Showing posts sorted by relevance for query Crianças funerais. Sort by date Show all posts
Showing posts sorted by relevance for query Crianças funerais. Sort by date Show all posts

Wednesday, 25 July 2018

As crianças devem ir a funerais? Uma resposta a uma amiga


A Ana Rute Cavaco, mulher do meu amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, escreveu um post muito interessante, de leitura obrigatória para quem tem filhos, sejam católicos, protestantes ou ateus. Ela responde à pergunta sobre se devemos deixar as crianças ir a funerais e conclui que sim. Não podia concordar mais.

Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.

Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.

Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”

Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.

Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?

Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.

Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.

E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.

Obrigado, Ana Rute, por teres desencadeado esta reflexão.


A Ana Rute respondeu entretanto a algumas das minhas perguntas:

1. Deus planeou tudo? - Sim, acredito que Deus é soberano e que não há nada que não aconteça no mundo que ele não tenha planeado. Não sendo ele a origem do mal, o mal não é algo que aconteça e que o surpreeenda. Em Isaías 46.9-10 diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.A morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados não foi o plano B de Deus. Foi o plano A desde sempre, por mais confuso que isto possa parecer, mas é o que a Bíblia me diz e eu acredito, pela fé.

2. Cremação - também não sou a favor, pelos mesmos motivos que tu. Acredito na ressurreição do corpo e na vida eterna e acho que um funeral deve ser feito pelo enterro e não pela cremação. Esta é a minha posição pessoal, mas há muitos evangélicos que praticam a cremação, e eu respeito. Centrei-me no acto ser "feio" para as crianças, porque lhes pode fazer impressão verem o corpo com que conviveram ser coberto de terra, e foi por isso que usei essa expressão.

3. A vida nos funerais - é isso mesmo: a morte não é o fim, é o princípio.
"E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

João 6:39-40

Tuesday, 31 July 2018

Crianças nos funerais? Mais achegas

Depois de ter publicado e divulgado a minha reflexão sobre a presença de crianças em funerais, em diálogo com um outro artigo publicado pela Ana Rute Cavaco, recebi mais testemunhos de diferentes leitores, que aqui reproduzo com a sua autorização. Se tiver casos que queira partilhar, faça-o, para abrirmos o diálogo a mais pessoas!



Quando a minha mãe morreu, há oito anos, foi velada em casa de meu irmão, no Norte. 

Não retirámos as crianças, seus bisnetos: um casal de primos com quatro anos e dois rapazes, primos também, com sete. 

Os de quatro corriam pela casa como era seu costume quando visitam os avós. De vez enquando davam um espreitadela ao caixão. Os de sete anos encararam a coisa com mais seriedade. De vez em quando iam junto ao caixão e ficavam contemplando. 

Em dado momento aproximei-me do caixão e eles fizeram o mesmo. Perguntaram: "Podemos pôr a mão?", "Sim, podeis", respondi. Afagaram as mãos e o rosto da bisavó, com se fossa o último gesto de ternura. 

Depois fui para a cozinha de propósito e eles foram atrás. Foi surpreendente a conversa que tivemos com perguntas sobre a vida e a morte e seu porquês, bem com sobre a fé e Deus. Perguntas que mais pareciam de adultos que se interrogam que de crianças (bem, pensamos que elas são parvas e não se interrogam). 

Ao outro dia os dois rapazes de sete anos acompanharam o funeral à igreja onde foi celebrada missa de corpo presente e ao cemitério, e portaram-se como qualquer outra pessoa presente. Percebi que aprenderam mais sobre a vida do que em qualquer lição teorica. Não lhes foi roubada essa possibilidade de perceberem que todos morremos e de se interrogarem sobre a morte e os seus porquês, e sobre o para além da morte.

Fernando Sampaio



No passado dia 12, faleceu o meu sogro.

A saúde agravara-se nas últimas semanas e quando os rins deixaram de funcionar o desfecho tornou-se previsível.
Os nossos filhos testemunharam e assimilaram a nossa ansiedade e dor. Para eles foi uma experiência nova, pois nunca um familiar tão próximo tinha falecido.
Fizemos questão que estivessem alguns minutos no velório e vissem o corpo do avô no caixão.
Quando os levava para a capela, lembrei-lhes: “O que vocês vão ver é apenas uma parte do avô. A alma dele já não está ali; já partiu para outro mundo. O avô continua a ver-nos e a gostar de todos nós lá no sítio onde ele está agora.”
Alguns dias depois, o mais novo disse-me:
- Sabes pai, hoje tive um sonho que era espectacular se tivesse sido realidade…
- Então, o que foi?
- Sonhei que o avô tinha ressuscitado!
- Como foi isso?
- Estávamos todos em casa da avó, lá no norte, e ele apareceu na sala. E eu perguntei-lhe: “Ó avô, já estás bom dos rins?”. E ele riu-se e respondeu: “Claro, até já fui fazer xixi…”
- Pois é, David. Esse sonho é muito giro, mas eu acho que o avô agora está mais feliz lá no outro mundo. Devia ter o pai dele à espera… Sabes que o pai dele morreu quando ele era pequenino… devia estar com saudades dele. E o irmão dele também devia estar à espera… Um dia todos nós nos vamos reencontrar lá no outro mundo.
- Mas eu tenho saudades dele! Às vezes até choro…
- É normal termos saudades. É sinal que gostamos das pessoas. Mas tu sabes que ele gostava – e ainda gosta! – de ti?
- Sim, sei isso. Mas eu não queria estar triste.
- Estamos todos tristes. É normal. Mas a morte não é uma separação para sempre. Sabemos que um dia nos vamos reencontrar, não é verdade?
- Eu também sei isso. Mas continuo triste.

Marco Oliveira



Há um ano e meio atrás, faleceu a minha mãe. O Miguel, mais velho, na altura quase a fazer 4 anos, acompanhou me por mais que uma vez aos paliativos do IPO. Como o funeral foi durante a semana, nenhum acompanhou (A Sussu tinha então 2 anos, mas uma ligação extraordinária com a avó).

Levei o Miguel à missa de 7º dia e aos 15 dias em memória da avó e bisavós. Nunca perguntou nada: sobre a diferença das rotinas (todos os dias eu chegava do IPO as 21), sobre a ausência da avó nas visitas ao avô, nada. Pediu-me uma pagela. Olhou, afagou, calou. Missa do 1º mês, igual.

Na altura, falei com psicólogos amigos que me aconselharam a aguardar por um sinal dele, e para, dentro dos meus credos, lhe explicar de um modo simples o que aconteceu.

Passado cerca de um mês e meio, acerca de uma visita do meu pai a minha casa, o Miguel perguntou:" ...vem o avô, o padrinho... E a avó?" Respondi:" a avó agora está no céu."... "No céu, como?"

"A avó agora está com o Jesus...é um anjo especial que está a olhar por nós"
"E tem asas? Como posso vê-la?"... A conversa fluiu sem dramas. Mas o Miguel fez questão de rematar dizendo que não queria que eu é o pai nos transformássemos em anjos, e tentei tranquilizá-lo com serenidade.

