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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Actualidade Religiosa: Leonella Sgorbati, rogai pela Somália!

O Papa abriu hoje caminho à beatificação de João Paulo I, o que já se esperava. Confesso que me emocionou mais – até porque me lembro bem do caso – da declaração das virtudes heroicas da irmã Leonella Sgorbati, que foi assassinada na Somália em 2006, dias depois do discurso de Ratisbona, e morreu repetindo as palavras “eu perdoo”. A Somália não tem santo padroeiro… Fica a dica.

Se estava a pensar ir comprar cigarros ao Vaticano, já só tem menos de dois meses para o fazer!!! Por ordem do Papa, a Santa Sé vai deixar de vender tabaco.

A igreja que foi palco do massacre, no Texas, vai ser demolida. É uma decisão compreensível, mas não é óbvia. Outras comunidades lidaram com assuntos parecidos de formas diferentes. Saiba como.

Depois de ter resistido durante mais de seis anos à instabilidade na Síria, o Líbano está agora a passar uma grave crise. Saiba mais sobre o misterioso primeiro-ministro desaparecido, e como isso pode afectar o delicado equilíbrio religioso no país.

Um convite. Decorre no dia 18 de Novembro o 4º Encontro Nacional de Leigos. Vai ser em Viseu e as inscrições estão abertas até ao dia 13. Se puderem, não percam, promete ser muito interessante.  


terça-feira, 27 de junho de 2017

Árabes consagram em Fátima, ameaçam no Curdistão e perdem nos EUA

Curdos próximos da independência no Iraque
Quem esteve em Fátima no fim-de-semana não pode ter deixado de se surpreender com a quantidade de pessoas que falavam árabe nas ruas. A explicação é fácil. Milhares de libaneses vieram ao santuário consagrar o seu país a Nossa Senhora. A sua protecção, dizem, tem evitado que a guerra da Síria passe a fronteira.

É lançado amanhã o novo livro de José Luís Nunes Martins, colunista da Renascença. Vale a pena ler esta entrevista para aguçar o apetite.

Domingo há ordenações um pouco por todo o país. Em Vila Real são dois os jovens que serão feitos sacerdotes. No dia seguinte estarão já a participar no torneio de futebol para padres…

Nos EUA o Supremo Tribunal deu a Donald Trump uma meia vitória na questão da proibição de entrada de muçulmanos no país.

Esta semana olhamos de perto para o que se passa no Iraque. A cidade de Mossul está prestes a ser libertada das garras do Estado Islâmico mas o futuro pode ainda trazer complicações. A agravar o problema temos o referendo pela independência anunciado pelo Curdistão Iraquiano para Setembro. Poderá estar prestes a nascer um novo Estado?

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a cristofobia e, indirectamente, a islamofobia do político americano Bernie Sanders.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

"Sede porreiros como o vosso deus imaginário é porreiro"

Santa Páscoa para todos!
O Papa voltou esta quarta-feira a recordar os cristãos que são perseguidos pela sua fé, evocando-os como exemplo para todos os fiéis. Isto no dia em que a fundação Ajuda à Igreja que Sofre traz-nos o exemplo de uma menina síria refugiada no Líbano e que foi violada 18 vezes num só dia pelos jiadistas… Não sei se é cristã, ou se não, que importa?

Ontem a Renascença entrevistou o padre Pedro Quintela, responsável pela associação Vale de Acór, que trabalha na recuperação de toxicodependentes, e que insiste que o Ser Humano nunca se pode resumir a uma ficha médica.

Perseguições, violações, toxicodependência. Tudo isto é sofrimento e são este tipo de flagelos que permitem a toda a humanidade identificar-se de alguma forma com o sofrimento de Cristo na sua paixão. Este é um dos temas da conversa que mantive com Paulo Pereira da Silva e com José Luís Nunes Martins, autores do livro “Via Sacra para Crentes e Não Crentes” que aconselho vivamente a lerem.

Mudando agora de assunto, e porque hoje é dia de artigo novo do The Catholic Thing em português, Anthony Esolen chegou à conclusão que a Igreja deve, de facto, mudar com os tempos para ter mais relevância para as mulheres e os homens do nosso tempo, e por isso escreveu uma versão moderna das bem-aventuranças. “Sede porreiros como o vosso deus imaginário é porreiro”.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O que interessa o Iémen? e "Todo o mal tem um fim"

Houthis no Iémen: "We care a lot!"
Uma coligação de forças árabes prepara-se para intervir no Iémen. Eu sei o que estão a pensar… O que é que interessa o Iémen?! Foi por isso que escrevi este artigo, porque o Iémen interessa muito e, agora mais que nunca, podemos ver que grande parte do problema do Médio Oriente é o conflito entre o bloco xiita e o bloco sunita. Nesse sentido, o Iémen é apenas o mais recente e importante campo de batalha.

O Papa Francisco encontrou-se esta tarde com 150 sem-abrigo que estavam a ter uma visita guiada aos museus do Vaticano. Em Setembro vai à Casa Branca e encontrar-se-á com Barack Obama.

A Ajuda à Igreja que Sofre está de visita aos campos de refugiados no Líbano e no Iraque, onde “falta tudo menos a fé”.

A situação dos refugiados cristãos na Síria e no Líbano inspirou a organização a preparar uma Via Sacra Meditada pelas Famílias Refugiadas da Síria. Pode-se encomendar a Via Sacra directamente à AIS, mas há quem a esteja a passar à prática, como acontece no Porto, na Igreja do Marquês, no dia 30 de Março, pelas 21h15. Quem puder que apareça!

Em Portugal encontra-se por estes dias o paquistanês Paul Bhatti, activista pelos direitos das minorias, cujo irmão foi assassinado por defender o fim da lei da blasfémia. Bhatti acredita que a lei está destinada a acabar, porque “todo o mal tem um fim”. Aqui podem ler a transcrição integral da curta entrevista que lhe fiz e aconselho-vos ainda a ouvirem na Renascença a partir das 23h uma entrevista mais alargada, sobre outros temas, feita pelo meu colega José Pedro Frazão.

Resta dizer que Bhatti está em Lisboa para participar no Meeting, organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. Aqui têm o programa completo e aconselho vivamente a participarem, se puderem.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Estado Islâmico imparável? Lei do aborto inconstitucional?

A freira libanesa que trabalha com refugiados iraquianos
Cerca de um mês depois de terem começado os ataques aéreos contra o Estado Islâmico não só o cerco a Kobane continua, como o grupo atacou hoje e ameaçava ocupar a cidade de Ramani, capital da província de Anbar.

O drama dos refugiados causados pelo grupo islamita é o que traz a Portugal a irmã Hanan Youssef, que trabalha com refugiados no Líbano. Está a falar em vários pontos do país, mas amanhã será publicada uma entrevista com a religiosa, feita por mim, que aconselho a todos os que se preocupam com aquela região.

