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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Actualizar a Teoria da Guerra Justa

Nota: Este texto foi escrito e enviado para publicação antes de os EUA, França e Reino Unido terem lançado ataques coordenados à Síria. Contudo, todo o teor do texto mantém-se actual. 

Ao longo de séculos a “teoria da Guerra Justa” foi proposta e desenvolvida por uma série de grandes pensadores – Cícero, Agostinho, Aquino, Francisco de Vitória, Francisco Suárez, Hugo Grócio e outros.

No passado o que estes pensadores tinham em comum, para além da intenção de combater a praga incessante de guerras, era a visão do que era a guerra. Nomeadamente, alguma nação com uma capacidade militar formidável ameaçava outra nação, ou nações. Estas teriam então de deliberar se os seus recursos militares eram adequados, se os meios não-militares poderiam ainda anular a ameaça, ou se, como último recurso, a acção militar os poderia proteger ou se tornaria a situação pior.

Os princípios sublinhados pelos teóricos da Guerra Justa incluem: a urgência da ameaça, a viabilidade da negociação, identificação da autoridade certa, consoante os diferentes sistemas políticos, para declarar ou iniciar guerra, discernir se as consequências da guerra poderiam ser piores que a rendição e ainda as considerações éticas sobre armas letais, tratamento de prisioneiros de guerra e o sofrimento de não-combatentes, etc.

Uma imagem de exércitos perfilados, por vezes com aliados, a enfrentar e a conquistar outros exércitos no campo de batalha, era partilhada por todos estes teóricos, até durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial, a que se juntavam infantarias poderosas, explosivos, poder aéreo, submarinos e outros produtos da engenharia moderna.

Mas o cenário começou a alterar-se seriamente durante e depois da Segunda Guerra Mundial – arsenais nucleares, guerra de guerrilha, agentes químicos ou biológicos tremendamente letais – em suma, a possibilidade de mortandade em quantidades e intensidades jamais concebíveis. Se Júlio César ou Genghis Khan tivessem uma bomba atómica provavelmente hesitariam em usá-la para conquistar os territórios que planeavam ocupar.

Ainda a semana passada, depois de ter dito que estava “prestes” a abandonar a Síria, o Presidente Trump ameaçou lançar mísseis contra a Síria, por causa do ataque mortífero com armas químicas contra civis em Douma, ocupada por rebeldes. O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que “uma agência de informação estrangeira” levou a cabo este ataque e um membro da Comissão de Inquérito da ONU aponta para indícios de que os rebeldes anti-Assad possam ser responsáveis.

De facto é estranho que Assad, que tem estado a ganhar a guerra contra os rebeldes, tivesse provocado esta retaliação internacional nesta altura. Mas os Estados Unidos e os seus aliados russos e britânicos estão perfeitamente convencidos de que ele ordenou o ataque e que tem de haver uma resposta tanto para punir a Síria e dissuadir novos ataques da mesma natureza.

É precisamente neste campo que se tornaram bastante complicados os “juízos prudenciais” que, outrora, eram bastante simples. Uma primeira pergunta a colocar por um teorista da Guerra Justa seria: Existe alguma ameaça clara ao nosso país? Obviamente, a Síria não ameaça directamente, de forma alguma, os Estados Unidos. Mas de facto, um ataque à Síria, que tem a Rússia como aliada, poderia levar a uma nova Guerra Fria, ou pior.

O Presidente Trump lançou um ataque com mísseis à Síria em Abril de 2017 e parece confiante que seria possível repetir a façanha sem enfurecer o urso russo. Mas este tipo de diplomacia arriscada não se limita a desafiar os poderes constitucionais para fazer guerra que o Presidente detém, resultam num improviso no que toca a justificar as guerras. Para além disso, a deposição de Assad, em vez de melhorar a situação, poderia levar os extremistas islâmicos ao poder, o que não é melhoria alguma.

E estas complexidades não se limitam ao Médio Oriente. A Teoria da Guerra Justa tradicional não parece capaz de lidar com muitas outras realidades contemporâneas e precisa desesperadamente de se ser aprofundada e desenvolvida se queremos continuar a contar com a sua orientação para as nossas nações e os nossos líderes. Eis alguns exemplos de assuntos que precisam de ser analisados cuidadosamente:

·         A doutrina da Destruição Mútua Assegurada (DMA), em que duas potências nucleares em guerra poderiam facilmente aniquilar-se uma à outra – ou até conduzir a um estado de apocalipse caso outras potências nucleares entrassem no combate – prevalece ainda. Haverá alguma crise contemporânea tão grave que justificaria o recurso a armas nucleares para atacar de forma preventiva um rival? Milhares de “células” terroristas surgem à volta do mundo. Algum exército, marinha ou força aérea pode ser usada efectivamente contra elas?

·         O uso alargado de “escudos humanos” – lança-mísseis em hospitais, explosivos armazenados em escolas, terroristas a estabelecer-se em cidades, rodeados de não-combatentes inocentes e impedindo os civis de sair da cidade. Haverá justificação para destruir um hospital ocupado por terroristas a operar artilharia?

·         A possibilidade de acidentes devido a erros, levando a guerras por nada. O recente incidente no Havai recorda-nos que já houve incidentes parecidos, que poderiam mesmo ter selado o destino do mundo, no passado.

·         Líderes de potências nucleares loucos e/ou suicidas que se estão nas tintas para a aniquilação mútua. O DMA baseia-se no pressuposto de que os líderes mundiais são agentes racionais e não misantropos com tendências suicidas.

·         Jihadistas sob influência de crenças religiosas, apostados em converter o mundo, se necessário pela força.

Apocalipse, quando?
Num mundo ideal, talvez procurássemos:

·         O desarmamento nuclear e a proibição absoluta da proliferação – embora seja difícil imaginar isto a acontecer depois de que se passou com Khadaffi, que desarmou em 2003.

·         Sistemas de inteligência à prova de erro, capazes de impedir planos de ataque transmitidos eletronicamente.

·         A rejeição da construção de mais mesquitas sem garantia de reciprocidade e construção de igrejas no Médio Oriente. A falta de reciprocidade tem facilitado a importação de agentes religiosos violentos, operando sob o disfarce unidirecional de “liberdade religiosa”.

Mas há outras sugestões mais práticas e menos idealistas, como:

·         Bombardeamentos “cirúrgicos” de reactores nucleares em “estados pária”, como Israel fez no Iraque em 1981 e na Síria em 2007, o que requer recursos de informação muito detalhados.

·         Identificação e destruição de todos os arsenais químicos e biológicos, bem como o desmantelamento de arsenais capazes de produzir explosões nucleares a alta atitude, causando uma “pulsão electro-magnética” capaz de incapacitar os recursos electrónicos em várias nações.

·         Um “Plano Marshall” nuclear, oferecendo auxílio em troca da transformação de instalações nucleares perigosas em centrais nucleares pacíficas – avançando assim a profecia bíblica que prevê a transformação de espadas em arados (Isaías 2, 4).

