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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Escreves tu ou escrevo eu?

Mártires de Marrocos
O que nos vale é que a Igreja Católica nunca se cansa de polémicas! A última tem a ver com um livro alegadamente escrito a meias entre o cardeal Sarah e o Papa emérito Bento XVI. Primeiro causou algum desconforto, depois veio-se a perceber que afinal Bento XVI não queria o seu nome associado à obra e agora temos a editora americana a insistir que não retira o nome do antigo Papa da capa do livro.

A minha opinião sobre isto? É triste, feio e absolutamente evitável. Isso e mais algumas coisas no meu artigo sobre o assunto, no blogue, em que revelo também um detalhe que tem passado despercebido no meio da novela toda.

Num assunto actual, mas que não tem uma vertente religiosa direta, escrevi também umas curtas notas sobre o aproveitamento político que se está a fazer, tristemente, a propósito da morte do jovem cabo-verdiano Giovani, em Bragança. Morte essa que foi lamentada pelo bispo de Bragança, D. José Cordeiro.

Fiquem também a saber que a Igreja Portuguesa vai transformar as directrizes para a proteção dos menores em normas.

Continua o calvário dos cristãos na Nigéria, agora foram raptados quatro seminaristas.

E termino com a chamada de atenção para o jubileu que se vive em Coimbra desde ontem, alusivo aos 800 anos dos mártires de Marrocos. Conheça a influência que tiveram sobre Santo António.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Para estar atento em 2020 - Cardeal Pell

Manifestantes certos da culpa de Pell.
O caso pode não ser tão simples
Um dos momentos que se aguarda com maior expectativa neste próximo ano é a decisão do recurso ao Supremo Tribunal australiano do cardeal George Pell.

Todo o caso do cardeal Pell é muito estranho.

Contestado por muitos na Austrália pelo seu jeito franco e sem cerimónias, e elogiado por muitos outros pela mesma razão, ele é ainda uma das principais figuras do Catolicismo conservador naquele país.

Há vários anos foi acusado de ter abusado sexualmente de alguns jovens. Ao contrário de outros casos de suspeita de abusos, porém, as acusações contra Pell nunca pareceram muito convincentes. A crença na sua inocência não era uma reação irracional de católicos fervorosos incapazes de ver os pecados da Igreja, pois muitas das pessoas que o defendem estão na linha da frente nas críticas a outros clérigos acusados de abusos. Simplesmente as acusações nunca pareceram coerentes nem sólidas.

Mais, pareciam nalguns casos impossíveis e era fácil perceber que enquanto figura polémica e um dos principais clérigos da Austrália, era um alvo fácil de calúnias.

Por exemplo, uma das acusações era de que, enquanto padre, brincava com rapazes numa piscina local e, quando os metia aos ombros para os atirar à água aproveitava para inserir as mãos nos seus fatos de banho e apalpar-lhes os órgãos genitais.

Eu tenho filhos e tenho sobrinhos. A ideia de que seja possível ter uma criança aos ombros, lançá-la ao ar e, no meio de tudo isso, ainda aproveitar para meter a mão onde não é chamada, tudo isto numa piscina pública cheia de gente, é mais do que absurda.

O que finalmente levou Pell a ir a tribunal, contudo, foi outra acusação. Aqui ele era acusado de ter abusado de dois rapazes na sacristia da catedral, depois de uma missa. A acusação implicava que o cardeal teria abusado dos dois rapazes com a porta da sacristia aberta, numa altura em que passam dezenas de pessoas. Tudo isto apesar de o seu assistente ter garantido que nessas celebrações o arcebispo estava sempre acompanhado. Tudo isto apesar de um dos rapazes alegadamente abusados ter garantido à sua mãe, antes de morrer, que nada daquilo aconteceu.

Incrivelmente, Pell foi condenado. Não sou só eu que acho incrível. Este pivot da Sky News demonstra, claramente, que o episódio descrito pela vítima era absolutamente impossível de ter acontecido da forma como descreveu.



Um primeiro julgamento acabou com o júri dividido. O segundo terminou com uma condenação. No recurso dois dos juízes mantiveram a decisão, o terceiro, o único com experiência em processos criminais, disse que o relato era no mínimo inverosímil.

Temos de ter em conta que este processo não aconteceu num vazio. Aconteceu precisamente na altura em que o escândalo dos abusos sexuais na Austrália estava no seu auge e a opinião pública condicionada por isso. De tal forma que pelo menos dois estados já passaram leis que supostamente obrigam os padres a violar o segredo de confissão no caso de abusos sexuais.

É neste contexto que Pell é condenado e é por isso que toda esta história cheira a esturro.

O último recurso de Pell deve ser anunciado brevemente e será, quase sem dúvida, uma das principais histórias sobre a crise de abusos em 2020. Veremos o que acontece.


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Uma Igreja em Mudança

Stephen P. White
Às vezes as grandes mudanças na Igreja acontecem de uma assentada e de forma evidente, como aconteceu com certas reformas do Concílio Vaticano II. Outras mudanças – mesmo algumas monumentais – acontecem de forma muito mais lenta e podem ser difíceis de percepcionar na altura. Às vezes é evidente que estamos perante o fim de um estado de coisas, mas há incerteza quanto ao que vem a seguir. São tempos de apreensão e de esperança.

