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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A Salvação vem dos Judeus

Francis X. Maier
Num artigo de opinião no “Wall Street Journal” de final de Novembro, William Galston escreveu que tem havido um aumento acentuado de antissemitismo na Europa Central e de Leste, desde 2015. Na Polónia, Ucrânia, Rússia e Hungria, onde em tempos viveu a maior parte dos judeus europeus, um grande número de pessoas sondadas revelou acreditar que os judeus têm demasiado poder no mundo dos negócios e dos mercados financeiros, que falam demasiado da Shoah [Holocausto] e exercem demasiado controlo sobre os assuntos globais.

O Holocausto é a maior catástrofe moral do Ocidente moderno. Mas é com demasiada facilidade que nos esquecemos das suas lições. “A criação do Estado de Israel” em 1948, escreve Galston, serviu de desculpa para a renovação da “antiga acusação de deslealdade judaica”. Hoje, novamente, as acusações de deslealdade são “uma presença constante da vida judaica” – e não apenas na Europa. Globalmente, 38% dos inquiridos por uma sondagem da Anti-Defamation League acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que à nação onde vivem.

Na Europa Ocidental o crescimento de comunidades muçulmanas e o aumento da sua influência política agravaram o problema. A violência contra os judeus em França aumentou mais de 20% em anos recentes e o rabino-mor da Grã-Bretanha criticou publicamente o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, pelo aumento do antissemitismo nas fileiras do seu partido, meros dias antes das mais recentes eleições. O ódio aos judeus não é um monopólio da direita populista na Europa. A esquerda progressista tem a sua própria variedade tóxica do mesmo veneno. 

No que diz respeito aos Estados Unidos, os americanos geralmente revelam baixos índices de antissemitismo. Mas mesmo por cá, 33% dos sondados acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que ao país de que são cidadãos. E crimes de ódio, como o esfaqueamento de vários judeus que celebravam o Hannukah em Monsey, Nova Iorque, estão a tornar-se mais comuns.

O anti-judaísmo tem uma longa história na cultura cristã. Começa com as discussões iniciais na comunidade judaica sobre a identidade messiânica de Jesus e a teologia cristã que lhe sucede e procura substituir nos séculos seguintes. Mas foi o próprio Cristo – obviamente um judeu – que disse que “a salvação vem dos Judeus” (Jo. 4, 19-22) e o Cristianismo simplesmente não faz qualquer sentido sem as suas raízes judaicas. 

O Concílio Vaticano II procurou reformar e restaurar as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica através de documentos como Nostra Aetate (“No Nosso Tempo”). E enquanto declaração da Igreja tratou-se de um ponto fulcral no diálogo entre cristãos e judeus, mantendo-se tão importante hoje como era em 1965, quando foi publicada. Mas palavras belas e boas ideias não têm força antes de tomarem forma numa vida que prova, pelos actos, que são verdadeiras. E desse ponto de vista, nada encarnou a recuperação das raízes judaicas do cristianismo de forma tão forte como a vida e a obra de Aaron Jean-Marie Lustiger.

Lustiger com o Papa João Paulo II
Lustiger nasceu em 1926 numa família de imigrantes judaicos da Polónia. O seu avô era rabino e os seus pais tinham uma chapelaria em Paris. Na sua vida familiar eram em larga medida seculares, mas ainda assim tiveram o cuidado de manter o Aaron afastado das celebrações e observâncias católicas em França. Contudo, aos 10 anos o rapaz encontrou um exemplar do Novo Testamento e leu-o em segredo, convertendo-se, contra a vontade dos seus chocados pais, aos 14 anos de idade.

Nunca abandonou o seu nome judaico. Acrescentou-lhe o nome cristão Jean-Marie no baptismo, mas nunca perdeu um intenso orgulho pela sua identidade judaica. Sobreviveu à II Guerra Mundial, escondido por uma família católica francesa. A sua mãe morreu em Auschwitz em 1942 e outros membros da sua família alargada perderam-se na Shoah. Mais tarde foi ordenado padre, serviu como capelão em universidades parisienses e eventualmente foi nomeado bispo de Orleans, vindo a tornar-se mais tarde cardeal arcebispo de Paris.

Lustiger tinha um forte intelecto – foi eleito para a Academia Francesa em 1995 –, uma energia inesgotável e um gosto excêntrico para as artes. Foi autor de uma quantidade prodigiosa de livros e conferências e tinha uma personalidade maior que a vida. Estar e falar com ele, como eu fiz em várias ocasiões, era uma experiência inesquecível, como entrevistar uma locomotiva deambulante.

Para ele eram especialmente importantes as oportunidades que teve, cada vez mais ao longo dos anos, de encontrar-se com líderes, ouvintes e estudantes judaicos. Nem sempre era fácil. Os judeus tendem a ver os convertidos ao cristianismo como apóstatas e repudiadores da comunidade. Lustiger respeitava este sentimento mas não deixou que o impedisse de procurar amizades e parceiros de diálogo na comunidade judaica. Mais para o fim da sua vida escreveu o seu próprio epitáfio, resumindo-se da seguinte maneira: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Recordo Lustiger, que morreu em 2007, aos 80 anos, por esta simples razão: Ele compreendia que para os cristãos o antissemitismo/anti-judaísmo não é apenas um mal, mas uma forma particularmente grotesca de blasfémia e ódio por si mesmo; um ódio pelas nossas origens e raízes no Deus de Israel. Qualquer católico que procure aprofundar a sua fé e aprender a importância do judaísmo para os cristãos através das palavras deste cristão profundamente judeu e judeu profundamente cristão tem apenas que ler os seus livros “Choosing God, Chosen by God” e “A Promessa”. 

