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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Um Novo Paradigma para a Educação nas Artes Liberais?

Randall Smith
Tenho um amigo que acha que a maioria dos alunos contemporâneos estão de tal forma afastado da natureza que teriam de ser reintroduzidos a ela antes de se poder pensar sequer em ensinar-lhes sobre o direito natural e as virtudes.

A Wyoming Catholic College resolve este problema obrigando os alunos a montar a cavalo. Montar não é uma capacidade virtual em que nos possamos desenrascar. Os cavalos têm uma mente própria e para os conseguir montar é preciso ter a capacidade e a sensibilidade para as disposições do cavalo naquele dia. Montar um cavalo não é como brincar com números numa folha de cálculo e por isso é exatamente o género de coisa que os alunos deviam aprender a fazer.

Agora, talvez nem toda a gente possa ou deva aprender a montar a cavalo, nem que seja para poupar os cavalos à tortura de serem sujeitos a cavaleiros incompetentes. Os cavalos precisam de muitos cuidados e de espaço para poderem andar, e nem todas as universidades têm esses recursos. Mas podemos ensinar outras competências que requerem ingenuidade e atenção à realidade do mundo, e não apenas às vontades e aos desejos?

Tenho uma proposta radical. Todos os alunos deviam aprender um ofício com um mestre. Podia ser na área da canalização, electricidade, construção, agricultura, mecânica, carpintaria, mobília, ou outros. O objectivo principal seria ensinar os alunos uma prática que requer disciplina e excelência e onde os resultados são concretos e evidentes.  

Se não ligar correctamente os cabos eléctricos, a luz não acende. Se não colocar correctamente os tijolos, o muro cai. Se a canalização não for bem feita, aparecem fugas. Não há muito espaço para “individualismo criativo” e “voluntariedade autocentrada” quando se está a aprender tais ofícios. Se não o fizermos bem, a coisa não funciona.

E torna-se claro para toda a gente porque é que o mestre é “mestre” e porque o novato não é. Isto, como eu disse, seria o objectivo principal. Aprender um ofício para compreender que existem padrões de exigência e para poder depois aplicar isso ao desenvolvimento das virtudes.

Claro que a proposta é absurda, uma daquelas fantasias que os professores universitários inventam nos seus tempos livres.

Mas será assim tão absurdo? Não é propriamente uma coisa impossível de se fazer. Contratamos electricistas e canalizadores nas universidades a toda a hora. Será mais complicado contratar um mestre electricista que possa ensinar do que um académico de história que possa ensinar?

E pensem no que poderíamos dizer aos pais. Vamos treinar o seu filho segundo as melhores tradições das artes liberais. Mas está preocupado que não consigam arranjar um emprego para se sustentarem? (E sim, muitos temem isso mesmo), pois bem, mesmo que tudo o resto falhe, terá sempre uma forma de ganhar dinheiro como canalizador, electricista, mecânico ou alfaiate. Terá sempre um plano B.

Wyoming Catholic College
E, já que estamos nessa, todos sabemos que um bom canalizador ou electricista ganha mais do que a maioria dos miúdos que metemos a fazer trabalhos de seca num escritório. E se decidirem prosseguir os estudos podem sempre exercer esse ofício em part-time, de forma a conseguir pagar as contas.

Poderão esquecer-se do que aprenderam sobre história ou sobre química orgânica, e os conhecimentos sobre Shakespeare e Freud hão de mudar ao longo dos anos, mas tudo indica que, tal como andar de bicicleta, jamais se esqueçam de como ligar os cabos de um interruptor ou como construir uma cadeira. A tecnologia disponível pode mudar, mas com um bocadinho de tempo e formação hão de conseguir voltar aos eixos.

