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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fé, Razão, Vida

A 46ª Caminhada Pela Vida que se realiza hoje [sexta-feira, 18 de Janeiro] em Washington não é um evento católico. Ao longo dos últimos anos tem sido muito gratificante ver um aumento no número de evangélicos, outros protestantes e judeus – como não adorar o som do Shofar a ser soprado do palco, antes de a multidão arrancar –, mórmones, muçulmanos e ainda outros a participar. Todos os que se têm vindo a aperceber que matar os mais pequenos e vulneráveis da espécie humana não tem nada de humano nem ajuda em nada as mulheres, que são mortas através do aborto às dezenas de milhões, em todo o mundo, simplesmente pelo facto de serem do sexo feminino.

Mas a caminhada – e a causa pró-vida – também não são, verdadeiramente, um tema religioso. É sempre bom ver na caminhada os Ateus pela Vida, mas também é uma recordação importante. Não somos contra o aborto por se opor a um qualquer dogma religioso. Se fosse esse o caso – como muitos defensores do aborto afirmam, erradamente – seria difícil evitar a acusação de estarmos a tentar “impor a nossa religião” aos outros. Pelo contrário, estamos a tentar evitar que as pessoas pratiquem uma forma irracional, falsa e sangrenta de idolatria.

É a razão, e não a revelação, que nos diz que, caso acreditemos que é errado matar, então matar crianças ainda na barriga das mães também é errado. E com cada ano que passa essa posição moral torna-se ainda mais clara. Quando a decisão Roe v. Wade, que legalizou o aborto em todo o país, foi anunciada, em 1973, a medicina estava a anos-luz do que está agora. Hoje sabemos, por exemplo, que o coração de uma criança começa a bater cerca de quatro semanas depois da concepção e que já acontecem muitas outras coisas que tornam claro que aquilo que se está a desenvolver e a crescer é um ser humano vivo (com o seu próprio ADN), rapaz ou rapariga desde o começo. Segue-se, racionalmente, que quem decidir pôr fim a essa vida, mesmo no seu estado mais incipiente, está a cometer um erro moral grave.  

E fazemos bem tanto em argumentar racionalmente como em caminhar pelo fim do aborto. Aliás, é mesmo uma obrigação moral. Confrontar-nos uns aos outros, em busca da verdade, é uma forma de demonstrar a nossa convicção de que aqueles com quem discordamos são, como nós, seres racionais. Eu sei que é pedir muito que a razão prevaleça, quando há tantas paixões e interesses em jogo. Mas é por isso que as caminhadas, manifestações e o exemplo pessoal devem também ser usados, nem que seja para criar oportunidades de fazer-se ouvir o lado científico e os bons argumentos.

Cerca de dez anos depois da decisão judicial de Row, estava a conversar com um filósofo, que entretanto se tornou mundialmente conhecido, sobre o aborto. Ele previu que, apesar de se tornar cada vez mais claro, através da ciência e da razão, o que estamos a fazer quando abortamos os nossos filhos, nada disso importaria. “Chegará o dia em que serão forçados a admitir a verdade. E então dirão, ‘Sim, é um bebé que se está a matar, e depois?’”

Na altura tive as minhas dúvidas, hoje já não tenho. Há anos que se muda o assunto do estatuto moral da vida intrauterina para tudo, desde o respeito pela liberdade das mulheres, o preconceito religioso e o combate à pobreza e aos danos ambientais. E também já nos disseram que, sim, é uma escolha difícil. Mas difícil porquê? Talvez porque esteja um bebé em causa? Sim, mas insistem que a mulher continua a ter aquele direito. Num acesso de paixão moral o Papa Francisco acertou no ponto quando disse que fazer um aborto é como contratar um assassino para nos resolver um problema. E a verdade é que esse assassino está a receber muitas chamadas: 42 milhões em todo o mundo só no último ano, de acordo com uma estimativa, fazendo do aborto a principal causa de morte.  

Os católicos americanos têm tido um papel central e louvável, claro, em manter viva a causa pró-vida. E por isso não é surpresa nenhuma que outros, que acreditam que é a verdade que nos liberta, se tenham juntado a nós. E não apenas neste país. O nosso exemplo tem espoletado outros esforços parecidos em vários países e, recentemente, até em Roma, embora a Igreja italiana e o Vaticano se tenham mantido distantes, por razões políticas aparentemente más, da Marcia per la Vita.

Desde esta segunda vaga da crise de abusos, os bispos americanos – e por implicação a Igreja como um todo – têm levado com críticas severas, algumas injustas, mas na maior parte justas. Tudo isso tem danificado a força do nosso testemunho público em várias frentes. Nestes últimos dias o Cardeal Wuerl até teve de abandonar os seus planos para celebrar a missa pró-vida que antecede a Caminhada. Foi substituído pelo núncio apostólico, o arcebispo Christophe Pierre. Mas nós, os americanos, conseguimos lidar com mais do que um problema de cada vez. Eventualmente vamos conseguir lidar com a crise de abusos enquanto continuamos com o nosso testemunho pró-vida e pró-família.

Mas não será um caminho fácil. Foram precisos quase cem anos – e uma Guerra Civil – desde os primeiros textos de John Wesley contra a escravatura até à Proclamação da Emancipação. Talvez leve tanto tempo, ou ainda mais, para anular o Roe v. Wade e mudar atitudes culturais para com o aborto. Mas, por mais tempo que leve, quando chegarem dias melhores as pessoas vão olhar para trás, para este tempo de trevas, e perguntar como é possível que uma população a gozar a maior prosperidade que o mundo alguma vez conheceu pôde ser cega para este massacre dos inocentes.

Muitos têm criticado a Igreja e outras organizações cristãs pelas suas falhas no combate à escravatura durante os séculos XVIII e XIX e é verdade que isso permanece como uma nódoa no registo de muitos seguidores de Cristo que tinham obrigação de saber melhor.

Mas naquele grande dia em que o aborto for visto novamente como o terrível mal moral que é, as pessoas também poderão ver que foi em primeiro lugar a Igreja, apesar de tantas críticas e muitas vezes sozinha, que defendeu a sacralidade de toda a vida humana. Numa altura em que pairam dúvidas sobre tanta coisa, isso é algo que merece ser festejado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Dialogar com os Mórmons

Casey Chalk
“Gozar com os mórmons é”, nas palavras do já falecido teólogo católico Stephen Webb, “uma das últimas fronteiras da desordem verbal que ainda não foi beliscada pelos poderes do politicamente correcto”. O missionário mórmon é frequentemente alvo de ridicularização. “O Livro de Mórmon”, um musical de sucesso escrito pelos criadores do “South Park” brincava com o tradicional missionário da Igreja dos Santos dos Últimos Dias (ISUD), com as suas calças pretas e camisa branca.

Muito do material apologético católico e evangélico ridiculariza as crenças mais excêntricas da ISUD – a corporalidade de Deus, o casamento eterno e os tons de politeísmo, entre outros. Quando eu era um jovem evangélico ensinaram-me que o mormonismo é uma seita. Sejam quais forem as heresias presentes na teologia mórmon, a nossa abordagem aos mórmons, enquanto católicos que somos, precisa de ser repensada. 