Ontem decorreu um debate sobre a iniciativa legislativa de cidadãos “Pelo Direito a Nascer”, organizado pelo Núcleo de Estudantes Católicos da Faculdade de Direito de Lisboa. Centenas de pessoas estiveram presentes e ouviram dizer, entre outras coisas, que a actual lei do aborto é inconstitucional.

Para a semana não deverá haver mails. Na segunda-feira viajo para Estrasburgo, onde acompanharei a visita do Papa ao Parlamento Europeu. Poderão acompanhar tudo na Renascença.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Do Burke ao Burkina Faso, passando pelos arameus

Futuro presidente do Burkina Faso?
Não queriam mais nada, não?!
Peço desculpa pela minha ausência, mas nos últimos dois dias estive no terreno a fazer reportagens por causa da legionella.

Mas o mundo da religião não parou! No fim-de-semana confirmou-se a dança de cadeiras no Vaticano, com a saída prevista do Cardeal Burke, herói dos conservadores.

No domingo começou a semana de oração pelos seminários. Fomos conhecer o seminário do Porto e a história do homem que confundiu liberdade com libertinagem até que uma “queda de cavalo” o projectou para o seminário.

O Papa recordou o fim do muro de Berlim no Domingo e esta quarta-feira rezou também pelos estudantes mexicanos que, tudo indica, foram assassinados de forma grotesca.

Na segunda-feira Francisco criou uma nova estrutura para lidar com recursos de casos de abusos sexuais e outros, muito graves.

Não é o Cardeal Burke, mas o Cardeal do Burkina Faso. É popular no seu país e por isso ofereceram-lhe a presidência. Ele agradece, mas diz que não está interessado.

A fé e a ciência são incompatíveis? O vencedor da medalha Carl Sagan de 2014 acha que não. Deve saber, porque para além de ser astrónomo é jesuíta. Quem também acha que não é Robert Royal, do The Catholic Thing, que no interessante artigo desta semana explica porque é que os católicos nunca rejeitaram a ciência e a razão.

Israel reconheceu uma nova etnia entre os seus cidadãos. Os poucos que se consideram “arameus” são todos cristãos. Mas a decisão está a ser encarada como polémica. Estará Israel a tentar dividir a comunidade árabe?

E por falar em cristãos no mundo árabe, temos a transcrição integral da entrevista que fiz a semana passada ao arcebispo libanês Issam Darwish, que fala da situação política e social dos cristãos no seu país, incluindo as alianças partidárias com o Hezbollah. A notícia original está aqui.

Termino com um convite. Quem estiver interessado em fazer a consagração total a Nossa Senhora pode fazê-lo em Lisboa ou em São João do Estoril. Já não vão a tempo da primeira reunião, mas quem sabe diz-me que isso não deve ser impeditivo.

Datas previstas para a Paróquia de S.Pedro
e S.João do Estoril (sábado às 15h30)
08 nov
13 dez
10 jan
14 fev
14 mar
11 abr

Datas previstas para a Basílica 
dos Mártires (Chiado) – (5ªfeira às 19h00)
13 nov
18 dez
15 jan
19 fev
19 mar
16 abr

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sentamu-nos

O homem gravemente desfigurado que foi abraçado pelo Papa há poucas semanas falou à imprensa italiana da importância que aquele momento teve para ele, realçando que o Papa o abraçou sem saber se era contagioso ou não.

Entretanto em Inglaterra os bispos anglicanos têm de decidir entre a evangelização ou a fossilização, considera Sentamu. O ex-arcebispo de Cantuária admite que a extinção também é uma hipótese…

Dois golpes terroristas no mundo árabe esta manhã. No Líbano um duplo atentado abalou a embaixada do Irão, provavelmente levado a cabo por sunitas. Já na Somália os militantes do Al-Shabaab invadiram uma esquadra policial, fazendo pelo menos 10 mortos.

Aproveito para divulgar um evento que tem lugar esta semana no Darca, em Lisboa: Graça Franco, Henrique Leitão (Faculdade de Ciências) e a Marta Mendonça (FCSH-UNL e UCP), encontram-se na quinta-feira, 21 de Novembro, pelas 19h para discutir o tema: “Ano da Fé: apanhar a onda!”

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Escutas no Vaticano e São João de Brito goes Bollywood!

Confirma-se existência de
escutas no Vaticano
O santuário de São João de Brito, em Oriyur, na Índia, vai produzir uma curta-metragem sobre a vida do santo português. Na reportagem vídeo podem ver mais sobre a vida do santo, o santuário e até a minha linda cara!

Os americanos também andaram a escutar o Vaticano? Uma revista italiana diz que sim, a Santa Sé diz que se está nas tintas

Esta manhã o Papa Francisco convidou a rezar pelo Iraque. Será que isso foi escutado em Washington?

O manuscrito da terceira parte do segredo de Fátima vai ser exposto publicamente na Basílica da Santísisma Trindade, a partir de final do mês de Novembro.

Passamos agora para o Médio Oriente onde no Líbano o chefe dos serviços secretos do Líbano afirma que está a ser negociada a libertação dos bispos sírios raptados em Abril. Leia para saber como eles se tornaram parte de um jogo muito complexo de interesses regionais.

Já no Cairo a polícia carregou sobre estudantes da universidade islâmica de Al-Azhar e, da Arábia Saudita vem uma “fatwa” a proibir as viagens para Marte.

Hoje é dia de novo artigo do The Catholic Thing. Brad Miner analisa a diferença entre humildade e miserabilismo: “Sem qualquer desrespeito pelos trabalhadores franceses que fizeram o Renault de que o Papa gosta, mas tanto quanto sei de carros, os feitos pela Mercedes, a marca admirada por Bento XVI, são melhores”, considera.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Síria – Quem apoia quem?

A situação na Síria está mais complexa que nunca. Aqui pretendo elencar as diferentes partes interessadas, tanto internamente como externamente, para benefício dos leitores que estão por fora do assunto.

Internamente:

Sunitas: Os muçulmanos sunitas são a maior percentagem de sírios. Actualmente a esmagadora maioria dos rebeldes são sunitas, incluindo vários grupos de militantes que vêm de fora do país para combater a ditadura de Bashar al-Assad. Contudo, isto não é o mesmo que dizer que todos os sunitas apoiam os rebeldes. A família Assad estabeleceu uma série de alianças complexas, sobretudo com as classes mercadoras de sunitas nas principais cidades da Síria. O grão-mufti, supostamente o líder espiritual dos sunitas na Síria, é um acérrimo apoiante de Assad. Ainda há sunitas influentes no regime, mas é curioso notar que praticamente todos os militares e políticos que abandonaram o regime, desde o início da guerra, são sunitas.