Como vêem, é uma proposta prática com potencial para aumentar as candidaturas ao ensino superior. Então porque é que não deve gerar grande interesse? Porque requer uma mudança de paradigma na forma como entendemos o ensino universitário. De acordo com a nossa forma de pensar, desenvolvida ao longo dos últimos oitenta e tal anos, as universidades são para trabalhadores administrativos. Os canalizadores não vão para a universidade – pelo menos não para aprender canalização – porque são operários.

Quero que fique bem claro que hoje, como sempre, de uma perspetiva cristã isto é uma valente treta. Os gregos antigos podem ter olhado com desdém para o trabalho manual, mas os cristãos não o podem fazer. Cristo trabalhou como carpinteiro durante a maior parte da sua vida. Todos os beneditinos, franciscanos e dominicanos que fundaram a educação cristã e as primeiras universidades trabalhavam, não eram aristocratas de Oxbridge.

Para além disso, os canalizadores têm tanto direito a uma educação nas artes liberais como qualquer outro. Algumas das melhores conversas que já tive sobre fé e filosofia foram com canalizadores, electricistas e muitos outros que passaram pela minha casa para arranjar coisas. São pessoas interessantes. Tentem discutir o problema do mal com uma mulher polícia que já foi baleada por traficantes. Tem uma perspectiva que falta à maior parte dos licenciados.

E para ser sincero, a maioria dos trabalhos de escritório requerem tanto uma educação universitária como a canalização. Eu rejeito a ideia de que um trabalhador não consiga subir na vida se não tiver acabado o curso. Quem é que fez das universidades os porteiros do sucesso empresarial? Não é essa a nossa função nem o nosso objectivo. É, isso sim, o que dizemos às pessoas, para nos mantermos em funções, mas mais tarde ou mais cedo o mundo vai perceber.

Não é preciso uma educação universitária para conseguir um emprego ou avançar para o próximo grau de liderança numa empresa. Devia querer uma educação nas artes liberais porque ela expande a mente e a alma. Se o ajudar a ganhar dinheiro também, então força!

Só não se esqueça de doar um bocadinho desse dinheiros aos seus pobres e esforçados professores, na universidade onde tirou o curso, está bem?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Insegurança dos “Lugares Seguros”

Randall Smith
Há dias passei por um gabinete com um sinal à porta que dizia “Lugar Seguro”. Senti-me imediatamente inseguro.

Eu espero que toda a gente que entra no meu gabinete se sinta segura. Mas não deviam ser elas a dizer-me se se sentem seguras, e não ao contrário?

Seja como for, a questão não se põe, porque normalmente eu encontro-me com os meus alunos em cafés, alguns dos quais são mais “seguros” que outros. Certa vez um aluno, um jovem veterano das Forças Armadas, disse-me que tinha passado pelo café onde sabia que eu costumava estar à noite, mas não me tinha encontrado. “A que horas chegaste?”, perguntei “Cerca das 21h20”, respondeu. “Eu cheguei uns cinco ou dez depois. Porque é que não esperaste?” “Não, não”, disse ele, “aquilo estava cheio de hipsters (está sempre), e eu conseguia senti-los a olhar para mim e a julgar-me, por isso tive de sair”.

Não tenho a menor dúvida de que a maior parte das pessoas naquele café devem ter uma imagem muito acolhedora e aberta de si mesmas, mas é curioso como estas coisas podem ser relativas. O que parece “aberto” e “acolhedor” para um grupo de hipsters que se consideram muito progressistas, pode alienar uma multidão de outras pessoas que se sentem “julgadas” por ser demasiado “normais”, ou não serem suficientemente “fixes”.

Deve ter sido este mesmo medo instintivo de ser “observado” ou “julgado” que senti quando vi o sinal de “Lugar Seguro”. Será que o meu olhar tinha sido suficientemente aprovador? E a minha linguagem corporal, foi a correcta? Se alguém visse a curiosidade estampada na minha cara talvez pensasse que estava a expressar desaprovação, o que não era de todo a minha intenção.