A apologética cristã respeitante aos mórmons costuma assumir uma de duas formas. Uma abordagem recomenda atacar as crenças dos Santos dos Últimos Dias através do “texto-prova”. Para os protestantes, isto resulta naturalmente da presunção da claridade da Escritura. Claro que o que parece claro para um provavelmente parecerá muito menos claro para outro, sobretudo se tiver sido catequizado para ler a Bíblia de uma certa forma. Mas existe ainda outra dificuldade quando se debate com os mórmons, é que a ISUD ensina que a Bíblia é subserviente ao Livro de Mórmon, logo eles têm sempre esse trunfo em qualquer debate sobre texto-prova.

A outra abordagem recomenda confrontarmos os missionários mórmons com alguns dos aspectos mais bizarros da sua fé. Um autor católico conhecido descreve uma vez em que conseguiu forçar uns missionários a reconhecer algumas das idiossincrasias das suas crenças. Depois assegurou-lhes que “isso é simplesmente uma loucura”. Não faço ideia porque é que essa estratégia haveria de resultar. Raras são as pessoas que são persuadidas a abandonar a sua religião simplesmente porque um estranho lhes diz que as suas crenças são ridículas.

Aliás, eu diria que isto teria precisamente o efeito contrário. Mais, há muitos não cristãos que consideram as histórias da Bíblia “simplesmente loucas”, e os cristãos não católicos gozam frequentemente com as aparições marianas, como Guadalupe, Lourdes ou Fátima.

Ambas estas estratégias assumem um ponto de partida inerentemente contencioso para o diálogo com os mórmons. Talvez seja natural, tendo em conta as muitas heresias da ISUD. Mas por outro lado isso ignora o facto de os missionários mórmons serem, de provavelmente todos os grupos religiosos nos Estados Unidos, aqueles que mais tentam falar de Jesus na Praça Pública. Nunca um evangélico ou um católico me bateu à porta para pedir para falar sobre Jesus. Mas ao longo dos anos muitos mórmons o fizeram. Duvido que seja caso único. A Igreja Mórmon pode ter ideias erradas sobre Cristo, mas pelo menos têm vontade e são persistentes no seu desejo de falar dele.

Para além disso, os mórmons têm sido aliados constantes de evangélicos, católicos e ortodoxos nas batalhas contra as forças seculares agressivas na América. Têm trabalhado incansavelmente para preservar as suas comunidades, resistir às tentações e influências da cultura pós-cristã e lidar com os ataques contra eles e contra a sua devoção a Cristo. Este zelo viu-se de forma especial há dez anos quando membros da ISUD colaboraram com conservadores de outras religiões para fazer aprovar a Proposição 8, que durante algum tempo proibiu o casamento homossexual no Estado da Califórnia.

Modelo do templo mórmon em construção em Lisboa
E a vida dos missionários mórmons não é nada fácil, poucas são as vocações religiosas que se comparam em termos de intensidade ou sacrifício. Para os homens, as missões duram dois anos; as missões das mulheres são de ano e meio. Durante esse tempo os missionários nunca deixam o seu território de missão. Têm poucas oportunidades de falar com família e amigos. Vivem com um orçamento apertado – muitos comem apenas cereais e noodles, praticamente todos os dias, durante meses. Passam cerca de doze horas por dia em missão, enfrentando muitas vezes hostilidade ou indiferença. Um amigo meu mórmon que foi enviado para o Japão conseguiu converter apenas uma pessoa durante o tempo inteiro que lá esteve.

Para as mulheres o sofrimento e o risco são ainda piores. Uma missionária contou-me uma vez que um homem que parecia sinceramente interessado na sua religião, mas afinal apenas queria casar! Outros homens tentaram abordá-la fisicamente. Certa vez um homem bêbado e quase nu saiu de casa a correr e a praguejar contra ela. Os mórmons, talvez mais até do que outras tradições religiosas, conhecem o falhanço. Recentemente disse a uns convidados que a sua experiência parecia um pouco uma passagem pelo inferno – o mais experiente acenou com a cabeça.

Por tudo isto eu argumentaria que o modo certo para começar um diálogo com missionários mórmons não é polémica e hostilidade, mas hospitalidade. Recentemente a minha mulher e eu convidámos duas missionárias para jantar, e foi muito divertido.

Durante a sobremesa elas sentiram-se na obrigação de partilhar a sua fé. Nós ouvimos cuidadosamente e fizemos algumas perguntas. Disse-lhes que discordava deles por razões teológicas e filosóficas, que expliquei de forma breve. A minha mulher – de forma muito perspicaz – partilhou a sua experiência de ter sido traída pelo padre Marciel Maciel, o fundador dos Legionários de Cristo, que vivia uma vida dupla. Explicou que tinha sido difícil, mas essencial, manter a sua fé em Cristo, mesmo quando aprendeu que o homem que tanto admirava, afinal era um patife. O paralelo com a vida de Joseph Smith, fundador da Igreja Mórmon, foi perfeito e espero que as missionárias o tenham entendido.

Creio que esta abordagem é superior à da confrontação. Sim, os erros teológicos do mormonismo são terríveis. Mas ao mesmo tempo eles estão nas ruas a falar de Jesus numa altura em que cada vez menos pessoas O conhecem. Isso tem de valer alguma coisa. E se quiserem passar cá por casa para partilhar uma refeição, construir uma amizade e trocar opiniões sobre Deus, a nossa porta está sempre aberta.

Se Deus quiser, algo dessa vida partilhada, bem como os nossos testemunhos sobre Cristo e a sua fidelidade à sua Igreja, terão um impacto maior e mais duradouro do que a polémica e hostilidade contenciosa.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Choques naturais e ultrapassáveis

Declarações "chocantes" de Osswald
Começou o sínodo dos jovens. O Papa Francisco emocionou-se ao ver lá dois bispos chineses, fruto do acordo alcançado com Pequim, e no seu discurso disse a todos os bispos reunidos que devem deixar para trás preconceitos e estereótipos.

Temos no site da Renascença uma interessante entrevista com o bispo D. António Augusto Azevedo, que está presente nos trabalhos.

Também hoje decorreu em Lisboa o II Congresso do Diálogo Inter-religioso. Numa das conferências, Walter Osswald disse que o choque cultural até é natural, mas é preciso ultrapassar a rejeição. Noutro painel o padre Fernando Sampaio confessou que a proibição de perguntar aos doentes a sua religião é, em alguns casos, uma violação dos seus direitos.

Ainda na sequência da crise de abusos que sacode a Igreja, Randall Smith, um dos meus autores favoritos do The Catholic Thing, escreve esta quarta-feira directamente para aqueles que invocam os problemas para abandonar a Igreja. É um artigo arrasador, cheio de bom-senso. Leiam e partilhem!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Santidade em Fátima e lixo em São Tomé

Santificação em acção em Fátima
Ontem estive em Fátima no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. O ambiente é, de facto, muito especial!

Pude entrevistar o bispo iraquiano Georges Casmoussa, que falou da necessidade de perdão mesmo em casos de perseguição extrema e disse que a reconciliação no Iraque tem de ser liderada por leigos.

