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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

As Moedas da Viúva

Randall Smith
Conta-se que quando estavam a restaurar a Estátua da Liberdade, no início dos anos 80, e para o efeito estava-se a recolher fundos em todo o país, apareceu um envelope com duas moedas de dez cêntimos, e um bilhete de um rapazinho, que dizia: “Isto é o meu dinheiro para o almoço de hoje, mas estou a enviá-lo para a Estátua da Liberdade. Por favor usam-no com juízo”.

Se for verdade, então é uma versão moderna da história das moedas da viúva (Marcos, 12, 41-44 e Lucas 21, 1-4), em que uma viúva pobre doou duas moedinhas, as mais baixas em circulação, ao tesouro do Templo. “Chamando a si os discípulos”, diz Marcos, “Jesus disse-lhes. ‘Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.’”

É uma história maravilhosa, no geral toda a gente gosta dela. Às vezes preocupo-me que gostamos muito dela porque é uma daquelas parábolas em que os ricos parecem ser denunciados e os pobres (que associamos a nós mesmos, apesar de vivermos no país mais rico do mundo) são elogiados. “Sim, os pobres como eu é que vão para o Céu e aqueles arrogantes ricos idiotas vão finalmente levar com o que merecem.”

Talvez não seja essa a melhor lição a tirar desta história, uma vez que somos um povo rico, a quem muito foi dado, e de quem muito se esperará. E que, se formos honestos connosco mesmos, normalmente contribuímos do que temos a mais e não do nosso sustento. Por isso talvez seja melhor deixar de parte os nossos ressentimentos financeiros por enquanto e considerar outras duas lições que a Igreja pode aprender com a história desta viúva e do jovem que enviou o seu dinheiro do almoço com a recomendação de que fosse usado com juízo.

A primeira lição, que deve ser aprendida por certos bispos, é de que o dinheiro do “tesouro do Templo” não é vosso. O dinheiro é da viúva e ela confiou-o à Igreja e ao vosso cuidado. O vosso dever passa por usá-lo sábia e dignamente.

Com cada despesa o bispo deve perguntar: O uso deste dinheiro é digno da pobreza e do amor da pessoa que o doou? Aquela viúva deixou as duas moedas no cesto da colecta para que pudesse voar em primeira classe para Roma? Doou para que pudesse oferecer presentes caros àqueles de quem espera obter favores?  

Poucas coisas metem mais nojo do que prelados que tratam o dinheiro doado como se fosse sua propriedade, para disporem como quiserem. Talvez esta não seja a melhor altura para referir que no seu último encontro os bispos americanos votaram para aumentar as contribuições das dioceses do país em 3% para financiar as diversas atividades da conferência episcopal. Acredito que as usem com juízo.

Mas a segunda lição é para todos nós e é sem dúvida mais importante, uma vez que é menos diretamente “financeira”. Seja qual for o nosso talento, é o suficiente que o ofereçamos a Deus. Especialmente em tempos difíceis como estes, quando as grandes movimentações no mundo e na Igreja parecem estar fora do nosso alcance, é tentador dizer: “Eu? O que é que eu posso fazer? Como é que posso contribuir?” Se Deus to deu, então chega.

Lembram-se da história da multiplicação dos pães e dos peixes? (João 6, 1-14). Vendo a multidão de “cerca de cinco mil”, Jesus disse a Filipe: “Onde é que podemos comprar pão para eles comerem?” Filipe responde. “Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho”. Outro dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, falou, dizendo: “Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes.” O resto, como dizem, é história. Jesus tomou os dois pães e os peixes e deu de comer a toda a multidão. E depois de se terem saciado, ainda sobraram 12 cestos com os restos.

Esta história também é famosa, e com razão. Mas não queremos perder de vista a importância de uma das personagens menores: o rapazito. Os cinco pães e os dois peixes eram tudo o que ele tinha para comer o dia todo. Quando os apóstolos lhos pediram, podemos imaginá-lo a responder. “Isto? Não. É tudo o que tenho. Procurem um rico com muito pão”. Mas não o fez. Deu o pouco que tinha. Não era muito, mas era o suficiente.

Imaginem ser este rapaz e virem ter consigo as pessoas que perguntam: “Foste tu que deste os cinco pães e os dois peixes que alimentaram os cinco mil?” O que diria? “Bem, sim. Mas não é como se eu tivesse alimentado aquelas pessoas todas”. “Não, mas se não tivesses sido tu não tinha acontecido nada. Foi como Maria. Fizeste a tua parte, deste o teu ‘Sim’, e isso fez toda a diferença”.

Por isso, caro amigo, só tens é que dar os teus míseros cinco pães e dois peixes, de forma altruísta, de graça, sem qualquer desejo de lucro ou de promoção, e depois confiar que Deus consiga alimentar milhares com os dons que Ele te deu. É a estranha matemática do amor, multiplica-se. O dom altruísta do amor entre duas pessoas cria uma terceira, e depois outra, e outra, até que há trinta-e-cinco netos. Um pequeno grupo de amigos pode produzir bons efeitos que se expandem de forma exponencial, sozinhos, sem os mecanismos do poder, da propaganda e do controlo social.

É uma Igreja grande, um mundo enorme, com milhares de milhões de pessoas. “Que posso eu fazer?” Dá as tuas duas moedas. Dá os teus pães e um par de peixes. Depois deixa que Deus faça a cena dele.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020)


© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Os Católicos “Protestantes”

David Carlin
O meu autor favorito – em assuntos de religião – é John Henry Newman (1801-1890), que descobri pela primeira vez quando li “A Ideia da Universidade”, tinha eu vinte e poucos anos. De vez em quando regresso a ele e leio-o intensamente durante algumas semanas. Estou neste momento a meio de uma dessas fases.