A Sussu perguntou pela avó ao longo de vários meses, quando me via ao telefone. Rotinas. Falava com ela todos os dias. Há uma semana, agora com 3,5 anos perguntou-me pela "outra avó"... "Que avó??" “a avó Ema". Respirei fundo, e contei-lhe que a avó Ema, foi para o céu... Que agora é um anjo que olha por nós.


Os filhos são o melhor de nós e ensinam-nos entre outras coisas a crescer e aceitar.

Maria Costa



Teologicamente, não há nada que te proíba a cremação. A Igreja Católica prefere a inumação à cremação, creio que mais por se desassociar de práticas pagãs do que pela finalidade em si. Se o corpo volta ao pó, seja pelo processo biológico natural, seja pela cremação, o fim vai ser o mesmo. As cinzas são pó e biblicamente são sinal de humilhação, de redução à insignificância ou de lamento. Claro que é preciso ter atenção aos contextos. Por mim, inumado ou cremado, o principal é o respeito pela cerimónia em si, a celebração daquilo a que os Ortodoxos chamam (e que aprecio muito) o "nascimento para o Céu" do crente, o memorial de esperança que se celebra e o efectivar do processo de luto, algo que muitas vezes desprezamos nestas considerações.

No que diz respeito à morte como início, discordo. A morte é um evento no meio de todo o processo que é a nossa vida, sobretudo a partir do momento em que começamos a caminhar com Cristo. Diria que a conversão é o início e a morte o efectivar da receção da esperança com que vivemos: a eternidade junto do Pai. Claro, aí a vida é perfeita, mas não deixa de ser uma continuação da nossa imortalidade (termo que uso para não confundir com o conceito de Deus ser eterno), que começa no momento da nossa concepção.

Em relação às crianças... vai muito da opção parental e da maturidade de pais e crianças. Com 14 anos não fui ao funeral do meu avô materno, que havia estado internado num hospital e fisicamente debilitado. A razão que me deram, mesmo sendo num lar cristão e o meu avô um homem de fé, foi a de não ficar na cabeça com uma imagem que não era aquela que correspondia ao meu avô. Quando estive presente no funeral de um pastor amigo e pai de um grande amigo, pude presenciar aquele misto de tristeza e alegria que é o funeral de um cristão. Sabemos que o corpo que ali está é a imagem que vamos relembrar do último contacto, mas também é a figura com quem convivemos. Se não existir capacidade de uma criança entender isto ou de encaixar isto, o assunto pode ser complicado. Mas voltando ao que disse acima, parte sempre da maturidade e creio que sobretudo dos pais em ajudarem as crianças a lidarem com esse momento.

Obrigado a ti e à Ana Rute por lançarem um debate interessante e pertinente para quem é pai e se preocupa com a educação dos filhos.


Ricardo Mendes Rosa



Levei a Helena (4 anos) e a Jacinta (meses) à missa de corpo presente (caixão fechado) de uma conhecida. Estava imensa gente, mas elas eram as únicas crianças . Não me arrependo nada. Ser cristão é encarar a morte com naturalidade.

Morreu também a tia Zita, freira doroteia e madrinha da minha sogra, e lá tive de as levar outra vez à missa de corpo presente (caixão aberto). Não deixei a Helena chegar perto do caixão, e encarou tudo com tranquilidade.

Correu e saltou para o colo da avó, porquê esta se desfez em lagrimas quando estava a falar, e foi um gesto de que só uma criança se lembra. Quem diz que não são consolações de Deus?

As irmãs doroteias ficaram comovidíssimas.

Não levei ao enterro propriamente dito, achei que talvez não fosse o tempo.

O Gastão (enteado, 10 anos) que por uma razão ou outra não estava connosco, soube da morte da tia Zita pelo primo, no carro, e começou a chorar e a dizer “mas tu contas isso assim?!”.

Isto para dizer que crianças nos funerais, sim. Cremações, não. Cada vez me lembra mais o fogo do inferno, nunca me esqueço do meu avô a ir “para o forno”. Pó, és, pó, serás; mas respeitemos a decomposição natural do corpo, tal como respeitamos o modo como foi criado.

Matilde Torres Pereira




O meu marido morreu em Milão no final de uma doença de seis meses. Estava bem de saúde, mas quando se apercebeu que estava mal não havia muito a fazer.

Era relativamente jovem, muito activo, e dos nossos cinco filhos havia um, o mais novo, de 8 anos, que vivia connosco. Acompanhou o desmoronar físico do Pai, que foi de facto impressionante.

Ele conversou com o Pai diversas vezes sobre a sua doença e sobre a sua morte, como se fosse o assunto mais comum. O meu marido explicava-lhe o suficiente para ele se ir compenetrando que o Pai ia mesmo morrer, mas que ele nunca ficaria sozinho.

Na véspera da morte, presenciei o diálogo que se segue. No fim de rezarmos o terço em conjunto o meu filho dizia ao Pai:
“Oh Pai eu não quero que o Pai morra”. E o meu marido respondia-lhe: “Eu vou morrer, mas tu deves continuar a pedir-me tudo”.

Depois de algum silêncio dizia o meu filho: “E se o Pai me diz que não?”

Mais algum silencio, e responde-lhe o meu marido: “Se o que acontecer não for o que tu esperavas, vais perguntar à Mãe por quê.”

O Pai morreu nessa madrugada e o meu filho foi ver o corpo do Pai ainda na cama. À minha intervenção de que o Pai parecia estar a dormir, o meu filho respondeu prontamente que não estava dormir, por que não ressonava.

O funeral, quer em Milão, quer depois em Lisboa, foi vivido pelo Alexandre como uma festa. Estava excitado e tudo era diferente. Muita gente a dar-lhe atenção. O drama aconteceu quando a rotina se instalou novamente na nossa vida, então já transferida para Lisboa, e ele não aceitava que o Pai tivesse morrido. Estava verdadeiramente zangado... Tão zangado que muitas vezes só sossegava quando ia visitar o jazigo do Pai, graças a Deus muito próximo da nossa casa.

Eu própria tive de "adiar" fazer o luto, de tal maneira o meu filho estava perturbado e eu tinha de lhe dar atenção. Mas estava perturbado pela ausência do Pai, não pelo funeral.

Desta experiencia posso afirmar que foi muito bom para o meu filho ter acompanhado a decadência física do Pai, a sua morte e funeral. As crianças, em particular ele, assimilam melhor o que também elas experimentam do que aquilo que lhes é contado. A realidade é sempre mais positiva que a fantasia.


Mariana Vilas-Boas

Tuesday, 21 January 2020

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

Apenas Huma entre muitas

O Papa Francisco mandou uma mensagem para o Fórum Económico Mundial, que decorre em Davos, em que alerta para os perigos de não se colocar o homem no centro das políticas económicas. Vale a pena ler.