O episcopado está a mudar. A ênfase do Papa Francisco na sinodalidade e na colegialidade fazem parte deste processo. A reformulação do colégio dos cardeais para incluir bispos das periferias também. Mas talvez a mudança mais significativa seja mais subtil: as expectativas dos leigos em relação aos seus bispos estão a mudar também. A deferência dos leigos para com o clero – sobretudo os bispos – está em baixa. A confiança esbateu-se.

Claro que o principal factor são os escândalos dos últimos 18 meses. É difícil imaginar um bispo católico a gozar do tipo de prestígio nacional e adoração de que gozava o ex-cardeal Theodore McCarrick no auge da sua popularidade, muito antes de se tornarem públicas as suas depravações. Hoje em dia é tão provável os católicos americanos olharem os seus prelados com cepticismo ou até suspeita do que com admiração.

Se acrescentarmos a isto os efeitos da polarização do nosso sistema político e da sociedade, a agressividade das redes sociais, as polémicas internas da Igreja (algumas sérias, outras verdadeiramente patetas) e todos os outros factores promotores de cinismo em que estamos a marinar. O resultado, pelo menos a curto prazo, é que os bispos são menos exaltados (o que é provavelmente uma coisa boa) e estão mais distantes dos seus rebanhos (o que é claramente mau).

Se a imagem que os leigos têm dos seus bispos está a mudar, também parece verdade que os nossos padres estão a ficar com uma imagem diferente, talvez pior, desse cargo eclesiástico.

Recentemente o cardeal Marc Ouellet disse a um órgão de informação espanhol que quase um terço de todos os homens escolhidos pelo Papa para serem bispos recusam a nomeação. De acordo com Ouellet, que é prefeito da Congregação para os Bispos desde 2010, o nível de recusas triplicou desde há uma década.

O facto de haver mais homens a recusar nomeações não é propriamente surpreendente para a maioria dos especialistas. Há já algum tempo que se especula sobre esta tendência. Na verdade, não é a primeira vez que o cardeal Ouellet menciona que a taxa de recusas tem aumentado, embora seja a primeira vez que lhe atribui um número. Vale a pena verificar que a tendência é anterior a esta última vaga de casos de abusos.

Quanto às razões de quem recusa, Ouellet oferece apenas uma consideração generalista. “Pode ser porque não se sentem capazes, por falta de fé, porque têm alguma dificuldade nas suas vidas e preferem não causar mal à Igreja”. Provavelmente nunca teremos uma explicação mais completa de quem verdadeiramente sabe. Ainda assim temos de pensar: a Igreja está a perder bons candidatos ou a ser poupada aos maus?

Um padre que aceita uma nomeação episcopal no actual ambiente eclesiástico está no fundo a aceitar submeter-se a um escrutínio público intenso e por vezes hostil. Devido aos grandes desafios de se ser bispo hoje em dia, quem aceita ansiosamente este dever deve ser especialmente humilde e generoso ou então invulgarmente ambicioso e carreirista.

Muitos dos nossos bispos encontram-se numa posição quase impossível. Espera-se que sejam pastorais e pessoais – com o cheiro das ovelhas e tudo o mais – enquanto passam uma quantidade enorme do seu tempo e energia a tratar de exigências burocráticas e administrativas. Hoje em dia, convém não esquecer, esses deveres podem incluir o trabalho ingrato de conduzir uma diocese através de um processo de falência, fechar dezenas de paróquias ou lidar com processos judiciais.

Não finjo saber qual será o efeito a longo prazo de tudo isto. Mas parece-me certo que à medida que mudam as expectativas em relação aos nossos pastores é necessário que se alterem também as que temos em relação aos rebanhos. Entregar toda a responsabilidade pela saúde e vitalidade (ou o seu oposto) aos nossos bispos é uma forma de clericalismo invertido. Coloca exigências impossíveis de cumprir nos ombros dos pastores enquanto nós – os leigos, a vasta maioria dos católicos – ficamos convenientemente isentos da responsabilidade da nossa própria missão baptismal.

A questão aqui não tem a ver com a culpa pelos pecados e crimes de padres e de bispos. A questão é que os homens escolhidos para liderar o rebanho nos próximos anos e décadas precisarão – caso se queira que sejam bem-sucedidos – da ajuda e da colaboração de um laicado inteiramente comprometido e dedicado ao trabalho do discipulado. Para isso não é preciso quebrar as distinções entre leigos e clero, ou alterar as divisões de tarefas nas sedes das dioceses para dar preferência ao envolvimento de leigos. Esta última opção poderá ser prudente, ou até mesmo necessária, mas nunca será suficiente para a verdadeira missão da Igreja.

Cada vez estou mais convencido de que a questão para a Igreja nos próximos anos e décadas é esta: Se a vocação dos leigos fosse vivida bem e por inteiro – com os leigos a levar a sério o dom e a responsabilidade do seu baptismo – com que Igreja ficaríamos?

Estou convencido de que uma Igreja assim seria uma Igreja de verdade, fortalecida e confirmada na sua missão. Uma Igreja renovada.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O arcebispo que quer impedir as ovelhas de fugir

D. Francisco Senra Coelho,
um arcebispo com cada vez menos ovelhas
A Igreja dos Estados Unidos está a preparar-se para uma nova vaga de processos e indemnizações por causa de abusos sexuais. Tudo porque vários estados mudaram as leis, acabando com prazos de prescrição deste crime.




