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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Verdade não é Rígida, é Real

Pe. Gerald E. Murray
A realidade interessa? Ela é a referência necessária e decisiva para descobrir o que é e o que não é, o que é verdade e o que é falso? Ou será a realidade sujeita a revisão com base nas nossas preferências, desejos ou outros factores? São questões como estas que se nos colocam quando vemos comentários como aqueles feitos pelo Cardeal Francesco Coccopalmerio sobre a validade das ordens anglicanas. Segundo Christopher Lamb, do “The Tablet”, Coccopalmerio caracterizou o ensinamento da Igreja sobre as ordens anglicanas da seguinte maneira: “Temos tido, e temos ainda, uma compreensão muito rígida sobre a validade e a invalidade: Isto é válido, aquilo não é. Mas deve-se poder dizer: ‘Isto é válido num certo contexto, aquilo é válido noutro’.”

O Cardeal especula sobre as implicações doutrinais de gestos papais de respeito e de amizade no passado, dizendo: “O que significa o facto de o Papa Paulo VI ter dado um cálice ao Arcebispo de Cantuária? Se era para celebrar a Ceia do Senhor, a Eucaristia, então era para ser feito de forma válida, não?” E continua: “Isto é ainda mais significativo do que a cruz peitoral, porque o cálice não é usado apenas para beber, mas para celebrar a Eucaristia. Com estes gestos a Igreja Católica está já a intuir, a reconhecer uma realidade”.

Estas declarações surgem num novo livro, cujo título não é indicado por Lamb, que inclui o conteúdo de um encontro do Grupo de Conversação de Malines, que teve lugar perto de Roma em Abril deste ano. A Rádio Vaticano cobriu o encontro, tomando nota da participação do Cardeal Coccopalmerio. A reportagem da Rádio Vaticano inclui comentários feitos pelo padre Tony Currer, do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Sobre as ordens anglicanas ele diz: “Penso que é verdade que não utilizamos termos como ‘nulas’” pois “claramente não é isso que dizem os gestos, a generosidade e a simpatia que temos visto repetidamente”.

Validade é sinónimo de realidade quando se fala de sacramentos. A Igreja ensina claramente o que é necessário para a celebração válida – isto é, verdadeira e real – dos sacramentos. Ao invocar linguagem pejorativa como “compreensão rígida” sobre validade e invalidade, Coccopalmerio reduz o entendimento da Igreja sobre o que conta como um sacramento válido à expressão de uma atitude psicologicamente doentia, radicada na ignorância e no medo irracional.

A questão da validade é simples: A Igreja considera que uma ordenação anglicana é uma administração válida do sacramento da Ordem? A resposta é não, tal como foi determinado com a autoridade do Papa Leão XIII na sua encíclica Apostolicae Curae. A ordenação anglicana não transforma um homem num sacerdote católico. Essa determinação é objectiva e feita com base num estudo razoável e cuidadoso da história, da doutrina e da prática tanto da Igreja Católica como da Comunhão Anglicana.

Paulo VI e o arcebispo de Cantuária
Coccapalmerio diz mais: “Quando alguém é ordenado na Igreja Anglicana e se torna pároco numa comunidade não podemos dizer que não se passou nada, que é tudo ‘inválido’.” A opção apresentada nesta afirmação é de que numa ordenação anglicana ou o homem se torna um padre validamente ordenado, ou então nada acontece. Mas há uma terceira possibilidade: A ordenação anglicana transforma alguém num padre anglicano, não num padre católico.

A Igreja ensina que esta ordenação não é uma ordenação católica válida. O homem ordenado numa cerimónia anglicana não recebe o sacramento da Ordem. O sacramento da Ordem não é administrado. (Deixo de parte aqui a questão de anglicanos ordenados por bispos que receberam sagração episcopal das mãos de bispos veterocatólicos ou ortodoxos).

Mas aparentemente Coccopalmerio e Currer resistem a esta verdade. O Cardeal afirma que o cálice que o Papa ofereceu ao Arcebispo de Cantuária significa que o Papa Paulo VI considerava que o Serviço de Comunhão Anglicano era uma celebração válida da Missa porque “era suposto ser feito de forma válida”. Mas o Papa Paulo VI nunca disse aquilo que Coccopalmerio conclui. Um gesto não equivale a um pronunciamento papal.

O padre Currer diz que “nós já não usamos termos como ‘nulo’”. Se por “nós” se refere à Igreja Católica, está enganado. O pronunciamento do Papa Leão XIII não foi rejeitado por qualquer dos seus sucessores. É evidente que o padre Currer e outros não gostarem do facto de as ordens anglicanas terem sido consideradas nulas. Mas esta insatisfação de Currer com o exercício do magistério papal não significa que a Igreja tenha deixado de defender a invalidade das ordens anglicanas.

Coccopalmerio procura dispensar a verdade objectiva do que constitui validade sacramental na Igreja Católica, tornando-a variável de acordo com um “contexto”. Não estamos perante relativismo, puro e simples? O Cardeal não afirma que os critérios para determinar a validade ou a invalidade da administração da Ordem foram mal aplicados por Leão XIII quando este examinou as ordens anglicanas. (Talvez aborde a questão noutro lado). Limita-se a dizer que estes critérios não se devem aplicar porque são rígidos. A conclusão do Papa Leão XIII de que as ordens anglicanas são inválidas é criticada como sendo rígida quando a pessoa não gosta dessa verdade em particular. O que para uns é rigidez, para outros é solidez. A Igreja está a ser teimosa ou firme nesta questão? Diria que ambos. É isso que a verdade exige, independentemente do contexto. Se ela tiver cometido um enorme erro neste ponto, que mais devemos lançar borda fora?

No seu ensaio “O Destronar da Verdade”, Dietrich von Hildebrand escreveu: “O desrespeito pela verdade – quando não se trata de uma tese teorética, mas de uma atitude vivida – claramente destrói toda a moralidade, mesmo a razoabilidade e a vida comunitária. Todas as normas objectivas são dissolvidas por esta atitude de indiferença para com a verdade; como é destruída também a possibilidade de resolver de forma objectiva qualquer discussão ou controvérsia. Também se torna impossível haver paz entre pessoas ou entre nações. A própria base da vida humana real é subvertida”.  

Corremos grande risco ao dispensar a verdade. 