·         Pegando no exemplo do assassinato de Osama bin Laden e outros terroristas, o assassinato dos líderes mais demoníacos, que escravizam as suas populações e ameaçam destruir os Estados Unidos.

Segundo o famoso “relógio do juízo final”, mantido pelos Cientistas Atómicos, a humanidade está actualmente a “dois minutos da meia-noite”. Por isso aqueles de entre nós que sonhamos com a paz mundial sentem uma certa urgência. Não se trata de uma urgência exagerada, talvez tenha chegado o momento de “pensar fora da caixa”.

Os desenvolvimentos diplomáticos recentes indicam que possa estar prestes a realizar-se um encontro inédito entre o Presidente Trump e Kim Jong-un, da Coreia do Norte em Maio. O Presidente insiste na desnuclearização como pré-condição para um encontro e Kim parece pronto a aceitar isso, dizendo que “o assunto da desnuclearização da Península Coreana pode ser resolvido” se os EUA e a Coreia do Sul responderem “com boa vontade”.

Depois de fracassados tantos esforços diplomáticos para remover uma das maiores ameaças à paz mundial, podemos de facto depositar alguma esperança neste tipo de encontro?

Kim não se encontra na posição vulnerável de Khadaffi no que diz respeito ao desarmamento. Ele continua a ter a China a apoiá-lo, e tem a Coreia do Sul pronta para a reunificação. Transformar “espadas em arados” naquela região não é totalmente inimaginável – embora seja certamente “fora da caixa”.

Mas para dizer a verdade a estratégia menos prática para a paz mundial seria provavelmente a mais eficaz. Estou a pensar na batalha de Lepanto, em 1571, em que uma pequena frota cristã derrotou uma armada turca, bem como na cruzada do Rosário na Áustria, em 1955, que conduziu à retirada dos exércitos soviéticos. Por outras palavras, estou a falar numa cruzada do Rosário mundial. Mas sim, eu sei, isto é demasiado “fora da caixa”.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 14 de Abril de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

As Duas Religiões do Alcorão

Howard Kainz
É urgente que os cristãos leiam e compreendam o Alcorão, para poderem compreender melhor uma religião que está constantemente nas manchetes. Mas isso é pedir muito, porque o Alcorão é uma mistura de capítulos, escritos em tempos diferentes, organizados por ordem de comprimento, do maior ao mais curto, misturando assim os pensamentos primordiais de Maomé em Meca com ditos muito diferentes posteriores à fuga para Medina.

No livro A Simple Koran, Bill Warner ajuda-nos a ultrapassar essa confusão, reorganizando o Alcorão por ordem cronológica, ao longo dos 23 anos em que Maomé propagou a sua nova religião. Esta abordagem, composta quase inteiramente por textos do Alcorão, com ocasionais subtítulos ou explicações, demonstra bem como o Islão evoluiu durante a vida de Maomé e ilumina a divisão crucial entre aquilo que Aayan Hirsi Ali descreve como “Muçulmanos de Meca” e “Muçumanos de Medina”.

As primeiras passagens do Alcorão, de Meca, derivam da sua conversão das múltiplas religiões politeístas que existiam em torno do santuário da Kaaba, ao monoteísmo. Algumas fontes dizem que eram adoradas até 360 divindades em Meca. Mas Maomé pregava a sujeição ao único Deus, Allah.

Mas houve um percalço. Maomé parecia ter permitido que três deusas fossem veneradas juntamente com Allah. De acordo com a biografia Twenty-Three Years, escrita por ‘Ali Dashti, dois versículos na Sura 2:19-22 diziam originalmente: “Pensastes em Lāt e em ‘Ozzā? E em Manāt, a terceira, a outra? Essas são os grous em voo. Por isso pode-se esperar pela sua intercessão”

Esta passagem parecia reconhecer a divindade das três deusas, juntamente com Allah. Mas Allah acabaria por repreender Maomé por estes “versículos satânicos”, que foram corrigidos em versões posteriores do Alcorão. A partir de então pregou-se apenas o monoteísmo rigoroso. (Salman Rushdie esreveu um romance sobre esta passagem e continua em vigor uma fatwa do Ayatollah Khomeini a exigir a sua morte).

As primeiras partes do Alcorão reescrevem o Antigo Testamento, explicando que Abraão, Lot, Moisés, etc., eram na realidade todos muçulmanos e que todos aqueles que rejeitam o Islão acabam no inferno. Aparecem várias histórias imaginativas sobre Moisés, que normalmente têm pouco a ver com a versão bíblica.

Tais revisões das histórias do Antigo Testamento eram acompanhadas por constantes avisos sobre a tortura eterna no inferno reservada aos Kafirs (não-muçulmanos) que não se convertam. Isto torna-se um tema recorrente ao longo do Alcorão, que tem 290 versículos sobre o Inferno e mais de 300 referências ao temor de Allah, a quem é devida Islam (submissão) servil, como que a um senhor. Por exemplo: “Os Kafirs de entre os Povos do Livro e os idólatras arderão eternamente nos fogos do Inferno. De todos os seres criados, eles são os mais desprezíveis” (98:6)

Em contraste, aos que aceitam a mensagem de Maomé é prometida uma recompensa celestial, em que se encontrarão sobre “poltronas decoradas”, servidos por “jovens rapazes imortais” a trazer-lhes fruta, vinho e “a carne de aves”, bem como as atenções amorosas de houris virginais.

O povo de Meca, duvidando das suas credenciais, pediram-lhe sinais de que se tratava de um profeta verdadeiro. Maomé apontou para uma litania de coisas como sinais – “a sucessão da noite e do dia”, “a chuva enviada por Allah”, “relâmpagos”, “as mudanças dos ventos”, “folhas verdes e cereais”, “a vossa sonolência noite e dia”, “a vossa busca pela generosidade de Allah”, “os navios, como montanhas no mar”, etc.

Exasperado pelas exigências de sinais mais claros, Maomé responde. “Os sinais estão somente no poder de Allah. Eu sou apenas o que traz o aviso. Não chega para eles que te tenhamos revelado o Livro, para lhes ser recitado? (28:48). Por outras palavras, o Alcorão é em si mesmo um milagre que confirma Maomé como profeta.

Maomé não teve grande sucesso em Meca; acabou com apenas 150 convertidos. Mas tinha alguns seguidores em Medina e foi para lá que fugiu quando a situação em Meca se tornou perigosa.

A Hegira (emigração) de Maomé e dos seus discípulos para Medina aconteceu em 622. Medina era uma cidade meia judia e meia árabe. Os judeus, a classe abastada, eram em larga medida artesãos e agricultores. Tinham aliados entre os árabes, mas reinava uma atmosfera de animosidade e de ciúme. Alguns árabes acreditavam que viria um profeta para os guiar à vitória sobre os judeus. Rapidamente começaram a ver que Maomé poderia ser esse homem. Fizeram-lhe um juramente de fidelidade e ofereceram-se para o proteger com armas, caso fosse necessário. Em breve Maomé começou a agir como um líder militar e a enviar combatentes em raides armados contra as caravanas de comércio que chegavam a Meca. Ao longo de nove anos levaram a cabo sessenta e cinco ataques (Maomé esteve presente pessoalmente em 27), bem como vários assassinatos e execuções.