Se a dona do gabinete tivesse posto a cabeça de for a e perguntasse: “Está a olhar para o meu sinal. Algum problema?”, o que é que eu teria respondido? “Não, não, não… De todo. Estava a só a ler… o seu… errr… sinal”. Teria acreditado em mim? Ou teria continuado desconfiada? Teria feito queixa?

E se ela adivinhasse que sou católico? O que é que teria pensado acerca das coisas horríveis que supostamente penso sobre homossexuais? Teria conseguido convencê-la de que não penso essas coisas? Nunca consegui convencer os meus pais protestantes de que os católicos não acreditam nas coisas em que eles pensavam saber que os católicos acreditavam.

Talvez o que me tenha feito sentir desconfortável com o sinal de “Lugar Seguro” seja o facto de o passatempo mais popular na América, agora, ser uma versão do que um autor de outra geração chamou “upmanship”, a superação do outro. Por exemplo, se você disser “a semana passada conheci o presidente da Câmara de Londres” e o seu amigo responder: “O presidente da Câmara de Londres? É um tipo encantador! Almoçou em minha casa a semana passada”, fazendo com que o seu encontro pareça muito menos impressionante, supera-o.

Nos Estados Unidos há cada vez mais pessoas apostadas em jogar uma versão ligeiramente diferente a que se pode chamar “ultrapassar pela esquerda”, cujo objetivo é mostrar-se mais à esquerda que o outro. Você diz: “Mandei a minha filha para uma escola muito liberal e progressista, só para meninas” e o seu amigo responde, com um desprezo mal disfarçado, “ainda se chamam meninas? Quero dizer, tantas dessas escolas só para meninas não percebem como o termo ‘menina’ pode ser ofensivo para os transgéneros”. E eis que a escola muito progressista em que orgulhosamente matriculou a sua filha, de repente parece bastante menos progressista, ou até mesmo discriminatória.

Você sente-se muito pequeno, o que era precisamente o objetivo.

As pessoas podem fazer como entenderem, mas para mim é tudo menos claro que estas guerras linguísticas que travamos nos confins refinados do mundo académico estejam de facto a ajudar as pessoas que dizemos querer ajudar. Depois de décadas a patrulhar obsessivamente o discurso, os miúdos pobres estão a obter uma melhor educação? E os homossexuais sofrem de menos ansiedade? As minorias estão a ser tratadas com maior respeito nos seus locais de trabalho, habitação e educação? As mulheres estão a ser mais respeitadas?

Porque se a resposta for não, e se tudo o que estamos a fazer é jogar o jogo da linguagem para que nós mesmos nos sintamos melhor, como se estivéssemos a resolver os problemas, mostrando que nos preocupamos, ao contrário das outras pessoas que não estão tão despertas como nós, então, para dizer a verdade, prefiro não fingir.

Quando vemos tantas pessoas a esforçar-se para não serem apanhadas nas armadilhas deixadas por todas as pessoas que jogam o jogo da ultrapassagem pela esquerda, dificilmente alguém se sente “seguro”. Lugares que deixam de fora as pessoas que têm as opiniões e atitudes “incorrectas” tendem a ser o oposto de seguras.

Agora, por exemplo, temos um grupo de pressão que lançou uma petição para apresentar à Universidade de Oxford no sentido de remover John Finnis, que é católico, do seu cargo, por este revelar “pontos de vista extremamente discriminatórios contra grupos de pessoas vulneráveis” (i.e., por não concordar com a visão dos signatários em relação a actividades homossexuais ou cirurgias de mudança de sexo). Eles insistem que a Universidade “clarifique a sua política em relação a professores que discriminam”, porque, atualmente, “os estudantes e corpo docente têm de esperar que haja um momento de assédio pessoal ou de vitimização, antes de se poderem queixar sobre o ambiente de intolerância e de intimidação que os professores criam através dos seus artigos escritos”. Não é preciso tratarem mal alguém, basta terem as opiniões erradas.

