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Thursday, 15 September 2022

Francisco a ser Papa no Cazaquistão

O Papa está no Cazaquistão. Engane-se quem pensa que esta é apenas mais uma viagem apostólica, é muito mais que isso. Neste texto pretendo falar brevemente da dificuldade de navegar entre o diálogo religioso e o sincretismo, da importância contextual dos apelos do Papa à paz, e à questão da relação com a Igreja Ortodoxa Russa.

Diálogo sem sincretismo

Francisco está na capital do Cazaquistão, uma ex-república da União Soviética gigante que, curiosamente, tem investido muito em promover o diálogo inter-religioso ao longo das últimas décadas.

Os cristãos são uma minoria de 25% no país, e católicos são apenas 1%, na grande maioria membros de outros grupos étnicos, desde polacos a coreanos. A história da Igreja no país também é curiosa, uma vez que muitos dos católicos descendem de pessoas que foram deportadas para a região durante as perseguições na União Soviética. No Cazaquistão havia 11 campos de concentração, parte do sistema Gulag.

A relação da Igreja Católica com o diálogo inter-religioso é complexa. Durante séculos a atitude era de que esta é a Igreja fundada por Deus, quem quiser pode entrar, mas não há mais nada para discutir. O Concílio Vaticano II cristalizou uma mudança gradual de posição, tanto ao nível ecuménico como de diálogo inter-religioso, e Roma passou a interessar-se no diálogo. Em 1986 o Papa João Paulo II iniciou os encontros inter-religiosos de Assis, para rezar pela paz. Foi muito criticado por isso, com os seus adversários a dizer que os encontros promoviam o sincretismo e o relativismo, mas ele persistiu, tentando sempre deixar claro que juntar pessoas crentes para suplicar a Deus pela paz é diferente de dizer que essas crenças são todas igualmente válidas, ou que as diferenças não interessam.

Estes encontros no Cazaquistão surgem desse mesmo espírito de Assis. Quem o diz é o bispo de Almaty, no Cazaquistão, que é espanhol e foi entrevistado recentemente pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Mas os críticos não desarmam e continuam a levantar o fantasma do relativismo.

Francisco está, por isso, em terreno difícil no Cazaquistão, mas no seu discurso ao Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais não desiludiu e falou precisamente como Papa que é. Encorajou a colaboração inter-religiosa pela paz, condenou a utilização da religião para justificar a guerra e criticou, usando mesmo esse termo, o sincretismo. Foi um bom discurso, pleno de referências locais, que pode ser lido aqui. Deixo-vos com uma das principais citações:

Queridos irmãos e irmãs, avancemos juntos, para que seja cada vez mais amistoso o caminho das religiões. (…) O Altíssimo liberte-nos das sombras da suspeita e da falsidade; conceda-nos cultivar amizades ensolaradas e fraternas, através do diálogo frequente e da sinceridade luminosa das intenções. E desejo agradecer aqui o esforço do Cazaquistão neste ponto: sempre procura unir, sempre procura incentivar o diálogo, sempre procura construir a amizade. Isto é um exemplo que o Cazaquistão dá a todos nós e devemos segui-lo, apoiá-lo. Não procuremos falsos sincretismos conciliatórios – não servem –, mas guardemos as nossas identidades abertas à coragem da alteridade, ao encontro fraterno. Só assim, por este caminho, nos tempos sombrios que vivemos, poderemos irradiar a luz do nosso Criador.

Falar de paz numa região de guerra

É certo que Francisco fala muito de paz, e que tem falado sobretudo muito da guerra na Ucrânia. Podem ver aqui a extensa lista das declarações sobre o assunto que tem feito nos últimos meses, desde que a Rússia invadiu o país vizinho. Mas é preciso ter em conta o contexto em que o faz agora, no Cazaquistão. Aqui Francisco está ao lado da Rússia, na sua esfera de influência, e as suas palavras têm mais peso.