Hoje publicamos uma entrevista com o presidente da Conferência Episcopal do Brasil, que também está no encontro. D. Sérgio Rocha elogia o papel das Equipas para redescobrir a alegria do casamento e, noutro tema, diz que é cedo para se saber o sínodo da Amazónia, no próximo ano, irá aprovar a ordenação de homens casados.

Cabinda tem um novo bispo. Saiba porque é que isso é mais interessante do que possa parecer à primeira vista…


E saiba aqui como é que pode ajudar os Leigos pelo Desenvolvimento a comprar um carro de recolha de lixo para São Tomé!


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"Não vim para Portugal para que a realidade judaica esteja na mesma em cinco anos"

Publico aqui a transcrição integral, no português original, da entrevista feita ao novo rabino de Lisboa, Natan Peres.

Nesta entrevista o rabino fala do seu percurso, do que espera fazer na comunidade de Lisboa, e de alguns assuntos de importância geopolítica, como a crise de refugiados e o estatuto de Jerusalém.

A versão da entrevista publicada na Renasença pode ser lida aqui.

Pode-se apresentar e indicar um pouco do seu percurso?
O meu nome é Natan Peres, tenho 44 anos.

Nasci no Brasil, no Rio de Janeiro, mas saí do Brasil ainda jovem e estive muitos anos em Nova Iorque, onde estudei em academias rabínicas. Depois continuei com os meus estudos em Jerusalém, voltando depois aos Estados Unidos. Estive agora algum tempo no Reino Unido, uns cinco anos, depois dois anos em Amesterdão, onde tive o privilégio de oficiar na Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, e agora estou cá em Lisboa. O percurso trouxe-me de volta às origens do Judaísmo português.

A sua ascendência é sefardita, originalmente de Portugal?
Exactamente.

Faz ideia há quanto tempo é que a sua família foi para o Brasil?
Não fomos directos ao Brasil, foi recente, nos anos 30. E temos raízes até muito fortes aqui em Portugal, pela parte da minha família de ascendência portuguesa. 

Eram de onde?
Eramos de Seia, de Vila Verde.

Conheci há uns anos um judeu de origem sefardita, que me dizia que a família mantinha a chave da casa de onde tinha sido expulsa. Manteve-se muito essa herança, essa ligação a Portugal, nas tradições das famílias que saíram de cá...
Sem dúvida. Não só as famílias que saíram mais recentemente, mas as comunidades que saíram de Portugal há 400 anos ou mais, também continuaram com estas tradições e com este legado, esta tradição à volta de Portugal. Na Sinagoga de Amesterdão, até hoje, certos anúncios em relação aos serviços são feitos em português.

Português mesmo, ou ladino?
Não! Português mesmo.

É interessante que a herança sefardita dos que foram expulsos de Espanha e de Portugal naquele tempo, tem a conexão mais forte com o ladino, mas as comunidades da diáspora portuguesa, como em Amesterdão, Londres, Nova Iorque e no Caribe, eram mais conectadas com Portugal e com o português. Então em Amesterdão, até hoje, fazem-se esses anúncios em português. Obviamente é um português que foi transmitido ao longo dos anos e hoje em dia tem uma pronuncia não tão portuguesa assim, uma influência holandesa, mas acho isto muito interessante.

É interessante haver essa ligação. Obviamente os contextos são diferentes, mas é uma coisa que também vemos entre judeus asquenaze da Europa de Leste que fugiram mais no contexto da Shoah para os EUA? Também mantêm a ligação às suas terras europeias? Ou isto é uma coisa particular dos judeus que estiveram em Portugal?
Acho que acontece com eles também, mas os judeus sefarditas portugueses têm uma conexão mais forte com o legado português. Acho que o judaísmo ao longo dos anos, foi sempre influenciado pelo meio social onde se criou. O judaísmo português contribuiu tanto para o judaísmo global ao longo dos anos, em relação aos rabinos, em relação à filosofia, e tudo o mais, que acho que isto cria uma conexão ainda mais forte do que noutros países, como por exemplo a Polónia.

Quando é que decidiu que queria ser rabino? Foi ainda nos EUA?
Foi ainda no Brasil. Eu estudei numa yeshiva...

Então saiu do Brasil com que idade?
Adolescente.

Estudei lá alguns anos, mas ao mesmo tempo que estudava no sistema secular. Continuei a carreira focada em estudos religiosos nos Estados Unidos, depois estive em Jerusalém numa yeshiva muito famosa, chamada Shevat Mir, que segue as tradições de estudo da Lituânia, e era uma academia importante antes da Shoah, estudei lá uns três anos, três anos e meio, e depois continuei. Mas ao lado da minha carreira religiosa também segui uma carreira profissional, o que também é um legado do judaísmo sefardita, os rabinos e os líderes comunitários sefarditas sempre acumularam os dois.

Disse que estudou numa academia de tradição lituana, e por isso imagino que asquenaze, e não sefardita. Tem então formação nos dois ramos...
Sim, sem dúvida. Falo fluentemente o iídiche e tenho formação dos dois lados.

Até porque em Nova Iorque a comunidade com mais peso não é sefardita...
Exacto.

Foi fácil manter a ligação às tradições sefarditas crescendo nesse ambiente?
É interessante a pergunta. Eu sempre tive aquele pragmatismo, a realidade à nossa volta é o que é e sempre fui uma pessoa que se integrou naquele meio, mas no fundo sempre tive este sentido de voltar a contribuir para o judaísmo português e foi isso que ao longo dos anos me guiou e continuei ligado ao rabinato com a ideia de um dia voltar a contribuir para o judaísmo português. 

É interessante porque em relação a Nova Iorque, hoje em dia associamos a uma sociedade de maioria asquenaze, mas a primeira sinagoga de Nova Iorque foi fundada por judeus portugueses, vindos do Brasil para o que na altura era Nova Amesterdão. 

Então e porquê Portugal? Surgiu um convite, imagino, mas porque é que vem cá parar?
Como disse eu tive uma carreira profissional paralela com o judaísmo...

Qual é, já agora?
Tem a ver com TI, “big data”, analítica, etc.

Mas aquele chamamento que referi antes, de contribuir para o judaísmo português começou uns 10 anos atrás, quando eu contactei um pouco mais com as comunidades portuguesas, quando morava em Nova Iorque e depois em Londres e aí envolvi-me mais com o rabinato, indo a Amesterdão, para contribuir de uma forma mais forte com o rabinato de Amesterdão, e aí surgiu a ideia de fazer um projecto maior em relação ao judaísmo português e acho muito interessante o que está a acontecer em Portugal em geral, não só em relação ao judaísmo, mas em relação ao que acontece no turismo e em tudo o mais, o que cria oportunidades para o judaísmo português criar projectos mais ambiciosos, e então foi isso que me entusiasmou para essa oportunidade, temos uma ligação através de um judeu português nova-iorquino e fizemos esta ligação e as coisas acabaram acontecendo.

Teve algum contacto com o anterior rabino Eliezer di Martinno?
Sim, estive cá em Portugal para visitar há alguns anos atrás e conheci-o.

