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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Não Existe Cultura Secular

James Matthew Wilson
O Simon During formulou um argumento deprimente, mas convincente, sobre a relação entre religião e cultura na revista “The Chronicle of Higher Education”, uma referência no meio académico actual. Diz ele que a secularização do Ocidente moderno não implicou o abandono da religião, mas a sua redução a uma dimensão opcional da vida humana (uma ideia retirada do importante livro “A Secular Age”, de Charles Taylor). A despromoção da religião levou à promoção da cultura. A cultura, nos tempos modernos, tornou-se um novo termo-divino que dá coerência à civilização e à sociedade – uma espécie de substituto imanente para a transcendência da fé cristã. Como defendia Matthew Arnold, a cultura salvar-nos-á da anarquia.

Mas essa substituição está agora a ser desfeita, argumenta During, por uma segunda secularização. Tal como a autoridade da Igreja sofreu uma erosão por causa de vários eventos que convergiram numa ordem política secular, agora uma série de eventos, desde o neoliberalismo até ao feminismo e à política identitária, levou à rejeição dos cânones da cultura.

Já não é necessário ter uma certa apreciação pela Paixão de São Mateus, de Bach, ou da Eneida, de Virgílio, para se ser considerado um ser humano minimamente civilizado. Pelo contrário, esse tipo de conhecimento pode ser prejudicial. Mais vale passar o tempo a estudar análise de risco ou cibersegurança, dizem-nos os tecnocratas neoliberais. Ou então crítica pós-colonial de Virgílio ou, melhor ainda, deixar esse cadáver para trás em troca pelo estilo lírico de uma representante de povos não-ocidentais, ou um defensor da “pedagogia dos oprimidos”.  

Esta versão da história proposta por During pode não seguir as leis férreas da história, mas tem a sua própria dinâmica que é difícil de contrapor, ainda que não sejamos fãs. Mas eu gostaria de olhar apenas para a ligação que ele faz entre as secularizações religiosa e cultural e levantar algumas questões sobre a própria ideia de a cultura ser um “substituto” da religião. Na minha opinião as grandes obras culturais são antes expressões fortes da verdade do Cristianismo.

Não é por acaso que autores do início do Século XX, como Henri Massis, Charles Péguy, T.S. Elliot e Christopher Dawson tendiam a alternar entre a defesa do Cristianismo e da cultura, usando o termo nebuloso “Ocidente”. Eles compreendiam, e bem, que o Cristianismo transcende todas as realidades históricas, incluindo a cultura ocidental, e sabiam também que seria difícil, se não impossível, ter uma sem o outro.

Viam-no porque é, de uma forma muito particular, verdade. Devemos aos melhores filósofos pagãos as descrições mais convincentes e bem articuladas sobre o que significa ser humano. Os seres humanos são criaturas cuja alma aspira, por natureza, ao conhecimento da verdade por si só; criaturas que não desejam apenas a verdade, mas precisam de a contemplar. Assim nos sentimos preenchidos, felizes, e as nossas vidas transformam-se da vã perseguição da glória mundana para o descanso na eterna glória de tudo o que é, do próprio Ser.

Esta foi uma conquista cultural difícil, mas mais importantemente, foi uma conquista religiosa. A revelação de Deus a Israel e o envio do seu Filho ao mundo para proclamar a Boa Nova conduziu o mundo à plenitude predestinada da sua compreensão. A contemplação da verdade preenche-nos porque a Verdade é uma pessoa que nos criou para o conhecermos e amarmos. Encontrá-lo e viver nele não é apenas uma boa nova, é a única nova que permanece sempre boa.

A era moderna descrita por During e Taylor como sendo secular nunca abandonou verdadeiramente estas visões, embora as tenha truncado e despido dos seus verdadeiros sentidos. Reconhecia que existia algo distintivo e misterioso sobre as pessoas: Somos feitos para a transcendência. A era moderna simplesmente parou de especificar de que tipo de transcendência estava a falar e, pelo caminho, ofuscou a sua própria visão.

Sim, temos almas, dizem os modernos: elevamo-nos acima das nossas existências materiais, pelo menos de tempos a tempos, num ato de autoconsciência. As obras da alta cultura são tudo o que parecem ser – desde a filosofia de Kant às pinturas de Friedrich, à opera de Wagner ou à poesia de Rilke. Recordam à alma esquecida que é capaz de subir acima das leis mecânicas da natureza, ainda que apenas por instantes.

