestos, o de desprendimento do poder. É uma memória que não lhe faz justiça, mas talvez isso não desagradasse a Joseph Ratzinger, que nunca se mostrou muito confortável debaixo dos holofotes e que preferiria, certamente, deixar os seus livros e textos falar à história por ele.
Diálogo sem sincretismo
Francisco está na capital do
Cazaquistão, uma ex-república da União Soviética gigante que, curiosamente, tem
investido muito em promover o diálogo inter-religioso ao longo das últimas
décadas.
Os cristãos são uma minoria de
25% no país, e católicos são apenas 1%, na grande maioria membros de outros
grupos étnicos, desde polacos a coreanos. A história da Igreja no país também é
curiosa, uma vez que muitos dos católicos descendem de pessoas que foram
deportadas para a região durante as perseguições na União Soviética. No
Cazaquistão havia 11 campos de concentração, parte do sistema Gulag.
A relação da Igreja Católica
com o diálogo inter-religioso é complexa. Durante séculos a atitude era de que esta
é a Igreja fundada por Deus, quem quiser pode entrar, mas não há mais nada para
discutir. O Concílio Vaticano II cristalizou uma mudança gradual de posição,
tanto ao nível ecuménico como de diálogo inter-religioso, e Roma passou a
interessar-se no diálogo. Em 1986 o Papa João Paulo II iniciou os encontros
inter-religiosos de Assis, para rezar pela paz. Foi muito criticado por isso,
com os seus adversários a dizer que os encontros promoviam o sincretismo e o
relativismo, mas ele persistiu, tentando sempre deixar claro que juntar pessoas
crentes para suplicar a Deus pela paz é diferente de dizer que essas crenças
são todas igualmente válidas, ou que as diferenças não interessam.
Estes encontros no Cazaquistão
surgem desse mesmo espírito de Assis. Quem o diz
é o bispo de Almaty, no Cazaquistão, que é espanhol e foi entrevistado
recentemente pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Mas os críticos não desarmam
e continuam a levantar o fantasma do relativismo.
Francisco está, por isso, em
terreno difícil no Cazaquistão, mas no seu discurso ao Congresso de Líderes de
Religiões Mundiais e Tradicionais não desiludiu e falou precisamente como Papa
que é. Encorajou a colaboração inter-religiosa pela paz, condenou a utilização
da religião para justificar a guerra e criticou, usando mesmo esse termo, o
sincretismo. Foi um bom discurso, pleno de referências locais, que
pode ser lido aqui. Deixo-vos com uma das principais citações:
Queridos irmãos e irmãs,
avancemos juntos, para que seja cada vez mais amistoso o caminho das religiões.
(…) O Altíssimo liberte-nos das sombras da suspeita e da falsidade; conceda-nos
cultivar amizades ensolaradas e fraternas, através do diálogo frequente e da
sinceridade luminosa das intenções. E desejo agradecer aqui o esforço do
Cazaquistão neste ponto: sempre procura unir, sempre procura incentivar o
diálogo, sempre procura construir a amizade. Isto é um exemplo que o
Cazaquistão dá a todos nós e devemos segui-lo, apoiá-lo. Não procuremos falsos
sincretismos conciliatórios – não servem –, mas guardemos as nossas identidades
abertas à coragem da alteridade, ao encontro fraterno. Só assim, por este
caminho, nos tempos sombrios que vivemos, poderemos irradiar a luz do nosso
Criador.
Falar de paz numa região de
guerra
É certo que Francisco fala
muito de paz, e que tem falado sobretudo muito da guerra na Ucrânia. Podem
ver aqui a extensa lista das declarações sobre o assunto que tem feito nos
últimos meses, desde que a Rússia invadiu o país vizinho. Mas é preciso ter em
conta o contexto em que o faz agora, no Cazaquistão. Aqui Francisco está ao
lado da Rússia, na sua esfera de influência, e as suas palavras têm mais peso.
É aqui, nesta região unida por
um passado de forte perseguição às religiões e que se debate ainda com um pesado
legado comunista, que Francisco vem falar de paz. E em boa hora o faz.
Diálogo com os russos
Uma dimensão muito importante
desta visita é a do diálogo com a Igreja Ortodoxa da Rússia. Já escrevi e falei
várias vezes sobre o período difícil que a Igreja Russa atravessa, travando uma
luta pelo poder no interior da comunhão de Igrejas Ortodoxas e ao mesmo tempo
tentando sobreviver a uma relação demasiado estreita com o poder político em
Moscovo.