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Maio de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Elder Jackie Chan? Temos pena

É só sorrisos até que alguém saca de uma arma...
Começo por vos convidar a ver esta notícia de um assalto que correu muito mal – para os assaltantes. Da próxima vez que virem um missionário mórmon na rua sorriam, mas não o provoquem!

O bispo da Guarda esteve de visita a Angola, onde uma missão por ele iniciada educa 350 crianças. Em breve serão 400.

Duas notícias de abusos de menores. A Igreja Anglicana da Austrália recebeu mais de 1.100 queixas de abusos no espaço de 35 anos, revela a mesma comissão que já analisou a Igreja Católica no mesmo âmbito. Já em Portugal, o padre do Fundão que foi condenado por abusos viu a sua pena confirmada peloSupremo Tribunal.

Os seguidores do Estado Islâmico na Índia têm um novo alvo. É o Taj Mahal, ironicamente considerada uma das jóias da arte islâmica naquele país.

Por falar em Islão, o artigo desta semana do The Catholic Thing tem palavras duras sobre esta religião. Escolhi e traduzi-o para esta semana não porque concordo com tudo o que o autor diz, mas porque concordo com a sua mensagem central. Há que olhar de frente o problema e assumir que há um problema com o Islão que os muçulmanos precisam de abordar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Guterres alegra pró-vidas, desporto e fé no Vaticano

Novo SG da ONU. A long, long time ago...
António Guterres vai ser o próximo secretário-geral da ONU. A nomeação do português, que é católico e pró-vida, já foi saudada por pelo menos um grupo de lobbying pelos valores da família na ONU e os bispos portugueses também elogiaram Guterres, nomeadamente o seu sentido de fé e de humanismo.

Está a decorrer no Vaticano um encontro dedicado ao tema da fé e do desporto. A esse propósito falámos com o autor de uma história da selecção de 66 e também com o nosso já conhecido IronPriest, o padre Ismael Teixeira, que em Agosto se tornou o primeiro a fazer um Ironman, uma das provas mais duras do desporto.

Já está a decorrer a peregrinação dos educadores de infância, que anunciámos aqui há alguns dias, saibam mais sobre o que move estes peregrinos, aqui.

O caso da paquistanesa condenada á morte por blasfémia, Asia Bibi, está a entrar numa fase decisiva. A questão vai ser debatida pelos deputados portugueses.

O Papa fez uma visita surpresa às vítimas do terramoto em Amatrice e ontem e hoje, menos surpreendentemente, encontrou-se com líderes anglicanos que estão em Roma para assinalar os 50 anos do encontro histórico entre o Arcebispo de Cantuária e o Papa Paulo VI.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Vatileaks II e dia de Fiéis Defuntos

Não havendo já mordomo, a culpada
só podia ser a miúda gira
A notícia do dia é a detenção de duas pessoas no Vaticano. Um padre e uma leiga, sendo que ele ainda trabalhava na Santa Sé mas ela, que de início esteve envolta em polémica, já não. Vatileaks II? Parece que sim.

Hoje é dia de Fiéis Defuntos e por isso falei com o padre Duarte, cujo irmão morreu o ano passado em circunstâncias trágicas, e que nos fala da morte de uma perspectiva cristã e muito pessoal. Vale muito a pena ler.

O Estado Islâmico reivindicou a queda de um avião russo na Península do Sinai. O que não quer dizer que tenham sido de facto eles, mas o facto de o avião ter explodido no ar dá alguma credibilidade à teoria, mesmo assim vista como mera propaganda por muitos especialistas.

O Papa está preocupado com a situação na República Centro-Africana, para onde viaja no final deste mês e onde regressou a violência.

E a Igreja Episcopaliana – ramo americano do Anglicanismo – tem um novo líder.O bispo Curry é o primeiro afro-americano a desempenhar o cargo.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sentamu-nos

O homem gravemente desfigurado que foi abraçado pelo Papa há poucas semanas falou à imprensa italiana da importância que aquele momento teve para ele, realçando que o Papa o abraçou sem saber se era contagioso ou não.

Entretanto em Inglaterra os bispos anglicanos têm de decidir entre a evangelização ou a fossilização, considera Sentamu. O ex-arcebispo de Cantuária admite que a extinção também é uma hipótese…

Dois golpes terroristas no mundo árabe esta manhã. No Líbano um duplo atentado abalou a embaixada do Irão, provavelmente levado a cabo por sunitas. Já na Somália os militantes do Al-Shabaab invadiram uma esquadra policial, fazendo pelo menos 10 mortos.

Aproveito para divulgar um evento que tem lugar esta semana no Darca, em Lisboa: Graça Franco, Henrique Leitão (Faculdade de Ciências) e a Marta Mendonça (FCSH-UNL e UCP), encontram-se na quinta-feira, 21 de Novembro, pelas 19h para discutir o tema: “Ano da Fé: apanhar a onda!”

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Novo bispo anglicano e perdão no Cacém


Ontem ainda surgiu a notícia de que os dois bispos sírios que foram raptados esta semana tinham sido libertados. Infelizmente, isso não corresponde à verdade. Ambos os bispos continuam nas mãos de rebeldes.

Vai decorrer em Maio um curso sobre o Perdão no Cacém (o curso é no Cacém, o Perdão pode ser em qualquer lado, imagino). Um evento a ter debaixo de olho, sem dúvida!
Amanhã é sagrado o novo bispo da Igreja Lusitana. D. José Jorge de Pina Cabral fala à Renascença das suas expectativas e da crise que a Comunhão Anglicana atravessa actualmente. Aqui podem ler a transcrição completa da entrevista, em que ele fala também do ecumenismo e dos problemas levantados pelos ordinariatos criados por Bento XVI.

Deus permite o mal? O mal faz parte dos planos de Deus? A dúvida é eterna e tão depressa não terá resposta. Mas pode-se ir pensando e reflectindo sobre ela. Curt Lampkin ajuda-nos a fazê-lo com o artigo desta semana de The Catholic Thing. Este é um texto com o qual não estou inteiramente de acordo, mas que levanta questões e perspectivas interessantes!

Por hoje é tudo, eu volto na segunda-feira e desejo a todos um bom feriado e, se for o caso, fim-de-semana comprido! Actualizações urgentes irão para o twitter e facebook.

“A comunhão anglicana sempre viveu numa grande diversidade”

Transcrição integral da entrevista a D. José Jorge de Pina Cabral, novo bispo da Igreja Lusitana. Notícia aqui.