Newman escreveu e proferiu um enorme número de homilias tanto na metade protestante da sua vida, como na metade católica. Há dias calhou ler uma das homilias católicas sob o título: “A Fé e o Juízo Privado”. Aí ele argumenta que os protestantes não têm fé, no mesmo sentido em que os católicos.

Os católicos, escreve, são dóceis. Aceitam como verdadeiras as doutrinas da Igreja, sem se reservarem ao direito de as julgar; sem se reservarem o direito de decidir por si se são, ou não, verdadeiras.

Isso não significa que os católicos não exerçam a capacidade de julgar. Pelo contrário, têm de decidir por si se a Igreja Católica é a verdadeira Igreja, criada originalmente por Cristo, há dois mil anos. Mas depois de decidir, como Newman fez quando tinha quarenta e tal anos, renunciam o direito de julgar as doutrinas da Igreja. A partir desse ponto escutam e aceitam.

Já os protestantes, por outro lado, acreditam possuir o direito de julgar as doutrinas do Cristianismo; o direito a decidir se são falsas ou verdadeiras. Trata-se do importante princípio protestante do juízo privado, que surgiu no Cristianismo no tempo da Reforma.

O protestantismo tinha rejeitado a autoridade do Papa e dos bispos para ensinar, substituindo-o pela autoridade da Bíblia – “A Bíblia, toda a Bíblia e nada para além da Bíblia”, como alguém viria a dizer mais tarde. Mas isso deu aso a uma nova dificuldade. A Bíblia como infalível, certo, mas quem pode decidir com autoridade o que é que a Bíblia diz verdadeiramente?

Não podem ser o Papa e os bispos, como acreditam os católicos, porque os protestantes já os tinham rejeitado.

Teoricamente, poderia ser um future concílio, mas na prática nunca mais haveria um concílio aceitável para os protestantes. Houve um católico, sem a presença de qualquer protestante, mas nunca houve um concílio protestante, nem poderia haver, dada a fragmentação do protestantismo.

Talvez os reis, ou outros governantes? Mas isso era obviamente absurdo e por isso ninguém poderia acreditar. Como é que um Rei haveria de conhecer melhor o sentido da Bíblia do que um ministro sincero ou um leigo?

No final de contas o protestantismo não teve outra escolha que não permitir às pessoas que decidem por si o que a Bíblia quer dizer. Os críticos católicos apontam para um problema óbvio neste princípio de juízo privado: se vinte pessoas lerem a Bíblia, podem bem retirar dela vinte interpretações diferentes. O princípio de Juízo Privado levaria à fragmentação do Cristianismo, e foi isso mesmo que aconteceu.

Ao longo dos séculos os protestantes utilizaram três estratégias para tentar impedir, mitigar ou corrigir esta fragmentação.

Miguel Servet
Perseguição: Calvino mandou queimar Miguel Servet em Genebra. Em Inglaterra a rainha Isabel I perseguiu os católicos e os puritanos. Na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, os puritanos de Massachusetts Bay perseguiram Roger Williams, Ann Hutchinson e os Quakers.

Ecumenismo: As denominações moderaram a sua hostilidade umas para com as outras ou colaboraram de diversas formas, ou então fundiram-se mesmo.

Moralidade cristã: A doutrina foi minimizada para enfatizar tudo aquilo sobre o qual os protestantes concordam moralmente. Depois defendeu-se que a moralidade constituía o essencial do Cristianismo, e que a doutrina era apenas de importância secundária, ou meramente ornamental.

Nenhuma destas estratégias resultou, incuindo a última, a cujo colapso temos assistido no nosso tempo. No mundo protestante dos Estados Unidos, hoje, existe algum consenso universal sobre moralidade, mas não muito.

Por exemplo, todos os protestantes concordam que é errado assaltar bancos, ou bater na avó com um taco de baseball. Mas no que diz respeito à moralidade sexual e ao aborto, os protestantes liberais e conservadores estão em desacordo total. Não podiam estar mais distantes.

Os conservadores ainda aderem ao ensinamento antigo do Crisianismo de que a fornicação, coabitação antes do casamento, actos homossexuais e aborto são pecados graves. Mas os liberais, pelo contrário, argumentam que (pelo menos em muitas circunstâncias) nenhuma destas coisas é pecado.
  
E quando os conservadores acusam os liberais de ignorar a Bíblia, os liberais respondem: “De todo. Como bons protestantes que somos, temos direito ao juízo privado, tanto quanto Lutero, Calvino, João Knox e Cotton Mather tinham. E, segundo a nossa interpretação da Bíblia, os mandamentos do Novo Testamento para “amar o próximo” e “não julgar” anulam todos os antigos tabús. Jesus está-nos a dizer que os cristãos de hoje devem aceitar o aborto e o casamento homossexual. Jesus está em sintonia com os tempos modernos, e nós também. Vocês, pobres conservadores, é que não.”

Se o juízo privado é a característica marcante do protestante, então a maioria dos católicos americanos, hoje, são de facto protestantes. É cada vez mais raro encontrar católicos que acolham os ensinamentos da Igreja como Newman dizia ser correcto, de acordo com a fé, de forma dócil.

Tal como os americanos não-católicos, os católicos arrogam-se o direito de pensar por eles sobre todas as coisas – incluindo as verdades religiosas. Logo, dezenas de milhares de católicos americanos utilizam aquele antigo recurso protestante, o juízo privado, para discordarem da Igreja no que diz respeito à contracepção, o sexo antes do casamento, aborto e casamento homossexual – e (calculo, embora não saiba ao certo) a divindade de cristo, a presença real na Eucaristia, o nascimento virginal e a Ressurreição.