Por agora a Universidade está a recusar-se a agir. Mas que mensagem é que esta petição transmite a outros membros do corpo docente em relação à sua “segurança” caso não aceitem expressar as opiniões “aprovadas” sobre um grupo ou outro, quer tenha a ver com o casamento gay, com a forma como os muçulmanos tratam as mulheres, ou a questão israelo-palestiniana?

Essa é uma questão. Mas outra é esta: Será que as manobras tácticas das pessoas envolvidas neste jogo de “ultrapassagem pela esquerda” está mesmo a ajudar as minorias e as pessoas vulneráveis, como se alega?

Será seguro sequer fazer a pergunta?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Analfabetismo Religioso e a Evangelização da Imaginação

Anthony Esolen
“Quando Beowulf parte para matar o dragão que tem estado a devastar os campos”, dizia eu aos meus alunos caloiros, há dias, “todos os seus seguidores juram que o acompanharão na batalha. Mas quando a situação aperta, desaparecem. Apenas um deles, Wiglaf, é leal e ajuda Beowulf, mortalmente ferido, a matar o dragão. Não indo ao ponto de dizer que Beowulf é uma figura semelhante Cristológica, o que claramente não é o caso”, continuei, “parece-me seguro dizer que o poeta está a evocar Cristo no Calvário”.

Até aqui, tudo bem. Toda a gente sabe que Jesus foi crucificado. Então perguntei, casualmente: “Qual dos apóstolos foi fiel ao ponto de ficar junto a Jesus quando o pregaram na cruz?”. Silêncio envergonhado. Dei-lhes umas pistas. “Aparece em praticamente todas as representações artísticas da Crucifixão. Normalmente é representado como um jovem sem barba, porque segundo a tradição ele era o mais novo dos apóstolos”. Nada. “Jesus falou directamente com ele a partir da Cruz”.

Então cinco dos alunos tentaram adivinhar.

“Pedro?”
“Judas?”
“Simão?”
“Tomás?”
“Paulo?”

As tentativas revelaram mais que o silêncio, e foram mais desencorajadoras.

Dezasseis caloiros universitários, a maioria católicos de uma forma ou de outra, e nem um deles recordava a passagem “mulher, eis o teu filho”.

Ocorreu-me que se tivessem diante do quadro da Crucifixão no santuário da igreja que frequentei quando era criança, em Archbald, Pensilvânia, não seriam capazes de o “ler”. Isso é verdadeiramente bizarro, quando paramos para pensar no que motiva a arte religiosa.

Porque só pintamos uma cena das Escrituras, ou esculpimos em pedra, ou fundimos em vitrais, se pudermos contar que outros cristãos a vão reconhecer. Fazemos parte de uma história partilhada do mundo e a nossa arte fornece aos fiéis uma experiência partilhada, ou uma visão comum de algum momento ou incidente histórico.

O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt, tem pouco ou nenhum significado se não conhecermos a parábola. Não compreenderemos porque é que o jovem está de joelhos, nem por que razão tem os sapatos desfeitos ou porque é que os que observam estão trajados com mantos reais.

Em certo sentido estamos perante uma verdadeira inversão. Os analfabetos da Idade Média, quando os livros eram raros e caros e, por isso, havia pouca ou nenhuma razão para que um agricultor ou um moleiro soubessem ler, estavam, ainda assim, imersos em histórias. Os quadros e os vitrais eram simultaneamente uma expressão da fé e um elemento de instrução da mesma.

A crucifixão, de Hendrick ter Brugghen
Essa expressão e instrução abrangiam ainda a riqueza de orações e de hinos que as pessoas ouviam e conheciam de cor. Quando se inventou a imprensa, os livros tornaram-se mais acessíveis, dando às pessoas comuns uma razão prática para aprender a ler. Todos os salmos, as orações da missa e a liturgia das horas, para além de incontáveis orações, hinos e relatos das vidas dos santos, estavam de repente ao alcance.