Como o próprio Lustiger não se cansava de dizer:

Uma das tragédias da civilização cristã é que se tornou ateia mas afirma permanecer cristã… A sorte reservada aos judeus é uma prova para saber se nós, enquanto pagãos cristianizados, aceitámos verdadeiramente Cristo. É verdadeiramente a prova final. Não se trata simplesmente de uma relação entre o amor pelo vizinho e o amor a Deus. O judeu permanece, de forma muito precisa, um sinal de Eleição e, por isso, de Cristo. Não reconhecer a Eleição dos judeus é não reconhecer a Eleição de Cristo. E é a incapacidade de reconhecer a nossa própria eleição. A lógica é implacável.

A única resposta apropriada é: Amen.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 8 de janeiro de 2020)

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Martelo em Notre Dame, Marcelo nos Açores

Turistas retidos na Notre Dame, Paris
Mais uns dias, mais dois atentados. Um em Londres, outro em Paris, sendo que o da Catedral de Notre Dame, hoje, não causou vítimas.

A Igreja não pode desistir da Juventude, diz D. Pio Alves. Já o responsável nacional das Equipas de Jovens de Nossa Senhora considera que com o próximo sínodo a Igreja está a desafiar os jovens à proactividade.

Marcelo nos Açores. O bispo de Angra diz que o Presidente pode ajudar a resolver os problemas da região.

Luís Miguel Cintra agradece o reconhecimento da Igreja, que lhe atribuiu o Prémio Árvore da Vida.

Ontem o Papa voltou a apelar á protecção do ambiente, isto no mesmo dia em que louvou Pio XII por este se ter arriscado para salvar judeus.

E por fim, a Cáritas portuguesa quer ajudar o povo da Venezuela, mas não sabe bem como fazer chegar a ajuda ao país.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Não confundir família com outro tipo de união

O Papa Francisco discursou esta manhã à Rota Romana e disse que o mundo não pode confundir a família natural com outras formas e união. Disse também que a falta de fé não chega para justificar a nulidade de um casamento, esclarecendo assim uma dúvida que deu bastante que falar há uns meses.

Hoje foi dia de publicar muita coisa no blog. Começo com as transcrições integrais das entrevistas do padre Peter Stilwell e de Esther Mucznik, a propósito da reportagem que fiz de antecipação à visita do Papa Francisco à sinagoga de Roma.

Essa visita, se bem se lembram, deu origem a uma polémica nas redes sociais sobre se os cristãos têm obrigação de evangelizar os judeus, ou não, para a qual contribuí aqui, respondendo a Tiago Cavaco, pastor evangélico. Entretanto dei-me conta da preocupação de alguns protestantes, que temiam que eu estava a dizer que a posição do Tiago é a de todo o protestantismo. A Rute Salvador, que é pastora na Igreja Presbiteriana, mandou-me a sua opinião, que publiquei, com a sua autorização.

E porque o assunto dá pano para mangas, isolei noutro post a resposta do padre Peter sobre esta questão à qual juntei aposição de um bispo jordano, que entrevistei noutro âmbito, e que vai no sentido contrário.

Há, como vêem, muito para ler.

Mas mesmo que não tenham tempo para nada disto, por amor de Deus não deixem de ler o artigo de Randall Smith do The Catholic Thing que critica o facto de a nossa sociedade conviver, aparentemente sem grande preocupação, com o facto de 92% dos bebés com trissomia XXI serem abortados. Bem a propósito no dia da Caminhada pela Vida, nos EUA.

"Holocausto foi choque espiritual e psicológico para a Igreja"

Transcrição completa da curta entrevista que fiz ao padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau e especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

O Papa Francisco visita no domingo a sinagoga de Roma. Que significância é que pode ter este gesto?
É o terceiro Papa a visitar a Sinagoga de Roma e é preciso lembrar que a Sinagoga de Roma é simbolicamente muito significativa, porque a grande carta de São Paulo aos Romanos, que foi logo nos primeiros anos do Cristianismo, foi escrita precisamente para a comunidade judaica em Roma, da qual fazia parte também um grupo de judeus que eram cristãos, que eram discípulos de Jesus Cristo. Essa comunidade, provavelmente foi visitada pelo próprio São Paulo e depois por São Pedro e infelizmente ao longo dos séculos sabemos que a relação entre a Igreja Católica e a comunidade judaica resfriou e tornou-se distante. A certa altura os Papas obrigaram os judeus a viver num gueto e é sobre as colinas desse gueto que se construiu a actual sinagoga de Roma. 

Portanto a visita que o Papa faz, na sequência dos seus antecessores, vem na linha de uma perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II de diálogo com a comunidade judaica, compreendendo a comunidade judaica como nossos irmãos na fé. Temos uma grande parte da Bíblia em comum, temos uma longa tradição em comum e infelizmente ao longo dos séculos houve momentos de tensão, de incompreensão, de falta de espírito, de compreensão, por parte, nomeadamente das comunidades maioritárias cristãs, que acabaram por desaguar naquilo que foi a violência da Segunda Guerra Mundial, a chamada Shoah [termo que os judeus usam para designar aquilo a que ficou conhecido como o holocausto].

