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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Brotéria estreia nova casa

Foto: Madalena Meneses
Lembra-se daquele caso do padre acusado de abusos em Cacilhas? Foi tudo arquivado. Uma boa lição para nos lembrarmos como é fácil pôr em causa a reputação de alguém. A tolerância zero é importante, mas tem os seus perigos.

Foi hoje inaugurada oficialmente o centro cultural “Brotéria”, no Bairro Alto, em Lisboa. Uma nova fase na vida para uma revista que já tem um longo percurso em Portugal.

Há duas semanas publiquei um artigo no The Catholic Thing sobre o regresso do antissemitismo. É uma realidade que infelizmente está a afetar também alguns setores da Igreja Católica. Por isso esta semana voltamos à carga, desta vez com Casey Chalk a explicar porque é que o antissemitismo equivale a declarar guerra a Deus.

Francisco Sarsfield Cabral também escreveu sobre o tema, citando até o artigo de há duas semanas.

Para minha grande surpresa o artigo que publiquei sobre levar crianças a funerais, em reação a um podcast que ouvi com o Eduardo Sá, tornou-se viral e tem motivado umas respostas muito emocionantes. Se ainda não leu, pode fazê-lo aqui.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Apenas Huma entre muitas

O Papa Francisco mandou uma mensagem para o Fórum Económico Mundial, que decorre em Davos, em que alerta para os perigos de não se colocar o homem no centro das políticas económicas. Vale a pena ler.

Esperança no Paquistão, onde pela primeira vez parece que um tribunal está de facto a fazer alguma coisa num caso de uma rapariga cristã raptada e forçada a converter-se ao Islão. Leiam e vejam o apelo dos seus pais. Rezem, pelo menos, pela Huma Younus.

O Papa Francisco reforçou a condenação ao antissemitismo nos 75 anos da libertação de Auschwitz. Este é um fenómeno que está de regresso e não é só entre a extrema-direita e a esquerda progressista. São cada vez mais católicos a abraçar teorias destas e não pode acontecer, como explicou Francis X. Maier no artigo de há umas semanas do The Catholic Thing.

Quem me segue há mais anos sabe que tenho opiniões fortes sobre a presença de crianças nos funerais a forma como lhes falamos da morte. Hoje ouvi um podcast que alertava para não levar as crianças aos enterros. É uma opinião que considero lamentável e por isso respondi aqui.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A Salvação vem dos Judeus

Francis X. Maier
Num artigo de opinião no “Wall Street Journal” de final de Novembro, William Galston escreveu que tem havido um aumento acentuado de antissemitismo na Europa Central e de Leste, desde 2015. Na Polónia, Ucrânia, Rússia e Hungria, onde em tempos viveu a maior parte dos judeus europeus, um grande número de pessoas sondadas revelou acreditar que os judeus têm demasiado poder no mundo dos negócios e dos mercados financeiros, que falam demasiado da Shoah [Holocausto] e exercem demasiado controlo sobre os assuntos globais.

O Holocausto é a maior catástrofe moral do Ocidente moderno. Mas é com demasiada facilidade que nos esquecemos das suas lições. “A criação do Estado de Israel” em 1948, escreve Galston, serviu de desculpa para a renovação da “antiga acusação de deslealdade judaica”. Hoje, novamente, as acusações de deslealdade são “uma presença constante da vida judaica” – e não apenas na Europa. Globalmente, 38% dos inquiridos por uma sondagem da Anti-Defamation League acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que à nação onde vivem.

Na Europa Ocidental o crescimento de comunidades muçulmanas e o aumento da sua influência política agravaram o problema. A violência contra os judeus em França aumentou mais de 20% em anos recentes e o rabino-mor da Grã-Bretanha criticou publicamente o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, pelo aumento do antissemitismo nas fileiras do seu partido, meros dias antes das mais recentes eleições. O ódio aos judeus não é um monopólio da direita populista na Europa. A esquerda progressista tem a sua própria variedade tóxica do mesmo veneno. 