As ameaças de condenação eterna por rejeitar Maomé começam nesta fase a tornar-se mais gráficas – Allah “destruirá os vossos rostos e virará as vossas cabeças ao contrário” (4:47), dará aos descrentes “fogo por vestuário”, “despejará água a ferver nas suas cabeças”, “escaldará as entranhas e a pele” e batê-los-á com “varas de ferro” (22:19).

Já Maomé começou a gozar de privilégios especiais: Os despojos de guerra (limitado a uma quinta parte do total), e mulheres e escravas para além dos limites que se aplicavam a outros (a comitiva amorosa de Maomé acabaria por incluir nove mulheres e várias escravas).

Irrompeu uma nova onda de violência quando os judeus de Medina e até mesmo muitos árabes rejeitaram a reivindicação de Maomé de ser um profeta enviado por Allah. A jihad islâmica tornou-se essencial para espalhar o Islão na Arábia e noutras partes. Um quarto dos versículos de Medina são exortações à jihad e promessas sobre as recompensas não só para a comunidade muçulmana, mas para guerreiros individuais. 

Nos seus anos finais Maomé começou a comportar-se como um profeta-rei. Cada aspecto da vida estava sob o seu controlo – horas de oração, proibições alimentares, o uso de véus, heranças, testamentos, punição por crimes, distribuição de impostos, etc. – tudo obedecendo a sentenças de Allah.

Resumindo, uma leitura cronológica/biográfica do Alcorão revela tremendas diferenças entre as partes anteriores e as posteriores. Não há apelos à jihad no Alcorão de Meca, nem antissemitismo, apenas apelos pacíficos à conversão. Mas em Medina temos a formação gradual de um verdadeiro exército, inspirado a conquistar, literalmente, o mundo para o Islão.

O Islão enquanto “religião da paz” tem, por isso, alguns fundamentos corânicos, mas a história islâmica e os eventos contemporâneos deixam claro que a justificação corânica para a jihad violenta é talvez maior.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 9 de Dezembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Mistérios de Fátima

Howard Kainz
A Ignatius Press publicou recentemente o livro “Fatima Mysteries; Mary’s Message to the Modern Age”, de autoria de Grzegorz Górny e Janusz Rosikon. Trata-se de um livro de grandes dimensões, de capa dura, com 400 páginas e mais de mil fotografias a cores, pinturas e cartazes, entre outros.

Apenas mais um livro sobre Fátima? Os factos principais sobre as aparições de Nossa Senhora em Fátima em 1917 já são bastante conhecidos e contidos em livros como “Fatima for Today” do padre Andrew Apostoli e o clássico “Our Lady of Fatima” de William Walsh, entre outros.

Esta semana assinalamos os 100 anos das aparições, mas a verdade é que “Fátima Mysteries” vai muito mais longe, dando-nos contexto e detalhes históricos, bem como um grande número de efeitos e eventos corolários e interligados, até hoje. A Primeira Guerra Mundial e o seu efeito sobre Portugal, a revolução de Outubro na Rússia bem como os movimentos anticatólicos como a Maçonaria, e outros, fornecem o pano de fundo para a aparição de Nossa Senhora às três crianças em Fátima.

O aviso em Fátima sobre a Segunda Guerra Mundial, o grande esforço dos Papas em lidar com as catástrofes humanas e os terríveis massacres e atrocidades levados a cabo sob a bandeira da “irmandade” comunista são descritos juntamente com os esforços contínuos da irmã Lúcia para convencer o mundo a utilizar os remédios oferecidos pela Virgem, bem como de tentar convencer os Papas a consagrar a Rússia, como tinha sido pedido, ao Imaculado Coração de Maria.  

O Papa Pio XII deu alguns passos, incompletos, para fazer esta consagração e houve desenvolvimentos dramáticos durante a década de 60 no Vaticano II, com centenas de bispos que defendiam a consagração da Rússia a serem marginalizados pela Ostpolitik do Vaticano para com a União Soviética e pela presença de hierarcas ortodoxos russos que tinham sido convidados para observar os trabalhos.

Finalmente João Paulo II, depois de consultar com a Irmã Lúcia, de ter trabalhado com movimentos políticos na Polónia e de se ter juntado ao Presidente Reagan para enfraquecer a mão dos soviéticos concluiu a consagração, depois de ter considerado que Maria interveio para o salvar de uma bala num atentado à sua vida.

A Consagração aconteceu quando os soviéticos estavam a planear um ataque à Europa, depois de o Reino Unido, a Alemanha, Itália, Holanda e Bélgica terem aceite mísseis americanos de médio alcance, em 1983. Mas no dia 13 de Maio, depois da consagração, ocorreu um acidente na base naval de Severomorsk que destruiu a maioria dos mísseis antiaéreos lá guardados, deixando a Frota do Norte soviética sem capacidade de ataque.

O “Fatima Mysteries” também nos dá a conhecer alguns dados e factos que são desconhecidos da maioria. Alguns dias depois do grande Milagre do Sol em Fátima, São Maximiliano Kolbe conseguiu finalmente estabelecer a Militia Immaculata, dedicada a evangelizar o mundo enfatizando de forma especial a consagração a Maria.

Entretanto, enquanto os jornais à volta do mundo se deslumbravam com notícias falsas sobre a vida debaixo do regime comunista, descrita como um paraíso dos operários, o pintor espanhol Salvador Dali recebia a encomenda do Apostolado Mundial de Fátima para pintar a visão do inferno vista pelos três pastorinhos, acabando por regressar à sua fé católica.

Activistas devotos a Fátima na Áustria conseguiram a retirada de forças soviéticas daquele país e ao mesmo tempo que o Papa João Paulo II fazia a consagração de 1984 em Roma o bispo Pavel Hnilica, que tinha viajado trajado à civil para o Kremlin, unia-se a ele, juntamente com o padre Leo Maasburg, na Igreja de São Miguel Arcanjo, em Moscovo, repetindo depois a consagração na Igreja da Dormição de Nossa Senhora. Recorrendo a hóstias, água e vinho escondidos em garrafas de aspirina, ele e o padre Maasburg conseguiram celebrar missa, disfarçados detrás de um exemplar do jornal soviético “Pravda”.

Estes são apenas alguns exemplos de ocorrências históricas que os autores interligam com a mensagem de Fátima, classificando-as como “mistérios” de Fátima, orquestradas pela providência divina. Mas não posso deixar de referir outros factores que me parecem misteriosos, ou pelo menos intrigantes:

A identidade do anjo que apareceu a Lúcia, Jacinta e Francisco antes das aparições de Nossa Senhora. Na Primavera de 1916 ele identifica-se como o “Anjo da Paz”, mas no Verão já se apresenta como “Anjo de Portugal”. O padre Andrew Apostoli e outros autores referem-se a isto como a segunda visita do primeiro anjo, mas não devíamos distinguir entre os dois?