É à luz dessa experiência que o Concílio faz a sua reflexão e que vários documentos emanados posteriormente pela Santa Sé chamam a nossa atenção para a necessidade de não mais repetir esses erros do passado em que não reconhecemos a nossa fraternidade na fé. 

Considera que foi o holocausto que determinou esta mudança de paradigma?
É muito claramente isso. Basta ler documentos saídos da Igreja um pouco antes da II Guerra Mundial e outros depois da II Guerra Mundial e nota-se a diferença de tom. 

A diferença de tom é resultado de um choque espiritual e psicológico que a Igreja viveu ao dar-se conta do vírus que tinha alimentado no seu seio, que evoluiu para o Nazismo, que não tem nada a ver com Cristianismo nem com a Igreja Católica, mas que nasce neste contexto de uma cultura ocidental em que a tradição de perseguir e mal-tratar os judeus e das comunidades judaicas, desde a literatura até ao quotidiano das cidades, era o habitual. Portanto isso muda radicalmente e nos anos 60 aqueles que são incumbidos de redigir os documentos do Vaticano II, o Cardeal Bea, nomeadamente, é incumbido dessa função por um Papa, João XXIII, que foi delegado apostólico na Turquia durante a II Guerra Mundial, onde ajudou os judeus que fugiam do Nazismo e que passavam por Constantinopla, ou Istambul, a caminho de Israel, portanto é o Papa que tem muito claro na sua consciência que esta tragédia terrível que foi a Segunda Guerra Mundial para a comunidade judaica, que o Cristianismo tem de dar uma volta, tem de perceber o que se passou em termos de desafio espiritual. 

Depois, o Papa João Paulo II é o primeiro que visita Auschwitz. É preciso lembrar que João Paulo II teve contacto com judeus na Polónia, de quem era amigo, e percebeu a violência da Segunda Guerra Mundial contra a população judaica quase em primeira mão, ou pelo menos muito de perto, e portanto faz questão, quando visita a Polónia, de ir para Auschwitz rezar pelas vítimas. Portanto João Paulo II é o primeiro que visita a Sinagoga de Roma, Bento XVI visita a sinagoga e, segundo consta, mantém ainda uma correspondência directa e pessoal com o rabino da Sinagoga, e agora temos o Papa Francisco que, na Argentina, tinha amigos na comunidade judaica e que protagonizou o diálogo com a comunidade judaica na Argentina, que vai retomar esta tradição de o Papa visitar a sinagoga. 

São duas grandes comunidades em termos da tradição espiritual, que se encontram na mesma cidade, e que é bom que se encontrem, como dizia o rabino há dias, numa entrevista, é bom que numa época em que tantas vezes a religião é usada para justificação para violências que são blasfemas, como diz o Papa Francisco, é bom que estas duas comunidades que tantas vezes tiveram dificuldades no passado dêem testemunho que é possível, apesar dessa história, apesar dessa memória, ser-se possível sentar à mesa e dialogar, e encontrarem-se como amigos.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?
Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta.

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. [Sobre este assunto, ver aqui]

Para esta reportagem também foi entrevistada Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa.

"Holocausto provocou abalo na consciência da Cristandade"

Esther Mucznik
Transcrição completa da curta entrevista que fiz a Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

Esta visita do Papa à sinagoga de Roma no domingo, o que representa para a comunidade judaica?
É uma visita simbólica, em primeiro lugar, porque os últimos dois Papas, um dos primeiros gestos que fizeram sempre foi visitar a Sinagoga de Roma, que é de facto uma sinagoga simbólica nesse aspecto. Portanto penso que é mais um passo que este Papa dá, no sentido de uma aproximação e de uma convivência muito boa com o Judaísmo, que aliás ele tem mostrado mesmo antes de ser Papa, aliás ele tinha uma óptima relação na Argentina com o rabino Abraham Skorka e eu penso que esta visita é um gesto muito importante. 

É sempre um gesto simbólico. A visita do Papa à sinagoga de Roma é sempre um gesto simbólico. Ainda o outro dia estava a ver um documento do Vaticano, no âmbito da comemoração da encíclica Nostra Aetate, e o documento diz coisas que são profundamente significativas para nós judeus. Tenho aqui até uma frase: "Que é preciso aprofundar o diálogo teológico, o diálogo com o judaísmo, e que este tem um carácter inteiramente diferente e se situa a um nível inteiramente diferente das outras religiões. Que a fé dos judeus, atestada na Bíblia, não é para os cristãos uma outra religião, mas o fundamento da sua própria fé." E continua dizendo que com o judaísmo se fala sobretudo de um diálogo intra-religioso, achei isto muito curioso, não inter-religioso, mas intra-religioso ou intra-familial. 