Esperança no Paquistão, onde pela primeira vez parece que um tribunal está de facto a fazer alguma coisa num caso de uma rapariga cristã raptada e forçada a converter-se ao Islão. Leiam e vejam o apelo dos seus pais. Rezem, pelo menos, pela Huma Younus.

O Papa Francisco reforçou a condenação ao antissemitismo nos 75 anos da libertação de Auschwitz. Este é um fenómeno que está de regresso e não é só entre a extrema-direita e a esquerda progressista. São cada vez mais católicos a abraçar teorias destas e não pode acontecer, como explicou Francis X. Maier no artigo de há umas semanas do The Catholic Thing.

Quem me segue há mais anos sabe que tenho opiniões fortes sobre a presença de crianças nos funerais a forma como lhes falamos da morte. Hoje ouvi um podcast que alertava para não levar as crianças aos enterros. É uma opinião que considero lamentável e por isso respondi aqui.

Monday, 30 July 2018

As crianças são mais frágeis que as cidades

Pe. Fouad Nakhla
De volta, pelo menos por mais alguns dias, deixo-vos com esta interessantíssima entrevista com o pe. sírio Fouad Nakhla, que lidera o Serviço Jesuíta aos Refugiados em Damasco. Como é que se constrói o futuro num país com uma geração inteira que não conhece mais do que a guerra?

O Pe. Fouad trabalha em Damasco com um jesuíta português que, há dias, conversou com a minha colega Ana Lisboa.

O Papa aceitou a renúncia de um bispo australiano acusado de encobrir casos de abusos sexuais e aceitou também a renúncia do cardeal americano Theodore McCarrick, acusado de ter cometido abusos sobre menores e sobre seminaristas e jovens padres das dioceses que liderou.

Não se pode subestimar o quanto o caso do cardeal McCarrick está a revoltar a opinião pública nos Estados Unidos, sobretudo dos católicos, terrivelmente desapontados com a sua hierarquia. Pode saber mais sobre este caso aqui, no artigo da semana passada do The Catholic Thing. Uma leitura difícil, mas importante.

E nestes dias Portugal ganhou um bispo, D. José Tolentino Mendonça, e perdeu outro, D. António Rafael, emérito de Bragança-Miranda. Em relação a D. José Tolentino, destaque para as suas palavras, comparando uma biblioteca a um jardim, e para o significado das suas armas e do seu lema episcopal.

E por fim, as crianças devem ir a funerais? A Ana Rute Cavaco deu o mote para a discussão e eu acrescentei uma reflexão aqui.

Wednesday, 6 March 2019

Recordando o Corpo

T. Franche dite Laframboise
Leia também:

Recentemente uma colega desafiou-me para ir ver os restos mortais de um padre santo, o que, para um católico, devia ser uma coisa normal. A tradição solene de venerar as relíquias dos santos tem antigas e profundas raízes. Mas o convite que me chegou por email assumia a forma de uma pessoa a explicar cuidadosamente ao mundo que os católicos não são de todo estranhos, enquanto procurava saber se certas relíquias em tournée estavam a distância de serem visitadas.

Compreendi a ironia.

Ela sabia que, há vários anos, eu me tinha candidatado a uma bolsa de investigação para tentar perceber porque é que as pessoas continuavam a ir ver os “Incorruptíveis” em Roma. Era por devoção ou por curiosidade macabra? Foi preciso dar muito mais explicações do que eu imaginara, porque a comissão simplesmente não fazia ideia que tais coisas “ainda existiam”.

A veneração de restos mortais de santos é vista por muitos como um resquício bizarro, impossível de justificar por pessoas modernas. A tradição pode ter milénios, mas os tempos e as crenças mudaram. Num mundo em que a ciência, segundo nos dizem, tem explicações para tudo, os corpos já não carregam nem mistério nem importância. São modificados e vendidos como bens, mutáveis e alteráveis, algo a transcender e a substituir.

Mas os corpos são importantes, tanto em vida como na morte. A antiga Igreja reconheceu isto desde logo. O que fazemos afeta o mundo material e transforma o corpo, para bem ou para mal. Deixar o poder de Deus fluir através de uma pessoa carrega com santidade a própria matéria de que é feita.

A Igreja estimava os restos mortais dos santos porque conhecia esta verdade. As Escrituras mostram-nos como os tecidos que tinham tocado na pele de Paulo eram usados para expulsar demónios e curar doenças (Actos 19,12) e como as pessoas acreditavam que a própria sombra de Pedro os poderia curar (Actos 5,15). Mostram até como os ossos de Eliseu reavivaram um morto que tinha sido sepultado ao seu lado (2 Reis 13,21).

Mas há mais a ter em conta aqui. Os corpos também têm importância comunitária. Isto tem menos a ver com milagres e mais a ver com a manutenção de identidade e relações. Quando os fiéis recuperaram os ossos de Policarpo, “mais preciosos que joias”, e os depositaram num local condigno, foi já com a ideia de se juntarem anualmente para celebrar o seu martírio e se prepararem para enfrentar a mesma prova. Policarpo mantinha-se assim vivo e capaz, mesmo na morte.

Não restou grande coisa de Inácio de Antioquia depois de ter sido despedaçado por feras, mas a Igreja juntou o que pôde e alegrou-se por poder levar de volta a Antioquia um verdadeiro tesouro, recebido pela graça de Deus. Voltou para o seio do seu povo, um membro ainda vivo da sua comunidade.

A Escritura mostra-nos ainda que José, antes de morrer, obrigou os filhos de Israel a jurar que quando saíssem do Egipto levariam com eles os seus ossos (Gen. 50,25). Assim fizeram, sepultando-os junto aos seus antepassados, sim, mas no meio deles.

São Jacques Marquette
O corpo é, de facto, importante, e o que fazemos com ele – na vida ou na morte – interessa. Apesar de se dizer que certas religiões são “Povos do Livro”, isto não é verdade. Não fomos fundados sob um livro; temos um livro. Na verdade somos fundados sobre um Corpo. Somos membros dele. Salvos por Ele. Vivemos nele. Não deve admirar, portanto, que a Igreja preserve os restos dos seus santos e construa Igrejas sobre os seus ossos, pois eles permanecem membros vivos do Corpo de Cristo.

Mas esta crença pode-se perder e, com ela, a identidade e a comunhão que formamos como Corpo. As pessoas raramente fazem peregrinações. As paróquias não sabem que relíquias possuem, se é que as possuem. Até a crença na Presença Real na Eucaristia está em declínio. Estas coisas estão ligadas. Os corpos deixaram de interessar.

Dou-vos um exemplo recente: O meu pai tinha uma forte devoção ao Père Jacques Marquette, o grande missionário francês do Século XVII. Era uma coisa dele, e antes de morrer queria ter visitado a sua campa, no Michigan, mas adoeceu e isso tornou-se impossível.