Qual é a sua expectativa para a sagração de quinta-feira?
Há alguma ansiedade, perfeitamente natural, dado que é um momento muito significativo para a vida da Igreja e para a minha vida pessoal, mas é sobretudo uma expectativa de alegria, de satisfação por este dia, por esta cerimónia e este evento.

Fale-nos um pouco do seu percurso pessoal.
Nasci numa família tradicional da Igreja Lusitana, sou de quarta geração, portanto fui educado na fé em cristo desde criança e fiz o meu percurso no seio da Igreja Lusitana. A minha vida foi sendo ocupada por sucessivos cargos de responsabilidade no seio da Igreja. Fiz uma primeira licenciatura em educação física e desporto, fui professor, mas depois percebi que Deus me estava a chamar para outros caminhos e para outras responsabilidades e então licenciei-me em ciências religiosas na Universidade Católica.

A par disso fiz todo um percurso de envolvimento na Igreja, naquilo a que Deus me foi chamando, e fundamentalmente foi um percurso de sensibilidade e de escuta ao que Deus me foi chamando a fazer até este ponto.

Que planos tem para o exercício da sua responsabilidade?
Não se trata de fazer planos. Olhando para o meu passado e para a minha vida pessoal, percebo que os meus planos foram sempre ultrapassados, e bem, pelos planos de Deus, por isso para o meu episcopado procurarei ser fiel ao que Deus me está a chamar para realizar no seio da Igreja Lusitana e, naturalmente, todo o trabalho pastoral com as outras igrejas.

Mas fundamentalmente pretendo que seja um episcopado de compromisso, de responsabilidade, de continuação do muito que já foi feito no seio da Igreja, mas é acima de tudo uma abertura ao que o Espírito Santo me vai chamar a realizar.

Acha que os ordinariatos pessoais criados por Bento XVI foram uma medida positiva?
Foi uma medida que provocou tensão, a nível das Igrejas, embora aquilo que tenha transparecido para a opinião pública tenha sido um equilíbrio no tratamento da questão. O que soubemos foi que o próprio arcebispo de Cantuária e o palácio de Lambeth foram apanhados de surpresa com a medida.

O que me parece é que ele dá um espaço para aquele grupo de anglicanos que se revêem mais numa relação mais próxima com o Papa, com a Igreja Católica Romana, e portanto diversos anglicanos, desde bispos, presbíteros e leigos têm aderido a ele. De qualquer das maneiras, isto num contexto de relação ecuménica não me parece muito relevante.

O que me parece de relevar é a boa relação entre Rowan Williams, o anterior arcebispo de Cantuária e o Papa Bento XVI, o profundo diálogo teológico que se travou entre os dois, que estou certo que criou ainda mais pontes entre as duas comunhões, apesar das diferenças e das sensibilidades que existem entre as duas comunhões eclesiais.

Vamos ver agora o que o futuro nos reserva, sendo que naturalmente os líderes mudaram os dois no mês de Março. Penso que aos olhos da fé e na sensibilidade do espírito estas coisas não vêm ao acaso, as duas comunhões têm novas lideranças e portanto vamos ver o que é que cada um dos líderes, na sua maneira de ser, na sua sensibilidade, vai conseguir estabelecer um com o outro. Portanto é um tempo de expectativa.

Como é que tem assistido a estes primeiros tempos do Papa Francisco?
Em primeiro lugar com alegria. É muito bom ouvir um Papa a ter um discurso simples, acessível e compreensível pelas pessoas, sejam ou não da Igreja. Realmente o Papa tem tocado nestas grandes questões que hoje tocam o mundo, tocam a sociedade, tocam as pessoas. O tema da pobreza, as preocupações de natureza social que as pessoas têm e tem sensibilizado a Igreja para outro tipo de postura no seu relacionamento com o mundo. É uma figura muito simpática, que cativa, mas vamos ver agora o que é que poderá vir daqui para a frente.

São conhecidas as divisões que há a nível mundial na Igreja Anglicana. Esta divisão é um caminho sem retorno?
Para percebermos esses problemas, essas tensões, temos de perceber o que é a própria natureza e eclesiologia da comunhão anglicana. A comunhão anglicana sempre viveu numa grande diversidade de sensibilidades litúrgicas, eclesiais, doutrinais, e sempre conseguiu manter esse equilíbrio ao longo dos tempos.

Efectivamente tem havido, ultimamente, pontos de grande tensão, que têm a ver com questões ligadas à sexualidade, neste caso concreto à questão do bispo homossexual sagrado na Igreja Episcopal dos EUA. Isso provocou uma reacção grande, mas ao mesmo tempo permitiu também um diálogo grande. Parece-me que a tensão e a diversidade existente, apesar de causar, numa primeira análise, uma vivência um bocado tensa, trazem também a necessidade de diálogo e de um processo de escuta das diversas sensibilidades.

Aquilo que se tem passado nos últimos anos é precisamente um diálogo muito intenso de confronto entre perspectivas diferentes e acho que é assim que as questões no seio da Igreja se têm de tratar, dialogando e não escondendo as diferenças.

Se me pergunta se isso vai trazer danos irreversíveis em termos de unidade no seio da Comunhão Anglicana, neste momento não lhe sei dizer. O que sei, e o que se percebe, é que há um forte desejo de manter a unidade na Comunhão Anglicana, uma unidade nos aspectos fundamentais nos aspectos da doutrina, sacramentos e liturgia. Nesse aspecto o novo arcebispo de Cantuária, Justin Welby, vai ter um papel decisivo.

Portanto eu olho o futuro com muita esperança, muita serenidade também. Nesta perspectiva que efectivamente é interessante percebermos que nestes anos marcados por divisões, tem havido também um caminho de unidade muito grande ao nível da criação de muitas comissões ligadas ao trabalho social, ao trabalho da Bíblia, da cooperação entre as diversas províncias. O que significa que é possível, apesar da tensão, construir pontes e caminhos de unidade.

Em Portugal já há sacerdotisas na Igreja Lusitana?
Sim.

E como é que a Igreja Lusitana encara a ordenação de pessoas em relações homossexuais?
A questão pode pôr-se aqui, naturalmente. Na Igreja Lusitana, como em qualquer igreja anglicana, estas questões mais polémicas, que exigem um aprofundamento grande têm de ser debatidas e tratadas a nível do sínodo da Igreja.

