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Wednesday, 17 January 2024

O que há de religioso na tensão no Médio Oriente? (Quase) tudo

Guardas Revolucionários do Irão

Ao longo dos últimos dias assistimos à surpreendente notícia de que o Irão lançou ataques, incluindo com mísseis balísticos e drones, contra alvos no Iraque e no Paquistão.

Trata-se de uma escalada inesperada na situação no Médio Oriente e também extraordinariamente perigosa. Basta recordar que o Paquistão é uma potência nuclear, e o Irão, se não é ainda, para lá caminha.

O que é que se passa? E o que é que a religião tem a ver com o assunto? Como veremos, muito.

Xiitas v. Sunitas

O primeiro ponto tem a ver com a divisão entre sunitas e xiitas, os dois grandes ramos do Islão. Mundialmente os sunitas são a vasta maioria, com cerca de 90% da população, mas olhando mais especificamente para o Médio Oriente a coisa não é tão evidente. O Irão é a grande potência xiita, e tem um regime teocrático que usa a religião para se legitimar. Mas depois existem vários países na região que têm significativas minorias, ou até maiorias de xiitas.

Já os sunitas são maioria em quase todos os países do Médio Oriente, excepto o Irão, obviamente, e o Iraque. As grandes potências sunitas são por um lado a Arábia Saudita, e por outro – já fora do Médio Oriente, mas na fronteira e com o olhar cada vez voltado para leste, a Turquia.

As grandes rivalidades na região – excluindo para já Israel, mas já lá vamos – são entre países sunitas e xiitas, e por vezes entre forças dessas duas correntes do Islão dentro dos países, que agem a mando de potências externas. Assim, a Arábia Saudita está actualmente em conflito com os houthis, do Iémen, que são xiitas e agem sob ordens de Teerão, e a Turquia apoia os grupos rebeldes na Síria, que são na maioria sunitas e de tendência jihadista, enquanto o Governo da Síria é dominado pelos alauitas, que são um ramo do xiismo.

Até agora, apenas uma coisa parecia capaz de unir os dois ramos, o ódio a Israel e, por extensão, aos seus apoiantes ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos. Mas até isso parece estar agora em causa.

Uma aposta ganha de Israel?

Durante anos Israel tem sido o alvo preferido da retórica do Irão. Contudo, os dois países não partilham qualquer fronteira, por isso a coisa resumia-se quase só a isso, retórica. Entretanto o Hezbollah, a força xiita no Líbano, começou a atacar Israel e o Irão está prestes a tornar-se um país nuclear, o que apresenta um sério risco para Telavive. Pior, o Irão tornou-se um dos principais patrocinadores do Hamas, o grupo armado que domina a Faixa de Gaza, e terá mesmo ajudado a treinar, armar e financiar os ataques de Outubro que levaram à mais recente guerra.

Quando Israel ripostou contra o Hamas, invadindo Gaza numa operação que já causou dezenas de milhares de mortos e está a deixar o território praticamente inabitável, pensou-se que estava a cometer um erro estratégico, colocando todo o resto do Médio Oriente – e uma boa parte da opinião pública do ocidente – contra si. Contudo, aquilo a que estamos a assistir agora pode indicar uma aposta ganha por Israel, na medida em que a tensão entre xiitas e sunitas isola o Hamas, dependente do Irão, e isola o próprio Irão na região. Note-se que no seguimento da guerra em Gaza nenhum país sunita veio em auxílio do Hamas, mas pelo contrário houve dois atentados dentro do Irão promovidos por forças sunitas radicais, uma com sede em Idlib, na Síria, outra com sede no Paquistão. Foram alvos desses grupos, supostamente, que o Irão atacou.

Claro que isto levanta a pergunta: porque é que estes grupos atacaram o Irão precisamente nesta altura em que o estado xiita estava a usar os grupos que apoia e controla para atacar Israel e alvos ocidentais, através dos ataques a navios no Mar Vermelho? Terá havido algum encorajamento por parte desses governos ocidentais, ou de Israel, nesse sentido?

O que sabemos é que há dias a Arábia Saudita já veio dizer que poderá vir a reconhecer Israel, desde que o problema da Palestina seja resolvido. Parece uma condição impossível, mas os sauditas também não disseram o que consideram ser uma justa resolução, portanto está tudo em aberto. Esta aproximação de Ríade mostra claramente que os países sunitas estão a compreender que não é Israel que é o seu grande inimigo na região, pois não os ameaça directamente, e que já não têm a ganhar com os apelos à solidariedade muçulmana com a Palestina, uma vez que o Irão os ultrapassou pela direita e assumiu essa causa para si.

Os próximos tempos poderão, por isso, revelar um novo equilíbrio de poderes no Médio Oriente, com os países sunitas a aceitar tréguas e até colaboração com Israel, e por extensão com o mundo ocidental, face a uma ameaça comum.

E se o Irão “flipar”?

Uma das ironias em toda esta situação é que o Irão é, nalguns sentidos, um tigre de papel. Não quero de forma alguma subestimar a sua importância e a sua força, mas sim sublinhar que essa força está toda concentrada no topo de uma pirâmide que está a ficar com as bases corroídas.

Mulheres no Irão queimam hijabs
em protesto contra o regime 
Meio século de um regime fundamentalista e retrógrado em Teerão conseguiu o feito de virar uma grande parte da população contra essas mesmas ideias. Nas grandes cidades iranianas as pessoas não querem saber de religião, de xiismo e de rivalidades com os sunitas. Não obstante toda a sua conversa antiocidental, os iranianos comuns estão profundamente ocidentalizados e a sentir cada vez mais o peso da falta de liberdade a que estão sujeitos. O Irão é, por isso, um barril de pólvora que já foi posto à prova várias vezes, mas que mais dia, menos dia, pode mesmo explodir e ver desaparecer o regime dos ayatollahs, sendo estes substituídos por uma nova realidade muito mais ocidentalizada, que recupera o lugar que o Irão já ocupou no mundo, em termos de cultura e de desenvolvimento. Mas isso ainda não aconteceu, nem se sabe se vai acontecer, por isso os ayatollahs ainda lá estão e são eles que estão quase a obter armas nucleares.

E por fim a Rússia

Claro que a Rússia também é para aqui chamada. Moscovo tem sido o grande aliado internacional do Irão. Juntos combateram na Síria e na Líbia e há muitos que acreditam, como eu, que o ataque do Hamas teve dedo de Moscovo, precisamente para provocar uma resposta israelita e levar os americanos a dividir com Israel o apoio militar que têm dado a Kiev.

Aqui, claro, não é qualquer solidariedade religiosa que está em causa, mas apenas uma solidariedade de autocracias, até porque a muito significativa população muçulmana da Federação Russa é de maioria sunita. Mas se a situação no Médio Oriente deixar de ser uma guerra de procuração com rebeldes submissos a Teerão a lançar mísseis contra bases americanas e navios internacionais, tornando-se em vez disso uma guerra aberta entre estados, então a Rússia só tem a perder, porque o precioso apoio militar que tem recebido do Irão provavelmente vai cessar. Aos russos e aos iranianos interessa, por isso, ir longe, mas não longe de mais. E esse é sempre um jogo muito perigoso de se jogar.