Quem percebe de jardinagem sabe que é preciso podar uma árvore para dar fruto. Não são só os ramos maus e doentes que são podados, são também os sãos e fortes. Mas no final o fruto chega em abundância! Jesus falou disto nos Evangelhos. No artigo desta semana do The Catholic Thing o padre Paul Scalia pergunta se não será mesmo isso que se passa com a Igreja, nesta fase de incerteza e de provações? Vale a pena ler.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Quem Restaurará a Igreja?

Stephen P. White
A frequência dominical está em queda. As contribuições financeiras ao nível tanto da paróquia como da diocese também. Há anos que assistimos a um decréscimo dos casamentos e baptismos de crianças. A maioria destas quedas não começou com a crise dos abusos, mas os dados do ano passado indicam que a crise as acelerou.

Quem é que reedificará a Igreja? De onde virá a renovação que todos sabemos ser necessária, e que tanto desejamos ver? Dos bispos? De Roma? Já disse várias vezes: Se algum dia chegar, uma autêntica reforma da Igreja virá através de, e com, o bispo de Roma e os bispos em comunhão com ele. Mas para quem tem fé isso não passa de uma tautologia, não nos leva muito longe.

Confiar que o Senhor preservará a sua Igreja não requer que acreditemos ou esperemos que a reforma surja de Roma ou que comece por iniciativa de um dos sucessores dos apóstolos. A história revela que a maioria das reformas eclesiais não começaram com o Papa. A maioria das reformas não começaram sequer com os bispos. O padrão é sempre o mesmo, a renovação começa com a santidade, esteja ela onde estiver.

A santidade não é património do clero. Aliás, a santidade não é só para quem é ordenado. O chamamento à santidade é universal e estende-se a todos os baptizados, ou melhor, a toda a humanidade. Estive uma vez numa conferência em que alguém estava a comentar uma frase do Papa Francisco sobre a santidade. Ao meu lado estava uma conhecida activista de justiça social, que exclamou: “Eu nunca pensei em santidade, nem um dia na minha vida”. Não duvido minimamente.

E porque não? Porque há muito trabalho a fazer neste Vale de Lágrimas que não requer sequer uma gota de santidade. Ser uma pessoa decente não nos obriga a sermos perfeitos como o Pai no Céu é perfeito. Mas somos chamados a mais, muito mais do que isso.

Na sua primeira homilia como Papa, Francisco alertava todos os que o acabavam de eleger para a futilidade das boas obras que não proclamam Cristo:

“Podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não se caminha, ficamos parados. Quando não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência.”

Se nos esquecermos disto – se os nossos esforços, por mais bem-intencionados que sejam, se separarem da proclamação da Boa Nova – então os nossos esforços não só falharão, mas tornarão as coisas piores. “Quando não confessamos Jesus Cristo”, diz o Papa, “confessamos o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio”.

A questão é esta: o trabalho de restaurar a Igreja – de abordar as necessidades urgentes do momento, de procurar a justiça de forma sincera, de restaurar o Corpo maltratado de Cristo – não se pode substituir à proclamação do Evangelho. São uma e a mesma coisa. Agora, neste momento de crise, não é tempo de colocar a evangelização de lado para lidar com problemas aparentemente mais urgentes: “Deixem os mortos enterrar os seus mortos. Vai e proclama o Reino de Deus”.

O arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia, disse-o de uma forma belíssima. As suas palavras são de 2012, mas adaptam-se perfeitamente aos nossos dias:

O pecado faz parte do território humano e é uma ameaça diária ao nosso discipulado. E se os nossos corações enregelarem, se as nossas mentes se fecharem, se os nossos espíritos se tornarem gordos e gananciosos, aninhados na nossa pilha de bens, então a Igreja neste país murchará. Aconteceu antes, noutros tempos e noutros lugares, e pode acontecer aqui. Não podemos mudar o mundo sozinhos. E não podemos reinventar a Igreja. Mas podemos ajudar Deus a mudar-nos a nós. Podemos viver a nossa fé com zelo e com convicção – e Deus tratará do resto.

O Senhor está a purificar a sua Igreja. Ainda bem, dizemos nós. Não era sem tempo, dizemos. Mas estamos dispostos a deixá-lo purificar-nos a nós? Podemos mesmo esperar que a Igreja seja purificada e, ao mesmo tempo, esperar que nós, que somos membros da Igreja, sejamos poupados à dor e à angústia dessa purificação?

Quem restaurará a Igreja? Ele. E se estivermos dispostos, Ele realizará grandes coisas através de nós. Só nos custará tudo – o que afinal de contas não é nada.

Tomai, Senhor, e recebei, toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes, a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, à vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta. (Uma oração de Santo Inácio de Loyola)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Castração química e a ternura de Deus

Castração química para condenados por crimes sexuais? O bispo do Porto disse ontem que o assunto devia ser discutido.  A questão é mais complexa do que possa parecer à primeira vista… Aqui tento explorar as diferente vertentes.

O Papa Francisco recebeu hoje um grupo de crianças de uma instituição de solidariedade social de Braga.

