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quarta-feira, 26 de abril de 2017

“Que o seu sangue caia sobre nós!”

Randall Smith
De todas as leituras do tempo pascal, o que mais me perturba é a passagem de Mateus 25,27, quando a multidão clama “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” Talvez valha a pena recordar que esta passagem encontra-se no Evangelho de Mateus, que era judeu. Estará ele a invocar sobre o seu próprio povo uma maldição multisecular? Não me parece o caso. Este é um mal-entendido frequente, com consequências particularmente trágicas neste caso, mas que corresponde a um padrão comum.

Este “padrão” envolve pegar numa passagem que tem a ver com o sacrifício desinteresseiro de Cristo por toda a humanidade e interpretá-la de uma forma essencialmente pagã, como se Cristo fosse Zeus, ou Apolo.

Um exemplo clássico disto mesmo tem a ver com a forma como algumas pessoas interpretam Efésios 5,22-25, em que São Paulo estabelece uma analogia entre maridos e mulheres e Cristo e a Igreja. As mulheres estão para os seus maridos como a Igreja está para Cristo, e os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a Igreja.

Por alguma razão – e penso que isto tem tanto a ver com a nossa natureza pecaminosa como com maus hábitos de interpretação bíblica – algumas pessoas, sobretudo homens, pensam que isto significa que os maridos podem dominar as suas mulheres. Mas quando é que Cristo dominou a Igreja, se entendermos o domínio como é praticado por um Rei pagão? Cristo lavou os pés aos seus discípulos e disse que “quem quiser ser o primeiro deve servir os outros”. Por isso, no meu entender, quando um marido diz à sua mulher “eu sou como Cristo para ti” ela devia imediatamente tirar as meias e esticar o pé para que ele o lave.

Os deuses pagãos como Zeus e Apolo exigiam que os humanos lhes fizessem sacrifícios. O Deus cristão sacrifica-se inteiramente por nós e morre para perdoar os pecados até daqueles que o crucificam. O que é que pode levar alguém a virar isto ao contrário e, em vez de ver o comentário de São Paulo como um convite ao serviço, interpretá-lo como uma exigência de ser servido?

Seja o que for, não é saudável. E não tem nada a ver com a forma como Cristo se revelou nas Escrituras.

O que nos traz de volta ao comentário perturbador: “Que o seu sangue caia sobre nós”. Enquanto cristãos, em que é que acreditamos? Acreditamos que no sangue de Cristo somos curados e os nossos pecados perdoados. Na Eucaristia, o sangue e o corpo de Cristo são-nos oferecidos tal como foram aos primeiros apóstolos.

A recepção do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia é uma das formas mais poderosas que temos de participar na morte e ressurreição salvífica de Cristo e de receber os seus dons de graça divina. O que nos leva a virar esta bênção de pernas para o ar e entendê-la como uma maldição, quando a intenção de Mateus ao contar esta história é obviamente de dizer que aquilo que se pensava ser uma maldição se tinha tornado, no caso do sacrifício de Cristo, uma bênção?

Jesus era judeu. Maria e todos os primeiros apóstolos também. Nós lemos a Nova Aliança à luz da Antiga, razão pela qual temos tantas leituras do Antigo Testamento na vigília de Páscoa. A única leitura que não deve nunca ser omitida durante a vigília, segundo as normas do Missal Romano, é a do Êxodo, sobre o resgate de Israel do Egipto: o evento que está no cerne da Páscoa do Antigo Testamento. Não podemos verdadeiramente compreender a Última Ceia e a celebração pascal do novo testamento sem este contexto. Como o próprio Cristo diz: “A salvação vem dos judeus” (Jo. 4,22).

Os romanos crucificaram Cristo. Qual o significado então de os judeus gritarem pela sua crucificação? De acordo com João 1,11: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. Foi rejeitado não só pelos romanos “estrangeiros” mas pelo seu próprio povo. E quem é o “seu próprio” povo? Quem é que os judeus representam? Todos nós: toda a humanidade, marcada pelo pecado, que rejeitou Deus.