Alauítas: Os alauítas são um ramo do Islão Xiita e na sua quase totalidade apoiam o regime de Assad que é, ele mesmo, um alauita. Numa região em que a fidelidade à tribo ou à religião é muito importante, é com naturalidade que a maioria dos alauitas começou por apoiar Assad, mas há um outro factor muito importante a ter em conta. É que os alauitas não passam de cerca de 12% da população, apesar de terem, desde a ascensão da família Assad ao poder, um poder desproporcional, dominando as Forças Armadas e os aparelhos do Estado. Neste momento existe um enorme medo, fundamentado, de que a subida ao poder dos sunitas resulte em vinganças sobre os alauitas. É um ciclo vicioso, quanto mais os alauitas o temem, mais duramente lutam e mais aumenta a possibilidade de vinganças, como aliás até já tem acontecido em diversas ocasiões nas zonas controladas pelos rebeldes.

Cristãos: São o terceiro maior grupo religioso do país, apesar de estarem divididos em diversas confissões, ortodoxas e católicas. Os cristãos tendem a ser bem educados e ocidentalizados, contudo na esmagadora maioria não apoiam os movimentos democráticos que combatem Assad, precisamente porque têm medo de que no final não seja a democracia que resulte da queda do regime, mas sim um Estado islamista onde eles se tornem cidadãos de segunda e sejam perseguidos, como tem acontecido no Egipto e no Iraque. Contudo, apesar de, tendencialmente apoiarem o regime, os líderes cristãos têm sido firmes em impedir que os seus fiéis se juntem a milícias pró-regime, apelando sempre a uma solução sem recurso às armas. Há, como é evidente, cristãos a servir nas forças armadas, como quaisquer outras religiões.

Druzos
Drusos: O quarto grupo religioso na Síria, os drusos são relativamente poucos, tendem a viver concentrados nas mesmas áreas e, por regra, tendem a ser cidadãos leais aos países em que vivem (Síria, Líbano e Israel). Neste caso os drusos têm-se mantido bastante à parte da revolta, não se querendo associar nem a um lado nem a outro.

Curdos: Os curdos não são um grupo religioso, mas sim étnico, na esmagadora maioria muçulmanos sunitas. Contudo, os curdos estão mais interessados em aumentar a sua própria autonomia. Por isso, estão dispostos a lutar contra qualquer grupo que sintam ser uma ameaça. Combateram ao lado dos rebeldes de início mas, quando chegaram grupos islamistas que quiseram impôr-lhes a sua versão do Islão, lutaram contra eles também. Os casos mais recentes de tensão levaram o curdistão iraquiano a ameaçar intervir para proteger os curdos na Síria.

Externamente:

Hezbollah: Antes de entrar pelos países, há que ver o Hezbollah, o principal partido e força armada do Líbano. O Hezbollah é um partido xiita, fortemente apoiado e armado pelo Irão. As armas iranianas chegam ao Líbano através da Síria, que fecha os olhos ao tráfego. Por isso o fim do regime de Assad poderia ser desastroso para o Hezbollah. O partido sempre apoiou Assad mas, mais recentemente, os seus soldados entraram em força na Síria para combater ao lado das tropas sírias. Os dirigentes do Hezbollah mandaram também aos militantes do Hamas, o movimento islamista na Palestina, deixar de apoiar os rebeldes. O Hamas é sunita mas depende muito do Hezbollah para apoiar a sua luta contra Israel.

Líbano: O Líbano é o país com maior diversidade de religiões e grupos étnicos. Os xiitas, como já vimos, apoiam o Assad, mas os sunitas tendem a apoiar os rebeldes. Isto já levou a conflitos no Líbano e muitos temem que todo o país se desestabilize e volte a guerra civil dos anos 80. Os cristãos, que formam cerca de 40% da população, tanto quanto me tem sido possível perceber ao longo destes dois anos, não sentem grande afinidade pelos seus correligionários na Síria e guardam ainda grandes ressentimentos pela ocupação do seu país por parte da Síria durante longos anos.

Irão:  O Irão é a grande potência xiita do mundo islâmico e está constantemente envolvido num braço de ferro com os países de maioria sunita, para ganhar influência na região. A queda de Saddam Hussein foi uma bênção para o Irão, pois permitiu à maioria xiita ganhar o poder naqueles país, mas a queda de Assad seria uma derrota. Por isso o Irão tem feito tudo para apoiar Assad e tentar manter a Síria na sua esfera de influência.

A manutenção do regime também é importante para o Irão conseguir enviar armamento para o Hezbollah, no Líbano.

Iraque: Durante muitas décadas o Iraque era dominado pelo regime de Saddam Hussein que priviligiava a minoria sunita (cerca de 40%) e reprimia a maioria xiita (cerca de 60%). Desde a queda desse regime os xiitas ganharam o poder e o país tem-se visto mergulhado numa terrível onda de violência entre as duas comunidades. Essa violência acalmou nos últimos anos, mas a crise na Síria veio reacender a rivalidade e este ano os níveis de mortandade voltaram aos de 2006.

Do Iraque têm partido ondas de voluntários para a Síria. Xiitas para combater pelo regime, sunitas para combater pelos rebeldes. Quanto ao Governo, não tem criado grandes ondas, talvez para não desestabilizar ainda mais o país, mas tenderá a apoiar Assad. O Iraque é um país através do qual o Irão faz chegar armas à Síria, e também ao Hezbollah, através da Síria.

Turquia: Durante anos a Turquia esteve virada para a Europa, na esperança de conseguir entrar na União Europeia. À medida que essas esperanças arrefecem, e sobretudo depois do começo da Primavera Árabe, os turcos perceberam que podiam tornar-se uma das grandes influências no Médio Oriente e no mundo islâmico.

Sendo um país de maioria sunita, os turcos colocaram-se ao lado da oposição, a quem dão cobertura, permitindo que as chefias se organizem, treinem e reúnam em território turco.

Arábia Saudita: Tal como a Turquia, a Arábia Saudita também quer ser uma das grandes influências no Médio Oriente. Os sauditas julgam-se guardiões da ortodoxia islâmica, são exclusivamente sunitas e odeiam o Irão, que para além de xiita não é sequer árabe, mas persa. Por isso os sauditas têm todo o interesse em apoiar os rebeldes para acabar com um regime “herético” e aumentar a esfera de influência sunita na região. Contudo, os sauditas também temem o aumento da influência dos grupos mais fanáticos dos rebeldes, pois internamente tem problemas com islamistas que consideram que o regime saudita é corrupto e foge à essência do Islão.

Israel: A posição de Israel é, no meu entender, um pouco mais difícil de explicar. Historicamente Israel tem estado em conflito com a Síria, sobretudo por causa da região fronteiriça, que Israel ocupou depois da guerra dos seis dias. Várias vezes os israelitas bombardearam a Síria para destruir o que consideravam ser o começo de construção de instalações nucleares e de facto ninguém em Israel morre de amor por Assad.

Mas por outro lado, imagino que os israelitas também estejam preocupados com o regime que o possa substituir, pois uma Síria islamista seria uma maior dor de cabeça na fronteira com Israel do que o regime de Assad que, para além de retórica, raramente incomodava.

