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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Tão Maduro que Desilude

O Papa tem sido acusado de ter mão leve em relação a Nicolas Maduro. Pois hoje foi revelada uma carta escrita por Francisco em que se manifesta “desiludido” com o líder venezuelano, a quem nem sequer trata por Presidente.

O Vaticano aliou-se à Microsoft para promover a Ética na Inteligência Artificial. Vai haver um prémio internacional e tudo!

Foi aprovado o milagre que permite canonizar o cardeal John Henry Newman. São excelentes notícias.

Há quem tenha honras de capa, e há quem tenha capa de honras. O Papa conjuga os dois factores e diz que os “Portugueses são muito fortes”.

Os bispos dizem que desde 2001 os tribunais eclesiásticos analisaram cerca de uma dezena de casos de abusos. Recordo que podem ver aqui uma cronologia rigorosa de todos os casos que tem havido em Portugal nos últimos anos.

Um artigo de leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema do aborto. Nos Estados Unidos torna-se cada vez mais claro que o direito ao aborto se estende até aos bebés que acabam por nascer vivos. Não se esqueçam que o que se passa lá, mais cedo ou mais tarde vem cá parar. Leiam e divulguem.

Redescobrindo o Born-Alive Act

O Governador da Virgínia, Ralph Northam, conseguiu, na semana passada, expressar abertamente a posição do Partido Democrata sobre o aborto: que não existe qualquer obrigação de proteger a vida de uma criança que tenha o desplante de sobreviver a um aborto quando, claramente, não é “desejada”.

Isso foi o suficiente para estimular o senador Ben Sasse, do Nebraska – que nunca perde a oportunidade de fazer gestos de grande paixão moral, mesmo quando não está disposto a fazer o trabalho necessário para os levar a bom porto. Sasse já tinha introduzido no Senado o “Born-Alive Abortion Survivors Protection Act” [Lei de Protecção de Nados Vivos Sobreviventes ao Aborto] e então pediu imediatamente um voto para segunda-feira à noite, para ver se a lei poderia ser aprovada “sem objecções”.

Claro que não pôde. O objectivo da lei é de restaurar as penas que foram removidas da lei original, a “Born-Alive Infants’ Protection Act” de 2002. Essa lei inicial tinha como objectivo colocar estabelecer no direito esta premissa chave: que uma criança que sobreviva a um aborto e nasça viva tem o mesmo direito que qualquer outro Ser Humano à protecção da lei.

Alguns dos leitores saberão que eu tive um papel em redigir estas propostas de lei e em defendê-las. É uma história que remonta a 30 anos atrás. Num caso em particular, nos anos 70, uma criança sobreviveu a um aborto durante 20 dias, foi sujeito a cirurgia e acabou por morrer. A questão estava em saber se existia a obrigação de fornecer apoio médico àquela criança e a resposta, segundo o juiz Clement Haynsworth, foi que não.

Ele “explicou” que a partir do momento em que uma mulher grávida optava por um aborto “o feto neste caso não é uma pessoa cuja lei estadual pode proteger”. Por outras palavras, o direito ao aborto corresponde ao direito a um “aborto efectivo”, ou seja, uma criança morta.

Alguns de nós pensámos que poderíamos começar por aí, para testar os limites desse “direito ao aborto”. Sugerimos então o “primeiro passo mais modesto”: a proposta de simplesmente proteger a criança que tenha sobrevivido ao aborto. [A história dessa lei, as razões que lhe eram subjacentes e a forma como passou, são narradas no meu livro “Natural Rights and the Right to Choose”.]

Mas essa era uma proposta inaceitável para os defensores do aborto, porque perceberam que assim toda a sua posição se desenvencilhava. Se aceitassem que o nado-vivo era uma criança humana, com direito a protecção da lei, nós poderíamos perguntar o que é que a mesma criança tinha de diferente cinco minutos, ou cinco dias, ou cinco meses antes?

Ben Sasse
E foi por isso que os nossos aliados ficaram tão admirados quando a lei foi finalmente apresentada no ano 2000 e promulgada em 2002. O já falecido Henry Hyde ficou estupefacto quando a National Organization of Women se opôs a esta modesta lei para proteger os nados-vivos. A ironia é que os nossos adversários compreenderam a lei melhor que os nossos amigos, porque entenderam o princípio no coração da coisa.

Decidiu-se, contudo, retirar à lei as penalizações, tanto civis como criminais, para evitar que o Presidente Clinton a vetasse. Ficaríamos contentes com uma “lei pedagógica” que transmitisse informações que chocariam o grande público: que o direito ao aborto, proclamado em Roe v. Wade, abrangia a totalidade da gravidez, podendo mesmo chegar ao direito de matar a criança depois de nascer.

Seja como for, sem as penalizações a lei tornou-se quase impossível de aplicar. E viríamos a descobrir que estas coisas aconteciam muito mais do que tínhamos pensado em 2002. Enfermeiras começaram a contar histórias de bebés nados-vivos e colocados em salas para morrer.

Mas depois veio o choque do caso de Kermit Gosnell, na Filadélfia. Era o momento ideal para regressar à lei original e restaurar as penalizações, civis e criminais, que lhe tinham sido retiradas. A lei foi aprovada duas vezes na Câmara dos Representantes, em Setembro de 2015, com 248 votos a favor e 177 contra, e em Janeiro de 2018, com 241 a favor e 183 contra.

Todos os republicanos apoiaram a lei, e todos os votos contra foram dos democratas. Este foi o voto que revelou a grande verdade, que de acordo com o entendimento do partido à esquerda no nosso quadro político, o direito ao aborto não se limitava à gravidez, aplicando-se também ao direito a matar o bebé sobrevivente.

Esse dado poderia ter ganho contornos enormes na eleiçãopresidencial de 2016, mas ninguém parecia consciente disso, incluindo católicos influentes nos media como Bret Baier, que tinham à sua disposição os vastos recursos das redes à sua disposição.

Quando, há anos, nos contentámos com uma “lei pedagógica” pensámos que esta seria uma forma dramática de fazer esta informação chegar ao grande público. O que não contávamos era que os media simplesmente ignorassem a história, não lhe dando qualquer cobertura.

Este poderia ter sido o momento de redenção para Ben Sasse. A energia que o possui agora teria sido mais útil o ano passado, obrigando a uma votação da lei no Senado, depois de ter passado na Câmara Baixa. Ou se aprovava a lei, ou então os democratas seriam obrigados a tomar posição sobre o assunto antes das eleições.