Parece, por isso, que o Papa situa o Judaísmo o diálogo com o judaísmo num âmbito completamente diferente. Aliás ele disse logo desde o início que os judeus são os "irmãos mais velhos" dos cristãos. E portanto acho que tem havido uma série de gestos deste Papa, que remontam ao período em que ele ainda não era Papa, que coloca as relações com o judaísmo num nível especial, e penso que para o judaísmo, para nós judeus, é extremamente importante, porque quando pensamos nos dois mil anos de ausência de diálogo, para não dizer mais, no quanto foi trágico para os judeus, penso que se deve valorizar muitíssimo esta nova situação, a partir de 1965, evidentemente, mas que se tem vindo a cimentar e, nomeadamente com o Papa Francisco, e com os outros dois também, sobretudo, mas nomeadamente com o Papa Francisco se tem vindo a desenvolver e cimentar de uma forma muito especial.

Falava dessa história trágica, que todos conhecemos, nomeadamente no que diz respeito à Shoah, ou ao Holocausto, como costumamos dizer, sendo obviamente um episódio terrível da história, acabou se calhar por servir de pivot para esta nova relação entre cristãos e judeus, nomeadamente entre a Igreja Católica e os judeus, ou não?
Essa sempre foi a minha convicção. Acho que a dimensão, as características da tragédia do holocausto, acho que muito provavelmente provocaram um abalo nas consciências em geral, mas nomeadamente também na consciência da Cristandade. Penso que isso de facto teve um papel importante. Aliás, acho que há um documento do Vaticano que se chama “Nós Recordamos” que, embora não fazendo uma ligação automática, evidentemente – nem tinha que fazer – entre as perseguições ao longo de dois mil anos de anti judaísmo cristão, essencialmente, aponta o facto de isto ter podido contribuir para o que aconteceu.

Acho que há de facto um reconhecimento que esses dois milénios de perseguições de facto contribuíram para criar uma mentalidade que de certa maneira considerasse de alguma normalidade a perseguição aos judeus, que tomou obviamente com o Nazismo uma forma diferente, totalmente diferente, com características diferentes, mas que tinham esse fundo de anti-judaísmo que existiu ao longo dos séculos.

Para esta reportagem foi também entrevistado o padre Peter Stilwell, especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico.

Ainda os judeus: Nem todos os católicos pensam o mesmo

Na sequência do que tenho colocado neste blog sobre o problema teológico de saber se os cristãos devem ou não tentar evangelizar os judeus, coloco agora mais dois contributos para aprofundar a discussão. São contraditórios, o que apenas vem dar força ao título que escolhi para o post...

A primeira é um excerto da entrevista que fiz na semana passada ao padre Peter Stilwell, especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa à Sinagoga de Roma.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?

Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta. 

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. 

Entretanto ontem entrevistei, a propósito de outro assunto, o vigário-patriarcal da Jordânia, o bispo Maroun Lahham. Coloco aqui a pergunta que lhe fiz sobre este assunto, no inglês original.

The Pope’s recent visit to the Synagogue in Rome raised once more the issue of whether Christians should try to convert Jews or whether they already have a salvific covenant with God, and therefore there should not be specific missions to the Jews. What is your opinion, and what is the standard practice of the Latin Patriarchate in Jerusalem?
Firstly, we do not try to evangelize the Jews in Israel, it is very hard. Jesus himself tried, and he failed. Unless we evangelize by our witness, by our life.

Secondly, this famous document which was published on the 50th anniversary of Nostra Aetate... Yes, they repeat more than 100 times that the covenant of God is irrevocable. The mere fact that they repeat it over 100 times means that they don't believe it. When you have to insist on something so many times, there is something wrong. 

I understand that the west wants to repair the bad history with the Jews, but you cannot use the Bible as an instrument for political or historical issues.

If you go to the Bible, sure there is this sentence, but there are others which say the opposite.

It is a kind of Western theology, based on historical events and political events and psychological complexes, while theology, to be a true theology must be free, like the Holy Spirit, from any pressure here and there. So for me this is not really theology.

Ver também: 

Ainda os judeus: Nem todos os protestantes pensam o mesmo

Quando escrevi este artigo, em resposta a outro do meu amigo Tiago Cavaco, alguns protestantes temeram que eu estava a generalizar as posições e interrogações do Tiago a todo o mundo das igrejas reformadas.

Não sendo de modo algum especialista, sei bem que existe uma imensa variedade no mundo protestante. Em todo o caso, fica aqui o esclarecimento e fica, também o simpático e-mail que recebi da pastora presbiteriana Rute Salvador, que publico com a sua autorização:

Li o artigo que escreveu a propósito da afirmação do Papa Francisco e das reações do pastor Tiago Cavaco. Nesse texto parece-me que considera a opinião dele como sendo reflexo da opinião geral dos "protestantes", como refere.

Não posso deixar de reagir, referindo que, sendo eu protestante, demarco-me desta aparente generalização, esta identificação com as posições daquele pastor que diferem de muitas das posições das igrejas originárias na Reforma e associadas ao Conselho Mundial de Igrejas ou a outras organizações ecuménicas.

Também me parece que é importante referir que, pelo menos para a maioria dos protestantes das igrejas históricas da Reforma (pertencentes ao COPIC, em Portugal, e às organizações ecuménicas internacionais), as afirmações e atitudes do Papa Francisco têm sido seguidas com interesse, respeito, simpatia e admiração. A meu ver, as suas palavras e as suas atitudes são muito mais congruentes com o que é a essência da fé cristã, do amor a Deus e ao próximo e da aceitação do outro (independentemente de subsistirem muitas diferenças). Tem, realmente, aproximado a Igreja Católica de muito do que era/é o sentimento e o pensamento de grande parte dos seus membros, que não se reviam em muitas "posições oficiais". Um trabalho admirável, de grande coragem, que creio ser inspirado no Evangelho. Admiro bastante mais este Papa do que o anterior, o que também contradiz a afirmação que faz no seu artigo (embora reconheça que haverá quem não seja desta opinião)...