Friday, 15 September 2023

Português dirige "revista do Papa" e Setúbal continua sem bispo

Um dos temas das últimas semanas é o facto de os ucranianos, e mais especificamente os bispos católicos ucranianos, terem-se manifestado desgastados com as palavras e os gestos de Francisco sobre a guerra na Ucrânia. Este é um assunto sensível. Neste texto explico que os ucranianos têm algumas razões de queixa, mas que, bem vistas as coisas, as acusações de que Francisco é de alguma forma russófilo no que diz respeito a esta guerra são profundamente injustas, e não resistem a um escrutínio cuidadoso.

A semana passada dei-vos a feliz notícia da libertação, na Nigéria, de um padre e um seminarista que tinham sido raptados. Hoje, infelizmente, trago-vos a triste notícia da morte de mais um seminarista naquele país (na foto). Na’aman Danlami morreu carbonizado quando a casa paroquial em que estava foi atacada e incendiada. Dois padres que estavam na mesma casa conseguiram escapar com vida. Rezem pela Nigéria, para que o pesadelo termine.

E rezem também pelo Sudão do Sul. O apelo é da missionária portuguesa Beta Almendra.

De Roma chega a notícia de mais uma nomeação de um português para um cargo importante. O jesuíta Nuno Gonçalves, que chegou a ser sugerido como possível Patriarca de Lisboa, é a partir de agora director da revista Civiltà Cattolica. Recordo que a Civiltà Cattolica não é “apenas” uma revista dos jesuítas italianos. Cada edição é revista pessoalmente pelo Papa antes de ser publicada e é onde aparecem sempre publicadas as conversas do Papa com os jesuítas quando viaja. É, por isso, um órgão muito importante para se ir tomando o pulso ao pontificado.

O Papa está solidário com as vítimas dos desastres naturais que ocorreram em Marrocos e na Líbia.

O Bispo de Coimbra anunciou um sínodo para os jovens e o bispo de Angra diz que é preciso lutar contra a religião de sofá e de pijama. Quem não anunciou nada foi o bispo de Setúbal, isto porque Setúbal está sem bispo desde 28 de janeiro de 2022. São 595 dias de efectiva orfandade naquela diocese. É grave. Entretanto ouvi uns “zunzuns” de que a situação poderá ficar resolvida até ao fim do mês. Rezemos que sim!

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que o padre Charles Fink, no seu primeiro texto neste site, fala de preconceito, racismo e tolerância cristã, recorrendo às memórias do seu avô e à sua própria experiência como militar na guerra do Vietname.

Thursday, 14 September 2023

O Papa e a Ucrânia: uma sucessão de falhas de comunicação e interpretações mal-intencionadas?

Um dos aspectos mais curiosos e inesperados da guerra na Ucrânia é o facto de o Papa Francisco estar a ser visto por muitos como sendo de alguma forma pró-russo, ou pelo menos russófilo.

Porque é que isto tem acontecido, e será justa a sugestão?

Recentemente os bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana estiveram em Roma para o seu sínodo, e encontraram-se com o Papa, tendo o seu líder, o arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, aproveitado a ocasião para dizer francamente a Francisco que o seu povo está magoado com ele.

O último incidente foi a mensagem por vídeo que o Papa fez aos jovens católicos da Rússia, em que apelou que estes sejam fiéis à herança intelectual e espiritual dos seus antepassados, referindo como exemplos figuras históricas da Rússia como Pedro o Grande e Catarina II. Os ucranianos sentiram-se ofendidos com essas palavras, recordando que esses imperadores cometeram crimes contra vários povos, incluindo os ucranianos. (As palavras polémicas foram ditas de improviso, no final do discurso, e não aparecem no discurso oficial publicado no site do Vaticano.)

Mas este foi apenas mais um caso. Antes tinha havido dois episódios nas vias sacras de Roma, na Sexta-feira Santa, em que o Vaticano pediu a russos e ucranianos para carregarem a cruz juntos. No primeiro caso eram duas mães, uma de cada nação, e no segundo eram duas crianças que tinham perdido os pais na guerra, um de cada lado. Em ambas as situações os ucranianos ficaram lívidos, acusando o Vaticano de estar a equiparar o sofrimento e a condição das vítimas e dos agressores.

Tivemos ainda a ocasião em que o Papa pareceu dar a entender que a Rússia tinha sido provocada pela aproximação da NATO às suas fronteiras.

Sejamos claros, há aqui sérias falhas de comunicação por parte do Vaticano, e mais especificamente do Papa. Referir Pedro e Catarina era desnecessário e o próprio Francisco lamentou-o no final da sua viagem à Mongólia; e depois de no primeiro ano a ideia da Via Sacra ter caído tão mal na Ucrânia – foi a primeira vez em mais de uma década que a televisão católica ucraniana não a transmitiu em directo – é incompreensível que o tenham feito outra vez no ano seguinte. Pior, sei que queriam repetir o gesto na JMJ, mas a organização portuguesa conseguiu evitá-lo.

Mas estamos também perante um problema de interpretação. Há muito de subjectivo na forma como interpretamos palavras, ou até falhas de comunicação. É sempre possível fazê-lo pela pior lente possível, e parece ser isso o que se está a passar aqui.

O Papa Francisco não é militar, nem é apenas o Papa dos ucranianos, apesar de haver mais católicos na Ucrânia do que na Rússia. Ele é o Papa, ponto final, e a sua obrigação é pugnar pela justiça, sim, e pela paz, certamente, mas não pode, em prol disso, sacrificar as relações com toda uma nação, sobretudo uma nação como a Rússia que, por mais que esteja corrompida a sua chefia, tem uma das Igrejas ortodoxas mais importantes do mundo.

Isso significa que sempre que Francisco age neste campo ele está a levar a cabo uma operação de equilibrismo complexa, em várias frentes. É importante que a guerra acabe, mas a guerra deve acabar sem uma paz justa que devolva à Ucrânia todo o seu território e, já agora, as centenas de milhares de crianças que os russos raptaram? E defender explicitamente essa vitória total não é, de certa forma, defener o prolongar da guerra e, por conseguinte, mais mortes? É importante denunciar o agressor nesta guerra, mas como fazê-lo sem virar a Rússia ainda mais contra o ocidente e contra a Igreja Católica do que já está?

O risco do equilibrismo é que inevitavelmente pode-se cair. E Francisco, ou a diplomacia da Santa Sé, já teve umas quedas, mas só cai quem lá está e a Igreja está lá porque quer mesmo, sinceramente, ver alcançada a paz na Ucrânia.

Para muitos ucranianos, contudo, e incluindo os líderes religiosos, tudo o que não seja a defesa incontestada de uma vitória ucraniana a todos os níveis é visto como uma facada nas costas. E isso explica as reacções negativas por parte de muitos ucranianos. Não me entendam mal… Acho que isto é completamente compreensível, e simpatizo. Mas o papel do Papa não é ser cheerleader para a Ucrânia nesta guerra, até porque se o fizer perde qualquer margem de manobra junto da Rússia, e já vimos que o Papa tem conseguido alguns sucessos nesse campo, nomeadamente a nível de trocas de prisioneiros.

Mas parece-me evidente que chegámos ao ponto em que muito ucranianos já perderam a tolerância e por isso interpretam sempre da pior forma possível tudo o que Francisco diz sobre este assunto. Vejamos a tal mensagem que ele proferiu aos jovens católicos russos, recordando que está a falar com pessoas que estão na Rússia, a viver debaixo do regime de Putin. “Desejo-vos, jovens russos, a vocação de serdes artífices da paz no meio de tantos conflitos, no meio de tantas polarizações de todos os lados, que assolam o nosso mundo. Convido-vos a ser semeadores, a lançar sementes de reconciliação, pequenas sementes que, neste inverno de guerra, não brotarão, entretanto, no solo gelado, mas florescerão numa futura primavera.”