A sua desatenção levou-nos a perder essa vantagem. A questão agora está em saber se, desta vez, ele será capaz de levar a coisa até ao fim. Conseguirá romper com o blackout dos media e colocar este assunto onde merce estar, isto é, no centro do debate público e na eleição de 2020?

Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Proibido rezar, permitido abortar

Perigosíssimos criminosos
Sabia que em Londres há duas zonas em que é proibido rezar? Os defensores do aborto não olham a meios para fazer avançar a sua agenda…


Mantém-se a situação de crise na Venezuela. Muitos têm estranhado a posição do Vaticano, mas o cardeal Pietro Parolin veio esta sexta-feira defender o que chama “neutralidade positiva”, que tem por objectivo “superar o conflito”.

O bispo de Setúbal foi entrevistado em conjunto pela Renascença e pela Ecclesia. D. José Ornelas falou do “processo de purificação” que a Igreja está a viver por causa dos abusos sexuais e referiu-se ainda à situação do Bairro da Jamaica, que muita tinta tem feito correr ultimamente.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

JMJ - It's coming home

Por força das circunstâncias, estive fora vários dias e sem conseguir mandar o mail noutros. Peço desculpa pelo silêncio, sobretudo numa altura tão importante para a Igreja portuguesa, com o anúncio das JMJ de 2022 para Lisboa.

Aqui encontram todos os textos feitos no âmbito das Jornadas do Panamá, mas deixem-me destacar estes, que têm a minha mão:


A directora de informação da Renascença lança um “alerta vermelho ao Estado laico

No avião de volta para Roma o Papa falou do aborto, do celibato, da Venezuela e disse que não devemos ter expectativas exageradas sobre a cimeira dos abusos, marcada para Fevereiro.

No meio disto tudo, uma notícia triste das Filipinas, onde um atentado ontem matou 27 pessoas numa catedral.

Deixo-vos ainda com os últimos dois artigos do The Catholic Thing. Randall Smith escreve sobre o perigo dos “lugares seguros” nas universidades e Robert Royal, no dia da Caminhada pela Vida nos EUA, diz que no meio dos escândalos que se abatem sobre a Igreja, podemo-nos orgulhar de sempre ter mantido erguido o estandarte da causa pró-vida. Leiam e partilhem!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fé, Razão, Vida

A 46ª Caminhada Pela Vida que se realiza hoje [sexta-feira, 18 de Janeiro] em Washington não é um evento católico. Ao longo dos últimos anos tem sido muito gratificante ver um aumento no número de evangélicos, outros protestantes e judeus – como não adorar o som do Shofar a ser soprado do palco, antes de a multidão arrancar –, mórmones, muçulmanos e ainda outros a participar. Todos os que se têm vindo a aperceber que matar os mais pequenos e vulneráveis da espécie humana não tem nada de humano nem ajuda em nada as mulheres, que são mortas através do aborto às dezenas de milhões, em todo o mundo, simplesmente pelo facto de serem do sexo feminino.

Mas a caminhada – e a causa pró-vida – também não são, verdadeiramente, um tema religioso. É sempre bom ver na caminhada os Ateus pela Vida, mas também é uma recordação importante. Não somos contra o aborto por se opor a um qualquer dogma religioso. Se fosse esse o caso – como muitos defensores do aborto afirmam, erradamente – seria difícil evitar a acusação de estarmos a tentar “impor a nossa religião” aos outros. Pelo contrário, estamos a tentar evitar que as pessoas pratiquem uma forma irracional, falsa e sangrenta de idolatria.

É a razão, e não a revelação, que nos diz que, caso acreditemos que é errado matar, então matar crianças ainda na barriga das mães também é errado. E com cada ano que passa essa posição moral torna-se ainda mais clara. Quando a decisão Roe v. Wade, que legalizou o aborto em todo o país, foi anunciada, em 1973, a medicina estava a anos-luz do que está agora. Hoje sabemos, por exemplo, que o coração de uma criança começa a bater cerca de quatro semanas depois da concepção e que já acontecem muitas outras coisas que tornam claro que aquilo que se está a desenvolver e a crescer é um ser humano vivo (com o seu próprio ADN), rapaz ou rapariga desde o começo. Segue-se, racionalmente, que quem decidir pôr fim a essa vida, mesmo no seu estado mais incipiente, está a cometer um erro moral grave.  

E fazemos bem tanto em argumentar racionalmente como em caminhar pelo fim do aborto. Aliás, é mesmo uma obrigação moral. Confrontar-nos uns aos outros, em busca da verdade, é uma forma de demonstrar a nossa convicção de que aqueles com quem discordamos são, como nós, seres racionais. Eu sei que é pedir muito que a razão prevaleça, quando há tantas paixões e interesses em jogo. Mas é por isso que as caminhadas, manifestações e o exemplo pessoal devem também ser usados, nem que seja para criar oportunidades de fazer-se ouvir o lado científico e os bons argumentos.

Cerca de dez anos depois da decisão judicial de Row, estava a conversar com um filósofo, que entretanto se tornou mundialmente conhecido, sobre o aborto. Ele previu que, apesar de se tornar cada vez mais claro, através da ciência e da razão, o que estamos a fazer quando abortamos os nossos filhos, nada disso importaria. “Chegará o dia em que serão forçados a admitir a verdade. E então dirão, ‘Sim, é um bebé que se está a matar, e depois?’”

Na altura tive as minhas dúvidas, hoje já não tenho. Há anos que se muda o assunto do estatuto moral da vida intrauterina para tudo, desde o respeito pela liberdade das mulheres, o preconceito religioso e o combate à pobreza e aos danos ambientais. E também já nos disseram que, sim, é uma escolha difícil. Mas difícil porquê? Talvez porque esteja um bebé em causa? Sim, mas insistem que a mulher continua a ter aquele direito. Num acesso de paixão moral o Papa Francisco acertou no ponto quando disse que fazer um aborto é como contratar um assassino para nos resolver um problema. E a verdade é que esse assassino está a receber muitas chamadas: 42 milhões em todo o mundo só no último ano, de acordo com uma estimativa, fazendo do aborto a principal causa de morte.  

Os católicos americanos têm tido um papel central e louvável, claro, em manter viva a causa pró-vida. E por isso não é surpresa nenhuma que outros, que acreditam que é a verdade que nos liberta, se tenham juntado a nós. E não apenas neste país. O nosso exemplo tem espoletado outros esforços parecidos em vários países e, recentemente, até em Roma, embora a Igreja italiana e o Vaticano se tenham mantido distantes, por razões políticas aparentemente más, da Marcia per la Vita.