Por outro lado, o fim do regime poderia acabar com o fornecimento de armas por parte do Irão ao Hezbollah, enfraquecendo aquela que tem sido a maior espinha no lado de Israel na última década.
Friamente diria que aos israelitas interessa sobretudo que o país se mantenha no caos o máximo tempo possível, pois enquanto aquela guerra continuar a maior parte dos inimigos de Israel tem mais com que se ocupar do que atacar o estado judaico.

Egipto: A posição do Egipto em relação à Síria alterou-se 180º com a queda do regime apoiado pela Irmandade Muçulmana. Os islamitas apoiavam os rebeldes, mas o novo regime militar, que detesta a Irmandade, cortou com todo esse apoio. O apoio egípcio era importante para a oposição, uma vez que aquele país é uma espécie de farol para o mundo islâmico sunita. A posição do Egipto assemelha-se, por isso, ao da Argélia, que apesar de ser sunita, apoia o regime sírio porque não quer encorajar movimentos semelhantes no seu país.

Rússia: Mais que tudo a Rússia quer mostrar que continua a ser uma grande potência, com influência a nível mundial. Ao contrário dos americanos, que apoiaram algumas das ditaduras que depois vieram a criticar, Putin quer mostrar que é leal às suas alianças, e a Rússia, de facto, é aliada da Síria há muitos anos. Os russos têm uma base naval na Síria e querem também defender esses interesses, para além de esta ser mais uma oportunidade para se oporem aos EUA, ainda por cima, até agora, com considerável sucesso.

Há, contudo, alguns factores religiosos que entram em jogo também. Sendo a maioria dos cristãos sírios de igrejas ortodoxas, esta é uma oportunidade para os russos poderem armar-se em defensores mundiais da ortodoxia, com o argumento de que uma vitória dos rebeldes seria má para os cristãos.
Por outro lado, os russos têm muitas dores de cabeça com grupos islamistas nas suas regiões orientais e quer tudo menos uma vitória islamista na Síria para dar força a esses grupos.

John Kerry
EUA: Por regra, os Estados Unidos têm apoiado sempre os movimentos revolucionários nestas ditaduras árabes. É por isso natural que o façam novamente na Síria. Mas apesar disso, o apoio tem sido pouco mais do que da boca para fora e tem havido enorme relutância em meter tropas no terreno.

Mais recentemente Obama disse que a utilizaçção de armas químicas seria algo inaceitável, que levaria a uma intervenção. Em Agosto os EUA e grande parte da comunidade internacional concluíram que o regime tinha de facto usado armas químicas contra a sua própria população.

A resposta da Administração Obama, contudo, tem sido um total fracasso. O Presidente começou por dizer que era urgente fazer alguma coisa, mas decidiu submeter a proposta de atacar a Síria ao Senado e depois ao Congresso. Isso é um processo que leva semanas, portanto logo ali verificava-se a estranha situação de Obama dizer algo do género: “Vamos atacar, se nos deixarem, talvez, daqui a muito tempo”, dando oportunidade para Damasco se preparar e bem.

Depois houve a aparente gaffe de John Kerry que, questionado se havia alguma coisa que Assad pudesse fazer para mudar a opinião do regime, disse, aparentemente sarcástico, que só se ele entregasse as armas à comunidade internacional. Os russos aproveitaram para apresentar formalmente essa proposta e Assad, evidentemente, aceitou, retirando ainda mais legitimidade a um ataque americano.

Perante isto, Obama foi à televisão pedir ao Congresso para adiar a votação e dizer que então os Estados Unidos esperariam para ver se de facto era possível essa outra solução, entregando de bandeja o iniciativa aos russos.

Há quem diga que, sabendo que ia perder a votação no congresso, a gaffe de Kerry tenha sido propositada para abrir uma porta de saída de toda a situação, sem que Obama passasse uma vergonha interna ou fosse forçado a entrar numa guerra que a que a esmagadora maioria da população se opõe.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Primavera em Roma, tensão no Médio Oriente

Penso que no oficial a estrela e
a flor de nardo são douradas...
Realiza-se amanhã a missa de inauguração do pontificado do Papa Francisco (e não a entronização, que será mais tarde). Quem quiser pode ir ao auditório do Colégio São João de Brito e lá assistir à transmissão da celebração, a partir das 08h00. A Renascença fará de lá uma transmissão especial que pode ser acompanhada com imagem através do site.

Entretanto hoje foi divulgado o brasão do novo Papa, que é essencialmente igual ao seu brasão de bispo, mas adaptado ao pontificado.


Ontem foi o primeiro Angelus. Estavam milhares de pessoas em São Pedro, incluindo vários portugueses.

Mudando de ares, mas ainda no Cristianismo. Há tensão entre ortodoxos. A Igreja Grega de Antioquia ameaça mesmo romper comunhão com a de Jerusalém.


E paz é coisa que já não há no Tibete há muito tempo. Mais um monge imolou-se pelo fogo este fim-de-semana.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

2 – A Guerra Civil na Síria

Mapa de distribuição religiosa na Síria
Clicar para aumentar
Graças a Deus, existe a ONU!

A Organização confirmou hoje que existem militantes do Hezbollah a combater pelo regime de Bashar al-Assad, na Síria e alertou para o facto de a guerra civil naquele país ter assumido contornos de luta sectária! A sério?!

Pois este é um tema sobre o qual temos falado incansavelmente durante todo o ano, até mais, mas foi sem dúvida um dos grandes temas deste ano no que diz respeito a informação internacional e também religiosa, porque a religião desempenha um grande e importante papel neste conflito.

A guerra na Síria ajuda-nos a compreender que isto da Primavera Árabe não é um fenómeno simples, igual em todos os países. A situação na Síria não tem nada a ver com o Egipto ou com a Tunísia. Se na Tunísia a população é praticamente homogénea, e no Egipto são apenas dois os grupos etno-religiosos de peso, os muçulmanos sunitas e os cristãos, a Síria é uma manta de retalhos.

Se não vejamos:

População: Cerca de 22 milhões
Distribuição religiosa:
            Muçulmanos sunitas: 74%
            Muçulmanos de tradição xiita: 13%
            Cristãos, várias denominações: 10%
            Drusos: 3%

Mas se fosse só assim seria demasiado simples! Então temos que 9% da população é curda. Os curdos são na maioria sunitas, mas mantêm-se à parte da população árabe, por isso os árabes sunitas são apenas cerca de 65% da população total.

Entre os xiitas temos também três grupos distintos, mas o grupo principal são os alauitas, uma vertente esotérica do xiismo. Os alauitas vivem também no Líbano e na Turquia mas a maioria vive na Síria e, desde a subida ao poder da família Assad, dominam os aparelhos do poder político e militar, isto apesar de serem apenas cerca de 10% da população total.

Por fim, os cristãos pertencem a várias denominações diferentes. Há católicos (de várias igrejas), ortodoxos, arménios e protestantes. A variedade de hierarquias e uma notória falta de coordenação significam que os cristãos, mesmo que estejam de acordo, raramente falam a uma só voz.

Vamos então ao conflito. Quem é que está a lutar pela queda do regime?