Isto são palavras de coragem, é um desafio que embora não referindo especificamente a guerra da Ucrânia, foi claramente compreendida como tal pelos ouvintes. Mas no meio disto, tudo o que ficou para os críticos foi o elogio à herança russa e uma referência, mal pensada é certo, aos imperadores Catarina e Pedro.

Para mim todos estes ataques ao Papa parecem particularmente injustos uma vez que eu tive o trabalho meticuloso e muito desgastante de acompanhar todas as intervenções feitas sobre a guerra na Ucrânia por líderes religiosos significativos. Só o fiz durante o primeiro ano da guerra, mas foi tempo suficiente para perceber que Francisco foi, mas de longe, o líder religioso não-ucraniano que mais falou da Ucrânia. Só o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia o superou, e isso é porque ele publicava uma mensagem diária para os seus conterrâneos. Francisco falou um total de 126 vezes sobre a Ucrânia em 365 dias.

Mas não foi só falar. O Papa condenou a guerra, tendo sido dos primeiros líderes mundiais a dizer explicitamente que se tratava de uma guerra e não de uma “operação militar”; nunca hesitou em dizer que a Rússia é que era a responsável pela mesma e que a Ucrânia e os ucranianos eram e são as vítimas; rompeu com o protocolo e foi pessoalmente à embaixada da Rússia no Vaticano para pedir justificações aquando da invasão; enviou representantes para os locais de massacres e matanças; recebeu e beijou bandeiras ucranianas, vindas desses mesmos locais de massacres; apelidou os ucranianos de “corajosos”, “atormentados”, “sofredores” e “mártires”; chamou ao Patriarca de Moscovo acólito de Putin… A lista é enorme.

Quem acompanha o que o Papa escreve e diz, e não apenas as polémicas que de vez em quando surgem quando diz a coisa errada, não pode se não concluir que Francisco está firmemente do lado do povo ucraniano e que deseja o melhor para ele. Que os ucranianos, que tanto sofrem, sintam que isso não basta, porque queriam era ver o Papa a lançar anátemas sobre toda a Rússia e a apelar a uma vitória militar, é compreensível, mas que pessoas de fora, e boa parte da imprensa, alinhem nessa imagem distorcida é perfeitamente injusto.

Wednesday, 19 April 2023

O Catolicismo Bizantino e a Luta pela Ucrânia

Robert W. Shaffen

O apoio dos americanos à resistência ucraniana à invasão de 24 de Fevereiro de 2022 parece estar a esmorecer. Embora a Administração de Biden não tenha feito qualquer promessa de envio de soldados americanos para a Ucrânia, muitos comentadores e candidatos políticos supostamente conservadores têm criticado o que consideram ser um compromisso aberto para com a causa ucraniana e o envio continuado de carregamentos de sistemas de armas americanos e munições para o exército ucraniano. Entretanto há factores tácticos, estratégicos e espirituais em jogo, como a existência do Catolicismo Oriental.

Os críticos dão muitas razões para descontinuar o apoio militar americano. Em primeiro lugar, argumentam, a Ucrânia não é uma democracia comparável à dos Estados Unidos. O seu Governo é corrupto, e por isso não merecedor do apoio americano. Em segundo lugar, as contribuições de armas e de munições enfraquecem a capacidade dos Estados Unidos se defenderem em caso de um ataque inimigo. Em terceiro lugar, alguns comentadores, como Sohrab Ahmari, acreditam que o preço do apoio americano será a introdução na Ucrânia do liberalismo ocidental, com a consequente corrupção moral e cultural da sociedade.

Outras personalidades, como Michael Brendan Dougherty, da National Review, temem que a América seja arrastada para o conflito nuclear que conseguiu, com tanto esforço, evitar durante a Guerra Fria do século XX. Outro grupo preocupa-se com o facto de o envio de armas estar a encorajar a China a tomar de assalto o Taiwan e, finalmente, há aqueles que, como J. D. Vance e Matt Walsh, simplesmente acham que os americanos não têm nada que se meter na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Do lado contrário, os defensores do apoio à Ucrânia invocam a contenção da Rússia, que voltou a revelar a brutalidade pela qual tem sido responsável incontáveis vezes ao longo da história. O compromisso americano para com os direitos humanos exige que o poder dos Estados Unidos seja colocado ao dispor daqueles que resistem a agressões injustas – algo semelhante ao programa Lend-Lease de FDR para um Reino Unido isolado durante a II Guerra Mundial. Desta perspectiva os Estados Unidos devem procurar estar activamente do lado da conduta civilizada.

Mas há outro factor que devemos ter em consideração. É que o combate ucraniano também envolve a segurança da Igreja Católica na Europa de Leste. O destino das Igrejas Católicas de rito latino e oriental dependem do resultado da guerra. Por um lado, se a Ucrânia colapsar completamente, a história sugere que a Rússia voltará a suprimir a Igreja Católica Bizantina, que forma a maioria nas zonas ocidentais da Ucrânia (tendo Lviv como sua “capital”).

A Ucrânia foi originalmente evangelizada por gregos, pelo que os ucranianos adoptaram a teologia e a liturgia do Cristianismo oriental no século X. A queda de Constantinopla para os turcos em 1453 minou a influência e a autoridade do respectivo patriarca, e as subsequentes negociações entre os papas e os ucranianos conduziram à reunificação das igrejas. Os ucranianos mantiveram as suas tradições, mas submeteram-se à autoridade do Papa.

Ratificada a União de Brest-Litovsk, em 1596, passou a existir a Igreja Greco-Católica Ucraniana, ao abrigo do Reino Unido da Polónia e da Lituânia. Desde então os ucranianos formam a maior das igrejas católicas de rito oriental.

Historicamente a Rússia sempre alimentou o ódio ao Catolicismo Bizantino e a sua perseguição. Os russos desprezavam a obediência bizantina a Roma, que associavam ao inimigo Católico Romano Polaco. Os moscovitas consideravam os católicos bizantinos traidores. Quando a Rússia imperial avançou para ocidente e para sul, no século XVIII, as igrejas greco-católicas foram destruídas ou expropriadas e os seus padres enviados para as prisões do Czar, na Sibéria.

Quando Catarina a Grande estendeu as fronteiras imperais da Rússia através da conquista e da repartição, pressionou os católicos bizantinos a submeterem-se à Ortodoxia. Os padres católicos que desafiassem a Czarina eram deportados e substituídos por clero Ortodoxo Russo. O Catolicismo foi forçado à clandestinidade no Império Russo, embora a Igreja tenha sobrevivido e prosperado nos territórios mais pequenos da Ucrânia ocidental que ficaram sob o domínio da Áustria dos Habsburgos, que eram católicos.

Mas o pior estava para vir com o restabelecimento do controlo da martirizada República da Ucrânia por parte da União Soviética, depois do fim da Guerra Civil da Rússia, em 1922. Os bolcheviques perseguiram impiedosamente o Catolicismo Bizantino, levando-o novamente à clandestinidade, e enviaram muitos padres para os gulags. 

Não se pode esperar que seja o antigo agente da KGB, Vladimir Putin, a estender a mão aos católicos bizantinos da Ucrânia. Ele já está a deportar os ucranianos de leste e jamais reconheceria uma religião cujos fiéis aceitam a autoridade do bispo de Roma. O domínio russo da Ucrânia seria catastrófico para o catolicismo bizantino.