Enfim, a cultura moderna também pôde afirmar esta elevação, este êxtase, mas só como um tipo de patologia. Temos momentos de iluminação e depois afundamo-nos novamente na carne. “Tangendo-me de ti [espírito eterno] de volta à solidão”, como escreveu Keats. Eventualmente as pessoas compreenderam o esquema. Para quê preocupar-se com uma transcendência sem sentido? Parece demasiado etérea quando comparada com a transcendência mais funcional do dinheiro, através do qual asseguramos para nós mesmos uma imortalidade em miniatura. Já a elevação cultural parece uma indulgência narcisista quando comparada com a transcendência de perseguir bens políticos que poderão permanecer para além de nós.

Uma secularização sucede necessariamente à outra. A fundação da cultura, como disse frequentemente Joseph Pieper, é o cultus – o culto. Sem um claro sentido da nossa orientação para a contemplação de Deus, todas as obras do homem que parecem verdadeiras, boas, e belas começam a parecer primeiro meras distrações e finalmente ilusões.

Em “A Pessoa e o Bem Comum” Jacques Maritain argumenta que o ser humano é uma criatura ordenada para a comunhão imediata com Deus, mas que a personalidade revela ainda uma tendência para a comunhão com outros seres. O tesouro da cultura, como ele lhe chama, é simplesmente a irradiação da verdade e da beleza produzidos pela nossa tendência natural para nos unirmos a Deus e aos outros enquanto pessoas.

Se a Verdade não fosse uma pessoa com quem nos encontramos, não haveria uma experiência primordial da qual a cultura é uma espécie de fruto, nenhuma orientação para o sagrado, nenhuma expressão de nós mesmos na ordem “secular”. Mas pelo contrário, todos os nossos encontros com a obras culturais são pistas, reflexões, ecos sobre a natureza e o destino do homem. Escutem-nos.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de janeiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


quarta-feira, 13 de março de 2019

Os Católicos Interessam-se por Arte?

James Matthew Wilson
Em Dezembro de 2013 o poeta e antigo presidente do National Endowment for the Arts, Dana Gioia, publicou um artigo na revista First Things que revelava um certo paradoxo na cultura Americana: “embora o catolicismo constitua o maior grupo religioso e cultural dos Estados Unidos, actualmente esse grupo praticamente não goza de qualquer presença positiva nas belas artes americanas – nem na literatura, nem na música, nem na escultura, nem na pintura.”

Há meio século havia muitos católicos entre as fileiras dos autores mais respeitados da América, a maioria dos quais viam uma grande e fecunda interligação entre a sua vocação literária e a sua vocação batismal. Basta pensar em Thomas Merton e em Flannery O’Conner para se ter uma ideia disso mesmo.

Como os leitores bem sabem, o debate público hoje em dia é marcado por um espírito de fúria acéfala e acusação imediata e isso ficou patente na reação crítica ao ensaio de Gioia. Foram publicadas muitas respostas e a maioria foram de indignação. Se Gioia não via uma abundância de arte e literatura católica, então não estava a procurar com suficiente atenção. Ela existe, às pazadas, à espera de leitores.

Por mais bem-intencionadas que fossem essas respostas, não perceberam o ponto. É evidente que o artigo “O Autor Católico Hoje” foi escrito com o objetivo de levar tanto os autores com os leitores católicos a tomarem nota uns dos outros “Hoje” como já aconteceu no passado. Normalmente os autores preocupam-se, e bem, em produzirem boas obras; os leitores em ler o que lhes parece ser de qualidade.

O que não é um mau princípio, mas para edificar, renovar ou mudar uma cultura, essas duas atividades devem ser levadas a cabo com uma certa consciencialização ou intenção. E, a maioria das pessoas simplesmente não refletem sobre esse tipo de coisas se não tiverem sido provocadas por um bom lamento. Têm mais com que se preocupar.

Mas o artigo de Gioia pô-las a preocupar-se. Os autores puseram as mãos no ar, irritados por não estarem a ser reconhecidos e muitos leitores exprimiram, talvez pela primeira vez, desgosto por não haver ninguém da qualidade de T.S. Eliot a escrever nos nossos dias. Claro que o Gioia não queria apenas exasperar os seus leitores, mas inspirar a criação de instituições. Ele queria que todas as pessoas interessadas se interrogassem sobre que tipo de instituições podiam ser criadas para apoiar e cultivar a renovação da literatura católica.