Mais tarde vieram parar-me às mãos cartas – velhas e frágeis – do padre Edward Jacker, escritas em 1886, que narravam a descoberta dos restos mortais de Marquette em Point Saint-Ignace, uns anos antes.

Marquette morreu e foi sepultado lá em 1675. Em 1677 os índios Kiskakon estavam a caçar nas proximidades e quiseram visitar o seu pai espiritual. Tal como os israelitas tinham feito com José, juntaram os seus ossos e levaram-nos, solenemente, para serem sepultados na capela de Saint-Ignace. O seu corpo era importante. Era importante para eles como comunidade. O Pe. Jacker escolheu os fragmentos maiores para doar à recém-criada Marquette College e sepultou o resto em Saint-Ignace.

A história fascinou-me e sempre que me encontrava com jesuítas de Marquette perguntava-lhes onde estavam os seus restos mortais. Numa capela? Na comunidade privada? Ninguém me sabia responder. A maioria respondia-me que a sua sepultura está no Michigan. Perplexa, fui aos arquivos, procurando algum indício que me pudesse ajudar. A senhora atrás do balcão disse-me que não seria necessário, os restos mortais do santo estavam preservados no arquivo, por detrás de si. A comunidade jesuíta tinha pedido que não fossem vistos. Estaríamos a falar da mesma comunidade que não sabia sequer que lá estavam?

Permitam-me expressar, não uma crítica, mas uma prece. Que nos recordemos das nossas relíquias sagradas. Jacques Marquette está vivo e pode interceder por nós. É um padroeiro a quem devemos recorrer. Devemos honrar o seu corpo.

Agora que entramos na Quaresma, recordemos as razões pelas quais valorizamos esses restos morais e os mantemos entre nós. Não corremos só o perigo de perder o rasto aos seus corpos, mas de nos esquecermos da raiz da nossa verdadeira identidade, enquanto Corpo de Cristo.

Dieu n’a pas voulu permettre qu’un deposit si pretieux, demeurast au milieu des bois sans honneur et dans l’oubly. («Deus não quis permitir que tão precioso depósito permanecesse no meio da floresta, esquecido e sem honra») [Vol. 59 Jesuit Relations and Allied Documents]


T. Franche dite Laframboise é escritora, oradora e estudante de Sagrada Escritura, com licenciaturas de Marquette e de Notre Dame. É especializada em antropologia teológica e exegese patrística. Considera-se uma académica em recuperação e está a trabalhar no seu mais recente livro, sobre a data da Última Ceia no Evangelho de São João.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 3 de março de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 February 2020

Once more unto the breach...

Valha-nos São Crispim
É já amanhã que se vota a eutanásia. Mas a luta não acaba amanhã, só muda de palco.

Passei os últimos dias a trabalhar muitos artigos sobre este tema, deixo-vos links para alguns:


Escusado será dizer que o Conselho de Ética da Ordem dos Médicos chumbou todas as propostas. Até agora todos os pareceres que o Parlamento recebeu – TODOS – foram negativos…

Mudando de assunto, no seguimento do artigo que escrevi sobre crianças nos funerais, publiquei um parecido, mas em inglês, no The Catholic Thing, que podem ler aqui.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre o génio da arte sacra Fra Angelico, aconselho vivamente, nem que seja para contemplar a beleza numa altura em que bem estamos a precisar dela.

Friday, 21 February 2020

Gewargis e fardos

Gewargis
A eutanásia foi aprovada. E agora? Agora temos todos responsabilidades acrescidas de garantir o respeito pela dignidade. Podemos começar por não dizer que aquela pessoa não é a nossa avó.

Na mesma linha respondi há dias a um testemunho forte de um rapaz que tem uma deficiência física e que pedia que um dia pudesse optar pela eutanásia para não ser um fardo na vida da família.


O Patriarca Gewargis III Ilwan resignou por problemas de saúde. Não o conhecem? Nem à Igreja Assíria do Oriente? Está tudo aqui.

No sábado passado o The Catholic Thing publicou um texto meu sobre um tema que como sabem me é caro. Crianças nos funerais, sim ou não? Podem lê-lo aqui.

Wednesday, 1 August 2018

McCartumâncias


O caso McCarrick continua a dar que falar. Hoje um bispo americano pediu a laicização do ex-cardeal e no artigo desta semana do The Catholic Thing, Brad Miner revela como recebeu propostas indecentes de três padres nos meses depois de se converter ao catolicismo e pede que se drene o pântano, por mais que custe.

O Papa recebeu hoje presentes do bispo de Bragança-Miranda, no contexto da peregrinação internacional de acólitos e avisou, na audiência geral, que os católicos devem rejeitar a cartomancia e a adivinhação.

Conheçam a aplicação que permite ouvir o Papa Francisco em seis línguas.

A partir de hoje é proibido usar niqab na Dinamarca. Crime ou direito

O outro dia partilhei aqui o link para o meu texto de resposta a outro artigo sobre se as crianças devem ir aos funerais. Logo nessa noite recebi uma interessante partilha de um leitor e ontem, no Facebook ou em privado, recebi outras. Estão agora todas publicadas aqui e deixo desde já o convite a que as leia e, caso queira, que partilhe a sua também. Eu não esperava que este assunto gerasse tanto interesse, mas afinal de contas é algo que toca a todos.

Thursday, 23 January 2020

Brotéria estreia nova casa

Foto: Madalena Meneses
Lembra-se daquele caso do padre acusado de abusos em Cacilhas? Foi tudo arquivado. Uma boa lição para nos lembrarmos como é fácil pôr em causa a reputação de alguém. A tolerância zero é importante, mas tem os seus perigos.

Foi hoje inaugurada oficialmente o centro cultural “Brotéria”, no Bairro Alto, em Lisboa. Uma nova fase na vida para uma revista que já tem um longo percurso em Portugal.

Há duas semanas publiquei um artigo no The Catholic Thing sobre o regresso do antissemitismo. É uma realidade que infelizmente está a afetar também alguns setores da Igreja Católica. Por isso esta semana voltamos à carga, desta vez com Casey Chalk a explicar porque é que o antissemitismo equivale a declarar guerra a Deus.

Francisco Sarsfield Cabral também escreveu sobre o tema, citando até o artigo de há duas semanas.

Para minha grande surpresa o artigo que publiquei sobre levar crianças a funerais, em reação a um podcast que ouvi com o Eduardo Sá, tornou-se viral e tem motivado umas respostas muito emocionantes. Se ainda não leu, pode fazê-lo aqui.

Monday, 23 January 2017

Silêncio não é sobre apostasia, mas sobre inculturação

Transcrição integral da entrevista que fiz ao padre e missionário Adelino Ascenso, que passou mais de uma década no Japão e fez a sua tese de doutoramento sobre a teologia da obra literária de Shusaku Endo. As reportagens podem ser lidas aqui e aqui. A minha visão pessoal do filme pode ser lida aqui e podem ainda ler as transcrições das entrevistas ao jesuíta José Maria Brito e a Brad Miner.