Nossa Senhora assegurou a irmã Lúcia de que Portugal jamais “perderia a Fé”. Mas estimativas recentes de participação na missa dominical em Portugal rondam os 20% e o país, juntamente com outros da União Europeia, legalizou o aborto, bem como o divórcio e casamento gay. Isto parece problemático e a própria irmã Lúcia confessa preocupação com a Fé de Portugal no seu livro: “Se Portugal não aprovar o aborto estará seguro, mas se o aprovar então terá muito que sofrer”.

Durante a aparição de Maio, Lúcia perguntou a Nossa Senhora sobre duas amigas que tinham morrido, Maria e Amélia. Nossa Senhora respondeu que Maria estava no Céu, mas que a Amélia estaria no purgatório até ao fim do mundo. O padre Apostoli comenta que a Amélia, tinha entre 18 e 20 anos quando morreu “em circunstâncias envolvendo comportamento imoral”.

Até o primo de Lúcia, Francisco, de 10 anos, teria de “rezar muitos terços” antes de entrar no Céu. Este tipo de admoestações levarão muitos de nós a questionar como conseguir atingir o estado de purificação necessária para evitar o purgatório.

Por fim, consideremos os comentários misteriosos de Nossa Senhora que terá dito a Lúcia: “Ela sublinhou que o milagre cientificamente ‘impossível’ de 13 de Outubro de 1917 teria sido ainda maior”, não fosse a falta de fé. Parece-me praticamente impossível imaginar um milagre maior do que o sol a girar e a aproximar-se da terra.

Mas, escusado será dizer, o maior mistério associado a Fátima é a prevista conversão da Rússia que, no mínimo, é ainda um trabalho por concluir. 


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 7 de Maio de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 8 de março de 2017

Vaticano quer dar voz às mulheres, e não por telemóvel

Não era bem isso que Francisco tinha em mente...
E se tratássemos a Bíblia como tratamos o telemóvel? A pergunta dá que pensar e é precisamente isso que o Papa quer que façamos.

Depois do enorme sucesso do movimento “Eu Acredito”, que reuniu jovens de várias organizações católicas na visita de Bento XVI em 2010, a iniciativa vai repetir-se com a visita de Francisco, em Maio. Saiba tudo aqui.

Por falar em visita do Papa, Francisco enviou esta semana uma mensagem para o Presidente Marcelo e para os portugueses. Conheça aqui.


Hoje é quarta-feira e por isso temos novo artigo do The Catholic Thing. Howard Kainz escreve – num estilo bem quaresmal – sobre os diferentes tipos de cruzes que existem e como podemos carregá-los.

Diferentes Tipos de Cruzes

Howard Kainz
Já várias vezes ouvi pessoas a falar das suas vidas e a dizer coisas do género “não mudaria nada, faria tudo igual”.

Fico sempre espantado com estas afirmações. Penso nas minhas experiências, nas listas e de prós e contras que fazia quando confrontado com grandes decisões (frequentemente com o mesmo número de prós e contras) e os arrependimentos que às vezes se seguiam aos meus erros e/ou pecados.

Quando rezo pelas Pobres Almas do Purgatório imagino-as a sofrer pelas consequências das suas más escolhas, talvez desejando poder voltar atrás para remediar esta ou aquela decisão. Mas infelizmente o tempo só flui para a frente, não se pode voltar atrás.

Sei que a minha forma de ver estes assuntos tem a ver com o meu temperamento. No livro “Variedades de Experiências Religiosas” William James explica que há dois tipos opostos de personalidade – os “nascidos uma vez” e os “nascidos segunda vez”. Os “nascidos uma vez” são os crentes que caminham ao longo daquilo que consideram ser um caminho recto, que estão geralmente satisfeitos com as suas vidas e não têm arrependimentos. Já os “nascidos duas vezes” são mais introvertidos, insatisfeitos com eles mesmos e/ou com o mundo, experimentando desejos conflituosos, chegando por vezes a uma experiência de conversão e “renascendo” para um estado de maior felicidade.

Em relação às cruzes – fardos nossos ou dos outros que temos de carregar – penso que existe uma divisão parecida:

1) Há muitos indivíduos que são inocentes mas que todavia são afectados por cruzes pesadas, como doenças genéticas, maus-tratos, rejeição devido a um desfiguramento ou impedimento de fala ou que são perseguidos por seguirem firmemente as suas consciências em vez da multidão.

2) No outro extremo há aqueles cujas cruzes são fruto das suas próprias acções: um recluso a cumprir uma longa pena por causa de uns breves momentos de paixão ou de vingança; uma mulher carrancuda, casada com um malandro alcoólico devido a uma paixoneta de juventude ou por ter dado o nó irreflectidamente; um homem ligado a um grupo de sócios corruptos por causa da ambição e da ganância da juventude; ou alguém de meia-idade a lidar com as debilidades de um corpo enfraquecido pelo abuso de drogas, álcool ou excesso de alimentação, etc.

Infelizmente os que encaixam neste grupo não podem propriamente perguntar “como é que Deus me fez isto?” ou “porque é que Deus me envia estas cruzes?”, porque sabem muito bem como é que chegaram a este ponto e que não podem voltar atrás para “dar o passo certo”.

Cruzes para todos os gostos
Mas tanto eles como nós podemos ter a certeza de que Deus está sempre disposto a ajudar-nos, seja pela reforma, pelo redireccionamento ou pela aceitação paciente. O simples reconhecimento do poço que cavámos para nós próprios pode ser um catalisador para a redenção e para a santidade. A lista de grandes santos que seguiram este caminho já vai longa.

Claro que a maior parte de nós encontra-se algures entre estes dois extremos.

Mas se nos fosse dado escolher as nossas cruzes, o melhor seria sempre optar pela que Jesus nos oferece: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt. 11,29). Mais especificamente, o tipo de cruz que o Senhor promete dar-nos, adequados às nossas fraquezas, que não se fazem acompanhar de ansiedade, ressentimento ou a sensação de futilidade, mas que dão descanso às nossas almas.

Carregar as cruzes pelas quais não somos responsáveis até pode traduzir-se em deleite, como quando os apóstolos regozijaram “por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus” (Actos 5,41); ou então na serenidade do “pequeno caminho” de Santa Teresa de Lisieux, aturando simplesmente as dores, doenças, irritações ou mesmo hostilidades do dia-a-dia, “oferecendo-as” a Deus.