O grosso dos militantes anti-Assad são árabes sunitas. São apoiados financeira e militarmente pelos países árabes sunitas do Golfo, muitos dos quais tentam impor aos grupos que financiam as suas ideologias extremistas. Contudo, alguns membros de outros grupos étnicos ou religiosos também apoiam a oposição.

E quem apoia Assad? Os alauitas, sem dúvida. Mesmo que não gostem da figura e da repressão do regime, vivem aterrorizados com o que lhes pode acontecer caso os sunitas tomem o poder. As garantias por parte da oposição de que não haverá lugar a retribuições e vinganças não parecem consolar os alauitas.

Os cristãos também apoiam, no geral, Assad. A Síria era, até há cerca de dois anos, um dos sítios mais seguros para os cristãos viverem em todo o Médio Oriente. Pela minha experiência pessoal, de contacto com cristãos sírios, mesmo antes do começo das revoltas, eles não gostavam do regime em si, mas calculavam que era um mal menor, tendo em conta o que se passava nos países à volta. Como os alauitas, temem um eventual Governo islamista sunita.

Na corda bamba estão os drusos que, mais que tudo, querem que os deixem em paz.

Complicado? Calma que ainda fica pior. É que há também os actores externos. Vejamos.

O Irão é a única potência regional xiita e faz tudo o que tem ao seu dispor para salvaguardar a sua influência regional. Uma Síria em mãos alauitas é aliada do Irão, uma Síria sunita não é. Por isso o Irão apoia Assad até porque o fim do regime impediria os iranianos de continuar a apoiar o Hezbollah, no Líbano.

O que nos leva precisamente ao Hezbollah. Esse grupo político-militar xiita é, actualmente, o mais influente no Líbano. Tem um arsenal próprio e conta com o tal apoio do Irão, que é muito significativo. Com o seu poder continua a fazer frente a Israel, como pode. Para o Hezbollah a perda da conduta Síria, por onde vêm armas do Irão, seria desastrosa. É por isso que o Hezbollah está, de facto, há muito tempo, a combater na Síria ao lado das forças armadas de Assad.

Para além dos países do Golfo que apoiam financeiramente a oposição há ainda que ter em conta a Turquia. Os turcos já não são aquele baluarte do secularismo que eram há anos, o país tem-se tornado crescentemente islâmico e à medida que a Europa vai mostrando que não a quer na União Europeia, os turcos vão virando as atenções para o Médio Oriente, conscientes de que a Primavera Árabe pode muito bem aumentar a sua influência na região.

Por isso a Turquia, um dos países sunitas mais importantes do Médio Oriente, também quer ver os sunitas no poder na Síria, de preferência com uma dívida de agradecimento para com Ancara.

E quem é que não pode ver os turcos à frente? Os curdos, pelo que esse grupo se mantém muito desconfiado em relação à oposição na Síria também.

Resumindo, uma enorme misturada, mas onde a religião é um factor chave para se compreender o que se está a passar. Não é, de certeza, uma mera questão de amantes da liberdade contra um estado tirânico.

Também é necessário realçar, claro, que há excepções. Há cristãos empenhados na oposição e há sunitas que não querem ver Assad pelas costas. A tendência até pode ser para a passagem gradual dos cristãos e outras minorias para o lado da oposição, à medida que percebem que a vida normal e calma que gozavam simplesmente não regressará.

E, claro, há muitos factores extra-religiosos na equação. O apoio da Rússia e da China a Assad tem outras raízes, por exemplo, e os EUA e Europa não apoiam certamente a oposição por amor ao Islamismo.

Actualmente a queda do regime parece ser simplesmente uma questão de tempo, mas isso não será o fim da história, é que muitos destes grupos poderão, em situações de perigo juntar-se nas suas terras ancestrais, e tentar, quem sabe, criar estruturas autónomas de Governo. Mas isso já são suposições.


Ver também:

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"The brutality of the regime in Syria is not defendable anymore"

Full transcript of interview with Syrian Christian Fadi Halisso. Fadi is studying in Beirut to become a Jesuit priest. He is a rare example of a Christian who has been opposed to the regime since the first protests back in March 2011. News item in Portuguese available here.

Transcrição completa da entrevista a Fadi Halisso, um cristão sírio. O Fadi está a estudar em Beirute para se tornar padre jesuíta. Ele é um exemplo raro de um cristão oposto ao regime desde os primeiros protestos em Março de 2011. Pode ler uma versão editada desta entrevista em português aqui.

How do you manage to get information from Syria?
It is not easy, we have some connections with people who have secure internet connections. But like when three days ago there was a complete blackout in Syria, we were not able to have any kind of information because even those who have satellite uplinks had to turn them off for security reasons, so it is not easy, we are hardly getting information because even activists are being followed by security forces. We are managing, but the fear is to have a blackout for more than two or three days, in this situation we won’t be able to know what is happening there.

We get information from the Regime and from the opposition. Is it trustworthy?
They are both not reliable, they both use lies, but not on the same level. The opposition are not always telling the truth about the situation in the field and how the battles are going. Sometimes they are not showing their troops’ inhumane behaviour. But of course if we compare this to the Government information, it would be more reliable. The government lies in every word they say. They are bombarding and shelling cities and even people in lines in front of bakeries, but you don’t hear about this in the news from the media.

Did your position change over time or have you always been against the regime?
My position did not change, from the first month of the revolution I was on the side of the people and their demands for liberty and dignity. In the beginning it was very peaceful and many of my friends were killed in the streets during the peaceful demonstrations, and others were detained for many months, so my position has been always the same. Now I am admitting that the violence that ensued is not a positive side of the revolution.

How about the position of Christians in general, the idea we have is that they are mainly in favour of the regime, has this changed?
As for the Christians in general there have been some changes. Many of them are involved in relief efforts taking place in many cities. Many of them who cannot support the regime anymore decided to leave the country. Did you hear about the defection of Jihad Makdissi, the speaker of the Ministry of Foreign Affairs? He defected to London via Beirut. So yes, the Christians now, many of them at least, are considering new positions in the struggle taking place. The brutality of the regime is not defendable anymore. They either choose to be silent, to leave the country or to be involved in the relief. Many of the Christians who came to Beirut, to Cairo or to Jordan are very active in the relief and support of their countrymen inside Syria.

Have there been any instances of Christians fighting in militias for the Government?
There have been some talks about this, but what I know for sure is that some people in the Government wanted to offer the bishops weapons for their parishes, but they refused both in Alepo and in Damascus. They refused to carry weapons to defend themselves, but they opened their institutions to receive displaced families. But at the same time some Christians individually chose to carry arms and fight with the Government militias.

Effects of the fighting in Homs
How about Christians fighting with the opposition?
We have news about some Christians fighting with the opposition, especially in Damascus, but we don’t have exact numbers and they mostly come from leftist backgrounds, members of leftist parties, and they don’t like to be described as Christians, they prefer to say that they are Syrian and fighting with their compatriots against the despotic regime, that’s all.