Em grande medida o catolicismo americano tornou-se uma forma de protestantismo. E, pior, uma forma de protestantismo liberal.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Os “Apenas Cristãos” não têm Noção


Uma das coisas mais irritantes que ouço no diálogo ecuménico é: “Ah, eu não pertenço a nenhuma tradição ou denominação religiosa, sou apenas um seguidor de Jesus”. Pior ainda quando a pessoa assegura, com grande confiança, “não sou protestante, sou cristão.” Nestes casos estamos perante protestantes que não parecem capazes de compreender que são protestantes.

Admito que a vontade de deixar de parte os títulos sectários ou de denominação, é louvável, pois reconhece que as diferenças e as divisões entre os cristãos não são, em si, uma coisa boa. A Igreja Católica subscreve esta visão, lamentando no Catecismo, #817, as “rupturas que ferem a unidade do Corpo de Cristo”. Mas, para além disso o slogan “sou apenas cristão” não tem muito que se lhe diga. 

Para começar, é ignorante. Todo o cristão, por mais bem-intencionado que seja o seu “apenas cristianismo”, faz juízos teológicos que o colocam num ou noutro campo. Por exemplo, todos têm de responder à questão sobre como uma pessoa se torna cristã. Bastará recitar a “oração do pecador”? E o baptismo? Alguns baptismos são legítimos, e outros não? É necessário juntar-se a uma comunidade com outros cristãos? Se sim, que características é que essa comunidade deve ter para que seja “verdadeiramente cristã”? Quando se assume como cristão, é possível perder esse estatuto, por exemplo, pela descrença ou comportamento imoral?

As respostas a estas questões colocam o cristão num ou noutro campo: pedobaptista ou credobaptista, “uma vez salvo, sempre salvo”, ou não, etc.. As diferentes tradições eclesiais – católica, ortodoxa, anglicana, presbiteriana, metodista, baptista – fornecem respostas diferentes e, frequentemente, contraditórias, a estas questões e é por isso que as respectivas igrejas estão recheadas de pessoas que, presumivelmente, concordam com essas mesmas doutrinas.

Nunca se é “apenas cristão”. Tem de se tomar uma posição sobre estas questões, e outras, ou então mesmo a afirmação de que se é cristão colapsa.

É também uma questão de soberba. Ao dizer-se “apenas cristão”, a pessoa age como se não existissem tradições teológicas, nenhuma comunidade eclesial fora de si mesma que possua qualquer tipo de autoridade. O cristão que se diz “apenas cristão” define perfeitamente o indivíduo moderno, autónomo e atomizado, que não precisa de mais ninguém para além de si mesmo.

Não se percebe porque é que estes “apenas cristãos” se dão sequer ao trabalho de ler a Bíblia, uma vez que a adesão ao texto os torna dependentes dos seus autores, como São Pedro, São Paulo ou São Lucas. O cristão “apenas cristão” acha que tem as respostas para tudo e que aqueles tontos que debatem questões teológicas simplesmente não compreendem. Jesus, diz o “apenas cristão”, é simples e compreensível, fomos nós que complicámos a sua vida e os seus ensinamentos com todas estas coisas intelectuais.

Por fim, demonstra ainda uma amnésia histórica lamentável. Os proponentes da teologia “apenas cristã” não reconhecem como as suas próprias crenças e práticas foram moldadas por 2000 anos de ensinamentos e de tradições da Igreja. Embora muitos “apenas cristãos” acreditem na Santíssima Trindade, normalmente não sabem que essa doutrina foi definida e promulgada no Concílio de Niceia, no Século IV, nem reconhecem que as suas crenças sobre a salvação costumam ser luteranas ou calvinistas.

Embora a maioria dos “apenas cristãos” leia fielmente a Bíblia, não têm muita noção sobre como é que o livro adquiriu a sua presente forma, ou que é uma coleção de textos diferentes, escritos por pessoas diferentes, em línguas diferentes, traduzidos para o vernáculo de forma imperfeita por académicos. Nem se apercebem que mesmo o conjunto de livros na sua Bíblia, o cânone, foi alvo de grande contestação e que foram necessários três concílios nos séculos quarto e quinto (Hipona, Cartago e Roma) mais outro concílio ecuménico em Trento (século XVI) para o definir com autoridade.

Mais, os “apenas cristãos”, que na sua larga maioria são protestantes, usam uma versão da Bíblia à qual faltam vários livros, chamados os deuterocanónicos, que foram afirmados por esses concílios.

Quando era caloiro na Universidade de Virgínia, tive uma cadeira de História do Cristianismo, dada por Robert Louis Wilken, um académico de renome e ex-luterano convertido ao Catolicismo. A primeira vez que o visitei no seu gabinete, disse-lhe que era cristão. Interessado, perguntou-me a que denominação pertencia. Eu, cheio de mim, disse-lhe que não tinha denominação. Ele não disse nada, mas olhou-me de uma forma que jamais me esquecerei. Dizia, de forma simpática, mas firme, que eu não tinha a menor noção do que estava a falar.

Rapidamente comecei a perceber o que estava de errado na minha afirmação daquele dia, de tal forma que comecei um longo estudo da história e da teologia cristãs para determinar as minhas próprias crenças. Por esta altura já me tinha formado e entrado num seminário reformado (calvinista) e dizia a todos os evangélicos com quem me cruzava que deviam ter uma boa razão para não serem católicos. Embora eu ainda não fosse católico, compreendia bem o que estava em causa: todos os protestantes eram herdeiros de um sistema religioso que tinha rompido com a Igreja Católica.