As respostas não tardaram. Há alguns anos já tinham sido fundados os jornais literários “Image” e “Dappled Things” e a pequena editora Wiseblood Books começou a publicar romances, poesia e crítica ao estilo de O’Connor. Esta foi uma oportunidade para alertarem o mundo para o seu trabalho. O próprio Gioia organizou uma conferência de três dias no Institute for Advanced Catholic Studies, da University of Southern California, sobre o Futuro da Imaginação Literária Católica. Compareceram centenas de pessoas, incluindo alunos dos liceus católicos da zona.

E nos meses seguintes aqueles que se tinham reunido na conferência voltaram para casa e tentaram fazer algo novo. A professora de Inglês Mary Ann Miller fundou a revista Presence, focada na poesia católica. Outros, de Fordham e da Layola de Chicago, concordaram em tornar a conferência um evento bienal. Realizou-se em Fordham, em Abril de 2017 e em Chicago, em Setembro de 2019. Outros ainda criaram séries de leitura e de conferências nas suas universidades ou casas, para juntar autores e leitores. 

O sonho do Poeta, de Cézanne
Faço a revisão desta breve história hoje, enquanto considero a pequena parte que nela desempenho e que ainda agora está a começar.

Há cerca de um ano a Franciscan University Press, de Steubenville, no Ohio, pediu-me para lançar uma série de poesia. Propus a criação da Colosseum Books, que tem a seguinte missão:

No mundo antigo, os progressos civilizacionais de Roma foram transformados e levedados pelo espírito do Cristianismo. O Coliseu era um símbolo do esforço e do sofrimento envolvido neste renascimento, mas também de vitória final e de união, na medida em que o Cristianismo emergiu para tomar posse dos tesouros de Atenas e de Jerusalém, com a capital espiritual em Roma. Na era moderna, o autor inglês Christopher Dawson editou a revista Colosseum, um fórum para estimular a relação entre o mundo intelectual católico e a cultura e a arte contemporâneas. Nas suas páginas grandes mentes como as de Dawson, Jacques Maritain e E.I. Watkin estudaram e discutiram as proezas literárias de T.S. Eliot, Sigrid Undset e outros autores do renascimento literário católico e não só.

Animados pelo mesmo espírito de luta e renascimento, transformação e síntese, propomo-nos a publicar obras novas importantes, escritas por poetas contemporâneos que mereçam a atenção de leitores sérios. Os volumes serão simultaneamente obras de humidade e de ambição, de engenho e de espírito, criados por autores atentos às responsabilidades laborais do artista e da compreensão clássica das belas artes enquanto ocasião de epifania e beleza. Recordar-nos-ão do verdadeiro alcance do intelecto, o grande drama da vida humana, a disciplina e dedicação do trabalho sério e o grande destino do Homem.

Agora, que nos aproximamos da publicação dos dois primeiros Livros Colosseaum, esta Primavera, pediram-me ainda que criasse um programa para aspirantes a autores. Daí que o primeiro Instituto de Verão Colosseum terá lugar em Julho, juntando quinze jovens poetas no Campus da Franciscan University ao longo de quatro dias de discussão sobre a filosofia da arte e da beleza, a história da forma poética e um atelier para aperfeiçoarem o seu próprio estilo. Planeamos trazer autores de renome para lerem as suas próprias obras e partilhar a sua sabedoria enquanto tentamos, de alguma forma, edificar a cultura literária católica, que está a precisar de renovação.

Não é natural que um empreendimento deste estilo gere grande indignação ou revolta. Mas, um dia, dentro de alguns anos, alguém há de se queixar: “Porque é que já não há grandes autores católicos?”. E algum leitor casual poderá responder: “Bom, grandes, não sei, mas digo-te já uma dúzia que são bons”. Isso já seria um bom começo.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 9 de março de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Duas Caras na Multidão

Randall Smith
Tinha acabado de tirar os olhos de uma das caras quando vislumbrei a outra. A primeira era a cara de um pobre senhor camponês (“Estudo para o Retrato de um Velho”) pintado pelo grande artista norueguês Edvard Munch quase duas décadas antes do seu trabalho mais famoso, “O Grito”.

Tive o privilégio de estar a visitar a fantástica exposição sobre Munch e Van Gogh no Museu Van Gogh em Amesterdão com a minha mulher e um grande amigo. Uma das coisas que ressalta logo sobre os primeiros trabalhos de ambos estes grandes artistas é o seu interesse pelas vidas e caras de simples camponeses, como aquele que tinha acabado de ver.