Essa ameaça foi sublinhada no início da guerra pelos mais importantes hierarcas da Igreja Greco-Católica da Ucrânia. O Arcebispo Maior Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja, expressou o seu medo pelo futuro da mesma. Fez notar que alguns padres católicos já foram submetidos a torturas e afirmou que concessões territoriais à Rússia enfraqueceriam fatalmente o seu país.

Mais ou menos ao mesmo tempo o Arcebispo Metropolita da Arquieparquia Greco-Católica Ucraniana de Filadélfia afirmou que “esta batalha é, simplesmente, sobre se a Ucrânia aceita ser uma colónia e se os ucranianos aceitam ser submetidos”. Depois de mais um ano de guerra o povo ucraniano – católicos e ortodoxos – já deram uma resposta convincente.

O sucesso militar da Rússia também constitui uma ameaça para a segurança do Catolicismo de rito latino. Uma Ucrânia dominada pela Rússia aumentaria a fronteira entre a Polónia e o seu antigo inimigo. A ameaça à Lituânia também cresceria muito. Uma vez que ambos estes países são aliados formais dos Estados Unidos (ao contrário da Ucrânia) as Forças Armadas americanas estão obrigadas por tratado a socorrê-los em caso de guerra.

A Administração de Biden descartou a possibilidade de uma invasão russa até que esta aconteceu. A equipa de Biden disse que seria uma loucura Putin iniciar uma grande guerra na Europa, como se não houvesse contributos históricos de loucos para aquilo a que Churchill chamou “o longo e lamentável catálogo de crime humano”.

Mas a Rússia invadiu na mesma. Um ataque contra a Polónia ou a Lituânia seria uma loucura ainda maior. Mas alguém se atreve a contar com a racionalidade de Putin?


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 13 de Abril de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 6 April 2023

A Fé na linha da frente na Ucrânia - Reportagens de José Pedro Frazão

O meu bom amigo e colega dos tempos da Renascença tem estado na Ucrânia, onde fez uma série de reportagens sobre a fé vivida na linha da frente. 

Mandou-me algumas destas reportagens há várias semanas, mas foi no auge do caso dos abusos, e por isso não lhes pude ler nem dar a atenção que merecem. Agora publicou mais algumas.

Agora junto-os aqui para poderem ler. Leiam mesmo, nem que seja um por dia, durante estes dias do Tríduo Pascal. E rezem por estas pessoas que estão a viver uma Via Sacra que dura há vários anos, mas com maior intensidade desde Fevereiro do ano passado. 

E que Deus lhes dê a sua paz. 

A última missão do padre Viktor em Bakhmut - O testemunho de um padre católico de rito latino que já esteve preso por forças pró-russas e que é o pároco da cidade que tem acolhido as piores batalhas dos últimos meses no Leste da Ucrânia. 

Conheçam o Serguii, sacristão da Igreja Católica de rito latino em Kherson, que não tem medo das bombas. "Pego no meu terço e vou onde tenho de ir". 

E leiam aqui as palavras de um bispo ucraniano católico que fala da importância de não deixar que o ódio tome conta dos corações dos fiéis.

Aqui podem ler uma entrevista com um conselheiro do Presidente Zelensky, que explica que a Ucrânia conta muito com a "sabedoria" do Papa Francisco neste conflito. 

Zhaporizhzhia tem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e um receio, de tornar-se uma nova Mariupol.

Kharkiv, onde o pão se reparte no intervalo das bombas.

Guerra não se resolve apenas com perdão, e não será fácil para nós nem para os russos. Entrevista com o responsável da Cáritas na Ucrânia. 

Friday, 16 September 2022

Papa no Cazaquistão, entre sincretismos, guerras regionais e amuos

O Papa está no Cazaquistão. Esta é uma viagem importante por uma série de razões. Neste texto de análise falo do equilíbrio difícil que é para um Papa participar num encontro inter-religioso, sem cair em sincretismos e relativismos; da importância de o Papa falar de paz naquela região em específico, e por fim de como esta viagem afecta as relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa.

Ainda sobre este assunto, recomendo a entrevista do principal bispo do Cazaquistão, que considera que o encontro em que o Papa participa tem as suas raízes nos encontros de Assis, iniciados pelo Papa João Paulo II.

Quando mandei o mail da semana passada ainda não tinha sido confirmada a morte de Isabel II, de Inglaterra. Hoje partilho convosco os artigos que escrevi para a Rádio Renascença sobre ela, a sua vida e o seu reinado. Estes foram dos últimos trabalhos que fiz para a Renascença antes de sair.

Morreu Isabel II, a Rainha da força tranquila que marcou uma era

Isabel II em números

Isabel II – O “annus horribilis” de 1992

Isabel II – Dez frases que marcaram 70 anos de reinado

Morreu Isabel II. 42 voltas ao mundo e duas visitas a Portugal

Esta quinta-feira termina na Síria uma importante peregrinação que visa recordar os cristãos que morreram durante a infindável guerra civil. Saiba mais sobre o ícone de Nossa Senhora das Dores, Consoladora dos Sírios.

“Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”.

Há mandamento mais universalmente ignorado pelos cristãos? No artigo desta semana do The Catholic Thing, Michael Pakaluk ajuda a aplicar esta passagem aos nossos dias, com um piscar de olho às Famílias Numerosas!

E recupero ainda um dos artigos do The Catholic Thing publicado durante as férias, que muito gosto me deu traduzir. Elizabeth A. Mitchell escreve sobre uma das mulheres mais impressionantes do Século XX, a Santa Edite Stein. Leiam que vale bem a pena.

Por fim, continuo a coligir as declarações dos líderes religiosos relevantes sobre a guerra na Ucrânia. Com as coisas a piorar para os russos, as declarações do Patriarca de Moscovo parecem cada vez mais desligadas da realidade. Vejam por vocês mesmos. A análise mais detalhada das suas últimas declarações está aqui e aqui. Sugiro darem também uma vista de olhos à leitura feita pelo líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia à história do martírio de São João Baptista, e aqui podem ler a análise às mais recentes declarações de Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Thursday, 15 September 2022

Francisco a ser Papa no Cazaquistão

O Papa está no Cazaquistão. Engane-se quem pensa que esta é apenas mais uma viagem apostólica, é muito mais que isso. Neste texto pretendo falar brevemente da dificuldade de navegar entre o diálogo religioso e o sincretismo, da importância contextual dos apelos do Papa à paz, e à questão da relação com a Igreja Ortodoxa Russa.

Diálogo sem sincretismo

Francisco está na capital do Cazaquistão, uma ex-república da União Soviética gigante que, curiosamente, tem investido muito em promover o diálogo inter-religioso ao longo das últimas décadas.

Os cristãos são uma minoria de 25% no país, e católicos são apenas 1%, na grande maioria membros de outros grupos étnicos, desde polacos a coreanos. A história da Igreja no país também é curiosa, uma vez que muitos dos católicos descendem de pessoas que foram deportadas para a região durante as perseguições na União Soviética. No Cazaquistão havia 11 campos de concentração, parte do sistema Gulag.

A relação da Igreja Católica com o diálogo inter-religioso é complexa. Durante séculos a atitude era de que esta é a Igreja fundada por Deus, quem quiser pode entrar, mas não há mais nada para discutir. O Concílio Vaticano II cristalizou uma mudança gradual de posição, tanto ao nível ecuménico como de diálogo inter-religioso, e Roma passou a interessar-se no diálogo. Em 1986 o Papa João Paulo II iniciou os encontros inter-religiosos de Assis, para rezar pela paz. Foi muito criticado por isso, com os seus adversários a dizer que os encontros promoviam o sincretismo e o relativismo, mas ele persistiu, tentando sempre deixar claro que juntar pessoas crentes para suplicar a Deus pela paz é diferente de dizer que essas crenças são todas igualmente válidas, ou que as diferenças não interessam.