Eu também já fui “apenas cristão”. E era um idiota. Simplesmente não existe tal coisa. E é por isso que, sempre que me envolvo em diálogo ecuménico com protestantes, dou graças por todos os que compreendem de facto que são protestantes. Pelo menos eles compreendem que as suas crenças não se desenvolveram num vácuo, mas que lhes foram entregues pelos seus antepassados na fé.

Aliás, é precisamente isso que significa a palavra tradição (traditio, em latim). As conversas com protestantes que compreendem quem são, e de onde vêm, tendem a ser muito mais frutíferas e interessantes do que com aqueles que se consideram “apenas cristãos” e que se acham muito espertos e “superiores a tudo isso”, como já foi o meu caso.

A todos os leitores que se definem como “apenas cristãos”, perdoem-me se reviro os olhos e abano a cabeça quando me dizem que a vossa fé transcende as denominações, teologia e história. Nas palavras – ligeiramente modificadas – do falecido Thomas Merton, o orgulho torna a fé cristã artificial; a humildade torna-a real.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Outubro de 2018)

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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Gnosticismo nos Nossos Dias

Thomas G. Weinandy, OFM, Cap.
Fala-se muito, hoje em dia, da presença de um novo gnosticismo na Igreja Católica. Algumas das coisas que se têm escrito são úteis, mas muito daquilo que se tem descrito como sendo um reavivar desta heresia tem pouco a ver com o antecedente histórico. Mais, as atribuições desta antiga heresia a várias facções no seio do Catolicismo contemporâneo tendem a ser mal direccionadas. Mas para que haja alguma claridade nesta discussão sobre o neo-gnosticismo, primeiro temos de compreender a forma antiga.

O gnosticismo antigo tinha várias formas e expressões, muitas vezes confusas, mas é possível discernir alguns princípios essenciais:

Primeiro, o gnosticismo defende um dualismo radical: a “matéria” é a fonte de todo o mal e o “espírito” é a origem divina de tudo o que é bom.

Segundo, os seres humanos são compostos de matéria (corpo) e de espírito (que dá acesso ao divino).

Terceiro, a “salvação”, consiste em obter o verdadeiro conhecimento (gnosis), uma iluminação que permite progredir do mundo material do mal para o reino espiritual e, por fim, até à comunhão com a divindade suprema imaterial.

Quarto, surgiram diversos “redentores gnósticos”, cada um afirmando possuir estes conhecimentos e a capacidade de fornecer o acesso a esta iluminação “salvífica”.

Neste contexto, os seres humanos encaixam-se em três categorias diferentes: 1) os sarkikos, ou carnais, estão de tal forma presos ao mundo corporal do mal que são incapazes de acolher o “conhecimento salvífico”; 2) os psíquicos, ou da alma, parcialmente confinados ao reino da carne e parcialmente iniciados no domínio espiritual. (No que diz respeito ao “gnosticismo cristão”, estes são os que vivem meramente pela “fé”, pois não possuem a totalidade do conhecimento divino. Não estão inteiramente iluminados e por isso dependem daquilo em que “acreditam”.) 3) por fim, aqueles que são capazes de verdadeira iluminação, os gnósticos, pois esses possuem a totalidade do conhecimento divino. Através do seu conhecimento salvífico conseguem extrair-se do mal do mundo material e ascender ao divino.

Vivem, e salvam-se, não através da “fé” mas do “conhecimento”.

Comparado com o gnosticismo antigo, aquilo que hoje está a ser proposto como sendo neo-gnosticismo no seio do catolicismo contemporâneo aparece como confuso e ambíguo, para além de mal direccionado. Alguns católicos são acusados de neo-gnosticismo alegadamente por acreditarem que são salvos por aderir a “doutrinas” inflexíveis e inertes e por acreditarem num “código moral” rígido e impiedoso. Afirmam “saber” a verdade e, por isso, exigem que esta deve ser defendida e, mais importantemente, obedecida. Supostamente, estes “católicos neo-gnósticos” não estão abertos ao movimento fresco do Espírito na Igreja Contemporânea, conhecido como o “novo paradigma”.

Claro que todos conhecemos católicos que agem como se fossem superiores aos outros, que se gabam de compreender melhor a teologia dogmática ou moral e que acusam os outros de laxismo. Este tipo de julgamento presunçoso não tem nada de novo, mas é uma forma de superioridade pecaminosa que, todavia, tem tudo a ver com o orgulho e não é, em si mesmo, uma forma de gnosticismo.

Só faria sentido chamar a isto neo-gnosticismo se aqueles que dele fossem acusados estivessem a propor um “conhecimento salvífico novo”, uma iluminação nova que difere do Evangelho como este é tradicionalmente conhecido, e daquilo que é ensinado de forma autêntica pela tradição viva do magistério.

Verdade salvífica, ao alcance de todos
Mas esta acusação não se pode fazer contra “doutrinas” que, longe de serem verdades abstractas e mortiças, são expressões maravilhosas das realidades centrais da fé católica – a Trindade, a Encarnação, o Espírito Santo, a presença real substancial de Cristo na Eucaristia, o mandamento de Jesus de amor a Deus e ao próximo reflectido nos Dez Mandamentos, etc. Estas “doutrinas” definem o que a Igreja foi, é, e sempre será. São estas as doutrinas que fazem da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Mais, estas doutrinas e mandamentos não são uma espécie de forma de vida esotérica que nos torna escravos de leis irracionais e impiedosas, impostas de fora por uma autoridade tirânica. Pelo contrário, estes mesmos “mandamentos” foram-nos dados por Deus, no seu amor misericordioso, a toda a humanidade, para garantir uma vida santa e à imagem de Deus.

