Donald Trump tem sido uma das figuras dos últimos quatro anos
e vai continuar a sê-lo pelo menos até novembro de 2020. O mais provável mesmo
é continuar a sê-lo até 2024, para horror de quase todo o resto do mundo
bem-pensante.
Naturalmente não tenho uma bola de cristal, mas há
grandes possibilidades de Trump vencer a reeleição em novembro deste ano.
Pessoalmente, preferia outro republicano, mas pessoas bem-informadas com quem
tenho falado garantem-me que nenhum republicano tem possibilidade de o retirar
da corrida.
Não devemos subestimar o apelo de Trump para uma grande
parte do eleitorado americano e por mais que tentemos dizer que se trata
simplesmente de um misto explosivo de racismo e estupidez, isso é demasiado simplista.
A subida da direita populista é preocupante, sim, mas é uma reação natural a décadas
de deriva populista de esquerda que nos brindaram com marcos de progresso
humanitário como casas de banho mistas e homens a competir na categoria feminina
em desportos vários.
Enquanto arranca os cabelos, a esquerda que considera que
toda a gente que fica aquém do Bloco é fascista deve pensar no papel que desempenhou
em promover a extrema direita. Se Passos Coelho é fascista, se Assunção Cristas
é fascista e agora chamam a André Ventura fascista, então que se lixe, fascistas
por fascistas voto naqueles que de facto dão voz às minhas preocupações, pensa
o eleitor do Chega. Se acontece aqui, não haveria de acontecer em Itália,
Espanha e nos Estados Unidos?
Para quem não se identifica com a esquerda progressista
(vulgos fascistas, na terminologia do admirável mundo novo), mas também não
está disposto a colocar os populistas no pedestal, a vitória de Trump tem
coisas desagradáveis, mas tem uma que vale ouro, a possibilidade de reformular
o Supremo Tribunal.
Desde que foi eleito, Trump nomeou dois juízes para o
Supremo Tribunal americano. Um foi para substituir o porta-estandarte dos
conservadores no tribunal, Antonin Scalia, que morreu inesperadamente. Entrou outro
conservador, ficou ela por ela (ou ele por ele). O segundo foi para substituir
Anthony Kennedy, que era um conservador moderado, que votava frequentemente com
a ala liberal, incluindo em assuntos-chave. Foi o seu voto que permitiu
legalizar o casamento homossexual no país inteiro, por exemplo.
Com Ruth Bader Ginsburg, porta-estandarte dos progressistas
e uma das responsáveis pela liberalização do aborto nos EUA, a caminho dos 87
anos e a combater cancro do pulmão e do pâncreas e outro juiz liberal, Stephen
Brayer, a caminho dos 82, é muito provável que o próximo Presidente tenha de
fazer pelo menos uma, talvez duas nomeações para o Supremo. Goste-se ou não do
modelo, a nomeação de dois conservadores para substituir dois liberais seria sem
sombra de dúvida a maior vitória para os conservadores nos Estados Unidos,
provavelmente mais importante que quaisquer danos reais que Trump pudesse impor
ao país durante o resto do seu mandato.
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| Ruth Bader Ginsburg |
Mais, as duas nomeações anteriores comprovam que Trump
não tem medo de nomear conservadores reais e que, caso tenha o apoio do Congresso,
não terá de fazer cedências e nomear alguém que seja conservador para algumas
coisas e liberal para o que interessa.
A importância religiosa disto é evidente, uma vez que a
liberdade religiosa está sob ataque como nunca esteve nos Estados Unidos (ver exemplospráticos aqui) e a esmagadora maioria desses casos só se decidem no Supremo.
Claro que nem tudo são rosas. Ter de aguentar mais quatro
anos de figuras absurdas como Trump fez no anúncio da morte do líder do
Estado Islâmico é penoso, como é penoso ter como figura de referência para um
movimento que se quer de valores um homem que tão claramente não os parece ter. Para mim, o discurso desumanizante sobre os migrantes é também uma coisa gravíssima e lamentável. Contudo, os efeitos práticos de uma ou duas vitórias destas no Supremo não podem ser
subestimados, como não pode ser subestimada a deriva progressista que acompanhará
a eleição de qualquer candidato democrata.
Por isso é natural que a direita e os conservadores
americanos, incluindo os que pessoalmente não gostam de Trump, estejam
dispostos a aguentar com mais quatro anos deste por vezes triste espetáculo.
De uma coisa podem ter a certeza absoluta. Se Trump
vencer em 2020 vamos ver uma campanha concertada entre fazedores de opinião e
imprensa progressista para mudar o sistema do Tribunal, onde as nomeações são
vitalícias e que em muitos casos funciona como um órgão legislativo. Esses
apelos virão de precisamente as mesmas pessoas que aplaudiram de pé o Roe v. Wade,
que legalizou o aborto e o Obergefell v. Hodges que legalizou o casamento gay,
mas o que é a coerência para os arautos da nova humanidade?


