Desde esta segunda vaga da crise de abusos, os bispos americanos – e por implicação a Igreja como um todo – têm levado com críticas severas, algumas injustas, mas na maior parte justas. Tudo isso tem danificado a força do nosso testemunho público em várias frentes. Nestes últimos dias o Cardeal Wuerl até teve de abandonar os seus planos para celebrar a missa pró-vida que antecede a Caminhada. Foi substituído pelo núncio apostólico, o arcebispo Christophe Pierre. Mas nós, os americanos, conseguimos lidar com mais do que um problema de cada vez. Eventualmente vamos conseguir lidar com a crise de abusos enquanto continuamos com o nosso testemunho pró-vida e pró-família.

Mas não será um caminho fácil. Foram precisos quase cem anos – e uma Guerra Civil – desde os primeiros textos de John Wesley contra a escravatura até à Proclamação da Emancipação. Talvez leve tanto tempo, ou ainda mais, para anular o Roe v. Wade e mudar atitudes culturais para com o aborto. Mas, por mais tempo que leve, quando chegarem dias melhores as pessoas vão olhar para trás, para este tempo de trevas, e perguntar como é possível que uma população a gozar a maior prosperidade que o mundo alguma vez conheceu pôde ser cega para este massacre dos inocentes.

Muitos têm criticado a Igreja e outras organizações cristãs pelas suas falhas no combate à escravatura durante os séculos XVIII e XIX e é verdade que isso permanece como uma nódoa no registo de muitos seguidores de Cristo que tinham obrigação de saber melhor.

Mas naquele grande dia em que o aborto for visto novamente como o terrível mal moral que é, as pessoas também poderão ver que foi em primeiro lugar a Igreja, apesar de tantas críticas e muitas vezes sozinha, que defendeu a sacralidade de toda a vida humana. Numa altura em que pairam dúvidas sobre tanta coisa, isso é algo que merece ser festejado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A raiz perversa da pobreza, segundo o Papa Francisco

O Papa Francisco almoçou com cerca de três mil pobres, ontem em Roma, na segunda Jornada Mundial dos Pobres. Antes celebrou missa e criticou a injustiça, que é a “raiz perversa da pobreza”. O Papa elencou ainda diferentes classes de pobreza, incluindo os bebés que não chegam a nascer e as populações privadas dos seus recursos naturais.

Ontem houve ainda a celebração do Angelus, como é tradicional. O Papa recordou as vítimas de um terrível massacre de cristãos na República Centro Africana e também as vítimas mortais dos incêndios na Califórnia.

A Faculdade de Teologia da Universidade Católica tem nova direcção. Pela primeira vez na sua história a directora é uma mulher e leiga, embora consagrada. A Renascença deu a notícia na véspera de o Papa ter valorizado o papel das mulheres na teologia.

Os Jesuítas de Angola juntam-se aos bispos do Congo ao manifestar preocupação pela situação de centenas de milhares de congoleses deportados de Angola e que poderão ter sido vítimas de maus-tratos.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o perigo para a alma dos bispos que encobrem casos de abusos sexuais praticados pelo clero. Pode também gostar de ler outro artigo na mesma linha, da semana anterior, sobre como a sua oração e os seus sacrifícios espirituais podem beneficiar a Igreja nesta fase difícil que atravessa.

Termino com um aviso. No dia 27 de Novembro há concerto dos Simplus, no auditório da Igreja de Santa Joana Princesa, em Lisboa. A cara mais bonita desta dupla de artistas católicos fala sobre o seu trabalho nesta entrevista a Aura Miguel. Todas as informações no cartaz anexo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Vida e Morte na Terra Roxa da Argentina

Carlos Caso-Rosendi
“Chamarei ao meu livro A Terra Roxa. Que outro nome se poderia dar a uma terra tão manchada pelo sangue dos seus filhos?” – William Henry Hudson

Nas altas horas do dia 9 de Agosto, 2018, os senadores da Argentina rejeitaram a legalização do aborto: 38 votos contra, 31 a favor. Dois senadores abstiveram-se. A proposta de lei incluiu desde o início várias contradições claras. Por exemplo, o texto votado no senado classificava o aborto como um “direito” – na verdade, um direito exclusivo e absoluto da mulher – apesar de a Constituição reconhecer claramente que a vida de todos os seres humanos está protegida desde o momento de concepção até à morte natural.

O movimento para legalizar o aborto na Argentina tem sido financiado na maior parte por organizações estrangeiras baseadas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o apoio adicional de fundos públicos fornecidos pelas autoridades locais, a vários níveis. Também tem chegado apoio substancial dos media, detidos em larguíssima medida por corporações estrangeiras. É fácil perceber que se trata apenas de mais um tijolo no muro anti-vida que os globalistas estão a erguer um pouco por todo o mundo.

Desde o fim do domínio colonial espanhol, grupos de argentinos têm passado o tempo a odiar-se furiosamente. As desavenças sobrevivem durante décadas, dividindo irmãos em guerras amargas que escandalizariam os Hatfield e os McCoy.

A recente campanha para legalizar o aborto não foi excepção. Os católicos e outros grupos cristãos opuseram-se, na maioria, à nova lei. Do outro lado havia alguns grupos pequenos mas barulhentos e, claro, os media generalistas. Ambos financiados por grandes corporações globalistas na Europa e na América.

Os adversários do aborto organizaram várias marchas e eventos, incluindo uma manifestação gigante, em todo o país, organizada por grupos de acção católica. Pessoas de todos os meios marcharam contra a proposta de lei na capital, Buenos Aires, e também noutra marcha organizada por cristãos não-católicos, com o apoio e a participação de simpatizantes católicos pró-vida. Essas manifestações foram ordeiras e limpas, pacíficas e de grandes dimensões.

Os defensores do aborto recorreram ao vandalismo, agressão física e verbal, blasfémia,
nudez e ataques a locais de culto católicos, especialmente em Buenos Aires. Tudo com o apoio dos principais programas de rádio e televisão, em que os argumentos da oposição eram descritos pelos “cognoscenti” como superstições medievais, indignos de uma sociedade do século XXI.

Na semana que precedeu a votação final no Senado, a Igreja Católica cumpriu o seu dever de recolher assinaturas, expressar preocupação e propor soluções razoáveis (embora o silêncio de Roma tenha sido ensurdecedor). Um padre católico que conheço lamentou que a maioria dos seus colegas padres e bispos estavam mais preocupados em não criar ondas do que em defender a verdade e a vida – o que não me espanta nada.