Ele deu-lhe alguns conselhos?
Sim, deu. Muitos dão conselhos. Nas comunidades judaicas todos têm conselhos para dar, mas os conselhos do rabino Eliezer são especiais, obviamente.

Quais são as prioridades, perspectivas e a realidade actual da comunidade em Lisboa?
Acho que a comunidade em Lisboa tem um legado muito importante, tem uma história muito rica, tem tradições, mas o que aconteceu ao longo dos últimos 20 anos, não só em relação a Portugal, mas em geral, com a globalização e a internet, a ligação às outras comunidades, ao Estado de Israel e tudo o mais… Acho que o judaísmo hoje – como as outras religiões – está a tentar usar as redes sociais e outras coisas para conectar com a realidade global do judaísmo hoje em dia. 

Então acho que temos muito para criar em relação a infraestrutura judaica, em relação à disponibilidade de alimentos kasher, para a dieta judaica, o ensino e a educação judaica, temos de criar algumas estruturas. A ideia é criar uma estrutura judaica mais forte em Lisboa, recolocar o judaísmo português no mapa do judaísmo mundial.

Não é fácil ser judeu em Portugal... Se quiser ir jantar ou almoçar fora, tem escolhas muito limitadas, imagino...
Exacto. Claro que o nível de conexão dos judeus ao judaísmo varia muito entre as pessoas, e a nossa comunidade não é diferente. Mas as pessoas que vivem de acordo com os princípios judaicos e aqueles que vêm visitar e se interessam por poder vir viver para Portugal, eles sim querem saber desse tipo de coisas. Temos muito trabalho a fazer em relação a isso. 

Existem muitas oportunidades que nos vão ajudar a criar esta infraestrutura de que tanto precisamos.

Sabemos que há muitos estrangeiros a vir viver para Portugal. Isso tem tido reflexos já na comunidade em Lisboa?
Sim, muito grande! Em relação ao turismo, obviamente, segundo os últimos números que vi, recebemos cerca de cinco mil turistas o ano passado na comunidade de Lisboa. 

São turistas judeus que vão aos serviços, ou apenas pessoas interessadas em visitar a sinagoga?
Inclui também pessoas que vêm só visitar a sinagoga, mas é um turismo judaico, muitos desses vêm e participam nos serviços na sinagoga. Inclui pessoas que vêm do Brasil, de França e outros países, então quase todos os dias recebemos emails de pessoas à procura de hotel, ou de comida kasher. Isso acordou a nossa comunidade em relação à oportunidade para podermos usar isso como maneira para criar infraestrutura, também, e que sirva a nós e para esta oportunidade que está a acontecer agora.

Há três principais polos da comunidade judaica em Portugal, Lisboa, Porto e Belmonte. Como estão as relações entre as três?
A nível de comunidades, não é bem o meu departamento, seria de perguntar ao Presidente da comunidade. Mas a nível de rabinato, eu estive em contacto directo agora com o rabino do Porto, estou em contacto com ele quase diariamente. É uma coisa que queremos realmente fortalecer. A comunidade do Porto aprendeu até mais cedo em relação às oportunidaes que esta dinâmica pode gerar e criaram uma infraestrutura que até é um bom início para Portugal, e estamos a colaborar. 

Como as comunidades não são assim tão grandes, temos de nos unir para criar esta realidade nova que tanto queremos.

Tem-se falado muito nos últimos anos de uma lei nova que permite atribuir cidadania portuguesa a judeus sefarditas que possam comprovar a sua ascendência portuguesa. Essa lei tem tido já reflexos na prática? Há números? Aplica-se a si, por exemplo?
No meu caso eu já tenho na família, sem ter tido que aproveitar esta lei. 

Em relação a números, não os tenho, mas vejo que existe e está-se a gerar este interesse. Acho interessante e é isso que quero fazer, temos de usar esta lei como oportunidade para criar esta comunidade em Portugal. Mas tudo isto gera um interesse ainda maior e atrai turistas com o interesse de eventualmente virem a viver em Portugal, o que tem ajudado também.

Saindo agora da realidade exclusivamente portuguesa, olhando mais para o mundo e para a Europa, há casos no norte e no centro da Europa que parecem ser preocupantes ao nível da liberdade religiosa. Estou a falar de tentativas de proibir ou limitar o abate ritual de animais e a circuncisão, o que afecta tanto comunidades judaicas como muçulmanas. Tem acompanhado estes debates? Qual a sua opinião sobre esta tendência?
Temos acompanhado isso, mas antes de falar sobre o que está a acontecer lá, acho importante começar por colocar ênfase no que está a acontecer de positivo em Portugal, e nós congratulamo-nos muito pelo facto de não ter que lidar com este tipo de realidade em Portugal, o antissemitismo cá não é uma coisa que se sinta e isso é uma coisa muito importante que tem de ser dita.

Em relação ao que acontece lá, acho que sim, assistimos a isso, mas ao mesmo tempo não existe só o ângulo judaico e religioso, o que está a acontecer no mundo todo e na Europa também, em relação a mudanças, desde extrema-direita ou radicalismo de todos os lados, isso tem uma influência indirecta no que está a acontecer lá. Isto é uma coisa que nós, não só judeus, mas todos, portugueses e cidadãos da Europa, temos de acompanhar e perceber o que está a criar isso, para ver se não evolui de uma maneira negativa. 

Sendo, na sua opinião, um desenvolvimento negativo, tem apresentado também oportunidades que - dado o contexto internacional actual - podem ser positivas, de união entre as comunidades judaicas e muçulmanas, sabendo também que a Igreja Católica nesses países tem apoiado os judeus e muçulmanos nas suas reivindicações…
Exacto. Isso é muito interessante. As circunstâncias e os desafios em relação à religião em geral podem nos unir e perceber o que temos em comum e não as diferenças.

Vemos de facto isso a acontecer na Holanda, na Bélgica e noutros países, onde estamos a colaborar e esse diálogo é também muito importante, porque começa em relação a assuntos de interesse mútuo, mas que começam a criar uma realidade de maior comunicação entre as religiões, o que me parece muito positivo.

Em Portugal as relações entre diferentes confissões religiosas sempre foram, segundo sei, exemplares. Isso mantém-se?
Sim! A Comunidade Israelita de Lisboa tem relações muito positivas com a comunidade Islâmica. Eu cheguei recentemente e então ainda não tive oportunidade de participar, mas o nosso interesse é de manter este legado de relações positivas.

Embora não sejam a mesma realidade, é impossível separar o que se passa em Israel das comunidades em cada país. Recentemente houve novamente um foco de conflito sobre Jerusalém ser a capital de Israel... Isso acaba por afectar os judeus em todo o mundo. Qual é a sua opinião sobre esse debate?
A questão de Jerusalém, fora do ponto de vista político e do que isso significa para o conflito ou a realidade do Médio Oriente... Para nós, povo judeu, Jerusalém é a nossa capital religiosa, a cidade que significa tudo para o judaísmo e para a nossa história.