Tem havido várias críticas a dizer que o filme, e por conseguinte o livro, Silêncio é um exercício de justificação da apostasia. Era essa a intenção de Endo?
Não, de forma nenhuma.

Endo foi acusado precisamente de defender a apostasia, quando publicou o livro em 1966. E houve até algumas dioceses onde os prelados não permitiram a leitura desse livro aos católicos, ou aconselharam a que não lessem. Eu creio que foi uma interpretação errada da mensagem que o Endo quis transmitir.

O Shusaku Endo tinha uma grande preocupação. Naturalmente a maior preocupação era a sua própria fé. Ter aquele “fato” ocidental que não se adaptava bem ao seu corpo japonês, como ele o define, mas tendo esse problema com a sua fé, que é sempre uma busca, uma luta. Ele em relação aos “Kakure Kirishitan”, os cristãos ocultos, tinha uma simpatia muito grande. Estes Kakure, que renunciaram à sua fé, apostataram visivelmente, mesmo que fosse só um pró-forma, muitos deles mantiveram-se fiéis ao Cristianismo ao longo de 250 anos, durante as perseguições e em total isolamento, sem sacerdotes, sem nada. Eram os leigos que os orientavam, que baptizavam os filhos e que passavam as orações de geração em geração, ao longo de 250 anos.

Shusaku Endo tinha uma grande simpatia pelos descendentes desses cristãos ocultos e achava que havia aqui um silêncio, o “silêncio” do título do livro.

Mas o título do livro não é só o silêncio de Deus, porque quase sempre se fala só no silêncio de Deus, o Rodrigues que se interroga porque é que aqueles cristãos estão a ser martirizados e Deus está de braços cruzados em silêncio e não age. Claro que aí está o problema da teodiceia, portanto o problema da existência de Deus omnipotente e do mal no mundo, aí está um problema, sim, mas não é só esse silêncio, ele preocupava-se com o silêncio da Igreja-instituição, relativamente a esses cristãos ocultos, que tinha renunciado à sua fé, que tinham apostatado, mas que no seu coração continuavam a acreditar e continuavam com os seus ritos, com as suas orações, e a transmitir essas orações. Shusaku Endo tinha uma grande preocupação relativamente a este silêncio.

Ele quis, com esse livro, realçar não só o forte, porque o forte é o mártir, aquele que não renuncia à sua fé, não apostata e que é martirizado, mas também defender o fraco, o cobarde, o débil, aquele que, não aguentando a dor, ou por compaixão pelos outros, acaba por apostatar. Digamos que há uma dicotomia. A Igreja-instituição, valorizou sempre muito os mártires, mas esqueceu-se desses pobres que, tendo apostatado, eram escorraçados pelos outros e eram desprezados pelos outros.

Por um lado, em “Silêncio” vemos exemplos de tremenda fé por parte dos japoneses, mas também críticas de que o Cristianismo não pode lançar raízes no Japão. O termo usado é “pântano”. Acredita que é essa a opinião de Endo?
Não era a convicção de Endo, era a preocupação do Endo.

Desde que ele foi baptizado aos 10 anos, e principalmente depois, passados cinco ou dez anos, em que ele começou a reflectir sobre a sua fé e o que significava ser cristão e ser japonês, que ele notou que havia um abismo entre o Ocidente e o Oriente. O Cristianismo era a religião do ocidente, e ele era um oriental, japonês. Então ele tentou sempre, desde o início, procurar um caminho de conciliar esses dois mundos, o Oriente e o Ocidente.

Com Silêncio ele conseguiu, não totalmente, mas o facto de o próprio Rodrigues, e já lá iremos, o próprio ter apostatado – e sobre a apostasia podemos falar depois – ter sido um estrangeiro no Japão a apostatar nesse pântano que é o Japão, significa que houve uma aproximação à mentalidade japonesa, houve uma tentativa de inculturação por parte do Rodrigues. Digamos que houve uma conversão do Rodrigues depois da sua apostasia. O apostatar, para o Rodrigues, tem a ver com a inculturação, com um processo de inculturação. Nesse sentido, Endo conseguiu uma aproximação entre o Oriente e o Ocidente, que ele depois desenvolveria mais tarde noutras obras de ficção.

Como é que caracteriza o Catolicismo de Endo? Pode-se dizer que ele é típico de um católico japonês?
Penso que o Catolicismo de Endo, a fé de Endo, é referência para os cristãos que buscam e que pensam e que sentem a luta da fé no dia-a-dia.

Porque estamos a falar de um país em que os cristãos são 1% da população, onde os católicos são cerca de 0,3% da população. Onde muitas vezes numa única família de muitos membros há uma única pessoa católica ou protestante. E isto implica um diálogo permanente com os outros membros da família, uma luta permanente, um luta permanente na tentativa de inculturar esses elementos cristãos dessa religião estrangeira, de forma a que a pessoa não seja colocada num mundo diferente daquele do resto da família. E nesse sentido Endo é o ponto de referência para os cristãos que buscam, reflectem e que procuram um caminho de entrosamento. Um caminho de diálogo e encontro.

Quando diz que há famílias com apenas um cristão, estamos a falar de conversões mais recentes. Entre os descendentes dos Kakure Kirishitan que sobreviveram há famílias inteiras que se mantiveram fiéis, que vivem integradas no Japão, ou formam uma sociedade à parte?
Por aquilo que me foi proporcionado ver há algumas comunidades descendentes precisamente desses Kakure, sobretudo na região de Nagasaki. Há uma região a Norte de Nagasaki, que se chama Sotome, que é onde está o monumento ao silêncio, e onde está também o museu literário de Shusaku Endo, e que foi o palco do “Silêncio”.

Há aí umas ilhas que se denominam Goto, onde a população ainda orienta toda a sua vida de acordo com a Igreja. Isto é, a igreja ainda é o ponto aglutinador. As crianças vão para a escola, mas a caminho passam pela igreja. Aí sim, essas comunidades mantêm essa tradição religiosa cristã, desde esses tempos, século XVI e XVII.

Mas por exemplo em Osaka, onde eu estive, há umas montanhas, perto da paróquia onde estive a trabalhar os últimos anos, onde se refugiaram alguns Kakure que vieram de Nagasaki, e aí ainda há alguns sinais, mas muito diluídos. Depois, na própria cidade de Osaka e no resto do Japão, o Cristianismo está muito diluído na sociedade.

Agora, há um aspecto interessante... Uma vez encontrei um japonês em Coimbra, ainda eu não estava no Japão, e eu perguntei como era o Cristianismo no Japão. E ele disse que o Cristianismo no Japão compreendia cerca de 30% da população. Fiquei muito surpreendido e lembrei-me que devia haver um erro de cálculo.