Isn’t there the danger of Syria getting dragged into an ethnic war like what happened in Iraq?
There are always fears about repeating what happened in Iraq in Syria. But at the moment nobody is willing to take revenge of other parties. But some extreme currents in Arab Gulf countries are trying to force their agendas on the Brigades they are financing, and some of those agendas have nothing to do with the Syrian cause. Some of them are forcing extremist religious practices in the areas they are controlling, which have nothing to do with the moderate Islam we have in Syria. That is our main fear, we don’t fear an ethnic war or a religious war in Syria. At the moment we can see it is under control even though there are some individual incidents here and there.

What is the situation of the refugees there in Lebanon?
In general the refugees in Lebanon are in a better situation than those in Jordan. In Jordan three babies died last week of hypothermia. In Lebanon the situation is better but the needs are very big. Of course if you compare it to the needs in Syria it is nothing. People here at least have shelters to sleep in, many people in Syria are in the streets, fighting the winter without any help. Here in Lebanon we try to organize small initiatives, we try to cooperate with the local community, many Lebanese NGO’s are helping us immensely. The problem is that the number of refugees tripled over the summer. Now more people are coming because of the military action taking place in Daryah, or in the suburbs of Damascus. Each day we are receiving families that have to be sheltered. Here in Lebanon we don’t have collective facilities to host refugees, they are forced to look for apartments, small rooms or even garages to rent.

What is the attitude of Lebanese Christians towards the Syrian Christians in need?
It depends. Mostly the people who lived during the Lebanese war have hard feelings against Syrians, because of what they suffered from the Syrian regime’s troops in Lebanon, so they are not willing to cooperate. But the younger generations who did not have that experience are very helpful, they donate things and help the children, teaching them, collecting donations. We cannot generalize the Lebanese Christians. There are many people of good will and there are others who don’t want anything to do with Syrians.

A bombed out church in Homs, Syria
With all the atrocities that we have heard about, how come the Government still has such a strong army, how have there not been more defections?
Many of the soldiers come from deprived environments in Syria. They are very poor, if they defect they don’t have anywhere to go. Defection is not an easy decision, because you are not only putting yourself in danger, you are placing your whole family in danger. Those who do defect, especially from higher ranks, only do so when they manage to secure their entire family, and this is not always easy. The lower ranks are hopeless, they don’t know what to do, to stay in the army and kill their relatives, or defect and become a target themselves. It is not an easy decision and it is not an easy thing to ask for.

Other interviews concerning Christians in Syria
Interview with Syrian Christians for Democracy
Jesuit in Syria: "I am leaving the country in the next few days, by decision of the Church"
“The end is near for Bashar”, but “Free Syrian Army are gangsters”

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

We follow @Pontifex

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Quais foram as notícias de religião mais importantes de 2012? Sei que é isso que toda a gente quer saber e por isso elaborei o meu próprio ranking. Hoje apresento o 10º lugar:


Tive que juntar, se não era preciso fazer um ranking de +20...


O Vaticano anunciou hoje que o Papa está no Twitter com o nome “@Pontifex” e que embora não seja ele a escrever as mensagens, aprovará todas as que forem enviadas, o que já não é nada mau.


Também uma referência ao escândalo de abusos sexuais na Igreja que chegou agora à Austrália. Para ajudar a compreender a situação entrevistei o jovem jornalista católico Robert Hiini, que vê isto como uma oportunidade. Podem ler a transcrição integral da entrevista aqui, como de costume.

Termino com uma sugestão. Para quem gostaria de fazer um retiro de advento mas sente que não tem tempo, há amigos de Peniche que o querem ajudar. O santuário local oferece retiros de um dia, um dos quais mesmo a jeito para antes do Natal. Está tudo aqui…

10 – Viagens do Papa a Cuba, México e Líbano

Ao longo das próximas semanas vou publicar aqui um ranking das mais importantes notícias religiosas do ano de 2012. O critério é unicamente meu e quaisquer comentários são bem-vindos!

Em jeito de contagem decrescente, vejamos então qual foi a décima notícia mais importante...



As Viagens do Papa a Cuba, México e Líbano

Das várias viagens que o Papa empreendeu este ano escolhi estas por serem as mais significativas.

A visita à América Latina, em Março, que levou o Papa primeiro ao México e depois a Cuba foi especial por várias razões. Num caso estamos perante um país fortemente católico mas que viveu durante várias décadas debaixo de um regime totalmente anticristão onde a Igreja foi perseguida duramente, ao ponto de o povo ter pegado em armas para defender a sua fé, nas guerras que ficaram conhecidas como a Cristada.

A ida ao México foi, por isso, uma oportunidade de fazer as pazes com um país que está em mudança e que constitui um baluarte do Catolicismo naquele lado do Atlântico. Não podemos esquecer, por exemplo, que a população católica dos EUA está a crescer a olhos vistos em grande parte devido à entrada de imigrantes mexicanos.

Mas o ponto alto da viagem foi sem dúvida a ida a Cuba e aqui valeu tanto pelo seu conteúdo como pelas incríveis imagens que nos chegaram.

Desde a missa celebrada a céu aberto diante de gigantes painéis de Ché Guevara até à fotografia, para mim uma das mais fortes do ano, de um manifestante a ser levado da missa campal depois de ter gritado “Abaixo ao Comunismo”.

O encontro final entre Bento XVI e Fidel Castro foi também interessante e comovente. Toda a viagem revelou, no meu entender, uma vitória para a Igreja num local onde ela é já pouco conhecida depois de duas gerações de total supressão, mas onde se reinventou como fonte de apoio para movimentos civis de resistência ao regime.

Eventos deste género são sempre, também, vitórias para os regimes que assim se credibilizam, mas neste caso em particular fê-lo à custa da sua própria doutrina, na qual duvido que os próprios líderes ainda acreditem. Bento XVI falou sem medos e sem cerimónias sobre a situação política da ilha, com uma elevação intelectual e uma franqueza que lhe são características e manteve a tradição de transformar mais um “fracasso internacional”, como a imprensa insiste em descrever antecipadamente todas as suas viagens, num retumbante sucesso com banhos de multidão.

Mais tarde, em Setembro, o Papa foi ao Líbano.

Multidões para ver o Papa no Líbano
Esta notícia era importante por duas razões. A primeira, como é evidente, por causa da região e da situação geopolítica, sempre instável, mas particularmente difícil por causa da Guerra na Síria. Nesse sentido, como factor de esperança e mensagem de paz a viagem foi marcante e da maior importância. As centenas de milhares de pessoas que foram ver o Papa são o testemunho de uma Igreja viva no Médio Oriente e os encontros inter-religiosos mostram que a religião pode ser fonte de muita da violência no mundo, mas também há quem esteja apostado em usá-la para a paz.