O Patriarca Cirilo, de Moscovo,
quis afirmar-se como o grande representante da ortodoxia no mundo, em oposição
a Bartolomeu de Constantinopla, mas acabou, pela sua proximidade a Vladimir
Putin, por se tornar um pária aos olhos do mundo religiosos. Tenho comentado, nas
minhas mais recentes análises às suas declarações, que já nem se percebe se
as suas palavras são para ser levadas a sério, se são críticas (muito) dissimuladas
ao regime de Putin, ou se simplesmente perdeu toda a noção. Só na última semana
lamentou o facto de o mundo estar a sofrer por causa dos ditadores que espalham
o conflito e elogiou a Rússia por não cometer crimes de guerra, algo que se
deve ao facto de ter um historial de líderes ortodoxos crentes. E não nos
esqueçamos da vez em que se regozijou no facto de a Rússia, apesar de ser um
país muito poderoso, nunca ter atacado ninguém. E sim, disse-o já depois da
invasão da Ucrânia.
O facto é que Cirilo está
quase totalmente isolado e ninguém parece disposto a falar com ele, excepto o
Papa Francisco. Há até quem considere que Francisco está a ser ingénuo quando
diz que quer falar com Cirilo, mas o Papa parece entender que por mais que esteja
a atravessar, digamos, um mau momento, a Igreja Russa não deixa de ser uma
grande denominação cristã e que não se deve desistir, por isso, desse diálogo.
Aliás, no seu discurso à
chegada ao Cazaquistão disse: “Precisamos de líderes que, a nível
internacional, permitam aos povos compreenderem-se e dialogarem, e gerem um
novo ‘espírito de Helsínquia’, a vontade de reforçar o multilateralismo, de
construir um mundo mais estável e pacífico pensando nas novas gerações. E, para
fazer isto, é preciso compreensão, paciência e diálogo com todos. Repito: com
todos.”
Mais uma vez, porém, Cirilo
perdeu a oportunidade de se agarrar a esta mão estendida. Se tivesse ido ao Cazaquistão,
como estava inicialmente combinado, teria conseguido tornar-se o centro do
evento e o seu encontro com o Papa Francisco seria o ponto alto do congresso,
em termos mediáticos. Mas temendo ser alvo de críticas, refugiou-se novamente
no seu palácio de cristal em Moscovo e tornou ainda mais pertinentes as
palavras do Papa que muitos acreditam terem sido ditas com ele em mente.
Se o Criador, a quem
dedicamos a existência, deu origem à vida humana, como podemos nós – que nos
professamos crentes – consentir que a mesma seja destruída? E como podemos
pensar que os homens do nosso tempo – muitos dos quais vivem como se Deus não
existisse – estejam motivados para se comprometer num diálogo respeitoso e
responsável, se as grandes religiões, que constituem a alma de tantas culturas
e tradições, não se empenham ativamente pela paz?
Irmãos e irmãs,
purifiquemo-nos, pois, da presunção de nos sentir justos e de não ter nada a
aprender dos outros; libertemo-nos das conceções redutoras e ruinosas que
ofendem o nome de Deus com rigidezes, extremismos e fundamentalismos, e o
profanam por meio do ódio, do fanatismo e do terrorismo, desfigurando inclusive
a imagem do homem. (…) Nunca justifiquemos a violência. Não permitamos que o
sagrado seja instrumentalizado por aquilo que é profano. O sagrado não seja
suporte do poder, e o poder não se valha de suportes de sacralidade! Deus é
paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra.
Mais uma vez, belas palavras. Haja
quem as oiça e as ponha em prática!
No passado dia 30 de Março tive a honra de participar na conferência "Para um Ecumenismo da Paz", organizado pela Capela do Rato, em Lisboa. Foi online, e a gravação pode ser vista aqui.
Este episódio conta com a ajuda do nosso amigo Octávio Carmo, jornalista e vaticanista da Agência Ecclesia. Já o Duarte não pôde estar, mas volta em breve!
Juntos discutimos a importância da Guerra na Ucrânia para as relações ecuménicas entre a Igreja Católica e os Ortodoxos, a consagração da Rússia e da Ucrânia a Nossa Senhora de Fátima e, por fim, a reforma da Cúria Romana, um assunto para o qual a presença do Octávio foi fundamental.
Isto porque não é apenas
Vladimir Putin que tem falado numa “Guerra Santa” na Ucrânia, mas também
líderes religiosos como o Patriarca Cirilo de Moscovo. Putin tem estado a usar
cinicamente os ortodoxos como cobertura moral para as suas ambições. Mas também
já intuiu que para “tornar a Rússia grande outra vez” a Ortodoxia Russa – que
carrega em si muitos dos elementos mais profundos da Santa Mãe Rússia e da sua
projecção secular, “o mundo russo” – é uma parte fundamental do plano político.
Já os líderes da Igreja
Ortodoxa Russa não têm a mesma desculpa política.