Existe essa realidade, mas depois existe a realidade geopolítica e o que acontece no Médio Oriente não me cabe a mim, enquanto rabino na diáspora, comentar. No fim de contas o mais importante é pôr de parte o ângulo político e reconhecer a conexão do povo judeu com a cidade de Jerusalém. Estas questões políticas de vez em quando influenciam-nos a questionar coisas que não são questionáveis, em relação à nossa conexão com Jerusalém, é uma coisa que não se deve questionar. Agora, ser ou não ser a capital de um Estado judeu, é um departamento diferente. Sem misturar as coisas, o importante é reconhecer a nossa relação com a cidade de Jerusalém. Mas cabe aos órgãos políticos resolver a questão do estatuto de Jerusalém.

Em quase todos os países onde estiveram os judeus acabaram por se ver na condição de refugiados. Nessa perspectiva, o que têm a dizer sobre a actual crise de refugiados na Europa?
O povo judeu encontrou-se várias vezes, ao longo da história, numa posição de refugiados. Se há algum povo que pode compreender a situação dos refugiados e o quão difícil isso é, somos nós. 

Acho que também, em ligação com o que falámos antes, o que está a acontecer na Europa em geral, e as mudanças geopolíticas, estas coisas têm de ser lidadas de forma a não influenciar negativamente a situação geopolítica em geral. Mas em relação a ajudar o próximo, ajudar os refugiados, é nosso dever fazê-lo, obviamente de uma maneira que não crie outros problemas. A Europa ainda está a aprender a lidar com este influxo, uma realidade nova, em relação ao número de pessoas, mas como em tudo, acho que estamos na direcção certa e temos de aprender como foram as coisas nos últimos anos e contribuir de uma forma mais positiva.

As relações entre o judaísmo e a Igreja Católica têm mudado muito nas últimas décadas, desde o concílio Vaticano II, no seu entender como caracteriza essas relações hoje em dia no geral e em Portugal.
Pessoalmente não tive muito convívio com estas relações em Portugal, ainda, mas obviamente acho que está acontecer que a Igreja Católica, até com o Papa Francisco, é uma pessoa que está a utilizar e a perceber a nova realidade do mundo e a usar isso de uma maneira a ajudar e a facilitar a reconexão com a religião. 

Acho que isso é uma coisa muito positiva e que é o que todas as religiões, e nós também, no judaísmo, estamos a tentar perceber, como garantir a continuidade judaica para as nossas próximas gerações e como envolver as pessoas. E acho que temos muito para contribuir uns para os outros.

Em relação a relações específicas, no nosso contexto de comunidade, sempre foi positivo e gostaríamos de continuar a trabalhar junto com a Igreja Católica em Portugal. Temos muito mais que nos une do que diferenças e temos de nos focar nisso e nos aspectos positivos do futuro.

É casado?
Sim.

E tem filhos?
Sim.

Quando o rabino di Martino saiu fiz-lhe uma entrevista de "fim de carreira" em Portugal e o que ele disse foi que ele queria ir para um sítio onde fosse mais fácil as suas filhas terem uma vida social mais judaica. Isso é algo que o preocupa?
Sim... De certa maneira sim...

Mas nós temos filhos mais velhos, que vivem nos Estados Unidos, porque ainda temos uma casa lá. Mas o mais novo, que vive connosco, tem uma distância muito grande dos outros. Então o problema é apenas com um, e não são tantos. 

Mas eu acho que há um aspecto positivo, para mim é um desafio. Vir cá a Portugal para que daqui a cinco anos a realidade judaica seja a mesma que de hoje em dia, não é o que vim cá fazer. Eu tenho também interesse em criar um projecto que mude esta realidade, porque eu tenho também um filho cá. 

Trazendo o meu filho para cá dá-me ainda mais um sentido da responsabilidade de criar um projecto que vai dar frutos e, eventualmente, criar uma educação judaica em Portugal, uma comunidade maior. Se Deus quiser vamos criar isto.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A Alegria (e o Custo) do Evangelho

Pe. Robert P. Imbelli
Até recentemente nunca tinha ouvido falar em Nabeel Qureshi. Mas por mero acaso (providência), vi há dias uma referência a ele. Infelizmente, tratava-se de uma notícia sobre a sua morte, com apenas 34 anos.

Na notícia soube que ele foi autor de vários livros. O título de um deles marcou-me de forma particular: Procurando Allah, Encontrando Jesus: Um muçulmano devoto encontra-se com o Cristianismo.

Intrigado pelo título e pelo breve resumo da sua vida na notícia, adquiri o livro. Li-o ao longo de algumas noites, completamente apanhado. É um relato assinalável: contado com honestidade, clareza e um desejo apaixonante pela verdade.

Conta a história de um jovem, educado desde novo como um muçulmano devoto, que através de um encontro com um colega universitário (cristão devoto) começa a questionar os fundamentos da sua identidade pessoal e religiosa.

O que torna o relato tão cativante é a determinação da caminhada espiritual e intelectual de Nabeel Qureshi. Examina cuidadosamente e sem medos as provas da veracidade do Novo Testamento e depois do Alcorão. O estudo adensa-se ao longo dos anos da sua formação, incluindo a faculdade de medicina, enquanto vai debatendo com paixão e vigor com o seu amigo, cedendo apenas quando conclui que as provas são convincentes.

Mas esse estudo está longe de ser apenas um exercício académico, pois o resultado marcá-lo-á de forma mais que pessoal. Qualquer pessoa criada na tradição e na cultura islâmica sabe que a conversão ao Cristo acarreta profundas consequências ao nível da família e da comunidade. O próprio lamentou que “reconhecer Cristo significava destruir a minha família. Poderia ele estar verdadeiramente a pedir-me tal coisa?”

A relação de Nabeel com os seus pais, o seu Abba e a sua Ammi, era extraordinariamente próxima e carinhosa. A forma como descreve o custo que a sua decisão teve para eles é de partir o coração. Desde o dia em que souberam da sua conversão a Cristo o seu pai, um oficial da marinha, “nunca mais caminhou altivo. Eu extingui o seu orgulho”. A sua mãe, ao ouvir a notícia, desmaiou e foi hospitalizada. “Sobreviveu, mas os seus olhos nunca recuperaram o seu fulgor. Extingui a sua luz”.

O que levou este filho amado e muçulmano devoto a pôr em causa os afectos parentais e a desbaratar uma identidade segura e respeitada? A mera pergunta remete para a resposta apaixonada de Paulo aos Filipenses: “Considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo”. (Fil 3,8)

A conversão é um assunto tão íntimo e complexo que cada percurso manifesta cores e contornos distintos. Eis como Nabeel descreve a realização a que chegou: Ser cristão significa sofrer realmente por Deus. Não como um muçulmano sofreria por Deus, porque Allah assim o comanda, por decreto, mas com a expressão sincera de uma criança agradecida cujo Deus sofreu por ela em primeiro lugar.

Numa altura em que se procura reduzir Jesus a um mero profeta de Israel, o testemunho deste convertido ao Cristianismo ressoa:

Nabeel Qureshi
A boa notícia é que Deus nos ama o suficiente para entrar no mundo e sofrer por nós; que apesar da incapacidade da humanidade de salvar-se a si mesma, Deus salvou-nos. Essa é a beleza do Evangelho: Tem tudo a ver com Deus e com o que Ele fez por causa do seu amor por nós. Um Evangelho sem a divindade de Cristo é um evangelho eviscerado.