Embora os chamados “pró-escolha” tenham culpado a “poderosa hierarquia católica” pela sua derrota estrondosa, a verdadeira oposição do lado católico veio dos leigos que rapidamente se organizaram para defender a vida em várias frentes e estavam já prontos para desafiar a constitucionalidade da lei, caso passasse. Os bispos mostraram o seu apoio depois de o movimento ter chegado a uma certa massa crítica, umas semanas antes da votação no senado.
 
O debate no Senado decorreu ao mesmo tempo que procuradores federais e juízes prenderam uma dúzia de empresários de topo, ligados a uma vasta rede de lavagem de dinheiro e subornos que, de acordo com os primeiros cálculos, saqueou as finanças públicas em cerca de 100 mil milhões de dólares durante a última década. O escândalo tem ramificações internacionais que serão reveladas nas semanas e meses que vêm.

Um dos efeitos secundários desse esquema gigante tem sido o crescimento exponencial da percentagem – agora próxima dos 50% – de argentinos a viver abaixo da linha de pobreza. O aumento da pobreza e a tentativa de legalizar o aborto representa uma mistura muito peculiar. Porquê? Porque os mesmos políticos que criaram estas condições miseráveis, roubando aos pobres, argumentam agora que as mulheres grávidas devem ter o “direito” a abortar se forem tão pobres que não podem educar a criança.

Chamar cínico a esse argumento é pouco, mas num espaço familiar como este não tenho outros termos que possa usar.

Para a Argentina, este é o final de um século de declínio. O que é mais decadente do que um grupo de legisladores reunir-se para dar a certos cidadãos licença para matar os mais fracos e indefesos? Como é que o mundo reagiria se fosse uma lei para descriminalizar a escravatura, a matança de judeus ou a violação de mulheres? Há alguma diferença substancial entre essas e o aborto?

A República Argentina, em tempos orgulhosa e rica, bateu no fundo. O clube fechado de aldrabões que passam por líderes empresariais conseguiu destruir o que restava da economia, com a ajuda de políticos imorais, um sistema judicial corrupto e uma população que se mantém hipnotizada pelo canto da sirene do peronismo e as palavras de ordem esgotadas da Esquerda política dos anos 70.

No meio deste total desastre, fico contente por ver que os católicos normais tiveram a coragem de sair à rua e mostrar aos seus corruptos líderes políticos, empresariais e eclesiásticos que não vão permitir que os globalistas exterminem a nossa população.

A “ordem” social que temos aturado durante tanto tempo está a chegar ao fim. Afinal de contas, está na natureza da cultura da morte, eventualmente, morrer. Os poderosos não esperavam que isto acontecesse. Pelo que isto é também um apelo aos católicos em todo o mundo para ouvirem as palavras do nosso Papa: hagan lío (“façam barulho”) porque temos uma igreja para limpar e um mundo cheio de almas por salvar.


Carlos Caso-Rosendi é um autor argentino-americano. Converteu-se ao catolicismo em 2001. Fundou o site de língua espanhola Primera Luz e tem o seu próprio blog em inglês, Carlos Caso-Rosendi. Entre os seus livros incluem-se Guadalupe: A River of Light e Ark of Grace – Our Blessed Mother in Holy Scripture. Vive em Buenos Aires.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 18 de Agosto de 2018 em TheCatholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Procura-se parteira. Se gosta de bebés, escusa de se candidatar

Esta semana vou publicar um artigo por dia sobre a liberdade religiosa, ou falta dela, na Europa ocidental. Hoje viajamos para a Suécia, onde vos apresento Ellinor Grimmark, uma parteira que foi impedida de trabalhar no seu país, por ser contra o aborto.

Esta não faz parte da série, mas podia fazer. O cardeal arcebispo de Sarajevo diz que todos os anos cerca de 10 mil católicos abandonam a Bósnia, por se sentirem discriminados.

A semana passada trouxe-vos uma entrevista com um padre sírio que trabalha com jovens e mulheres deslocados em Damasco, na Síria. Hoje, para os mais interessados, publico a transcrição completa dessa conversa,no inglês original. Não deixem de ler.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Tempo de Pregar aos Não Convertidos sobre o Aborto

Filip Mazurczak
Aqueles que acreditam no direito fundamental à vida tiveram duas grandes derrotas, em dois continentes diferentes, no espaço de menos de um mês. No dia 25 de Maio dois terços da população votou para revogar uma emenda constitucional que protege o direito à vida, abrindo caminho para aquilo que o Governo irlandês promete que vai ser uma das leis pró-aborto mais agressivas da Europa. Uma semana mais tarde o Congresso argentino votou por 129-125 a legalização do aborto até às 14 semanas de gravidez (para o diploma ganhar força de lei precisa de ser aprovado pela Câmara dos Deputados e ser promulgada pelo Presidente).

Claramente os pró-vida estão a perder a batalha de defesa da vida dos nascituros. Para ganharmos no longo prazo precisamos de criar um consenso social de que os nascituros merecem o direito à vida, um consenso que transcende as divisões políticas e religiosas.

O desastre irlandês tem sido apresentado como prova do recuo da Irlanda das suas raízes católicas, desde os anos 90. Na Argentina ainda há esperança de que a Câmara dos Deputados, que é mais conservadora que o Congresso, possa impedir a legalização do aborto. Mas mesmo que isso aconteça, há uma forte probabilidade de que seja uma vitória efémera: as sondagens mostram que 60% dos argentinos apoiam a lei do aborto, quase duas vezes os que se opõem (34%).

Mais, na Argentina, como na Europa e na América do Norte, as forças pró-vida estão muito proximamente ligadas ao catolicismo. E a Argentina é um dos países menos religiosos da América Latina, pelo que uma revolta popular anti-vida, e anti-católica, à irlandesa, parece ser provável num futuro próximo.

Internacionalmente, a maior fraqueza da causa pró-vida é a sua proximidade com o Cristianismo e a direita política. Claro que não é mau que as Igrejas – Católica, Ortodoxa e algumas protestantes (tal como judeus ortodoxos e alguns muçulmanos) – estejam na linha da frente na batalha pela vida. Pelo contrário, o Cristianismo volta a mostrar provas de que rejeita o Zeitgeist em nome de valores intemporais, tal como fez em 1537 quando a escravatura era uma prática comum, durante a colonização europeia das Américas e o Papa Paulo III emitiu uma bula a prescrever excomunhão para os responsáveis por essa prática odiosa.