Mas é preciso ter também em conta que não é apenas a na Ucrânia que soam as armas neste momento. Sem sair da zona da ex-União Soviética, temos tido também problemas nos últimos dias, com tiros e mortos, na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão e, com uma gravidade muito maior, temos assistido a uma tentativa de invasão da Arménia por parte do Azerbaijão. Este último caso era previsível, infelizmente, e escrevi sobre ele exatamente quando a guerra na Ucrânia começou. Preferia ter-me enganado. Os problemas entre o Azerbaijão e a Arménia são mais graves ainda na medida em que o primeiro é muçulmano e o segundo cristão. O conflito é territorial, não religioso, mas existe sempre o risco agravado de adquirir também uma dimensão religiosa e espalhar-se, por isso, a países vizinhos. Esperemos que não.

É aqui, nesta região unida por um passado de forte perseguição às religiões e que se debate ainda com um pesado legado comunista, que Francisco vem falar de paz. E em boa hora o faz.

Diálogo com os russos

Uma dimensão muito importante desta visita é a do diálogo com a Igreja Ortodoxa da Rússia. Já escrevi e falei várias vezes sobre o período difícil que a Igreja Russa atravessa, travando uma luta pelo poder no interior da comunhão de Igrejas Ortodoxas e ao mesmo tempo tentando sobreviver a uma relação demasiado estreita com o poder político em Moscovo.

O Patriarca Cirilo, de Moscovo, quis afirmar-se como o grande representante da ortodoxia no mundo, em oposição a Bartolomeu de Constantinopla, mas acabou, pela sua proximidade a Vladimir Putin, por se tornar um pária aos olhos do mundo religiosos. Tenho comentado, nas minhas mais recentes análises às suas declarações, que já nem se percebe se as suas palavras são para ser levadas a sério, se são críticas (muito) dissimuladas ao regime de Putin, ou se simplesmente perdeu toda a noção. Só na última semana lamentou o facto de o mundo estar a sofrer por causa dos ditadores que espalham o conflito e elogiou a Rússia por não cometer crimes de guerra, algo que se deve ao facto de ter um historial de líderes ortodoxos crentes. E não nos esqueçamos da vez em que se regozijou no facto de a Rússia, apesar de ser um país muito poderoso, nunca ter atacado ninguém. E sim, disse-o já depois da invasão da Ucrânia.

O facto é que Cirilo está quase totalmente isolado e ninguém parece disposto a falar com ele, excepto o Papa Francisco. Há até quem considere que Francisco está a ser ingénuo quando diz que quer falar com Cirilo, mas o Papa parece entender que por mais que esteja a atravessar, digamos, um mau momento, a Igreja Russa não deixa de ser uma grande denominação cristã e que não se deve desistir, por isso, desse diálogo. Aliás, no seu discurso à chegada ao Cazaquistão disse: “Precisamos de líderes que, a nível internacional, permitam aos povos compreenderem-se e dialogarem, e gerem um novo ‘espírito de Helsínquia’, a vontade de reforçar o multilateralismo, de construir um mundo mais estável e pacífico pensando nas novas gerações. E, para fazer isto, é preciso compreensão, paciência e diálogo com todos. Repito: com todos.”

Mais uma vez, porém, Cirilo perdeu a oportunidade de se agarrar a esta mão estendida. Se tivesse ido ao Cazaquistão, como estava inicialmente combinado, teria conseguido tornar-se o centro do evento e o seu encontro com o Papa Francisco seria o ponto alto do congresso, em termos mediáticos. Mas temendo ser alvo de críticas, refugiou-se novamente no seu palácio de cristal em Moscovo e tornou ainda mais pertinentes as palavras do Papa que muitos acreditam terem sido ditas com ele em mente.

Se o Criador, a quem dedicamos a existência, deu origem à vida humana, como podemos nós – que nos professamos crentes – consentir que a mesma seja destruída? E como podemos pensar que os homens do nosso tempo – muitos dos quais vivem como se Deus não existisse – estejam motivados para se comprometer num diálogo respeitoso e responsável, se as grandes religiões, que constituem a alma de tantas culturas e tradições, não se empenham ativamente pela paz?