No que diz respeito aos Estados Unidos, os americanos geralmente revelam baixos índices de antissemitismo. Mas mesmo por cá, 33% dos sondados acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que ao país de que são cidadãos. E crimes de ódio, como o esfaqueamento de vários judeus que celebravam o Hannukah em Monsey, Nova Iorque, estão a tornar-se mais comuns.

O anti-judaísmo tem uma longa história na cultura cristã. Começa com as discussões iniciais na comunidade judaica sobre a identidade messiânica de Jesus e a teologia cristã que lhe sucede e procura substituir nos séculos seguintes. Mas foi o próprio Cristo – obviamente um judeu – que disse que “a salvação vem dos Judeus” (Jo. 4, 19-22) e o Cristianismo simplesmente não faz qualquer sentido sem as suas raízes judaicas. 

O Concílio Vaticano II procurou reformar e restaurar as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica através de documentos como Nostra Aetate (“No Nosso Tempo”). E enquanto declaração da Igreja tratou-se de um ponto fulcral no diálogo entre cristãos e judeus, mantendo-se tão importante hoje como era em 1965, quando foi publicada. Mas palavras belas e boas ideias não têm força antes de tomarem forma numa vida que prova, pelos actos, que são verdadeiras. E desse ponto de vista, nada encarnou a recuperação das raízes judaicas do cristianismo de forma tão forte como a vida e a obra de Aaron Jean-Marie Lustiger.

Lustiger com o Papa João Paulo II
Lustiger nasceu em 1926 numa família de imigrantes judaicos da Polónia. O seu avô era rabino e os seus pais tinham uma chapelaria em Paris. Na sua vida familiar eram em larga medida seculares, mas ainda assim tiveram o cuidado de manter o Aaron afastado das celebrações e observâncias católicas em França. Contudo, aos 10 anos o rapaz encontrou um exemplar do Novo Testamento e leu-o em segredo, convertendo-se, contra a vontade dos seus chocados pais, aos 14 anos de idade.

Nunca abandonou o seu nome judaico. Acrescentou-lhe o nome cristão Jean-Marie no baptismo, mas nunca perdeu um intenso orgulho pela sua identidade judaica. Sobreviveu à II Guerra Mundial, escondido por uma família católica francesa. A sua mãe morreu em Auschwitz em 1942 e outros membros da sua família alargada perderam-se na Shoah. Mais tarde foi ordenado padre, serviu como capelão em universidades parisienses e eventualmente foi nomeado bispo de Orleans, vindo a tornar-se mais tarde cardeal arcebispo de Paris.

Lustiger tinha um forte intelecto – foi eleito para a Academia Francesa em 1995 –, uma energia inesgotável e um gosto excêntrico para as artes. Foi autor de uma quantidade prodigiosa de livros e conferências e tinha uma personalidade maior que a vida. Estar e falar com ele, como eu fiz em várias ocasiões, era uma experiência inesquecível, como entrevistar uma locomotiva deambulante.

Para ele eram especialmente importantes as oportunidades que teve, cada vez mais ao longo dos anos, de encontrar-se com líderes, ouvintes e estudantes judaicos. Nem sempre era fácil. Os judeus tendem a ver os convertidos ao cristianismo como apóstatas e repudiadores da comunidade. Lustiger respeitava este sentimento mas não deixou que o impedisse de procurar amizades e parceiros de diálogo na comunidade judaica. Mais para o fim da sua vida escreveu o seu próprio epitáfio, resumindo-se da seguinte maneira: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Recordo Lustiger, que morreu em 2007, aos 80 anos, por esta simples razão: Ele compreendia que para os cristãos o antissemitismo/anti-judaísmo não é apenas um mal, mas uma forma particularmente grotesca de blasfémia e ódio por si mesmo; um ódio pelas nossas origens e raízes no Deus de Israel. Qualquer católico que procure aprofundar a sua fé e aprender a importância do judaísmo para os cristãos através das palavras deste cristão profundamente judeu e judeu profundamente cristão tem apenas que ler os seus livros “Choosing God, Chosen by God” e “A Promessa”. 