Voltando à afirmação do Papa Francisco, devo dizer que me parece certíssima. Ainda que uma nova Aliança tenha surgido com Jesus Cristo, isso não invalida a antiga. Judeus e cristãos (e muçulmanos) adoram o mesmo Deus... um Deus que eu acredito que se pode revelar, na sua sabedoria, de muitas maneiras, em muitos momentos da história, de formas diferentes para que aqueles que são sua criação possam reconhecer a Sua presença. Devemos pregar o Evangelho? Claro! Devemos considerar que a nossa forma de fé é mais legítima do que outras? Tenho dúvidas...

O pastor/professor Dimas de Almeida costumava afirmar, nas suas aulas enquanto professor de Teologia, que se uma pessoa ou uma igreja se considerar "dona da verdade" (o que implica considerar que todos os outros estão errados) estará a meio caminho para a Inquisição. Nunca me esqueci desta afirmação, e faz parte da minha maneira de viver a minha fé.

Devo confessar que escrevi e apaguei muita coisa neste e-mail. Hesitei muito sobre se o deveria enviar ou não. Não costumo alimentar polémicas partilhando a minha opinião em blogues ou redes sociais... nem mesmo por e-mail. Respeito as opiniões diferentes da minha. No entanto, não pude deixar de me manifestar desta vez. Embora creia que não tenha sido essa a sua intenção, o que escreveu pode ser visto como uma generalização, que eu peço que procure evitar. As posições do pastor Tiago Cavaco são legítimas, mas são as dele. Não refletem o Protestantismo em geral.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Judeus precisam de Jesus?

O Papa na Sinagoga de Roma
No domingo o Papa visitou a sinagoga de Roma. É uma visita que cumpre uma tradição recente, mas é significativa, como explicam aqui a Esther Mucznik e o padre Peter Stilwell que concordam, ambos, que o ponto de viragem nas relações entre as duas fés foi o holocausto.

Da visita, destaca-se o facto de o Papa ter falado da irrevogabilidade da Antiga Aliança entre Deus e Israel. Podem parecer palavras de circunstância, mas não são, de todo. Trata-se de uma questão premente na teologia católica e, sobretudo, nas relações com os judeus. Será que os católicos têm a obrigação de evangelizar os judeus? Neste artigo explico um bocado melhor que questão é esta, de onde vem e quais as implicações.

Morreu no Quénia um muçulmano que se recusou a abandonar os cristãos durante um ataque terrorista, dizendo que se iam matar os cristãos teriam de matar todos. Salvou a vida a muitas pessoas num gesto de enorme coragem. Que Deus lhe dê eterno descanso.

O Papa Francisco escreveu esta manhã uma mensagem para o Fórum Económico Mundial de Davos a pedir que os reunidos não se esqueçam dos mais pobres.

E no artigo do The Catholic Thing de hoje temos Randall Smith a falar do paradoxo de sermos uma cultura que compra e vende arte por milhões de euros, enquanto extermina crianças por terem trissomia XXI. Nem sempre concordo a 100% com os textos que apresento nesta rubrica, mas este assino por baixo.

Sobre a questão da conversão dos judeus

Edith Stein
No passado Domingo o Papa Francisco esteve na Sinagoga de Roma, onde discursou. A dada altura disse o seguinte: “Os cristãos, para se compreenderem a si mesmos, não podem deixar de referir as suas raízes judaicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação através da fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel”.

Esta foi sem dúvida a passagem mais importante do seu discurso e nela o Papa refere-se a uma discussão teológica interna ao Cristianismo que passa por saber se os cristãos deviam pregar o Evangelho aos judeus. A teoria que parece estar a ganhar terreno na Igreja Católica é que os cristãos não devem procurar evangelizar os judeus de forma especial, uma vez que a Antiga Aliança ainda é válida – uma vez que as promessas de Deus são irrevogáveis, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.

O meu bom amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, leu o discurso e não gostou. Porque o Tiago é boa pessoa e intelectualmente honesto, o seu texto não é um ataque cerrado – que seria fácil mas pouco produtivo de fazer – mas antes uma série de interrogações que, a meu ver, se podem resumir numa só. “Se os judeus não precisam de Jesus, o que é que Jesus veio cá fazer?”

Este meu texto, agora, não é uma defesa da posição da Igreja Católica ou do Papa. Antes, tenciono aqui deixar algumas pistas para ajudar à discussão, porque me parece que esta é uma discussão que importa ter e que não está de forma alguma resolvida.

Sendo assim:

1. Isto não é (assim tão) novo
O discurso do Papa trouxe o assunto mais para a ordem do dia, mas a primeira vez que eu dei por isto foi há mais de uma década. Na altura foi num documento da conferência episcopal americana. Eu li e a dada altura levantei o assunto com um professor do meu mestrado, na altura padre e agora bispo, que disse que achava isso tudo muito estranho. Mostrei-lhe o documento. Ele leu e, basicamente, descartou, dizendo que podia ser um documento de reflexão teológica da Igreja americana, mas a posição da Igreja Universal não era essa.