Irmãos e irmãs, purifiquemo-nos, pois, da presunção de nos sentir justos e de não ter nada a aprender dos outros; libertemo-nos das conceções redutoras e ruinosas que ofendem o nome de Deus com rigidezes, extremismos e fundamentalismos, e o profanam por meio do ódio, do fanatismo e do terrorismo, desfigurando inclusive a imagem do homem. (…) Nunca justifiquemos a violência. Não permitamos que o sagrado seja instrumentalizado por aquilo que é profano. O sagrado não seja suporte do poder, e o poder não se valha de suportes de sacralidade! Deus é paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra.

Mais uma vez, belas palavras. Haja quem as oiça e as ponha em prática!

Wednesday, 20 May 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 10 April 2019

Os Guardas de Auschwitz

Randall Smith
Quando visitamos Cracóvia e Auschwitz em dias seguidos, sentimos uma espécie de chicotada psicológica. Experimentamos de perto um dos mais belos feitos culturais da humanidade e a cena de um dos seus maiores crimes.

Em Cracóvia vemos a glória de que são capazes a natureza e o génio do homem. Em Auschwitz vemos o horror de que essa natureza e esse génio o tornam capazes. Ambas são lições importantes e é um grave erro afirmar um sem o outro.

Sobre Auschwitz tenho muito pouco a dizer – e nada em particular sobre os presos, sobre cujo sofrimento não tenho nem a sabedoria nem os dons para escrever. Os horrores desta magnitude requerem um certo silêncio da parte daqueles que observam a partir de uma distância segura. Só quem lá esteve é que pode falar com autoridade. Eu não tenho essa presunção.

Mas espero que me sejam permitidas duas observações, não sobre o sofrimento dos prisioneiros, mas sobre os guardas. Aliás, uma das coisas que falta no que é de resto uma apresentação excelente sobre Auschwitz é qualquer informação sobre os guardas. Esta falha está a ser corrigida, dizem-me, para uma exposição futura.

Por agora existe um livro interessante recomendado pelo nosso guia – A Vida Privada dos SS de Auschwitz – que inclui relatos escritos por criados polacos que trabalharam nas casas de família dos guardas nazis.

Antes da guerra havia uma pequena vila rural no local onde se ergueu o campo. Foi limpo dos seus cidadãos polacos e rebatizado “Auschwitz” pelos alemães. As casas foram atribuídas aos oficiais alemães que depois de saírem dos seus empregos – que envolviam a sistemática desumanização e extermínio de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes – iam para casa à noite para passar tempo em família com as mulheres e os filhos.

Lendo os relatos das “Vidas Privadas” compreendemos que longe de serem os psicopatas que tantas vezes imaginamos, na realidade a maioria destes homens iam para casa e faziam o mesmo que a maior parte dos homens de família. Conversavam com as mulheres, brincavam com os filhos, passeavam o cão e ocupavam-se a fazer compras, a tratar das contas e a lidar com a ama e com a cozinheira.

Não pude deixar de perguntar o que se poderia passar pela cabeça e pela alma de alguém que ia à missa ou à igreja todos os domingos, lia fielmente a Bíblia e depois saía de casa na manhã seguinte para fazer as coisas que os guardas faziam em Auschwitz. O potencial humano para cegueira moral é de cortar a respiração e devia servir de aviso constante.

Auschwitz mostra que podemos confundir o pior mal com o bem de “cumprir o nosso dever”. Quando deixamos de ver a realidade como Deus a vê e passamos a olhar apenas pela lente burocrática ou ideológica, ela fica completamente deturpada. Deixamos de ver o que está mesmo à nossa frente – uma pessoa, feita à imagem de Deus – e passamos a ver apenas o que achamos que essa pessoa representa.

Aprendi duas lições em Auschwitz das quais até então não me tinha apercebido.

Primeiro, tornou-se claro que à medida que se tornava claro aos alemães que estavam a perder a guerra, as matanças nos campos não abrandaram, aceleraram. Mais e mais recursos foram desviados do esforço de guerra para matar o maior número de judeus possível – como se a única consideração fosse: “Será que conseguimos acabar o trabalho antes de sermos obrigados a render-nos?”