Se não for assim tão inocente e estiver com vontade de fazer penitência pelos seus pecados, talvez a melhor abordagem seja aquela que foi dada por São João Baptista quando os pecadores lhe perguntaram o que deviam fazer, como lemos em Lucas 3, 12-14. Aos cobradores de impostos disse para cumprirem os seus deveres e não cobrarem demais; aos soldados disse para se satisfazerem com os seus ordenados, evitarem a extorsão e não acusar falsamente – por outras palavras, cumpram os vossos deveres, não utilizem força desnecessária e respeitem os outros. Não estamos perante actos dramáticos de penitência, mas apenas progressos diários e conscientes.

Estes conselhos foram repetidos à Irmã Lúcia dos Santos, a vidente de Fátima, que se tinha tornado freira e queria responder às questões que recebia sobre que género de penitência Deus estava a pedir para o Século XX. Em 1945 Nosso Senhor apareceu a Lúcia e clarificou: “O sacrifício que se pede a cada um é o cumprimento dos seus deveres na vida e a observância da Minha Lei. Esta é a penitência que procuro e quero”.

Não há como evitar as cruzes. Mas sejam elas o tipo que trazemos sobre nós mesmos ou os que não pedimos, o mais relevante para nós são os conselhos do Baptista e de Jesus, via Lúcia.

Se tivéssemos o privilégio de ver um panorama espiritual do mundo, provavelmente ficaríamos espantados com a quase infinita variedade de cruzes que existem, muitas merecidas, muitas imerecidas. Talvez compreendêssemos que as pessoas que estão em melhor posição para compreender as cruzes de outros são as que carregam cruzes semelhantes.

Talvez nos traga consolo ouvir um “eu compreendo” genérico, mas é diferente alguém dizer-nos “sim, já estive na mesma situação, nisso somos iguais”.

Também pode ser útil recordar que, na misteriosa economia da salvação cristã, os sofrimentos que suportamos podem, de alguma forma, assegurar a salvação de outros, provavelmente pessoas que nem conhecemos.

Seja como for, esperemos e esforcemo-nos durante esta Quaresma para que a maioria das nossas futuras cruzes sejam “feitas à medida” e não o género que criamos para nós mesmos por causa dos nossos erros.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 4 de Março de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Personalidades na Trindade

Howard Kainz
O termo “personalidade” tem vários significados, tanto positivos como negativos. Mas o mais comum, e neutro, é este do Oxford English Dictionary: “A qualidade, ou conjunto de qualidades, que torna uma pessoa um indivíduo distinto; o carácter pessoal ou individual distinto de uma pessoa, especialmente de tipo marcado ou fora do comum”.

Como cristãos, acreditamos que existem três pessoas em Deus. Trata-se de uma união na distinção. O Filho é diferente do Pai, o Espírito é diferente do Pai e do Filho, etc.

Pode soar a politeísmo e os muçulmanos, e outros que advogam um monoteísmo rigoroso, consideram-no chocante. Mas como diz São Tomás, em relação à acusação muçulmana de politeísmo, esta incompreensão deve-se ao enfoque míope na geração física e na incapacidade de compreender a possibilidade de uma geração puramente espiritual.

Logo, a elaboração por parte dos cristãos da única natureza divina, enquanto puro espírito, em Pai, Filho e Espírito Santo não é contraditória nem deve ser entendida como referente a “três deuses”. Estas três Pessoas não são, por isso, personalidades idênticas, como se fossem clones, e não devemos surpreender-nos pelo facto de terem características de personalidade distintas entre si. O que podemos dizer sobre estas características?

O Filho: Nós cristãos, imbuídos pela religião do Filho, naturalmente sabemos mais sobre a personalidade de Jesus Cristo, que veio viver entre nós e, por vezes, até nos iluminou sobre as suas qualidades pessoais. Convenientemente, descreveu-nos aquilo que é e como aparece aos outros: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt. 11,29).

Por vezes, nos Evangelhos, Jesus permite que brilhe diante dos homens a prova do seu poder e da sua natureza divina, como na Transfiguração (Mc. 9,1), ou quando os guardas que o iam prender caiem por terra quando Ele se identifica (Jo. 18,6), ou nos seus múltiplos exorcismos, em que os demónios sentem um poder que emana dele.

Mas a maioria dos seus contemporâneos, embora maravilhados com as suas curas e os seus exorcismos, quando estavam na sua presença provavelmente não repararam em nada mais do que um pregador calmo e modesto. Os seus vizinhos estranharam onde é que um carpinteiro teria ido buscar tanta sabedoria, pois conheciam-no e à sua família e não compreendiam o que se estava a passar. E até os seus primos não reconheceram nada de especial nele e só creram depois da Ressurreição (Mt. 13,55-56)

Jesus também nos fala dos seus interesses pessoais na vida: não julgar os pecadores, mas salvá-los (Mt. 9,13), embora no final dos tempos Deus Pai o encarregue do poder último de julgar (Jo. 5,22)

O Pai: O Novo Testamento está repleto de referências a Deus Pai, mas este conceito de Deus enquanto “Pai” também existe no Antigo Testamento: Nos profetas (Is. 63,16, 6,8; Jer. 3,4, 3,19), no Salmo 89 e sobretudo no Livro da Sabedoria, em que Deus é descrito como o “pai do mundo”, que formou o primeiro homem (10,1), trata os justos de forma paternal (2,16, 11,11), e governa todas as coisas de forma providencial (14,3).

No Evangelho de João aprendemos que Jesus experimentava a presença constante do Pai (Jo. 5,19), que fala sobre aquilo que aprende na sua presença (8,38, 12,50) e acrescenta que, de facto, o Pai trabalha através dele (14,10). Jesus, que habitualmente põe em prática aquilo que vê no Pai, pode dizer a Filipe “aquele que me vê, vê o Pai” (Jo. 14,9).

Fresco da Santíssima Trindade em Urschalling, Alemanha
As principais descrições que Jesus faz do Pai dizem respeito a um Criador beneficente, que distribui e mantém toda a natureza de bens no mundo, para serem usados, bem ou mal; que é quem providencia de forma mais solícita, olhando até pelos pássaros do ar e pelos lírios do campo, satisfazendo as necessidades mais íntimas de todos, bons e maus (Mt. 5,45, 6,8) e que, como um arquitecto nos bastidores, prepara continuamente mansões para os fiéis (Jo. 14,2, 20,23).

O Espírito Santo: Embora Miguel Ângelo tenha feito um belo trabalho a representar Deus Pai na Capela Sistina, nos Evangelhos o Pai aparece apenas como uma nuvem (Mt. 17,5, Mc. 9,6, Lc. 9,35). O Espírito Santo, que aparece apenas como uma pomba (Mt. 3,16, Mc. 1,10, Lc. 3,22, Jo. 1,32) ou como línguas de fogo (Act. 2,3) seria um desafio ainda maior à capacidade artística do pintor. (Tenho uma vaga memória de ter visto uma representação feminina do Espírito Santo numa Igreja na Europa há várias décadas).