Estudo para o retrato de um velho
Mas quando me voltei do quadro do pobre camponês os meus olhos não repousaram sobre a famosa cara angustiada de “O Grito” – isso ficaria para mais tarde. Em vez disso vi uma cara ainda mais espantosa, tendo em conta onde me encontrava. Era a cara pura e simples de um adolescente com trissomia XXI, a observar aquelas pinturas com admiração e espanto, tal como nós, num país onde muitas pessoas teriam partido do princípio que ele simplesmente não tinha suficiente “qualidade de vida” para existir.

Diante de mim, a poucos quilómetros da casa onde Anne Frank se escondeu dos seus algozes por ser considerada “geneticamente impura”, estava um jovem cuja alegada “impureza genética” tem levado ao extermínio daqueles que partilham da sua condição.

Todos sabemos que as crianças com trissomia XXI têm aquela cara distintiva. É mais fácil de identificar do que o judaísmo. Quantas das pessoas artisticamente sensíveis que passeavam por aquele museu holandês, agiriam com base no desejo de não ter olhar para aquela cara ou outras como ela? Cerca de 92% das crianças com trissomia XXI são actualmente abortadas. Há quem diga que, ao ritmo actual, a Dinamarca, por exemplo, poderá ver a sua última criança com trissomia XXI até ao ano 2030.

O que é que estes estetas holandeses estariam a pensar quando viam esta simples cara entre eles? O que é que os terá preparado para esta visão numa nação que há muito perdeu a sua ligação a uma cultura que interessa – uma cultura que costumava valorizar de forma especial, na sua maior arte, as vidas dos pobres e desapossados?

"genéticamente impura?"
Mas aquilo que mais me interessava naquele momento era o que estaria a passar pela cabeça do meu amigo, uma vez que ambos vimos o rapaz ao mesmo tempo. É que o meu amigo tem um filho com trissomia XXI e, como qualquer pai, eu sabia que ele seria ainda mais sensível a tudo isto e protectivo desta criança. Ele teria reparado naqueles olhares desconfortáveis e condenatórios milhares de vezes e sabia que naquele instante só queria gritar.

O Munch descreveu da seguinte forma a inspiração para “O Grito”:
Estava a caminhar na rua com dois amigos – o sol estava a pôr-se – de repente o céu ficou cor de sangue. Parei, sentindo-me exausto, e encostei-me à cerca. Havia sangue e línguas de fogo por cima do fjord azul e preto e da cidade. Os meus amigos continuaram a andar e eu fiquei ali a tremer de ansiedade – e senti um grito infinito a passar pela natureza.

O desenho original e as subsequentes pinturas que Munch produziu com base nele são geralmente interpretados como representações da angústia e da ansiedade do mundo moderno, despido de todas as suas amarras à fé e à tradição.

Houve uma altura em que as pessoas pensavam que podiam substituir a “religião” com a espiritualidade das artes. Pensar-se-ia que o holocausto tinha acabado com essa tolice. Havia grandes obras de arte expostas no Rijksmuseum em Amesterdão, a uns meros 15 minutos a pé de onde a Anne Frank e a sua família estavam escondidos num anexo secreto durante os anos escuros da Segunda Guerra Mundial. E agora damos por nós novamente a defender as vidas dos “geneticamente impuros” contra as selvajarias da elite bárbara que se apresenta como grande guardiã da cultura.

Quem não conhece a história está condenado a repeti-la. E demasiadas vezes até aqueles que conhecem a história recusam-se a deixar que ela sirva de aviso ou de juízo. “Afinal de contas, não somos nazis”, dizem as pessoas, como se não fosse expectável que as nossas aspirações fossem um bocadinho mais altas que isso.

Quando começarmos a ver “grandes artistas” a procurar novamente a face de Cristo nas caras dos pobres e nas caras das crianças com trissomia XXI em vez de gastar toda a energia na sua libido sexual, teremos uma cultura a que vale a pena prestar novamente atenção. Até lá será mais da mesma masturbação artística auto-indulgente.