Segundo, quando os russos estavam a avançar sobre o campo os alemães rebentaram com os crematórios e queimaram dois armazéns que continham montanhas de sapatos, óculos, malas, artigos de cozinha e mantas de oração que tinham retirado aos judeus quando saíam dos comboios.

Poucas coisas nos fazem compreender a dimensão da chacina em Auschwitz-Birkenau do que a visão daquela montanha de sapatos e de malas – as malas todas marcadas com o nome e data de nascimento do dono, como se fossem fazer uma viagem ou para um campo de férias (tinha-lhes sido dito que iam ser relocalizados). Alguns dos sapatos eram apenas de bebé.

Por vezes, quando os meus alunos tentam defender o seu relativismo moral, dizem coisas como “os nazis deviam ter as suas razões” (e tinham. Más.) Ou perguntam, “Mas e se aquilo lhes parecia estar certo?” (Bom, então estavam errados, certo?)

Mas eis a questão sobre o facto de os alemães terem queimado aqueles armazéns ou dinamitado os crematórios. Significa que os próprios alemães sabiam muito bem que aquilo que estavam a fazer estava errado. Se estivessem orgulhosos das suas acções, esperaríamos que cantassem os seus feitos ao mundo – como que dizendo, na face de qualquer oposição: “Vocês eram contra isto. Eram demasiado tímidos para fazer o que precisava de ser feito. Mas nós não”.

Mas pelo contrário, tentaram escondê-lo. É por isso que as matanças ocorreram em locais vazios na Polónia e não nas principais cidades da Alemanha. É por isso que os esconderam por detrás de eufemismos verbais.

Os oficiais alemães viviam com as suas famílias como se estivesse tudo bem: Era apenas mais um dia no escritório. Mas no fundo, no fundo, sabiam.

Devemos procurar compreender que tipo de distorção do coração e da alma do homem pode tornar possível uma psicose destas.

Cuidado com as pessoas que dizem “estamos empenhados numa tarefa nobre” mas depois escondem o que estão a fazer do escrutínio, ou por detrás de eufemismos verbais. O que será que estão a esconder, talvez de si mesmos?

A nossa primeira obrigação enquanto seres humanos livres é ver a realidade de forma clara, dizer a verdade de forma simples e agir de acordo com a verdade plena da dignidade humana. A cegueira moral dos guardas de Auschwitz deve mostrar-nos do que somos capazes quando fazemos o contrário.  


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de Abril de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 12 June 2013

O Direito ao Erro e a Morte da Tolerância

Francis Beckwith
“Well, George Lewis told the Englishman, the Italian and the Jew
«You can’t open your mind, boys
To every conceivable point of view»”
Bob  Dylan, High Water (For Charley Patton)


Há vários anos fui convidado para participar num programa de rádio para discutir um dos meus livros. Nem me lembro qual, mas recordo-me perfeitamente de um diálogo com um ouvinte que ligou. Ele estava claramente irritado pelo facto de eu estar a dar argumentos a favor da inviolabilidade da vida humana nascitura e de estar a explicar, detalhadamente, por que razão acreditava que um ser humano não nascido tem uma natureza pessoal e que o aborto é um homicídio sem justificação.

Depois de alguma conversa de circunstância e de eu ter respondido à sua questão sobre a personalidade humana, o ouvinte declarou, claramente exasperado: “Dr. Beckwith, você é intolerante. Tem tanta certeza de que está certo e que todos os outros estão errados.” Para alguém como eu que gosta de brincar com questões filosóficas este tipo de declaração é boa de mais para ser verdade. É o tipo de cliché mal pensado que tem ajudado a manter o meu livro “Relativism: Feet Firmly Planted in Mid-Air”, escrito com Gregory P. Koukl, nas livrarias há 15 anos.