Mas é curioso que cerca de 30% da população japonesa, não digo 30%, tem valores que nós podemos considerar cristãos. O cristianismo – Igreja Católica, protestante e ortodoxa – têm escolas, universidades, jardins-de-infância, hospitais, lares de terceira idade, etc. Têm muitas instituições onde transmitem esses valores. Por exemplo, nos jardins-de-infância as crianças são ensinadas a rezar. Esses valores ficam com a criança mesmo que não se converta ao cristianismo. Portanto o cristianismo é uma percentagem mínima, está muito entrosado na cultura e na sociedade japonesa e, penso eu, que há muitos valores que podemos considerar cristãos e que estão alicerçados no próprio contexto japonês.

Então não concorda com essa frase, de que o Japão é um pântano para o cristianismo...
Não concordo, mas concordo com a expressão do Endo. Aí está, precisamente. O cristianismo, como tinha sido, ou como foi ao longo dos tempos, transportado para o Japão como uma religião estrangeira, com esse Cristo estereotipado, um Cristo ocidental, que se transporta simplesmente para o Japão, dessa forma, cai num pântano. E nesse sentido eu estou de acordo.

Mas não estou de acordo que o cristianismo no Japão tenha que cair nesse pântano. Se não, não tinha estado no Japão. Tem de haver esse processo, esse exercício permanente de inculturação. E foi o que o Endo tentou fazer.

As missões actuais, a Igreja actual no Japão, tem feito essa inculturação? Ou ainda há caminho por fazer?
Há muito caminho por fazer. Há muito caminho por fazer e eu creio que o sucesso aqui, principalmente no Japão, não se mede por números. Porque basta dizer que os cristãos japoneses, ou os católicos japoneses da actualidade, são cerca de 400 mil, e isto é um número irrisório, e não há um aumento progressivo dos convertidos ao cristianismo. Portanto há um longo caminho a fazer. Mas eu penso que o caminho mais importante a fazer é esse do exercício constante, permanente, da inculturação.

Saiu um livro muito interessante e muito importante, publicado pela Conferência Episcopal Japonesa, aliás, pela secção de Diálogo Inter-religioso, que foi depois traduzido para inglês e para português, que é um compêndio sobre como um cristão, católico, deve agir perante situações numa sociedade que não é católica.

Por exemplo, se um católico é o único elemento da família e se há um membro da família que morre e que tem um funeral budista, se o católico pode participar no funeral; se participa, como deve participar?. Isto é muito importante. Os funerais são muito importantes não é propriamente o culto dos antepassados, mas há uma influência do confucionismo, que valoriza precisamente o culto dos antepassados.

Quando diz participar presumo que não seja só marcar presença, mas ter uma parte activa...
Pois, exactamente, aí está a parte mais delicada. Porque se um católico vai participar num funeral de uma celebração budista, não pode participar activamente. Quero dizer, se participar activamente na recitação dos sutras, usando o rosário budista, então está a fazer algo que é uma fachada, porque quando há um funeral de um católico numa Igreja e vêm budistas familiares a esse funeral, é evidente que eles não trazem o nosso rosário, trazem o rosário budista, porque se trouxessem o nosso, seria uma fachada, uma mentira. Portanto isso são aspectos muito delicados, que estão muito bem tratados nesse livro, um livro muito interessante.

A sua tese é precisamente uma leitura teológica da obra de Endo, nomeadamente da perspectiva do entendimento do sofrimento. Podemos então concluir que este não é só um tema que aparece em Silêncio, mas também noutras partes da sua obra?
Aparece no resto da obra. Silêncio é como que o eixo axiológico, onde se condensa a teologia do Endo. E depois há um outro romance que condensa de uma forma talvez mais abrangente e não tão profunda, a teologia do Endo, o Rio Profundo, o último romance.

Mas, por exemplo, um romance que também está traduzido para português e que eu aconselho vivamente é o Samurai. O Samurai é considerado um romance autobiográfico, ou seja, um "eu romance". Um romance autobiográfico de Shusaku Endo, mas autobiográfico do percurso espiritual de Shusaku Endo. O Samurai que vai para o México e depois para a Europa e que se vai encontrando com esse Cristo esquelético, cravado na Cruz, que está sempre presente nos quartos onde ele fica, nos mosteiros por onde passa... De certa maneira esse companheiro que nunca o abandona e, quando ele se sente abandonado por todos, especialmente pelo senhor feudal que ele servia, sente que o único que não o abandonou foi esse Cristo esquelético, e acaba por morrer como mártir por esse Cristo esquelético que nunca o abandonou. É um romance impressionante.

Depois tem outras obras, mais cristológicas, como "Uma Vida de Jesus", traduzido para português; depois tem também "Nas Margens do Mar Morto", que não está traduzido sequer para inglês;  E tem ainda "O Nascimento de Cristo", que também não está traduzido. E aí ele dedica-se mais ao seu estudo cristológico.

Eu quando li pela primeira vez "Uma Vida de Jesus", quando foi traduzido para português, há muitos anos, eu fiquei com a sensação que o Cristo ali tratado era excessivamente humano, por isso o livro não me cativou, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano. Mas depois de estudar Endo, de ver o seu percurso e analisar o seu percurso, cheguei à conclusão que não é um Cristo, excessivamente humano, é um Cristo profundamente humano. É o Cristo "companheiro", aquele que acompanha o sofredor sempre, em cada momento, como fez com o Rodrigues em Silêncio e só no final o Rodrigues percebe isso.

No livro, Ferreira argumenta que a fé praticada pelos Kirishitan não é sequer o Cristianismo como Rodrigues os entende. Tinha alguma razão?
Talvez ele tivesse uma certa razão.

O povo japonês, por natureza, é muito sincretista. Eles têm um panteão de Deuses, ou de divindades, os Kami, e este Deus que veio do Ocidente, que foi pregado pelo Francisco Xavier, era mais um Deus que entrava no seu panteão.

Penso que nessa altura, séculos XVI, XVII, certamente muitos japoneses ficaram com essa imagem, de um Deus que é mais um Deus, faz parte do panteão.

Mas há um aspecto curioso, e esse é que é o contraste... Como é que os japoneses, por exemplo aqueles que decidiram não apostatar, e que foram até ao fim, que são milhares e milhares, desconhecidos. Muitos foram beatificados, mas há muitos milhares que são totalmente desconhecidos. O que é que os levava a dar a vida por esse Deus?

Se fosse considerado como mais um Deus desse mesmo panteão, então não teriam coragem de dar a vida por esse Deus. Penso que o Ferreira poderá ter razão até certo ponto. Digamos, numa parte da população japonesa da época, talvez ele tivesse razão. Noutra parte não.

No livro há uma cena em que Rodrigues ouve a voz de Cristo a dizer-lhe para pisar o Fumie. Na sua leitura, essa é mesmo a voz de Jesus, ou pelo contrário, é a voz da tentação, ou mesmo do demónio?
É uma boa pergunta. Pois... Eu penso que é a voz de Jesus, mas há aqui dois aspectos importantes a ter em conta.