Como o próprio Lustiger não se cansava de dizer:

Uma das tragédias da civilização cristã é que se tornou ateia mas afirma permanecer cristã… A sorte reservada aos judeus é uma prova para saber se nós, enquanto pagãos cristianizados, aceitámos verdadeiramente Cristo. É verdadeiramente a prova final. Não se trata simplesmente de uma relação entre o amor pelo vizinho e o amor a Deus. O judeu permanece, de forma muito precisa, um sinal de Eleição e, por isso, de Cristo. Não reconhecer a Eleição dos judeus é não reconhecer a Eleição de Cristo. E é a incapacidade de reconhecer a nossa própria eleição. A lógica é implacável.

A única resposta apropriada é: Amen.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 8 de janeiro de 2020)

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quarta-feira, 26 de abril de 2017

“Que o seu sangue caia sobre nós!”

Randall Smith
De todas as leituras do tempo pascal, o que mais me perturba é a passagem de Mateus 25,27, quando a multidão clama “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” Talvez valha a pena recordar que esta passagem encontra-se no Evangelho de Mateus, que era judeu. Estará ele a invocar sobre o seu próprio povo uma maldição multisecular? Não me parece o caso. Este é um mal-entendido frequente, com consequências particularmente trágicas neste caso, mas que corresponde a um padrão comum.

Este “padrão” envolve pegar numa passagem que tem a ver com o sacrifício desinteresseiro de Cristo por toda a humanidade e interpretá-la de uma forma essencialmente pagã, como se Cristo fosse Zeus, ou Apolo.

Um exemplo clássico disto mesmo tem a ver com a forma como algumas pessoas interpretam Efésios 5,22-25, em que São Paulo estabelece uma analogia entre maridos e mulheres e Cristo e a Igreja. As mulheres estão para os seus maridos como a Igreja está para Cristo, e os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a Igreja.

Por alguma razão – e penso que isto tem tanto a ver com a nossa natureza pecaminosa como com maus hábitos de interpretação bíblica – algumas pessoas, sobretudo homens, pensam que isto significa que os maridos podem dominar as suas mulheres. Mas quando é que Cristo dominou a Igreja, se entendermos o domínio como é praticado por um Rei pagão? Cristo lavou os pés aos seus discípulos e disse que “quem quiser ser o primeiro deve servir os outros”. Por isso, no meu entender, quando um marido diz à sua mulher “eu sou como Cristo para ti” ela devia imediatamente tirar as meias e esticar o pé para que ele o lave.

Os deuses pagãos como Zeus e Apolo exigiam que os humanos lhes fizessem sacrifícios. O Deus cristão sacrifica-se inteiramente por nós e morre para perdoar os pecados até daqueles que o crucificam. O que é que pode levar alguém a virar isto ao contrário e, em vez de ver o comentário de São Paulo como um convite ao serviço, interpretá-lo como uma exigência de ser servido?

Seja o que for, não é saudável. E não tem nada a ver com a forma como Cristo se revelou nas Escrituras.

O que nos traz de volta ao comentário perturbador: “Que o seu sangue caia sobre nós”. Enquanto cristãos, em que é que acreditamos? Acreditamos que no sangue de Cristo somos curados e os nossos pecados perdoados. Na Eucaristia, o sangue e o corpo de Cristo são-nos oferecidos tal como foram aos primeiros apóstolos.

A recepção do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia é uma das formas mais poderosas que temos de participar na morte e ressurreição salvífica de Cristo e de receber os seus dons de graça divina. O que nos leva a virar esta bênção de pernas para o ar e entendê-la como uma maldição, quando a intenção de Mateus ao contar esta história é obviamente de dizer que aquilo que se pensava ser uma maldição se tinha tornado, no caso do sacrifício de Cristo, uma bênção?