Mais recentemente a comissão do Vaticano para o diálogo religioso com os judeus publicou um novo documento a dizer basicamente a mesma coisa. “Que os judeus são participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério divino insondável”.

Antes de mais, para muita gente isto pode não ser claro, sobretudo para protestantes que não têm obrigação nenhuma de saber como é que as coisas funcionam no Vaticano, mas nem um documento da comissão para o diálogo, nem um discurso do Papa numa sinagoga vinculam a Igreja Universal a uma posição. Não me parece correcto, simplesmente por uma questão de rigor, dizer que a posição da Igreja Católica agora é esta ou aquela. Penso, aliás, que isto é claramente um “work in progress”. Todavia, o facto de o Papa ter endossado a ideia num discurso público não é, obviamente, irrelevante. O que quero deixar claro é que dentro da Igreja a ideia não é de modo algum unânime.

Cardeal Lustiger
Contudo, esta também não foi, ao contrário do que eu pensava quando li o discurso, a primeira vez que um Papa subscreve publicamente esta ideia. Rapidamente no twitter recebi referências de outras instâncias. Nomeadamente no Evangelii Gaudium, nº 247: “Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’”.

Mas o EG é um texto do Papa Francisco, portanto quem acha, como o Tiago, que este é o pior Papa das últimas décadas (e não são só protestantes que o acham), dificilmente se deixará tocar por isto. Mas a maioria dos grandes críticos de Francisco nutrem, ao mesmo tempo, uma enorme admiração por Bento XVI. Sei que é o caso do Tiago e sei que todos concordarão que BXVI não é o tipo de teólogo de se deixar levar por sentimentalismos.

Vejamos então o que ele escreveu nos seus livros sobre Jesus de Nazaré:

“A este respeito, no horizonte de fundo, aparece sempre também a questão sobre a missão de Israel. (…) uma nova reflexão permite reconhecer que é possível, em todas as obscuridades, encontrar pontos de partida para uma justa compreensão.

Quero referir aqui o que, relativamente a este ponto, aconselhou Bernardo de Claraval ao seu discípulo, o Papa Eugénio III. Recorda ao Papa que não lhe foi confiado o cuidado apenas dos cristãos. “Tu tens um dever também para com os infiéis, os judeus, os gregos e os pagãos”. Mas corrige-se logo a seguir, especificando: “Admito, relativamente aos judeus, que tens a desculpa do tempo; para eles foi estabelecido um determinado momento, que não se pode antecipar. Primeiro devem entrar os pagãos na sua totalidade. (…)

Hildegard Brem comenta assim este trecho de Bernardo: “Na sequência de Romanos 11,25, a Igreja não se deve preocupar com a conversão dos judeus, porque é preciso esperar o momento estabelecido por Deus, ou seja, “até que a totalidade dos gentios tenha entrado”. Ao contrário, os próprios judeus constituem uma pregação vivente, para a qual deve apontar a Igreja, porque nos trazem à mente a paixão de Cristo”.
Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição - Capítulo II, ponto 2

Este artigo contém uma interessante análise e comentários a este ponto.

2. O “efeito holocausto”
Embora seja relativamente fácil dizer que estas teorias são apenas o resultado de um complexo de culpa que sentimos em relação ao holocausto, por este só ter sido possível graças ao facto de haver um terreno fértil para o anti-semitismo, para o qual contribuíram mais de mil anos de Cristianismo europeu – o que não é obviamente o mesmo que dizer que o Cristianismo foi responsável pelo holocausto, atenção – penso que não é assim tão simples. Poderá ser um factor, mas não explica tudo. O já citado São Bernardo de Claraval não sofria certamente de complexos do holocausto.

Mas penso que o holocausto pode ter despertado entre os teólogos uma dúvida. Como é que uma ideia aparentemente tão benévola, de querer levar aos judeus o conhecimento do Messias que tanto dizem esperar, pode ter tido consequências tão trágicas ao longo de tantos séculos? É que não foi uma vez nem duas, foram centenas. Só para dar um exemplo, já que este texto pretende ser um diálogo com um pastor que se identifica com a tradição luterana, vemos o que aconteceu quando Lutero viu frustradas as suas tentativas de converter os judeus. Em 1543 escreveu o panfleto “Sobre os judeus e as suas mentiras” em que recomenda a destruição de casas e sinagogas de judeus, a proibição dos seus livros sagrados e dos rabinos ensinarem, etc. etc. Tragicamente, existem demasiados exemplos no lado católico também.

Repito que este meu texto não tem por objectivo defender a teoria de que não precisamos de pregar aos judeus, apenas de levantar mais algumas questões e apontar para fontes que podem contribuir para o aprofundamento. E é nesse sentido que pergunto se não é natural que alguém pense que esta estratégia de tentar converter os judeus fez mais mal do que bem ao longo dos milénios e se isso não será sinal de que o caminho não é esse, sobretudo tendo em conta o suporte neo-testamentário já citado.

Pe. David Neuhaus
3. Vozes ausentes
No meio de tudo isto, confesso que há vozes que ainda não ouvi mas que penso que são fundamentais para este debate. Refiro-me a católicos que tenham nascido judeus. O Cardeal Lustiger, de Paris, que morreu em 2007, sempre se afirmou judeu e embora não tenha ideia de ele ter abordado esta questão especificamente, pelo que ele dizia, nomeadamente ao intitular-se um “fulfilled Jew” (falta-me agora um termo adequado em português), leva-me a crer que discordaria da ideia de não se pregar aos judeus, embora esteja apenas a especular.