Mas tudo isso é passado. Os nossos jovens sabem ler, mais ou menos – as nossas escolas abandonaram em larga medida tanto a poesia em geral como a literatura inglesa escrita antes de ontem à tarde.

Mas no que diz respeito às histórias da Escritura e da fé, não estão em melhor posição que os índios pagãos, olhando deslumbrados para os símbolos estranhos que comunicavam com o sacerdote a partir do seu livro. Aliás, em certo sentido estão ainda em pior situação. Os Huron e os Iroquois tinham séculos de histórias poéticas imemoriais para os ajudar a compreender o mundo. Os nossos pobres sub-pagãos têm apenas o Homer Simpson e o Han Solo.

Que fico claro que não estou a sugerir que eu, na idade deles, estava em muito melhor posição. Certo, conhecia os Evangelhos de trás para a frente, bem como as principais histórias do Antigo Testamento. Mas para além disso, também eu sofria de analfabetismo religioso.

Durante seis anos frequentei a escola de São Tomás de Aquino e não aprendi nada sobre São Tomás de Aquino. Assistia frequentemente à missa naquela igreja, mas era incapaz de reconhecer Santo Inácio e São Francisco Xavier nos vitrais. O guarda-roupa na sacristia tinha gravado nas portas um pelicano medieval com as suas crias, com uma frase do hino eucarístico de São Tomás, mas eu não fazia ideia do que se tratava. Ninguém falava do assunto. O elo histórico tinha sido quebrado.

Permitam-me fazer então o diagnóstico, da forma mais crua que posso. Não há catequese que compense esta lacuna. Se a sua imaginação for formada pelo entretenimento de massas – se o Spock lhe for mais familiar do que Abraão e Moisés, se consegue cantarolar o último sucesso da Madonna, mas não consegue identificar as palavras de Jesus sobre os lírios do campo – então é como um pagão que acaba de ser baptizado, mas que ainda só tem uma ideia vaga do que significa ser cristão.

Não admira que os antigos vikings, acabados de evangelizar, pensassem que podiam continuar a pilhar como tinham feito. Da mesma maneira não nos deve surpreender que os novos pagãos, praticamente sem evangelização, pensem que podem continuar a matar crianças no ventre, ou caminhar alegremente rumo a Sodoma.

C.S. Lewis, influenciado por antigos filósofos e poetas, dizia que a cabeça governa a barriga através do peito. Pois o peito é o reino da arte imaginativa, que nos inspira com contos de valor e de santidade, ou que então degrada com contos de hedonismo, cinismo, ateísmo e depravação.

Temos de evangelizar a imaginação. Jesus ensinou através de histórias. Isso não nos devia dizer alguma coisa?


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life:How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eu, estudante de Relações Internacionais me confesso

Amadeus, Amadeus!


Há umas semanas divulgámos um livro sobre Mozart, escrito por teólogos. A Renascença falou com os tradutores, que dizem que é uma obra acessível a todos.

A religiosidade dos universitários

José Maria Pereira Coutinho
Transcrição integral da entrevista a José Maria Pereira Coutinho, sobre a sua tese de doutoramento de Sociologia, relativa à religiosidade dos universitários.

Qual é o objectivo desta tese?
A tese tinha três objectivos. Primeiro estudar a religiosidade católica, o segundo era estudar as recomposições religiosas, isto é, estudar a mistura entre religiosidade católica e religiosidade não católica. E em terceiro lugar estudar a socialização religiosa.

Tudo isto num universo universitário?
Foi feita uma amostra de 500 alunos do ensino público universitário de Lisboa, do ISCTE, da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade de Lisboa.

É representativo dos universitários do país?
Não se pode dizer isso. Pode-se dizer que pelo facto do ensino público ser claramente maioritário em relação ao ensino privado universitário, em Lisboa e em Portugal, esta amostra representa bem a população em estudo, agora, extrapolar os dados para Portugal inteiro não, nem era esse o objectivo.