Jesus era judeu. Maria e todos os primeiros apóstolos também. Nós lemos a Nova Aliança à luz da Antiga, razão pela qual temos tantas leituras do Antigo Testamento na vigília de Páscoa. A única leitura que não deve nunca ser omitida durante a vigília, segundo as normas do Missal Romano, é a do Êxodo, sobre o resgate de Israel do Egipto: o evento que está no cerne da Páscoa do Antigo Testamento. Não podemos verdadeiramente compreender a Última Ceia e a celebração pascal do novo testamento sem este contexto. Como o próprio Cristo diz: “A salvação vem dos judeus” (Jo. 4,22).

Os romanos crucificaram Cristo. Qual o significado então de os judeus gritarem pela sua crucificação? De acordo com João 1,11: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. Foi rejeitado não só pelos romanos “estrangeiros” mas pelo seu próprio povo. E quem é o “seu próprio” povo? Quem é que os judeus representam? Todos nós: toda a humanidade, marcada pelo pecado, que rejeitou Deus.

Não é por nada que na liturgia de Domingo de Ramos toda a Assembleia clama “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Não são apenas os judeus, somos nós. E com eles dizemos: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” E cai mesmo sobre nós, porque é o sangue da Cruz que nos torna inteiros, o sangue da nova e eterna aliança, o sangue de Cristo derramado através do qual somos salvos.

Podemos pedir maior bênção para uma multidão do que esta, que o sangue de Cristo caia sobre ela e sobre os seus filhos?

Vêem como o sacrifício de Cristo transformou aquilo que era entendido como uma maldição numa bênção, não só para os que estavam presentes, mas para todos nós? Aqueles que usam esta passagem como desculpa para odiar ou perseguir judeus estão a passar ao lado da questão. Pior, estão a tornar a bênção de Cristo, comprada a alto preço com o seu próprio sangue, numa maldição novamente. Se esse não for o pior crime que se pode cometer contra o sacrifício salvífico de Cristo, então não sei qual é.

Ah, Santo Jesus, que ofensa cometestes
Que o homem, para vos julgar enveredou pelo ódio?
Desprezado pelos inimigos, rejeitado pelos seus próprios, oh, mais atormentado .

Não se iludam. Quando cantamos este hino, o inimigo somos nós; somos nós quem o rejeita; somos nós que traficámos ódio, disfarçado de rectidão. Somos nós quem o atormenta. Mas apesar de tudo, ele continua a amar-nos – um amor que Ele revela na plenitude derramando o seu sangue por nós na Cruz.

Por isso que o seu Sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos, pois é no seu sangue que somos redimidos e temos a vida eterna.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Abril de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Trump critica anti-semitismo e Pastorinhos são heróis para crianças

Imagem de N.S.F. enviada para o Iraque
O Papa Francisco pede a abertura de canais humanitários para refugiados que fogem de zonas de guerra.


Para as crianças, os pastorinhos são verdadeiros heróis, considera a autora Thereza Ameal, numa altura em que o bispo de Fátima espera que a canonização dos pastorinhos avance durante o centenário das aparições.

Decorreu no fim-de-semana o Faith’s Night Out. Correu da melhor maneira, aqui pode ler um pouco sobre a experiência.

Recentemente entrevistei o arcebispo de Lahore, no Paquistão, um local onde as escolas e igrejas cristãs mais parecem prisões e onde a Páscoa se transforma, num abrir e fechar de olhos, em Sexta-feira Santa.

No domingo tive a sorte de poder estar presente, em família, na missa campal em Cascais em que foi benzida uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que será agora enviada para o Iraque, juntamente com milhares de terços e dezenas feitos por crianças. O Presidente Marcelo também esteve presente e ficou tão impressionado como eu.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Auschwitz recordado em dia de Marcha pela Vida

Cliquem para aumentar
Faz hoje 72 anos da libertação de Auschwitz. O assunto não foi esquecido pelo Papa, que recebeu em audiência líderes de comunidades judias na Europa. Também hoje se soube que na Alemanha, nos últimos tempos, os ataques a judeus duplicaram.

O Papa disse também esta sexta-feira que são as pessoas que vivem “situações miseráveis” que estão mais sujeitas ao fundamentalismo. Disse-o num encontro com representantes da Igrejas Cristãs do Médio Oriente.