O sínodo é o órgão máximo da Igreja e reúne o bispo, o clero e os leigos da comunhão anglicana. Até aqui não surgiu a necessidade de tomar uma posição pública oficial dessa questão.

Naturalmente estamos atentos ao diálogo que tem havido a nível internacional, e se vier a colocar-se iremos trata-la com abertura, com sensibilidade, com maturidade e procurando discernir o que o Espírito Santo está a dizer à Igreja. Não nos podemos fechar. Acho que aqui a meia via é a posição equilibrada.

Essa meia via tem sido um bocado a posição da Igreja de Inglaterra…
A questão da cultura é muito importante. A cultura é o contexto em que a Igreja exerce a sua missão. Nem a Igreja se pode fechar à cultura. A Igreja tem de ter uma prática de inculturação. Ou seja, de perceber o que o Espírito Santo suscita na cultura que a rodeia, e depois procurar um diálogo e procurar que a Graça do Espírito ajude a própria cultura e a sociedade onde está inserida a perceber qual é a posição mais equilibrada e mais positiva para os homens e para as mulheres.

No caso da Igreja Lusitana temos a nossa própria sensibilidade cultural, diferente da da Igreja de Inglaterra e muito diferente daquela das igrejas africanas. Cada questão tem de ser analisada no seio do seu contexto cultural, naturalmente tendo por base os princípios de identidade da Igreja, de doutrina, procurando discernir o que a tradição da Igreja nos dia e o que a própria palavra de Deus nos diz.

São questões que têm de ser tratadas por nós, no nosso relacionamento com a Igreja Universal, atendendo ao que é a sensibilidade e o pensar da sociedade portuguesa nessa matéria também. A Igreja de Inglaterra realmente caracteriza-se por conseguir, graças à sua capacidade de diálogo, escuta e análise, reunir diversas sensibilidades, o que nem sempre é fácil e naturalmente terá também momentos de tensão.

Portanto relativamente a essas questões diria que vamos caminhando, discernindo o que o Espírito Santo procura dizer à Igreja de Cristo, na qual também se insere a Igreja Lusitana.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Ministra secundária mais conservadora que primeiro conservador

Freiras anglicanas a caminho de Roma
O Ministério Público decidiu abrir um inquérito sobre alegados abusos sexuais no Patriarcado de Lisboa, depois de Catalina Pestana ter dito que sabia de pelo menos cinco casos. D. Nuno Brás, ontem na Renascença, saudou a decisão e estranhou ela não ter sido tomada há mais tempo, mas afirmou não ter conhecimento de nenhum caso concreto.

A Alemanha aprovou uma lei que protege a circuncisão naquele país. Sim, chegámos ao ponto em que o ritual central da mais antiga religião monoteísta do mundo tem de ser protegido por decreto…

No Reino Unido o primeiro-ministro conservador não descansa enquanto não mudar a definição do conceito de casamento. Uma sua ministra tornou-se a mais recente crítica da proposta de legalizar o “casamento” gay.


No Reino Unido uma comunidade de 11 freiras anglicanas decidiu entrar em comunhão com a Igreja Católica ao abrigo do Ordinariato de Nossa Senhora de Walsingham.

Amanhã é dia de festas de Natal nas escolas dos herdeiros, por isso não deve haver Actualidade Religiosa. Bom fim-de-semana e até segunda, se Deus quiser!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

9 – Novos líderes dos coptas e dos anglicanos

Por regra a eleição de um líder de uma grande confissão cristã acontece com pouca frequência. Não é comum, por isso, que no mesmo ano se dê a eleição de líderes de duas das mais importantes comunidades cristãs do mundo.

Estas duas eleições foram em tudo diferentes. Comecemos pelo Papa dos Coptas, porque foi o primeiro cronologicamente.

A 17 de Março morreu o Papa Shenouda III. Shenouda estava para a Igreja copta um pouco como João Paulo II para os católicos. Teve um papado de décadas e para gerações inteiras de coptas era o único líder que conheciam. Ainda por cima teve um papel muito importante em modernizar aquela que é a maior comunidade cristã do Médio Oriente e uma das mais antigas do mundo e, numa região conturbada, era um pilar de estabilidade.

Shenouda morreu precisamente numa altura de grande mudança regional e por isso o sentimento de orfandade foi realçado para os coptas. Como o processo de selecção para um novo Papa é tão complexo, foi preciso esperar meses até ter um novo líder e, durante esses meses, o Egipto passava por mudanças radicais sem que os coptas tivessem uma voz forte que intercedesse por eles.

Tudo isso mudou no dia 18 de Novembro com a eleição de Tawadros II. O futuro dirá, mas Tawadros já falou firmemente contra, por exemplo, a inclusão da Sharia na constituição do país, que está a ser preparada. A nível ecuménico a escolha parece ter sido feliz porque ele era apontado como o mais aberto em termos de diálogo com outras confissões cristãs e tem ampla experiência internacional. Isto é tanto mais importante quanto a Igreja Copta não tem grande tradição a nível do diálogo ecuménico e a investir nele seria sem dúvida um parceiro bem-vindo para católicos e ortodoxos.

De todo este processo ficam duas imagens muito fortes. Primeiro as cerimónias após a morte de Shenouda, sobretudo a do seu cadáver, paramentado e coroado, colocado no trono patriarcal para veneração e, radicalmente diferente, a imagem de uma criança vendada a retirar o nome do novo Papa do lote de três candidatos, assegurando assim a intervenção do Espírito Santo na escolha do líder de milhões de coptas no Egipto e no exterior.

Mudamos então completamente de ares e vamos para o Reino Unido, para uma Igreja que se afasta cada vez mais do Cristianismo tradicional que os coptas representam, a Igreja Anglicana.

O Arcebispo de Cantuária é uma espécie de “primus inter pares” na Comunhão Anglicana e acumula a tarefa de supervisionar a Igreja de Inglaterra e também de zelar pela unidade de toda a Comunhão Anglicana, o que tem provado ser um trabalho absolutamente impossível.

Rowan Williams é um homem afável, bom teólogo, se bem que bastante liberal, com quem é fácil simpatizar. O Papa, diz-se, gosta imenso dele. Mas era claramente o homem errado no lugar errado. Não tinha maneira de evitar a ruptura crescente da Comunhão Anglicana, entre liberais radicais nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e até certo ponto no próprio Reino Unido, e conservadores, sobretudo dos países africanos.