A Universidade Católica quer apostar em estudantes “com potencial”, ainda que não tenham grandes médias.

Decorrem nestes dias as Jornadas das Comunicações Sociais. Ontem ouviu-se dizer que a “ternura de Deus” faz falta nas redes e hoje o professor Paulo Salgado disse que a Igreja deve usar as redes para mostrar como os católicos são felizes.

Fui avisado por alguns leitores de que o link sobre a legalização do aborto na Austrália seguiu errado, ontem. Podem ler o artigo aqui.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Entre o cisma e São Tomé

Enquanto uns cismam, ela vai ajudar os outros
Caminhamos para um cisma na Igreja Católica? Há quem acredite nessa ameaça. A questão esteve em debate na Renascença esta tarde. Veja e ouça aqui.

O Cardeal Pell, condenado em duas instâncias por abuso de menores num processo muito polémico, recorreu ao Supremo Tribunal da Austrália.

Conheça a Mariana Costa, mais uma aventureira que parte em missão com os Leigos para o Desenvolvimento.

Mal chegou de África e o Papa Francisco já está a preparar nova viagem, desta vez para o Japão e Tailândia.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Papa a caminho dos três M

O Papa chega esta quarta-feira a Moçambique, para uma viagem que inclui passagens pelo Madagáscar e Ilhas Maurícias.

Antes de partir, Francisco rezou especialmente pelas vítimas do furacão Dorian que afectou as Bahamas e caminha para os Estados Unidos.

A visita do Papa terá acompanhamento constante na Renascença, como é evidente!

A Igreja Portuguesa quer formar professores para lidar com questões da ideologia do género.

Hoje no artigo do The Catholic Thing em português trago-vos um texto de leitura difícil, mas necessária, onde Stephen P. White explica como a crise dos abusos sexuais tem afetado desproporcionalmente pessoas das tais periferias da sociedade que o Papa tem no coração. Leiam e partilhem.

Abusos nas Periferias

Stephen P. White
Os abusos sexuais são uma praga, seja onde for, ou quem envolvam. Mas uma das facetas menos exploradas da crise de abusos sexuais praticados por padres nos Estados Unidos é a forma como as comunidades minoritárias e marginalizadas têm sido particularmente susceptíveis tanto aos abusadores como às más-práticas dos bispos e superiores religiosos que lidaram tão mal com os casos de que tiveram conhecimento.

Esta semana a Associated Press publicou uma reportagem sobre uma família alargada em Greenwood, Mississippi que foi devastada por abusos sexuais na Igreja. Três dos rapazes da família, Joshua e Raphael Love e o seu primo La Jarvis Love, alegam que foram abusados por dois frades franciscanos na Escola São Francisco de Assis nos anos 90.

Certos aspetos destes casos de abuso são por demais familiares: a forma como foram recrutados, as ameaças, o silêncio, a ineficácia da resposta tanto das autoridades da Igreja como, pelo menos de início, das autoridades. Mas alguns dos detalhes dos casos da família Greenwood sobressaem.

Em primeiro lugar, os rapazes de Greenwood são afro-americanos e de uma das zonas mais pobres de um dos estados mais pobres. Os seus alegados abusadores eram ambos missionários franciscanos de outros estados, que tinham vindo para Mississippi para trabalhar numa paróquia missionária, para servir as populações mais desfavorecidas.

Em 2006 a diocese católica local – Jackson – chegou a um acordo judicial com dezanove vítimas de abusos, na maioria brancos, por uma média de 250 mil dólares cada. Mas os franciscanos ofereceram apenas 15 mil dólares a cada um dos Love, e apenas na condição de que assinassem um acordo de confidencialidade.

“Eles sentiam que nos podiam tratar assim porque somos pobres e porque somos pretos”, disse Joshua Love. E compreende-se que tenha sido o caso. Sem advogados, dois dos três rapazes Love aceitaram o acordo.

O terceiro Love, Raphael, não aceitou o acordo. Actualmente está preso por um duplo homicídio cometido quando tinha 16 anos. A sua vida teria sido diferente se não tivesse sido abusado? As duas vítimas abatidas a tiro estariam vivas? O trauma de abusos sexuais na infância tende a destruir vidas e é impossível saber o que poderia ter sido. Mas também não podemos deixar de pensar no assunto.

Quanto aos abusadores, o frei Paul West abandonou os franciscanos em 2002, mas ainda em 2010 estava a dar aulas numa escola católica perto de Appleton, Wisconsin e o frei Donald Lucas morreu em 1999, num aparente suicídio.

Mas os rapazes pobres do Delta do Mississippi não são os únicos que têm razões para se sentirem duplamente traídos – primeiro pelos seus abusadores, e depois pela Igreja, por os tratar tão mal.

Os missionários jesuítas que trabalharam com indígenas no Alasca amontoaram um registo assustador de vítimas ao longo de várias décadas. Os números em si não são tão impressionantes como as que se encontram em cidades com grandes populações católicas, mas dada a escassez da população, as décadas de abusos e o número de padres e voluntários jesuítas envolvidos, a imagem geral é terrível.

A Província Jesuíta de Oregon nega ter usado o Alasca como depósito para padres suspeitos de abusos, mas os números não mentem. Note-se neste parágrafo de um artigo do National Catholic Reporter sobre a bancarrota da Província, em 2009.