Encontra-se em Portugal por estes dias um arcebispo paquistanês que vai deixar o seu testemunho sobre a perseguição por parte de fundamentalistas islâmicos. Saiba aqui onde e quando pode ir ouvir monsenhor Sebastian Shaw.

No final da semana de oração pela Unidade dos Cristãos, católicos e evangélicos assinam uma declaração comum sobre o valor da vida. Ontem sete associações de profissionais católicos assinaram uma declaração conjunta de apoio à petição que pede aos deputados que não aprovem qualquer legalização da eutanásia ou morte assistida.

Por falar em unidade dos cristãos, amanhã há um encontro em Sintra. Cliquem no cartaz para ver os detalhes.

Está neste momento a decorrer em Washington a marcha pela vida. São centenas de milhares de pessoas nas ruas, mas desta vez o alvo das críticas não é Trump, é o aborto.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os novos herodes e as suas "entrevistas"

Pe. Van der Lugt, martirizado em 2014
Durante o ano de 2014 morreram 26 agentes pastorais da Igreja Católica. Vítimas de intolerância religiosa no Médio Oriente? Não. A maioria morreu no decurso de roubos violentos e o continente americano foi o mais mortífero.

O Estado Islâmico publicou mais uma edição da sua revista on-line, que inclui uma “entrevista” com o piloto jordano cujo avião foi abatido por cima da Síria.

O centro Simon Wiesenthal fez uma lista dos dez piores casos de anti-semitismo este ano. Em primeiro lugar o caso do médico belga que recusou tratar uma judia de 90 anos, dizendo: “Ela que vá passar duas horas em Gaza, passam-lhe logo as dores”.

O Vaticano publicou a mensagem do Papa para o dia Mundial do Doente, falando de como o apoio e cuidado aos doentes é um grande caminho de santificação.

Porque amanhã não sei ainda se vai haver Actualidade Religiosa, publiquei hoje o artigo desta semana do The Catholic Thing. Anthony Esolen fala da matança dos inocentes decretada por Herodes e recorda que herodes há muitos, ao longo dos tempos. É um excelente texto, a ler com atenção.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Neo-pagão equivocado no Kansas

Odin, o Deus para anti-semitas confusos
No passado domingo um homem matou três pessoas a tiro no Kansas… O que é que isto tem a ver com religião? Para começar, as três vítimas foram escolhidas por serem judias. Para acabar, o autor dos homicídios é um “neo-pagão” que adora Odin. Entretanto todas as vítimas eram, afinal cristãs…

Cada vez mais próximos da Páscoa, hoje a Renascença transmitiu a reportagem sobre duas mulheres que vivem a vida de forma intensa, mas encaram a morte com serenidade. Isabel Jonet e Leonor Castro dão testemunhos que vale a pena ouvir.

E o bispo de Bragança-Miranda recorda na sua mensagem pascal que “não há Páscoa sem Cruz, mas também não há Cruz sem Páscoa”.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, que serve sobretudo de alento aos cristãos pessimistas com o rumo do mundo. Perseguição? Been there, done that, e os cistercienses estão de volta a Zirc.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Papa atracção turística

"Aproveitem para ver a Capela Sistina, também"
A Igreja da Conceição Velha, em Lisboa, vai ser restaurada. A intervenção, a cargo da Santa Casa da Misericórdia, custará um milhão de euros. Santana Lopes defende o investimento.

Um movimento pelos direitos dos animais, na Bélgica, fez um anúncio contra a matança ritual de animais que evoca o ambiente do Holocausto… no comments.

O passado fim-de-semana foi de peregrinação das famílias a Roma. O Papa falou do casamento, que é “mais que uma linda cerimónia”, e recordou a importância da oração comunitária.

A propósito, na semana passada falei de uma entrevista ao casal Cortez Lobão, mas enganei-me no link. Fica aqui a correcção.

O turismo em Roma aumentou 7% no último ano. Mais um efeito do “fenómeno Francisco”!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem Queres Ser?