Durante a sua vigência diferentes primazes excomungaram-se uns aos outros, os americanos ignoraram todos os apelos no sentido da moderação e consagraram mais que um bispo a viver em relação homossexual e até aprovaram ritos de bênção de uniões homossexuais, tudo para horror não só dos anglicanos africanos mas também da Igreja Católica que deu a entender que o diálogo ecuménico já não iria a lado nenhum.

É neste contexto que Rowan Williams resigna e é eleito Justin Welby. Welby, um homem relativamente novo e com experiência no mundo empresarial será, espera-se, o homem certo para tentar garantir a unidade. Ainda por cima, vem de um espectro conservador do ponto de vista teológico mas relativamente liberal do ponto de vista litúrgico e por isso poderá eventualmente construir pontes.

Mas os primeiros tempos de Welby, que só será entronizado em Março, mas que para muitos fiéis e sobretudo para a imprensa já é “o” Arcebispo de Cantuária, não correm da melhor maneira.

Justin Welby
Questionado sobre um dos temas do momento, a introdução do “casamento” homossexual no Reino Unido, a que sempre se opôs, Welby admite repensar o assunto e no seu primeiro grande teste, a votação em sínodo para permitir a ordenação de mulheres bispo na Igreja de Inglaterra, é aplaudido longamente no seu discurso a defender a medida mas depois tem de vir a público lamentar o facto de o sínodo ter rejeitado a decisão e procurar meios para contornar as próprias regras anglicanas para ver se conseguem fazê-la passar para o ano em vez de esperar outros cinco.

A nível da Comunhão Welby ainda não foi devidamente testado mas dificilmente conseguirá melhor do que Williams durante os anos em que ocupou a sé de Cantuária, ou seja pouco mais que capitanear um navio claramenteà deriva e com pessoas a remar em direcções opostas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Livro do Papa sim, mulheres bispo nem por isso...

(Não se assustem, o livro
em si é mais pequeno)
Claro que a principal notícia do dia é o lançamento do terceiro volume de Jesus de Nazaré. Ontem o Papa recebeu os editores dos diferentes países, hoje foi o lançamento da versão impressa e, em Portugal, do audiolivro.

Enquanto alguns (os mesmos que despedem os seus jornalistas que mais percebem de religião), preferem fazer títulos com vacas e burrinhos, a Renascença traz-lhe uma análise que esperamos mais séria.

Outra grande notícia é já de ontem à noite e vem de Inglaterra, onde os anglicanos rejeitaram, contra todas as expectativas, a possibilidade de ordenar mulheres para o episcopado. Se é daqueles que se sente perdido com as notícias sobre anglicanos, então talvez se sinta na pele do amigo imaginário com quem tive esta conversa explicativa

Uma boa notícia no Paquistão. A jovem menina cristã e deficiente mental que estava acusada de blasfémia viu o processo arquivado. Mas voltar para casa não deve ser uma opção.

E para quem se interessa pelo património artístico da Igreja, ou por Évora, ou mesmo pelos dois… um livro que é lançado amanhã.

Conversas imaginárias sobre “bispas” adiadas

Não. Se adormeceres passa mais depressa.
A Igreja de Inglaterra (Anglicana), decidiu ontem adiar o inevitável e, numa votação que apanhou todos de surpresa, rejeitou a possibilidade de ordenar mulheres para o episcopado.

Como quase tudo o que diz respeito à Igreja Anglicana, esta história é tremendamente complexa. Vou tentar por isso desvendá-la, imaginando uma conversa imaginária com alguém que não sabe nada sobre o assunto.

Então o que é que se passou?
A Igreja de Inglaterra, a mais antiga e influente das igrejas da Comunhão Anglicana, rejeitou uma proposta que permitira a ordenação episcopal de mulheres. Ou seja, na Igreja de Inglaterra não vai haver mulheres bispo tão cedo, pelo menos mais cinco anos, de acordo com as regras internas.

Uma maioria votou contra, foi?
Não. A esmagadora maioria votou a favor. Mas a Igreja Anglicana tem um sistema que obriga a que este tipo de decisões seja tomada por maioria de dois terços em cada uma das câmaras do sínodo, a dos bispos, a do clero e a dos leigos. A câmara dos bispos, actualmente, é composta só por homens. A do clero e dos leigos tem homens e mulheres. Globalmente três quartos dos membros do sínodo votou a favor.

Portanto foi mais um caso em que os bispos, só homens, impedem o avanço social contra a vontade dos padres e leigos esclarecidos?
Também não. Os bispos votaram esmagadoramente a favor, os padres também. Foi na câmara dos leigos que a medida foi chumbada, por uma unha negra, mais precisamente seis votos.

Quem é que é contra?
A Igreja Anglicana tem muitas facções. Entre elas a facção dos anglo-católicos e dos evangélicos. Os anglo-católicos são conservadores do ponto de vista litúrgico e depois alguns também são conservadores do ponto de vista teológico. Os evangélicos tendem a ser conservadores do ponto de vista teológico e liberais do ponto de vista litúrgico.

Neste caso a oposição vem de uma aliança entre anglo-católicos e evangélicos conservadores.

Mas não há mulheres bispo na Igreja Anglicana?
Há, mas não na Igreja de Inglaterra. O que levanta uma situação algo estranha de uma igreja que rejeita a ordenação episcopal de mulheres se encontrar em comunhão com outras, como por exemplo o Canadá, Austrália e Nova Zelândia, que aceitam. Aliás, nos Estados Unidos a Igreja é mesmo chefiada por uma mulher.

Mas em Inglaterra não há ordenação de mulheres, é isso?
Pelo contrário, há ordenação de mulheres mas só para o diaconado e para o sacerdócio.

Uma mulher padre a fazer figas antes da votação
Então esses tais conservadores são contra mulheres bispo mas aceitam mulheres nas outras ordens? Como é que é isso?
É mais complicado do que parece. Para começar eles não aceitam mulheres no sacerdócio e, na esmagadora maioria dos casos, estão reunidos em paróquias que são servidas exclusivamente por homens.
Mas há aqui uma diferença importante. É que para um cristão que não aceita a ordenação de mulheres qualquer acto sacerdotal que ela pratique é nulo. Por isso, a Eucaristia celebrada por uma mulher não seria um acto verdadeiro, não haveria consagração, por exemplo. Isto é importante para os anglo-católicos. Para os evangélicos é a questão da tradição de os líderes das comunidades cristãs serem homens, uma vez que não tendem a acreditar na Eucaristia e nos outros sacramentos que dependem do sacerdócio, como acreditam os católicos e os anglo-católicos.