Estes encontros no Cazaquistão surgem desse mesmo espírito de Assis. Quem o diz é o bispo de Almaty, no Cazaquistão, que é espanhol e foi entrevistado recentemente pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Mas os críticos não desarmam e continuam a levantar o fantasma do relativismo.

Francisco está, por isso, em terreno difícil no Cazaquistão, mas no seu discurso ao Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais não desiludiu e falou precisamente como Papa que é. Encorajou a colaboração inter-religiosa pela paz, condenou a utilização da religião para justificar a guerra e criticou, usando mesmo esse termo, o sincretismo. Foi um bom discurso, pleno de referências locais, que pode ser lido aqui. Deixo-vos com uma das principais citações:

Queridos irmãos e irmãs, avancemos juntos, para que seja cada vez mais amistoso o caminho das religiões. (…) O Altíssimo liberte-nos das sombras da suspeita e da falsidade; conceda-nos cultivar amizades ensolaradas e fraternas, através do diálogo frequente e da sinceridade luminosa das intenções. E desejo agradecer aqui o esforço do Cazaquistão neste ponto: sempre procura unir, sempre procura incentivar o diálogo, sempre procura construir a amizade. Isto é um exemplo que o Cazaquistão dá a todos nós e devemos segui-lo, apoiá-lo. Não procuremos falsos sincretismos conciliatórios – não servem –, mas guardemos as nossas identidades abertas à coragem da alteridade, ao encontro fraterno. Só assim, por este caminho, nos tempos sombrios que vivemos, poderemos irradiar a luz do nosso Criador.

Falar de paz numa região de guerra

É certo que Francisco fala muito de paz, e que tem falado sobretudo muito da guerra na Ucrânia. Podem ver aqui a extensa lista das declarações sobre o assunto que tem feito nos últimos meses, desde que a Rússia invadiu o país vizinho. Mas é preciso ter em conta o contexto em que o faz agora, no Cazaquistão. Aqui Francisco está ao lado da Rússia, na sua esfera de influência, e as suas palavras têm mais peso.

Mas é preciso ter também em conta que não é apenas a na Ucrânia que soam as armas neste momento. Sem sair da zona da ex-União Soviética, temos tido também problemas nos últimos dias, com tiros e mortos, na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão e, com uma gravidade muito maior, temos assistido a uma tentativa de invasão da Arménia por parte do Azerbaijão. Este último caso era previsível, infelizmente, e escrevi sobre ele exatamente quando a guerra na Ucrânia começou. Preferia ter-me enganado. Os problemas entre o Azerbaijão e a Arménia são mais graves ainda na medida em que o primeiro é muçulmano e o segundo cristão. O conflito é territorial, não religioso, mas existe sempre o risco agravado de adquirir também uma dimensão religiosa e espalhar-se, por isso, a países vizinhos. Esperemos que não.

É aqui, nesta região unida por um passado de forte perseguição às religiões e que se debate ainda com um pesado legado comunista, que Francisco vem falar de paz. E em boa hora o faz.

Diálogo com os russos

Uma dimensão muito importante desta visita é a do diálogo com a Igreja Ortodoxa da Rússia. Já escrevi e falei várias vezes sobre o período difícil que a Igreja Russa atravessa, travando uma luta pelo poder no interior da comunhão de Igrejas Ortodoxas e ao mesmo tempo tentando sobreviver a uma relação demasiado estreita com o poder político em Moscovo.

O Patriarca Cirilo, de Moscovo, quis afirmar-se como o grande representante da ortodoxia no mundo, em oposição a Bartolomeu de Constantinopla, mas acabou, pela sua proximidade a Vladimir Putin, por se tornar um pária aos olhos do mundo religiosos. Tenho comentado, nas minhas mais recentes análises às suas declarações, que já nem se percebe se as suas palavras são para ser levadas a sério, se são críticas (muito) dissimuladas ao regime de Putin, ou se simplesmente perdeu toda a noção. Só na última semana lamentou o facto de o mundo estar a sofrer por causa dos ditadores que espalham o conflito e elogiou a Rússia por não cometer crimes de guerra, algo que se deve ao facto de ter um historial de líderes ortodoxos crentes. E não nos esqueçamos da vez em que se regozijou no facto de a Rússia, apesar de ser um país muito poderoso, nunca ter atacado ninguém. E sim, disse-o já depois da invasão da Ucrânia.

O facto é que Cirilo está quase totalmente isolado e ninguém parece disposto a falar com ele, excepto o Papa Francisco. Há até quem considere que Francisco está a ser ingénuo quando diz que quer falar com Cirilo, mas o Papa parece entender que por mais que esteja a atravessar, digamos, um mau momento, a Igreja Russa não deixa de ser uma grande denominação cristã e que não se deve desistir, por isso, desse diálogo. Aliás, no seu discurso à chegada ao Cazaquistão disse: “Precisamos de líderes que, a nível internacional, permitam aos povos compreenderem-se e dialogarem, e gerem um novo ‘espírito de Helsínquia’, a vontade de reforçar o multilateralismo, de construir um mundo mais estável e pacífico pensando nas novas gerações. E, para fazer isto, é preciso compreensão, paciência e diálogo com todos. Repito: com todos.”

Mais uma vez, porém, Cirilo perdeu a oportunidade de se agarrar a esta mão estendida. Se tivesse ido ao Cazaquistão, como estava inicialmente combinado, teria conseguido tornar-se o centro do evento e o seu encontro com o Papa Francisco seria o ponto alto do congresso, em termos mediáticos. Mas temendo ser alvo de críticas, refugiou-se novamente no seu palácio de cristal em Moscovo e tornou ainda mais pertinentes as palavras do Papa que muitos acreditam terem sido ditas com ele em mente.

Se o Criador, a quem dedicamos a existência, deu origem à vida humana, como podemos nós – que nos professamos crentes – consentir que a mesma seja destruída? E como podemos pensar que os homens do nosso tempo – muitos dos quais vivem como se Deus não existisse – estejam motivados para se comprometer num diálogo respeitoso e responsável, se as grandes religiões, que constituem a alma de tantas culturas e tradições, não se empenham ativamente pela paz?

Irmãos e irmãs, purifiquemo-nos, pois, da presunção de nos sentir justos e de não ter nada a aprender dos outros; libertemo-nos das conceções redutoras e ruinosas que ofendem o nome de Deus com rigidezes, extremismos e fundamentalismos, e o profanam por meio do ódio, do fanatismo e do terrorismo, desfigurando inclusive a imagem do homem. (…) Nunca justifiquemos a violência. Não permitamos que o sagrado seja instrumentalizado por aquilo que é profano. O sagrado não seja suporte do poder, e o poder não se valha de suportes de sacralidade! Deus é paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra.

Mais uma vez, belas palavras. Haja quem as oiça e as ponha em prática!

Thursday, 5 May 2022

Ver Deus na Guerra?

 Amanhã estarei em Santarém com o meu bom amigo Pe. Tiago Fonseca para falar numa conferência das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. 

O tema é "Ver Deus na Guerra" e promete ser muito interessante! 

A conferência é seguida de jantar e o objectivo é angariar fundos para os jovens poderem participar no Encontro Internacional das EJNS. 