No Novo Testamento o Espírito Santo é comparado ao vento, soprando onde quer, fora do controlo dos homens (Jo. 3,8), distribuindo graças especiais (Gal. 5,2), incluindo dons extraordinários como a profecia ou a cura (Act. 2,17, 1Cor. 12,8-9) e por vezes a inspirar as palavras dos seguidores de Jesus, sobretudo em circunstâncias difíceis e quando desafiados pelas autoridades (Lc. 12,11).

O místico luterano alemão, Jacob Boehme (1575-1624), autor de “Os Três Princípios da Essência Divina” e “A Tripla Vida do Homem”, passou a maior parte da sua vida fascinado pela doutrina da Trindade. Escreveu imenso sobre as várias operações e reflexos do Pai, Filho e Espírito Santo no Universo e argumentou contra muçulmanos e outros que negaram a Trindade.

O filósofo alemão G.W.F. Hegel (1700-1831) considerava a visão trinitária do mundo de Boehme fascinante, mas criticava os seus entusiasmos místicos que “punham a cabeça em água” e por isso desenvolveu uma mundovisão filosófica mais “científica”, caracterizada por tríades.

Hegel também se juntou a Boehme na defesa do Cristianismo Trinitário. Falando sobre o surgimento do Deísmo durante a Revolução Francesa, Hegel escreveu que o Ser Supremo do Deísmo, elogiado por Voltaire e outras figuras do Iluminismo, não passava de um “Além” nebuloso, comparável à “exalação de gás estagnado” e de seguida oferece a sua própria “fenomenologia”, analisando a emergência final de uma “religião revelada” trinitária.

É comum ouvirmos dizer que a família nuclear cristã é um reflexo da Trindade, e assim é. Mas claro que existe uma variedade enorme e diversificada de outros reflexos no nosso mundo, mais até do que os milhares imaginados por grandes místicos como Boehme.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 22 de Novembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Islão e os Dez Mandamentos

Howard Kainz
A primeira vez que notei algo fora do comum sobre o Islão foi nos anos 80 quando estava a fazer investigação para o meu livro “Ethics in Context”. Dediquei uma secção do livro à “Regra de Ouro”. A “Regra de Ouro”, na sua formulação negativa ou positiva não existe apenas no Cristianismo (Mat. 7,12), em que Jesus declara que resume a “lei e os profetas”, mas também noutras grandes religiões. Por exemplo, no Judaísmo, “o que for detestável para ti, não o faças ao teu vizinho”; no Hinduísmo, “que nenhum homem faça a outro aquilo que é repugnante para si”; no Budismo, “não magoes outros de formas que também acharias dolorosas”; no Confucionismo, “aquilo que não queres que te façam, não o faças aos outros”.

Na altura interpretei isto como prova de uma relativa universalidade dos princípios éticos racionais no mundo. Mas no Islão não encontrei nada do género, apenas o oposto – o inverso da Regra de Ouro, por assim dizer: “Mohammad é o Mensageiro de Allah, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si” (Alcorão 48,29) e “Os crentes não tomam por confidentes os incrédulos, em detrimento de outros crentes” (3,28). A isto somam-se os comandos do Alcorão para matar os infiéis onde quere que se encontrem (2,191), lutar e ser duro para com eles (9,123), e golpear-lhes os pescoços (47,4)  que acentuam a distância para a Regra de Ouro.

Na altura optei apenas por omitir qualquer referência ao Islão nesse capítulo. Contudo, à medida que investiguei outros assuntos, os problemas religiosos/éticos no seio do Islão são ainda mais sérios. Tal como o Islão ensina o inverso da Regra de Ouro, ensina também o reverso dos últimos sete dos Dez Mandamentos, que lidam com questões de moral:

§  4º Mandamento, Honrar Pai e Mãe: A Universidade de Al-Azhar, a mais respeitada autoridade do Islão Sunita, afirma que um homicídio deve ser vingado, excepto quando se trata de “um pai ou uma mãe (ou os seus pais) por matar um filho, ou o filho de um filho”. Mas os homicídios de honra podem funcionar ao contrário também. Rapazes capturados pelo Estado Islâmico afirmam que receberam ordens para matar os seus pais, de acordo com o que está escrito no Alcorão – Suras 9,23, 58,22, 60,4 – que obrigam ao ódio total por, e dissociação de, infiéis, mesmo que sejam familiares ou pais.

§  Mandamento, não matar: Maomé é considerado o “homem perfeito” pelos muçulmanos, mas ofereceu inúmeros exemplos de homicídio para serem seguidos pelos fiéis muçulmanos – a começar pelo assassinato dos poetas que o ridicularizaram em Medina e em Meca e a acabar com a decapitação de centenas de “infiéis” em vários assaltos e batalhas. Na sua “Declaração de Guerra contra os Americanos que Ocupam a Terra dos Dois Lugares Sagrados”, de 1996, Osama bin Laden justifica a sua Fatwa para matar americanos citando os versículos 3,145; 47,4-6; 2,154; 9,14; 8,72 e 9,5 (o “versículo da espada”). O terrorismo é especificamente justificado nos versículos 8,12 e 3,151 e num hadite de Bukhari 52,256. E a conversão do Islão para outra religião é punida com execução, de acordo com Bukhari 9.84.57, “[Mohammad ordenou] ‘Quem mudar a sua religião islâmica, matai-o’.”

§  6º Mandamento, contra o adultério: Em linguagem comum, “adultério” significa infidelidade para com o esposo ou esposa. Mas para homens muçulmanos, que podem ter até quatro mulheres, divórcio fácil e escravas (4,3), seria extremamente desleixado cometer adultério. O próprio profeta ofereceu exemplos de como “evitar o adultério”, tendo treze mulheres, concubinas e escravas, tudo permitido por Allah (Sura 33,50). Para mulheres e homens solteiros, contudo, o adultério é possível e é severamente punido.

§  7º Mandamento, não roubar: Ali Dashti, na sua biografia de Maomé, Twenty-Three Years, mostra como, ao juntarem-se numa única grande força, os muçulmanos foram capazes de tirar partido do hábito já existente nas tribos árabes de “alimentar a sua ganância ao roubar duzentos ou trezentos camelos num assalto a uma tribo mais fraca” e assim “puderam capturar muito mais despojos” e “conquistar terras ricas e férteis”. A Sura 8 do Alcorão deixa indicações claras sobre o que fazer com despojos de guerra, incluindo a revelação especial (8,41) de que “Deus e o seu apóstolo” deviam receber 1/5 dos despojos.

§  8º Mandamento, não mentir: Ao contrário dos mártires cristãos, que estavam dispostos a dar a vida para não negarem a sua religião, os muçulmanos estão autorizados, pela taqiyya, a mentir sobre as suas crenças religiosas desde que isso contribua para o avanço do Islão. Nonie Darwish, no livro The Devil We Don’t Know, descreve como a Sharia incorpora a taqiyya: “A própria Sharia permite mentiras não só para com infiéis, mas também para resolver disputas entre muçulmanos e nas relações conjugais, cobrindo assim praticamente todas as relações… O muçulmano aprende que a protecção do Islão e uma obrigação comunitária que é mais importante do que a família, a vida ou a felicidade.”