Randall Smith
Estávamos a discutir o extraordinário livro de Christopher Browning “Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland”, no qual descreve as circunstâncias à volta do massacre de quase 2000 mulheres e crianças judaicas no dia 13 de Julho de 1942, na pequena aldeia de Józefów, na Polónia.

Em lágrimas, o comandante do batalhão, Major Wilhelm Trapp, explicou aos seus homens a “tarefa desagradável” que lhes tinha sido confiada. Cada mulher e criança da aldeia seria levada para a floresta e forçada a deitar-se de barriga para baixo na terra. Colocando as baionetas entre as omoplatas, os soldados deviam dar-lhes um tiro na nuca. Adolescentes, avós, crianças com seis meses: todos deviam ser mortos até à aldeia estar vazia.

Terminada a explicação da tarefa, Trapp fez uma oferta extraordinária: se algum dos homens de entre eles não tivesse vontade de participar, podia retirar-se. Dos cerca de 500 homens no batalhão, apenas 12 o fizeram.

Todos os semestres discuto com os meus alunos porque é que tão poucos aceitaram a proposta, recusando-se a tomar parte na matança. Há uma série de razões, cada um dos quais está detalhado no excelente livro do Prof. Browning. Alguns dos homens que participaram no massacre afirmam que não tiveram tempo para pensar devidamente no assunto; outros dizem que “os tempos e o lugar eram outros” e que “naquela altura as circunstâncias eram diferentes”. Outros ainda disseram que não queriam “parecer fracos” diante dos outros, como se matar mulheres e crianças inocentes fosse algo que os fizesse parecer fortes.

A maioria das razões dadas por estes homens para não se terem recusado a tomar parte no massacre parecem-me, basicamente, treta, excepto uma: alguns dos homens disseram que tinham medo do que lhes poderia acontecer caso recusassem as ordens: “E se alguém nos apontar uma arma à cabeça e disser que nos mata se não matarmos os prisioneiros? Com a arma encostada à cabeça, sob pena de ser executado, temos culpa se matarmos o preso? Temos o dever de preservar a nossa vida, não? Se sim, seria ‘imoral’ matar o preso para preservar a nossa própria vida?”

Com estas perguntas os meus alunos revelam ser jovens adultos intelectualmente desenvolvidos. Porém, isto revela também alguns dos perigos para as suas vidas morais que derivam de lhes ensinar a ética da forma como costuma ser ensinada. Um professor meu referiu, certa vez, que os livros que são mais frequentemente roubados de bibliotecas são de ética, o que comprova algo de que ele sempre tinha suspeitado: que os cursos de ética não costumam tornar as pessoas melhores e mais virtuosas, pelo contrário, tendem a torná-las piores. Um bocadinho de conhecimento pode ser uma coisa muito perigosa.


Não quero ser mal-entendido. Não estou a criticar todos os cursos de ética ou de teologia moral. Seria estranho, uma vez que lecciono um desses cursos todos os semestres. Não, o que me preocupa é a forma como a ética costuma ser ensinada. Há uma série de assuntos importantes envolvidos em todos os dilemas morais que os meus alunos propuseram.

Cemitério judaico de Józefów
Na teologia moral clássica há distinções muito bem definidas entre níveis de culpabilidade, dependendo no grau de voluntariedade ou involuntariedade do acto. Determinar correctamente a culpabilidade de um agente é crucial, por exemplo, num tribunal por parte de um juiz ou de um júri.

Nas gerações anteriores essa consideração desempenhava um papel importante no confessionário. Se me obrigarem a fazer algo contra a minha vontade, cometi um pecado? Talvez até um pecado mortal? Se for escravo num galeão muçulmano, por exemplo, (para citar um famoso caso histórico), devo recusar-me a remar para os meus supervisores muçulmanos se isso implicar a minha execução? Nestas circunstâncias o que é que constitui cooperação “formal” com o mal, que em certos casos é permissível? Todas estas questões são interessantes e importantes, em certos contextos e por razões particulares.