A nível de dados, o que é que se destaca?
Foi aplicado um inquérito por questionário, com perguntas sobre crenças e práticas católicas, atitudes em relação ao casamento, vida e sexualidade, perguntas sobre crenças e práticas não católicas e vários aspectos da vida a que os jovens dão mais importância, e por último perguntas sobre socialização religiosa.

São muitos parâmetros, o que posso dizer de mais importante é que em relação às crenças católicas foram feitas várias perguntas. As mais importantes eram acreditar que o Papa é sucessor de São Pedro e chefe da Igreja, o pecado, o céu, acreditar na vida depois da morte, estamos a falar de valores entre os 34% e os 37%. Dos menos importantes temos a ressurreição, a infalibilidade do Papa em alguns aspectos, o inferno e o purgatório com valores entre os 18% e os 16%.

Mas o pecado está entre os mais importantes?
O pecado está à volta dos 35%. Nestas questões houve uma taxa de “não sabe e não responde” entre os 10 a 20%, o que é muito elevado.

O que indica um desinteresse ou desconhecimento entre esta população?
Há várias interpretações, uma pode ser essa, outra pode ser o facto de serem muitas perguntas seguidas e eles responderem se calhar um bocado depressa de mais. Ou então, não querendo pensar muito no assunto. Poderá também ser porque as alternativas de resposta não eram muitas, eram sim ou não, mas poderia ser de nada até muito.

Havia espaço para dizerem se eram ateus, ou a ideia era só estudar pessoas que se identificavam como católicas?
Havia uma pergunta sobre a concepção de Deus, com várias alternativas, e uma era de “acredito num Deus pessoal”. Depois havia também “Deus não existe”, e “Não sei se Deus existe”.

Entre Agnósticos e Ateus deu quanta percentagem?
Ateus e agnósticos em conjunto deu 25%, o que é bastante.


Estará acima da média?
Sim, mas estamos a falar de uma população jovem, universitária, maioritariamente entre os 20 e os 21 anos, com uma formação académica, ou em vias de finalização académica elevada. Que estão no último ano do curso a passar para o mestrado integrado.
Das análises sociológicas que conhecemos, hoje em dia os jovens não é como antigamente em que a religião era vista como ciclo de vida, aumentava até à adolescência, depois diminuía até aos 40 e tal anos e depois voltava a subir. Agora não, há um crescendo desde a adolescência até à velhice, isto para dizer que os jovens são cada vez mais os menos religiosos.

Mas isto corresponde ao estereótipo do jovem universitário a descartar os valores dos pais, ou dos avós, a querer afirmar-se na modernidade…
É preciso falar em dois aspectos muito importantes, a família e o lazer. Em primeiro lugar a família. Pela erosão da família tradicional no mundo, mas principalmente no contexto europeu e mais concretamente no contexto português leva a uma propensão para os jovens serem menos religiosos, porque sabe-se que a socialização religiosa passa em primeiro lugar pela família e principalmente pelas mães. O facto de as mães estarem cada vez mais integradas no mercado de trabalho leva a que os jovens não tenham o acompanhamento de socialização religiosa que antigamente tinham.
Isso é um aspecto muito importante, a parte familiar, para não falar dos divórcios, dos rompimentos conjugais, que levam a que sejam ocasião para a perda de modelos familiares e de modelos religiosos.

Em termos de lazer, o lazer cada vez puxa mais para o prazer e não tanto para a introspecção, fundamental para o crescimento religioso.

Em termos de socialização, ainda acontece as pessoas escolherem os seus amigos com base nos valores e nas crenças?
Havia uma pergunta sobre a convicção religiosa dos amigos mais chegados. As respostas foram claras. Para os católicos praticantes, os amigos mais chegados eram católicos praticantes, os não praticantes eram não praticantes e com os ateus/agnósticos eram ateus/agnósticos, há uma identificação nítida, isso foi muito claro.