O primeiro é o significado da apostasia em si. O que é que o Rodrigues apostatou? Foi o verdadeiro Cristo? Ou foi a imagem estereotipada de Cristo que ele levava do Ocidente? Repare que no início Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso... Depois, quando estava na prisão em Nagasaki, esse Cristo começou a ser um Cristo sofredor, de olhos tristes, e finalmente, quando está para pisar a imagem, olha para o Cristo e é um Cristo desfeito, de sofrimento.

Ao longo da sua peregrinação ele foi-se libertando dessa imagem estereotipada de um Cristo ocidental. Então ele, dizendo assim de uma forma sintética, ele apostatou um Cristo poderoso, que tinha trazido da Europa, um Cristo ocidental, e aceitou no seu coração o Cristo misericordioso. É aí que Cristo lhe diz, “podes pisar”.

Há um pormenor, e isso é o segundo ponto, que pode parecer insignificante, mas tem muita importância a nível teológico. O original japonês não é uma forma de imperativo “pisa”. Mas quando foi traduzido para inglês, em 1969, por William Johnston, ele traduziu pela forma imperativa.

Se Cristo, essa imagem da fumie de Cristo, lhe diz “pisa”, então o próprio Rodrigues não tem liberdade de decisão, é o Cristo que está a dizer para eu lhe pisar, eu piso porque Cristo me diz “pisa”, já não é responsabilidade dele.

Mas se Cristo lhe diz “podes pisar” a decisão é dele. Ele tem a liberdade para decidir. Ou pisa ou não pisa. Isto é um pormenor, pode parecer uma nuance, mas acho que tem muita importância ao nível teológico.

E eu creio que não é por acaso que Shusaku Endo não pôs aí de forma categórica uma forma verbal de imperativo.

Como disse, Rodrigues apostatou aquele Cristo estereotipado. É evidente que Cristo é sempre o mesmo, mas aquela imagem que ele trazia consigo, porque a imagem que temos de Cristo nunca é o Cristo completo, o verdadeiro, o verdadeiro ultrapassa muito a imagem que temos. É como Deus. Não podemos definir Deus. Porque se definíssemos ele cabia na nossa cabeça, na nossa capacidade de raciocínio. Então ele, uma vez mais, apostatou essa imagem que tinha levado e adoptou esse Cristo maternal, sofredor, débil, esse Cristo companheiro. Esse Cristo que tem a ver com a sua inculturação nesse pântano japonês.

Mas os que deram a vida por Cristo, como disse, certamente não a davam por um Deus entre muitos... Eles teriam essa imagem de Deus já inculturado?
Talvez ainda não tivessem totalmente...

No entanto eram japoneses e tinham-se apaixonado por esse Jesus... Ocidental.
Exactamente! Aí é algo misterioso...

Porque se compararmos a história do cristianismo no Japão e na Coreia, é completamente diferente. Na Coreia foram os coreanos que foram à China buscar o cristianismo. Fizeram do cristianismo uma coisa sua. No caso do Japão, foi do Ocidente que chegou ao Japão.

O japonês, como disse, é muito sincretista e é muito – a palavra tem uma conotação negativa – mas o japonês é muito utilitarista. Absorvem tudo. Tudo o que é útil, eles absorvem, acarinham e incluem na sua cultura. Aquilo que não lhes interessa, abandonam. Por isso é que eles têm muitos elementos da China... Aliás, os caracteres são chineses, com algumas modificações, o budismo chegou através da China, e têm muitos elementos da Europa e dos Estados Unidos.

Eles absorvem aquilo que lhes interessa e deitam fora aquilo que não lhes interessa.

Esses cristãos, no início, quando morriam por esse Deus desconhecido, que no fundo era um Deus desconhecido, que eles conheciam principalmente através dos missionários, eu não sei... Intelectualmente talvez esse Cristo não estivesse integrado na sua fé. Mas houve ali um encontro. Isto é o mistério do encontro. E o mistério do encontro, que é o mistério da fé, não pode ser explicado. E isso continuará a ser mistério. Porque é que tantos milhares deram a vida por esse Cristo!

Num seu artigo fala do livro como um protesto contra a imagem de Deus-juiz…
Naturalmente Deus é Pai, mas como o Papa Francisco tem referido, e acho que muito bem, Deus é Pai e Mãe, ou seja, Deus é Pai, mas com sentimentos maternais.

Heinrich Fromm, no seu livro “A Arte de Amar”, fazia a distinção entre o amor de Pai e o amor de Mãe. O amor de Pai exige sempre alguma coisa em troca. O amor de mãe é aquele amor que não exige nada em troca. Não sei se será bem assim, mas ele definia isto assim.

Eu acho que o Deus Pai, que foi naturalmente transmitido aos japoneses, eles sentiam-no como um juiz. Um juiz que estava ali – eles sentiam-no, não quer dizer que fosse – sentiam que estava ali para apontar as suas faltas.

O Japão no século XVI era um país miserável, feudal, a esmagadora maioria da população vivia na miséria. E o que eles necessitavam era como que o instinto maternal que os amparasse, que os acompanhasse, que lhes perdoasse as faltas. “Eu cometi um pecado, mas vem esse Deus com um instinto maternal que me perdoa”. O que eles necessitavam era disso, precisamente. A “conversão” do Rodrigues tem a ver precisamente com essa passagem da imagem de Deus Pai para o Deus de compaixão maternal. Aliás, é um Cristo que Shusaku Endo introduz nas suas obras desde “Obaka San, o Idiota Maravilhoso” – que ao que parece foi traduzido no Brasil, mas eu não li nessa tradução –, mas já ele tinha começado aí precisamente a estruturar esse Cristo, que depois, no Silêncio, está mais fortemente estruturado, e depois acaba por ser também, numa outra dimensão, mais bem estruturado nas suas três obras que referi à pouco da sua cristologia, e também no “Samurai”.

Quais são as características deste Cristo? É um Cristo que tem fundamentalmente as características de ser débil, não é um Cristo constantiniano, porque esse Cristo triunfalista já não atrai, nem sequer atrai na nossa época, portanto era um Cristo não triunfalista, mas um Cristo débil. Um Cristo que não está longe, perdido na transcendência, mas um Cristo que entra no lodo da nossa vida, um Cristo que está na trivialidade da nossa vida, como nosso companheiro, e é um Cristo que perdoa as nossas falhas, os nossos pecados, as nossas faltas, por muito graves que elas sejam, como uma mãe que abraça. E o japonês necessitava desse afecto. Todos nós necessitamos. Uma mãe que perdoasse as suas faltas. Principalmente esses que pisavam a imagem.

A pergunta que fazia Shusaku Endo, antes de escrever esse livro, quando viu a fumie no museu, em Nagasaki, era “Se eu tivesse vivido nessa altura, não teria eu também pisado a imagem?” Ele dizia que certamente que um preguiçoso como ele teria pisado a imagem. Depois, perguntava, que tipo de pessoas eram essas que tinham pisado a imagem? E uma outra pergunta: O que terão sentido ao pisar a imagem?