Mas neste caso eu prefiro colocar a pergunta aos meus alunos do seguinte modo: Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão? Por enquanto não me interessa saber o que pensas que seria a solução “moralmente correcta”. Nem quero avaliar a culpabilidade de outra pessoa envolvida na situação. O que quero saber, muito concretamente, é o que é que esperas que seria a tua decisão? Que tipo de pessoa queres ser? As nossas decisões formam-nos.

Invariavelmente os meus alunos respondem: Espero que seria a pessoa com a coragem para não disparar, mesmo que isso me custasse a vida. E aí têm a resposta.

Podemos falar de “moral” e de “ética” como se fossem uma série de regras abstractas que nada tivessem a ver com o nosso carácter ou com a nossa formação enquanto pessoas completas e íntegras. Quando compreendemos a ética desta forma errada damos por nós a dizer parvoíces como: “Eu sei que não é moralmente correcto, mas ainda assim acho que é a decisão certa”, ou: “Pode não ser a decisão mais moral, mas é a melhor decisão” – como se o acto “moral” estivesse numa categoria totalmente diferente do que é “bom”.

São Tomás de Aquino pedir-nos-ia para considerar que categoria de virtude é relevante nesta situação. No caso referido, a virtude relevante é a coragem. Então perguntamos o que faria uma pessoa corajosa. E ao escolher correctamente, tornamo-nos aquilo que escolhemos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Chesterton: Santo? Talvez; Anti-Semita? Não

Michael Coren
Estou habituado a que me discutam, até que me ofendam, no Twitter e no Facebook. É o preço a pagar por ser jornalista. Se os comentários negativos no final dos meus artigos de opinião me influenciassem, há muito que tinha abandonado a profissão. Claro que os comentários positivos são todos inteiramente certeiros! O mês passado a discussão não foi sobre qualquer artigo recente ou sobre uma participação televisiva, mas sim sobre umas linhas de um livro escrito em 1988: “Gilbert: The Man Who Was G.K. Chesterton”.

Porquê o renovado interesse? Na altura eu defendi Chesterton de acusações de anti-semitismo e citei a biblioteca Wiener, de Londres, uma instituição dedicada ao estudo do Holocausto e do anti-semitismo, que explica que Chesterton, “não era um inimigo. Quando chegou a altura da verdadeira prova, ele mostrou de que lado estava”.

Claro que o timing é tudo; recentemente foi anunciado que o autor dos contos do Father Brown, “Ortodoxia”, “O Homem que era Quinta-feira”, as biografias de Aquino, Dickens e um sem número de outros livros e artigos de opinião está a ser considerado para beatificação.

Logo que isto se tornou público eu escrevi que a antiga acusação de anti-semitismo iria ser ressuscitada. Antes me tivesse enganado. Passado muito pouco tempo o influente e respeitado Jewish Chronicle, um semanário do Reino Unido, publicou um artigo intitulado: “Pode o inimigo dos judeus G.K. Chesterton ser um santo?

Penso que a formulação da pergunta revela a resposta. Segundo o autor Geoffrey Alderman: “Nunca deixa de me espantar o ponto a que algumas pessoas irão para desculpar ou minimizar expressões claras de anti-semitismo veiculadas por figuras públicas, no presente ou no passado... Chesterton era um romancista, jornalista e crítico literário de grande sucesso que se converteu ao Catolicismo. Roma gosta de retribuir os convertidos, talvez na esperança de seduzir outros a segui-los... Mas há um problema: Chesterton tinha uma aversão bem pública aos judeus e ao Judaísmo.”

Depois saca das citações e referências do costume, retiradas do seu enorme acervo literário, para provar que o homem odiava judeus.

Eu e o Alderman temos pelo menos duas coisas em comum. Ambos escrevemos sobre Chesterton, e ambos somos judeus. Eu tornei-me católico em 1985 mas, para um verdadeiro anti-semita, continuo a ser judeu. Se têm dúvidas deviam ler algumas das ofensas de que falei acima.