O Grito, de Edvard Munch
leiloado por 120 milhões
Uma cultura deve ser julgada com base no valor que dá aos membros mais fracos da sua sociedade e da forma como cuida deles, e não no valor que gasta nas suas pinturas e nos seus museus. A nossa é uma cultura em que a versão de pastel sobre madeira de 1895 deste quadro foi vendido no Sotheby’s de Londres no dia 2 de Maio de 2012 por um recorde de 120 milhões de dólares. Mas é também aquela em que 92% das crianças com trissomia XXI são abortadas. Não, não somos nazis. Mas daqui a 100 anos nenhuma pessoa decente olhará para o nosso tempo com um sentido de orgulho.

Se o Papa Francisco está a pensar montar um “hospital de campanha” no meio de uma batalha furiosa, então não precisa de ir mais longe do que os campos da morte da Europa e da América. É tão inútil perguntar a uma cultura seriamente ferida se tem as compensações de carbono em ordem como é perguntar a um ferido grave no campo de batalha se tem problemas de colesterol. Protejam primeiro as nossas crianças. Depois podemos falar de tudo o resto.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 6 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Civilização do Espectáculo

George J. Marlin
Em 1948 o grande poeta anglo-americano e vencedor do prémio Nobel T.S. Eliot publicou uma curta obra chamada “Notas para uma Definição de Cultura”, onde argumentou que a cultura é “essencialmente a encarnação da religião de um povo” e que na Europa a religião que influenciava a cultura era o Cristianismo:

Foi no Cristianismo que as nossas artes se desenvolveram; foi no Cristianismo que as leis da Europa tinham – até recentemente – as suas raízes. É com o Cristianismo como pano de fundo que todo o nosso pensamento tem significado. Um europeu individual pode não acreditar que a fé cristã é verdadeira, porém o que diz, e produz e faz jorrará da sua herança de cultura cristã e dependerá dessa cultura para ganhar significado. Só uma cultura cristã poderia ter produzido um Voltaire ou um Nietzsche. Não creio que a cultura da Europa possa sobreviver ao desaparecimento completo da fé cristã.

Agora, num livro recém-traduzido [para inglês], “A Civilização do Espectáculo”, outro laureado com o Prémio Nobel da literatura, o romancista Mario Vargas Llosa, revisita a tese de Eliot e critica a era actual da cultura ocidental como sendo não só sub-cristã, mas por se ter tornado uma espécie de não-cultura.

Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, Vargas Llosa foi educado em colégios católicos e recebeu o seu doutoramento da Universidade Complutense de Madrid. Desde os 16 anos que foi jornalista amador e acabou por se mudar para Paris depois de terminados os seus estudos, onde tentou a sua sorte como escritor a tempo inteiro.

A Cidade e os Cães”, o seu primeiro romance, publicado em 1963 e que descreve a vida numa academia militar peruana, atraiu muitos elogios nos círculos literários e recebeu o Prémio da Crítica Espanhola, mas foi descartado como a obra de uma “mente degenerada” pela estrutura militar autoritária do Peru.

Rejeitando o marxismo e o socialismo, Vargas Llosa – que foi eleito presidente da PEN International em 1975 e concorreu, sem sucesso, à presidência do Peru em 1990 – sublinhou nos seus romances que se a América Latina quer sobreviver, as suas nações-estado devem abraçar a democracia liberal.

Em 2010, quando foi anunciado que Vargas Llosa ia receber o Prémio Nobel, o comité elogiou-o pela sua “cartografia de estruturas de poder e imagens mordazes da resistência, revolta e derrota do indivíduo”. Revendo a sua carreira, o conhecido crítico literário Clive James disse que ele “exemplificava da melhor maneira a relação entre a literatura e a política no final do século XX na América Latina”.

Tal como Eliot, Vargas Llosa acreditava que a cultura “nasce no seio de uma religião” e que apesar de a cultura ocidental ter evoluído para longe do Cristianismo nos tempos modernos, “estará sempre ligada, por uma espécie de cordão umbilical, à sua fonte de alimentação”.

As proclamações feitas por ideólogos do século XX de que Deus morreu, diz Vargas Llosa, “não significaram a advir do paraíso na terra, mas antes um inferno que já tinha sido prefigurado no pesadelo dantesco da Comédia… O mundo, liberto de Deus, tornou-se gradualmente dominado pelo demónio, um espírito do mal, da crueldade e da destruição que culminaria nas guerras mundiais, os crematórios nazis e os gulags soviéticos”.