Enquanto ex-responsável internacional deste movimento é sempre uma enorme alegria participar em qualquer evento organizado por eles! Espero que muitos queiram também participar!



Thursday, 21 April 2022

Francisco sobre Ucrânia e Ucrânia sobre Francisco, Aleluia, Aleluia!

É justo pôr em causa a posição de Francisco sobre a guerra na Ucrânia? O facto de ele não se ter referido diretamente à Rússia, nem a Putin, significa que não condena a invasão? Porque é que nos últimos dias ele tem sido criticado por alguns líderes católicos da Ucrânia? E o que é que tudo isto tem a ver com as duas senhoras que seguram na cruz nesta foto?

São questões importantes, que analiso aqui, da forma mais simples possível, e que vos aconselho a ler.

Espero que tenham tido todos uma Santa Páscoa! Não se esqueçam que na Ucrânia ainda estão nas vésperas da Sexta-feira Santa. E não é uma metáfora… Estão mesmo. Em todo o caso, este ano, como é sua tradição, o The Catholic Thing publicou no Domingo de Páscoa um texto de uma grande figura católica. Tinham saudades de ler coisas de João Paulo II? Também eu. Esta sua bênção Urbi et Orbi de Domingo de Páscoa de 2001 é uma beleza.

Se ainda não ouviu o podcast Hospital de Campanha da semana passada, aproveite para o fazer agora. Eu e a Inês Dias da Silva conversámos com uma voluntária que esteve na linha da frente no acolhimento a refugiados na Polónia e falámos das virtudes, mas também das fraquezas, deste esforço colectivo.

Depois de vários dias sem o poder fazer, voltei a juntar uma batelada de textos ao post onde tenho recolhido declarações de líderes religiosos sobre a guerra na Ucrânia. Nomeadamente do Papa Francisco, de Sviatoslav Shevchuk, do metropolita Epifânio e uma interessantíssima entrevista dada pelo grão-mufti da Ucrânia, em que explica porque razão grande parte do mundo árabe está no bolso de Moscovo.

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Nos últimos dias têm surgido alguns sinais de desagrado da parte de figuras religiosas ucranianas, nomeadamente da Igreja Católica, em relação ao Papa Francisco e ao Vaticano.

Há duas grandes razões para esse desagrado:

   1. O facto de Francisco continuar a insistir em manter os planos para se encontrar com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, apesar de este teimar em manter a ligação a Vladimir Putin, de falar da guerra na Ucrânia como se tratasse de uma guerra santa e benzer as forças armadas que partem para a Ucrânia para matar ucranianos e ocupar o seu país.

2.   O facto de o Vaticano ter planeado colocar duas famílias – uma russa e uma ucraniana – a carregar juntas a cruz na décima terceira estação da Via Sacra na Sexta-feira Santa.

Acresce que alguns lamentam o facto de Francisco nunca ter referido pelo nome Vladimir Putin, nem a Rússia, nas suas condenações da guerra.

Alguns destes protestos são compreensíveis, outros nem tanto. Mas o que não é aceitável é concluir que Francisco tem uma posição dúbia sobre esta guerra, nem sobre quem é culpado pela tragédia que se está a desenrolar na Ucrânia.

Aqui no blog tenho juntado todas as declarações dos principais líderes religiosos relevantes sobre esta guerra, desde o seu início. Pelas minhas contas, para além do líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que divulga todos os dias uma mensagem de vídeo sobre a situação, e do líder da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia, o Papa Francisco é o que mais se tem expressado sobre o conflito. Eu conto 17 pronunciamentos públicos, para além de quatro gestos significativos: a ida em pessoa à embaixada da Rússia na Santa Sé, o telefonema a Zelensky, o telefonema ao líder da Igreja Greco-Católica e a conversa por videoconferência com o Patriarca de Moscovo.

Mas mais importante que a quantidade é mesmo o conteúdo das declarações do Papa.

·       Francisco começou logo por dizer, no dia 6 de Março, que esta é uma guerra, desmentindo assim linha oficial de Moscovo de que se trata de uma “operação militar especial”.

·      Antes, a 27 de Fevereiro, quarto dia da guerra, referiu-se ao “povo sofredor da Ucrânia” e disse estar de “coração partido” com o que se está a passar.

·   No já referido dia 6 anunciou ainda o envio de dois cardeais para a Ucrânia, em sua representação.

·       No dia 13 de Março pediu que se pusesse fim ao “massacre” de Mariupol e referiu a “barbárie” da matança de crianças. Nesse mesmo dia publicou uma oração especial pelo fim da guerra na Ucrânia em que identifica Cristo com os bebés que nascem debaixo de bombas em Kiev e com as crianças que morrem nos braços das suas mães em Kharkiv, pedindo a Deus que “trave a mão de Caim”, que aqui é claramente identificado com a Rússia.

·     No dia 15 de Março classificou o ataque à Ucrânia como um “abuso perverso do poder e dos interesses partidários”.

·     No dia 20 de Março referiu-se à guerra como uma “agressão violenta contra a Ucrânia” e um “massacre sem sentido”, falando de matanças e atrocidades. Disse ainda que a guerra é desumana e foi mais longe, apelidando-a de “sacrilégio”, no que pode ser entendido com uma resposta aos que a consideraram uma guerra santa.

·     No dia 2 de Abril, em Malta, disse: “Mais uma vez alguma potência, tristemente apanhada em reivindicações anacrónicas de interesse nacional, está a provocar e fomentar conflito”. No mesmo discurso classificou a pretensão russa de invadir a Ucrânia de “infantil” e disse que “essa criancice, infelizmente, não desapareceu. Reemergiu com força nas seduções da autocracia, novas formas de imperialismo, agressividade em larga escala”.

·      No dia 3 de Abril, ainda em Malta, falou na “guerra injusta e selvagem” na Ucrânia e mais tarde, nesse mesmo dia, voltou a dizer que esta guerra, em particular, é um “sacrilégio”.

·     No dia 6 de Abril referiu-se ao massacre em Bucha, um massacre que os russos dizem que nunca aconteceu, e exibiu publicamente uma bandeira da Ucrânia vinda precisamente dessa cidade.

·     No dia 10 de Abril referiu-se aos “odiosos massacres e cruéis atrocidades levadas a cabo contra civis indefesos”.

·      No sermão de Domingo de Ramos, também no dia 10 de Abril, disse que na guerra Cristo volta a ser crucificado.

·      No dia 13 de Abril disse que esta guerra “é um ultraje contra Deus, uma traição blasfema da Ceia do Senhor, uma preferência pelo falso Deus deste mundo”.

·      E finalmente, na bênção Urbi et Orbi, no dia 17 de Abril, Domingo de Páscoa, disse guardar no coração as muitas vítimas ucranianas, descrevendo-as em detalhe.

A tudo isto acresce o envio dos dois cardeais à Ucrânia, e tudo o que eles têm dito e feito para expressar o horror perante a tragédia e a solidariedade para com a Ucrânia, com o cardeal Krajewski a dizer que tal como Cristo, a Ucrânia ressuscitará.

Portanto não, o Papa não se referiu diretamente a Putin, nem invocou o nome da Rússia, mas é preciso uma enorme dose de má vontade para interpretar as suas muitas palavras e gestos desde que esta guerra começou como qualquer coisa que não seja uma duríssima condenação da Rússia e do regime russo, como responsáveis por esta guerra e tudo o que ela espoletou.