Jesus, o filho encarnado do Pai, revelou-nos ainda o tipo de vida que devemos viver na expectativa do seu reino. Quando Deus nos diz aquilo que não devemos nunca fazer, está a proteger-nos do mal, o mal que destrói as vidas humanas – vidas que ele criou à sua imagem e semelhança.

Jesus salvou-nos da devastação do pecado através da sua paixão, morte e ressurreição, e verteu sobre nós o seu Espírito Santo, precisamente para nos tornar capazes de viver vidas genuinamente humanas. Promover este estilo de vida não é propor um novo conhecimento salvífico. No antigo gnosticismo as pessoas de fé – bispos, padres, teólogos e leigos – eram chamados psíquicos. Os gnósticos olhavam-nos com sobranceria precisamente porque não reivindicavam possuir qualquer “conhecimento” único ou esotérico. Vêem-se obrigados a viver pela fé na revelação de Deus, como compreendido e transmitido fielmente pela Igreja.

Aqueles que erradamente acusam os outros de neo-gnosticismos propõem – quando confrontados com as miudezas de questões morais e doutrinais da vida real – a necessidade de discernir aquilo que Deus gostaria que fizessem. As pessoas são encorajadas a discernir, sozinhas, a melhor via de acção, tendo em conta o dilema moral que enfrentam no seu próprio contexto existencial – aquilo de que são capazes em determinado momento no tempo. Desta forma a consciência individual de cada um, a sua própria comunhão com o divino, determina quais são os requisitos morais nas circunstâncias individuais. Aquilo que a Escritura ensina, aquilo que Jesus afirmou e que a Igreja nos faz chegar através da sua tradição magisterial viva, é ultrapassado por um “conhecimento” mais alto, uma “iluminação” avançada.

Se existe de facto um novo paradigma gnóstico na Igreja actualmente, diria que é aqui que se encontra. Quem propõe este novo paradigma afirma ser um verdadeiro conhecedor, com especial acesso ao que Deus nos diz enquanto indivíduos aqui e agora, mesmo que isso ultrapasse ou possa mesmo contradizer aquilo que Ele revelou a todas as outras pessoas através da Escritura e da tradição.

As pessoas que afirmam ter este conhecimento não deviam, pelo menos, ridicularizar enquanto neo-gnósticos aqueles que se limitam a viver segundo a “fé” na revelação de Deus, que nos chega através da tradição da Igreja.

Espero com isto ter trazido alguma clareza para a actual discussão sobre o gnosticismo “católico” contemporâneo, colocando-o no seu contexto histórico adequado. O gnosticismo não pode ser usado como alcunha para os fiéis “não iluminados” que se limitam a agir, com a ajuda da graça de Deus, da forma como o ensinamento divinamente inspirado da Igreja os convida a agir.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 7 de Junho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Duas Juventudes

No passado Domingo de Ramos, 2.500 alunos de 150 universidades em todo o mundo reuniram-se em Roma para o UNIVFORUM 2018, um encontro de uma semana para aprofundar a compreensão do catolicismo e a sua relação com o futuro do mundo. O Opus Dei tem organizado encontros do género desde 1968. Os delegados participarão numa audiência papal a apresentarão ao Santo Padre dinheiro que angariaram para caridade, bem como um mosaico de Maria, Mãe da Igreja (para os cristãos na Síria). As suas deliberações terminam no Domingo de Páscoa.

Estes não são, convém deixar claro, os 305 jovens delegados convidados pelo Papa Francisco para o encontro pré-sinodal que decorreu no Vaticano na semana passada, que eu descrevi noutro artigo. Esses jovens concluíram as suas actividades no mesmo Domingo de Ramos, apresentando ao Papa um relatório nalguns pontos útil, noutros previsivelmente contraditório e heterodoxo, em particular na esperança de que a doutrina da Igreja se possa adaptar de certa forma – independentemente das Escrituras, da tradição e das próprias palavras de Jesus – aos actuais modos de vida, em claro contraste com o Cristianismo histórico.

Resumindo, nestas duas semanas antes da Páscoa tivemos, em Roma, duas visões muito diferentes de como abordar os jovens. Admitamos, por uma questão de justiça, que ambas têm vantagens e desvantagens.

A UNIVFORUM 2018, como quase tudo o que é organizado pelo Opus Dei, é um evento bem pensado, com um enfoque claro. Inclui organizações e indivíduos que o meu colega George Weigel defende deviam estar presentes no sínodo de Outubro, pelas provas dadas em termos de sucesso de pastoral juvenil. O programa deste ano olha de forma particular para o Maio de 1968, com as suas expectativas utópicas, e pergunta se, meio-século mais tarde, as promessas de liberdade e felicidade humanas foram cumpridas.

Em contraste, a reunião pré-sinodal juntou um grupo heterogéneo (jovens católicos sérios, jovens católicos confusos, não crentes e até alguns muçulmanos). Alguns temas polémicos entraram na discussão, como por exemplo o apelo por mulheres cardeais, feito por defensores da ordenação feminina, mas em geral os delegados reflectiram os muitos temas que se esperaria ouvir de um encontro de jovens: um maior desejo por acompanhamento no desenvolvimento da fé (sem uma Igreja moralista ou julgadora), o papel das mulheres na Igreja, justiça social e alguma discordância quanto ao ensinamento da Igreja sobre sexo, casamento, homossexuais e celibato sacerdotal. Também houve questões sobre a própria existência de Deus e esperança de que a Igreja consiga explicar melhor a doutrina ou as escrituras. Alguns querem um acompanhamento mais próximo por parte da Igreja, outros temem que esse acompanhamento possa limitar a sua liberdade.

