quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

São José: O Pai de Quem Precisamos

Pe. Paul Scalia
A maior parte de nós conhece a cena do Evangelho do domingo passado (Lc. 2, 22-40) como o quarto mistério gozoso: a apresentação do menino Jesus no Templo. Mas é também uma das sete dores e alegrias de São José. O seu coração enche-se de dor perante a profecia de Simeão de que o pequeno Cristo “está destinado a causar a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição”. Mas ao mesmo tempo, José regozija ao ouvir o seu filho proclamado como “Salvação” de Deus e “luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel”.

Todos devemos sentir dor e alegria ao meditar esta cena, mas José experimenta essa dor e alegria de uma forma singular: enquanto pai de Jesus. De facto, o ponto de partida e de chegada na sua experiência deste evento é a realidade da sua paternidade.

Costumamos qualificar a paternidade de São José. Embora estejamos correctos, até certo ponto, essas qualificações podem dar a impressão de que a sua paternidade era uma ficção, ou faz de conta. O termo “Pai terreno” sugere uma relação pai/filho limitada a este mundo. “Pai adoptivo” implica que Jesus só se tornou filho de José a partir de certa altura. De facto, José e Maria eram casados aos olhos da lei quando Jesus foi concebido. Por isso não houve qualquer momento durante a vida de Nosso Senhor em que Ele não fosse filho de José.

Os Evangelhos não adjectivam. A passagem do Evangelho aqui referida identifica José e Maria simplesmente como “pai e mãe” de Jesus. Mais tarde, quando o encontram no Templo, Nossa Senhora diz “Teu pai e eu estávamos aflitos” (Lc 2, 48). São João refere-se duas vezes ao Senhor simplesmente como “filho de José” (Jo. 1,45 e 6,42). A única adjectivação usada nos Evangelhos é um parêntese, quando Lucas se refere a Jesus como “o filho (como se supunha) de José” (Lc. 3,23). Uma vez que isto surge imediatamente depois do Batismo do Senhor, a intenção é claramente de distinguir entre o Pai de Cristo revelado no Jordão e o seu pai conhecido em Nazaré.

É esta paternidade que o Papa Francisco enfatiza em Patris Corde, a carta em que anuncia o Ano de São José (8 de Dezembro de 2020 até 8 de Dezembro de 2021). E com boa razão. Como muitos já têm observado, na raiz dos problemas da nossa Igreja e da nossa nação está uma crise de paternidade. No cerne dos escândalos da Igreja está a traição de pais espirituais. As convulsões no nosso país são o resultado inevitável de décadas de pais ausentes. Mary Eberstadt chamou-o “a fúria dos sem-pai”.

A paternidade de José é um remédio necessário para estes males. Mas, primeiro, temos de a compreender correctamente. Falhamos na apreciação da paternidade de José porque não compreendemos a própria noção de paternidade. Limitamos a paternidade às suas dimensões física e terrena; a geração biológica de um bebé, ou a preparação de uma criança para poder ter sucesso neste mundo. De facto, a parte mais importante da paternidade não é a concepção nem a sua preparação ou formação para o sucesso mundano, é a partilha de sabedoria, de património e de identidade.  

Precisamente por não ser o pai biológico de Jesus, José chama a nossa atenção para a dimensão mais profunda e importante da paternidade. Ele não gerou o Senhor, nem tem quaisquer bens terrenos para lhe conceder. Mas enquanto marido de Maria, José é de facto o pai legal de Jesus – uma designação com um significado muito maior em Israel naquele tempo do que na nossa cultura. Era seu dever criar o seu filho nas tradições e na fé de Israel, passar-lhe as práticas e a sabedoria do povo de Deus. Na medida em que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc. 2,52), cabia a José ensiná-lo a rezar, levá-lo à sinagoga e familiarizá-lo com as escrituras.


“Com os nossos próprios ouvidos ouvimos, ó Deus; os nossos antepassados nos contaram os feitos que realizaste no tempo deles, nos dias da antiguidade” (Salmo 44, 1). É maravilhoso contemplar José a ensinar este versículo a Nosso Senhor, introduzindo-o no património de Israel, ao que “os nossos antepassados nos contaram”. Esses antepassados tinham dotado os seus filhos de identidade, levaram-nos a saber quem eram – e quem não eram – no mundo e na história. A fidelidade desses pais significa que os Israelitas se conheciam como povo de Deus.

E é precisamente isso que os pais não têm feito na nossa cultura. Podem ter dotado os seus filhos de bens materiais e de conselhos sobre como ter sucesso neste mundo – ou pelo menos como atingir o conforto. Mas durante décadas os pais têm falhado em dar aos seus filhos a sua verdadeira identidade. Não transmitiram o património do Ocidente, da nossa nação e sobretudo do Cristianismo.

Isto deve-se em larga medida ao facto de esses pais terem, por sua vez, impiamente rejeitado a sua própria herança. A impiedade é estéril. Como o passado não significa nada para eles, agora também eles não têm nada para propor para o futuro. Pior, esta orfandade em relação ao passado deixa-nos vulneráveis no presente. Por isso, aquilo a que assistimos no “wokeismo” é uma geração órfã, desconectada do seu património de sabedoria e cultura e por isso presa fácil para qualquer nova teoria que aí venha.

Temos assistido ao mesmo fenómeno na Igreja. Padres impiedosos para quem o passado está desprovido de significado, que não transmitiram a gerações de católicos a sua herança legítima de ensinamentos e liturgia eclesial. Tanta da nossa atual maleita vem desta desconexão, deste esquecimento de quem somos – e de quem não somos – no mundo e na história.

Chegou então o momento de “ir ter com José” (Gen. 41,55). Com ele, pai de Jesus, aprendemos o verdadeiro significado da paternidade e o valor incomparável de um homem que cumpre fielmente essa missão.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de dezembro de 2020 em The Catholic Thing

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