Ele tinha estas três perguntas em mente quando viu a fumie. Foi aí que ele pensou que tinha de escrever um romance sobre isto.

Portanto o Cristo é este Cristo destas três dimensões, e uma dessas dimensões é esse da compaixão maternal.

Afinal há uma grande carga de Cristianismo em vários dos livros de Endo. Como é que isto é recebido num Japão em que só 1% da população é cristã? Se um dos nossos grandes autores de referência escrevesse livros com uma forte componente hindu, dificilmente teria grande popularidade...
Ele é muito admirado no Japão, é muito famoso. Fez muitos programas na televisão.

Os romances dele são muito densos, muito dramáticos, normalmente muito intensos. Então ele precisava de algo que contrabalançasse com a intensidade dos seus romances e começou a fazer uns programas na televisão, o professor Korian - Korian Sensei. Escreveu muitos livros também sobre essa personagem, que são livros cómicos.

Mas a partir desses programas que ele fez na televisão, passou a ser famosíssimo em todo o Japão. Portanto é muito famoso no Japão. Poucas pessoas não o conhecerão, não terão lido algum livro dele. Agora, as pessoas quando lêem um livro dele, se não estudarem a teologia, acaba por ser um romance que se lê assim, superficialmente. Eu quando li “Silêncio” da primeira vez, era muito dramático, mas pronto, não aprofundei. Ou, como já referi há pouco, quando li “Uma Vida de Jesus” não fique muito contente, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano, próximo de mim.

Ele é muito admirado, e isto é um aspecto muito positivo para o Cristianismo no Japão.

E que tem dado frutos, em termos práticos?
Sim. Eu conheci alguns fiéis, na paróquia onde estive, que decidiram ser cristãos a partir da leitura do livro de Shusaku Endo.

Em vida teve esse reconhecimento?
Sim. Teve até uma audiência com o Papa Paulo VI, que lhe dizia para continuar, por favor, o seu trabalho de evangelização no Japão. Não foi uma audiência privada, foi uma audiência geral, há fotografias.

Mas mesmo no Japão ele foi reconhecido mais tarde, não no tempo. Na altura da publicação de “Silêncio” houve algumas vozes discordantes. Houve ali, quanto a mim, uma interpretação incorrecta da mensagem que ele quis transmitir. Mas hoje é reconhecido pela hierarquia da Igreja.

Haverá o perigo, por assim dizer, de quem ver o filme, ou ler o livro, sem esse conhecimento todo, ser levado ao engano, ter uma ideia diferente daquilo que ele está a tentar transmitir. Que conselhos deixa a quem vai ver o filme pela primeira vez?
Que não tire conclusões precipitadas, que reflicta. Porque o livro deve levar-nos a reflectir.

Depois de fazer este estudo sobre Shusaku Endo, li “Silêncio” muitas vezes, tinha que ler, e ainda hoje continuo a reflectir sobre “Silêncio” e sobre a mensagem do “Silêncio”, porque se nós vamos ver o filme – principalmente ver o filme – e vemos o Rodrigues a pisar a imagem, a apostatar, e se chegamos à conclusão que ele apostatou, por isso é um fraco, o outro não apostatou, por isso é um forte, isto é uma precipitação.

Se nós analisarmos a apostasia de Rodrigues como um acto de compaixão para com os cristãos que estão a passar pelo martírio, para os libertar, não é um incorrecto pensar assim, é correcto. Ele decidiu apostatar para salvar os cristãos que estavam a ser martirizados, porque as autoridades tinham dito que se ele apostatasse, mesmo que fosse um pró-forma – porque eles queriam um padre, para dar o exemplo – seria libertado e os cristãos que estavam a sofrer seriam libertados. Por isso é que o próprio inquisidor lhe dizia que ele estava a fazer com que os japoneses sofram, través da tua teimosia, de não quereres apostatar.

Portanto, se nós virmos que ele apostatou por compaixão, aí está, por compaixão por aqueles que estão a sofrer, é uma interpretação correcta. Se a pessoa quiser aprofundar mais, e deve aprofundar mais, deve reflectir o que significou essa apostasia, o que é que ele apostatou, e porque é que ele, depois de ter apostatado, diz que a instituição e os seus irmãos jesuítas irão condená-lo, mas que ele continua a sentir-se o último padre no Japão, porque a partir do momento em que apostatou começou a amar Cristo de uma forma diferente, mas de uma forma mais intensa.

Se nós reflectirmos sobre o significado de tudo isto, então isso levar-nos-á muito longe. O que eu gostaria, de facto, era que todos nós cristãos reflectíssemos a partir daí, sem tomar decisões precipitadas, sem conclusões precipitadas, porque se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície.

Qual é a relevância da personagem Kichigiro?
Kichigiro é uma das personagens mais importantes do livro. Ele representa, de forma geral, Judas. Shusaku Endo colocou ali o Kichigiro para tentar provar que Jesus também salvou Judas. Ele tinha esse problema, da salvação de Judas.

E porquê? Porque o próprio Shusaku Endo sentia em si remorsos por ter traído pelo menos duas vezes a sua mãe. Quando ele estava na Manchuria o pai levava-o e ao seu irmão a passearem no parque, e a mãe ficava em casa, a trabalhar. Aos 10 anos ele apercebeu-se que o pai os levava a passear no parque para se encontrar com uma mulher.

Então o pequeno Shusaku pensou: “Se vou dizer à minha mãe, vou trair o meu pai, se não digo, estou a trair a minha mãe”. Então ele vivia naquele dilema e acabou por não contar nada à sua mãe e sentiu que traiu a sua mãe.

Tinha esse sentimento de traição, assim como tinha ao seu cão, “Negro”, que ele tinha na Manchuria, que era o seu confidente, com quem conversava precisamente sobre esses problemas. Estamos a falar de uma criança de dez anos...

E quando ele deixou a Manchuria com a sua mãe, o cão foi a correr atrás do carro, mas depois cansou-se e teve de parar, por isso ele sentiu também esse sentimento de traição em relação ao cão.

Em relação à mãe, voltou a ter um sentimento de traição quando, já de volta ao Japão, ele foi viver com o seu pai, que entretanto tinha contraído segundas núpcias. E mais uma vez depois de a sua mãe morrer, numa altura em que ele não estava em casa.

Tudo isto fez com que ele se identificasse muito com judas, com aquele que trai, e ele sentia que se Judas não fosse salvo, isso significaria que havia uma altura em que a graça não tinha sido suficiente para o pecado, ao contrário do que diz na Bíblia “onde abundou o pecado, superabundou a Graça”, por isso é que ele sentia que era necessário que Jesus tivesse salvo judas e Kichigiro representa isso.

No fim do livro Kichigiro e Rodrigues passam a viver juntos, em comunidade, o que representa não só a reabilitação de Kichigiro, como também “conversão” de Rodrigues a este Cristo “japonês”.

Partilhar