Não é por nada que na liturgia de Domingo de Ramos toda a Assembleia clama “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Não são apenas os judeus, somos nós. E com eles dizemos: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” E cai mesmo sobre nós, porque é o sangue da Cruz que nos torna inteiros, o sangue da nova e eterna aliança, o sangue de Cristo derramado através do qual somos salvos.

Podemos pedir maior bênção para uma multidão do que esta, que o sangue de Cristo caia sobre ela e sobre os seus filhos?

Vêem como o sacrifício de Cristo transformou aquilo que era entendido como uma maldição numa bênção, não só para os que estavam presentes, mas para todos nós? Aqueles que usam esta passagem como desculpa para odiar ou perseguir judeus estão a passar ao lado da questão. Pior, estão a tornar a bênção de Cristo, comprada a alto preço com o seu próprio sangue, numa maldição novamente. Se esse não for o pior crime que se pode cometer contra o sacrifício salvífico de Cristo, então não sei qual é.

Ah, Santo Jesus, que ofensa cometestes
Que o homem, para vos julgar enveredou pelo ódio?
Desprezado pelos inimigos, rejeitado pelos seus próprios, oh, mais atormentado .

Não se iludam. Quando cantamos este hino, o inimigo somos nós; somos nós quem o rejeita; somos nós que traficámos ódio, disfarçado de rectidão. Somos nós quem o atormenta. Mas apesar de tudo, ele continua a amar-nos – um amor que Ele revela na plenitude derramando o seu sangue por nós na Cruz.

Por isso que o seu Sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos, pois é no seu sangue que somos redimidos e temos a vida eterna.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Abril de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Trump critica anti-semitismo e Pastorinhos são heróis para crianças

Imagem de N.S.F. enviada para o Iraque
O Papa Francisco pede a abertura de canais humanitários para refugiados que fogem de zonas de guerra.


Para as crianças, os pastorinhos são verdadeiros heróis, considera a autora Thereza Ameal, numa altura em que o bispo de Fátima espera que a canonização dos pastorinhos avance durante o centenário das aparições.

Decorreu no fim-de-semana o Faith’s Night Out. Correu da melhor maneira, aqui pode ler um pouco sobre a experiência.

Recentemente entrevistei o arcebispo de Lahore, no Paquistão, um local onde as escolas e igrejas cristãs mais parecem prisões e onde a Páscoa se transforma, num abrir e fechar de olhos, em Sexta-feira Santa.

No domingo tive a sorte de poder estar presente, em família, na missa campal em Cascais em que foi benzida uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que será agora enviada para o Iraque, juntamente com milhares de terços e dezenas feitos por crianças. O Presidente Marcelo também esteve presente e ficou tão impressionado como eu.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Auschwitz recordado em dia de Marcha pela Vida

Cliquem para aumentar
Faz hoje 72 anos da libertação de Auschwitz. O assunto não foi esquecido pelo Papa, que recebeu em audiência líderes de comunidades judias na Europa. Também hoje se soube que na Alemanha, nos últimos tempos, os ataques a judeus duplicaram.

O Papa disse também esta sexta-feira que são as pessoas que vivem “situações miseráveis” que estão mais sujeitas ao fundamentalismo. Disse-o num encontro com representantes da Igrejas Cristãs do Médio Oriente.

Encontra-se em Portugal por estes dias um arcebispo paquistanês que vai deixar o seu testemunho sobre a perseguição por parte de fundamentalistas islâmicos. Saiba aqui onde e quando pode ir ouvir monsenhor Sebastian Shaw.

No final da semana de oração pela Unidade dos Cristãos, católicos e evangélicos assinam uma declaração comum sobre o valor da vida. Ontem sete associações de profissionais católicos assinaram uma declaração conjunta de apoio à petição que pede aos deputados que não aprovem qualquer legalização da eutanásia ou morte assistida.