O problema está no facto de que numa democracia pluralista nenhum líder ou partido irá governar para sempre. Helmut Kohl foi chanceler da Alemanha Ocidental durante 16 anos, mas mesmo esse seu domínio acabou eventualmente. Eu fiquei contente quando o Presidente Trump rescindiu a política da Cidade do México e promulgou outras políticas pró-vida. Mas o Trump também não vai durar para sempre.

Nos Estados Unidos e em muitos outros países a posição das pessoas sobre o aborto está fortemente ligada à sua filiação política e religiosa. Nas últimas décadas isto acentuou-se ainda mais. O número de democratas pró-vida no Congresso actualmente, por exemplo, conta-se pelos dedos de uma mão, em comparação com mais de 100 nos anos 70. Para que a legislação pró-vida seja irreversível é necessário criar um certo consenso.

Para o fazer é preciso estendermos a mão às pessoas de boa vontade. Temos de começar pela base e explicar aos nossos amigos e familiares não conservadores e não cristãos porque é que somos pró-vida. O movimento pró-vida pode não ter a influência política e o financiamento generoso de que gozam a Planned Parenthood ou a Open Society Foundation de George Soros. Mas temos uma arma muito mais poderosa: A verdade.

Com os avanços na ciência, tecnologia e medicina, agora sabemos que o nascituro não é um aglomerado de células. As ondas cerebrais de um embrião são detetáveis às seis semanas após a concepção, bem dentro dos prazos legais para o aborto em quase todos os países ocidentais.

Pessoas intelectualmente honestas, que aderem aos conselhos de Sócrates de seguir as provas, seja para onde for que elas conduzem, serão levados pela lógica irresistível de que um nascituro é humano e, por isso, merecedor de protecção legal, independentemente do lado da barricada política em que se encontram ou do Deus, ou deuses, em que acreditam ou não acreditam.

O Hinduísmo pode não se opor ao aborto em termos absolutos (como comprova a legislação extremamente permissiva, que permite a prática até às 24 semanas nalgumas circunstâncias), mas Mahatma Gandhi, um hindu revoltado com a hipocrisia dos cristãos que colonizaram o seu país, disse que para ele era “claro como a luz do dia que o aborto é um crime”.

O falecido Nat Hentoff, crítico de música para o Village Voice – tudo menos um polo de conservadorismo social – era um judeu ateu libertário. Mas, sendo intelectualmente honesto, ele via que o aborto era um mal e opunha-se-lhe activamente. Há muitas mentes que, tal como Gandhi ou Hentoff, encontram-se em campos diferentes dos cristãos em termos políticos ou religiosos, mas têm a capacidade de ver o aborto como aquilo que é – se os informarmos.

Quanto mais pessoas dessas houver, mais pressão haverá sobre os políticos e a sociedade para condenar o aborto como uma violação dos direitos humanos mais básicos.

Imaginem que alguém vos dizia: “Pessoalmente, oponho-me ao tráfico de seres humanos, mas mais vale regulamentar a prática do que deixá-la acontecer de forma ilegal e insegura. E o Governo não tem nada que se meter nos assuntos privados dos traficantes. Devem deixá-los tomar as suas próprias decisões”.

O mais provável é que nunca tenha ouvido ninguém proferir sofismos deste calibre. Mas a maior parte das pessoas diz coisas muito semelhantes sobre a matança de humanos nascituros – humanos com cérebros, coluna vertebral e impressões digitais, que são capazes de sentir dor e, nalguns casos, de sobreviver fora dos úteros das suas mães.

A recente catástrofe na Irlanda e a tragédia em curso na Argentina mostram que devemos trabalhar para criar uma sociedade em que o aborto é visto como sendo tão inaceitável como o tráfico humano, e devemos pregar não aos convertidos, mas àqueles que, por causa das suas ideias sobre política ou religião, são nossos companheiros inesperados.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Junho de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Irlanda não perdoa a hospitais católicos

A Irlanda prepara legislação para legalizar o aborto e o primeiro-ministro Leo Varadkar já avisou que todos os hospitais que recebem fundos públicos vão ter de “fornecer” este “serviço”. Os hospitais católicos não são excepção.

O Papa diz que a crise dos migrantes exige uma “mudança de mentalidade” e uma resposta humanitária internacional.

Começou o Mundial! Francisco pede que este seja uma “ocasião de encontro” entre culturas e religiões.

Esta quarta-feira há artigo do The Catholic Thing em português. Perante as acusações de neo-gnosticismo na Igreja actual o padre Weinandy dá uma contextualização histórica sobre esta heresia e diz que se ela existe não será onde muitos pensam.

Mas há mais no The Catholic Thing esta semana. Depois de vários anos a colaborar com este site, traduzindo centenas de artigos de qualidade, ontem vi publicado pela primeira vez um artigo da minha autoria. É sobre a recente votação da eutanásia, no Parlamento. Espero que gostem!

Decorre nos dias 20 e 21 de junho o colóquio “A Religião nas Multiplas Modernidades”, cujo programa podem ver aqui. Para os que se interessam por esta área académica, fica o convite.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Deus não fala para nos acomodar

Muito falámos de Alfie Evans nos últimos dias. Estava a sofrer, não estava a sofrer? Agora não sofre certamente, pois morreu, rodeado dos seus pais, no sábado. Um bebé cuja vida muitos considerariam inútil moveu paixões. Não há vidas inúteis. Que isto sirva de lição.

Esta segunda-feira na Renascença temos uma entrevista com Tiago Cavaco, o pastor baptista que acaba de lançar o livro “Milagres no Coração”. Ele considera que a palavra de Deus “não está escrita para nos acomodar”.

Os bispos da Nigéria querem a demissão do Presidente Buhari, saiba aqui porquê.

O Papa saudou o sucesso da cimeira das coreias e voltou a pedir orações pela Síria e numa reunião com especialistas em medicina regenerativa recordou que nem tudo é aceitável eticamente.

Por fim, o bispo do Porto quer os jovens a falar de Deus nas redes sociais.

Termino com um convite/desafio. Na quinta-feira haverá uma romaria pela vida. Começa com missa, segue-se caminhada até à “clínica” dos Arcos e oração do terço. Os detalhes do evento estão na imagem. Quem não pode ir que reze em casa pela mesma intenção.

quarta-feira, 14 de março de 2018

As Testemunhas de Belial

Anthony Esolen
Nos últimos tempos tenho sido um comentador pouco frequente – e não muito bem-vindo – numa página chamada The Imperial Academy, que é gerida por académicos de esquerda. É suposto ser um local de partilha de conhecimento, mas na prática é dedicado às fofoquices políticas do dia. Não sei bem como é que lá fui parar, mas pode ter sido pela mão do meu amigo, o excelente Robert P. George. Encaro isso como um ministério menor, o meu esforço em escrever pequenas porções de verdade para uma congregação maioritariamente ateia e secularista.