Na verdade, o que estamos a
ver agora não é apenas corrupção política entre os líderes religiosos
comprometidos, mas uma profunda divisão espiritual que estava de certa forma
disfarçada por profissões de fraternidade cristã. Até existem cristãos no
Ocidente que, traumatizados pela nossa decadência e “wokeismo” se deixaram
convencer de que a Rússia de Putin – com a sua repressão em larga escala,
assassinato de dissidentes (incluindo no estrangeiro) e maior taxa de aborto no
mundo – é de alguma forma um salvador religioso.
Vários Papas no passado
recente fizeram grandes esforços para pôr fim ao cisma entre Roma e a Ortodoxia
– e na maior parte das vezes têm sido rechaçados. Antes de a guerra ter
começado o Papa Francisco estava a procurar um segundo encontro com o Patriarca
Cirilo. O primeiro aconteceu em 2016, no aeroporto de Havana. O local não foi
boa ideia, mas pelo menos ambos os líderes exprimiram um “profundo desejo” por
unidade. E o Papa disse mais tarde que “falámos como irmãos”.
Esse espírito fraternal não
perdurou. Durante a sua videoconferência, no início deste mês, Francisco parece
ter criticado abertamente Cirilo por afirmar que esta “operação militar
especial” é uma “guerra santa”. Francisco foi ainda mais longe quando, na
sexta-feira passada, consagrou a Rússia, a Ucrânia e todo o mundo a Nossa
Senhora de Fátima. Cirilo e Putin sabem que Nossa Senhora pediu essa
consagração para que os erros da Rússia não se espalhassem pelo mundo, e para
que a Rússia se converta. Parabéns a Francisco por ter feito ambas estas
coisas, por mais objecções que tenha tido que enfrentar.
Infelizmente, Francisco também
contradisse toda a tradição cristã durante o seu encontro com Cirilo, quando
disse que todas as guerras são injustas. Na semana passada acrescentou, durante
uma conversa com um grupo de organizações de mulheres, que “fiquei envergonhado
quando li que um grupo de estados se comprometeu a gastar dois por cento do PIB
na aquisição de armamento, em resposta ao que se está a passar agora. É
loucura”, disse, lamentando “a velha lógica de poder que continua a dominar a
chamada geopolítica”.
É verdade que sim, e assim
continuará a ser enquanto os seres humanos decaídos continuarem a existir no planeta.
E é por isso que algumas potências – histórica e moralmente imperfeitas –
devem, por vezes, impedir que os mais impiedosos de entre nós dominem o mundo.
Quando as nações decidem
aumentar os seus orçamentos de defesa, à luz de ameaças que enfrentam, não se
trata de “loucura”. Diante de uma Rússia agressiva, os líderes políticos estão
apenas a ser responsáveis quando decidem robustecer a defesa nacional. A
decisão peca é por tardia.
Francisco parece pensar que a
única resposta cristã permissível perante uma ameaça é o “diálogo” e não a
dissuasão. Pode-se entender o seu horror pela guerra sem aceitar essa premissa.
O diálogo não nos trouxe sequer o entendimento religioso com Cirilo. Estou
certo de que Putin adoraria ver diálogo, diálogo infindável – nas igrejas, na
NATO, na política americana – enquanto ele continua a atacar uma nação atrás da
outra.
A queda da União Soviética
abriu algumas possibilidades – tanto para as Igrejas como para a Rússia. A
Igreja Ortodoxa da Rússia – a maior das ortodoxas – foi perseguida e
comprometida pelo comunismo. Na sua colaboração – ou possivelmente mesmo
trabalho activo – com a KGB, Cirilo desempenhou um papel vergonhoso nessa
pérfida aliança.
Agora voltou a comprometer-se,
alienando a maioria dos ortodoxos na Ucrânia enquanto abençoa os massacres de
Putin. Nestas circunstâncias é difícil imaginar como é que Moscovo continuará a
ser parte de qualquer diálogo ecuménico no futuro, ou sequer como é que a
Igreja Ortodoxa Russa permanecerá intacta.
O Grande Cisma de 1054 entre a
Igreja Ocidental e os Ortodoxos já foi há quase um milénio, e é tanto mais
doloroso porque – independentemente das questões como o Filioque – deveu-se
sobretudo a questões de jurisdição e de administração. A Igreja Católica não
reconhece apenas como válidas as ordens e os sacramentos ortodoxos, mas também
as ricas tradições litúrgicas e espirituais do Oriente, que devem ser
integradas numa Igreja global e universal.