Arrumada esta questão, analisemos então as principais queixas dos ucranianos em relação a Francisco.

A insistência do Papa em encontrar-se com Cirilo é de facto complicada de compreender. Cirilo é a figura religiosa que saiu mais desacreditada em todo este conflito. Incapaz de sair debaixo da asa de Vladimir Putin, incapaz de perceber que esta estratégia é um enorme tiro no pé naquilo que ele considera serem os seus principais objectivos estratégicos, nomeadamente manter os ortodoxos ucranianos debaixo da autoridade de Moscovo e, também, de se afirmar como o principal líder na comunhão ortodoxa, remetendo o Patriarca de Constantinopla para segundo lugar, se tanto.

Depois deste terrível fiasco, muito dificilmente Cirilo será levado a sério pelo mundo, incluindo o mundo religioso. Nesse sentido, um encontro com o Papa é tudo o que ele pode desejar para tentar projectar alguma credibilidade. Com tudo o que se tem passado, porque é que o Papa insiste em dar-lhe esta “borla”?

Não posso fingir saber o que se passa na Santa Sé nem no coração do Papa, mas posso especular que o Papa sabe que por mais que Cirilo esteja na lama, neste momento, não deixa de ser o líder da maior Igreja Ortodoxa do mundo, e que o diálogo ecuménico com o mundo ortodoxo nunca irá a lado nenhum sem a Rússia a bordo. Se as outras igrejas ortodoxas estão dispostas a entrar no mesmo barco que Cirilo ou não, é outra questão, interna, mas o Vaticano não pode simplesmente cortar os laços.

Por outro lado, Cirilo sabe que o Papa poderia perfeitamente não fazer isto, sacudir as mãos dele, como muitos fizeram, e por isso é possível que ele se revele agradecido a Francisco pelo gesto de o manter à tona de água, e que isso dê frutos ecuménicos no futuro.

Finalmente, por mais tentador que seja analisar tudo isto pela perspectiva do poder, devemos lembrar-nos que a lógica do Cristianismo não é a do poder e que o Papa sabe isso.

Chegamos assim ao segundo ponto que causou atrito nos últimos dias. A decisão do Vaticano de ter duas famílias, uma russa e outra ucraniana a escrever em conjunto uma das meditações da Via Sacra caiu muito mal na Ucrânia. E não foi só entre ortodoxos, mesmo o Arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, condenou a iniciativa, sugerindo que ela passava a imagem de que o sofrimento dos dois povos era equivalente.

Perante a pressão, o Vaticano cedeu e mudou a meditação, que foi substituída apenas por um apelo à oração silenciosa pela paz, enquanto duas jovens mulheres, uma russa e uma ucraniana, seguravam na cruz.

Mesmo essa versão mais “light” não foi aceite pelos ucranianos, e pela primeira vez em anos os meios de comunicação católicos do país não transmitiram a cerimónia em directo.

Esta reacção dos ucranianos apenas se compreende no contexto da enorme injustiça a que estão a ser sujeitados. Mas compreender não é dar-lhes razão. Pelo contrário, diria que imagens de russos e ucranianos lado-a-lado, a condenar a guerra, são exactamente o que faz falta neste momento. Houvesse mais!

É importante não confundir o regime de Putin com o povo russo e é importante não esquecer que quando esta guerra acabar há dois países enormes e dois povos numerosos e antigos que precisarão de encontrar forma de sarar as feridas e viver em conjunto. Qualquer gesto nesse sentido parece-me ser de louvar em vez de criticar.

Infelizmente estas críticas ucranianas não são novas. Na recente conferência em que participei, organizada pela Capela do Rato, o padre da Igreja Ortodoxa Moldava, que está ligada a Moscovo, disse que tinha tentado ir com padres da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal prestar apoio aos refugiados ucranianos que chegaram a Cascais, mas foram impedidos de o fazer por ordem da Embaixada da Ucrânia em Portugal. Convém esclarecer que o padre Petru tem falado abertamente contra a guerra e até – de forma corajosa – contra a liderança da Igreja Ortodoxa Russa, e ainda que os três padres russos em Portugal neste momento são signatários da Carta dos Padres Russos pela Paz, que é dos documentos mais bonitos que já li – do ponto de vista cristão – contra esta guerra. Mantê-los longe de refugiados porque são da “confissão errada” foi uma decisão cruel e injusta.

Esta insistência em ver a realidade de uma perspectiva nacional/étnica é, infelizmente, uma das fraquezas inerentes ao Cristianismo oriental. Mas Roma, por mais que simpatize com a Ucrânia e esteja convencida da razão da sua causa, não pode partilhar dessa visão reduzida.

Thursday, 14 April 2022

Ir à Polónia buscar refugiados. Compaixão, aventureirismo ou loucura?

Todos devemos conhecer pessoas que ao longo das últimas semanas se puseram à estrada para ir buscar refugiados à Polónia, ou outros países na fronteira com a Ucrânia.

Por um lado, esta onda massiva de solidariedade que assolou o nosso país, e outros, é o exemplo acabado do que o Papa Francisco queria dizer quando referiu que a Igreja deve ser um Hospital de Campanha. E é também um acto profundamente evangélico, pois em cada uma daquelas mulheres e crianças perdidas, desesperadas, sem nada, estava Cristo.

Mas quer isso dizer que os métodos estão acima da crítica? Faz sentido ir de carrinha de nove lugares buscar refugiados? E o que dizer da aparente falta de coordenação central dos Governos, e da União Europeia, neste processo todo? E as terríveis histórias de tráfico humano que vamos conhecendo?

Mais que motivo para uma excelente conversa com Inês Tinoco de Faria, que com um grupo de colegas de trabalho montou uma operação de resgate de refugiados que é um exemplo de boa organização, generosidade e sensatez.

É isso que vos oferecemos neste terceiro episódio do Hospital de Campanha. Ouçam, partilhem, comentem! E obrigado pelo vosso apoio.

Caso não tenham ouvido ainda, aqui têm o primeiro e o segundo episódios.

Friday, 1 April 2022

A reforma da Cúria interessa? Mais do que pensa!

Um dos eventos mais importantes de Março na Igreja Católica foi a publicação de uma reforma da Cúria Romana. Esta foi sempre uma das grandes bandeiras do pontificado de Francisco e levou nove anos a preparar. Ainda assim, a maioria dos leigos pensa que não é nada connosco. Pois enganam-se. Para ajudar a compreender a importância desta medida convidámos o vaticanista Octávio Carmo para participar no segundo episódio do podcast Hospital de Campanha, que já está no ar e podem ouvir aqui.

De resto, neste episódio falamos também de como a Guerra na Ucrânia vai afectar as relações ecuménicas, e sobre a Consagração da Rússia e da Ucrânia a Nossa Senhora. Esse foi também o tema de duas das minhas intervenções na CNN Portugal, na sexta-feira passada, bem como da minha participação no programa da Ecclesia, na RTP2 e ainda o artigo publicado no site dos jesuítas, PontoSJ.

Continuo a coligir as principais declarações de líderes religiosos relevantes desta guerra neste artigo do meu blog.

O artigo do The Catholic Thing desta semana é do Robert Royal. No seu texto ele elogia muito o Papa por ter tido a iniciativa de fazer a consagração, mas discorda com ele em relação ao conceito de Guerra Justa. Podem ler aqui.

Uma constante desta guerra tem sido a fidelidade e persistência de padres e freiras na Ucrânia que não abandonam as suas comunidades. Há exemplos aqui e uma tocante história de um missionário brasileiro que também ficou com o seu povo naquele país martirizado.