E há uma coisa em que tenho reparado. Não fiquei admirado por ver que os membros do Imperial Academy têm pouco respeito pela religião. O que me espanta é a hostilidade e o desprezo, sem que se vislumbre qualquer esforço por compreender em que é que acreditamos ou porquê, e como devemos agir com base na nossa fé, ou pelo menos evitar agir contra ela.

O outro dia o assunto foi o aborto e os membros expressaram a opinião de que se alguém não quer praticar um aborto não deve entrar num campo que o requer. Por outras palavras, se não queres fazer abortos, não vás para medicina. Católicos – irlandeses ou de outra estirpe – escusam de se candidatar.

Eventualmente, nestas discussões, alguém joga o que pensa ser o ás de trunfo. A cartada das Testemunhas de Jeová. “Então”, diz, “suponho que aceitarias ter uma testemunha de Jeová como cirurgião ou como hematologista”, que são dois campos em que nenhuma testemunha de Jeová quereria entrar, pois as transfusões de sangue são uma componente necessária e regular do trabalho. Embrulha!

Mas não é o ás de trunfo. Talvez um rei de um naipe menor, orgulhosamente a passear pela mesa de jogo, mas prestes a perder a vasa. Eis a razão porquê:

Os católicos não apelam à escritura para ditar as especificidades da prática da medicina. Apelamos de forma geral à natureza das coisas e à razão. A medicina, por definição, remedeia. Se tens febre, a medicina restaura o teu corpo até à temperatura normal. Se tens uma infecção, a medicina restaura a ordem saudável ao teu corpo. Se tens um membro partido, a medicina arranja-o. Se és vulnerável a uma doença facilmente transmissível, a medicina fornece-te protecção. Se tens um órgão que não funciona como deve ser, a medicina cura-o. Se o corpo apenas pode ser salvo através da remoção de um órgão ou de um membro doente, a medicina faz na prática aquilo que o próprio corpo faz através do seu sistema autoimune.

Reparem que não estou a apelar a qualquer coisa extrínseca à medicina e ao corpo. A testemunha de Jeová apela, porque não há nada na natureza do sangue que sugira que a hemoglobina de um homem não pode, ou não deve, ser usada por outro, como nada impede que o ar que um homem inala seja inalado por outro na respiração boca-a-boca.

Mas no que toca a questões como o aborto, a esterilização e a mutilação sexual, a testemunha de Belial faz esse apelo extrínseco. Não apela a uma visão deturpada da escritura, mas sim a uma visão deturpada do papel da vontade individual, da conveniência política ou à demografia mundial. Por outras palavras, a testemunha de Belial deixou o mundo da medicina para trás.

Mas não há nada de errado com a criança no útero. Isso é um simples facto. Nem há nada de errado, evidentemente, com os sistemas reprodutivos dos pais da criança. Claramente, esses estavam a funcionar correctamente. O aborto não restaura a saúde a um órgão ou a um membro doente, não protege contra doenças transmissíveis, não cura, não salva uma pessoa em perigo de morte.

O aborto não remedeia. Logo, tem tanto de medicina como terá a amputação de um membro saudável, independentemente de envolver trabalho com e sobre o corpo.

O liberal contrapõe com o problema dos pais da testemunha de Jeová que tentam impedir os seus filhos de receber sangue de um dador. Mas também isto é, na verdade, um argumento contra o liberal, por duas razões. A primeira é que uma coisa é praticar um acto que outra pessoa considera moralmente condenável, com o propósito de salvar uma vida. Mas é outra coisa diferente tentar obrigar todos os profissionais médicos a participar nesse acto. Seria como tentar obrigar um pacifista a pegar em armas em tempo de guerra. Para quê? Que tipo de mente faria uma coisa dessas?

Belial
Mas há outra questão que o liberal não está a ver que o liga de forma trágica à testemunha de Jeová. É tão simples como isto: Em ambos os casos acabamos com uma criança morta. Tanto a testemunha de Belial como a testemunha de Jeová recorrem a factores extra-médicos para definir o que é próprio da medicina, e tanto a testemunha de Belial como a testemunha de Jeová acabam por ter nas mãos a morte de uma criança inocente.

Se há alguma distinção entre os dois, tem de ser a favor da testemunha de Jeová. Afinal de contas, ele é vítima de uma teologia infeliz, mas não deseja a morte do seu filho. A testemunha de Belial, pelo contrário, deseja precisamente isso. A testemunha de Jeová limita, desnecessariamente, a medicina. Mas ao exceder a medicina, a testemunha de Belial destrói a própria medicina. A testemunha de Jeová tem medo de fazer algo que possa salvar uma vida. A testemunha de Belial não tem qualquer temor em matar. A testemunha de Jeová quer que lhe deixem em paz. A testemunha de Belial não te deixará em paz. A testemunha de Jeová não quer violar a sua consciência, por mais deturpada que esteja. A testemunha de Belial quer obrigar-te a violar a tua.

A testemunha de Jeová está a pensar em Deus – de forma errada. A testemunha de Belial está a pensar em ambição, carreira, dinheiro e sexo. Porque no final de contas, vai dar sempre nisso: libertação sexual, compulsão estatal e crianças mortas.

Ah, e para terminar… Há um nome para o tipo de governo do Século XX que procuraria obrigar o pacifista a pegar em armas. Chama-se “fascismo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no sábado, 10 de Março de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Avaliando o Progresso na Luta pela Vida

Alan L. Anderson
Na passada sexta-feira realizou-se a 45.ª Marcha pela Vida, em Washington, pelo que vale a pena ponderar os significativos progressos feitos ao longo do último ano na tentativa de assegurar o mais fundamental dos direitos que Deus nos concede – o direito à vida. As conquistas têm sido ao nível público e por vezes político, mas nestas questões convém lembrar sempre que os nossos verdadeiros inimigos são os “poderes e potestades”, “tronos e dominações”, sobre os quais São Paulo nos avisou.