Depois foi aplicada uma análise multivariada que pega em vários variáveis para criar uma tipologia. Dessa análise geraram-se três tipos de católicos: Os católicos nucleares, cerca de 26%, os Católicos intermédios cerca de 20% e os não católicos, cerca de 54%.

Por católicos nucleares podemos entender pessoas para quem a identidade católica é o centro da sua vida?
São as pessoas com mais crenças católicas, mais prática e por último são os que seguem mais as normas da Igreja em relação a aspectos como o casamento, a vida e a sexualidade.

Presumo que seja uma área que estava por estudar…
A religião, como domínio da sociologia em Portugal, não tem muitos seguidores. Havendo essa oportunidade aproveitei, também por interesses pessoais.

Algum padrão em relação às disciplinas estudadas por estes alunos?
Sim. Em termos de género as raparigas são mais religiosas que os homens, isso vem ao encontro de vários estudos. Em relação às áreas de ensino os mais religiosos são os de engenharia civil, do Técnico, e de medicina; e os menos religiosos são os de ciências, neste caso de biologia, da faculdade de ciências e das ciências sociais, principalmente os de Relações Internacionais da Faculdade da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Nova.

Mais alguma coisa a acrescentar?
Nestes três tipos religiosos que referi depois fez-se um cruzamento com os vários aspectos da vida, que são 23. Deste cruzamento houve uma reformulação dos tipos religiosos. Os católicos nucleares passaram a ser os “ortodoxos socio-centrados”, porque são aqueles que dão mais importância às relações sociais, a família, o amor, o associativismo.

Os intermédios passaram a chamar-se heterodoxos ambiciosos, porque prezam acima de tudo o sucesso profissional e escolar. E por último, os não católicos passam a descrente-activistas e hedonistas, porque prezam acima de tudo a política e as relações sexuais.

Existe a ideia de que a sociologia é muito dominada por uma ideologia muito de esquerda, anti-religiosa. Pode-se generalizar assim?
Sim e não.

Emile Durkheim
No seu começo, se tomarmos o Comte como pai da Sociologia, ele queria criar uma alternativa à Igreja Católica, apesar de ele ser um grande admirador da Igreja, pelo papel desempenhado ao longo da história. Ele defendia que havia três fases na história, a fase teológica, a metafísica e a positiva e que estávamos a entrar na fase positivista. Na fase positivista a sociologia seria a nova religião e os sociólogos seriam os novos sacerdotes.

Isto para dizer que se na sua base a sociologia é uma ciência que tem como objectivo ser uma alternativa à religião católica, obviamente que os sociólogos, baseando-se nos documentos da disciplina não serão fervorosos adeptos da religião.

Os dois clássicos da sociologia, o Weber e o Durkheim também não eram religiosos e também contribuem para que a disciplina não seja adepta da religião. Um terceiro aspecto, que vai contra isto, é na sociologia religiosa francesa e belga, que influenciou bastante a sociologia religiosa em Portugal, estão ao dispor da pastoral da Igreja e influenciaram mais tarde a criação do Secretariado de Informação Religiosa do D. Manuel Franco Falcão, na altura sacerdote em Lisboa, tinha um boletim de informação pastoral. Basicamente trouxeram a sociologia da religião de França para Portugal.

Entretanto a revolução de 1974 veio trazer grandes mudanças à sociedade portuguesa e à sociologia. O que se pode dizer hoje em dia é que em Portugal a sociologia em geral é uma ciência que está mais vinculada ao ateísmo e ao agnosticismo, eventualmente pode haver algumas pessoas religiosas.

Na sociologia da religião em Portugal, as pessoas estão vinculadas ou têm alguma simpatia pela religião, não há ateísmo ou agnosticismo militante. Lá fora é a mesma coisa.

[Corrigido no dia 15 de Julho]

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