Mas o testemunho desafiador de Nabeel não se fica até por esta confissão firme. Pois embora convencido na mente e no coração da verdade do Evangelho, continuava a tremer perante o custo e o sofrimento que previa. Foi tomado pela agonia da autocomiseração e autorrecriminação, diz-nos. Mas subitamente, como que por uma revelação luminosa, todo o seu ser foi inundado por uma nova segurança. Resume-a desta forma: “Isto não é sobre mim. É sobre Ele e o seu amor pelos seus filhos”.

Esta convicção levou-o a comprometer-se com a missão, para poder partilhar livremente o Evangelho libertador que livremente recebeu. Se as conhecesse, certamente teria ecoado as palavras do Papa Francisco em “A Alegria do Evangelho”. “A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria?”

Nabeel levou a cabo o seu trabalho evangélico durante 12 anos intensos. Estudando, falando, escrevendo e aconselhando. Há muitos vídeos dele na internet onde se pode apreciar o seu fervor, a sua visão e o seu humor. Depois, subitamente, o ministério deste jovem, vigoroso e atraente discípulo foi tomado de assalto por um cancro.

Mesmo internado continuou a partilhar a sua fé – até da cama do hospital. Um curto vídeo gravado a pouco tempo da sua morte avisa contra qualquer abuso dos seus ensinamentos. Apesar de sublinhar a importância de aprofundar a verdade, insiste que isso deve ser sempre feito “tendo por base o amor e a paz”. Pois o propósito não devia ser “ferirem-se uns aos outros, mas ajudarem-se uns aos outros”. Reza fervorosamente que o seu ministério deixe “um legado de amor, de paz, de verdade. De cuidarmos uns dos outros”.

É de lamentar que um discípulo com tamanho espírito nos tenha sido subtraído com apenas trinta e quatro anos. Mas as sementes que plantou hão de dar fruto. O seu testemunho corajoso inspirará outros. Deixou-nos jovem, mas já maduro em Cristo.


Robert Imbelli, é sacerdote na Arquidiocese de Nova Iorque e professor associado emérito de Teologia na Boston College. É autor de Rekindling the Christic Imagination:Theological Meditations for the New Evangelization.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Temor a Deus, Fé e Encontro

Ines A. Murzaku
Será difícil esquecer os meses de Maio e de Junho de 2017. Matanças temíveis e atentados suicidas em Manchester (22 de Maio), Egipto (26 de Maio) e no Afeganistão (31 de Maio), onde várias vidas inocentes foram interrompidas. Junho começou com mais atentados em Londres (3 de Junho) e Melbourne (6 de Junho). E estes foram apenas os principais, vários incidentes mais pequenos ocorreram no mesmo período em todo o mundo.

Como é que as pessoas estão a lidar com a dor e a perda? O poeta Tony Walsh leu do seu poema “This is the Place” diante de uma multidão em Manchester: “Diante de um desafio, erguemo-nos sempre”. O bispo Angaelos, da Igreja Copta Ortodoxa do Reino Unido lamentou os mártires coptas, mas perdoou os carrascos com a seguinte afirmação:

“São amados por mim e por milhões como eu, não pelo que fazem, mas pelo que são capazes na qualidade de maravilhosas criaturas de Deus, que nos criou com uma humanidade partilhada. São amados por mim e por milhões como eu porque eu, e nós, acreditamos na transformação.”

Estas expressões públicas de determinação e perdão cristão são bem-vindas numa cultura que parece ter esquecido tanto uma como outro. Mas as bombas e a carnificina deixaram muitas pessoas em todo o mundo com mais medo do que nunca de eventos com multidões, voos, aeroportos e centros de cidade.

Alguns estão a exibir sinais daquilo a que os psicólogos chamam fadiga de compaixão, impotência ou simplesmente desligar perante os horrores que são demasiado grandes e demasiado frequentes. O medo de ataques terroristas surge com frequência nas minhas discussões com alunos. Como é que se lida com o medo? É sequer possível ultrapassar o medo? Ou nas palavras do Papa Francisco: O que é preciso para travar a espiral do medo?

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a coragem não é o contrário do medo. Aristóteles ensinou que é correcto e humano sentir medo de certas coisas, mas é necessária a medida certa de medo, porque “o homem que foge de tudo e teme tudo e não faz frente a nada torna-se cobarde, e o homem que não teme nada mas parte ao encontro de qualquer perigo torna-se imprudente” (Ética a Nicómaco II). Sentir medo perante o perigo é simplesmente uma reacção humana, mas não devemos deixar que o medo nos paralise ou impeça de viver.

A resposta cristã perante este dilema é um paradoxo – ultrapassar o medo como um outro tipo de medo – o temor a Deus. As escrituras e os padres da Igreja são claros a este respeito: se temer Deus jamais terá medo da mesma forma, porque no final de contas nada há a temer. “E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último” (Apocalipse 1,17)

São João Clímaco (579-649) escreveu: “Quem se tiver tornado escravo do Senhor teme apenas o seu Mestre. Mas quem não teme a Deus teme frequentemente a sua própria sombra. O temor é filho da descrença” (Degrau 21).

Santo Efrém da Síria, (306-373), conhecido como mestre da contrição, faz o mesmo argumento sobre o temor a Deus. “Quem teme a Deus eleva-se acima de todas as formas de temor. Ele tornou-se um desconhecido para a todo o medo deste mundo e colocou-o longe de si, e nenhuma espécie de tremor se aproxima dele”.

São João Clímaco
O medo descrito nestes exemplos é um temor saudável ou reverente a Deus, que em última análise está ligada à fé. O temor cristão de Deus não pode ser separado da fé. É uma espécie de medo saudável que que torna firme a fé em Deus. Para os cristãos é um temor que conduz para lá do medo, morte e intimidação normais. É uma fé que transforma as circunstâncias impossíveis em esperança. E é uma fé que fortalece os crentes quando enfrentam o mal, incluindo o terrorismo.

Dietrich Bonhoeffer, o famoso pastor luterano que foi martirizado pelos Nazis, sabia a quem se voltar em tempos de medo e de incerteza. Pregou sobre o medo e como o ultrapassar em 1933, o ano em que Hitler assumiu o poder: “Voltem os olhos para Cristo quando sentirem medo, mantenham-no diante dos olhos, chamem por ele e orem a ele, creiam que ele está convosco agora, a ajudar-vos. Então o medo empalidecerá e esvanecer-se-á, e a vossa fé no nosso Salvador forte e vivo, Jesus Cristo, vos libertará”.

A fé firme permite confiar em Deus. Vejam os mártires coptas que foram massacrados por terroristas no dia 26 de Maio de 2017, mortos porque se recusaram a negar Cristo. Estes corajosos mártires aceitaram mortes terríveis, por causa da fé.

Ainda assim, a questão não desaparece completamente. Será que o temor a Deus e a fé em Deus chegam para ultrapassar o medo de um atentado? A resposta não é simples. Os terroristas não se limitam a matar os inocentes. Eles atacam o espírito, para intimidar, para cansar, desencorajar e deixar as pessoas inseguras. Os terroristas querem destruir almas e, fundamentalmente, os valores e as esperanças.