Todavia, enquanto judeu, tenho uma enorme dívida de gratidão para com Chesterton que, de tantas formas, me conduziu à Igreja. Isto não será grande consolo para o Sr. Alderman, mas é assim. Para uma pessoa que lutou contra o anti-semitismo toda a sua vida – como jovem reguila nas ruas de Londres e como adulto igualmente indisciplinado através da escrita – sinto-me bem qualificado a este respeito.

G.K. Chesterton
Sim, Chesterton fez alguns comentários feios, e tolos, em especial depois da morte do seu irmão Cecil, que provavelmente era um verdadeiro anti-semita. Cecil tinha lançado uma campanha contra um grupo de políticos, alguns dos quais judeus, mas morreu prematuramente em 1918. Gilbert, que tinha um fascínio pelo seu irmão, que era muito menos talentoso que ele, permitiu que a sua tristeza se transformasse em revolta contra os inimigos de Cecil.

Legou ao mundo uns versos fátuos sobre os judeus no seu romance “The Flying Inn”; mostrou-se pouco sensível nas suas palavras sobre os judeus em Inglaterra medieval; enganou-se e mostrou-se incaracteristicamente banal a respeito do julgamento Dreyfus e, nos seus piores momentos, deixou-se levar pelo mesmo caminho sujo com o seu irmão Cecil e o barulhento, mas não genuinamente anti-semita, Hillaire Belloc.

Mas devemos perguntar se um verdadeiro inimigo dos judeus poderia escrever: “O mundo deve Deus aos judeus”, ou que: “Darei a vida em defesa do último judeu na Europa”? Devemos questionar como é que ele conseguiu formar amizades tão próximas e íntimas com judeus durante toda a sua vida, pessoas que não teriam tolerado a proximidade de um anti-semita por um momento e que o disseram mesmo na altura e depois da morte de Chesterton.

Condenou o anti-semitismo, defendeu o sionismo, foi elogiado por líderes judaicos e, tão cedo como 1934, quando muitos intelectuais e políticos se mostravam ambivalentes, apelou à salvação em massa dos judeus da Alemanha Nazi. Criticou repetidamente, e publicamente, o Nacional-socialismo anti-semita. Era um homem cristão, bom e querido, que devia ter tido mais cuidado com algumas das suas afirmações mas que passou a prova quando outros falharam.

“Do vale conseguimos ver coisas grandes”, escreveu, “mas das alturas apenas coisas pequenas”. Seria tragicamente míope julgar o homem olhando apenas do ponto mais baixo do vale. O melhor é deixar a última palavra ao rabino Stephen S. Wise, um dos mais influentes líderes do Judaísmo americano da primeira metade do século XX. “Quando Hitler chegou, ele foi dos primeiros a falar com toda a franqueza e frontalidade de um grande e ousado espírito”.

Santo? Quem sabe. Anti-semita? De todo.


Michael Coren é pivot de rádio e televisão, sedeado em Toronto, no Canadá. A sua coluna de opinião é publicada em vários jornais. É autor de treze livros, incluindo “Heresy” e “Why Catholics Are Right”.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 10 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Shenouda III RIP e a "hora dos cristãos" na Síria

Morreu Shenouda III, Papa da Igreja Copta Ortodoxa. Tinha 88 anos e liderava esta Igreja há mais de 40 anos. Leia aqui a reportagem com uma biografia bastante completa.

Neste video pode ver como os ortodoxos orientais prestam homenagem aos seus patriarcas falecidos.

Renascença V+Ver todos os videos
Milhares de coptas formam filas para se despedirem de Shenouda III

Rádio RenasceçaMais informação sobre este video

Para mais informação sobre os coptas, leia este post, entretanto actualizado.

Ali perto, na Síria, o núncio apostólico considera que “chegou a hora dos cristãos” naquele país. Optimismo!

Tragédia em França, onde alunos de uma escola judaica foram assassinados a tiro esta manhã. Aqui têm a notícia principal, podem seguir os links para os desenvolvimentos.


Já D. Manuel Clemente falou, no Sábado à noite, sobre a importância de defender a vida com gestos concretos.

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