O padre David Neuhaus, que é vigário-geral para os católicos de língua hebraica, na Terra Santa, seria uma voz a ouvir também, mas tanto quanto vejo na net, ainda não se pronunciou sobre isto em particular. Se alguém tiver dados em contrário, que me avise.

Também não conheço suficientemente a obra de Edith Stein sobre esta questão, mas imagino que possa ter algo a dizer.

Este é um assunto complexo e que merece certamente muita reflexão e debate. Penso que todos, cristãos católicos ou reformados, ou mesmo judeus, temos a ganhar em fazê-lo e agradeço por isso o texto do Tiago que me levou a escrever este. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Morte de um Grande Rabino

Filip Mazurczak
No domingo dia 19 de Abril, dias antes de fazer 100 anos, morreu Elio Toaff, antigo rabino-mor de Roma. Grande promotor do diálogo entre católicos e judeus e amigo de São João Paulo II, o rabino Toaff testemunhou uma era em que católicos e judeus – que para além do Antigo Testamento partilham uma herança espiritual com origem em Abraão, mas que foram frequentemente separados pela história – abandonaram, de forma dramática, preconceitos antigos.

Embora o Cristianismo tenha surgido do seio do Judaísmo, as relações entre judeus e cristãos foram muitas vezes dolorosas. Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão decretou que os judeus deviam usar roupas que os distinguissem dos cristãos. Em 1555 o Papa Paulo IV criou o gueto judeu de Roma, que foi o último gueto europeu até ser abolido em 1888. Muitos cristãos acusaram os judeus de terem morto Cristo e as encenações de Sexta-feira Santa serviram frequentemente de inspiração para fomentar violência anti-judaica pela Europa fora.

Mas as relações entre cristãos e judeus nem sempre foram marcadas pela hostilidade. Na Idade Média os judeus foram muitas vezes defendidos, sobretudo por figuras como São Bernardo de Clairvaux (a razão pela qual muitos judeus ainda se chamam Bernardo) e o Papa Inocêncio IV. A corte pontifícia empregava médicos judeus e o Papa Gregório I promovia a tolerância para com os judeus já no século VII. Em todo o caso, a desconfiança continuou a separar cristãos e judeus durante vários séculos.

No século XX isto mudou radicalmente, para melhor. Hoje, as orações ecuménicas entre judeus e cristãos são um aspecto comum da vida religiosa em todo o mundo. Os líderes cristãos condenam frequentemente o anti-semitismo. Actualmente, o principal bastião de anti-semitismo católico é a Sociedade de São Pio X, um grupo cismático. Entretanto, afirmações escandalosas como as do Cardeal Oscar Rodrigues Maradiaga, que afirmou que os meios de comunicação social controlados por judeus usam as histórias de abusos sexuais de padres católicos para desviar as atenções do conflito israelo-árabe, são a excepção e não a norma.

Esta transformação foi possível graças á boa-vontade de pessoas como Elio Toaff.

Nascido na Toscânia em 1915, filho de um rabino, Toaff passou a II Guerra Mundial a combater na resistência anti-fascista italiana. Testemunhou o massacre de mais de 500 civis em Sant’Anna di Stazzema, na Toscânia e na última entrevista publicada antes da sua morte, disse ao site italiano judeu Moked que tinha experienciado hostilidade enquanto judeu na Itália de Mussolini, o maior aliado do Terceiro Reich. A única razão pela qual não saiu da Europa foi porque se recusou a abandonar a sua comunidade em tempo de perigo.

Mas Toaff testemunhou também a significativa ajuda que um grande número de católicos deu a judeus, apesar dos preconceitos da altura. Embora se tenha tornado moda falar do Papa Pio XII como o “Papa silencioso”, ele condenou regularmente o nazismo na Rádio Vaticano e apelou aos conventos italianos para darem refúgio a crianças judias, tendo ele mesmo escondido várias em Castel Gandolfo e no Vaticano.

Tendo visto a ajuda que os católicos deram aos judeus, Toaff – que se veio a tornar rabino-mor de Roma em 1951 – comentou, após a morte de Pio XII: “Os judeus recordar-se-ão sempre do que a Igreja Católica fez por eles, por ordem do Papa, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando a guerra estava no auge, Pio XII levantou a voz várias vezes para condenar a falsa teoria das raças”.
João Paulo II e o rabino Toaff

Pouco tempo depois viriam mudanças significativas. São João XXIII removeu a oração “pela conversão dos pérfidos judeus”da liturgia da Sexta-feira Santa e, em 1965, a Igreja promulgou o Nostra Aetate, que declarou que os judeus, enquanto povo, não são responsáveis pela morte de Cristo.

A reconciliação entre judeus e católicos acelerou depois da eleição de João Paulo II em 1978. Ele já tinha muitos amigos judeus na sua Polónia natal; o mais próximo dos quais, Jerzy Kluger, tinha combatido no exército polaco que libertou a Itália dos Nazis. Kluger permaneceu em Roma até à sua morte, acabando por se tornar um elo importante entre o Papa e o mundo judeu.