Respondi fazendo ao ouvinte a seguinte pergunta: “Estou errado ao pensar assim?” Esta é uma resposta interrogativa que tanto eu como o Greg já usámos inúmeras vezes, e que já partilhámos com o público em muitas conferências. O ouvinte respondeu: “Sim”. Pelo que eu disse: “Então você é exactamente igual a mim. Você pensa que tem razão, e que eu estou errado. A diferença é que eu admito que algo é verdade. Você, por outro lado, acredita que algo é verdade, mas age como se não acreditasse”.

Então ele tentou dizer a mesma coisa de outra maneira, mas passava o tempo a tropeçar. Não o conseguia dizer sem entrar em contradição. A dada altura confessou: “Não consigo dizer o que quero dizer sem parecer ridículo”. Respondi: “Isso é porque o que está a tentar dizer é ridículo”.

Reparem que o ouvinte ignorou simplesmente a substância do meu caso, embora isso não me tenha surpreendido. A maioria das pessoas com quem me cruzo, mesmo aquelas que tiraram licenciaturas de instituições de elite, não se preocupa muito com argumentos, apesar de se definirem como campeões da “razão” e inimigos da “superstição religiosa”.

Claro que também afirmam ser defensoras da “diversidade” e do “multiculturalismo” ao mesmo tempo que consideram que todas as instituições, tanto públicas como privadas, devam parecer idênticas na sua composição étnica e de género, bem como nas suas posições fundamentais sobre a sexualidade humana, o conhecimento e o papel do Estado.



É por isso que a recusa da Igreja Católica em mudar o seu ponto de vista sobre o sacerdócio masculino, o casamento, a sacralidade da vida, contracepção e a instrumentalização da reprodução é confrontada com histeria e não com um apelo à defesa das contribuições distintivas que o Catolicismo introduz na nossa sociedade multicultural.

Uma vez que os críticos da Igreja confundem antropologia com cosmetologia, acabam por apelar à conformidade forçada, travestida de diversidade. O que a muitos de nós parece uma hostil exigência de hegemonia liberal, eles dizem ser apenas um convite a alegrarmo-nos no pluralismo.

A minha conversa com aquele ouvinte é um microcosmo desta incoerência. A maioria das pessoas com tendências liberais, tal como este ouvinte, invocam muitas vezes a “tolerância” sem se aperceberem verdadeiramente do que isso implica numa democracia liberal como a nossa.

Se a tolerância é uma virtude cívica, então implica que reconheçamos que aqueles com quem discordamos estão errados. Porque quando eu e outro cidadão estão de acordo não nos estamos a tolerar, estamos de acordo. Porém, ironicamente, muitos na nossa sociedade pensam que o facto de considerar que alguém está errado é em si um acto de intolerância.

Sob esta definição de tolerância o estar de acordo, em vez de estar em desacordo, é que se torna uma condição necessária para a tolerância. Neste caso a tolerância fica de pernas para o ar e torna-se, paradoxalmente, intolerância.

Muitos dos meus amigos liberais, tal como o ouvinte, dizem que devemos ser cépticos em relação à confiança que depositamos nos nossos juízos relativos a assuntos sobre os quais pessoas razoáveis podem discordar. Mas é precisamente em relação a alguns desses assuntos que os seus amigos são mais impiedosos, punitivos e prontos a fazer juízos de valor. Parecem dispostos, ironicamente, a copiar precisamente o tipo de dogmatismo e fechamento mental que apontam de forma pejorativa aos “fundamentalistas cristãos”. Defendendo, embora, a rejeição de instituições e formas de vida que excluem quem é diferente, não praticam o que pregam e, na prática, fazem questão de excluir todos os que pensam de forma diferente da oficial.

A tolerância não pode ser infinitamente elástica. Tanto liberais como conservadores estão de acordo a este respeito. Mas se em questões fracturantes, para as quais o liberalismo foi inventado para fornecer um modus vivendi, a tolerância não pode ser aplicada de forma coerente, então chegámos ao ponto em que o liberalismo abraçou aquilo que, em tempos, afirmava rejeitar: “Não existe o direito ao erro”.

Se assim é, então a tolerância morreu.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 7 de Junho 2013 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org


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