Alguns pró-vida, sobretudo os que estavam preocupados com as credenciais de Donald Trump neste campo, poderão estar agradavelmente surpreendidos com o facto de, durante este seu primeiro ano no poder, se ter revelado um aliado fiável. Seja qual for a opinião dele no geral, agiu de forma rápida e sólida para inverter o percurso impiedoso e anti-vida do seu antecessor Barack Obama. Trump nomeou e garantiu a confirmação do juiz pró-vida Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal americano. Foi a nomeação pró-vida mais importante de várias, incluindo o senador Jeff Sessions para procurador-geral e Sarah Huckabee Sanders como chefe do gabinete de imprensa.

Na arena política, Trump não só reinstituiu como expandiu dramaticamente a Política da Cidade do México, que proíbe o financiamento federal de organizações não-governamentais que praticam e promovem o aborto; retirou também o financiamento ao Fundo de População das Nações Unidas e promulgou regulamentos que permitem aos Estados desviar fundos da Planned Parenthood.

Em Outubro o Departamento de Saúde e Serviços Humanos expandiu significativamente as objecções de consciência para funcionários ao abrigo do Mandato de Contracepção do Obamacare. Também em Outubro a Câmara dos Representantes aprovou uma lei que protege nascituros capazes de sentir dor, embora essa lei esteja actualmente presa no Senado. Da mesma forma (graças a senadores como Marco Rubio e Mike Lee, que se mantiveram firmes para que fosse aprovada), a lei de reforma fiscal inclui um maior crédito fiscal para crianças, que será muito benéfico para famílias trabalhadoras, promovendo assim ainda mais uma cultura da vida.

Infelizmente também houve retrocessos ao nível dos estados. Por exemplo, o governador republicano do Illinois, Bruce Rauner, assinou uma lei radical e anti-vida que financia os abortos e declara que o aborto continuará a ser legal naquele estado, mesmo que o Roe V. Wade seja revogado. Da mesma forma, tentativas por parte dos estados de Texas e da Virgínia para retirar o financiamento à Planned Parenthood foram frustrados por um juiz e um governador anti-vida, respectivamente.

Fraco consolo para a malta da Planned Parenthood, contudo, uma vez que foi anunciado para o final de 2017 que o FBI e o Departamento de Justiça lançaram uma investigação acerca da venda de tecidos fetais obtidos através de abortos.

Mas outras duas histórias – daquelas que desaparecem tão depressa que não temos tempo de avaliar a sua importância – que também apareceram no final de 2017 e que nos dão que pensar, recordam-nos de que embora as nossas batalhas se travem na arena política, jurídica e burocrática, esta continua a ser, na sua raiz, uma guerra espiritual.

Primeiro, duas figuras mediáticas conhecidas – Chip e Joanna Gaines do programa “Fixer Upper” – anunciaram que estão à espera do seu quinto filho. As redes sociais explodiram com reacções ferozes. Um crítico observou que “a sobrepopulação está a matar o planeta. Ter outra criança é um acto irresponsável”, o que levanta o véu bonitinho que pretende esconder o que o movimento pró-aborto tem em mente quando fala de “escolha”. Outros pareciam regozijar-se com os boatos sensacionalistas de que o casamento do casal estava em perigo, sugerindo que apenas estavam a ter mais um bebé para tentar salvar a relação. “Ter um bebé não vai melhorar a vossa vida”, disse um. Um casal anuncia que vai ter mais um bebé – um momento belo, um momento de celebração – e chovem mentiras e fealdade. Os demónios estão certamente satisfeitos.

Depois, surgiu um video no YouTube, postado pela Students for Life of America, no dia 4 de Janeiro, que serve para nos mostrar os progressos feitos pelo Pai da Mentira nas nossas instituições de ensino superior de elite. O vídeo mostra um aluno na Universidade de Tennessee a argumentar, de forma calma e serena, a favor da legitimidade do infanticídio, argumentando que uma vez que crianças de dois anos não são “sensíveis” – uma palavra cujo significado parece muito orgulhoso de conhecer – não têm direito à vida. Muitos de nós conhecemos académicos, como
Peter Singer e Steven Pinker que apresentaram argumentos igualmente “insensíveis”. Mas que estas opiniões tão assustadoras possam ser expressas de forma tão descomprometida por um jovem num campus em Knoxville, Tennessee, deve servir para nos alertar sobre o quão longe se espalhou este espírito nocivo que continua a afectar negativamente a nossa cultura.

Claro que devemos continuar as marchas, o exercício dos nossos direitos políticos e os processos. Mas não nos esqueçamos das nossas armas mais poderosas – esmola, jejum e oração, sobretudo o terço. O combate é espiritual e no final de contas vencer-se-á no plano espiritual. A conversão das leis virá depois da conversão dos corações. Seria fácil deixarmo-nos desencorajar nesta tarefa, mas devemo-nos lembrar sempre que “Para Deus tudo é possível” (Mt. 19,26).

Imaculado Coração de Maria, rogai por nós e pelos nascituros que tentamos proteger.


Alan L. Anderson trabalha há mais de vinte anos para a diocese católica de Peoria, ao nível paroquial e diocesano. É um convertido, ia de quatro filhos e escreve sobre cultura e fé a partir de Roanoke, Illinois.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Love is in the air!

E pronto… Francisco arranja sempre maneira de nos surpreender novamente. Hoje foi um casamento em pleno voo. Dois assistentes de bordo entraram no avião solteiros, aos olhos da Igreja, e saíram casados. Love is in the air.

Já em Iquique, Francisco celebrou missa e disse aos presentes que os imigrantes que partem das suas casas à procura de melhores vidas, são “ícones da sagrada família”.

Ontem o Papa esteve com os jovens em Santiago, no Chile, e para que não lhes faltasse nada deu-lhes o password da banda larga de Jesus.

Braga é a mais recente diocese a publicar orientações para a aplicação do Amoris Laetitia.

E hoje que começa o oitavário da oração pela unidade dos cristãos, o bispo da Guarda desafia os cristãos a lutar contra novas formas de escravatura.

Apresento-vos o bispo americano que recusou participar numa caminhada pela vida na sua diocese porque a oradora é defensora da pena de morte.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ela não quer salvar o mundo sozinha, mas vai fazendo a sua parte

Joana Gomes
A Joana não pretende salvar o mundo sozinha, mas continuará no Chade, a única branca no campo de refugiados onde trabalha, enquanto Deus a quiser lá. Se pensam que tiveram um dia chato no trabalho, leiam esta entrevista. Se o dia correu bem, leiam na mesma.

O Chade é longe e a vida é difícil, mas é bastante pior para cristãos que vivem num dos 10 países que mais perseguem o Cristianismo, segundo a organização Open Doors. Conheça essa lista aqui.