O próprio Cristo rezou por uma
unidade eclesial semelhante à que ele tinha com o Pai. Os cristãos não têm tido
muito jeito nesse campo importante mas desafiante. (João: 17,21)
Na sua encíclica de 1995 Ut
Unum Sint (Que sejam um só), o Papa São João Paulo II falou de um
verdadeiro ecumenismo – não a coisa sentimentalista e mole que vemos
frequentemente nas discussões ecuménicas no ocidente – enraizado na realidade
histórica e substância espiritual do Oriente e do Ocidente:
a Igreja deve respirar com
os seus dois pulmões! No primeiro milénio da história do cristianismo, essa
frase referia-se sobretudo ao binómio Bizâncio-Roma; desde o baptismo da Rus'
para a frente, ela vê alargarem-se os seus confins: a evangelização estendeu-se
a um âmbito muito mais vasto, a ponto de abraçar praticamente a Igreja inteira.
Se se considera ainda que esse acontecimento salvífico, verificado ao longo das
margens do Dniepre, remonta a uma época em que a Igreja no Oriente e no
Ocidente não estava dividida, compreende-se claramente como a perspectiva a
seguir para a plena comunhão, seja aquela da unidade na legítima diversidade.
Também o Papa Francisco tem
falado de unidade sem uniformidade. O seu desafio, de agora em diante, será pôr
isso em prática dentro da Igreja Ocidental. A janela para o Oriente está, por
ora, fechada.
Robert Royal é editor de The Catholic Thing e
presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente
livro é A Deeper Vision: The Catholic
Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How
Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter
Books.
(Publicado pela primeira vez
em The Catholic Thing na Segunda-feira, 28 de Março de
2022)
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responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade
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Houve ainda tempo para denunciar as ameaças à democracia. O ecumenismo também foi uma aposta forte desta visita, tanto na Grécia como em Chipre e o Papa não esqueceu, obviamente, as comunidades católicas, com quem esteve e a quem encorajou. O último acto público foi um encontro com jovens esta manhã.
Na entrevista desta semana da Renascença com a Ecclesia temos Mariana Baptista, recém-chegada de um ano em missão com os Leigos para o Desenvolvimento.
E dos últimos dias temos ainda a notícia da nomeação de D. José Cordeiro para a arquidiocese de Braga. Sendo liturgista, podemos esperar uma revitalização da tradição litúrgica do Rito Bracarense? Infelizmente um dos poucos padres que ainda o celebrava com frequência, sem bem que nos EUA, era Joseph Santos, que morreu de Covid no passado sábado. Deixo-vos aqui a transcrição da entrevista que lhe fiz em 2010, ainda antes deste blog existir.
Hoje Francisco recebeu o primeiro-ministro do Iraque, meses depois da sua própria histórica visita ao país.
Os símbolos das JMJ vão estar em tour pelo país. Saiba quando é que vão estar na sua diocese.
A cadeia de hotéis Hilton está a ser acusada de cumplicidade no genocídio dos uigures na China.
Continua a dar que falar a questão das crianças indígenas retiradas às famílias no Canadá. Os líderes das comunidades vão a Roma em Dezembro para tentar convencer o Papa Francisco a pedir desculpa pelo papel desempenhado pela Igreja na gestão das escolas.
Por falar em testemunhos de unidade, Francisco contribuiu
para um livro contra a guerra cujo prefácio foi assinado pelo Patriarca da Igreja Copta
Ortodoxa.
Francisco está preocupado com o Médio Oriente, especialmente com o Líbano, onde se passa fome por causa da crise política, social e económica.
A Obra Católica Portuguesa das Migrações está preocupada
com o racismo em Portugal, incluindo entre as forças policiais.
Que dizer desta tendência de todas as marcas e instituições
debaixo do sol de exibirem a bandeira arco-íris? Nada que Vaclev Havel não
tenha dito já. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a
mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.” É sobre
isso o meu mais recente artigo no blog da Actualidade Religiosa. Leiam e comentem.
O Papa deseja para o ecumenismo a força viva das árvores!
Há uma nova polémica no Reino Unido relacionado com
cuidados em final de vida. Neste caso é um cidadão polaco a quem se interrompeu
o suporte artificial de vida e também a nutrição e a hidratação. Bispos ingleses e o Governo polaco já intercederam a seu favor.
O Papa Francisco está com uma crise de ciática. É um problema antigo que o
volta a acometer e que afeta a sua agenda.
O ex-presidente e fundador da CNIS lamenta que o Estado seja “calaceiro” na resposta aos mais necessitados e a mesma organização
pede agora que se cumpram as regras de vacinação nos lares.
Não deixem de ler o artigo da semana passada do The
Catholic Thing, sobre a relação entre Biden e os bispos e aproveitem também para ler o artigo do padre Paul
Scalia sobre São José e a importância de um ano dedicado a ele.
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| Modelo do templo mórmon em construção em Lisboa |

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| Catolicismo: Um banquete sensorial |
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| Pe. Gerald E. Murray |
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| Paulo VI e o arcebispo de Cantuária |