Temos aqui dois pontificados em operação. No evento do Opus Dei temos algo como a abordagem de João Paulo II no início de Veritatis Splendor, em que de evoca o “jovem rico” dos Evangelhos que pergunta a Jesus o que deve fazer para ter a vida eterna. A resposta, claro está, é deixar tudo e segui-lo. O enfoque principal é trabalhar sobretudo com jovens já comprometidos com a Igreja e ajudá-los a comprometer-se ainda mais para, só então, sair para convencer outros.

A segunda abordagem, do Papa Francisco, parte do princípio que muitos já abandonaram a Igreja porque também eles não gostam do que Jesus pede. Mas outros porque ainda ninguém lhes desafiou, ou porque não compreenderam bem. Ou então por causa de obstáculos colocados no seu caminho pela própria Igreja, que precisam de ser removidos.

Francisco costuma convidar as pessoas a falar sem medo e sem hesitações, pensando que “sempre se fez assim”. Esse convite ajuda-os a sentirem-se parte de um processo e traz assuntos à superfície. Mas também é um risco, pois ameaça virar as questões ao contrário. Uma boa parte dos participantes do encontro pré-sinodal – com pouca experiência de Deus ou do mundo – sentem-se menos chamados a mudar-se a si mesmos e mais a dizer; bem, se não é preciso fazer as coisas como sempre foram feitas, então é sobretudo a Igreja que deve mudar.

E deve, como devemos todos, se tenciona manter-se viva. A questão está em saber como. O grande Cardeal Newman costumava dizer que “a mudança é prova de vida e ser perfeito é ter mudado muito”. Mas há uma diferença entre uma mudança que conserva e enaltece fielmente e mudança que transforma em algo fundamentalmente diferente. Esse tipo de perspectiva desempenha um papel menor no relatório dos jovens. E não admira, porque da parte dos adultos houve pouco encorajamento por valores como a fidelidade e a verdade. A ênfase foi para que os jovens falassem na sua própria voz – uma categoria em tempos reservada a grandes poetas e romancistas, o que significou, como é costume com jovens, que a maioria dos delegados se limitou a ecoar aquilo que tem ouvido dos seus pares.

Papa Francisco com os jovens no encontro pré-sinodal
Há aqui muita coisa que não deve admirar os padres sinodais. Alguns jovens estão a sugerir que este documento mudará o rumo da Igreja. Um escreveu mesmo no Twitter que “Se este documento não resultar numa mudança sísmica em como ministramos a, e com, os jovens, então não está a ser lido correctamente”.

Mudanças sísmicas, mudanças de paradigma – na era das redes sociais há uma grande tentação de dramatizar, mesmo que se trate de um relatório de um comité de jovens, após um breve encontro com outros, previamente desconhecidos uns dos outros, e sugestões de 15 mil seguidores do Facebook. 

Mas o terreno não mudou e, recordemos, o objectivo não é simplesmente melhor pastoral juvenil. O que queremos sempre saber é se mais jovens vão ser conduzidos a Jesus Cristo – o verdadeiro, das Escrituras, preservado pelo Espírito Santo no seu Corpo Místico, a Igreja.

O acompanhamento costumava significar família, depois paróquia e comunidade. Os jovens reconhecem isto no seu relatório – bem como a crise das famílias, o futuro incerto de muitas paróquias e a hostilidade do Estado moderno para com a religião em geral e o Catolicismo em particular. Eles compreendem que algo tem de ser feito para compensar o desaparecimento de velhas formas de formar identidade, mas não sabem bem o quê.

E aqui está outro dilema: será que se pode beneficiar da força da Fé se rejeitar os necessários juízos não de pessoas, mas de verdade e falsidade, de coisas que exigem uma decisão? Coisas que podem restaurar a família, paróquia, sociedade, uma vez que estes não têm substitutos? Se a Igreja não der uma mão orientadora firme – se querem que ela lá esteja (como os pais) se falharem, mas não querem seguir os seus conselhos – então que utilidade terá para a maioria dos crentes?

O Papa Francisco publicou recentemente o livro “Deus é Jovem”, que reflecte, em parte a famosa fórmula de Santo Agostinho sobre a beleza de Deus: tam antiqua, tam nova, “sempre antiga, sempre nova”. Os jovens que vieram a Roma a semana passada alcançaram algo de valor real, embora parcial. Resta ver se os adultos, adultos responsáveis, conseguem retirar daí algo de bom em Outubro.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Março de 2018)

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quarta-feira, 7 de março de 2018

Elogio da Água Benta

Michael Pakaluk
Costumava-se dizer que o padre “fazia” água benta, não se limitava a benzê-la. O rito ainda consta do Ritual Romano. O padre faz água benta juntando sal exorcizado a água exorcizada.

Junta o sal em imitação do profeta Eliseu, que dessa forma purificou as águas de Jericó (2 Reis 2, 19-21): “Assim diz o Senhor: Sararei a estas águas; e não haverá mais nelas morte nem esterilidade.”

Neste rito a água benta é vista como uma criatura pura, comunicando o poder de Deus. Logo, tanto o sal como a água devem ser exorcizados primeiro, uma vez que a queda teve repercussões através de toda a criação material, dando a Satanás o domínio até sobre os elementos inertes.