§  9º Mandamento, não cobiçar a mulher alheia; O próprio Maomé, modelo de virtude Islâmica, oferece o melhor exemplo de negação deste mandamento. Tendo-se apaixonado por Zeinab, a mulher do seu filho adoptivo, Zeid, recebeu a aprovação de Allah (33,37) para a tomar por sua mulher. Aconteceu uma coisa semelhante com Aisha, que mais tarde viria a ser a sua mulher favorita, quando ela tinha apenas seis anos, e também com Reihana, uma judia acabada de enviuvar, com quem se deitou na mesma noite em que executou o seu marido.

§  10º Mandamento, não cobiçar os bens alheios: Wafa Sultan, no livro A God Who Hates, refere as condições históricas e culturais que acentuam e continuam a alimentar a importância da inveja no Islão: “Os beduínos temiam os assaltos, por um lado, mas dependiam deles para se sustentarem, por outro. Depois surgiu o Islão que canonizou a prática. Os muçulmanos no Século XXI continuam a temer serem assaltados e vivem cada segundo das suas vidas a preparar-se para assaltar outros”.

Tal como sugeri num artigo anterior, o Islão deve ser compreendido como uma seita de dimensão mundial. Reforça a ideia de honestidade e justiça entre crentes, mas não obriga a qualquer respeito pelos cânones éticos dos “infiéis”, o que inclui a Regra de Ouro e os Dez Mandamentos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 23 de Julho de 2016)

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quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Foro Interno e os Católicos Recasados

Howard Kainz
É evidente que pelo menos alguns bispos europeus, e talvez vários americanos, consideram que o uso do “foro interno” para “reconciliar” católicos recasados é uma prática aceite. Porquê a polémica então? Estaremos a lidar com um fait accompli? Um pouco de história pode ajudar.

A distinção entre os “foros externos” (por exemplo os tribunais eclesiásticos) e o “foro interno” (i.e. o confessionário enquanto tribunal da consciência) tem sido alvo de discussões há séculos no âmbito do Direito Canónico e da teologia. Mas ao longo dos últimos 47 anos surgiram várias vicissitudes de interpretação que conduziram aos actuais desentendimentos sobre o chamado “recasamento católico”.

Esta cronologia pode ajudar a mostrar como chegámos ao actual cenário:

1969: O padre Joseph Ratzinger publica um artigo num jornal teológico em que discute a possibilidade de que “na comunidade da Igreja Primitiva, como aparece representada em Mateus 5 e Mateus 19, havia a prática de divórcio e recasamento depois de um caso de adultério”.

1972: No artigo “Sobre a Questão da Indissolubilidade do Casamento”, Ratzinger contradiz a sua afirmação anterior uma vez que “à luz da completa unanimidade da tradição ao longo dos primeiros quatro séculos em sentido contrário, esta posição é inteiramente improvável”. Mas mantem que em certos casos existe a possibilidade “não judicial, com base no testemunho do pastor e de membros da Igreja, de admitir à Comunhão aqueles que vivem num segundo casamento”. Cita como justificação para isso a falibilidade dos processos de nulidade e as eventuais novas obrigações morais decorrentes de um segundo casamento.

1973: O Cardeal croata Franjo Šeper cita “a prática aprovada do foro interno” de permitir aos católicos num segundo casamento inválido que regressem aos sacramentos após o arrependimento.

1975: O Arcebispo Jean Jérôme Hamer, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) estipula que o foro interno pode permitir aos católicos divorciados recasados receber os sacramentos caso “tentem viver de acordo com as exigências dos princípios morais cristãos”.

1981: Essa estipulação, contudo, embora formalmente aprovada pelo CDF, foi restringida pela Exortação Apostólica de João Paulo II, “Familiaris Consortio”: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio.”

1991: Numa carta publicada no jornal católico inglês “The Tablet”, o Cardeal Ratzinger clarifica a referência do Cardeal Šeper, de 1973, à “prática aprovada”, sublinhando que este uso do foro interno implicaria um “compromisso a abster-se de relações sexuais”.

2005: O Sínodo sobre a Eucaristia reafirma a decisão de João Paulo II da “Familiaris Consortio”, de 1981.

2007: O Papa Bento XVI, na exortação apostólica “Sacramentum Caritatis”, reitera a decisão do Sínodo de 2005.

2015: O Cardeal Christoph Schönborn, no seu livro “A Vocação e Missão da Família: Documentos Essenciais do Sínodo dos Bispos” dá um exemplo do uso correcto do foro interno: “Se uma mulher, por exemplo, teve um casamento falhado e um aborto, mas mais tarde ‘recasou’ civilmente e agora tem cinco filhos e deseja receber absolvição pelo seu anterior aborto… vocês [padres] não a podem deixar partir sem a libertar do fardo do seu pecado.”

2016: O Papa Francisco escolhe o Cardeal Schönborn para apresentar a exortação apostólica “Amoris Laetitia”, que aconselha os padres a acompanhar aqueles que se encontram em “situações conjugais irregulares” a evitar transformar o confessionário numa “câmara de torturas” ou a Eucaristia como um “prémio para os perfeitos”.

É natural que alguns se questionem, por isso, se não estamos perante uma regeneração da tese de Schönborn.

À luz do Direito Canónico ainda existem usos legítimos para o foro interno na absolvição de católicos divorciados recasados. Se o “foro externo” dos tribunais eclesiásticos não puder ser usado por falta de testemunhas, provas ou simplesmente por indisponibilidade, então o foro interno seria o lugar de último recurso. Também, em casos de morte iminente, um penitente pode receber o sacramento da unção dos doentes e a absolvição.

Mais importante que qualquer foro interno... 
Mas aquilo que me preocupa no que diz respeito ao cuidado pastoral de católicos recasados são as vítimas de anteriores casamentos. Nos casos que eu conheço o “recasamento” envolveu o abandono de donas de casa com muitos filhos. Como é que é suposto elas lidarem com o assunto? Como é que os filhos lidam com o facto de o pai os abandonar?

As “viúvas e os órfãos” criados pela prática actual de divórcio sem culpabilidade e as dificuldades de mulheres católicas que ainda se sentem sacramentalmente ligadas ao homem que as abandona são um problema dos nossos dias. Devem sair à procura de um novo marido? Acrescentar mais um nome à lista de “divorciados recasados”?