Entretanto, quando o Governo comunista da Polónia iniciou uma campanha anti-semita em 1968, forçando muitos judeus a emigrar, o cardeal Karol Wojtyla visitou a sinagoga de Cracóvia e expressou a sua solidariedade para com os judeus polacos.

Providencialmente, o rabino Toaff liderava nessa altura a comunidade judaica de Roma. Em 1986, João Paulo II fez uma visita oficial à Grande Sinagoga de Roma, tornando-se o primeiro Papa desde São Pedro a visitar um local de culto judeu. Os dois homens cumprimentaram-se e rezaram. A imagem do Papa polaco e do rabino italiano a abraçarem-se e a sorrir tornou-se uma das mais icónicas do pontificado de João Paulo II. Foi Toaff quem iniciou este evento histórico, tendo tomado a iniciativa de convidar o Papa a visitar a sinagoga. Essa foi a primeira ocasião em que o Papa disse que os judeus são os “irmãos mais velhos na fé”, uma frase original de Adam Mickiewicz, o poeta nacional filo-semítico da Polónia.

A amizade entre os dois foi imediata. Mais tarde, no mesmo ano, João Paulo II convidou Toaff para participar com ele e com os líderes de muitas das outras religiões mundiais no Dia Mundial da Oração pela Paz, em Assis. Em 1994 Toaff e João Paulo II presidiram a um concerto no Vaticano para comemorar as vítimas da Shoah. Entretanto, Toaff ajudou a coordenar a visita de João Paulo II à Terra Santa, no ano 2000. Toaff foi uma de apenas duas pessoas referidas no testamento do Papa, a outra sendo o seu secretário, o arcebispo (agora cardeal) Stanislaw Dziwisz.

Tendo visto em primeira mão o fascismo, a ocupação de Itália pelos nazis, o anti-semitismo e o renascimento da comunidade judaica de Roma, o rabino Elio Toaff foi testemunha da história do Judaísmo no seu país. Mas acima de tudo ele possuía um coração aberto ao diálogo e à reconciliação. Os seus gestos para com os católicos e a sua amizade com São João Paulo II desempenharam um papel crucial no verdadeiro milagre que foi a mudança radical da era de desconfiança mútua para uma era em que os judeus são novamente os nossos “irmãos mais velhos”.

Alav Ha-sholom.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Abril de 2015 em 
The Catholic Thing
)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ideologia do género não é a solução, é o problema

Desde que não engravides...
O Papa Francisco criticou a ideologia do género, esta manhã, dizendo que eliminar a diferença entre os sexos não é a solução, é o próprio problema.

Por esta hora, na Sinagoga de Lisboa, está a ser homenageado do padre Joaquim Carreira, que foi considerado “Justo Entre as Nações” pelo memorial do holocausto, Yad Vashem.

Esta tarde representantes das três principais religiões em Portugal juntaram-se para discutir a relação entre a cultura e a religião, concluindo que a cultura pode ser mesmo o antídoto para o fanatismo religioso.

Já perdi a conta às vezes que ouvi dizer que a pílula contraceptiva é não só, e magicamente, isenta de efeitos secundários negativos, como até tem só vantagens. Também já estou habituado a ouvir falar nos métodos naturais como os “métodos da Igreja”… Ora aqui está um artigo do The Catholic Thing para acabar definitivamente com ambos os mitos. Divirtam-se!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A complexa relação entre cristãos e Israel

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui uma ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há pouco mais de 60 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos. E atenção que interesse, neste contexto, não tem obrigatoriamente que significar “interesseiro”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Em muitos casos estes não são apenas os judeus que vivem na diáspora, muitos dos quais até são bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é confinado à América.

Os Evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas as razões são mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista. A crença de que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para se verificar o fim dos tempos e o regresso de Cristo em todo o seu esplendor.

Na maior parte esses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem aceite a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral. Um grande número de voluntários nas forças armadas de Israel (que aceita alguns estrangeiros) são cristãos evangélicos que sentem ser o seu dever preservar aquele país e defendê-lo dos seus inimigos. Mais importante que isso, contudo, é a ajuda financeira e política que este sector garante.

Fora da América o caso muda de figura. Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com anti-semitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anti-cristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
 No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto nos territórios ocupados (onde está a diminuir), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana

Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade geral da zona que acaba por desembocar em perseguições anti-cristãs. Esta atitude ficou bem vincada no último sínodo para os bispos do Médio Oriente, por exemplo.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados, sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição, e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas.

Por fim, temos o factor grego e russo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. Entretanto, não esqueçamos que o Patriarcado de Constantinopla se encontrava sedeada precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
 Aos olhos dos Otomanos os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso e a sua presença no Império era mais bem tolerada. Na Terra Santa isso ainda hoje se faz sentir. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras coisas, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas por outro da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Uma última nota para recordar que tudo isto está em permanente mudança, é natural que assim seja quando depende de tantos factores. Por exemplo, o aumento do fundamentalismo islâmico no Médio Oriente, e na Palestina em particular, poderá empurrar muitos cristãos árabes para o colo de Israel. Outro factor é demográfico. Com o crescente êxodo de cristãos árabes vai diminuindo a influência das suas comunidades no Médio Oriente e isso também pode ter os seus efeitos.

Filipe d’Avillez

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