O lado menos positivo terá sido, talvez, a própria exortação apostólica que o Papa foi ao Líbano entregar. O documento resulta do sínodo para os bispos do Médio Oriente, que decorreu em 2010, e embora tenha incluído alguns bonitos apelos à paz e considerações sobre a região, muitas das questões práticas que foram levantadas pelos padres sinodais foram simplesmente esquecidas. Dois exemplos claros são a autoridade dos patriarcas e demais líderes de Igrejas orientais sobre os seus fiéis a residir fora dos territórios patriarcais tradicionais e ainda a proibição, anacrónica, de estas igrejas ordenarem homens casados fora dos mesmos territórios.

Não se percebe, por exemplo, porque é que os católicos maronitas a viver nos EUA não dependem directamente do Patriarca dos Maronitas mas sim de Roma, nem é aceitável que a Igreja Greco-Católica da Ucrânia possa ordenar homens casados em Kiev, mas não em Nova Iorque.

Os sínodos de bispos de pouco servirão enquanto Roma continuar a fazer o que quiser das suas deliberações, digo eu.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O filme de Maomé e a cabeça de Salman Rushdie

Uma cabeça que vale 3,3 milhões de dólares
A viagem de Bento XVI correu bem e sem perigos. A Aura Miguel faz aqui uma síntese desta visita.

O Papa foi entregar aos bispos do Médio Oriente a Exortação Apostólica correspondente ao Sínodo que decorreu em 2010. Podem ler o meu resumo desse documento aqui.

Entretanto o mundo islâmico continua com tumultos por causa do filme sobre Maomé. Mas há vozes muçulmanas que se erguem contra a violência, incluindo a do Grão Mufti da Arábia Saudita e a deste americano, que vale bem a pena escutar.

Na mesma altura (mas que timing!) é publicado o livro de memórias de Salman Rushdie, o que levou a que o seu valor (o valor da sua cabeça, entenda-se), aumentasse em 500 mil dólares

Por cá não há cabeças a prémio, por enquanto, mas os bispos lembram que a “política não é nenhum ringue”. Imaginem as audiências do Canal Parlamento se fosse!

E Guimarães e Braga vão receber uma sessão do Átrio dos Gentios em Novembro, em que deverão participar Olga Roriz, Assunção Cristas e valter hugo mae.

Por fim, para quem interessar, o sociólogo de religiões José Maria Pereira Coutinho, vai falar sobre a religiosidade dos universitários amanhã, no Seminário Mundos juvenis no Instituto de Ciências Sociais, pelas 17h30.

domingo, 16 de setembro de 2012

Resumo da Exortação Apostólica para o Médio Oriente


Já é conhecido o texto da Exortação Apostólica para o Médio Oriente, cuja revelação e entrega está na base da visita que o Papa fez ao Líbano nos últimos dias.

O texto completo pode ser lido aqui, mas só para quem tiver paciência e tempo, porque são 96 páginas!!! Por isso, para vossa comodidade, aqui fica um curto resumo com os principais pontos.

O primeiro ponto a destacar tem a ver com as relações ecuménicas. Aqui o Papa aborda um problema que é muito grave e talvez o menos conhecido por parte de quem vive fora da região, a unidade. Claro que seria bom haver mais unidade entre cristãos de diferentes denominações, não só no Médio Oriente como no resto do mundo, mas infelizmente nos países árabes, onde os cristãos são sempre uma minoria e muitas vezes uma minoria perseguida, não existe sequer unidade entre católicos de diferentes ritos, quanto mais entre estes e ortodoxos, que são outros tantos.

O Papa faz questão de enfatizar que a unidade que se pede não é sinónimo de uniformidade de tradições e liturgia. É antes o estabelecimento de boas relações e de abrir canais de comunicação para que os cristãos possam falar a uma só voz sobre temas fundamentais.

Já o disse antes, considero que este é um dos assuntos chave a resolver no Médio Oriente. É absurdo que os refugiados cristãos sírios no Líbano sejam ignorados e desprezados pelos seus correligionários locais, bem como é absurdo que os cristãos e seus bispos na Síria continuem a tratar cada um dos seu quintal, sem tomar uma posição comum que pudesse fazer a diferença.

Interessantemente o Papa deixa espaço para o desenvolvimento de uma “communio in sacris”, isto é, a possibilidade de cristãos poderem usufruir de sacramentos nas diferentes igrejas. Actualmente, só em caso de emergência é que um católico pode receber a comunhão, ou confessar-se, por exemplo, numa Igreja ortodoxa, mas Bento XVI deixa espaço para contrariar isso, o que levará tempo e diálogo, mas que essencialmente vira ao contrário a noção de ecumenismo que tem reinado no Ocidente, de um diálogo longo e complexo que visa culminar na mesa da comunhão, para um encontro em diálogo precisamente à volta da mesa, que parte dos sacramentos para tentar construir a unidade nas vidas e corações. Francamente, a mim sempre me pareceu uma abordagem mais humana as divisões na Igreja...

O texto fala depois do diálogo inter-religioso. O Papa pede, essencialmente, o fim da violência inter-religiosa. Reconhecendo que cristãos, muçulmanos e judeus adoram todos os mesmo Deus, estes devem reconhecer uns nos outros a dignidade e evitar situações de violência que são “injustificáveis” para “verdadeiros crentes”. Aqui o Papa faz um apelo à liberdade religiosa, tendo o cuidado de explicar que não se trata de sincretismo.

Por fim, nesta primeira parte do texto, Bento XVI fala dos cuidados a ter com os imigrantes que vão para o Médio Oriente principalmente de países africanos e asiáticos, sendo que muitos são cristãos. Muitos vivem em países onde a prática da sua religião não é tolerada, como a Arábia Saudtia, por exemplo. Outros, mesmo nos países onde há cristãos, por não pertencerem a comunidades tradicionais, são vítimas de discriminação.

A segunda parte tem secções dedicadas aos Patriarcas, Bispos, Padres e Leigos, mas tanto quanto consigo perceber não tem grandes novidades. Talvez a coisa mais interessante seja o apelo do Papa para que os filhos fiquem no país, ou que regressem, para que não acabe a presença cristã na região, sem a qual “O Médio Oriente não seria o Médio Oriente”.


Interessantemente, no texto o Papa nunca fala especificamente de países. Por um lado, é natural que assim seja, a mensagem é dirigida a cristãos e não a Estados. Por outro, isso significa que nunca se fala de Israel, nem do problema israelo-árabe, algo que foi amplamente discutido no Sínodo do qual este texto resulta.

Outro tema muito importante que foi falado no Sínodo mas que não vejo reflectido aqui é a falta de liberdade das igrejas orientais no Ocidente. Passo a explicar. Tomemos a Igreja Melquita, por exemplo. O Patriarca está na Síria e é responsável pelos melquitas em todo o Médio Oriente. Fiel à tradição da sua Igreja, pode ordenar homens casados para o sacerdócio. Mas segundo as regras ainda em vigor, um bispo melquita nos EUA ou noutro país de tradição ocidental, não pode ordenar homens casados. Este é só um exemplo. Há casos nos quais as Igrejas orientais em território tradicionalmente “latino”, em vez de responderem perante os seus patriarcas, respondem directamente a Roma.