Vargas Llosa revela desespero pelo facto de ter testemunhado, na sua vida, a diminuição da cultura à mão de vigaristas. As elites sociais já não se devotam a promover e preservar a alta cultura, mas são apenas snobs. Os artistas, músicos e autores raramente procuram criar obras que “transcendam o mero tempo presente” e “permaneçam vivos para futuras gerações”. Em vez disso as suas obras são “consumidas instantaneamente e desaparecem como bolo ou pipocas”. Os empreendimentos culturais têm de ter um valor comercial e não um valor intrínseco: “O que tem sucesso e vende é bom e o que falha ou não chega ao público é mau”.

Esta cultura gasta, conclui Vargas Llosa com tristeza, “privilegia a esperteza em vez da inteligência, as imagens sobre as ideias, o humor sobre a gravidade, a banalidade sobre a profundidade e a frivolidade sobre a seriedade”. Em resultado disso, mostra-se preocupado que os teólogos e os filósofos, que tradicionalmente ajudavam a formar a visão de uma sociedade, tenham sido substituídos por publicitários.

Lamenta que os concertos a abarrotar tenham substituído as cerimónias litúrgicas: “Nestas festas e concertos lotados os jovens de hoje comungam, confessam, alcançam redenção e encontram a realização através desta experiência intensa e elementar de se perderem de se próprios.”

Quanto à utilização de drogas, Vargas Llosa afirma que elas permitem às pessoas gozar de “prazer rápido e fácil”, evitando a busca de conhecimento que apenas se consegue através do pensamento introspectivo: “Para milhões de pessoas as drogas desempenham agora o papel, previamente desempenhado pela religião e pela alta cultura, de apaziguar as dúvidas e as questões sobre a condição humana, a vida, morte, o além, o sentido ou a falta de sentido da existência”.

Mas apesar destes declínios das normas culturais tradicionais e da crença de livres-pensadores, agnósticos e ateus de que os avanços científicos irão tornar a religião obsoleta, Vargas Llosa nota que a religião está viva e muito activa. Os secularistas não “conseguiram purgar Deus do coração dos homens e das mulheres, nem acabar com a religião”.

O facto de tantas pessoas ainda pertencerem a religiões estabelecidas e de os hippies e outros boémios dos anos sessenta, terem abraçado os ensinamentos religioso-psicadélicos de Timothy Leary ou voltado para a Igreja da Unificação Moonie, ou a Cientologia ou Budismo ou Hinduísmo apenas demonstra, na perspectiva de Vargas Llosa, que as pessoas precisam de alguma forma de consolo ou salvação.

Embora Vargas Llosa tenha abandonado a sua fé católica, ele admite que está constantemente em busca de uma nova. Isto porque está convencido que “uma sociedade não pode alcançar uma cultura democrática sofisticada – por outras palavras, não consegue ser verdadeiramente livre ou respeitadora da lei – se não for profundamente saturada de vida moral e espiritual, que para a imensa maioria dos seres humanos é indissociável da religião”.

Devemos esperar que quando o Mario Vargas Llosa chegar ao fim da sua busca a sua mente tenha redescoberto a religião da sua juventude.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ideologia do género não é a solução, é o problema

Desde que não engravides...
O Papa Francisco criticou a ideologia do género, esta manhã, dizendo que eliminar a diferença entre os sexos não é a solução, é o próprio problema.

Por esta hora, na Sinagoga de Lisboa, está a ser homenageado do padre Joaquim Carreira, que foi considerado “Justo Entre as Nações” pelo memorial do holocausto, Yad Vashem.

Esta tarde representantes das três principais religiões em Portugal juntaram-se para discutir a relação entre a cultura e a religião, concluindo que a cultura pode ser mesmo o antídoto para o fanatismo religioso.

Já perdi a conta às vezes que ouvi dizer que a pílula contraceptiva é não só, e magicamente, isenta de efeitos secundários negativos, como até tem só vantagens. Também já estou habituado a ouvir falar nos métodos naturais como os “métodos da Igreja”… Ora aqui está um artigo do The Catholic Thing para acabar definitivamente com ambos os mitos. Divirtam-se!

terça-feira, 27 de março de 2012

A Igreja tem de reconciliar-se com a sua própria cultura

Quem quer ter uma relação profunda com alguém deve primeiro estar em paz consigo mesmo. Por essa razão, diria que a coisa mais importante a fazer neste campo é a Igreja reconciliar-se com a sua própria cultura.

Não estamos a falar de uma instituição que nasceu ontem, ou há uma década. A Igreja tem dois mil anos de cultura, fora outros tantos milhares que herdou da civilização judaica no seio da qual nasceu. Durante centenas de anos esta Igreja não só interagiu com a cultura dominante como foi a sua principal impulsionadora e mecenas.