A diferença é que os bispos podem ordenar sacerdotes e aí o caso muda de figura, porque para quem não acredita na validade das ordens femininas, isso implica introduzir na linhagem episcopal ordens inválidas, o que por sua vez afecta todos os outros sacramentos. Por exemplo um homem que fosse ordenado por uma mulher não seria um padre válido, e por conseguinte os sacramentos que celebrasse seriam inválidos etc. etc. etc.

Então nunca vai haver mulheres bispo na Igreja de Inglaterra?
Provavelmente vai. Se forem respeitadas as regras da própria Igreja, então o assunto só pode voltar a ser discutido daqui a cinco anos. Veremos nessa altura se os conservadores consolidaram a sua posição ou ficaram mais fracos. Mas há a possibilidade de o Governo e os tribunais intervirem antes disso.

Como?
A Igreja de Inglaterra é a confissão oficial do Estado, por isso tem de responder perante o poder político. Os políticos ficaram furiosos com a decisão de ontem e já se fala em acabar com a isenção que a Igreja tinha em relação à lei da igualdade, que proíbe a discriminação laboral em função do sexo. Se isso acontecer a medida poderá mesmo ser imposta judicialmente ou politicamente. A acontecer isso levantará toda uma outra discussão sobre liberdade religiosa…

Mais dúvidas? É também para isso que existe a caixa de comentários, tentarei fazer os possíveis para vos esclarecer.

Filipe d'Avillez


Para quem se interessa por “anglicanices”, há também estes posts que poderão gostar de ler:

Uma missa extraordinária – Com imagens de uma missa celebrada por uma comunidade de ex-anglicanos, agora católicos

Anglicanos e ordinariatos – Perguntas e respostas – sobre o ordinariato católico para ex-anglicanos


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Tantas mitras sem cabeça...

D. Fernando Luz Soares
Os anglicanos portugueses vão escolher um novo bispo. Após 31 anos à frente dos destinos da Igreja Lusitana, ramo da Comunhão Anglicana em Portugal, D. Fernando Luz Soares está de saída por limite de idade. Foram demasiados anos, considera, mas o balanço é positivo.

Uma notícia terrível chega-nos da Síria. Um padre ortodoxo raptado, torturado e assassinado. E a cada dia que passa a Síria mais parecida com o Iraque…

Por cá não há nada que se pareça, mas o Observatório das Armas da Conferência Episcopal está preocupada com o aumento de armas, legais e ilegais, em Portugal.

Amanhã faz 500 anos que se inaugurou o tecto da Capela Sistina. O Papa não vai deixar passar em claro a efeméride.

Termino com uma curiosidade. Com esta notícia da Igreja Lusitana são já vários as sedes episcopais a que estamos atentos. Para além de Lisboa, que nos próximos meses terá novo Patriarca, também o bispo das Forças Armadas está prestes a ser substituído.

A escolha de um novo Arcebispo de Cantuária está a revelar-se muito complicada e já está atrasada.

Melhor está a correr o processo de escolha do novo Papa da Igreja Copta, no Egipto. No Domingo uma criança escolherá um de três envelopes de cima do altar da catedral de São Marcos, sendo encontrado assim o sucessor a Shenouda III, que morreu há vários meses.

Por fim, também se procura um novo Patriarca da Igreja Ortodoxa da Etiópia, embora ainda não conseguido perceber qual o processo de escolha nem quais as datas previstas.

31 anos "é um tempo demasiado" diz D. Fernando Luz Soares


Transcrição integral da entrevista a D. Fernando Luz Soares, bispo da Igreja Lusitana, que pertence à comunhão anglicana. Ver notícia aqui.

Resigna por livre vontade, ou por razões estatutárias?
De acordo com os cânones da Igreja, o bispo diocesano deve resignar da sua jurisdição aos 65 anos. Entretanto se por ventura houver necessidade pode haver um acordo entre a Igreja e o bispo no sentido de manter a jurisdição até aos 70.

Eu faço para o ano 70 anos e portanto havia a necessidade de se eleger alguém que me possa suceder quando eu chegar aos 70 anos. Como o sínodo anterior aos meus 70 anos é agora, vamos eleger o novo bispo.

Com que frequência se realizam os sínodos?
Os sínodos realizam-se de dois em dois anos.

Como é que é o processo de selecção do seu sucessor?
Foram nomeadas duas comissões pela Comissão Permanente, o órgão que governa a Igreja entre sínodos, com o bispo, evidentemente. Uma das comissões foi para ver quem reunia condições para ser candidato e outra que tratou de aspectos de natureza financeira e outras, mais ligados ao próprio desenvolvimento do processo.

Durante dois anos a também tivemos uma preparação mais de natureza doutrinal e teológica acerca do que representa para a Igreja Lusitana o ministério episcopal. Para além da Igreja Católica Romana somos a única Igreja em Portugal que tem o ministério episcopal como parte essencial da sua estrutura [O Sr. D. Fernando não estará a incluir as Igrejas Ortodoxas nesta análise]. Foi preciso explicar isso às pessoas, porque entretanto a Igreja tem vindo a transformar-se, é composta por pessoas mais novas e é preciso explicar estas coisas.

Agora vai acontecer a eleição e a seguir a isso o que a Igreja faz é escrever ao Arcebispo de Cantuária, como nossa autoridade metropolitana, porque somos uma diocese extra-provincial, e para manter a nossa catolicidade temos de estar ligados a outras províncias, e isso é feito através do Arcebispo de Cantuária.

Se o Arcebispo de Cantuária estiver de acordo, como esperamos, esse candidato passa a ser bispo eleito e depois terá de ser feita a sagração. É preciso acertar uma data, onde o próprio Arcebispo de Cantuária, ou um seu representante, estará presente. Eu também estarei e alguém de uma igreja irmã, porque só podemos sagrar bispos com outros três bispos presentes.

No momento em que essa pessoa é sagrada assume a diocese e eu passarei a ser um bispo resignatário, como foi o meu antecessor quando eu assumi há 31 anos.