E vale a pena fazer aqui uma distinção. Uma pessoa que teme Alá, uma pessoa de fé que reza de forma sincera, que jejua e respeita a tradição islâmica, é um muçulmano. Uma pessoa que encara a sua tradição religiosa como um empreendimento político cujo fim é a purificação de outras tradições – que considera corruptas e corruptoras – é um islamita que não tem qualquer pudor em matar até outros muçulmanos.

Tenho noção do quão difícil vai ser o diálogo que temos de empreender. É difícil saber sequer quando estamos a falar com um muçulmano e quando estamos a lidar com um islamita. É bom que cultivemos uma desconfiança saudável – talvez até um certo nível de medo – quando assistimos a tanta conversa ingénua sobre “diálogo”.

Mas também aqui devemos ultrapassar o medo. Assumir o risco de dialogar com o muçulmano, o fiel muçulmano fiel a Deus, que sofre e é também ele vítima dos terroristas, é uma parte necessária tanto da autodefesa como do esforço para “travar a espiral do medo”. E esse processo de conquistar o medo poderá também ajudar a combater o terrorismo.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 24 de Junho de 2017 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pedro diz a Marco que "os teus sofrimentos são os meus"

Hoje foi um dia histórico, com os líderes das três maiores comunhões cristãs a encontrarem-se no Cairo. O Papa Francisco teve um dia pleno de eventos, começando com um discurso na Universidade Al-Azhar, onde sublinhou que perante a violência e as crises no mundo, a religião não é o problema, mas parte da solução.

Depois Francisco fez um discurso diante do Presidente do Egipto, fazendo os maiores elogios ao país mas referindo muitas vezes os cristãos, o que deve ter sido muito consolador para eles.

Finalmente, encontrou-se com o Papa Tawadros dos coptas, tendo falado com grande emoção e intensidade sobre as ligações entre os dois, que datam até São Pedro e São Marcos e que hoje são fortalecidos pelo comum testemunho dos mártires.

Amanhã Francisco continua com a sua agenda, celebrando missa para a comunidade católica e encontrando-se com bispos e clero. Tudo acompanhado pela Renascença, tanto em antena como no liveblog criado para o efeito.

Morreu esta sexta-feira o padre Joaquim Carreira das Neves. O franciscano padre Albertino da Silva acompanhou-o de perto e o padre Tolentino conhecia-o bem e partilham as suas memórias, mas o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa também não quis deixar de lhe prestar homenagem.

De ontem temos a notícia de que o Governo vai conceder tolerância de ponto para a visita do Papa a Fátima em Maio. António Costa diz que seria insensível não o fazer.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Opção dominicana e capacidade de escuta

A tarde de ontem foi marcada pela tragédia da explosão na fábrica de pirotecnia em Avões, Lamego. São seis mortos confirmados, mas tudo indica que serão oito. O bispo de Lamego (na imagem) não se quer ficar pelas meras condolências

Outra tragédia aconteceu na Síria, como ontem partilhei. Hoje o Papa classificou-a como “inaceitável”.

O Papa recebeu esta quarta-feira em Roma uma delegação de líderes muçulmanos do Reino Unido a quem falou da importância de se dialogar com base na escuta, e não nos gritos.


Porque hoje é quarta-feira temos um artigo do The Catholic Thing em que David Warren argumenta que tanto ou mais que uma “opção beneditina”, como tem sido proposta pelo americano Rod Dreher, o mundo cristão precisa da inspiração de São Domingos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O Papa em Assis
Decorreu esta terça-feira a jornada de oração pela Paz em Assis, com a presença do Papa Francisco. O Papa almoçou com vítimas de guerra e lembrou os que sofrem “o silêncio ensurdecedor da indiferença”. O ponto alto foi o discurso diante dos restantes líderes religiosos, em que Francisco condenou o “paganismo da indiferença”.

Neste encontro marcaram presença muitos líderes, mas curiosamente, numa altura em que se diz que as relações entre a China e o Vaticano estão a melhorar, o Dalai Lama não esteve em Assis. Coincidências.

Também esta terça o Patriarca de Lisboa deu uma conferência de imprensa em que foram anunciadas várias actividades para celebrar os 300 anos de elevação de Lisboa a Patriarcado, curiosamente por um Papa chamado… Clemente. Mas D. Manuel Clemente falou ainda do encontro de Assis e, claro, da eventual visita de Francisco a Fátima. Basicamente o Patriarca admite que os bispos nada sabem de concreto e deposita esperanças na visita, em Outubro, do secretário de Estado do Vaticano.

Depois de ter ganho um prémio no valor de 50 mil euros, a Irmandade da Torre dos Clérigos decidiu doar o dinheiro todo a uma instituição de caridade.

E de muito longe, no Guam, chega a notícia de que o enviado do Papa já disse publicamente que pediu à Santa Sé que remova o arcebispo local, que é acusado de ter abusado de quatro rapazes nos anos 70. Anthony Apuron pode ser o primeiro bispo condenado por abusos.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Homens sem fé são perigosos

Al-Tayeb, imã de Al-Azhar
O imã do Al-Azhar, que esteve na segunda-feira com Francisco, teceu grandes elogios ao Papa e diz que os homens sem religião são uma ameaça para os seus próximos.

Francisco está preocupado com a tragédia das crianças desaparecidas.


Mais um caso de polícia envolvendo a Igreja, um padre de Paredes está acusado de maltratar idosos ao seu cuidado, a Obra da Rua, a que pertence, diz que o sacerdote está a ser vítima de uma campanha de achincalhamento.

Já em Roma não mete polícia (o que já não é nada mau) mas registam-se duas demissões de peso no Banco do Vaticano.

Hoje é dia de Catholic Thing. No artigo desta semana o jesuíta James V. Schall revisita Jacques Maritain, que disse que o homem está sujeito a uma “grande sede” que passa a vida a tentar saciar

quarta-feira, 30 de março de 2016

Diálogo Confuso com os Muçulmanos

Robert Reilly
Em 2013 a Faith and Reason Institute (que detém o The Catholic Thing) publicou, juntamente com a Westminster Institute uma monografia que eu escrevi sobre as Perspectivas e Perigos do Diálogo Católico-Muçulmano. Neste texto examinei uma década e meia de esforços por parte das três conferências episcopais regionais de desenvolver este diálogo. Os resultados não eram encorajadores.

Quem não se mostrou minimamente preocupada foi a Conferência Episcopal dos EUA, que aumentou a parada e criou uma comissão de diálogo nacional. O que podemos esperar desta iniciativa? Mais confusão, temo dizer.

Há vários problemas. Tal como a maioria dos Americanos, os bispos sabem pouco ou nada sobre o Islão. Logo, não compreendem o contexto em que falam os seus interlocutores. O resultado é que partem do princípio que os seus parceiros de diálogo são apenas uma imagem espelhada deles mesmos. É um grande erro.