Este estado de coisas levou a uma certa reacção. O mundo da cultura revoltou-se contra a Igreja e toda a tradição cristã, ao ponto de ambos os universos terem ficado quase de costas voltadas. Mas a revolta não se deu só do lado da cultura, também a Igreja se revoltou, em larga medida, contra si mesma. Um mal definido “espírito” do Concílio Vaticano II foi interpretado por muitos como uma licença para ignorar dois milénios de cultura católica, na vã esperança de que diluindo essa identidade a instituição se tornasse mais apelativa a quem tinha criado anticorpos a tudo quanto era clerical.

Modernizou-se a liturgia, tudo bem. Mas era preciso criar um clima em que o mero interesse pela liturgia antiga fosse vista praticamente como crime? Quantas dioceses em Portugal aplicaram o Summorum Pontificum? Não é por falta de interessados.

Existem na Igreja Ocidental três dioceses que têm o privilégio de usar uma variante distinta do rito romano. Milão, Toledo e Braga. Os dois primeiros cultivam e protegem essa riqueza. Por cá, quantos dos leitores já assistiram a uma celebração do rito Bracarense?

Damos por nós, enquanto Igreja, a incentivar os cristãos orientais a redescobrirem as suas raízes e a manterem as suas tradições e culturas distintas (e que fontes de riqueza são!), ao mesmo tempo que fechamos os olhos a séculos de cultura litúrgica e espiritual ocidental. Sempre achei a pior forma de paternalismo lutar pela cultura alheia enquanto tudo se faz para suprimir a nossa, dando a ideia que somos muito modernos mas que os outro devem ser preservados, quais peças de museu, para podermos observar e admirar.

Mais grave, ao abandonar a nossa herança permitimos que estes domínios se tornem bandeira quase exclusiva de movimentos tradicionalistas, e por vezes cismáticos, de carácter frequentemente duvidoso.

Hoje em dia percebemos cada vez melhor que não podemos ir ao encontro de outros sem conhecer algo sobre eles. Vemos a um ritmo quase diário o custo da falta de preparação cultural de agentes ocidentais que actuam em regiões como o Médio Oriente ou, para citar um caso mais recente, no Afeganistão.

Não temos então a obrigação de nos reconciliarmos com a nossa própria cultura? Familiarizar-nos com ela, explorá-la, recuperar o que for para recuperar, antes de nos sentirmos capazes de olhar nos olhos os nossos interlocutores do mundo da cultura?

Penso que sim. Sei que há uma nova geração, quer de leigos quer de padres, menos próximos do Concílio e que rejeitam o ambiente de ruptura que dele surgiu em muitos lados. Caberá a estes cristãos pôr fim a uma guerra fratricida com o qual não nos identificamos e que apenas prejudica a Igreja. Acredito mesmo que é urgente fazê-lo, sob pena de o mundo cultural nos considerar insignificantes e não ver qualquer utilidade em dialogar connosco.

Filipe d’Avillez

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ecumenismo musical e cooperação com o mal

A situação na Síria mantém-se muito grave e valeu um apelo à paz por parte de Bento XVI esta manhã. O Papa falou também da importância do silêncio na oração.

Por cá ficámos a saber o tema da próxima catequese quaresmal do Patriarca de Lisboa. D. José Policarpo falará da importância da cultura e desafia os católicos a envolverem-se mais nela.

O diálogo ecuménico também se faz com a música. Prova disso é que o coro da abadia de Westminster (na imagem) irá actuar no Vaticano em conjunto com o coro da Capela Sistina. Um momento histórico para ambos os grupos.

E voltamos novamente à “guerra” entre os bispos americanos e Obama por causa da situação da liberdade religiosa versus contraceptivos. O Cardeal Timothy Dolan escreveu aos bispos a dizer que a Igreja não queria esta guerra, mas também não vai fugir dela, e enumera os últimos desenvolvimentos e a estratégia para o futuro.

O artigo que hoje publicamos no blogue de “The Catholic Thing” parte novamente desta questão para analisar o problema da cooperação com o mal, do ponto de vista da teologia moral, de uma forma fácil de compreender. É uma análise que também se pode aplicar à questão das prostitutas na Mouraria, que vimos nos últimos dias, e a tantas outras situações das nossas vidas.

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