Que candidatos há?
A comissão apenas definiu, dos clérigos da Igreja, quem reúne as condições para poder ser candidato, tendo em conta a idade e outros factores. Temos quatro clérigos nessas condições. Não quer dizer que aceitem. Desses quatro poderá haver um ou outro que diga que não está interessado e os outros dizerem que estão disponíveis e então submetem-se à eleição.
Temos um presbítero angolano de nascença, o reverendo Barros Banza, temos um outro que é daqui do Norte, o reverendo Carlos Duarte; temos também o reverendo José Jorge Pina Cabral e temos outro de Vila Franca de Xira, o reverendo Fernando Santos.

A selecção será feita já durante o sínodo?
Sim. Na sexta-feira de manhã há um ponto da agenda que é a alocução do bispo e depois será a eleição do novo bispo.

Há também leigos a participar nessa eleição?
Sim. Participam todos os membros do sínodo. Eu, todos os clérigos que podem estar presentes, neste caso nove presbíteros e quatro diáconos, havendo dois ou três que estão doentes e já sabemos que não vão estar presentes, e também os outros participantes leigos. Ao todo são 40 pessoas no sínodo, incluindo 24 leigos, todos eles eleitos pelas respectivas paróquias para participar no sínodo e com direito a voto efectivo.

Estará ainda presente uma representante do Arcebispo de Cantuária, no caso uma cónega.

Que balanço faz destes 31 anos?
Para já posso dizer que é um tempo demasiado. Fui chamado muito cedo, porque eu sou bispo há 32 anos mas só há 31 assumi a diocese, porque durante um ano fui auxiliar de D. Luís Pereira, o meu antecessor.

Acho que o tempo da minha jurisdição foi excessivo, porque entretanto aconteceram muitas coisas na sociedade portuguesa, a nível político, social, cultural e também a nível religioso, que foram demasiadas para uma igreja pequena como a nossa, porque temos as nossas dificuldades exactamente pela nossa pequenez.

Durante este tempo houve momentos excelentes, da minha perspectiva. Eu consegui introduzir a ordenação das mulheres na Igreja Lusitana, consegui com alguma eficácia criar uma organização da própria Igreja, que não existia. Ela era constituída por paróquias, mas todas demasiado autónomas umas das outras. Criar um espírito de diocese não foi fácil, mas conseguiu-se.

Desenvolveu-se um determinado tipo de situações, na área da formação, não tanto quanto gostaria, aí está, é um aspecto que não foi conseguido como eu queria.

A Igreja cresceu por dentro, não em número de pessoas, mas cresceu por dentro. Ganhou consciência da sua condição de Igreja Anglicana, que não tinha, ganhou consciência da sua condição de Igreja episcopal, embora já tivesse tido dois bispos, mas a acção deles passou ao lado da grande maioria das pessoas da Igreja, o bispo passou a ser uma pessoa central e importante a nível da Igreja.

Houve outro facto importante, de a Igreja se ter afirmado no contexto da Comunhão Anglicana. Eu fui eleito em dois mandatos, entre 1993 e 1999 para a comissão permanente do Conselho Consultivo Anglicano. O Conselho Consultivo reúne anualmente e desenvolve um trabalho ao nível mundial para criar as condições de coordenação e contacto entre as diferentes províncias da Igreja Anglicana. A Igreja Lusitana foi chamada, embora sendo uma diocese extra-provincial não teria lugar, mas foi chamada a dedo.

Outro aspecto muito positivo que vejo do meu episcopado foi todo o relacionamento ecuménico que se realizou em Portugal com a Igreja Católica e com outras igrejas com as quais temos mantido uma relação fraterna.

Agora, houve também aspectos negativos, que derivam da nossa condição pecaminosa, no modo como funcionamos e tentamos assumir cada vez mais os nossos desejos e pontos de vista humanos, esquecendo que estamos ao serviço de Deus.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rowan Williams é um dos maiores teólogos do mundo, a par de Bento XVI

Transcrição completa da entrevista a D. Fernando Luz Soares* sobre a anunciada renúncia do Arcebispo de Cantuária. Veja a notícia aqui.

  
Ficou surpreendido com esta notícia?
Já desde o ano passado que havia rumores. Ele próprio foi questionado directamente sobre isso, ele nunca disse que sim nem que não, mas havia rumores que agora se vieram a concretizar.

Já nessa altura o que se dizia era que iria renunciar a Arcebispo de Cantuária para se dedicar à reitoria de uma faculdade de teologia em Cambridge.

Conheceu pessoalmente o Arcebispo de Cantuária, fica com pena desta renúncia?
Eu nunca trabalhei com ele directamente enquanto Arcebispo de Cantuária. Trabalhei com o anterior, porque eu fui membro do Conselho Consultivo Anglicano desde 93 a 99. Mas com este nessa minha função tive contactos directos. Recordo-me disso, na altura era primaz da Igreja do País de Gales. Ele esteve em Portugal em 2000, 2001, nessa qualidade.

Encontrei-me várias vezes com ele, por exemplo na última Conferência de Lambeth em 2008 [encontro de todos os bispos anglicanos, que se realiza de 10 em 10 anos] e em outras ocasiões mas de uma forma mais fugaz, já que normalmente o bispo da Igreja Lusitana e convidado a participar nos encontros entre os bispos anglicanos de Inglaterra, País de Gales, Escócia, Irlanda e Espanha e Portugal.

Por um lado tenho pena que ele tenha resignado, se bem que poucos mais anos teria. Mas tenho pena porque ele trouxe um outro perfume ao modo de encarar as circunstâncias difíceis com que a Igreja Anglicana está a lidar. Problemas derivados da homossexualidade, a ordenação de mulheres e de homossexuais. Ele trouxe um perfume particular à discussão desses assuntos, porque ele era um homem de uma grande espiritualidade e de uma grande capacidade teológica.

Ele era dos melhores teólogos do mundo. O outro dia vi que alguém tinha escrito, sobre o encontro recente dele com Bento XVI, que estariam ali os dois melhores teólogos do mundo. Provavelmente será assim.


Do que eu pude recolher de várias intervenções em que esteve presente é de um homem que respira teologia, que tem uma sensibilidade particular pra a exegese bíblica, um homem que tem uma sensibilidade particular para a exegese bíblica, para todo um conjunto de situações. Às vezes temos teólogos que são excelentes na teoria, mas ele tem essa facete de por a teologia ao serviço da própria vida, ele tem uma ligação extraordinária entre a teologia e a vida de cada um. Por isso eu tenho pena.