Os exorcismos são impressionantes. Por exemplo, para o sal: “Eu te exorcizo, sal, criatura de Deus, pelo Deus vivo, pelo Deus verdadeiro, pelo Deus santo pelo Deus que ordenou ao profeta Eliseu que te lançasse à água, a fim de curar a sua esterilidade — para que te tornes sal exorcizado em proveito dos fiéis, dando a saúde da alma e do corpo aos que te usarem, fazendo fugir para longe dos lugares em que fores lançado, ilusões, malefícios e fraudes diabólicas, assim como todo espírito impuro, intimado por aquele que há de vir julgar vivos e mortos, e este mundo pelo fogo. Amen.”

Um exorcismo não é apenas uma oração mas sim, como diria o filósofo J.L. Austin, “algo feito com palavras”. O sal e a água são recriados, transformando-se de forma especial em armas contra o maligno. Assim, a oração final do padre sobre a mistura pede a Deus que a santifique para que “proporcione saúde da alma e do corpo a todos os que o tomarem, e que desapareça, de tudo o que for por ele tocado ou salpicado, qualquer impureza e ataque dos espíritos do mal.”

Creio que na maioria das situações a água benta nas igrejas hoje é benzida e não feita, com o padre a limitar-se a pronunciar uma bênção e a fazer o sinal da cruz por cima da água, frequentemente durante a missa.

Longe de mim, que não sou liturgista, afirmar que até a água benta foi diluída. Mas sim, também eu penso que se podemos seguir o exemplo de um grande profeta, e se podemos usar matéria exorcizada, por que não haveríamos de nos valer destes auxílios adicionais?

Certamente não nos convence o argumento de que a graça de Cristo basta, porque aí deixaríamos de ter razão sequer para usar água benta de todo. Mais, Cristo é um mediador que, na sua vida terrena, mostrou uma forte apetência para trabalhar através de matéria mediadora, tal como cuspo e pó.

Antes, sei por experiência que a água benzida funciona muito bem contra o demónio.

Uso o termo “experiência” no sentido lato e próprio daquilo que foi experienciado por aqueles em quem confiamos e não no sentido cartesiano atenuado daquilo que foi impingido aos meus sentidos em particular. Neste sentido, a experiência de Santa Teresa de Ávila é também a minha: “Tenho aprendido que não há nada como água benta para pôr os demónios em fuga e evitar que regressem”.

Muitos amigos têm-me dito o mesmo. Eram perturbados por sonhos deturpados, por exemplo, e depois de terem aspergido água benta na cama a cada noite, e de terem dito uma Avé Maria ou três, o problema desapareceu e nunca mais voltou. A minha experiência de vida tende a corroborar isto.

Os mesmos amigos, como seria de esperar, não deixam de recorrer à água benta quando metem os seus filhos na cama. O que me leva a outro elogio à água benta, para além da sua utilidade, isto é, a atracção que exerce sobre crianças e adultos que são como crianças.

As crianças são maravilhadas por sinos, fumo e fogo. A Igreja faz bem em apelar desta forma aos nossos sentidos. Mas se pensarmos bem a água, como o fogo, não é “suposto” estar dentro das casas. Por isso mesmo uma pequena vela – esse ponto de fogo brilhante, guardado por cera, mas com potencial de perigo caso consiga escapar – pode significar algo transcendente, a oração a subir, ou Deus e luz a descer.

É por isso que nos inclinamos para sermos aspergidos por água benta no Domingo de Páscoa, e molhamos os dedos na pia de água à entrada das igrejas. Como não é suposto haver água ali é fácil ver o influxo da graça de Deus e leva-nos facilmente a pensar no nosso próprio baptismo e na eficácia purificadora da confissão sacramental.

A família é uma igreja doméstica, não por si só, mas enquanto participante da vida da Igreja. Aquela pequena garrafa de água benta dentro de casa é um testemunho da realidade das Ordens Sagradas e do poder da Igreja nos sacramentos.

Como a água benta é considerada preciosa e só nos chega através do padre, é também uma forma de honrar o sacerdócio. E como a obtemos gratuitamente – basta trazer uma garrafa para a igreja para encher – ensina-nos que as coisas mais valiosas da vida não têm preço. São-nos dadas livremente por Deus, basta-nos procurá-las no sítio certo.

Por fim, a água é um elemento e a água benta é um elemento abençoado, testemunho da bondade da criação, da forma como a graça completa a natureza e a lógica da Encarnação.

A água benta contém todo um catecismo. Pode-se dizer que a verdadeira igreja não teria deixado de a criar e, uma vez que a verdade é sobredeterminada pelas provas, podemos também dizer que a existência e o uso da água benta, tal como 40 outras coisas, quase que basta para alguém se tornar católico.

Na tradição de São Francisco, gostaria então de dizer: “Bendito sejas, meu Senhor, através da Irmã Água Benta, que é muito útil, e humilde, e preciosa e casta”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 6 de Março de 2018)

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Confissões de um Convertido

Casey Chalk
Este ano teceram-se várias considerações sobre os 500 anos da Reforma. Para mim, 2017 foi também um ano de comemoração pessoal: faz sete anos desde que regressei ao Catolicismo. Uma noite de conversa com um padre dominicano transformou-se numa vontade impulsiva para me confessar (não o fazia desde os sete anos). Mas se a recordação da Reforma tem sido razão tanto para introspecção e luto, o aniversário do meu regresso a Roma também. “Perda e Ganhos”, o título de um romance filosófico do Cardeal John Henry Newman, sobre a conversão de um aluno em Oxford ao Catolicismo, descreve bem aquilo que senti.