Joshua Love, uma das vítimas dos franciscanos no Mississippi
“Durante o período em questão, segundo um advogado no Alasca, houve no máximo 29 padres a servir ao mesmo tempo na diocese. Ao longo desses anos pelo menos 20 jesuítas foram credivelmente acusados e houve alturas, disse, em que oito padres acusados estavam a servir em simultâneo.”

Ou então tenha em conta estes números: A vila de Holy Cross, no Alasca, tem uma população de 200 pessoas. Entre 1930 e 1971 houve dezasseis padres, irmãos e voluntários jesuítas que trabalharam na Missão Holy Cross e que foram alvo de pelo menos uma acusação credível de abuso sexual. Dezasseis abusadores numa vila de cerca de 200 pessoas no espaço de 40 anos!

Talvez a faceta menos explorada da crise de abusos nos Estados Unidos seja a forma como afectou os católicos hispânicos. Tem sido referido que a resposta à crise de abusos tem sido bastante diferente – menos estridente – entre católicos de língua espanhola nos Estados Unidos do que nas partes anglófonas na Igreja. As razões destas diferentes reacções deveriam ser escrutinadas, mesmo que uma significativa minoria dos católicos americanos não fossem latinos.

Sejam quais forem as diferenças, ou as razões por detrás, vale a pena referir que os católicos hispânicos têm sido vítimas tanto de padres abusadores como de prelados à procura de um local para os esconder.

A arquidiocese de Chicago removeu um pároco o ano passado depois de ter sido detido por praticar actos sexuais com outro padre no interior de um carro estacionado. Embora essa história tenha sido muito divulgada, o que é menos conhecido é que o pároco em questão não foi o primeiro a ser removido dessa paróquia – uma missão de língua espanhola no que é de resto um subúrbio de classe média, em larga medida branca. O seu antecessor foi detido por pornografia infantil. O que é que uma missão de língua espanhola na terceira maior diocese do país precisa de fazer para ter um pastor que não seja depravado?

Depois há o caso da arquidiocese de Los Angeles, que sob o cardeal Roger Mahony enviou padres abusadores para paróquias de maioria hispânica, com grandes percentagens de imigrantes ilegais. Como devem calcular, paroquianos pobres que estão no país de forma ilegal têm menos tendência para recorrer às autoridades quando o sacerdote se porta mal.

Não é preciso considerar-se um campeão da justiça social para se sentir enojado com estas histórias.

Os abusos sexuais praticados por clero são uma praga, seja onde for e com quem aconteçam. Uma das verdades mais dolorosas de toda esta terrível confusão é que tanto predadores como prelados têm feito questão de concentrar os abusos nas periferias. Aqueles que lá vivem é que têm acarretado com o grosso do problema. O seu sofrimento também clama por justiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Tomem lá esta celebração




Em Fátima já começaram as férias para famílias com filhos deficientes. É um projeto fantástico e muito generoso, que tem tido cada vez mais sucesso.

O Papa Francisco pede que se reze pelas famílias durante o mês de Agosto. E por falar em família, que dizer desta campanha de um grupo holandês? (Ver foto). Querem festejar o facto de haver cada vez menos bebés a nascer em Portugal (e não só). Fui lá com a minha família para mostrar um festejo tradicional português.


Agora o Actualidade Religiosa vai de férias. Continuarei a publicar os artigos do The Catholic Thing às quartas-feiras e a partilhar informação no Twitter e Facebook.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Boris, o primeiro... Qualquer coisa... em Downing Street

Boris Johnson é o novo primeiro-ministro do Reino Unido. Será também o primeiro católico a ocupar Downing Street? É bastante mais complicado do que parece…


O bispo de Portalegre-Castelo Branco descreve como “desolação total” o cenário em torno de Mação, que esteve vários dias a arder. Já o bispo da Guarda pergunta quem é que ganha com este flagelo e critica o “esquecimento do interior” por parte das autoridades.

A Polónia não escapou à crise dos abusos sexuais. É este o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Aconselho ainda a lerem o artigo da semana passada, sobre como ser um Bom Samaritano nos dias de hoje.

Rezem pela Polónia

Stephen P. White
O drama que abalou a Igreja dos Estados Unidos ao longo do último ano pode distrair-nos da dimensão global da crise de abusos sexuais praticados pelo clero, e das más práticas episcopais a ela associados. Aqui na Polónia, onde me encontro desde finais de Junho, a Igreja está a enfrentar o seu próprio escândalo de abusos.

Um relatório publicado em Março pela Conferência Episcopal da Polónia reconheceu que desde 1990 um total de 382 padres foram acusados de abusos sexuais de menores. Estas alegações foram feitas por 625 vítimas diferentes.

A maioria das vítimas na Polónia tinha mais de 15 anos, o que é bastante mais do que nos Estados Unidos. A maioria das vítimas, 58,4%, são do sexo masculino, segundo os bispos polacos. Note-se que a idade de consentimento na altura em que o relatório foi publicado era de 15 anos e a maioridade atinge-se aos 18.

A forma como se lidou com os casos tem sido, em certas alturas, e de forma tragicamente familiar, gravemente desadequada. Mudança de padres para outros lugares, culpabilização dos media e por aí fora. De certa forma, a Igreja aqui está no mesmo lugar em que estava a americana há 25 anos.