Um exemplo foi dado recentemente pelo bispo de San Diego, Robert W. McElroy, no Instituto de Justiça e Paz da Universidade Joan B. Kroc, em San Diego. O Catholic News Service fez manchete com “Bispo desafia católicos a combater ‘maré feia de preconceito anti-islâmico’”. O bispo considera que os católicos devem erguer a voz contra as “distorções de ensinamentos e teologia muçulmana sobre a sociedade e o Estado”.

Que distorções são essas? Aparentemente devemos ver com revolta as “repetidas falsidades” de que o Islão é inerentemente violento, que os muçulmanos procuram impor a Sharia no lugar da Constituição americana e de que a imigração muçulmana ameaça a “identidade cultural do povo americano”.

O parceiro de diálogo do bispo McElroy nessa noite era Sayyid Syeed, líder da Sociedade Islâmica da América do Norte (ISNA), cujo nome já me era conhecido por ser uma presença regular no diálogo católico-muçulmano da minha região. Talvez o bispo não conhecesse a história do ISNA, que surgiu da Irmandade Muçulmana, a primeira organização no mundo a trabalhar pelo restabelecimento do califado e que se dedica à implementação da Sharia.

Mas não se fiem apenas em mim.

O Dr. Muzammil Siddiqi, ex-presidente do ISNA e participante frequente nas sessões de diálogo, disse o seguinte ao jornal “Pakistan Link”: “Não nos devemos esquecer que as leis de Allah devem ser estabelecidas em todas as terras, e que todos os nossos esforços devem conduzir-nos nessa direcção”. Em 2001 escreveu “à medida que mais pessoas aceitam o Islão, insha’allah, isso levará à implementação da Sharia em todas as regiões”.

Zuhdi Jasser, fundador do Forum Islâmico Americano para a Democracia adverte que, na convenção anual do ISNA em 1995, o orador principal, Imam Siraj Wahhaj, pediu a substituição da Constituição pelo Alcorão. Não admira que Jasser lamenta aquilo a que chama uma “relação infeliz entre a hierarquia católica e o ISNA”. (Jasser, ao que parece, não seria um bom parceiro para este tipo de diálogo).

Embora reconheça a situação terrível que os cristãos enfrentam no Médio Oriente, o bispo McElroy louvou o respeito do Islão pelo que chama “os povos do Livro”. Foi logo ecoado por Syeed que disse, de acordo com a CNS, que o primeiro milénio foi marcado por boas relações entre o Cristianismo e o Islão, mas que tudo isso mudou no milénio seguinte, que incluiu as cruzadas.

É uma perspectiva interessante da história.

Sayyid Syeed
No ano 650 os muçulmanos já dominavam o Iraque, a Síria, Líbano, Palestina e Egipto, tudo países cristãos até então, cujos habitantes passaram a ter o estatuto secundário de dhimmis. Passado menos de um século o Islão tinha-se espalhado para o Norte de África e Espanha – tudo isto no primeiro milénio das “relações positivas”. Em nenhum destes casos a ocupação foi pacífica.

Sugiro aos bispos que coloquem nas suas listas de leitura o livro de Bat Ye’Or “O Declínio do Cristianismo Oriental sob o Islão: Da Jihad aos Dhimmis”, para que possam falar com rigor sobre o respeito que o Islão revelava pelos “povos do livro” durante o primeiro milénio e posteriormente. Com base neste passado, será tão inadequado dizer que há algo “inerentemente violento” no Islão?

Syeed concluiu, dizendo que no segundo milénio “as duas fés dividiram o mundo em ‘a casa do Islão’ e ‘a casa do Cristianismo’”. Na verdade essa divisão foi feita muito antes e pelo Islão, que criou a distinção entre dar al-islam e dar al-harb, com o mundo cristão a ser descrito como a “casa da Guerra”.

Mas será esta distinção seja antiquada? Por volta da mesma altura em que o bispo McElroy falava, num sermão de sexta-feira em Edmonton, Alberta, o imã Shaban Sherif Mady declarava: "Anseiam por isto, porque o profeta Maomé disse que Roma iria ser conquistada! E será conquistada. Constantinopla foi conquistada. Roma é o Vaticano, é o coração do Estado cristão".

Pergunto, então, quem é que está a entender mal o Islão, o Imã Siraj Wahhaj ou o bispo? (Nem falo em Syeed, porque ele saberia certamente que Maomé disse isto).

Por outras palavras o evento do Instituto de Paz de San Diego proporciona um microcosmos para tudo o que costuma correr mal com o diálogo católico-muçulmano quando este é conduzido pelas conferências episcopais. Nenhum dos muitos reformadores muçulmanos intelectuais com quem trabalhei ao longo dos anos foi alguma vez convidado para um encontro destes. Na maior parte, apenas as organizações muçulmanas se devem dar ao trabalho de se candidatar.

Isto ajuda a legitimar os clones da Irmandade Muçulmana e aliena as verdadeiras vozes de reforma muçulmana. Por outro lado, uma vez que acabam frequentemente por representar mal a substância, os diálogos acabam por espalhar equívocos sobre o Islão em vez de os ultrapassar.

Uma vez que os muçulmanos se estão nas tintas sobre o que os católicos dizem sobre o Islão, os únicos a quem este tipo de diálogo confunde são os próprios católicos. Sugiro, como lema para esta nova iniciativa de diálogo da USCCB, o dito de Bento XVI de que “a verdade torna possível o consenso” e, por consequência, a insensatez torna-a impossível.

De acordo com a reportagem da CNS da semana passada, o bispo McElroy disse que a revolta que domina o actual clima político é um sinal de alienação popular por as pessoas não sentirem que estão a ser ouvidas pelas elites. O bispo McElroy é uma das elites. Estará a ouvir?


Robert Reilly é director do Westminster Institute e ex-director da Voice of America. Leccionou na National Defense University e serviu na Casa Branca e no Gabinete do Secretário da Defesa. É autor de The Closing of the Muslim Mind: How Intellectual Suicide Created the ModernIslamist e o seu mais recente livro é Making Gay Okay: How Rationalizing Homosexual Behavior is Changing Everything.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 21 de Março de 2016 em The Catholic Thing)

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Vocação não = canonização

Papa Frank - Rock Star
No dia em que o novo governo tomou posse, D. Manuel Clemente não quis fazer comentários políticos mas disse que está disponível para ajudar a trabalhar pelo bem comum.

Já o Papa esteve em África onde falou da importância do diálogo inter-religioso para um “mundo ferido por conflitos”.

Mais tarde Francisco esteve com religiosos e religiosas. O Papa deixou de lado o seu discurso escrito e improvisou, dizendo que o chamamento não é o mesmo que a canonização. Tenho no blogue uma transcrição do discurso, feito na hora, pelo que terá alguns erros e falhas mas permite perceber o essencial do que Francisco quis dizer.

Logo a seguir o Papa foi à sede da ONU em Nairobi e falou sobretudo da questão ecológica, deixando algumas palavras fortes também.


As jornadas mundiais da Juventude vão ser em Cracóvia, como já se sabia, e esperam-se mais de dois milhões de jovens! Já estão confirmados sete mil portugueses.

O artigo desta semana do The Catholic Thing trata de uma praga do nosso tempo.Chama-se pornografia, está por todo o lado, e fere a dignidade de quem aparece,de quem produz e de quem usa.

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