Termino comentando que por mais que esta guerra terrível me entristeça, tem sido interessantíssimo observar muitos jornalistas do “mainstream” a compreender a trabalhar tão bem a dimensão religiosa do conflito. Temos tido vários exemplos, em diversos meios de comunicação, mas deixo-vos com este texto do Diário de Notícias que vale bem a pena ler.

Wednesday, 30 March 2022

A Teologia e os Conflitos Humanos

O Cardeal Manning – que foi contemporâneo e seguidor do Cardeal Newman – disse certa vez que “todo o conflito humano é, no final de contas, teológico”. (Podíamos mesmo dizer que tudo o que é humano envolve necessariamente a teologia, mas esse é um assunto complexo para tratar noutro dia). Na actual guerra da Rússia contra a Ucrânia, porém, a teologia não é sequer uma consideração distante, está mesmo à superfície. Mesmo que a guerra chegue a um final aparentemente tolerável, as divisões teológicas permanecerão connosco muito tempo.

Isto porque não é apenas Vladimir Putin que tem falado numa “Guerra Santa” na Ucrânia, mas também líderes religiosos como o Patriarca Cirilo de Moscovo. Putin tem estado a usar cinicamente os ortodoxos como cobertura moral para as suas ambições. Mas também já intuiu que para “tornar a Rússia grande outra vez” a Ortodoxia Russa – que carrega em si muitos dos elementos mais profundos da Santa Mãe Rússia e da sua projecção secular, “o mundo russo” – é uma parte fundamental do plano político.

Já os líderes da Igreja Ortodoxa Russa não têm a mesma desculpa política.

Na verdade, o que estamos a ver agora não é apenas corrupção política entre os líderes religiosos comprometidos, mas uma profunda divisão espiritual que estava de certa forma disfarçada por profissões de fraternidade cristã. Até existem cristãos no Ocidente que, traumatizados pela nossa decadência e “wokeismo” se deixaram convencer de que a Rússia de Putin – com a sua repressão em larga escala, assassinato de dissidentes (incluindo no estrangeiro) e maior taxa de aborto no mundo – é de alguma forma um salvador religioso.

Vários Papas no passado recente fizeram grandes esforços para pôr fim ao cisma entre Roma e a Ortodoxia – e na maior parte das vezes têm sido rechaçados. Antes de a guerra ter começado o Papa Francisco estava a procurar um segundo encontro com o Patriarca Cirilo. O primeiro aconteceu em 2016, no aeroporto de Havana. O local não foi boa ideia, mas pelo menos ambos os líderes exprimiram um “profundo desejo” por unidade. E o Papa disse mais tarde que “falámos como irmãos”.

Esse espírito fraternal não perdurou. Durante a sua videoconferência, no início deste mês, Francisco parece ter criticado abertamente Cirilo por afirmar que esta “operação militar especial” é uma “guerra santa”. Francisco foi ainda mais longe quando, na sexta-feira passada, consagrou a Rússia, a Ucrânia e todo o mundo a Nossa Senhora de Fátima. Cirilo e Putin sabem que Nossa Senhora pediu essa consagração para que os erros da Rússia não se espalhassem pelo mundo, e para que a Rússia se converta. Parabéns a Francisco por ter feito ambas estas coisas, por mais objecções que tenha tido que enfrentar.

Infelizmente, Francisco também contradisse toda a tradição cristã durante o seu encontro com Cirilo, quando disse que todas as guerras são injustas. Na semana passada acrescentou, durante uma conversa com um grupo de organizações de mulheres, que “fiquei envergonhado quando li que um grupo de estados se comprometeu a gastar dois por cento do PIB na aquisição de armamento, em resposta ao que se está a passar agora. É loucura”, disse, lamentando “a velha lógica de poder que continua a dominar a chamada geopolítica”.

É verdade que sim, e assim continuará a ser enquanto os seres humanos decaídos continuarem a existir no planeta. E é por isso que algumas potências – histórica e moralmente imperfeitas – devem, por vezes, impedir que os mais impiedosos de entre nós dominem o mundo.

Quando as nações decidem aumentar os seus orçamentos de defesa, à luz de ameaças que enfrentam, não se trata de “loucura”. Diante de uma Rússia agressiva, os líderes políticos estão apenas a ser responsáveis quando decidem robustecer a defesa nacional. A decisão peca é por tardia.

Francisco parece pensar que a única resposta cristã permissível perante uma ameaça é o “diálogo” e não a dissuasão. Pode-se entender o seu horror pela guerra sem aceitar essa premissa. O diálogo não nos trouxe sequer o entendimento religioso com Cirilo. Estou certo de que Putin adoraria ver diálogo, diálogo infindável – nas igrejas, na NATO, na política americana – enquanto ele continua a atacar uma nação atrás da outra.

Os ucranianos têm uma opinião diferente. É por isso que continuam de pé, e a Rússia teve de se contentar com ambições menores na Ucrânia.

A queda da União Soviética abriu algumas possibilidades – tanto para as Igrejas como para a Rússia. A Igreja Ortodoxa da Rússia – a maior das ortodoxas – foi perseguida e comprometida pelo comunismo. Na sua colaboração – ou possivelmente mesmo trabalho activo – com a KGB, Cirilo desempenhou um papel vergonhoso nessa pérfida aliança.

Agora voltou a comprometer-se, alienando a maioria dos ortodoxos na Ucrânia enquanto abençoa os massacres de Putin. Nestas circunstâncias é difícil imaginar como é que Moscovo continuará a ser parte de qualquer diálogo ecuménico no futuro, ou sequer como é que a Igreja Ortodoxa Russa permanecerá intacta.

O Grande Cisma de 1054 entre a Igreja Ocidental e os Ortodoxos já foi há quase um milénio, e é tanto mais doloroso porque – independentemente das questões como o Filioque – deveu-se sobretudo a questões de jurisdição e de administração. A Igreja Católica não reconhece apenas como válidas as ordens e os sacramentos ortodoxos, mas também as ricas tradições litúrgicas e espirituais do Oriente, que devem ser integradas numa Igreja global e universal.

O próprio Cristo rezou por uma unidade eclesial semelhante à que ele tinha com o Pai. Os cristãos não têm tido muito jeito nesse campo importante mas desafiante. (João: 17,21)

Na sua encíclica de 1995 Ut Unum Sint (Que sejam um só), o Papa São João Paulo II falou de um verdadeiro ecumenismo – não a coisa sentimentalista e mole que vemos frequentemente nas discussões ecuménicas no ocidente – enraizado na realidade histórica e substância espiritual do Oriente e do Ocidente:

a Igreja deve respirar com os seus dois pulmões! No primeiro milénio da história do cristianismo, essa frase referia-se sobretudo ao binómio Bizâncio-Roma; desde o baptismo da Rus' para a frente, ela vê alargarem-se os seus confins: a evangelização estendeu-se a um âmbito muito mais vasto, a ponto de abraçar praticamente a Igreja inteira. Se se considera ainda que esse acontecimento salvífico, verificado ao longo das margens do Dniepre, remonta a uma época em que a Igreja no Oriente e no Ocidente não estava dividida, compreende-se claramente como a perspectiva a seguir para a plena comunhão, seja aquela da unidade na legítima diversidade.

Também o Papa Francisco tem falado de unidade sem uniformidade. O seu desafio, de agora em diante, será pôr isso em prática dentro da Igreja Ocidental. A janela para o Oriente está, por ora, fechada.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 28 de Março de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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