Por falar em unidade dos cristãos, amanhã há um encontro em Sintra. Cliquem no cartaz para ver os detalhes.

Está neste momento a decorrer em Washington a marcha pela vida. São centenas de milhares de pessoas nas ruas, mas desta vez o alvo das críticas não é Trump, é o aborto.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os novos herodes e as suas "entrevistas"

Pe. Van der Lugt, martirizado em 2014
Durante o ano de 2014 morreram 26 agentes pastorais da Igreja Católica. Vítimas de intolerância religiosa no Médio Oriente? Não. A maioria morreu no decurso de roubos violentos e o continente americano foi o mais mortífero.

O Estado Islâmico publicou mais uma edição da sua revista on-line, que inclui uma “entrevista” com o piloto jordano cujo avião foi abatido por cima da Síria.

O centro Simon Wiesenthal fez uma lista dos dez piores casos de anti-semitismo este ano. Em primeiro lugar o caso do médico belga que recusou tratar uma judia de 90 anos, dizendo: “Ela que vá passar duas horas em Gaza, passam-lhe logo as dores”.

O Vaticano publicou a mensagem do Papa para o dia Mundial do Doente, falando de como o apoio e cuidado aos doentes é um grande caminho de santificação.

Porque amanhã não sei ainda se vai haver Actualidade Religiosa, publiquei hoje o artigo desta semana do The Catholic Thing. Anthony Esolen fala da matança dos inocentes decretada por Herodes e recorda que herodes há muitos, ao longo dos tempos. É um excelente texto, a ler com atenção.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Neo-pagão equivocado no Kansas

Odin, o Deus para anti-semitas confusos
No passado domingo um homem matou três pessoas a tiro no Kansas… O que é que isto tem a ver com religião? Para começar, as três vítimas foram escolhidas por serem judias. Para acabar, o autor dos homicídios é um “neo-pagão” que adora Odin. Entretanto todas as vítimas eram, afinal cristãs…

Cada vez mais próximos da Páscoa, hoje a Renascença transmitiu a reportagem sobre duas mulheres que vivem a vida de forma intensa, mas encaram a morte com serenidade. Isabel Jonet e Leonor Castro dão testemunhos que vale a pena ouvir.

E o bispo de Bragança-Miranda recorda na sua mensagem pascal que “não há Páscoa sem Cruz, mas também não há Cruz sem Páscoa”.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, que serve sobretudo de alento aos cristãos pessimistas com o rumo do mundo. Perseguição? Been there, done that, e os cistercienses estão de volta a Zirc.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Papa atracção turística

"Aproveitem para ver a Capela Sistina, também"
A Igreja da Conceição Velha, em Lisboa, vai ser restaurada. A intervenção, a cargo da Santa Casa da Misericórdia, custará um milhão de euros. Santana Lopes defende o investimento.

Um movimento pelos direitos dos animais, na Bélgica, fez um anúncio contra a matança ritual de animais que evoca o ambiente do Holocausto… no comments.

O passado fim-de-semana foi de peregrinação das famílias a Roma. O Papa falou do casamento, que é “mais que uma linda cerimónia”, e recordou a importância da oração comunitária.

A propósito, na semana passada falei de uma entrevista ao casal Cortez Lobão, mas enganei-me no link. Fica aqui a correcção.

O turismo em Roma aumentou 7% no último ano. Mais um efeito do “fenómeno Francisco”!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem Queres Ser?

Randall Smith
Estávamos a discutir o extraordinário livro de Christopher Browning “Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland”, no qual descreve as circunstâncias à volta do massacre de quase 2000 mulheres e crianças judaicas no dia 13 de Julho de 1942, na pequena aldeia de Józefów, na Polónia.