A vasta maioria dos testemunhos de conversão ao Catolicismo focam tudo o que se ganha ao entrar na Igreja fundada por Jesus. Isso é bom, a Igreja não é apenas algo que Ele estabeleceu há milénios, é onde Ele continua a residir. Mais, sendo verdadeiramente universal, engloba tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Em todo o caso pode ser útil para potenciais convertidos, bem como para aqueles que os irão encontrar, descrever também aquilo que se perde.

Comunidade: Eu fazia parte de uma pequena e conservadora comunidade cristã alinhada com a Igreja Presbiteriana na América (PCA). A minha congregação da PCA contava com uns 150 fiéis ao domingo. Eu conhecia praticamente todas as famílias e elas conheciam-me. Conversávamos depois do serviço, às vezes durante horas. Tinha visitado as casas de muitos deles. Quando uma família tinha um bebé era anunciado na igreja e os diáconos asseguravam que não lhes faltava nada, incluindo refeições enquanto se adaptavam. Havia dois serviços compridos ao domingo, estudos bíblicos e vários eventos durante a semana ou fim-de-semana… A nossa vida rodava intimamente à volta de um pequeno grupo de pessoas. Era uma verdadeira bênção, envolvendo abertura aos outros, sacrifício e amor profundo. É difícil esconder as nossas falhas e falhanços numa comunidade destas; quando somos amados apesar de os nossos pecados serem conhecidos, o Evangelho ganha vida.

Em contraste, na minha primeira missa depois de regressar à Igreja não houve qualquer convite para eventos depois da celebração. Nada sobre grupos de jovens ou estudos bíblicos. Ninguém na paróquia sabia que era a minha primeira vez lá. Era anónimo. Aos poucos acabei por descobrir vários grupos sociais católicos, mas a missa de domingo continuou a resumir-se a uma hora por semana sentado sozinho, sem que ninguém me abordasse. A paróquia católica que frequentei durante os primeiros anos após a minha conversão ficava a algumas centenas de metros do quartel dos bombeiros onde a minha congregação presbiteriana se reunia para os serviços. Isolado na minha nova paróquia, senti-me muitas vezes tentado a descer a rua e voltar para lá.

Uma cultura partilhada: Enquanto cristão reformado fazia parte de um mundo pequeno e paroquial. A denominação tinha apenas cerca de 330.000 membros em todos os Estados Unidos, e talvez uns poucos milhões de pessoas no resto do país que se identificariam como “reformados” ou “calvinistas”. Paradoxalmente, isto teve o efeito de aprofundar os nossos laços neste pequeno “gueto” calvinista. Líamos os mesmos livros, cantávamos os mesmos cânticos e falávamos a mesma linguagem. Também partilhávamos uma herança comum com os nossos “santos”, homens em grande medida desconhecidos fora do nosso pequeno mundo, como J. Gresham Machen, Charles Hodge, B.B. Warfield, Robert Lewis Dabney. Orgulhavamo-nos muito desta cultura reformada. Na verdade tínhamos de o fazer. Uma comunidade cristã assim tão pequena precisa de uma grande fonte de riqueza cultural partilhada para conseguir sobreviver.  

Quando deixei o presbiterianismo deixei para trás quase tudo isso. As paróquias católicas não cantavam os cânticos que eu conhecia, não liam os livros que me tinham formado e não estavam interessadas no que o meu pequeno mundo de cristianismo tinha para oferecer. Sejamos claros, eu sabia que a maior parte da minha formação cristã era imprecisa ou incompleta, e que os “santos” reformados eram pouco em comparação com a santidade ou o brilhantismo de um São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales ou Santa Teresa de Lisieux.  

Em muitos aspectos tive de recomeçar tudo do início, aprendendo a cantar a Salve Rainha em latim, desenvolvendo um conhecimento e apreciação das diferentes correntes culturais, litúrgicas e teológicas que existiam na Igreja e encontrando algo no Catolicismo a que poderia chamar meu. Sete anos mais tarde tenho sem dúvida mais orgulho e lealdade para com a Igreja Católica e a maravilhosa diversidade das suas manifestações culturais do que alguma vez tive para com o calvinismo. Mas tive de passar por isso sozinho.

Pessoas: Deixei para trás algumas centenas de presbiterianos com quem já tinha desenvolvido uma relação espiritual profunda. Meses depois da minha conversão uma rapariga calvinista com quem tinha tido um namoro sério – e com quem tinha querido casar – disse-me que se eu regressasse ela concordava em casar comigo. Isso é que é guerra espiritual! Disse que não (depois de algumas noites em branco!). Muitas das minhas outras relações não românticas com ex-correligionários persistem, graças a Deus. Mas tristemente essas relações estão agora incompletas, estamos agora separados pelo facto de não podermos comungar dos elementos mais universais do Cristianismo Católico: A Eucaristia e a união com o episcopado apostólico.

Estas feridas são verdadeiras e são a razão pela qual escrevo estas linhas. Em breve estaremos a celebrar o Natal e já sei o que está no topo da minha lista: a unidade de todos os cristãos, sobretudo estes meus irmãos calvinistas. Quando entrei na Igreja Católica ganhei Cristo e tudo o que Ele tão generosamente ofereceu ao seu corpo místico. Mas perdi a comunhão de alguns dos meus melhores amigos, aqueles por quem rezo, para que um dia se juntem a mim em Roma.

A sua separação (e a de todos os protestantes) é uma verdadeira perda e deve encorajar-nos a todos a ajudá-los a descobrir não só a verdadeira herança apostólica, mas também a fonte e o cume de tudo o que anseiam: comunhão com Cristo na Eucaristia. É aí que encontraremos aquilo pelo qual Ele rezou com tanto fervor em João 17: que sejamos um – uma boa coisa pela qual rezar nesta época de Advento.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 2 de Dezembro de 2017)

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