A Bai Macfarlane dirige uma organização chamada Mary’s Advocates que se dedica “a fortalecer o casamento, eliminar os divórcios forçados sem culpabilidade e apoiar aqueles que foram injustamente abandonados pelos seus esposos”. Um dos seus actuais projectos passa por apresentar petições online para entregar a bispos, pedindo-lhes que intervenham para evitar rupturas e ajudar o potencial abandonador a “recordar as suas promessas matrimoniais e a sua vontade inicial profunda de ser um esposo dedicado”

De certeza que este tipo de acção preventiva é tão importante e legítimo como o recurso ao “foro interno”. Neste Jubileu da Misericórdia seria bom reconhecer que não só os bispos, mas a Igreja como um todo, deve apoiar social, financeira e espiritualmente os esposos injustamente abandonados.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 27 de Abril de 2016)

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quarta-feira, 2 de março de 2016

A Igreja e o Islão

Howard Kainz
O pastor evangélico Franklin Graham – filho do lendário Billy Graham – caracteriza o Islão como “uma religião cruel e muito má… uma religião de ódio, uma religião de guerra.” Ao longo dos últimos anos outros pastores conhecidos fizeram declarações semelhantes. Acontece que vários papas também.

No Século XIV Clemente V lamentou que em terras cristãs ainda se ouça a “invocação pública do nome sacrílego de Maomé”; no Século XV, Calisto III denunciou o Islão como sendo uma “seita diabólica”. Pio II criticou Maomé como “falso profeta” e o Papa Eugénio condenou a “seita abominável de Maomé”; no Século XVI o Papa Leão X disse que os muçulmanos tinham substituído a luz da salvação por uma “cegueira total e obstinada”; e no Século XVIII o Papa Bento XIV criticou os cristãos que promovem, indirectamente, “os erros de Maomé” quando adoptam nomes muçulmanos para evitar impostos ou outras penalizações por parte das autoridades islâmicas.

Também santos de séculos passados, como Tomás de Aquino ou João Damasceno, apelidaram o Islão de “diabólico”.

“Diabólico”? “Cruel”? Serão exageros? Muitos de nós conhecemos um bom número de muçulmanos individuais que são boas pessoas. Mas poderá ser que a sua religião seja má? Pode-se distinguir entre a bondade dos membros individuais e a sua religião?

O Papa Bento XVI toucou ao de leve na alegada “maldade” do Islão no seu famoso discurso de Ratisbona em 2006, sobre a necessidade de se unir a razão e a religião. Citou o exemplo de um imperador do Século XIV que descrevia o Islão como inerentemente violento e irracional, logo, mau. Isso provocou uma revolta mundial e vários episódios de violência, levando o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, futuro Papa, a comentar: “Essas afirmações servirão para destruir em vinte segundos a relação cuidadosamente construída com o Islão, ao longo dos últimos vinte anos, pelo Papa João Paulo II”. Acrescentou que tais declarações “não reflectem as minhas opiniões”.

E o que dizer dos relatos de atrocidades islâmicas, tanto no passado como no presente? A “World Watch List” de 2015 deu conta de 4.344 cristãos mortos por razões ligadas à fé e 1.062 igrejas atacadas. A lista de 2016 documenta casos de 7.106 mortes e 2.425 igrejas atacadas. Há literalmente milhares de casos de violência contra cristãos e destruição de igrejas no Egipto, Paquistão, Síria, Iraque, Irão, Indonésia, partes de África e noutros locais do mundo islâmico.

O Papa Francisco deve estar bem informado sobre tais eventos, mas na sua exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, diz que “frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.”

Ao assumir esta posição Francisco, um “filho fiel da Igreja” está a ecoar o Concílio Vaticano II. No Concílio o Papa João XXIII, como parte do seu objectivo de “abrir as janelas da Igreja” pediu aos participantes para reconsiderarem a relação da Igreja com o Judaísmo, evitando as posições teológicas e litúrgicas que tinham um historial de contribuir para o anti-semitismo. Inicialmente não havia qualquer ideia de fazer pronunciamentos sobre o Islão; mas como já referi noutro artigo, alguns padres conciliares e teólogos no concílio queriam incluir o Islão em documentos oficiais sobre “religiões não-cristãs”.

Louis Massignon
Nisto pesou muito o trabalho de Louis Massignon (1883-1962), um católico especializado no Islão e pioneiro de esforços de compreensão mútua entre católicos e muçulmanos. Massignon ensinava que era preciso fazer uma “revolução copernicana” na nossa abordagem e compreensão do Islão. Devíamos colocar-nos no centro da mentalidade islâmica, compreender a sua espiritualidade e conduzir um diálogo a partir dessa perspectiva.  

Durante o Concílio um dos discípulos de Massignon, o teólogo dominicano egípcio Georges Anawati (1905-1994) liderou os esforços, juntamente com outros, para se incluir afirmações positivas sobre o Islão nos documentos oficiais. O sucesso deste grupo vê-se na Nostra Aetate e na Lumen Gentium, que contêm comentários laudatórios sobre o Islão: “Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos”, uma religião abraâmica e monoteísta, que se submetem de todo o coração aos “decretos, mesmo ocultos,” de Deus, partilhando muito com o Cristianismo no que diz respeito a crenças básicas e ensinamentos morais.

Mas tendo em conta o ódio para com outras religiões que se revela nas escrituras islâmicas, bem como o enorme número de assassinatos, incêndios de igrejas e perseguições que temos visto nas últimas décadas, será tudo isto apenas uma mão cheia de boas intenções? Na Igreja de hoje as condenações de aspectos evidentes do Islão são praticamente inexistentes.

O Papa Pio XI publicou o Mit brennender Sorge, uma crítica aberta ao regime nazi e o Divini redemptoris contra o comunismo. Já Pio XII optou por trabalhar de forma discreta mas persistente, durante o seu pontificado, para derrotar o nazismo e salvar judeus. O que teria acontecido se tivesse publicado uma condenação firme ao nazismo?

Durante o Concílio Vaticano II a União Soviética era um flagelo global e Nossa Senhora de Fátima, nas aparições extraordinárias que coincidiram com o início da revolução comunista, avisou a Igreja sobre o perigo de a Rússia “espalhar os seus erros através do mundo”. Mas, incrivelmente, não houve um só cheirinho de crítica ao comunismo no Concílio. E se Paulo VI tivesse condenado a União Soviética, o leninismo e o marxismo? A cautela diplomática deve influir nos pronunciamentos papais? Ou devíamos seguir o lema do Imperador do Sacro Império Romano, Fernando I, “Fiat justitia, pereat mundus”, seja feita a justiça, nem que o mundo pereça?

No que diz respeito ao Islão actualmente, uma condenação clara da religião, tal como foi feita pelos papas nos séculos passados, resultaria, podemos estar certos, em graves perturbações por todo o mundo – talvez uma Terceira Guerra Mundial. E uma condenação dessas poderia ainda afectar injustamente os muçulmanos moderados a par dos extremistas. Mas mesmo sem se condenar, os elogios constantes parecem-me descabidos. Quanto ao termo “religião da paz” é altura de ter em conta a interpretação tradicional de “paz” no Islão: O mundo encontra-se dividido em duas “casas” – a Casa da Paz (Dar Al-Salaam) e a Casa da Guerra (Dar Al-Harb). Na primeira, cabem apenas os muçulmanos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Março de 2016)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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