Em lágrimas, o comandante do batalhão, Major Wilhelm Trapp, explicou aos seus homens a “tarefa desagradável” que lhes tinha sido confiada. Cada mulher e criança da aldeia seria levada para a floresta e forçada a deitar-se de barriga para baixo na terra. Colocando as baionetas entre as omoplatas, os soldados deviam dar-lhes um tiro na nuca. Adolescentes, avós, crianças com seis meses: todos deviam ser mortos até à aldeia estar vazia.

Terminada a explicação da tarefa, Trapp fez uma oferta extraordinária: se algum dos homens de entre eles não tivesse vontade de participar, podia retirar-se. Dos cerca de 500 homens no batalhão, apenas 12 o fizeram.

Todos os semestres discuto com os meus alunos porque é que tão poucos aceitaram a proposta, recusando-se a tomar parte na matança. Há uma série de razões, cada um dos quais está detalhado no excelente livro do Prof. Browning. Alguns dos homens que participaram no massacre afirmam que não tiveram tempo para pensar devidamente no assunto; outros dizem que “os tempos e o lugar eram outros” e que “naquela altura as circunstâncias eram diferentes”. Outros ainda disseram que não queriam “parecer fracos” diante dos outros, como se matar mulheres e crianças inocentes fosse algo que os fizesse parecer fortes.

A maioria das razões dadas por estes homens para não se terem recusado a tomar parte no massacre parecem-me, basicamente, treta, excepto uma: alguns dos homens disseram que tinham medo do que lhes poderia acontecer caso recusassem as ordens: “E se alguém nos apontar uma arma à cabeça e disser que nos mata se não matarmos os prisioneiros? Com a arma encostada à cabeça, sob pena de ser executado, temos culpa se matarmos o preso? Temos o dever de preservar a nossa vida, não? Se sim, seria ‘imoral’ matar o preso para preservar a nossa própria vida?”

Com estas perguntas os meus alunos revelam ser jovens adultos intelectualmente desenvolvidos. Porém, isto revela também alguns dos perigos para as suas vidas morais que derivam de lhes ensinar a ética da forma como costuma ser ensinada. Um professor meu referiu, certa vez, que os livros que são mais frequentemente roubados de bibliotecas são de ética, o que comprova algo de que ele sempre tinha suspeitado: que os cursos de ética não costumam tornar as pessoas melhores e mais virtuosas, pelo contrário, tendem a torná-las piores. Um bocadinho de conhecimento pode ser uma coisa muito perigosa.


Não quero ser mal-entendido. Não estou a criticar todos os cursos de ética ou de teologia moral. Seria estranho, uma vez que lecciono um desses cursos todos os semestres. Não, o que me preocupa é a forma como a ética costuma ser ensinada. Há uma série de assuntos importantes envolvidos em todos os dilemas morais que os meus alunos propuseram.

Cemitério judaico de Józefów
Na teologia moral clássica há distinções muito bem definidas entre níveis de culpabilidade, dependendo no grau de voluntariedade ou involuntariedade do acto. Determinar correctamente a culpabilidade de um agente é crucial, por exemplo, num tribunal por parte de um juiz ou de um júri.

Nas gerações anteriores essa consideração desempenhava um papel importante no confessionário. Se me obrigarem a fazer algo contra a minha vontade, cometi um pecado? Talvez até um pecado mortal? Se for escravo num galeão muçulmano, por exemplo, (para citar um famoso caso histórico), devo recusar-me a remar para os meus supervisores muçulmanos se isso implicar a minha execução? Nestas circunstâncias o que é que constitui cooperação “formal” com o mal, que em certos casos é permissível? Todas estas questões são interessantes e importantes, em certos contextos e por razões particulares.

Mas neste caso eu prefiro colocar a pergunta aos meus alunos do seguinte modo: Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão? Por enquanto não me interessa saber o que pensas que seria a solução “moralmente correcta”. Nem quero avaliar a culpabilidade de outra pessoa envolvida na situação. O que quero saber, muito concretamente, é o que é que esperas que seria a tua decisão? Que tipo de pessoa queres ser? As nossas decisões formam-nos.