Vários bispos queixaram-se disto no Sínodo. A ideia é a Igreja ser uma comunhão de diferentes igrejas de direito próprio, ou sui iuris, em Latim. Mas na realidade, actualmente, as igrejas orientais têm um estatuto inferior, na prática. Para além de ser uma falta de respeito por estas igrejas veneráveis e antigas, é também um péssimo sinal ecuménico que se dá, levando os ortodoxos a concluir rapidamente que, caso aceitassem reunificar a Igreja, ficariam subjugados à Igreja Latina, quando a ideia não deve ser essa.

Com o texto já publicado resta saber se passará das palavras aos actos. Para isso, e voltando ao primeiro ponto, é preciso unidade e diálogo, o que já por si seria um avanço para os cristãos que vivem no mundo islâmico.

Filipe d'Avillez

sábado, 15 de setembro de 2012

Luzes! Câmara! Acção! Culpar os judeus!


Cena do filme "A Inocência dos Muçulmanos".
Qualquer semelhança com a realidade actual...
Tem acontecido muita coisa nos últimos dias, e hoje em particular, e infelizmente não tenho podido acompanhar os desenvolvimentos todos com a atenção que merecem.

O Papa chegou hoje ao Líbano. Vai ser uma viagem muito rica, ao nível dos discursos especialmente. É de notar que o Líbano tem sete igrejas católicas diferentes, e mais uma quantidade de ortodoxas. O Papa vai ter palavras para todos eles e ainda para as outras comunidades religiosas.

Escreví o outro dia que um dos pontos que esperava que o Papa abordasse seria a questão da falta de unidade entre as diferentes comunidades cristãs no Médio Oriente. Já hoje nos discursos houve leves referências a isso. Entretanto hoje um dos oradores do curso que estou a frequentar em Roma é um especialista no Médio Oriente e quando lhe perguntei precisamente sobre a questão da unidade cristã, revelou que já teve acesso à Exortação Apostólica, i.e. O texto final com as conclusões do sínodo dos bispos do Médio Oriente que teve lugar em 2010 e que o Papa foi ao Líbano entregar, e que nesse documento há uma secção inteira só sobre a unidade dos cristãos e a importância de falarem a uma só voz.

Michelle Zanzucchi, director da revista Cittá Nuova, do movimento Focolares, falou longamente sobre a questão da Primavera Árabe e da situação dos cristãos no mundo árabe e no Médio Oriente. Uma coisa que retive de forma particular foi em relação ao Irão, o menino mau regional. Segundo Zanzucchi a Arábia Saudita vai explodir dentro dos próximos 8-10 anos, e isso terá influências no resto do Médio Oriente. Nessa altura, acredita, o Irão, que deverá sofrer uma importante transição nos próximos quatro anos, será fundamental para ajudar a pacificar a região, isto porque, segundo ele, o Irão é de longe o país do Médio Oriente que é mais próximo, em termos de mentalidade, do Ocidente.

É uma perspectiva interessante. De facto o Irão não é um país árabe, mas sim indo-europeu e quem conhece a realidade persa actual diz que o fundamentalismo islâmico do regime praticamente não tem raízes no país, sobretudo na capital.

Entretanto houve alguns confrontos no Líbano hoje, motivados sobretudo pelo terrível filme anti-islâmico que foi feito nos EUA. Os manifestantes, no norte do país, gritaram contra o filme e também contra a visita do Papa.

Com o passar dos dias vão surgindo mais dados sobre esse tal filme chamado “The innocence of Muslims”... alguns são curiosos. Ora senão vejamos:
Inicialmente surgiu a informação de que o filme tinha sido feito por um tal Bacile, um agente imobiliário israelo-americano que tinha reunido dinheiro doado por uma centena de judeus para avançar com o projecto.

Mas algumas pessoas desconfiaram do nome e rapidamente se percebeu que Bacile é um nome falso e que não existe nenhum israelita com esse nome. O que se soube foi que um dos grandes promotores do filme é Morris Sadek, um extremista cristão copta Egípcio, que vive nos Estados Unidos e que é conhecido pelas suas posuições radicalmente anti-islâmicas.

Depois de mais alguma investigação os jornalistas conseguiram determinar que quem fez o filme, o tal Bacile, é de facto um Nakoula Basseley Nakoula, que é também cristão copta.

O que é que isto quer dizer para os coptas que ainda vivem no Egipto? Más notícias...

Porque é que começaram por culpar os judeus? Bom, todos os coptas que eu conheço pessoalmente, e não são muitos, são pessoas fantásticas, simpáticas e tolerantes. Mas a verdade é que os cristãos do Médio Oriente, por regra, não são grandes fãs de Israel. A culpabilização dos judeus poderá ter sido vista como uma forma de criticar os muçulmanos desviando eventuais represálias para Israel e os judeus, matando, por assim dizer, dois coelhos com uma só cajadada.

Ou seja, para além de estúpido e pouco inteligente, este projecto é também desonesto e mal-intencionado.

Ainda por cima a Igreja Copta está neste momento orfã, e no processo (elaboradíssimo) de eleger um novo Patriarca. Mas hoje recebi uma nota do bispo copta Angaelos, do Reino Unido, que é clara e objectiva. Vou transcrevê-la, pois imagino que todos consigam seguir o inglês:


Statement by His Grace Bishop Angaelos, General Bishop of The Coptic Orthodox Church in the UK

In assessing the recent developments surrounding the release of the film ‘Innocence of Muslims’ that insults Islam, and the alleged involvement of ‘Coptic Christians’, it is imperative that a clear distinction be made between the vast majority of Coptic Christians, and a minute minority that may choose to use inflammatory and insulting means to further political agenda. Coptic Christians in Egypt, across all churches and denominations, are known to be a peaceful people who have faced persecution for centuries and have never retaliated in any way that would insult or demean any other faith or faith group.

Having the largest Christian presence in the Middle East and numbering in the order of 18 million, Coptic Christians have peacefully coexisted alongside their Muslim brethren for centuries. Despite repeated attacks by religious extremists upon churches and communities, they continue to live a message of love, forgiveness, peace, and tolerance.

In this and in similar cases, it is of course the right of individuals or groups to protest in a responsible manner against conduct that insults what they hold sacred. Having said that, as these protests continue to escalate, sometimes dangerously out of hand, there must be a realisation that in Egypt, its surrounding region, and beyond, it is only local citizens and communities, and the reputation of these states that is being damaged through such aggressive and violent behaviour.

In a changing region that hopes to safeguard the rights of every individual, it is of course unacceptable for anyone to demean or insult another faith, whether it be the film currently in the spotlight or the radical Muslim cleric who burned, spat on and threatened to further desecrate a Holy Bible in a public square in Cairo.

While we must realise and accept that there will always be differences on faith matters between religious communities, it must also be agreed that interaction, conversation, debate, dialogue and even protest must be in a respectful and peaceful manner that safeguards the wellbeing of individuals and the harmony of communities.

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