A resposta dos bispos polacos variou entre o cuidado, sincero e o mais insensível. O arcebispo Wojciech Polack de Gniezno, Primaz da Polónia, insistiu que cada caso de abusos deveria “evocar em nós dor, vergonha e culpa”. Já o bispo de Cracóvia, Marek Jędraszewski, atrapalhou-se todo ao insistir que “tolerância zero” não deve significar “misericórdia zero”. Para o ilustrar escolheu talvez a pior analogia possível: “Quando os nazis adoptaram uma política de tolerância zero para com os judeus, o resultado foi o Holocausto”. Como devem calcular, a comparação não caiu particularmente bem.

Em maio dois irmãos – Tomasz (guionista e diretor) e Marek Sekielski (produtor) – lançaram um documentário chamado “Não Digas a Ninguém”. O filme conta as histórias de sobreviventes de abusos e a resposta inadequada dos bispos polacos. Inclui cenas arrepiantes de sobreviventes a confrontar os seus abusadores.

O relatório dos bispos, lançado em Março, foi uma notícia importante, mas o lançamento de “Não Digas a Ninguém” abalou o país inteiro. O filme foi lançado no YouTube, onde foi visto mais de um milhão de vezes só nas primeiras seis horas. Até à data foi visto mais de 22,5 milhões de vezes, um número incrível tendo em conta que a população total da Polónia é de pouco mais de 38 milhões.

Sendo a Polónia, todo este drama – e o assunto dos abusos sexuais praticados pelo clero em geral – assumiu rapidamente contornos políticos. “Não Digas a Ninguém” foi lançado duas semanas antes das eleições para o Parlamento Europeu.

O partido conservador Direito e Justiça, no poder, tinha ligações próximas com muitos dos bispos polacos. Alguns membros da oposição tomaram nota da revolta provocada pelo filme e tentaram usar os abusos sexuais como tema de campanha. Mas a oposição deu um passo maior que as pernas (incluindo a promoção agressiva da agenda LGBT) e saiu-lhes o tiro pela culatra.

"Não Digas a Ninguém"
Juntou-se a todo este desassossego os comentários feitos pelo Papa Francisco na conversa com os jornalistas a bordo do avião depois da sua visita a Abu Dhabi, em Fevereiro. O Santo Padre estava a defender o registo do então Cardeal Ratzinger e a forma como tinha lidado com alegações de abusos sexuais, nomeadamente em relação ao fundador dos Legionários de Cristo, o padre Maciel. Ao defender Ratzinger Francisco pareceu dar a entender – pelo menos assim o compreenderam vários polacos – que os esforços de Bento XVI tinham sido travados por João Paulo II.

O secretário de longa data de João Paulo II, o arcebispo emérito de Cracóvia, Cardeal Stanisław Dziwisz, saiu em defesa de João Paulo, insistindo que as insinuações baseadas nos comentários ambíguos de Francisco eram injustas. Quando, mais tarde, Francisco elogiou o trabalho feito pelo Papa João Paulo II na luta contra o abuso – chamando-o “corajoso” e dizendo que “ninguém pode duvidar da santidade e da boa-vontade deste homem” –Dziwisz publicou uma carta aberta agradecendo ao Papa Francisco por “pôr fim às tentativas de difamar São João Paulo II”.

Em Junho o arcebispo Charles Scicluna, o homem de mão do Papa Francisco para resolver crises de abusos sexuais, encontrou-se com os bispos polacos. A imprensa polaca especulava que vinha aí uma onda de resignações. Consta que Scicluna foi duro, mas por agora o episcopado polaco permanece intacto.

Contudo, Scicluna aproveitou o momento para sublinhar a defesa do Papa João Paulo II feita por Dziwisz: “Eu sou testemunha da determinação de São João Paulo II em combater os abusos sexuais de menores quando confrontado com os casos. Penso que aqueles que questionam a competência ou a determinação de São João Paulo II em lidar com este fenómeno devem rever os seus conhecimentos históricos.”

Muitos dos polacos com quem eu falei disseram-me que a ideia que reina é que as más notícias nesta questão ainda não acabaram. Os últimos meses têm sido uma montanha russa. As coisas poderão acalmar, sobretudo se os bispos polacos conseguirem evitar tornar os seus erros ainda piores, com alguns dos bispos americanos fizeram. Mas o sentimento geral que obtive de amigos polacos – devotos ou não – é que o pior ainda está para vir.

É difícil prever como é que a Polónia lidará com isso. O país continua a ser profunda e extraordinariamente católico, mas o catolicismo polaco mantém-se em larga medida na defensiva. As alianças entre a Igreja e políticos populistas, por mais devotos que sejam, podem adquirir estabilidade a curto prazo mas com um altíssimo custo a longo prazo. Como aprendemos da pior maneira aqui nos Estados Unidos, o instinto eclesial de defender a instituição, por mais piedoso que seja, pode conduzir a actos que têm o efeito precisamente contrário.

No meu entender a Igreja polaca está muito mais próxima do princípio do que do fim de toda esta trapalhada. A forma como os bispos polacos lidarem com a crise dos abusos ao longo dos próximos meses e anos contribuirá em larga medida para garantir o futuro de um dos exemplos mais belos de verdadeira cultura católica. Esse futuro está agora mais frágil do que muitos gostariam de admitir.