Agora, considero também que o Rowan Williams é um homem que está talhado exactamente para a pedagogia, para o ensino, para a reflexão, para a liderança no contexto da razão, mas acho que nalguns aspectos da vivência prática, de uma liderança como é a do Arcebispo de Cantuária, acho que ou por ele mesmo ou por má informação ou acompanhamento das pessoas que o ajudavam, houve coisas que não correram muito bem. De qualquer maneira respeito plenamente a decisão dele.

Arcebispo John Sentamu
Fala-se na possibilidade de ser sucedido por John Sentamu, Arcebispo de York, parece-lhe uma boa escolha?
Eu conheço também o Arcebispo Sentamu, é uma pessoa completamente diferente de Rowan Williams, é um homem que se fez a ele próprio, ele era juiz no Uganda, um homem com grande projecção social no seu pais de origem.

É um homem muito simples, mas em Inglaterra estamos perante uma sociedade que ainda vive alguns daqueles tiques, de uma certa aristocracia, uma certa estrutura conservadora, as pessoas olham-no com respeito, com consideração, mas creio, por aquilo que são os comentários que ouço… acho que há algumas dificuldades.

Nos últimos anos, tanto quanto me lembro, nunca houve um Arcebispo de York que sucedesse a um Arcebispo de Cantuária. Não é uma regra. Só espero que o Espirito Santo nos dê alguém que nos ajude a encontrar caminhos para que as pessoas descubram o rumo e possam orientar as suas lideranças à luz da função cristã.

* D. Fernando Luz Soares é líder da Igreja Lusitana, ramo português da Comunhão Anglicana

“Não sei se haverá quem o possa manter a Comunhão Anglicana unida”

Transcrição completa da entrevista ao padre Peter Stilwell*, sobre a anunciada renúncia do Arcebispo de Cantuária. Veja a notícia aqui.

Esta renúncia é o assumir de uma derrota por não ter conseguido conciliar liberais e conservadores no seio da Igreja Anglicana?
Não, os arcebispos de Cantuária tradicionalmente renunciam ao cargo, penso que aos 65 anos. Não sei bem que idade é que ele tem, mas está dentro do tempo considerado normal para os arcebispos de Cantuária renunciarem. O que acontece é que essa divisão que atravessa a Comunhão Anglicana tem sido uma preocupação para os vários sectores e há conversas de bastidores na comunhão anglicana de que de facto ele não tem sido capaz de fazer a ponte entre os diversos sectores.

O seu sucessor terá dificuldades também nesse aspecto…
A função do Arcebispo de Cantuária é ser mais um primus inter pares, ele tem igualdade de estatuto com os outros bispos anglicanos, mas tem a função de tentar conciliar as partes, de falar com elas e criar pontes entre os diversos sectores. Não sei se haverá quem o possa fazer neste momento, porque as posições estão extremadas sobre assuntos que parecem tocar mesmo o coração das questões doutrinais e morais.

Portanto não é fácil ver como é que se consegue criar uma abrangência tal para posições aparentemente antagónicas que se possam dizer ainda em comunhão e como é que se vai evitar que a comunhão se fragmente entre sectores que aceitam uma forma de doutrina ou uma forma de aplicar o entendimento do ministério sacerdotal e episcopal.

Vamos ter de esperar para ver qual é o homem providencial que a Igreja Anglicana vai escolher.

Qual é o Estado actual do diálogo ecuménico entre anglicanos e católicos, e que papel teve Rowan Williams nesse campo?
O diálogo ecuménico processa-se em diversos níveis. Um dos níveis é através da amizade e fraternidade entre diversas comunhões. A esse nível o Arcebispo Rowan Williams mostrou grande dignidade e mestria, inclusivamente quando o Vaticano anunciou a criação de um ordinariato para acolher anglicanos que quisessem entrar na Igreja Católica. Isso foi anunciado de uma forma pouco cuidada, poderíamos dizer, visto de fora, porque o Arcebispo de Cantuária nem sequer tinha sido devidamente avisado do anúncio, embora soubesse que havia algo a ser preparado. No entanto reagiu com grande dignidade e sem criar maiores atritos por causa dessa falta de cuidado.

Outro nível é doutrinal, nesse nível as igrejas Anglicana e Católica mais ou menos esgotaram os grandes temas doutrinais sobre os quais se debruçaram. Encontraram sintonia em todos eles, mas ficaram em suspenso novos problemas que surgiram entretanto, como a ordenação de mulheres e a questão de aceitar ou não os ministros que estivessem numa relação homossexual. Isso são questões que ferem a própria comunhão anglicana e sobre as quais não me parece haver qualquer possibilidade de diálogo com a Igreja Católica.

* O padre Peter Stilwell é responsável pelo diálogo ecuménico no Patriarcado de Lisboa. Como o nome indica, é filho de ingleses (católicos), mas nascido em Portugal. Por uma questão de transparência, acrescento que o padre Peter é meu tio.
Filipe d'Avillez

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Missionários convidam políticos a conhecer os sem-abrigo

Recentemente falámos do Ordinariato Pessoal que existe no Reino Unido para ex-anglicanos que aderiram ao Catolicismo. Pois foi anunciado esta semana que nos EUA vai ser criado um segundo ordinariato, que arranca dia 1 de Janeiro de 2012.

O Estado de Kerala, na Índia está a estudar uma lei que pune as famílias que têm mais de dois filhos. A Igreja Católica está na linha da frente da oposição a essa lei.

Os Missionários Claretianos querem que os políticos tomem um conhecimento mais próximo do problema dos sem-abrigo na área de Lisboa.

Notícia importante para quem gosta de fotografia! Abre hoje um concurso de fotografia que envolve a religião. O primeiro prémio é de 500 euros, o que nos dias que correm não é nada mau! Saibam mais detalhes aqui.

E por fim, no plano interno, o cónego João Aguiar, presidente do Conselho de Gerência da Renascença (e por isso meu chefe), foi nomeado director das comunicações sociais da Igreja, pelo que passa a ser chefe de outros também.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Uma missa extraordinária

Vídeos não editados de uma missa no Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora de Walsingham.

O Ordinariato Pessoal foi criado por ordem de Bento XVI para receber grupos de anglicanos que quisessem aderir à Igreja Católica mantendo aspectos do seu património litúrgico.

Estes vídeos foram filmados em Outubro de 2011 em Tunbridge Wells.


Procissão de entrada


Consagração

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