O Papa vai na segunda-feira para o Chile e segue para o Peru. Não é desta que visita a Argentina, mas pelo menos 40 mil argentinos vão visitá-lo a ele.

A primeira-ministra do Reino Unido nomeou uma vice-presidente do Partido Conservador para promover a integração das mulheres. As organizações e figuras pró-aborto do país tiveram um ataque porque ela é, pasme-se, pró-vida e pretende ser uma voz para os que não têm voz. Bravo Maria Caulfield!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Não-Silêncio de Santa Perpétua

Randall Smith
“Queremos falar consigo sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Estávamos ainda na primeira semana do curso de Verão que eu estava a leccionar a um grupo de estudantes internacionais quando fui abordado por duas holandesas com este pedido. Temendo que se tratava de uma conversa armadilhada, chutei para canto.

Já por demasiadas vezes dei por mim a entrar em conversas sobre assuntos sensíveis, pensando tratar-se do género de discussão filosófica que se pode ter sobre, por exemplo, a natureza das virtudes morais no pensamento de São Tomás de Aquino. As discussões sobre temas “académicos” também podem ser acesas, estranhamente, mas costumam manter uma capa exterior de discussão desinteressada. Esse não é o caso quando o assunto é, por exemplo, o aborto.

Às vezes acontece, enquanto vamos debitando a nossa lista de argumentos mortíferos, respondendo a todas as objecções de forma socrática ou tomística, encantados pela nossa própria inteligência, que de repente ficamos com uma ideia clara – provavelmente com uns vinte minutos de atraso – de que a pessoa com quem estamos a falar já fez um aborto. Ou então ela diz-nos directamente: “Eu abortei”. Nesse ponto compreendemos, caso tenhamos algum juízo (o que não posso dizer ser o meu caso) que afinal não estamos numa discussão filosófica desinteressada; não, estamos envolvidos numa luta interna na própria alma daquela pessoa, e que é melhor andar com cuidado.

Na maior parte dos casos era importante que ambas as partes na discussão tivessem passado muito mais tempo a edificar uma relação de respeito mútuo e de confiança antes de se aventurarem nestas águas turbulentas. Não é preciso dizer as palavras “és um infanticida” para que a outra pessoa nos entenda dessa forma.

Parece-me que com a questão da homossexualidade, ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se passa o mesmo. Na maioria dos casos as pessoas de ambos os lados da barricada já investiram uma grande parte de si mesmas na questão e pode ser difícil dizer o que quer que seja sem que a outra pessoa não o entenda de forma errada. Nestas circunstâncias de rancor, dor e desconfiança é possível fazer terríveis danos numa ocasião que devia ter servido para alimentar a reconciliação e a compreensão mútua.

A ideia iluminista de que podemos simplesmente sentar-nos e pôr de lado as nossas emoções e preconceitos, discutindo estes assuntos de forma puramente racional, é uma ilusão perigosa. É importante, por isso, nessas situações, agir com grande cautela.

E foi por isso que quando estas duas jovens me abordaram, chutei para canto. Teríamos de nos conhecer melhor, expliquei-lhes; teria de haver de ambos os lados um sentimento de segurança na discussão; teríamos de estar prontos a olhar para além do que as palavras de cada um pudessem significar, para apreender as verdadeiras intenções por detrás dessas palavras; e teríamos de nos interessar suficientemente sobre os assuntos – e uns pelos outros – para termos paciência para um processo que talvez tivesse de se desenrolar ao longo de várias horas ou até semanas.

Mas afinal não era nada disso que elas queriam discutir. Afinal de contas eram ambas católicas devotas (sim, da Holanda!), que aceitavam o ensinamento da Igreja. O que queriam era falar sobre as leis da Holanda que obrigam todos os professores a ensinar aos seus alunos da primária que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é bom. Aquilo que eu pensava que iria ser uma conversa sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou, afinal, por ser uma questão sobre a liberdade de consciência e os limites do poder estatal.

Quis a providência divina que nesse dia a turma estivesse a ler “O Martírio de Perpétua e de Felicidade”, um relato escrito em larga medida pela própria Vibia Perpétua, antes de morrer no ano 203. A questão que Perpétua enfrentava era saber se deveria acender uma vela de incenso ao imperador, jurar-lhe fidelidade enquanto deus e depois prestar culto aos deuses por ele designados.

Um dos protagonistas do relato de Perpétua é o seu próprio pai, que repetidamente a aconselha a aceitar o acordo que foi proposto. Podia dizer uma coisa por palavras, mas acreditar noutra, dizia-lhe ele. As autoridades romanas não queriam saber de religião para nada, apenas de política. Eles não se interessavam em saber que Deuses se adorava, desde que se obedecesse ao imperador e aos seus representantes. Perpetua tinha um bebé, devia pensar nele, suplicou o pai. Mas ela não cedeu.

Muitos dos alunos na aula tinham visto o filme “Silêncio” de Martin Scorsese. “Porque não pisar simplesmente a imagem de Jesus?”, perguntei. “Apenas isso, alinhar, pisar. Deus não se magoa. Pode-se esconder um crucifixo no bolso, o que é que isso teria de mal?”

E você, o que teria feito na situação de Perpétua? Será que ela era uma mulher espetacular e forte que recusou ser amedrontada por homens, desde o imperador, ao governador, passando pelo próprio pai? O será que era uma tola teimosa que deveria ter aceitado a proposta que lhe foi feita? O que é que custaria acender uma vela? Deus não teria compreendido? Afinal de contas, era só uma vela.

Ou era? Se a vela era tão pouco importante, então porquê insistir que deveria ser acesa, sob pena de tortura ou morte? Talvez porque no final de contas não era só sobre acender uma vela ou pisar uma imagem, mas sim uma forma de mostrar que se aceitava a autoridade última daqueles que estão no poder. Essas pessoas não querem saber o que faz em privado, desde que mostre em público que aceita as suas vontades e concorde em submeter-se a tudo aquilo que consideram ser indispensável.

“Pensem na Perpétua”, disse-lhes. Há autoridades legítimas no Governo, e precisamos delas para nos ajudar a construir e defender o bem comum. Mas há também aqueles que apenas nos querem governar. Com estes chega-se a um ponto em que simplesmente devemos perguntar: “Que parte de mim mesmo estou disposto a submeter?”, “A que divindades me prostrarei?” e, a dada altura, “Quem é o meu Deus?”.


Não são perguntas que eu poderia responder por elas. Faz parte da dignidade da pessoa que cada um as deva enfrentar por si. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Agosto de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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