Invariavelmente os meus alunos respondem: Espero que seria a pessoa com a coragem para não disparar, mesmo que isso me custasse a vida. E aí têm a resposta.

Podemos falar de “moral” e de “ética” como se fossem uma série de regras abstractas que nada tivessem a ver com o nosso carácter ou com a nossa formação enquanto pessoas completas e íntegras. Quando compreendemos a ética desta forma errada damos por nós a dizer parvoíces como: “Eu sei que não é moralmente correcto, mas ainda assim acho que é a decisão certa”, ou: “Pode não ser a decisão mais moral, mas é a melhor decisão” – como se o acto “moral” estivesse numa categoria totalmente diferente do que é “bom”.

São Tomás de Aquino pedir-nos-ia para considerar que categoria de virtude é relevante nesta situação. No caso referido, a virtude relevante é a coragem. Então perguntamos o que faria uma pessoa corajosa. E ao escolher correctamente, tornamo-nos aquilo que escolhemos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Chesterton: Santo? Talvez; Anti-Semita? Não

Michael Coren
Estou habituado a que me discutam, até que me ofendam, no Twitter e no Facebook. É o preço a pagar por ser jornalista. Se os comentários negativos no final dos meus artigos de opinião me influenciassem, há muito que tinha abandonado a profissão. Claro que os comentários positivos são todos inteiramente certeiros! O mês passado a discussão não foi sobre qualquer artigo recente ou sobre uma participação televisiva, mas sim sobre umas linhas de um livro escrito em 1988: “Gilbert: The Man Who Was G.K. Chesterton”.

Porquê o renovado interesse? Na altura eu defendi Chesterton de acusações de anti-semitismo e citei a biblioteca Wiener, de Londres, uma instituição dedicada ao estudo do Holocausto e do anti-semitismo, que explica que Chesterton, “não era um inimigo. Quando chegou a altura da verdadeira prova, ele mostrou de que lado estava”.

Claro que o timing é tudo; recentemente foi anunciado que o autor dos contos do Father Brown, “Ortodoxia”, “O Homem que era Quinta-feira”, as biografias de Aquino, Dickens e um sem número de outros livros e artigos de opinião está a ser considerado para beatificação.

Logo que isto se tornou público eu escrevi que a antiga acusação de anti-semitismo iria ser ressuscitada. Antes me tivesse enganado. Passado muito pouco tempo o influente e respeitado Jewish Chronicle, um semanário do Reino Unido, publicou um artigo intitulado: “Pode o inimigo dos judeus G.K. Chesterton ser um santo?

Penso que a formulação da pergunta revela a resposta. Segundo o autor Geoffrey Alderman: “Nunca deixa de me espantar o ponto a que algumas pessoas irão para desculpar ou minimizar expressões claras de anti-semitismo veiculadas por figuras públicas, no presente ou no passado... Chesterton era um romancista, jornalista e crítico literário de grande sucesso que se converteu ao Catolicismo. Roma gosta de retribuir os convertidos, talvez na esperança de seduzir outros a segui-los... Mas há um problema: Chesterton tinha uma aversão bem pública aos judeus e ao Judaísmo.”

Depois saca das citações e referências do costume, retiradas do seu enorme acervo literário, para provar que o homem odiava judeus.

Eu e o Alderman temos pelo menos duas coisas em comum. Ambos escrevemos sobre Chesterton, e ambos somos judeus. Eu tornei-me católico em 1985 mas, para um verdadeiro anti-semita, continuo a ser judeu. Se têm dúvidas deviam ler algumas das ofensas de que falei acima.

Todavia, enquanto judeu, tenho uma enorme dívida de gratidão para com Chesterton que, de tantas formas, me conduziu à Igreja. Isto não será grande consolo para o Sr. Alderman, mas é assim. Para uma pessoa que lutou contra o anti-semitismo toda a sua vida – como jovem reguila nas ruas de Londres e como adulto igualmente indisciplinado através da escrita – sinto-me bem qualificado a este respeito.