Rezem pela Polónia.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Julho de 2019)

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quinta-feira, 6 de junho de 2019

De Pothoven a Putin

Está muita gente a falar do caso de Noa Pothoven, uma menina de 17 anos que escolheu deixar de comer e de beber até morrer, com a conivência dos pais. É um caso muito triste, analisado aqui pela especialista em bioética Ana Sofia Carvalho.

Outro caso triste é o dos Estados Unidos, de onde surgiram mais dados sobre o bispo Bransfield, que resignou em setembro do ano passado. Para além de abusos e assédio sexual, é acusado de ter feito donativos no valor de 300 mil euros a vários bispos influentes, para promover a sua própria carreira.

Soube-se agora também de casos de abusos na comunidade Taizé.

O Papa Francisco vai receber no dia 4 de julho o Presidente Vladimir Putin. Será um prenúncio de uma tão desejada visita a Moscovo?


Há muito que estou convencido que se aprendêssemos a lidar melhor com a morte, acabaríamos a tratar melhor dos vivos. Randall Smith, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português, vai ao cerne da questão e explica porque é essencial que a Igreja volte a conquistar o seu lugar de destaque em relação à morte e cerimónias fúnebres.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Em Roma sê Romeno

Foram hoje divulgadas cartas privadas do cardeal McCarrick que lançam novas luzes sobre todo este escândalo, comprovando que o seu sucessor Donald Wuerl estaria por dentro das suspeitas de abusos e das restrições que lhe foram impostas pelo Vaticano.

O Papa Francisco visita a Roménia nos próximos dias. Hoje temos uma interessantíssima entrevista com Felix Lungu, da Ajuda à Igreja que Sofre, que explica a realidade da Igreja naquele país. Vale mesmo a pena ler.

Conheça aqui o Kelves e saiba o que acontece quando a solidariedade mobiliza toda uma comunidade escolar!

Chamo ainda a vossa atenção para uma conferência em Cascais subordinado ao tema: “A tradição ainda é o que era?”. O cartaz vai em anexo. Acontece no dia 30 de maio, às 21h30 e o orador é o padre jesuíta João Goulão.


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Asias há muitas, infelizmente

O Papa emitiu hoje um documento com novas orientações e normas – com força de lei canónica – para se lidar com casos de abusos. Os especialistas – até alguns críticos do Papa – parecem concordar que é um documento muito bom. Ainda bem!

Ontem tivemos a fabulosa notícia de que Asia Bibi já se encontra em segurança no Canadá. Foi quase uma década de sofrimento que para ela já acabou. Mas infelizmente o dela é apenas um de muitos casos que existem. Falei com dois paquistaneses cristãos que se encontram na Europa a tentar encontrar soluções para os jovens da sua comunidade poderem sair do país para estudar, porque mesmo nas universidades são vítimas de discriminação.

A Conferência Episcopal quer mais católicos a intervir para ajudar casais a superar as suas crises conjugais e a Cáritas quer tudo a votar nas europeias de dia 26!

Ontem publiquei mais um artigo do The Catholic Thing em português. Matthew Hanley sublinha algumas das contradições inerentes ao movimento que nos quer impor a fantasia de que se possa mudar de sexo e mostra como estamos já numa era em que dizer a verdade pode ser considerado crime.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

A alegria do Perdão e o Deus das surpresas

O Papa Francisco na Bulgária
O Papa Francisco está na Bulgária, onde hoje visitou um campo de refugiados, deu primeira comunhão a um grupo de perto de 250 crianças e participou numa vigília de oração pela paz.

Ontem foi recebido pelo Patriarca da Igreja Ortodoxa local, pedindo que a “alegria do perdão” ajuda os cristãos a alcançar a unidade e celebrou missa, falando do “Deus das surpresas” como alternativa a um regresso ao passado.

O Sri Lanka vai recuperando lentamente dos terríveis ataques de Domingo de Páscoa. As igrejas continuam fechadas enquanto os cristãos rezam pela paz.

Os bispos portugueses decidiram de forma unânime criar estruturas de proteção de menores nas suas dioceses.

No mundo de hoje “censura” é quase um palavrão. Mas a verdade é que a sociedade censura uma variedade de ideias e conceitos que não considera admissíveis. Neste artigo do The Catholic Thing em português, David Warren defende o regresso a um tempo em que ideias como eutanásia e infanticídio não eram sequer discutidos, quanto mais praticados.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Tempo Dirá

Stephen P. White
Na semana passada soube-se que o Papa Francisco está a trabalhar num documento que regularizará os procedimentos para lidar com alegações de abusos sexuais ou de negligência em lidar com casos de abusos, relacionados com bispos. Não é claro se, ou como, o novo documento altera o motu próprio que o Papa emitiu em Junho de 2016, que se chama “Come una madre amorevole” (Como uma mãe amorosa)

Esse documento sublinhava e clarificava as “razões graves” pelas quais um bispo poderia ser removido do seu ministério eclesiástico, sobretudo no que diz respeito a negligência em lidar com o abuso de menores. Estipula que um bispo pode ser removido por negligência, “mesmo sem falha moral grave da sua parte”. O documento pede ainda a formação de um “colégio de juristas” – uma assembleia de canonistas – para assistir o Santo Padre em determinar se, e como, se devem afirmar as conclusões do Tribunal Apostólico que julga o caso canónico.

Tomemos por exemplo o caso do Arcebispo Anthony Apuron, do Guam. Apuron foi condenado num tribunal canónico por “delitos contra o Sexto Mandamento com menores”. O seu recurso falhou e o Tribunal Apostólico da Congregação para a Doutrina da Fé, com a aprovação e a autoridade do Santo Padre, emitiu uma sentença final, que foi anunciada a semana passada: Apuron foi removido do ministério de Arcebispo, proibido de usar as insígnias do seu cargo de bispo e proibido ainda de viver na Arquidiocese de Agaña. Interessantemente – e ao contrário do que se passou no caso recente de Theodore McCarrick – Apuron não foi removido do estado clerical.

Não foi imediatamente claro porque é que a um bispo condenado de abusar de menores (Apuron) foi permitido continuar no estado clerical enquanto outro (Theodore McCarrick) foi laicizado. Nalguns pontos os casos eram semelhantes – ambos envolviam o abuso sexual de menores – mas McCarrick foi condenado também pelo crime de solicitação no confessionário, uma ofensa grave só por si. Crimes diferentes, sentenças diferentes.

Mas as diferenças não se explicam apenas por alguma espécie de orientações pontifícias. O Papa Francisco tem resistido a mecanismos universais para lidar com os problemas dos bispos, uma abordagem que, pelo menos em teoria, permite que as soluções sejam pensadas à medida da ofensa particular, mas também para o enquadramento social, cultural e política de cada caso. O Colégio de Juristas previsto em “Come una madre amorevole” ajuda-o neste sentido, e pode escolher diferentes juristas para cada caso.

De facto, o Papa Francisco descreveu o processo, e como o acha útil, numa conferência de imprensa no Verão passado, quando regressava de Dublin – uma conferência de imprensa recordada mais pela sua resposta memorável a questões sobre a carta de Viganò, então recém-publicada. O Papa Francisco usou como exemplo o caso de Apuron, que na altura estava na fase de recurso:

O caso mais recente é o de Guam, do Arcebispo de Guam, que recorreu. E eu decidi – porque é um caso muito difícil – usar o privilégio que tenho de ser eu mesmo a ouvir o recurso, em vez de o enviar para o concelho de recurso, que trabalha com todos os padres. Eu é que assumi o recurso. E formei uma comissão de canonistas que me estão a ajudar e eles disseram-me que quando eu regressar, no máximo dentro de um mês, farão uma recomendação para que eu possa emitir um juízo. É um caso complicado, por um lado, mas não por causa das provas, que são claras. Não posso fazer um pré-julgamento, devo esperar o relatório, depois julgo. Mas digo que as provas são claras porque são as provas que conduziram à condenação no primeiro julgamento.

Zanchetta
Há vantagens e desvantagens evidentes para este tipo de processo. Por um lado, pode ser adaptado às necessidades de cada caso, como já vimos. Mas há também uma grande desvantagem. Ao assumir a responsabilidade pessoal por juntar uma equipa de juristas em cuja opinião dependerá para um caso em particular, o Papa Francisco torna-se pessoalmente responsável pelo desenrolar dos casos – e por como os fiéis percepcionam a forma como se lida com cada caso.

A imparcialidade da lei não é igual ao abraço de uma mãe amorosa, e esse é um ponto que o Papa quer sublinhar. Mas não é por acaso que normalmente não deixamos as mães presidir sobre os julgamentos dos seus filhos. Posto de forma mais clara: uma das razões pelas quais a Igreja se encontra nesta crise é certamente porque muitos bispos revelaram demasiada preocupação paternal com os seus padres criminosos, e não foram suficientemente neutros em relação aos crimes terríveis em questão. Isto não foi sempre – ou até frequentemente – por malícia ou más intenções. É fácil entender como poderá ter sido precisamente o contrário.

Não é necessário pôr em questão o juízo do Papa (este, ou qualquer outro) para compreender os perigos inerentes a um processo judicial tão personalizado.

Nem se trata de uma preocupação abstrata. O Papa já cometeu um erro terrível, pelo qual pediu desculpa, ao defender o bispo Juan Barros, no Chile, mesmo ao ponto de denunciar os seus acusadores.

E depois temos o caso do bispo Gustavo Zanchetta, uma das primeiras nomeações episcopais do Papa Francisco. Zanchetta foi removido da sua diocese na Argentina depois de uma série de queixas – incluindo sobre pornografia homossexual encontrada no seu telefone – e trazido para Roma por Francisco. O Papa poderá entender isto como uma forma de trazer um filho errante para perto dele, para poder estar sobre a supervisão de um pai que o ama.

Outros, digamos assim, poderão entender de outra forma.

O Papa Francisco faz bem em estar de pé atrás em relação a “remédios” legalistas e burocráticos para aquilo que é fundamentalmente uma crise moral e espiritual. Mas dado tudo o que sabemos sobre como se tem lidado com os ilícitos dos padres nas últimas décadas, há razões para questionar se esta abordagem pastoral altamente personalizada e ad hoc do Papa Francisco para com bispos errantes é o modelo mais prudente para a Igreja hoje. O tempo dirá.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 11 de Abril de 2019)

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