G.K. Chesterton
Sim, Chesterton fez alguns comentários feios, e tolos, em especial depois da morte do seu irmão Cecil, que provavelmente era um verdadeiro anti-semita. Cecil tinha lançado uma campanha contra um grupo de políticos, alguns dos quais judeus, mas morreu prematuramente em 1918. Gilbert, que tinha um fascínio pelo seu irmão, que era muito menos talentoso que ele, permitiu que a sua tristeza se transformasse em revolta contra os inimigos de Cecil.

Legou ao mundo uns versos fátuos sobre os judeus no seu romance “The Flying Inn”; mostrou-se pouco sensível nas suas palavras sobre os judeus em Inglaterra medieval; enganou-se e mostrou-se incaracteristicamente banal a respeito do julgamento Dreyfus e, nos seus piores momentos, deixou-se levar pelo mesmo caminho sujo com o seu irmão Cecil e o barulhento, mas não genuinamente anti-semita, Hillaire Belloc.

Mas devemos perguntar se um verdadeiro inimigo dos judeus poderia escrever: “O mundo deve Deus aos judeus”, ou que: “Darei a vida em defesa do último judeu na Europa”? Devemos questionar como é que ele conseguiu formar amizades tão próximas e íntimas com judeus durante toda a sua vida, pessoas que não teriam tolerado a proximidade de um anti-semita por um momento e que o disseram mesmo na altura e depois da morte de Chesterton.

Condenou o anti-semitismo, defendeu o sionismo, foi elogiado por líderes judaicos e, tão cedo como 1934, quando muitos intelectuais e políticos se mostravam ambivalentes, apelou à salvação em massa dos judeus da Alemanha Nazi. Criticou repetidamente, e publicamente, o Nacional-socialismo anti-semita. Era um homem cristão, bom e querido, que devia ter tido mais cuidado com algumas das suas afirmações mas que passou a prova quando outros falharam.

“Do vale conseguimos ver coisas grandes”, escreveu, “mas das alturas apenas coisas pequenas”. Seria tragicamente míope julgar o homem olhando apenas do ponto mais baixo do vale. O melhor é deixar a última palavra ao rabino Stephen S. Wise, um dos mais influentes líderes do Judaísmo americano da primeira metade do século XX. “Quando Hitler chegou, ele foi dos primeiros a falar com toda a franqueza e frontalidade de um grande e ousado espírito”.

Santo? Quem sabe. Anti-semita? De todo.


Michael Coren é pivot de rádio e televisão, sedeado em Toronto, no Canadá. A sua coluna de opinião é publicada em vários jornais. É autor de treze livros, incluindo “Heresy” e “Why Catholics Are Right”.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 10 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Shenouda III RIP e a "hora dos cristãos" na Síria

Morreu Shenouda III, Papa da Igreja Copta Ortodoxa. Tinha 88 anos e liderava esta Igreja há mais de 40 anos. Leia aqui a reportagem com uma biografia bastante completa.

Neste video pode ver como os ortodoxos orientais prestam homenagem aos seus patriarcas falecidos.

Renascença V+Ver todos os videos
Milhares de coptas formam filas para se despedirem de Shenouda III

Rádio RenasceçaMais informação sobre este video

Para mais informação sobre os coptas, leia este post, entretanto actualizado.

Ali perto, na Síria, o núncio apostólico considera que “chegou a hora dos cristãos” naquele país. Optimismo!

Tragédia em França, onde alunos de uma escola judaica foram assassinados a tiro esta manhã. Aqui têm a notícia principal, podem seguir os links para os desenvolvimentos.


Já D. Manuel Clemente falou, no Sábado à noite, sobre a importância de defender a vida com gestos concretos.

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